segunda-feira, 12 de setembro de 2011

V CONFERÊNCIA DO PLANO NACIONAL DE LEITURA


Amanhã e depois, na Fundação Calouste Gulbenkian, muitas horas para falar de livros, leituras e leitores. Nós também vamos estar presentes no painel das 14h30. Programa completo aqui.

domingo, 11 de setembro de 2011

BRANCO SOBRE AZUL


O sabão azul e branco responde pelo improvável nome técnico de «sabão offenbach», uma espécie de cartão de visita para impressionar quem se interessa por nomes sonantes – neste caso, o da cidade alemã homónima onde terá tido origem. À parte isso, é o sabão mais português que existe, com todas as contradições implícitas em tal opção. Visto de fora, é uma amálgama concreta de ingredientes naturais, cujo maior peso provém dos quase 50 por cento de matéria gorda que o diferenciam de outros sabões e sabonetes. Não deixa de ser curioso pensar que um produto vocacionado para combater a sujidade – nódoas de gordura, por exemplo – comporte em si mesmo as causas do problema; mas esse é um paradoxo antigo, procedente de épocas remotas em que o azeite se usava para lavar o corpo. Não consta que alguém tenha sujado as mãos por causa disso. Mais interessante, porém, é o sabão azul e branco quando visto por dentro, após golpe de lâmina certeira. É aí que perde a faculdade de ser apenas concreto e se revela em imprevisíveis nuances e ramificações marmóreas, que tanto lembram os contornos da deriva dos continentes como as formações nebulosas do céu. Esta poética da reconstrução das formas é algo que nenhum detergente em pó consegue reproduzir, por mais sofisticado que seja. Contrariando todos os prognósticos, falta dizer que o sabão azul e branco está para o sul de Portugal como o seu equivalente rosa e branco está para o norte; onde, por tradição, regista maior número de adeptos. De um sabão português é lícito esperar todas as contradições.

(Texto publicado na edição de 11 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CONVERSAS DE BAIRRO À VOLTA DOS LIVROS


No próximo dia 15 de Setembro (de hoje a uma semana), pelas 18h30, estarei presente na Bulhosa de Campo de Ourique para uma das "Conversas de Bairro", juntamente com a Andreia Brites e a Sara Figueiredo Costa (moderação). Tema: "Livros para crianças ou livros que também podem ser lidos por crianças?". Não se presta a esclarecimentos fáceis nem a conclusões definitivas. Mesmo assim - ou por isso mesmo - apareçam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O TESOURO DO RIO


O Silêncio da Água é um fragmento retirado do livro As Pequenas Memórias, evocação autobiográfica da infância e primeira adolescência de José Saramago. Descreve um episódio não extraordinário no quotidiano de um rapaz do campo: o dia em que um peixe do rio morde o isco e, depois de alguma luta, lhe arrebata os «petrechos de pesca», deixando-o com uma «cana inútil e ridícula nas mãos». O rapaz insiste, correndo a casa para «armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas com o monstro». Valendo por si próprio, o texto ganha outra nitidez e intensidade emocional graças às ilustrações de Manuel Estrada (Madrid, 1953), que atribui à água as qualidades da escrita – as letras dispersas na torrente conduzem a essa extrapolação simbólica. A luta do protagonista transforma-se, assim, no resgatar da linguagem às profundezas do rio, sendo a cana o equivalente às ferramentas do escritor. Nesse dia, o «monstro» não volta, como é de prever. Porém, com o anzol nas guelras, à semelhança de Moby Dick, será alvo de uma perseguição incansável até que devolva a palavra certa. O que acabou por acontecer.

O Silêncio da Água
José Saramago
Ilustrações de Manuel Estrada
Caminho

(Texto publicado na edição da LER nº 105, secção “Leituras Miúdas”. Manuel Estrada, um dos mais conceituados artistas gráficos espanhóis, assina o design editorial dos livros de José Saramago na Alfaguara.)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TUDO O QUE SEMPRE QUISEMOS SABER SOBRE SEXO (VÁ LÁ, QUASE TUDO)


A Enciclopédia da Vida Sexual foi publicada em português pela Livraria Bertrand (e também pelo Círculo de Leitores) no ano seguinte à Revolução dos Cravos. No Portugal recém-saído da casca, as capas dos cinco livros que compunham a colecção denotam uma liberdade de costumes hoje impensável. No primeiro volume, dedicado aos 7/9 anos, duas crianças nuas posam descontraidamente numa cadeira estilo Emanuelle, e no segundo (10/13 anos) correm pela praia de mãos dadas, sorridentes e felizes na sua revisitação do Paraíso. Há muito que não se vêem capas assim na secção infanto-juvenil das nossas livrarias, e nem vale a pena explicar porquê. Os autores da Enciclopédia da Vida Sexual, quatro médicos franceses, afirmavam que «nenhuma censura devia existir» e apontavam Camus, Sartre e Malraux como «modelos» para os adolescentes de então. «A educação sentimental é, antes de tudo, uma situação vivida e nada substitui a experiência pessoal», acrescentavam. Quando um livro consegue a proeza de juntar referências a Camus, Sartre e Malraux (e ainda Baudelaire, Diderot, Laclos, Fellini…), ao mesmo tempo que tenta responder a perguntas tão irrespondíveis como «qual é a razão de ser da adolescência?» ou «porquê permanecer casto?», temos obra. Por tudo o que fez pelo esclarecimento de uma geração sem acesso à internet nem aos documentários do canal Odisseia, já para não falar nos Morangos com Açúcar, a Enciclopédia da Vida Sexual merece ser erigida no cânone das leituras memoráveis, sobretudo se foram feitas às escondidas.

