sexta-feira, 24 de junho de 2011

MERGULHAR É PRECISO


Por nós todas as praias seriam assim, livres e luminosas. Sem famílias aos gritos, sem música de bares a massacrar-nos os ouvidos, sem criancinhas a fazer birras porque já não sabem brincar fora das playstations. Praia Mar (Planeta Tangerina) é um livro de imagens onde apetece mergulhar em dias de calor como hoje. Não há adereços inúteis nas páginas ilustradas por Bernardo Carvalho; só a expressão da natureza em sintonia com o elemento humano, uma tranquilidade delicada de onde não está ausente o movimento e a dinâmica das coisas. Mergulhem e verão.

terça-feira, 21 de junho de 2011

UMA NOVA EDITORA: GATO NA LUA


Gato na Lua (belo nome) é uma editora de livros para crianças fundada por Paulo Monteiro, cuja experiência na Ambar o levou agora ao novo projecto. Com sede em Leça do Balio, a Gato na Lua define-se por “uma orientação editorial assente na publicação de álbuns ilustrados de grande qualidade dirigidos a crianças entre os 3 e os 10 anos”. Um dos primeiros títulos, O Meu Balão Vermelho, de Kazuaki Yamada – cujas ilustrações foram seleccionadas para a última Feira do Livro de Bolonha – deve chegar em breve às livrarias. Entretanto, sigam as pegadas do gato através do site e do blogue. Aqui.

domingo, 19 de junho de 2011

BRINCAR NA RUA


Não foram só os pássaros que começaram a cantar mais alto, no esforço de se sobreporem ao ruído da cidade, como há tempos alertou uma notícia. A asfixia da vida instintiva está também na evidência de as crianças terem deixado de brincar na rua, levadas por um qualquer Flautista de Hamelin que esvaziou o espaço público de vozes e algazarras. Lugares antes ocupados por tardes de brincadeira são agora metodicamente divididos e pagos em fracções de 15 minutos – a medida do nosso tempo espartilhado, apressado, sempre inquieto. Acabou o jogo da apanhada, das escondidas, do «mamã, dá licença?». Um carrinho de rolamentos é capaz de parar o trânsito, mais do que um Ferrari. Verbos como «correr», «saltar», «trepar» e «lutar» passaram a ser conjugados com culpa e receio parentais. A célebre frase «vai brincar lá para fora» já não é um imperativo categórico de adultos saturados, a necessitar também do seu espaço, mas uma declaração de inconsciência ou, no mínimo, de excentricidade. Paradoxalmente, quanto menos brincam na rua, mais irresponsáveis as crianças crescem. Quem é que hoje diz «vai ali fazer um recado à mãe», sem gerar tumultos ou bocejos enfastiados na sua prole? Deveríamos ir além das preocupações genéricas nesta matéria. Brincar é uma actividade inútil, tão inútil quanto essencial à conquista da identidade e da independência. Passamos do colo da mãe para o chão de casa; passamos da casa para a rua, e da rua para o mundo. Só assim chegamos a algum lado. Não precisamos de ter sempre um vidro ou um ecrã qualquer entre nós e o território que progressivamente conquistamos.

(Texto publicado na edição de 19 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

QUEREMOS MAIS MARGARET MAHY


«Nunca me hei-de esquecer de como aprendi a ler. Quando era menina, as palavras escapuliam-se diante dos meus olhos como pequenos escaravelhos negros cheios de pressa. Mas eu era mais inteligente do que elas. Aprendi a reconhecê-las apesar de tentarem escapar-me velozmente. Até que, por fim, consegui abrir os livros e entender o que lá estava escrito.» Palavras da escritora neozelandesa Margaret Mahy, naquele que é, no meu modesto entender, um dos textos mais poéticos e consistentes produzidos para assinalar o Dia Internacional do Livro Infantil (ler integralmente aqui), neste caso em 2007. De Margaret Mahy, contemplada com o Prémio Hans Christian Andersen de 2006, apenas está traduzido em português O Rapaz dos Hipopótamos (The Boy Who Was Followed Home, 1975), publicado pela Livros Horizonte em 1997. Pode ser que a Feira de do Livro de Frankfurt de 2012, onde a Nova Zelândia vai ser o país convidado, dê algumas ideias aos nossos editores mais atentos. Sobre Margaret Mahy, recomendamos a leitura da página do New Zealand Book Council, aqui.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

COMUNIDADE DE PEQUENOS LEITORES


Para fazer parte do Clube de Leitura Arquivinho – uma nova comunidade de leitores orientada pela Livraria Arquivo, em Leiria – só é preciso ter entre 9 e 12 anos e gostar de ler. Vários livros são colocados em cima da mesa, mas só um é o eleito para estar na berlinda esse mês. Aos terceiros sábados, o grupo reúne-se para partilhar ideias e dizer o que gostou e o que não gostou. A primeira sessão decorre já no próximo sábado, 18 de Junho, às 15h00.

Quem estiver interessado em participar apenas tem de fazer a sua inscrição por mail (clubearquivinho@arquivolivraria.pt), por telefone (244 822 225) ou ao balcão da Livraria. Nós, que somos há alguns anos fãs da Comunidade de Leitores da Culturgest (para crescidos), orientada pela Helena Vasconcelos, recomendamos a experiência de fazer parte de uma outra família onde ninguém nos censura nem olha de lado se pusermos os cotovelos em cima do livro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

LANCHAR COM O SENHOR VERDE

Javier Sáez Castán, o ilustrador do maravilhoso Animalário Universal do Professor Révillod (aqui), regressa em português com O Lanche do Senhor Verde, um álbum da sua inteira autoria, editado novamente com a chancela da Orfeu Mini. Olhem bem para esta capa tão magritteana.

terça-feira, 14 de junho de 2011

NOTÍCIAS QUE FAZEM ESTE BLOGUE ACORDAR


Estava este jardim muito adormecido e pouco assombrado quando, de repente, deu com esta notícia no Blogtailors. Logo as pohutukawas (ou metrosíderos, como lhes chamam por cá) começaram a agitar as folhas e a mostrar as suas lindíssimas flores encarnadas, todas vaidosas. E as pedrinhas do Mar da Tasmânia que estão ali guardadas numa caixa começaram a mexer-se (ou pelo menos parecia que sim). E a Busy Bee de plástico que faz de porta-chaves começou a zumbir, inexplicavelmente. É o que acontece aos jardins muito adormecidos e pouco assombrados quando ouvem duas palavras mágicas: Nova Zelândia. Weeeeeeee!




(Atenção, o autor de The Whale Rider é Witi Ihimaera e não Ngaio Marsh. Falámos deles aqui, por exemplo. Mais coisas sobre a Nova Zelândia podem ser procuradas na etiqueta homónima, aqui do lado direito do blogue.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CITY-BREAKS: BRAGA

O Jardim Assombrado vai aproveitar o embalo dos feriados. Estamos quase de partida para Braga, onde, a convite da Professora Sara Reis da Silva, encerraremos o “Ciclo de Actividades em Literatura para a Infância e a Juventude”, iniciado em Março com uma série de conferências e debates (ver aqui.). Amanhã, o tema é “A Edição e a Crítica da Literatura para a Infância e a Juventude em Portugal”. Encontro-me com o editor da Bags of Books, Francisco Vaz da Silva, no Auditório do Instituto de Educação da Universidade do Minho. Até já.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ARTE, LEITURA, LITERATURA


Quando se comemoram 140 anos da realização das “Conferências do Casino” (Primavera de 1871), impulsionadas pelo poeta e ensaísta Antero de Quental, o Clube UNESCO de Educação Artística e o Centro de Nacional de Cultura propõem a realização, durante o ano de 2011, de um ciclo de palestras dedicado ao tema A Literatura – uma arte entre as artes, organizado por Ana Marques Gastão e António Carlos Cortez. Este último profere uma das palestras de amanhã, “Educar Pela Poesia”, a que se seguirá a intervenção de Fernando Pinto do Amaral, subordinada ao tema “A importância da leitura na educação artística”.

