sexta-feira, 30 de outubro de 2009

KALANDRAKA COM NOVA CHANCELA: FAKTORIA K


Não é exactamente “nova”, porque em Abril já tinha saído um livro com o logótipo da Faktoría K de Libros: Nascer – Animais Extraordinários, de Xulio Gutiérrez e Nicolás Fernández, que pode ser visto aqui. Agora adaptada para português, a Faktoria K envereda por “uma linha editorial um pouco diferente da da Kalandraka e nem sempre direccionada para o público infanto-juvenil”, disse-nos a editora Margarida Noronha. Em breve, serão publicados dois novos títulos: Todas as Respostas às Perguntas que Nunca te Fizeste e Mais Respostas às Perguntas que Nunca te Fizeste, ambos de Philippe Nessmann (texto) e Natalie Choux (ilustrações). Ainda segundo Margarida Noronha, que aposta numa crescente portugalização da editora galega com sede em Matosinhos, estes títulos “destinam-se a crianças com mais de 7 anos e até, sensivelmente, 12 anos, constituindo uma espécie de livro dos porquês”.

Para já, está aí a chegar o muito esperado Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak – nas livrarias a partir de 13 de Novembro, nos cinemas a 26 do mesmo mês. Até ao Natal, a Kalandraka publicará ainda três novos picture books: Um Bicho Estranho, de Mon Daporta e Óscar Villán; Mago Goma, de Toño Núñez e Adrià Fruitós; e ainda Um Grande Sonho, de Filipe Ugalde, obra vencedora do II Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PICTURE BOOKS: MAIS DO QUE LIVROS COM IMAGENS

Não há muito tempo, tive o desprazer de ouvir uma conhecida autora e ilustradora referindo-se em público a «esses livros com pouco texto» com um desdém notável. «Livros com pouco texto» são aqueles que se escrevem «enquanto se lava a louça», para dar o seu próprio exemplo – a não seguir. Em bom rigor, teremos de lhes chamar picture books ou álbuns, consoante se prefira a terminologia da escola anglófona ou francófona. Opto pela primeira, por razões geracionais e não só.

É verdade que os picture books, ou picture story books, têm pouco texto ou até nenhum texto. A brevidade faz parte da sua natureza, à semelhança dos aforismos e ao contrário das epopeias. Nada a fazer a esse respeito. Com muito texto, é provável que entrem na categoria de livros ilustrados, mas não de picture books. Não sendo as fronteiras entre uns e outros totalmente estanques nem isentas de controvérsia, há um critério fundador a ter em conta: os picture books distinguem-se pela relação sempre indissociável entre texto e ilustração, assentando normalmente num esquema de leitura de página dupla (double-page spread), marcado pela tensão dramática e pela expectativa em relação ao que vem a seguir.

Um bom picture book não mostra tudo; antes sugere e provoca inferências de significado, estimulando a capacidade de interpretação da criança e de qualquer leitor. Mais do que uma relação forte, palavras e imagens desenvolvem uma relação de forças, no sentido em que se gera uma tensão criativa entre as duas linguagens, longe da mera função complementar do livro ilustrado tradicional. Em vez de se limitar a reproduzir em imagens o que já é dito por palavras, um bom picture book acrescenta informação ao texto, podendo mesmo subvertê-lo com a inclusão de efeitos irónicos, ambíguos ou incongruentes. Quando escritor e ilustrador se libertam do ego e do complexo competitivo, esta tensão criativa costuma dar origem a livros admiráveis. O mesmo vale quando escritor e ilustrador são um só, sendo neste caso a competição mais fácil de gerir. Last but not least, o design, o grafismo e a concepção editorial contribuem para o enriquecimento do que pode ser uma obra de arte global, talvez a primeira a que a criança tem acesso fácil.

Peter Hunt, professor da Universidade de Cardiff e um nome de referência nestas matérias, considera que o picture book será o único contributo – genuíno e original – da literatura infantil para o campo literário em geral. Seria bom ver mais editores portugueses a interessarem-se por este amplo mercado, ainda muito preenchido por traduções de qualidade oscilante. E também escritores, ilustradores e designers gráficos ou directores de arte, já que todos têm um papel determinante no conjunto do processo criativo. Ainda há um juízo de valor implícito na apreciação dos picture books, como se os livros ilustrados não pudessem ser também literatura. Como se um escritor de livros para crianças provasse o seu talento seguindo o ritmo do contador de caracteres. Convenhamos: se escrever pouco e bem fosse fácil, os melhores publicitários não seriam tão generosamente remunerados. Grandes ideias podem surgir «enquanto se lava a louça», mas fazer um bom picture book dá mais trabalho do que parece.