(Texto publicado na edição de 4 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SETEMBRO É TEMPO DE RECOMEÇOS


Porque o fim de uma coisa é sempre o princípio cativo de outra coisa qualquer – quantas vezes maior e mais forte –, não é com penas nem melancolias de chuva pré-outonal que O Jardim Assombrado termina o silêncio das últimas semanas para anunciar o fim de A Bruxinha, suplemento infantil do semanário Região de Leiria coordenado por Sílvia Alves – autora, contadora de histórias e uma das pessoas que mais têm contribuído para a divulgação da literatura para crianças nos últimos anos. Para a Sílvia, vai um grande abraço e o desejo de outros voos e outras latitudes. O texto que se segue corresponde à última crónica publicada no Região de Leiria, a 27 de Agosto de 2011:

“Os hábitos de leitura fazem-se de pequenos passos. Os leitores do futuro são as crianças que começam a fazer caminho. A Bruxinha começou há doze anos a falar de livros e leitura, muito antes de um PNL decretar esse caminho. Os jornais estão em reinvenção lenta de um saber fazer que pede a articulação da tradição do papel com novos caminhos que se abrem online. Os que souberem ver mais longe construirão o futuro. A rapidez da notícia viverá a par da narrativa mais detalhada mas, num ou noutro formato, não haverá jornais grátis: são feitos de pessoas e do seu trabalho que tem um preço inalienável.

Hoje, com memorandos hostis a ditar tempestades, a Bruxinha chega ao fim. No seu coração, amarrotado já de saudade, leva a esperança de ter deixado algumas sementes de bons leitores. A eles e a todos os que, em doze anos, comigo colaboraram desejo as maiores felicidades. Continuaremos a encontrar-nos nos livros e nas histórias contadas onde nascem e vivem para sempre as Bruxinhas de Papel.

Esta é também, ao fim de sete anos, a minha última crónica no Região de Leiria. O sempre e o nunca são palavras armadilhadas, neste tempo de estender mapas e descobrir novos rumos. Do fim diz Agustina: “O que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa". Seja.”


(Na imagem: pormenor de pintura de Fátima Mendonça, 1997.)

domingo, 31 de julho de 2011

EM POUSIO


O Jardim Assombrado vai recolher-se por uns dias. Ou umas semanas. (Ilustração de Joana Rêgo para a Kalandraka.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

O CÉREBRO E A FLOR SELVAGEM


Calpurnia Tate é uma menina de onze anos, nascida no Texas e filha de boas famílias, a quem a tradição e a moral do século XIX predestinam o recato da vida doméstica, sem outros entretenimentos que não a gestão da copa e da cozinha – e a procura de um bom partido para casar. O tédio feito existência, dito de outra maneira. Porque Calpurnia Tate é também uma menina curiosa e inteligente, fascinada pelas descobertas científicas do século de Darwin, cuja natureza instintiva quer mais do que crescer entre barrelas de roupa e tartes de nozes pecã, por muito doces que estas sejam. Um avô naturalista, homem de poucas falas e nenhuma inclinação por crianças, vai ajudá-la a entender o vasto mundo que cabe entre o céu estrelado e um olhar microscópico, o mundo a que Calpurnia Tate escolheu pertencer. Não é líquido que o consiga, mas, chegados à última página, outra coisa não podemos desejar.

A Evolução de Calpurnia Tate é um belíssimo primeiro livro de Jaqueline Kelly, autora neozelandesa que se estreou a ganhar o Prémio Newbery, em edição da Contraponto. Para todas as idades.

domingo, 24 de julho de 2011

A TABUADA PORTUGAL


Longe de ser tão popular como a tabuada Ratinho, a tabuada Portugal não traz data nem chancela do editor, mas apresenta inequívocos sinais de antiguidade. Não é só pela esfera armilar da capa e pelo menino de cabelo aparado à escovinha; nem pelos conteúdos (como hoje se diz) que nos falam da velha moeda portuguesa e das medidas de lenha… São já as noções básicas de aritmética que temos dificuldade em compreender. Por exemplo, frases como esta: «São quatro as operações de que nos servimos para resolvermos os problemas que se nos deparam: adição, subtracção, multiplicação e divisão.» Ora, se as coisas fossem assim tão simples, os nossos problemas estariam resolvidos. Mas a tabuada é um sistema de valores do tempo em que acreditávamos que 3x2 maçãs era igual a seis maçãs, e repetíamos aquela lengalenga com a convicção e a humildade dos crentes. Não comprávamos maçãs a crédito, nem pedíamos mais crédito para pagar os juros do crédito sobre as maçãs. Agora, 3x2 maçãs pode ser igual a seis mil maçãs ou a zero maçãs, dependendo do lado para que acorda a bolsa de Nova Iorque. A aritmética real foi substituída pela aritmética virtual, e nunca os números foram tão manipulados como hoje. Entretanto, esquecemo-nos da tabuada, essa coisa tão repetitiva e remediada. Deixámos de ser os «bons alunos» da Europa e perdemos as graças dos professores, que passaram a tratar-nos como delinquentes. Que fazer? Há que voltar atrás e reaprender a fazer contas. Vai uma maçã?

(Texto publicado na edição de 24 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CITY-BREAKS: ALTO MINHO

Vou lá visitar parentes.

(Fotografia de Manoel Carneiro, início do séc. XX. Grupos da Gandarela: família rural. Edição do Museu Nogueira da Silva, Universidade do Minho.)