Não esqueçam: amanhã, 8 de Junho, no Centro Nacional de Cultura (ao Chiado, em Lisboa), pelas 18h30. Com entrada livre.

ENCONTRO ENTR'ARTES NA ESE DO PORTO

Estamos muito em cima da hora, mas não queremos deixar de divulgar o Encontro Entr'Artes, a cargo dos estudantes do Mestrado em Ensino do 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico da ESE do Porto, que conta ainda com a colaboração de estudantes do 3.º ano da Licenciatura em Educação Básica. É já amanhã. 8 de Junho, no auditório da ESE, a partir das 10h30. Aqui fica o programa:

Ana Catarina Lajas – Encruzilhadas textuais em Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
Ana Isabel Moreira – As origens que tive de esquecer: a emigração numa obra de António Mota
Sílvia Moreira – Emancipação da mulher portuguesa em Cortei as Tranças, de António Mota
Vitória Alves – Cor de estimação: a discriminação racial em Uma Questão de Cor, de Ana Saldanha
Elisama Oliveira – O humor em Os Tontos, de Roald Dahl
Sara Almeida e Sofia Magalhães – De Chapelinho Vermelho a Capuchinho Vermelho: reescritas do conto tradicional

Na Sala de Drama (edifício da Música da ESE do Porto), às 14h30, os alunos do Mestrado em Ensino do 1.º e 2.º ciclos do EB apresentam o projecto de música, drama e expressão plástica “Bichos, Bichinhos e Bicharocos”, com texto de Sidónio Muralha.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SCHOOL DAYS


É impossível não sentir nostalgia do tempo em que as escolas tinham os seus «dias especiais». Não, não nos referimos às visitas das televisões, nem às reportagens sobre treinos de pugilato entre alunos e casos de mães extremosas que ajustam contas com os professores. Nada disso. Falamos daqueles «dias especiais» que alcançavam o seu apogeu no dia do passeio escolar, quando uma trintena de miúdos, incrédulos com tanta fartura, era enfiada numa camioneta ronceira com destino a Bragança, parava para comer sandes no parque de Amarante e exultava com o Mosteiro de Santa Quitéria e a fábrica da Tabopan. O dia do passeio era único e irrepetível, tal como o fim do ano escolar, mas também se celebrava o dia da fotografia de turma. Os pais eram avisados com antecedência, para que na data aprazada enfiassem os miúdos numa farpela conveniente, quase sempre igual à dos outros dias. Havia o retrato de grupo, com os meias-lecas lá à frente e as vigas cá atrás, ao lado dos professores. Havia o retrato solitário junto ao quadro, com o livro aberto ao acaso; e havia o retrato na carteira, o único lugar onde a paridade entre marrões e calaceiros era possível. A carteira era sempre a mesma e os alunos rodavam. Ali, rodeados de livros e cadernos alheios, de lápis em punho e olhar cândido no mistério da objectiva, todos pareciam estudantes exemplares. O ciclo da água? Básico. Os sólidos geométricos? Trivial. O Sistema Solar? Corriqueiro. E até os problemas de aritmética pareciam fáceis: alcatifou-se uma sala com sete metros de comprimento e cinco metros de largura com alcatifa a 200$00 o m2. Quanto se gastou? Não faça contas, leitor. A resposta acertada é: «Stôra, depende se pediu factura ou não.»

(Texto publicado na edição de 5 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia". A fotografia foi tirada na escola primária de Moreira, aldeia do Alto Minho, nos meus áureos sete anos. Como se nota, a blusa é tipicamente seventies.)

sábado, 4 de junho de 2011

VIDA DE GATO


Não é tanto um livro sobre a morte, mas sobre o medo da morte, cujo rosto só conhecemos a partir do olhar que lançamos sobre ela. Temerário, umas vezes; receoso, outras, um gato encara a morte de frente no desenrolar das suas míticas sete vidas, esquivando-se e vendo outros desaparecerem em seu lugar: o pássaro tombado do ninho, o cão atropelado, o porco votado ao dia da matança, a noiva que morre de intoxicação alimentar (eufemismo para a expressão usada por Luísa Ducla Soares, que continua a dar largas à sua veia satírica), os soldados caídos no campo de batalha, reduto quase final de um ciclo onde a morte não tem descanso. Francisco Cunha, ilustrador que antes assinava como Chico (os seus últimos trabalhos saíram pela Ambar), mantém o registo figurativo, mas o traço e a técnica evoluíram para um patamar estético superior. Fugindo aos estereótipos do esqueleto ou da ceifeira, a sua representação da morte é um achado de mestre: um grande gato branco, fantasmagórico, de olhos cegos; um duplo, afinal, que abraça o gato da história na sua sétima e última vida. Numa escrita bem calibrada entre a aspereza do tema e a possibilidade de pacificação interna, essencial ao leitor infantil, Luísa Ducla Soares assinou um belíssimo livro que há-de perdurar na memória de quem o ler.

Um Gato Tem 7 Vidas
Luísa Ducla Soares
Ilustrações de Francisco Cunha
Civilização

(Texto publicado na edição da LER nº 103, secção “Leituras Miúdas”)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

MAU COMEÇO


“Mafalda Moutinho decidiu-se pela literatura juvenil por pensar que seria mais fácil para começar.” (in Notícias Magazine, 29/5/2011). Começa assim o artigo de três páginas sobre a autora da colecção Os Primos. Um mau começo, porque gerador de tremendos equívocos – o pior dos quais é a convicção generalizada de que a literatura para crianças e adolescentes é essa coisa vulgar e desinteressante que qualquer um consegue fazer. Às vezes pergunto-me quantas pessoas escrevem para crianças guiadas pela presunção ilusória da facilidade, quando no fundo desejariam escrever romances "sérios" e integrar o catálogo da Quetzal. A ser verdade, é melhor decidirem-se a trabalhar e pararem de contar historinhas a si próprios.

domingo, 29 de maio de 2011

CAFÉ E RESISTÊNCIA


Produzido em 1984, o anúncio da Nescafé passou repetidamente ao longo das décadas de 1980 e 90, deixando no ouvido o hit de Johhny Nash: I can see clearly now, the rain is gone/ I can see all obstacles in my way… Quem o viu, não esquece. É de madrugada, ouvem-se as gaivotas na praia, o rumor das ondas amassado com uma voz de rádio, imperceptível. Uma rapariga estaciona o Carocha branco nas dunas, desliga as luzes, cruza os braços sobre o volante, suspira fundo e fica ali a pensar na vida, e nós a pensarmos com ela. Pensamos num desgosto de amor, porque é isso que mais aflige aos 17 anos, mas pode ser outra coisa – nada assim tão grave que supere ter um Carocha e a liberdade de ir ver o mar enquanto a família dorme, pensamos nós, aos 12 anos. A rapariga é bonita, mas não excessivamente; é um tipo de beleza suave e instintiva que passou de moda, tal como o blusão de ganga e o corte de cabelo escadeado que se despenteia com o vento. O saco cheio de tralha com o Nescafé, o porta-luvas desarrumado onde remexe, à procura da resistência para aquecer a água, tudo compõe um desalinho que nos comove e consola, à luz do amanhecer. É evidente que ela vai fazer as pazes com o namorado; ou então vai mesmo dar-lhe com os pés, ao cafajeste. Não há mal que sempre dure enquanto houver uma resistência à mão, n’est-ce pas? Custa a crer que nem a rapariga nem a praia nem o anúncio sejam portugueses, mas isso só o sabemos agora e, de qualquer modo, ela já partiu para outra.