(Texto publicado ontem na secção de «Opinião» do Blogtailors.)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MAIS DIAS COM ÁRVORES

Por causa de um comentário deixado neste post, fiquei a saber do regresso – após um ano em pousio – do blogue Dias Com Árvores. Obrigada ao Paulo, à Manuela e à Maria por continuarem esta obra admirável (e acho que não é exagerado dizer isto). Agora desculpem, que tenho muita leitura para pôr em dia.

I MISS MY HERMES, BABY


Quando quero matar saudades da minha primeira máquina de escrever, procuro A Namorada de Wittgenstein. Também tive uma assim, “igualita, igualita, igualita, igualita, igualita”, como se diz num filme do Almodóvar. Era do meu pai, a mesma máquina em que ele escreveu centenas de poemas, antes de os queimar um a um, com medo de parecer sei lá o quê. Uma Hermes Baby dos anos 1960, verde-água, aquele verde igual a uns certos comprimidos que faziam pensar depressa, fumar muito e acordar no dia seguinte a ranger os dentes, na ressaca de uma genialidade ilusória. Desse tempo, só tenho um monte de folhas amarelecidas, dactilografadas a um espaço, com títulos parvos e pomposos como “Formalização e idealização da realidade poética em Baudelaire” (efeito dos comprimidos), cheios de baboseiras académicas que não me atrevo a reler. Não sei o que foi feito dela, dessa Hermes Baby. Um dia mudei de casa e deixei para trás uma arca cheia de coisas preciosas, mas esqueci-me de a fechar a chave, até porque não havia chave. Foi o bastante para “facilitar o extravio”, como se diria em linguagem alfandegária. Perdi-a, em boa verdade; ou deixei que a perdessem, o que vai dar no mesmo. Pagava para ter de volta a minha Hermes Baby, se a culpa tivesse preço. Não tem. O melhor que consigo fazer é olhar para este blogue e imaginá-la em boas mãos. É que nunca se sabe as voltas que os extravios dão até se completarem.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

OS MONSTROS CHEGARAM


Finalmente editado em Portugal, 46 anos depois. É quase o tempo de uma ditadura. Ver aqui e clicar nas "Novidades".

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRILOGIA SAGRADA




Há algum tempo, o Márcio Almeida Jr., do blogue brasileiro Viver e Contar, pediu-me que elegesse os três melhores livros da história da literatura infantil. Aceitei, sabendo de antemão tratar-se de uma tarefa ingrata, inglória, impossível – e essencialmente pessoal. Where the Wild Things Are, o livro de Maurice Sendak que deu origem ao filme prestes a estrear-se nas salas de cinema, foi uma dessas escolhas. Os senhores que o acompanham não lhe ficam atrás.

1. Peter Pan, J. M. Barrie (1911)

«Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer», escreveu Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos? Quase um século depois da passagem do palco para o romance, Peter Pan continua a questionar as nossas noções comuns do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. A ambiguidade serve-lhe de ampla matéria literária, moldada entre a luz e as sombras. A Terra do Nunca, com os seus índios, piratas, sereias e fadas – e os seus meninos tão livres e tão perdidos – é uma das fantasias mais consistentes de sempre. E se Gancho é um vilão nobre e melancólico que porventura apetece consolar, Peter Pan pode ser amado justamente pelas razões contrárias. Herói excessivo, egocêntrico, inconveniente, ingrato e egoísta – como todas as crianças –, ele representa a nossa reserva amoral de compreensão. O que nele podemos detestar é algo que em nós já se perdeu há muito. Daí a mágoa, daí a sedução.