IRMÃOS GRIMM EM TESE DE DOUTORAMENTO


Os Contos de Grimm em Portugal - A Recepção dos Kinder-und Hausmärchen entre 1837 e 1910, de Maria Teresa Cortez, professora da Universidade de Aveiro, é uma edição Minervacoimbra, do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos e da Universidade de Aveiro, e foi publicado em 2001. Creio que esta é (ou era, até há pouco tempo) a única tese de doutoramento em Portugal versando a literatura para crianças. Se estou a dizer “inverdades”, por favor corrijam-me. Naturalmente, este post vem na sequência do anterior, sobre o simpósio internacional dos Irmãos Grimm que está a ser preparado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

OS IRMÃOS GRIMM EM PORTUGAL


Como muitas das personagens dos seus contos, os Irmãos Grimm também passaram fome e toda a sorte de privações, a partir do momento em que Philipp Grimm morreu subitamente, com apenas 44 anos, deixando mulher e seis filhos na pobreza. Jacob e Wilhelm Grimm enfrentaram a vida árdua dos colégios internos, mas a possibilidade de estudarem – graças à ajuda de uma tia – permitiu-lhes tornarem-se alunos brilhantes e, mais tarde, especialistas em literatura medieval. A maior parte das cerca das duas centenas de contos recolhidos da tradição oral, na região alemã do Hesse, de onde eram originários, provêm da Idade Média e destinavam-se a ser contadas entre adultos, o que explica a sua violência e crueldade intrínsecas, bem como a explicitação de uma série de interditos sexuais – caso do incesto, presente em muitíssimos contos. Na primeira recolha, dada à estampa em 1812, os Irmãos Grimm mantiveram-se fiéis a estas versões mais cruas, que foram sendo progressivamente suavizadas nas colectâneas seguintes, incorporando os valores da sociedade burguesa e cristã da Alemanha do século XIX, quando a literatura de tradição oral conheceu um público mais amplo: as crianças.

Ouviremos falar muito dos Irmãos Grimm em Junho de 2012, quando Lisboa for palco de um grande simpósio internacional que está a ser preparado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, com a coordenação de Francisco Vaz da Silva, de quem já falámos aqui. O deadline para o envio de propostas de comunicação é o dia 4 de Setembro. Mais informação e uma amostra do apetitoso programa pode ser encontrada no site do IELT.

terça-feira, 12 de julho de 2011

QUE FAZER COM ESTES LIVROS?





O que está num esconderijo secreto? Como são os monstros escondidos debaixo da cama? Como se desenha e pinta uma trovoada? O que cresce nos feijoeiros mágicos? Estes são alguns dos 200 desafios lançados por Nikalas Catlow, ilustrador e designer de livros infantis e autor de E Tu, Rabiscas?, um livro para usar com lápis de cor (ou de cera, ou guaches, ou aguarelas, ou…) e imaginação ilimitada. Além desta edição recente da Gailivro, vale a pena lembrar também dois livros de actividades da colecção Orfeu Mini, ambos de origem francesa: Dias Felizes e Caderno de Pintura para Aprender as Cores – na imagem, ainda na edição original, porque o grande formato não se presta ao scanner. Três bons livros de actividades para levar na bagagem de férias e manter miúdos (e graúdos) entretidos fora das PS3.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O COPO MEIO CHEIO


O leitor pode pensar que ainda ontem viu esta garrafa, e é quase verdade. Ainda «ontem», isto é, há cinco anos, as garrafas de vidro de um quarto de Vigor faziam parte do cenário habitual dos cafés e pastelarias; tão habitual que há quem não tenha notado o seu desaparecimento. É sempre assim: uma pessoa distrai-se e acaba a fazer fintas à memória, a teimar que ainda «ontem» viu coisas que já se perderam de vista. Para todos os efeitos, as garrafas de um quarto de Vigor desapareceram em 2006, e com elas a esperança irrealista de que não nos obriguem a ser cada vez mais sofisticados. Que não nos obriguem a escolher entre leite sem lactose, vitaminado, com cálcio, ómega 3, magnésio ou outro ingrediente «essencial», porque tantas escolhas deixam-nos cansados e, pior, só são válidas até ao próximo estudo científico que vem negar o anterior. Uma das alegrias do leite Vigor, para além de um nome que não engana ninguém (do latim vigore, força vital), é o facto de valer por si mesmo, dentro daquela garrafa de vidro tosca e robusta que surgiu há 60 anos, no contexto do pós-guerra. Em 1951, o leite fresco Vigor começou por querer agradar aos ingleses residentes no eixo Sintra-Cascais-Estoril, habituados a certas mordomias. Foi aí que alguém se lembrou de criar um sistema de distribuição porta a porta, com o leiteiro ao volante da carrinha branca, um ícone dos anos 1950. Desde então, pedir «um quarto de Vigor» tornou-se sinónimo de leite, por metonímia – e pedir «um quarto de Vigor e meia torrada» é algo que só se entende em Portugal. Quem o faz é um ser praticamente completo, faltando-lhe apenas mais um quarto de qualquer coisa para lá chegar.

(Texto publicado na edição de 10 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A GENEROSIDADE É SILENCIOSA


“Os caçadores que subiam aos montes atrás de lebres ou javalis aperceberam-se do alastramento de pequenas árvores, mas atribuíam-no aos caprichos da Natureza. Era esta a razão pela qual ninguém tocava na obra deste homem. Se alguém tivesse suspeitado, a sua acção teria sofrido interferências, teriam tentado demovê-lo, ou mesmo impedi-lo. Mas tudo isto era inimaginável! Quem poderia ter acreditado, nas aldeias e a nível administrativo, numa tal obstinação, em tão magnífico acto de generosidade?”