(Texto publicado na edição de 29 de Maio da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

GATO MALABARISTA


Sou um gato de pêlo preto
e de olhos tão brilhantes,
que no meio da escuridão
até parecem diamantes!
Ao telhado gosto de subir,
danço nas telhas sem cair.
Gosto de dormir em frente à lareira,
mas não posso com os cães
mais a sua barulheira!
Se tentam dar-me uma coça,
dou-lhes três voltas nos focinhos,
caio de patas numa poça
e deixo-os encharcadinhos!
Sou o maior fã dos novelos de lã,
mas também aprecio uma boa maçã!
Sou um gato vadio,
mas também sou requintado:
como filete e bebo leite,
de laço e guardanapo.
Sou guloso e também habilidoso.
Gosto de pregar partidas
e de coisas divertidas.
Sou malabarista,
malandro e trocista.
Num dia de Abril,
levaram-me para o gatil,
para fugir dali,
as minhas patas
transformaram-se em mil!
Tornei-me agente secreto
e, de garras afiadas,
vigio os malfeitores
nas noites assombradas.
Se o inimigo anda à solta,
tenho de o apanhar,
pois não sabemos os sarilhos
que ele pode arranjar…
Quando precisarem de mim,
só têm de me chamar:
apareço-vos do nada,
de patas para o ar!
Miauuuu!

(E depois do auto-retrato da Rainha Só, eis o do gato, feito pelos alunos do 5º A do Centro Helen Keller, em Lisboa. Está bestial. Parabéns!)

terça-feira, 24 de maio de 2011

SOU UMA RAINHA SÓ, IÔ!


Sou uma rainha só
e vivo num mundo à parte;
numa torre, vivo sozinha,
rodeada de luxo e arte.
Como sou uma menina,
uso coroa pequenina;
de vestido azul e verde,
ando sempre bem vestidinha.
Quando me olho ao espelho,
o meu sorriso brilha,
assim como os meus olhos,
que são da cor da ervilha.
Sou rainha, sou vaidosa;
só, mas grandiosa.
Para me rir, é uma grande cena!
Faço-me cócegas com uma pena.
Quando choro, tomo banho
de lágrimas no meu jardim
e perfumo-me com rosas e jasmim.
É também aqui que gosto de comer doces,
principalmente pudim.
Gosto de café Nespresso,
mas só se for em excesso,
enquanto faço tricô
na terra que o meu pai me deixou!
Sou uma rainha só, iô!
Sou uma rainha só, iô!

(Os alunos da Turma 5º E, do Centro Helen Keller, em Lisboa, fizeram uma canção para a Rainha Só em versão rap. Foi um dos trabalhos mais criativos e originais a que já assisti numa escola. Adoro o texto e revejo-me totalmente neste auto-retrato. Lindo!)

domingo, 22 de maio de 2011

RECOLHIMENTO, INTERACTIVIDADE, DÚVIDAS


A segunda edição do workshop de Livro Infantil para a Booktailors tem-me deixado pouco tempo para actualizar o blogue. C’est la vie. Jornais e revistas lidos com uma ou duas semanas de atraso são consequência habitual da acumulação de “urgências”, coisa que sempre fiz sem remorsos ou sentimentos de culpa. Com atraso, pois, mas porque o assunto ainda vai no adro, vale a pena pensar nas palavras de Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora, ao Expresso da semana passada, que provocaram alguma turbulência nas minhas indómitas rugas de expressão.

Referindo-se às novas plataformas e edições digitais, Manuel Alberto Valente considera que «“esta interactividade vai ser perfeita tanto para livros de divulgação científica como para a literatura infantil”. Não crê, porém, que seja aplicável às obras de ficção: “A verdadeira literatura exige um recolhimento que não se compadece com distracções acessórias.»

Ora bem, haverá talvez nuances nestas declarações sintetizadas, mas creio que temos de reflectir muito sobre as benesses da interactividade na literatura infantil. Arrisco dizer: se existe área que justifique reflexão e mais do que um mero “ir na onda”, é justamente esta.

É preciso distinguir, primeiro, o livro infantil da literatura infantil. No que toca ao livro didáctico e informativo (atlas, livros de conceitos, livros de alfabetos, livros sobre arte ou ciência, etc), é evidente que existe um amplo espectro de intervenção para tirar partido do potencial de comunicação e aprendizagem dos suportes digitais – e é desejável que surjam bons produtos que acrescentem algo ao livro tradicional. Tenho mais dúvidas no caso de obras de ficção, sejam a Alice no País das Maravilhas ou a colecção de Álvaro Magalhães. Quer dizer: quantas vezes é que um miúdo tem vontade de esticar e diminuir o pescoço da Alice ou fazer qualquer outra brincadeira com o IPad até perceber que aquilo não o leva muito longe? Os bons leitores, isto é, os leitores empenhados, que reconhecem e incorporam para toda a vida o poder transformador da literatura, formam-se “nesse recolhimento que não se compadece com distracções acessórias”, como afirma Manuel Alberto Valente. Por que razão havemos de negar às crianças essa exigência e submetê-las à ditadura do lúdico? (por favor, não me digam que elas é que mandam…).

Hoje, é quase impossível para um miúdo passar horas a ler um livro, no mais absoluto silêncio e solidão. Desgraciadamente. Sabemos que as novas tecnologias da informação estão a mudar radicalmente o processo orgânico pelo qual lemos e percebemos (e, sobretudo, não percebemos) o mundo à nossa volta, mas convém usar algum bom senso. A organização de estímulos e de informações a que hoje as crianças e pré-adolescentes se sujeitam (telemóveis, televisão, videojogos, downloads, internet, facebook, messenger…) assemelha-se, como diz Ken Robinson em O Elemento, à autêntica gestão de um império. A questão é: como vamos ensiná-las a governá-lo? Ou melhor: como vamos ensiná-las a governarem-se a si mesmas?

LULU FAZ DAS SUAS

Obrigada, José Fanha.

XUMBIANTE OU XIMBIMPANTE

Um texto esclarecedor sobre Manuel António Pina, Prémio Camões 2011, para ler no blogue A Inocência Recompensada.

O QUE PENSA UMA CRIANÇA DEPOIS DE LER?