2. Where the Wild Things Are, Maurice Sendak (1963)

Where the Wild Things Are é um título revolucionário de um autor que continua a ser alvo de controvérsia e censura. Publicado numa época de mudança de mentalidades, tem da criança uma visão que nunca é redutora ou infantilizante, antes emocionalmente complexa e plena de potencialidades. Visualmente, cada página é uma lição de enquadramento, cor, forma e textura. Há um investimento extraordinário na ligação entre texto e imagem, como é próprio da linguagem do picture book (ou álbum, na tradição francesa), numa história que se desenrola como uma viagem interior – à conquista da identidade e da autonomia. Com um domínio tão inventivo quanto rigoroso dos códigos linguístico, simbólico e plástico, Maurice Sendak concebeu uma obra que representa um ponto de viragem na arte de escrever e ilustrar esse livros que as crianças reclamam para si.


3. Matilde, Roald Dahl (1988)

Entre os muitos livros de Roald Dahl, Matilde é um caso sério de humor insolente, resistência e imaginação – três antídotos seguros contra o derrotismo, a mediocridade, a violência e outros males permanentes da humanidade que também passam por este livro. A maioria das personagens adultas – desde os imbecis pais de Matilde à directora torcionária da escola, a Sra. Trunchbull – não são tratadas com brandura, porque não o merecem. Roald Dahl soube olhar para o mundo com as emoções e os sentidos de uma criança; e, ao mesmo tempo, interpretá-lo com o distanciamento sábio e irónico de certos adultos. As ilustrações de Quentin Blake, seu compagnon de route, fazem deste livro uma referência contemporânea, seguindo a herança de Charles Dickens e outros grande escritores.

domingo, 25 de outubro de 2009

UNIDOS PELO VERBO


Com mais produção e menos religião, os Flor Caveira poderiam ser uma espécie de Flight of the Conchords portugueses. O calibre das letras é idêntico e até as iniciais são as mesmas. Via Senhor Palomar.

(…)

I asked Dave if he's going to move on you.
He's not sure.
I said "Dave, do you mind if I do?"
He says he doesn't mind.
But I can tell he kind of minds.
But I'm going to do it anyway.

I see you standing all alone by the stereo.
I dim the lights down to very low, here we go
You're so beautiful.
You could be a waitress.
You're so beautiful.
You could be a air hostess in the 60s.
You're so beautiful.
You could be a part-time model.
But then I seal the deal,
I do my moves.
I do my dance moves.

(The Most Beautiful Girl in the World. Para ouvir e ver aqui.)

O PAÍS PALEOLÍTICO


Castelo Melhor, freguesia do concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma aldeia parada no tempo, ruas estreitas onde pouca gente passa e as casas ostentam o avanço da decrepitude. O quadro repete-se no país interior, pobre e desertificado, mas Castelo Melhor é um caso extremo de perplexidade.

Há 13 anos que esta é uma das portas de entrada para o Parque Arqueológico do Vale do Côa, sinónimo de dezenas de turistas que ali aportam diariamente, à espera de encontrarem um restaurante, uma esplanada ou um café decente, enquanto aguardam a hora da visita às gravuras rupestres. Não há nada. A cerca de meia hora de entrar para o jipe, às 13h30, tentei comer qualquer coisa rápida, sem cerimónias. Uma sopa, uma sande de presunto, uma cerveja e a coisa compunha-se. Pensava eu.

Ao lado da Junta de Freguesia, encontrei um sítio onde não arriscaria sequer lavar as mãos. Mais acima, um café onde não tinham pão – o equivalente a um hotel sem camas ou a uma biblioteca sem livros. No Restaurante Paleolítico, uma tasca onde o único prato era frango com massa, a má vontade sobressaiu quando perceberam que não queria comer de faca e garfo. Mandaram-me esperar pelas sandes, que havia clientes à frente. Fui-me embora e almocei amêndoas e figos secos, vendidos na casa de produtos artesanais que abriu este Verão, o único sítio simpático da terra. É assim há 13 anos, e cada vez pior, dizem os responsáveis do parque. Aparentemente, os turistas que vão ver “os riscos feitos pelos pastores”, como ainda há quem pense, são um enfado e um incómodo para a próspera freguesia de Castelo Melhor, onde a riqueza é tal que ninguém precisa de trabalhar nem de ter ideias para ganhar dinheiro. Mais vale embrutecer, orgulhosamente sós. Ah, ditosa terra que tais filhos tem.

sábado, 24 de outubro de 2009

A NOSSA SOPHIA


O correio trouxe ontem mais um novo livro da colecção editada desde 2005 pela Dom Quixote. Com texto de Fernando Pinto do Amaral, especialista na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen e, em especial, nos seus livros “para crianças”, A Minha Primeira Sophia surge enriquecida com as ilustrações de Fernanda Fragateiro, aquelas aguarelas profundas e delicadas que tão bem reconhecemos. Há algumas páginas em que alguns pormenores mais escuros se confundem com a mancha de texto, dificultando a leitura, mas fora isso é um livro muito bonito e bem concebido. Sophia haveria de gostar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

LER PARA A VIDA

“Households with girls have ten more children’s books than those with boys. One in every 20 family homes in Britain today has fewer than ten books.”