Do conto O Homem que Plantava Árvores, um relato de fundo humanista e ecológico escrito por Jean Giono (1895-1970), fez-se um filme de animação que pode ser visto aqui. A edição portuguesa é da Far Far Away Books.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

NOVIDADES DA KALANDRAKA



Do escritor e ilustrador Arnold Lobel, “estranhamente” pouco amado pelo mercado português, a Kalandraka já tinha publicado Contos de Ratinhos e O Porquinho, livros em que a função securizante e agregadora de emoções se evidencia com a subtileza necessária. Poupar-se-iam toneladas de papel e tinta se muitos escritores ditos para crianças percebessem, de uma vez por todas, que as crianças querem emoções, não querem sermões… De Arnold Lobel (EUA, 1933-1987), falta chegar cá, sobretudo, a série Frog and Toad, já publicada em espanhol (Sapo y Sepo, Alfaguara), vencedora dos prémios Caldecott e Newbery. Outro “clássico contemporâneo” a bisar na Kalandraka é Janosch, pseudónimo de Horst Hecker (Alemanha, 1931). Correio Para o Tigre segue-se a Oh, que Lindo é o Panamá, numa tradução que nos deixou algo confusos, há que dizê-lo…

O Tio Elefante estará nas livrarias a partir de 15 de Agosto, Correio Para o Tigre chega esta semana.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LIKE TEARS IN THE RAIN


Em tempos de chumbo e cólera dos mercados, o Almanaque Silva lembra a época em que fomos prósperos, contemporâneos e criativos: ilustradores portugueses fotografados por João Francisco Vilhena, com a chancela da Bedeteca de Lisboa. “São imagens de um tempo e um lugar que celebraram o triunfo da ilustração editorial portuguesa e de um futuro otimista que o nosso inquietante presente remeteu para a gaveta da memória”, diz Jorge Silva.

É bem verdade. Mas, nem que seja em homenagem ao final de Blade Runner – filme glosado na imagem acima de Alice Geirinhas –, ainda não é hora de declinar o futuro que nos sobra. Sejamos criativos, o impossível cuidará do resto.

Ver aqui.

domingo, 3 de julho de 2011

GRANDE GALO


Os livros só com imagens tendem a gerar inseguranças entre pais e educadores, pela ausência de um guião escrito que os "obriga" a contar a história à sua maneira. O medo das ambiguidades, a necessidade de extrair uma moral e a dificuldade de fazer leituras partilhadas com as crianças levam a que sejam cautelosamente evitados, até porque não vale a pena gastar dinheiro com "livros de bonecos"… Quando isto acontece, ignoram-se as imensas potencialidades narrativas e interpretativas contidas nas imagens, de que O Ladrão de Galinhas é exemplo. Béatrice Rodriguez (n. 1961) não precisa de palavras para descrever a perseguição de três amigos – um coelho, um urso e um galo – à raposa que lhes rouba uma galinha à hora do pequeno-almoço. O formato rectangular, alongado, presta-se a um trabalho de composição que explora a distância física e emocional entre os personagens, subtilmente caracterizados pelas suas expressões e comportamentos, em cenários muito diversos. No volte-face final em que a galinha defende e escolhe ficar com o raptor, o leitor adulto poderá lembrar-se da famosa «síndrome de Estocolmo». É aí que se percebe como um livro aparentemente naïf tem o poder de nos questionar. Não há que ter medo.

O Ladrão de Galinhas
Ilustrações de Béatrice Rodriguez
Bags of Books

(Texto publicado na edição da LER nº 104, secção “Leituras Miúdas”. Seguindo o êxito de O Ladrão de Galinhas – e também as sugestões dos leitores – Béatrice Rodriguez publicou as sequelas Fox and Hen Together e Rooster’s Revenge, pela Enchanted Lion Books).

quinta-feira, 30 de junho de 2011

GO THE FUCK TO WORK


Adam Mansbach é um tipo esperto. Uns tantos como ele devidamente entronizados nos lugares certos e o mundo seria outra coisa – parecida com o que é hoje, mas ligeiramente mais asquerosa. Diz que Mansbach é um escritor sério e premiado, autor de ensaio e ficção, professor universitário e palestrante, além de membro fundador de uma publicação dedicada ao hip hop; e se o leitor nunca tinha ouvido falar é só porque anda distraído.

Mas Mansbach é, principalmente, um tipo esperto. Ele é como a minhoca que acorda o pássaro madrugador: o que outros pensaram, Mansbach fez; onde outros capitularam, Mansbach triunfou. O seu grande contributo para o avanço civilizacional, já inscrito nos anais da história da edição, é um livro para crianças chamado Go The Fuck to Sleep. Uma versão lida em voz alta por Samuel L. Jackson está a bater records de downloads. Há outra versão, igualmente bera e rufia, protagonizada por um imitador de Christopher Walken. É escolher. O white trash americano exulta. E Adam Mansbach já tem casa nova. Go The Fuck to Sleep é o best-seller do momento e, segundo a Amazon, “um dos livros mais falados da década”. Olha a nossa sorte.

Peço desculpa: acabei de ouvir uma entrevista do autor à ABC e parece que, afinal, Go The Fuck to Sleep não é um livro para crianças. Parece mesmo, mesmo, mesmo – mas não é. Ca burros ca malta somos, perdão, semos... O formato, as ilustrações, as cores, as rimas em verso, os tigres-cordeirinhos na capa, tudo aquilo é só para enganar o leitor desavisado que depois deixa comentários na Amazon. Como aquele papá que leu o livro à hora de dormir – pronunciando bem as sílabas “go the fuck to sleep”, esperemos – e pôs a miúda de quatro anos a chorar. Ele há putos sem nenhum sentido de humor, bolas. Um pai esforça-se, esforça-se, e depois é isto. Apre. Cambada de ingratos.

Entendamo-nos, portanto: Go The Fuck to Sleep é um livro para adultos. A partir dos três anos, mais ou menos. Na entrevista, Adam Mansbach recomenda que o coloquem numa prateleira bem alta, longe do alcance das crianças – que é precisamente o que todos vão fazer, nas livrarias e tudo. Assim, bem lá no alto, onde ninguém chegue senão com um escadote.