Na entrevista concedida à Lusa, Violante Saramago Matos, filha de José Saramago e da pintora Ilda David, explica as razões que a levaram a escrever – e ilustrar – um livro para crianças. E chama a atenção para o que entende serem duas particularidades intrínsecas a esta produção literária. O primeiro tem a ver com a necessidade de criar “uma linguagem sedutora”, que contribuirá para a construção (ou afastamento) do leitor; mas parece-me que essa ambição se pode aplicar a qualquer forma de literatura. O segundo aspecto é muito mais específico e remete para a dimensão político-ideológica dos livros para crianças, coisa que muito boa gente não imagina ou prefere não imaginar que exista:

«A outra responsabilidade – prosseguiu – “é exactamente aquilo que se escreve, porque a criança não refila connosco, não diz ‘não estou de acordo, isso é um disparate, por isto, aquilo ou aqueloutro’. O adulto faz isso. Quando discutimos um livro, ou uma opinião, nós somos capazes de contra-argumentar. A criança, por princípio, é uma esponja e, portanto, ela vai absorver. Por isso, tem de se ter muito cuidado com o que se lhe diz”.»

O Quinas Ganha Nova Casa, título do livro, foi publicado pela editora 7 Dias, 6 Noites. Seria óptimo poder vê-lo no site, nem que fosse só para conhecer a capa. Os excertos mais significativos da entrevista podem ser lidos aqui.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O JARDIM DE ALAIN DE BOTTON


Mais ou menos há seis anos, num hotel da baixa de Lisboa, entrevistei Alain de Botton para a Notícias Magazine, a pretexto do livro Status Ansiedade (Dom Quixote). No início, vi o caso mal parado: levava mais de vinte perguntas e as primeiras quatro foram respondidas com uma rapidez monossilábica assustadora. Entre dentes, perguntei ao assessor de imprensa se Alain de Botton tinha sido informado de que se tratava de uma entrevista de fundo, pensada para seis ou sete páginas (bons tempos), dado que estava a responder como se pensasse que ia ser reduzido a três ou quatro parágrafos. Feitos os esclarecimentos, a entrevista fluiu, sem chegar a transformar-se numa conversa, como às vezes acontece em casos de empatia fácil. Guardei de Alain de Botton a imagem de uma pessoa inteligente, erudita, simpática, bem-educada e bastante formal. Não tive coragem de lhe pedir para autografar um dos livros que levava comigo, Las Consolaciones de la Filosofia (O Consolo da Filosofia), o primeiro que li dele. Durante algum tempo, talvez pela perturbação do arranque, convenci-me de que tinha feito uma péssima entrevista, mas o tempo e a distância relativizaram as coisas. No outro dia, ao vasculhar nos meus arquivos, reli-a e apeteceu-me trazer esta passagem para O Jardim Assombrado. Não é preciso explicar porquê.

“CMA: Voltaire falou do terramoto [de 1755] em Cândido ou o Optimismo. E no fim ele diz mais ou menos isto: apesar de tudo o que nos acontece ou não nos acontece, apesar de todos os «ses», o que é preciso fazer é «cultivar o nosso jardim». Qual é, ou como é o seu jardim?
AB: O meu jardim são os meus livros, obviamente. O que é a jardinagem? É uma tentativa de mudar qualquer coisa para melhor, de aperfeiçoar, de plantar flores bonitas – mas é também uma pequena parte do mundo. É como se Voltaire reconhecesse a necessidade de esforço e de trabalho, mas também os limites do que podemos mudar. Talvez só possamos mudar um pequeno espaço, um jardim, e talvez isso esteja certo. É uma visão da vida modesta e, ao mesmo tempo, ambiciosa.”

(Publicado na edição de 24 de Abril de 2005 da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Fotografias de Paulo Alexandrino.)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ADMIRÁVEL MUNDO ANTIGO


Em 1957, quando a Agência Portuguesa de Revistas lançou Maravilhas do Mundo II, a Praça de São Marcos e o Palácio dos Doges ainda não eram sítios a evitar por quem tem um pingo de fé na raça humana. Meio século depois, pensamos em Veneza e invade-nos um prenúncio de angústia e náusea, provocadas pelo pulsar de milhões de máquinas fotográficas a disparar em uníssono, embaladas num turbilhão de línguas e sorrisos circunstanciais. É assim em Veneza, na Catedral de Notre-Dame, no Mosteiro de Montserrat, no Taj Mahal, no Coliseu de Roma ou perto de qualquer «criação assombrosa do espírito e da mão do Homem», como então exaltava o editorial. A ideia de um vai e vem de barcos turísticos passando por baixo das pernas do Colosso de Rodes, à espera do ângulo exacto à sua brônzea privacidade, só não acontece porque o desgraçado há muito se precipitou no mar, vítima de terramoto. Valha-nos isso. Olhamos para estes cromos e sentimos a nostalgia de um mundo estranhamente despovoado, que se agudiza no primeiro álbum, dedicado às «maravilhas naturais da crosta terrestre». Aqui, são sobretudo as palavras que fazem ressurgir devaneios próprios da infância, quando nomes como os Penhascos Monstruosos de Jabalpur ou os Alcantilados da Heligolândia pareciam conter mais aventuras do que a própria ficção. «Súbitas e violentas tempestades põem em risco de morrer geladas as pessoas mais robustas», lia-se, no cromo do Mar de Gelo. E crescia pelo corpo um arrepio de medo que hoje nos deixa felizes, se o conseguirmos recuperar.


(Texto publicado na edição de 15 de Maio da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia". Informação adicional: no original espanhol da Editorial Bruguera não havia cromos de «maravilhas portuguesas naturais». A Agência Portuguesa de Revistas acrescentou-lhe o Vale das Furnas, nos Açores, a Cabeça da Velha, na Serra da Estrela, e a Ilha da Madeira.)

domingo, 15 de maio de 2011

POR QUE É QUE ESCREVE?

«Essa é a pergunta fatal. Aquela a que não se pode responder com sinceridade.» (Lídia Jorge, ontem, no penúltimo dia da Feira do Livro de Lisboa, durante o encontro Vida d’Escrita, onde também estiveram Mia Couto, Mário de Carvalho e, no papel de moderador, o jornalista do JL, Luís Ricardo Duarte).

ÁRVORES, POR MANUEL ANTÓNIO PINA


"São seres silenciosos que, a nosso lado, partilham quotidianamente a mesma única vida, a sua e a nossa vida. Mal damos por elas, as árvores, tão comum e familiar é a sua antiquíssima presença perto de nós, e tão anónima. A maior parte das vezes pouco mais somos capazes de dizer do que «árvore», ou «árvores», porque também as nossas palavras se foram, pouco a pouco, tornando silenciosas. E, no entanto, cada árvore, como cada um de nós, é um ser absoluto e irrepetível, idêntico apenas mutantemente a si mesmo, uma vida única com uma história única, um passado para sempre atado, de forma única, ao nosso próprio passado."