Mais resultados do inquérito do projecto Reading For Life no Beattie’s Book Blog.

ANTÍPODAS, 2


“In his book Mark Price tells the bare truth of his expedition to the other side of the world to find New Zealand’s Antipodes. With his six white poplin shirts and rented Ford Focus he proves the perfect fall guy for the somewhat downbeat expedition members, and the ever frugal La Campana. Effortlessly, he captures the kiwi sense of the ridiculous with a dry, dead pan humour and an economy of words.”

Como já se percebeu, Antipodes, de Mark Price, é um livro de viagens sobre os antípodas dos antípodas: Espanha, pensa ele. Portugal, dizemos nós. Aqui é que era. Não tiveram coragem.

ANTÍPODAS, 1


Rachel King, autora neozelandesa que se estreou há pouco por cá com A Música das Borboletas, já tem um novo livro: Magpie Hall. Sai em Novembro. Nos antípodas, é claro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

ATELIER ESTRAMBÓTICO DO PROFESSOR REVILLOD


Conhecem o Tifantu – cabeça de tigre, dorso de elefante, cauda de tatu? É provável que não. O Animalário Universal do Professor Revillod, que já tínhamos apresentado aqui, explica-nos que se trata de um “animal feroz de porte majestoso da região do Orinoco”. Mas, se trocarmos uma das três partes da página, o resultado será um “animal feroz de hábitos omnívoros da região do Orinoco”. Nova troca e deparamo-nos com um “animal feroz de hábitos omnívoros de ambientes malsãos.” E podíamos ficar nesta experimentação de combinações anatómicas até ao fim do dia, ou talvez até mais, já que esta “jóia bibliográfica da zootecnia moderna” permite chegar à formulação de 4096 feras diferentes, todas retratadas com o pormenor e o rigor científico do Professor Revillod. Podíamos fazer isso e seria mais divertido do que ir trabalhar, mas pronto. Lembramos ainda que quem quiser participar no Atelier Estrambótico organizado pela Orfeu Mini só tem de aparecer no próximo sábado, dia 24 de Outubro, às 11h00, no Centro Comercial Colombo (Lisboa). É para miúdos dos 4 aos 8 anos, com entrada livre.

TEXTO GANHA PRÉMIO EM FRANKFURT


Palmo e Meio (3-4 anos), um projecto de ensino pré-escolar da Texto Editores, ganhou o segundo prémio de melhor manual escolar na categoria Primary School, atribuído na Feira do Livro de Frankfurt. Organizado pelo European Educational Publishers Group e direccionado a todas as editoras escolares do espaço europeu, o concurso distingue os três melhores livros publicados em toda a Europa na categoria Primary School (Pré-Escolar, 1.º e 2.º ciclos) e na categoria Secondary School (3.º ciclo e ensino secundário). Com o projecto Palmo e Meio, de Manuela Guedes e Luísa Mendes (e ilustrações de Carla Nazareth), seleccionado entre os 48 manuais a concurso, a Texto vê um projecto escolar seu premiado nesta categoria pelo segundo ano consecutivo.