Adam Mansbach podia ter escrito um romance ou um ensaio sobre a difícil e debilitante condição da paternidade, mas sabia que ninguém lhe ia ligar pevas. Sobretudo, daria muito trabalho. Por isso, entre duas cervejas e o sumário das aulas, escreveu Go The Fuck to Sleep. Escreveu-o a pensar nos milhões de pais atormentados que se sentem “identificados” com o problema de pôr as crianças a dormir (poderemos chamar-lhe uma “issue”?), e agora estão muito mais aliviados, porque finalmente alguém os compreende. Taditos. Sentiam falta de “empatia”. Já não sabiam o que fazer com tanto sentimento de culpa, com esses momentos em que a bílis sobe ao esófago (a bílis, o cansaço, a pressão do trabalho, o vizinho a martelar, as contas por pagar, os fritos que caíram mal e todas essas coisas chatas da vida), provocando um súbito e premente desejo de torcer aqueles pescocinhos alvos que se recusam a tombar na almofada, pelo menos até à manhã seguinte. Aí, entra o bom do Mansbach. Os papás pegam no livro e riem-se muito. Ele também.

terça-feira, 28 de junho de 2011

LIVROS VICIANTES




Eu também me lembro. Os Filhos da Droga foi, de longe, o livro que reli mais vezes: 13, para ser exacta. Li-o na edição do Círculo de Leitores (1981), que resistiu até hoje com as mazelas naturais do tempo. Nessa altura, devorei também outros clássicos do género – Viagem ao Mundo da Droga e Perguntem à Alice, por exemplo –, mas foi a vida sórdida e extraordinária de Christiane F. e do namorado prostituto, Detlef, mais a descrição da sua família disfuncional, das amigas Babsi e Stella, dos clientes da Estação do Zoo e dos apartamentos com as alcatifas ensopadas em “caldo” que verdadeiramente me impressionaram. Quando fui pela primeira vez a Berlim, em 1993, comprei um postal na Kurfürstendamm, uma das palavras mais fascinantes do livro, a par de turkey, Mandrax, Valium e Valeron. Adorava saber estas coisas e acredito que ressoem da mesma maneira junto de quem tem hoje 12 ou 13 anos.

AO CUIDADO DO INSTITUTO DE NOVAS PROFISSÕES


Freguesa: Queria um livro para uma rapariga de 26 anos que é decoradora de infância…
Livreira Anarquista (reticente): …..decoradora de infância?!
Freguesa: Sim, decoradora de infância…ela fez mesmo o curso e tudo!


(Mais um testemunho único e inolvidável da Livreira Anarquista, para ler na íntegra aqui.)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

PARA UMA EDUCAÇÃO ELEMENTAR


Confesso que esperava um pouco mais de uma mente brilhante como Ken Robinson, mas talvez a expressão plena do seu elemento se encontre na comunicação oral e não na escrita (ouçam-no aqui, nas Ted Talks). O que é “o elemento”? Na definição do autor, “é o ponto onde a aptidão natural e a paixão pessoal se encontram”, proporcionando às pessoas a possibilidade de “fazerem aquilo de que gostam, o que as torna autênticas”. Facílimo, não? Basta ver a quantidade de gente que se levanta às sete da manhã, entusiasmada com a perspectiva de mais um dia de trabalho, para ver como a coisa não tem mesmo nada que se lhe diga…

Se me perguntarem se O Elemento (Porto Editora) é um livro de auto-ajuda, direi que não, porque embirro com o termo auto-ajuda; a não ser, eventualmente, para baptizar uma oficina de reparação de automóveis. Mas se me perguntarem se é um livro implicado no conhecimento do indivíduo e na sua harmonização com o colectivo e com as instituições sociais – a começar pela escola –, direi que sim, com muito gosto, e recomendo a leitura. Há uma enumeração algo exaustiva de casos “famosos”; pessoas que, cedo ou tarde, encontraram o seu elemento (de Matt Groening, criador dos Simpsons, a Richard Branson, o homem forte da Virgin), por contraponto a uma certa rarefacção teórico-científica, mas quem sentir que Ken Robinson está a fazer chover no molhado pode sempre fazer uma leitura diagonal dessas partes. No essencial, O Elemento é um livro estimulante, questionador e algo incómodo, sobretudo numa altura em que os cursos de Humanidades estão às moscas e nos tornámos num país (falido) de gestores e engenheiros. O caso escandaloso dos alunos do Centro de Estudos Judiciários, futuros magistrados que respondem a testes de cruzinhas e, mesmo assim, copiam vergonhosamente, é bem exemplo da mediocridade de espírito que grassa por aí.

“O pensamento criativo envolve muito mais do que os pensamentos lógicos e lineares que dominam a perspectiva ocidental da inteligência e, sobretudo, da educação”, afirma Ken Robinson. “O pensamento criativo depende, em grande parte, daquilo a que por vezes chamamos pensamento divergente ou lateral e, sobretudo, das metáforas e das analogias”. A citação faz pensar na literatura e nas artes? Pois, não a escolhi por acaso. Resta lembrar que conhecimento não é igual a inteligência, e inteligência não é igual a criatividade. Para sair deste atoleiro, vamos precisar principalmente desta última.