(Do prefácio de Manuel António Pina para o livro À Sombra de Árvores com História, dos mesmos autores do blogue Dias Com Árvores: Paulo Ventura Araújo, Maria Pires de Carvalho e Manuela Delgado Leão Ramos. Foi editado pela associação de defesa do ambiente Campo Aberto, em 2004. Fotografia de Guto Ferreira, no Jardim Botânico do Porto.)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA: NOTÍCIAS DA CIDADE FELIZ


Por causa dos humores do blogger, que andou em baixo nas últimas 48 horas, O Jardim Assombrado não pôde dar os parabéns a Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011. Não que isso tenha importância alguma. O importante é o rasto de felicidade que esta notícia deixou em quem vive no “país das pessoas de pernas para o ar”, tentando vislumbrar uma luz constante sob o céu plúmbeo. Não sei se Manuel António Pina, poeta e cronista (vindo da escola do jornalismo, não um pato-bravo de rumo volúvel e nidificação previsível), é também “o maior autor da nossa literatura infantil”, como afirmou Osvaldo Silvestre ao Público (e Álvaro Magalhães, e Luísa Ducla Soares, e António Torrado?, e…). Mas é, com certeza, um dos grandes no meio de “gigões e anantes”. Paradoxalmente, os superlativos são sempre redutores: desviam o olhar do pormenor da descoberta e remetem-nos para a superfície distraída dos consensos. De resto, também os superlativos não têm importância alguma, salvo a consequência oportuna da reedição (espera-se) de alguns livros difíceis de encontrar – por exemplo, pela extinta Campo das Letras. Foi um prémio absolutamente merecido para alguém que disse, não sei onde nem quando e cito de memória, que “já cá temos bons escritores, o que precisamos é de boas pessoas”. As crianças, com o seu sentido intuitivo de justiça, são capazes de concordar. Muitos adultos, também. Nos livros de Manuel António Pina encontramo-nos para um acordo possível e temporário. Está tudo certo.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

DOIS CASOS PATOLÓGICOS DA EDIÇÃO



Quintino Tristão Gaiola é uma personagem e tanto: «Sempre foi muito trabalhador, de sol a sol, e gosta das grandes filas de trânsito porque tem tempo para ouvir canções inteiras e para ver muitas pessoas com o dedo no nariz. Gostava de ter um nome diferente, mas tem de viver com o que lhe deram. Pensando bem, os pais podiam ter escolhido um ainda pior. Não sabe qual, mas havia muito por onde escolher. Gosta de ser bom colega, mas as pessoas com quem trabalha não gostam nada que ele leia o jornal por cima dos ombros delas. Ao menos que o peça emprestado ou que compre um. As notícias continuam a ser as mesmas.»

Se gostou de Quintino Tristão Gaiola também poderá gostar de Zacarias Januário Beringela, Jeremias Ildefonso Cabecinhas ou Felício Anastácio Calhau. E mais 4092 personagens com nomes e hábitos que não lembram ao diabo. As páginas «partem-se» em três, mistura-se, volta-se a dar e surge uma nova personagem, um novo nome e respectivo B.I.. É o tipo de gente que parece que conhecemos muito bem, mas não sabemos de onde. Desejaríamos não os conhecer, se calhar. Temos dúvidas morais, porque não podem ser tão maus quanto isso. Por outro lado… não sei.

(Com textos de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria, De Caras é um dos últimos lançamentos da Pato Lógico Edições, conforme noticiámos aqui. Estrambólicos repete a fórmula, mas em criaturas bizarras. Lembram-se do Animalário Universal do Professor Revillod, da Orfeu Mini? É isso.)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

OUTROS JARDINS ASSOMBRADOS




As minhas desculpas aos leitores pela monotonia que se abateu neste blogue, mas nos últimos dias tenho frequentado obsessivamente outros jardins. De Frances Hodgson Burnett, O Jardim Secreto (1911), agora numa nova tradução de Maria de Lourdes Guimarães; e de Philippa Pearce, autora inédita entre nós, creio, Tom e o Jardim da Meia-Noite (1958), que um respeitável crítico inglês qualificou como a mais importante obra de literatura infantil na Inglaterra do pós-guerra. A tradução foi entregue a Ana Teresa Pereira, escritora que também tem um fraco por contos de fadas enigmáticos e personagens masculinas com o nome “Tom”. Ambos saíram recentemente pela Relógio d’Água.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

CURSO DE LIVRO INFANTIL: QUASE A COMEÇAR

De hoje a uma semana, começa a segunda edição do pequeno curso sobre Livro Infantil (18 horas, para ser mais exacta) que concebi para a Booktailors, destinado a estudantes, professores, bibliotecários, educadores, pais e outros mediadores da leitura junto das crianças, ilustradores, livreiros e todos os que gostam e se interessam por livros para crianças, em geral. Decorre em horário pós-laboral, das 18h30 às 21h30, ao longo de seis sessões, até 1 de Junho. Ainda há dois ou três lugares. Informações, programa e inscrições aqui.

domingo, 8 de maio de 2011

ENGLISH BY THE RECORD


A sigla AFHA quer dizer «Atrai», «Facilita», «Habilita» e «Agrada». Os autores do método, modestamente apresentado como não sendo «obra de um homem só», fizeram questão de explicitar que os ingleses «eram um povo de acção», e a sua língua idem: «Nenhum outro idioma expressa qualquer acção de uma forma mais concisa, prescindindo de considerandos, sem arabescos mentais ou preconceitos emocionais», advertiam. Pobres de nós. Ouvindo a voz de Mr. Fair (Sr. Justo) nos discos de 45 rotações, percebia-se logo que o professor virtual não era para brincadeiras. Vestido como o homem da Regisconta, chegava à porta e dizia: «Hallo. I’m Mr. Fair». Ao que o aluno virtual, um portuga calmeirão que nos livros se reduzia a uma silhueta negra sem nome, sendo tratado pela «criada» por «menino», respondia: «Ah! O senhor é o professor da AFHA?» E assim começava a aula. Mr. Fair punha e dispunha. Na lição nº 2, no papel de convidado, vemo-lo a queixar-se de que a sopa está tasteless, enquanto despeja o saleiro no prato. Depois, tortura uma criança com perguntas infindáveis («What is this? What is that? Where is the picture?»), para mais à frente mostrar os seus princípios educativos: «Como preferes os teus morangos, com vinho ou com sumo de laranja?». Por favor. A catraia tem para aí uns cinco anos! Isto é tanto mais ultrajante quando se sabe que Mr. Fair não toma vinho às refeições. Só bebe água ou leite, o sonso. Que fazer com um professor assim? Obviamente, demiti-lo. Prescindindo de «considerandos» e com todos os «preconceitos emocionais» a que temos direito.

(Texto publicado na edição de 8 de Maio da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sábado, 7 de maio de 2011

A ARTE DE PERDER


One Art, de Elisabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


(Ilustração de Cristiana Cerretti para o livro Ascolto, Guardo, de Cosetta Zanotti, Edizioni Lapis, 2009. Com um abraço para a Paula Jacinto Cusatti.)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

UMA COLECÇÃO A NÃO PERDER


Francisco Vaz da Silva, professor universitário e investigador do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional - IELT (não confundir com o editor da Bags of Books, com quem, por coincidência, partilha o mesmo nome), é o autor de uma nova colecção que tem tudo para tornar-se referência no campo dos contos tradicionais, contos maravilhosos ou contos de fadas – designação abrangente para um género universal, sem começo nem fim, que continua em permanente reinvenção no cinema, na publicidade ou na literatura. Gata Borralheira e Contos Similares estará à venda nas livrarias a partir de 20 de Maio, numa edição Temas & Debates/Círculo de Leitores. Seguem-se Capuchinho Vermelho Ontem e Hoje (Setembro) e Mulheres de Outro Mundo – Fadas e Serpentes (Novembro). Já em 2012, sairão, pela seguinte ordem: Matadores de Dragão, Princesas Resgatadas; A Bela e o Monstro – Contos de Encantamento; A Morte Madrinha, Polegarzinha e Outros Contos; Branca de Neve e suas Irmãs. Mais informação sobre o autor, enviada pela editora:

“Francisco Vaz da Silva é professor no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) e investigador no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Universidade Nova de Lisboa. Faz parte do comité redactorial da revista especializada Marvels & Tales (EUA) e leccionou cursos sobre contos maravilhosos em várias latitudes, nomeadamente na Universidade da Califórnia em Berkeley, na Universidade da Islândia e no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras de Lisboa. Os sete volumes de Contos Maravilhosos Europeus espelham trinta anos de trabalho e explorações neste domínio.”

quinta-feira, 5 de maio de 2011

GATO LEITOR

O Radar, pensativo, depois da leitura do último livro de Luísa Ducla Soares, Um Gato Tem 7 Vidas. Ele sabe.