Mais informações sobre o concurso nos seguintes links:
http://www.schoolbookawards.org/
http://www.eepg.org/
http://www.iartem.no/

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O PORTUGAL DA PORRA


Miguel Sousa Tavares, o mesmo que acha estranho que haja quem se preocupe com as “condições psicológicas” em que vivem os animais domésticos (as aspas são dele), preferindo certamente assobiar para o lado quando sabe de um cão fechado na varanda ou na casa de banho durante dias a fio, insurgiu-se na sua última crónica no Expresso contra a nova lei respeitante aos animais no circo. Diz ele, alcandorado no sarcasmo confortável das elites:

“Eis mais um retumbante triunfo da cultura urbana, moderna e civilizada. Porque o fundo da questão está no que diz Victor Hugo Cardinali – um honrado nome de uma família que tem feito sonhar gerações e gerações de crianças, com os seus tigres, leões e elefantes, saídos da televisão e dos joguinhos de computador para a tenda do circo: «Eu também posso fazer algo como o Cirque do Soleil, para os intelectuais de Lisboa e do Porto. Mas experimentem levar isso a Portalegre e eles vão perguntar ‘que porra é essa?’». É contra este Portugal da porra que em boa hora surgiu a portaria a defender as centopeias, os aligators e também, já me esquecia, os nandus e os crotalos.”

Que fique sossegado o “Portugal da porra”, porque ainda não é desta que Victor Hugo Cardinali vai averiguar que porra é essa do teatro-circo, nem dar emprego aos alunos da porra da escola do Chapitô. Ele sabe que “a cultura do povo português não passa por aí”, afirmou-o na entrevista que o jornal i puxou para a capa, com um título a tresandar a demagogia: “Os meus animais são mais bem tratados que os pobres deste país.” Mais esclarecimentos no excerto que se segue:

“Mas os circos estão condenados?
Muitos circos pequenos sim, mas eu não tenho nada a ver com isso. [o altruísmo de um honrado nome de uma família]
E o circo enquanto arte?
Nesse sentido acho que sim, porque o que traz as pessoas ao circo são os animais. [a sabedoria de um honrado nome de uma família]
Há o argumento de que podia haver mudanças, como quando se deixou de usar mulheres barbudas e anões…
Este ano vou trazer outra vez anões. Nos circos lidamos com os anões como um ser humano qualquer. E os cegos que andam todos a pedir em Lisboa, porque são cegos? Não é discriminação? Os ceguinhos deste país deviam ser acolhidos por quem de direito. É uma hipocrisia, uma fantochada. [o progressismo de um honrado nome de uma família]”.

P.S. - No meio desta confusão de alhos e bugalhos, só uma coisa me intriga: quem é o nandu e quem é o crotalo?

domingo, 18 de outubro de 2009

PRÉMIO JOSÉ SARAMAGO 2009


Deixem-me ser exclamativa: parabéns, João!

DOURO SUPERIOR








Entre São Salvador do Mundo e o Vale do Côa, há cerca de uma semana, o Douro estava assim. As fotografias foram tiradas pelo jardineiro convidado do blogue, Guto Ferreira, com uma velhinha Yashica FX-3 e um rolo Kodak Ektar 100. Parece que o filme é que faz a diferença, digo eu que não percebo nada do assunto.

HÁ QUANTO TEMPO NÃO VIA ISTO


Uma tapeçaria com paisagem de cavalos na chapeleira de um Toyota Corolla. Fotografia tirada na aldeia de Castelo Rodrigo (Douro Superior), onde há uma casa de chá com um fabuloso sortido de whiskies e as melhores tartes de amêndoa que me lembro de ter experimentado nos últimos tempos. Vão por mim.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

PAIS E FILHOS



Acho que foi o MEC quem escreveu, há uma data de anos, que não imaginava ninguém a reler banda desenhada. Bom. Provavelmente, até ele já discorda desta ideia peregrina. À semelhança de Tamara Drewe, não sei se Fun Home – A Family Tragicomic se classifica mais como uma novela gráfica do que como banda desenhada, mas pouco importa. É um dos melhores livros que me passaram pelas mãos este ano e só estou a adiar por mais um pouco o gozo de o reler, com atenção aos pormenores mais subtis e àquelas palavras que se tem preguiça de ir ver ao dicionário, quando ganha a voracidade leitora.