domingo, 26 de junho de 2011

GERAÇÃO KALKITOS


Para muita gente, os Kalkitos foram a invenção mais marcante desde a roda e do café instantâneo. Compravam-se em quiosques e papelarias, a preço módico, e consistiam numa série de figuras decalcáveis numa folha com um cenário previamente desenhado. Havia sempre um pequeno texto sobre o tema, de uma ingenuidade épica e comovente: «Colecciona-os e vive sempre que queiras as mais excitantes aventuras», prometiam. E era verdade. Com a ajuda de um simples lápis ou de uma esferográfica, qualquer menor de idade teve oportunidade de sentar-se à mesa com Os Vikings, voar com O Barão Vermelho, alimentar os Animais Pré-Históricos, entrar na Cidade Troglodita ou participar no Desembarque na Normandia. Não é exagero dizer que os Kalkitos fizeram mais pela cultura geral de uma geração do que muitos decretos-leis do Ministério da Educação. A sua importância foi tal que chega a surpreender a ausência do nome «Kalkitos» na lista dos nomes próprios autorizados pelo Instituto dos Registos e do Notariado; sobretudo depois de darmos caras com «Liliano», «Lindorfo» ou «Libertário», só para citar três exemplos próximos do «K». Francamente, é impossível que alguém nascido antes de 1980 nunca se tenha lembrado de prestar homenagem a uma das mais extraordinárias brincadeiras do século XX tardio, baptizando o seu filho de Kalkitos Manuel, Pedro Kalkitos ou mesmo Sebastião Kalkitos. São nomes capazes de influenciar o destino de qualquer pessoa e até de uma nação inteira – e se o mundo está como está, é só porque falta colocar um Kalkitos no lugar certo.


(Texto publicado na edição de 26 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sábado, 25 de junho de 2011

FESTIVAL HISTÓRIAS DE IDA E VOLTA


Começou hoje de manhã na Fábrica da Pólvora (Barcarena) e prolonga-se até amanhã à noite, mas quem quiser assistir às melhores sessões de contadores de histórias (António Fontinha, Rodolfo Castro, Cristina Taquelim e Tim Bowley, entre outros) vai ter de lá ir hoje. O programa completo está aqui.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

UM PINGUIM PERDIDO DE CASA


Como no livro de Oliver Jeffers, Perdido e Achado (Orfeu Mini), também este pinguim-imperador se perdeu de casa, nadando desde a Antártida até à Nova Zelândia, o que aconteceu pela última vez em 1967. Mas nem sempre há alguém para cuidar de nós, incondicionalmente. Passados os primeiros dias do “fenómeno”, com autóctones e turistas a acorrerem à praia de Peka Peka, na costa oeste da Ilha Norte (aqui, o vídeo do New Zealand Herald), a história caminha para um desenlace triste. Os serviços oficiais de conservação do ambiente recusaram – numa atitude sensata – assumir a responsabilidade de transportar o pinguim para a Antártida, com receio de introduzir doenças no ecossistema (além de que a viagem seria caríssima); e os centros de acolhimento parecem não possuir as condições necessárias. Depois de ter dado sinais graves de inadaptação ao novo habitat, demasiado quente para os seus hábitos, começou a ser tratado, estando agora com 50 por cento de hipóteses de sobreviver. É pouco provável que tal aconteça. A vida não é tão bonita como certos livros. Por isso fazemos livros.

MERGULHAR É PRECISO


Por nós todas as praias seriam assim, livres e luminosas. Sem famílias aos gritos, sem música de bares a massacrar-nos os ouvidos, sem criancinhas a fazer birras porque já não sabem brincar fora das playstations. Praia Mar (Planeta Tangerina) é um livro de imagens onde apetece mergulhar em dias de calor como hoje. Não há adereços inúteis nas páginas ilustradas por Bernardo Carvalho; só a expressão da natureza em sintonia com o elemento humano, uma tranquilidade delicada de onde não está ausente o movimento e a dinâmica das coisas. Mergulhem e verão.

terça-feira, 21 de junho de 2011

UMA NOVA EDITORA: GATO NA LUA


Gato na Lua (belo nome) é uma editora de livros para crianças fundada por Paulo Monteiro, cuja experiência na Ambar o levou agora ao novo projecto. Com sede em Leça do Balio, a Gato na Lua define-se por “uma orientação editorial assente na publicação de álbuns ilustrados de grande qualidade dirigidos a crianças entre os 3 e os 10 anos”. Um dos primeiros títulos, O Meu Balão Vermelho, de Kazuaki Yamada – cujas ilustrações foram seleccionadas para a última Feira do Livro de Bolonha – deve chegar em breve às livrarias. Entretanto, sigam as pegadas do gato através do site e do blogue. Aqui.

domingo, 19 de junho de 2011

BRINCAR NA RUA


Não foram só os pássaros que começaram a cantar mais alto, no esforço de se sobreporem ao ruído da cidade, como há tempos alertou uma notícia. A asfixia da vida instintiva está também na evidência de as crianças terem deixado de brincar na rua, levadas por um qualquer Flautista de Hamelin que esvaziou o espaço público de vozes e algazarras. Lugares antes ocupados por tardes de brincadeira são agora metodicamente divididos e pagos em fracções de 15 minutos – a medida do nosso tempo espartilhado, apressado, sempre inquieto. Acabou o jogo da apanhada, das escondidas, do «mamã, dá licença?». Um carrinho de rolamentos é capaz de parar o trânsito, mais do que um Ferrari. Verbos como «correr», «saltar», «trepar» e «lutar» passaram a ser conjugados com culpa e receio parentais. A célebre frase «vai brincar lá para fora» já não é um imperativo categórico de adultos saturados, a necessitar também do seu espaço, mas uma declaração de inconsciência ou, no mínimo, de excentricidade. Paradoxalmente, quanto menos brincam na rua, mais irresponsáveis as crianças crescem. Quem é que hoje diz «vai ali fazer um recado à mãe», sem gerar tumultos ou bocejos enfastiados na sua prole? Deveríamos ir além das preocupações genéricas nesta matéria. Brincar é uma actividade inútil, tão inútil quanto essencial à conquista da identidade e da independência. Passamos do colo da mãe para o chão de casa; passamos da casa para a rua, e da rua para o mundo. Só assim chegamos a algum lado. Não precisamos de ter sempre um vidro ou um ecrã qualquer entre nós e o território que progressivamente conquistamos.