INQUIETAÇÕES DOMÉSTICAS


É impossível folhear o livro de Pablo Prestifilippo sem que imediatamente surja à memória o genial e inclassificável Catalogue d’Objets Introuvables, de Jacques Carelman, publicado em 1969. Se Carelman nos apresentou à máquina de escrever hieróglifos, à luva de pele de cacto e à cafeteira para masoquistas, entre dezenas de outras criações insubmissas, Pablo Prestifilippo revolucionou a orgânica dos objectos domésticos emprestando-lhes um cunho selvagem e ameaçador, que justifica o subtítulo da obra: Catálogo de Objectos Travessos – Toda a Verdade Sobre as Feras que nos Espreitam Lá em Casa. As «luvas ambulantes», as «camas doidivanas», as «torneiras ressentidas» e as «dentaduras postiças» são disso exemplo: «Este bivalve bucal fixa-se às gengivas e estabelece uma relação de mútua colaboração com o organismo que o aloja, geralmente um avô ou uma avó». Na verdade, não há nada de perigoso nestes delírios poético-surrealistas, a menos que se encare o humor como uma ameaça. Para quem é o livro? Como outros da mesma chancela da Kalandraka, recomenda-se para o leitor juvenil e adulto, sem que tal seja uma prescrição exacta.

Catálogo de Objectos Travessos
Pablo Prestifilippo
Tradução de Elisabete Ramos
Faktoria K de Livros

(Texto publicado na edição da LER nº 102. Pablo Prestifilippo nasceu na Argentina, em 1960. Deixou mais de três dezenas de livros da sua inteira autoria, antes de morrer em Barcelona, com apenas 48 anos.)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

GATOS E ESCRITORES


A minha amiga MLC enviou-me o link para o blogue Weimar Art, que contém uma das mais interessantes selecções de fotografias de escritores e gatos; não só pela qualidade e originalidade das imagens (algumas nunca tinha visto), como pelo pormenor de juntar o nome do felino ao do seu tutor. De onde se prova que os bichos, na maior parte dos casos expostos, acolheram – que remédio – as designações das personagens ou dos livros dos autores. Exemplos: George Bernard Shaw, Pygmalion; Jorge Luis Borges, Aleph; Julio Cortázar, Bestiario; Mark Twain, Huckleberry; Patricia Highsmith, Ripley; Allen Ginsberg, Howl (Ok, se alguém pensou em chamar Uivo ao seu gato, não foi o único). Com os resultados que se conhecem, alguns nomes revelam também as obsessões, digamos, menos saudáveis dos escritores, como o Junkie de William S. Burroughs ou o Daddy de Sylvia Plath. Há ainda um punhado de escritores-filósofos que baptizaram os felinos inspirando-se directamente nos temas e conceitos das obras: Jean Paul Sartre, Nothing (Rien, presume-se, porque o blogue é de lingua inglesa); Albert Camus, Stranger; Michel Foucault, Insanity; Jacques Derrida, Logos. Na fotografia acima, em estado de graça, um dos maiores "cat lovers" de sempre: Edward Gorey, com Harp, Brown e companhia na casa de Cape Cod, EUA, onde estivemos há uns anos. Estão todos aqui: vejam.

terça-feira, 3 de maio de 2011

COMO ESCOLHER LIVROS PARA CRIANÇAS


Depois da estreia na Cabeçudos, no dia 12 de Março, esta acção de divulgação, pensada para um público generalista que escolhe e compra livros para crianças, repete-se na Livraria Letraria, em Miraflores, Lisboa. Seguem-se mais informações. Apareçam. É já no próximo domingo.

«Posso comprar bons livros para crianças por menos de dez euros?». «Um livro com ilustrações é para que idade?». «Que livro dou a uma criança que faz anos, mas não conheço?». «A minha filha não gosta de ler, que faço?». «Para quê dar livros que falem sobre a morte, se a vida já é difícil?».

Estas são algumas das dúvidas que passam pela cabeça de quem entra numa livraria e se dirige à secção infantil, sozinho ou com crianças. O que deve ser uma experiência emocionante pode transformar-se numa perda de tempo, paciência e dinheiro. Mas escolher um livro é algo demasiado importante para ser deixado ao acaso. As boas histórias falam ao ouvido emocional da criança, por imagens e por palavras. Vale a pena investir tempo, sentido crítico e sabedoria de vida nessa escolha. Durante uma acção de três horas, vamos falar de critérios que ajudam a seleccionar livros por idades, interesses, personalidades, temas, autores, editoras e outros tópicos. E, claro, vamos mostrar dezenas de livros. Porque quem não sabe, é como quem não lê.

Destinatário: Pais, educadores e público adulto em geral
Data e horário: domingo, 8 de Maio, das 10h30 às 13h30
Local: Livraria Letraria - Dolce Vita Miraflores - Loja 0.06
Contacto: 21 410 5580
Preço: 20 €
Duração: 3 horas

QUATRO LIVROS PATOLÓGICOS




No próximo sábado, dia 7, na Feira do Livro de Lisboa, a Pato Lógico vai lançar quatro novos títulos, dois deles com texto e ilustração de André Letria – e os outros dois repetindo a dupla benfiquista de Domingo Vamos à Luz, Letria-pai e Letria-filho, com o qual não ganharam o campeonato mas ganharam um belo prémio em Espanha, conforme noticiámos aqui.

SOB O SIGNO DO FANTÁSTICO



Cristina Carvalho, autora da novela O Gato de Upsalla (Sextante), lançou um novo conto ilustrado por uma portuguesa (Alcobaça, 1986) estabelecida em Londres, que tem aqui o seu primeiro livro na área da literatura infanto-juvenil: Miz Lucas. A edição é 7 Dias 6 Noites. Quase ao mesmo tempo, acaba de sair A Casa das Auroras (Planeta), um romance imbuído do lirismo gótico de Cristina Carvalho, a julgar pela sinopse que nos acaba de chegar: “Uma jornalista chega a uma pequena aldeia da zona oeste, perto do mar, com o intuito de escrever uma peça sobre duas mulheres que terão vivido juntas em determinada casa da aldeia, conhecida como A Casa das Auroras. Encontra um velho, um miúdo e um cão, que a orientam para a dita casa, que tem fama de assombrada desde há muito e que é a mais antiga do lugar.”

segunda-feira, 2 de maio de 2011

CORRESPONDÊNCIAS, 1




“La nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.”

(Fotografia de Guto Ferreira meets Correspondances de Baudelaire meets Na Noite Escura de Bruno Munari.)