Publicado originalmente em 2006 (ed. Mariner Book, New York), premiado e incensado pela crítica, Fun Home é a autobiografia de Alison Bechdel, cartoonista norte-americana nascida em 1960 que, ainda adolescente, constrói a sua verdade identitária sobre a grande mentira do pai, homossexual dissimulado e dado a escapadelas com rapazes menores de idade. Só perto dos vinte anos, após a morte deste num acidente de viação (com ressonâncias de suicídio à la Albert Camus), é que Alison, já lésbica assumida, descobre o segredo obscuro que pairou na casa neo-gótica de uma pequena terra da Pensilvânia, restaurada e decorada com desvelo pelo próprio pai. Nessa casa do século XIX, “uma natureza-morta com crianças”, Alison cresce com mais dois irmãos sob a vigilância de pais eruditos e afectivamente ausentes que se suportam com azedume. O negócio de família, uma agência funerária (Fun Home, o título, é a abreviação irónica de Funeral Home), contamina cada tentativa de aproximação com a frieza minuciosa dos cadáveres. Apesar de tudo, o relacionamento entre pai e filha, feito de compreensão tácita, mas sobretudo de silêncios e de dominação, é demasiado importante para ser ignorado. Como Ícaro voando no céu, Alison parte para a conquista da sua identidade desejando que o pai, um Dédalo de mãos hábeis e personalidade labiríntica, esteja lá para a amparar se ela cair. Não é o que todos os filhos desejam?

HOJE É DIA DE AGUSTINA BESSA-LUÍS


Festa no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 15h00. A entrada é livre.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PARECE MESMO O PARAÍSO


Stonefield é um retiro para escritores em pleno british countryside, onde a inspiração se cultiva em camas com edredões de penas, sestas à lareira, tartes de fruta e comida orgânica. Se tudo isso não chegar, há sempre uma taça de vinho ao fim da tarde e o pub local, onde o gossip literário e não só se põe em dia. Por trás deste cenário privilegiado, há especulação imobiliária e adolescentes a envelhecer de tédio nas paragens de autocarro abandonadas, cujas maiores diversões consistem em atirar ovos aos automóveis e assustar as vacas que pastam no prado. Fuma-se muito. O campo é um deserto de ideias e de sentimentos sólidos – e se os adultos se entretêm com o adultério, a intriga e a má-língua, os adolescentes sonham com a vida das celebridades e “snifam” latas de aerossol quando precisam de um bom kick. Não é um retrato simpático, este que Posy Simmonds publicou em banda desenhada nas páginas do The Guardian e mais tarde passou a livro (ed. Jonathan Cape, 2007). Tamara Drewe, uma beldade esculpida a bisturi que aterra em Stonefield e de quem vagamente se pode dizer que é jornalista (mas também quer escrever dois ou três romances antes dos 35 e, claro, fazer um livro para crianças), é uma daquelas personagens que irritam do princípio ao fim. Os escritores não se saem melhor do retrato. Egocêntricos, egoístas, invejosos, arrivistas, vaidosos, autoindulgentes e mentirosos, não têm problemas em conciliar o homicídio involuntário com a escrita de best-sellers. OK. Já tive a minha dose de cinismo para as próximas semanas. Resta lembrar que Stephen Frears vai adaptar Tamara Drewe ao cinema, com a Bond girl Gemma Arterton no papel principal. Tem todas as condições para ser um bom filme.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O PRINCÍPIO DO FIM

É verdade que a nova lei não garante o bem-estar dos animais que já se encontram nos circos, mas, caramba, não digam que esta não foi uma boa notícia para começar a semana. Tadinho do Sr. Cardinalli e quejandos. Ainda vão ter de engolir o Cirque du Soleil e aprender a fazer espectáculos que não agradem só aos "queques de Lisboa".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PROLONGAMENTO


aqui falámos do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio Centro Cultural do Alto Minho. A ideia é incentivar o aparecimento de "novos escritores e consolidar aqueles que já escrevem há algum tempo, mas que por falta de oportunidade não encontram espaço para a publicação dos seus textos". Todos vão gostar de saber que o prazo de recepção de candidaturas foi alargado até à próxima quinta-feira, 15 de Outubro. Regulamento completo e telefone aqui.

NAMORAR ÀS ESCURAS


Enquanto passeávamos no Douro, fazendo fintas às inesperadas chuvas torrenciais, A Namorada de Wittgenstein andou pelo meio dos canteiros e visitou os fantasmas que dormem há um ano nas nossas árvores. E eles ficaram assombrados com este belíssimo texto.