(Texto publicado na edição de 19 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

QUEREMOS MAIS MARGARET MAHY


«Nunca me hei-de esquecer de como aprendi a ler. Quando era menina, as palavras escapuliam-se diante dos meus olhos como pequenos escaravelhos negros cheios de pressa. Mas eu era mais inteligente do que elas. Aprendi a reconhecê-las apesar de tentarem escapar-me velozmente. Até que, por fim, consegui abrir os livros e entender o que lá estava escrito.» Palavras da escritora neozelandesa Margaret Mahy, naquele que é, no meu modesto entender, um dos textos mais poéticos e consistentes produzidos para assinalar o Dia Internacional do Livro Infantil (ler integralmente aqui), neste caso em 2007. De Margaret Mahy, contemplada com o Prémio Hans Christian Andersen de 2006, apenas está traduzido em português O Rapaz dos Hipopótamos (The Boy Who Was Followed Home, 1975), publicado pela Livros Horizonte em 1997. Pode ser que a Feira de do Livro de Frankfurt de 2012, onde a Nova Zelândia vai ser o país convidado, dê algumas ideias aos nossos editores mais atentos. Sobre Margaret Mahy, recomendamos a leitura da página do New Zealand Book Council, aqui.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

COMUNIDADE DE PEQUENOS LEITORES


Para fazer parte do Clube de Leitura Arquivinho – uma nova comunidade de leitores orientada pela Livraria Arquivo, em Leiria – só é preciso ter entre 9 e 12 anos e gostar de ler. Vários livros são colocados em cima da mesa, mas só um é o eleito para estar na berlinda esse mês. Aos terceiros sábados, o grupo reúne-se para partilhar ideias e dizer o que gostou e o que não gostou. A primeira sessão decorre já no próximo sábado, 18 de Junho, às 15h00.

Quem estiver interessado em participar apenas tem de fazer a sua inscrição por mail (clubearquivinho@arquivolivraria.pt), por telefone (244 822 225) ou ao balcão da Livraria. Nós, que somos há alguns anos fãs da Comunidade de Leitores da Culturgest (para crescidos), orientada pela Helena Vasconcelos, recomendamos a experiência de fazer parte de uma outra família onde ninguém nos censura nem olha de lado se pusermos os cotovelos em cima do livro.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

LANCHAR COM O SENHOR VERDE

Javier Sáez Castán, o ilustrador do maravilhoso Animalário Universal do Professor Révillod (aqui), regressa em português com O Lanche do Senhor Verde, um álbum da sua inteira autoria, editado novamente com a chancela da Orfeu Mini. Olhem bem para esta capa tão magritteana.

terça-feira, 14 de junho de 2011

NOTÍCIAS QUE FAZEM ESTE BLOGUE ACORDAR


Estava este jardim muito adormecido e pouco assombrado quando, de repente, deu com esta notícia no Blogtailors. Logo as pohutukawas (ou metrosíderos, como lhes chamam por cá) começaram a agitar as folhas e a mostrar as suas lindíssimas flores encarnadas, todas vaidosas. E as pedrinhas do Mar da Tasmânia que estão ali guardadas numa caixa começaram a mexer-se (ou pelo menos parecia que sim). E a Busy Bee de plástico que faz de porta-chaves começou a zumbir, inexplicavelmente. É o que acontece aos jardins muito adormecidos e pouco assombrados quando ouvem duas palavras mágicas: Nova Zelândia. Weeeeeeee!




(Atenção, o autor de The Whale Rider é Witi Ihimaera e não Ngaio Marsh. Falámos deles aqui, por exemplo. Mais coisas sobre a Nova Zelândia podem ser procuradas na etiqueta homónima, aqui do lado direito do blogue.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

CITY-BREAKS: BRAGA

O Jardim Assombrado vai aproveitar o embalo dos feriados. Estamos quase de partida para Braga, onde, a convite da Professora Sara Reis da Silva, encerraremos o “Ciclo de Actividades em Literatura para a Infância e a Juventude”, iniciado em Março com uma série de conferências e debates (ver aqui.). Amanhã, o tema é “A Edição e a Crítica da Literatura para a Infância e a Juventude em Portugal”. Encontro-me com o editor da Bags of Books, Francisco Vaz da Silva, no Auditório do Instituto de Educação da Universidade do Minho. Até já.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ARTE, LEITURA, LITERATURA


Quando se comemoram 140 anos da realização das “Conferências do Casino” (Primavera de 1871), impulsionadas pelo poeta e ensaísta Antero de Quental, o Clube UNESCO de Educação Artística e o Centro de Nacional de Cultura propõem a realização, durante o ano de 2011, de um ciclo de palestras dedicado ao tema A Literatura – uma arte entre as artes, organizado por Ana Marques Gastão e António Carlos Cortez. Este último profere uma das palestras de amanhã, “Educar Pela Poesia”, a que se seguirá a intervenção de Fernando Pinto do Amaral, subordinada ao tema “A importância da leitura na educação artística”.

Não esqueçam: amanhã, 8 de Junho, no Centro Nacional de Cultura (ao Chiado, em Lisboa), pelas 18h30. Com entrada livre.