ENCONTOS E ENCONTROS NO INSTITUTO PIAGET

Nicolás Buenaventura Vidal, contador de histórias de origem franco-colombiana, foi uma das sensações das últimas “Palavras Andarilhas”. Vamos poder vê-lo e ouvi-lo no dia 9 de Junho, ao fim da tarde, no campus universitário de Almada do Instituto Piaget. Trata-se de um espectáculo aberto ao público em geral que surge na sequência de uma acção de formação sobre o tema dos contadores. Esta decorrerá no dia 28 de Maio, em duas sessões distintas, orientadas por Maria Teresa Meireles, investigadora na área dos contos tradicionais (“Conto, contadores e imaginário tradicionais”, assim se designa a acção), e Mafalda Milhões, livreira da Histórias com Bicho (Óbidos), contadora e mediadora de leitura, cuja formação se subordina ao tema “Intimidades na leitura”. As inscrições para a formação dos "Encontos e Encontros" de dia 28 custam 30 euros e as entradas para o espectáculo de 9 de Junho custam cinco. Informações pelo telefone 212 946 263.

OS CONTOS E OS MEDOS


A partir de hoje e até 13 de Maio, estão abertas as inscrições (gratuitas) para a acção de formação “Os Contos e os Medos”, uma proposta que a agrega a leitura em voz alta de um conjunto de histórias com o pensamento teórico na área da psicologia, explorando o tema dos medos no universo do desenvolvimento infantil. A formação decorre no dia 17 de Maio, das 10h00 às 17h30, na Biblioteca do Entroncamento (Tel. 249 720 400). A formadora é Ana Mourato, psicóloga educacional, mestre em Educação e Leitura e pós-graduada em Livro Infantil (e dinamizadora do projecto Ouvir o Falar das Letras). Recomendamos!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

AFONSO CRUZ E O IRMÃO INSEPARÁVEL


Lembramo-nos mais de Afonso Cruz como escritor ou como ilustrador? Nascido em 1971, na Figueira da Foz, o autor de A Contradição Humana (Caminho) é também músico e realizador de filmes de animação. Ganhou o prémio Maria Rosa Colaço 2009, na modalidade juvenil, com Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho). Ao vencer o prémio SPA/RTP para melhor livro infanto-juvenil de 2010, demonstrou que escritor e ilustrador podem ser irmãos inseparáveis. «Foi o primeiro trabalho do género que fizemos em conjunto e acho que correu bastante bem», contou à LER.

Nota-se uma grande evolução no seu trabalho, desde os primeiros livros, muito próximos do registo do André Letria. Agora é mais fácil descolar do texto para apresentar a sua visão de autor?
Acho que essa proximidade ao André – um dos nossos melhores ilustradores – se deve ao modo como ambos tratamos as imagens, com pinceladas. Por curiosidade, os meus primeiros livros tinham umas ilustrações bastante diferentes, como é exemplo Elvis, O Rei do Rock. Depois, também me parece outra coisa: quando surge um autor novo, tenta-se sempre arrumá-lo na gaveta de alguma coisa conhecida. Passados uns anos, ele pode continuar a fazer exactamente a mesma coisa, mas já não é referenciado e colado a outros, tornando-se uma referência ele próprio. Espero que me aconteça a mim.

Com A Contradição Humana sentiu-se mais livre para fazer o que quisesse, por comparação com as dezenas de livros em que ilustrou o texto de outros autores?
Sim. Acho que pude conciliar melhor o texto e a imagem. O próprio texto é uma ilustração. Tentei que as letras chamassem a atenção para as contradições, quase de um modo panfletário. É que algumas das coisas estranhas à nossa volta escondem-se nas maiores trivialidades. A banalidade é o melhor esconderijo para as coisas extraordinárias.

Quando escreveu «com o devido espírito de contradição» na capa – um elemento peritextual raro nos picture books – qual era a intenção?
O ilustrador achou que dava uma nova dimensão à caça das contradições que andam à nossa volta. E lá dentro há alguma intertextualidade, como aliás acontece na maior parte dos meus livros. Por exemplo, a senhora Agnese, aquela que, apesar de estar grávida projectava apenas uma sombra, é uma personagem de Enciclopédia da Estória Universal, autora de três livros: A Borboleta Taoísta, Comédias Modernas e Filosofia Doméstica para Serviçais. Também aparece em A Boneca de Kokoshcka. Tem uma livraria em Paris e uns óculos com lentes sujas.

Acharia justo que os ilustradores dividissem com os escritores o prémio de Melhor Autor de Livro Infantil da SPA? Ou, pelo menos, que fossem nomeados?
Claro, acharia justo. A categoria é de literatura e deixa de lado as ilustrações, que são parte fundamental destes livros. Deveria ser, talvez, Melhor(es) Autor(es) de livro Infanto-juvenil, em vez de Melhor Literatura Infanto-juvenil. Isso permitiria que vencesse um conjunto escritor/ilustrador ou apenas o ilustrador, no caso de não ter texto, ou apenas o escritor, no caso de não haver imagens.

Que qualidades são necessárias a um bom picture book?
Acho que é muito importante ter uma boa ideia, daquelas que chegam a lugares onde nenhum homem pisou. Depois executá-la com eficiência, tanto com a ajuda das palavras como das ilustrações. Devemos saber deixar ambas respirarem e saber que a ilustração consegue, muitas vezes, descrever situações com mais eficiência do que as palavras e que em outras ocasiões é exactamente ao contrário.

Peter Hunt, uma das sumidades nesta matéria, diz que a
literatura infantil «define-se exclusivamente em termos de um
público que não pode ser definido com precisão.» Não sei se
subscreve, mas um livro como A Contradição Humana é um bom exemplo disso. Como foi trabalhar nessa linha indefinida?

Concordo, claro. A literatura infantil tem a particularidade de poder chegar aos avós tanto quanto aos netos. Mas, na verdade, quase tudo o que escrevi anda nessa linha indefinida. É onde me sinto melhor.



(Entrevista publicada na edição nº 101 da LER. Para recuperar alguma informação que se perdeu na paginação, a entrada foi modificada e aumentada. Ilustração do autor, retirada daqui.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

HOJE HÁ TERTÚLIA PEQUENAS LEITURAS

Ok, já estamos em cima da hora, mas queremos lembrar que a Tertúlia Pequenas Leituras, dinamizada mensalmente na Livraria Bulhosa Campo de Ourique (Lisboa) acontece HOJE, dia 27 de Abril, às 18h30. O mote é "o muito pequeno e o muito grande", o que pode apontar para a dimensão física do livro, para a ilustração ou para o próprio tema abordado no texto. Escusado será dizer que todos estes saberes são partilhados com muitos livros em cima da mesa.

FEIRA DO LIVRO DE LISBOA COMEÇA AMANHÃ


Feira do Livro com frio e chuva – como aconteceu o ano passado, em Lisboa – não tem graça nenhuma. Para já, o tempo está uma maravilha, por isso é de aproveitar, a partir de amanhã (no Porto, a Feira do Livro começa a 26 de Maio). Há um site para acompanhar a programação, do qual destacamos dois debates, ambos no auditório, já no próximo fim-de-semana: “Leitura à Rasca”, com moderação de Teresa Sampaio (dia 30, às 16h30), e “Os Melhores Livros do Ano – Infantil e Juvenil”, com moderação de Sara Figueiredo Costa (dia 1, às 17h30). Siga os acontecimentos aqui.