AVES MIGRATÓRIAS


Há histórias com tanto para dizer que se transformam em exposições. É o caso de A História do Zeca Garro, um livro sobre as características aves dos Açores, assinado por Filipe Lopes e Carla Goulart Silva – com ilustrações de Bernardo Carvalho, um dos artistas da editora Planeta Tangerina. A exposição, que vai percorrer diversas ilhas do arquipélago açoriano e chega ao território continetal em 2010 (Aveiro, Famalicão, Miranda do Corvo e Fundão, entre outros locais), descreve o processo completo de concepção e feitura da obra e pretende “contribuir para o conhecimento e preservação de uma espécie protegida e, em simultâneo, estimular o gosto pelos livros”. Para saber um pouco mais sobre estes pássaros, alvo de uma campanha de preservação há mais de uma década, eis alguns dados:

“O cagarro é uma ave migratória cuja maioria da população mundial (cerca de 75%) escolhe esta região insular para nidificar. Características muito próprias como o facto dos progenitores apenas terem uma cria por ano e de partirem para migração antes deste conseguir voar tornam a espécie vulnerável, nomeadamente pela atracção que os juvenis sentem pela luz, o que faz com que muitos sejam atropelados nas estradas quando se dirigem para o mar. A Campanha SOS Cagarro mobiliza centenas de voluntários que patrulham as estradas costeiras à noite, recolhendo aves feridas.”


Para outras informações complementares, pedidos de envio de livro ou de imagens, contacte através do email mail@ocontadordehistorias.com ou pelo telefone 918569662.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

CITY-BREAKS: DOURO


No fim de Julho, o Jardim Assombrado fechou os portões para sair em reportagem ao Douro. Está aqui a prova em papel, com fotografias do jardineiro convidado. Agora vai voltar lá mais uns dias – e vai voltar quantas mais vezes puder. A parte boa, desta vez, é que não estamos em trabalho. A parte má é que o tempo está um bocado foleiro. Aliás, promete chover torrencialmente. Não faz mal. Adoramos o cheiro da terra molhada.

Fotografia de Guto Ferreira.

MALDITAS DIOPTRIAS


O Tubarão na Banheira
David Machado
Ilustrações de Paulo Galindro
Presença

O quarto livro para crianças de David Machado prossegue a deriva fantástica dos anteriores, incluindo até um cameo dos bonecos dos semáforos de Um Homem Verde num Buraco Muito Fundo (Presença, 2008). A história começa quando um avô parte os óculos e é incapaz de distinguir um tubarão de um peixe pequeno. Se há netos com sorte, o protagonista de O Tubarão na Banheira é um deles. O mesmo se pode dizer de David Machado, que encontrou em Paulo Galindro um ilustrador hábil no domínio da expressividade e volumetria aplicadas ao reino animal, como demonstrou a menção especial atribuída pelo Prémio Nacional de Ilustração a O Cuquedo (Livros Horizonte, 2008). O livro ganharia com mais espaço para a ilustração e mais economia numa técnica narrativa que exagera nas descrições. Uma imagem substitui frases como «Não era possível fechar a porta», por exemplo. Mais conseguida é a integração das «palavras difíceis» num léxico final subjectivo: «Melancolia: é o que sinto quando estou triste e penso que estou triste.» A julgar pela pescaria, apostamos que esta dupla tem ainda muito para dar.

(Texto publicado na LER nº 84.)

domingo, 4 de outubro de 2009

LIVROS COM BICHOS DENTRO - UM GUIA









Eis uma parte do artigo publicado hoje na Notícias Magazine, a propósito do Dia Mundial do Animal. Muitos mais livros poderiam fazer parte desta lista, mas um guia de sugestões de leitura é isso mesmo: selectivo. Gostaria de ter intercalado cada capa com o respectivo texto, mas a minha habilidade informática não tem unhas para tal. E também não consigo descolar este parágrafo do título do livro que vem a seguir. Blogger irritante. Grrrrrrrrr!

Vamos Fazer Amigos
Adam Relf
Ambar

«Como se faz um amigo?», pergunta a Raposinha. Juntar ramos e frutos em forma de espantalho não é suficiente, mas com a ajuda de um esquilo e um coelho descobre-se o inesperado. Uma história com profundidade emocional, contada com ilustrações que provocam empatia imediata nas crianças.

Aldo
John Burningham
Caminho

Na nova colecção de livros de capa mole da Caminho está um dos maiores autores em língua inglesa, John Burningham. A temática do amigo imaginário – um coelho chamado Aldo – é aqui retratada com grande acutilância e sensibilidade.