SITE DEDICADO A SOPHIA


Estamos na última semana para visitar a exposição “Sophia de Mello Breyner Andresen – Uma Vida de Poeta”, comissariada por Paula Morão e Teresa Amado, e patente na Biblioteca Nacional desde Janeiro. Retardatários, apressem-se. A última das visitas guiadas por Maria Andresen acontece na próxima sexta, 29 de Abril, às 11h00. Se ainda houver lugar, as inscrições fazem-se pelo telefone 217 982 167. Entretanto, para quem não pode mesmo ver a exposição – ou quer prolongá-la na memória –, acaba de ser divulgado um site que reproduz muitos dos objectos, imagens e textos presentes, acabando por ampliar o itinerário da vida e obra de Sophia. A não perder, aqui.

UM LIVRO É UM LIVRO É UM LIVRO


“Assim que recebi este volume, li-o aos meus dois filhos, de seis e quatro anos. O entusiasmo foi imediato. Chegados ao fim, pediram em uníssono: «Pai, Pai, lê outra vez.» E eu li outra vez. E outra vez. E outra vez. À quinta leitura, já sabiam os diálogos de cor. Depois, foram os dois para o quarto e eu ouvi-os a folhear as páginas, para trás e para a frente, enquanto fingiam, ora um, ora outro, as vozes do macaco e do burro. «Precisa de palavra-passe?» «Não!» «Isto é um livro, Burro!»”

(É Um Livro, do escritor e ilustrador norte-americano de Lane Smith, passou num dos testes mais difíceis. Para quem não conhece – ainda... – recomenda-se a crítica do José Mário Silva, publicada no Bibliotecário de Babel. Ler na íntegra aqui.)

terça-feira, 26 de abril de 2011

I'M BACK IN THE USSR


Era a época em que a Praça Vermelha tinha mais graça do que O Capuchinho Vermelho. Muitos livros para crianças eram impressos na antiga União Soviética, traduzidos do russo. Caso das Edições Malich, que chegaram cá no final dos anos 1970 e 80. Moscovo de todos nós.

Os hábitos de leitura mudaram com a Revolução dos Cravos. Passada a era dos heróis beatos e das gestas patrióticas, os adultos aplicaram-se a decifrar obras como a Economia e Organização da Agricultura na Bulgária, ao mesmo tempo que difundiam os contos tradicionais russos pela sua prole. Histórias de fadas e princesas pareciam agora disformes à luz do socialismo, e apareceu todo um manancial de livros portadores de novas influências e valores. As crianças eram apanhadas a ler adaptações de contos de Tolstoi, Gorki, Tcheckov, Lermontov ou outro grande escritor cuja obra «se caracterizava por um profundo pessimismo». De repente, despontou uma estranha curiosidade infantil à volta de certas palavras («que quer dizer samovar?», «que é um tártaro?», «que é um cossaco?»), a que só alguns crescidos sabiam responder. No meio desta estimulante dinâmica geracional, surgiram livros irresistíveis em formato pop-up, mostrando os monumentos da Praça Vermelha a três dimensões, uma coisa formidável. Moscovo, de Eveguéni Ossetrov, faz parte da mesma colecção que deu a conhecer os feitos de V. Sevastianov, piloto cosmonauta da URSS. Falava das estrelas rubis nas torres do Kremlin, das óperas no Teatro Bolshoi, dos ícones de Andrei Rubliov e de um lugar ao sol nas colinas Lénine, o Palácio dos Pioneiros, conhecido como «o mundo das crianças alegres». Aí se podia «observar a Lua e as estrelas pelo telescópio, ou construir um robot falante». Soava melhor do que contos de fadas, é certo.

(Texto publicado na edição de 24 de Abril da Notícias Magazine, revista de domingo no Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia". O título deste post só podia vir daqui.)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ


«Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler na mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira à superfície, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.»

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução livre de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)

VOLUNTÁRIOS DA LEITURA


Falta pouco para o Dia Mundial do Livro, este ano assinalado com o cartaz de um dos nossos mais prestigiados ilustradores, João Vaz de Carvalho. Porque estamos no Ano Internacional do Voluntariado, a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) lançou o programa Voluntários da Leitura, com o intuito de incentivar o voluntariado "a nível de projectos concebidos para populações em situação de isolamento ou de exclusão social. Pretende-se, assim, chamar a atenção para a importância do livro e da leitura, mostrando que eles melhoram significativamente as condições de vida das populações.” Todas as informações sobre o regulamento e candidaturas podem ser consultadas no site da DGLB, aqui.

MESES QUE MUDAM VIDAS


E aconteceu esta coisa extraordinária. Cynthia Grow, a norte-americana que conheci em Can Serrat, durante a residência de escritores da DGLB (falei dela nest post), mudou-se para lá de armas e bagagens, no fim de Março, para ser uma espécie de “curadora” dos artistas. Da Carolina do Norte para Barcelona é um passo maior que a vidinha. Adoro quando somos capazes de fazer isso. Força, Cynthia. Aqui, o relato das aventuras: Cynthiagrow.com.

A FLOR DE ABRIL


Manuel António Pina vai apresentar A Flor de Abril, um livro de Pedro Olavo Simões e Abigail Ascenso, recentemente editado pela Quid Novi. É no próximo sábado, Dia Mundial do Livro, na FNAC Santa Catarina (Porto), às 16h00. Como estamos quase de partida para o Norte, somos bem capazes de aparecer. Aqui fica mais informação sobre os autores, enviada pela Quid Novi:

“Pedro Olavo Simões nasceu num Abril anterior à Primavera de 1974 na cidade do Porto, que ama e onde vive. É jornalista desde 1990, exercendo a sua actividade desde a primeira hora no Jornal de Notícias. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem, com frequente irregularidade, tentado combinar o registo jornalístico com os caminhos da historiografia, publicando, em páginas de jornal, trabalhos de divulgação do passado.”

“Abigail Ascenso nasceu em Leiria, em 1979. É licenciada em Design de Comunicação/Arte Gráfica pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Fundou em 2003, com Fedra Santos, o atelier Furtacores Design e Comunicação, onde tem desenvolvido trabalho nas áreas de design gráfico, fotografia e ilustração infantil. Entre os livros infantis que ilustrou, contam-se As Visitas do Pai Natal e Será que Sou Neto da Bruxa?, de José Viale Moutinho; A Minha Irmã e Eu, O Meu Irmão e Eu e O Abecedário Mágico, de Maria Teresa Maia Gonzalez; e Gaspar, o Dedo Diferente, de Ana Luísa Amaral. Como ilustradora, colabora também regularmente com a revista Pais & Filhos.”

quarta-feira, 20 de abril de 2011

HERVÉ TULLET, O PRÍNCIPE


Fiquei a saber pelo neozelandês Beattie’s Book Blog que Hervé Tullet é conhecido em França como “o príncipe dos livros pré-escolares”. OK. Certo, certo, é que este é um dos objectos mais estimulantes publicados recentemente em Portugal – graças à Edicare, que faz livros bem feitos a preços muito simpáticos. Para conhecer melhor “o príncipe dos livros pré-escolares” visitem o site e não se esqueçam de fazer uma vénia.

LITERATURA INFANTIL E NOVAS TECNOLOGIAS

Estão abertas as inscrições para o I Congresso de Literatura Infanto-Juvenil e Novas Tecnologias, marcado para os dias 7 e 8 de Maio (Braga). Programa e todas as informações aqui.