Macário Dromedário
Rachel Chaundler (texto)
Bernardo Carvalho (ilustrações)
OQO

Um dromedário, porventura demasiado sensível, perde a bossa de tanto chorar e só a recupera com um acto inaugural de coragem. As cores e o traço expressivo de Bernardo Carvalho estão de acordo com a força do pequeno Macário.

O Porco Muda de Casa
Claudia Fries
Ambar

Richard Scarry, autor de Palavras em Bicha com Todos os Bichos, dizia que usava animais como personagens para eliminar os estereótipos raciais. Um conceito que também se aplica neste livro, onde o problema da xenofobia é tratado com inteligência e humor.

Dança Quando Chegares ao Fim
Richard Zimmler (texto)
Bernardo Carvalho (ilustrações)
Caminho

«Pensa bem no teu plano/ Recomenda o tucano!» «Não sejas resmungão e chato/ Dizem o camaleão e o pato!» «Faz caretas ao espelho/ Sugere o escaravelho!» Com bom humor e uma pitada de nonsense, estes «bons conselhos de amigos animais» são para levar a sério. Eles sabem muito, ainda que não falem.

Poemas com Animais
Vários autores
Pedro Pires (ilustrações)
Gailivro

Para ler ou ouvir no CD em anexo, poetas portugueses, brasileiros e moçambicanos, numa antologia organizada e declamada por José Fanha. António Osório, Nuno Júdice, António Botto e Eduardo Guerra Carneiro são alguns dos nomes. Não esperem encontrar o mais óbvio.

A Charada da Bicharada
Alice Vieira (texto)
Madalena Matoso (ilustrações)
Texto

O livro vencedor do último Prémio Nacional de Ilustração é uma trama engenhosa e bem urdida entre palavras e imagens. É nestas últimas que se encontram as respostas para as adivinhas lançadas por Alice Vieira, sempre com os animais em pano de fundo. Genial.

Nascer – Animais Extraordinários
Xulio Gutiérrez (texto)
Nicolas Fernández (ilustrações)
Kalandraka

A particularidade deste livro informativo é dedicar-se a um aspecto da vida animal que suscita grande curiosidade e fascínio: o nascimento. O elefante, o cavalo-marinho, o macaco bonobo, o cuco, o bicho-da-seda e a abelha figuram entre as espécies mais surpreendentes.

Os Animais Fantásticos
José Jorge Letria (texto)
André Letria (ilustrações)
Ambar

O centauro, o dragão, a salamandra, o lobisomem, a serpente marinha, o ogre, o ciclope… Estes animais (ou quase animais) são da espécie inventada e também têm as suas histórias para contar. Sem dúvida, um dos melhores livros da dupla Letria, pai e filho.

Perto
Natalia Colombo
Kalandraka

O senhor Pato e o senhor Coelho cruzam-se todos os dias, mas nunca chegam a encontrar-se. O não dito tem mais força do que as morais sublinhadas no final de tantos livros. Um picture book premiado com uma abordagem original ao tema da amizade vs. solidão, desafiando a capacidade de pensar além das aparências.

CITAÇÃO DO DIA

“Outside of a dog, a book is probably man's best friend, and inside of a dog, it's too dark to read.” (Groucho Marx)

ESPECIAL ANIMAIS NA NOTÍCIAS MAGAZINE


A Notícias Magazine de hoje – revista de domingo do Jornal de Notícias e Diário de Notícias – é dedicada aos animais, uma opção editorial digna de registo (no Público, há apenas uma notícia generalista sobre o assunto). Para ler, a entrevista de Carla Amaro a Miguel Moutinho, presidente da associação Animal; uma reportagem sobre um hospital de animais selvagens em Castelo Branco, também de Carla Amaro; e outra sobre a única escola de cães-guias para cegos que existe em Portugal, assinada por Licínia Girão. Ah, nós também contribuímos com um artigo sobre os animais na literatura infantil, que contou com as esclarecidas declarações de Ana Margarida Ramos, professora na Universidade de Aveiro e um dos elementos da Casa da Leitura.

HOJE É O DIA DELES


Não é fácil juntar estes três para um retrato de família felino. De baixo para cima: Mini, Spooky e Radar. Hoje é Dia Mundial do Animal.