ENCONTRO ENTR'ARTES NA ESE DO PORTO

Estamos muito em cima da hora, mas não queremos deixar de divulgar o Encontro Entr'Artes, a cargo dos estudantes do Mestrado em Ensino do 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico da ESE do Porto, que conta ainda com a colaboração de estudantes do 3.º ano da Licenciatura em Educação Básica. É já amanhã. 8 de Junho, no auditório da ESE, a partir das 10h30. Aqui fica o programa:

Ana Catarina Lajas – Encruzilhadas textuais em Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
Ana Isabel Moreira – As origens que tive de esquecer: a emigração numa obra de António Mota
Sílvia Moreira – Emancipação da mulher portuguesa em Cortei as Tranças, de António Mota
Vitória Alves – Cor de estimação: a discriminação racial em Uma Questão de Cor, de Ana Saldanha
Elisama Oliveira – O humor em Os Tontos, de Roald Dahl
Sara Almeida e Sofia Magalhães – De Chapelinho Vermelho a Capuchinho Vermelho: reescritas do conto tradicional

Na Sala de Drama (edifício da Música da ESE do Porto), às 14h30, os alunos do Mestrado em Ensino do 1.º e 2.º ciclos do EB apresentam o projecto de música, drama e expressão plástica “Bichos, Bichinhos e Bicharocos”, com texto de Sidónio Muralha.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SCHOOL DAYS


É impossível não sentir nostalgia do tempo em que as escolas tinham os seus «dias especiais». Não, não nos referimos às visitas das televisões, nem às reportagens sobre treinos de pugilato entre alunos e casos de mães extremosas que ajustam contas com os professores. Nada disso. Falamos daqueles «dias especiais» que alcançavam o seu apogeu no dia do passeio escolar, quando uma trintena de miúdos, incrédulos com tanta fartura, era enfiada numa camioneta ronceira com destino a Bragança, parava para comer sandes no parque de Amarante e exultava com o Mosteiro de Santa Quitéria e a fábrica da Tabopan. O dia do passeio era único e irrepetível, tal como o fim do ano escolar, mas também se celebrava o dia da fotografia de turma. Os pais eram avisados com antecedência, para que na data aprazada enfiassem os miúdos numa farpela conveniente, quase sempre igual à dos outros dias. Havia o retrato de grupo, com os meias-lecas lá à frente e as vigas cá atrás, ao lado dos professores. Havia o retrato solitário junto ao quadro, com o livro aberto ao acaso; e havia o retrato na carteira, o único lugar onde a paridade entre marrões e calaceiros era possível. A carteira era sempre a mesma e os alunos rodavam. Ali, rodeados de livros e cadernos alheios, de lápis em punho e olhar cândido no mistério da objectiva, todos pareciam estudantes exemplares. O ciclo da água? Básico. Os sólidos geométricos? Trivial. O Sistema Solar? Corriqueiro. E até os problemas de aritmética pareciam fáceis: alcatifou-se uma sala com sete metros de comprimento e cinco metros de largura com alcatifa a 200$00 o m2. Quanto se gastou? Não faça contas, leitor. A resposta acertada é: «Stôra, depende se pediu factura ou não.»

(Texto publicado na edição de 5 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia". A fotografia foi tirada na escola primária de Moreira, aldeia do Alto Minho, nos meus áureos sete anos. Como se nota, a blusa é tipicamente seventies.)

sábado, 4 de junho de 2011

VIDA DE GATO


Não é tanto um livro sobre a morte, mas sobre o medo da morte, cujo rosto só conhecemos a partir do olhar que lançamos sobre ela. Temerário, umas vezes; receoso, outras, um gato encara a morte de frente no desenrolar das suas míticas sete vidas, esquivando-se e vendo outros desaparecerem em seu lugar: o pássaro tombado do ninho, o cão atropelado, o porco votado ao dia da matança, a noiva que morre de intoxicação alimentar (eufemismo para a expressão usada por Luísa Ducla Soares, que continua a dar largas à sua veia satírica), os soldados caídos no campo de batalha, reduto quase final de um ciclo onde a morte não tem descanso. Francisco Cunha, ilustrador que antes assinava como Chico (os seus últimos trabalhos saíram pela Ambar), mantém o registo figurativo, mas o traço e a técnica evoluíram para um patamar estético superior. Fugindo aos estereótipos do esqueleto ou da ceifeira, a sua representação da morte é um achado de mestre: um grande gato branco, fantasmagórico, de olhos cegos; um duplo, afinal, que abraça o gato da história na sua sétima e última vida. Numa escrita bem calibrada entre a aspereza do tema e a possibilidade de pacificação interna, essencial ao leitor infantil, Luísa Ducla Soares assinou um belíssimo livro que há-de perdurar na memória de quem o ler.

Um Gato Tem 7 Vidas
Luísa Ducla Soares
Ilustrações de Francisco Cunha
Civilização

(Texto publicado na edição da LER nº 103, secção “Leituras Miúdas”)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

MAU COMEÇO


“Mafalda Moutinho decidiu-se pela literatura juvenil por pensar que seria mais fácil para começar.” (in Notícias Magazine, 29/5/2011). Começa assim o artigo de três páginas sobre a autora da colecção Os Primos. Um mau começo, porque gerador de tremendos equívocos – o pior dos quais é a convicção generalizada de que a literatura para crianças e adolescentes é essa coisa vulgar e desinteressante que qualquer um consegue fazer. Às vezes pergunto-me quantas pessoas escrevem para crianças guiadas pela presunção ilusória da facilidade, quando no fundo desejariam escrever romances "sérios" e integrar o catálogo da Quetzal. A ser verdade, é melhor decidirem-se a trabalhar e pararem de contar historinhas a si próprios.

domingo, 29 de maio de 2011

CAFÉ E RESISTÊNCIA


Produzido em 1984, o anúncio da Nescafé passou repetidamente ao longo das décadas de 1980 e 90, deixando no ouvido o hit de Johhny Nash: I can see clearly now, the rain is gone/ I can see all obstacles in my way… Quem o viu, não esquece. É de madrugada, ouvem-se as gaivotas na praia, o rumor das ondas amassado com uma voz de rádio, imperceptível. Uma rapariga estaciona o Carocha branco nas dunas, desliga as luzes, cruza os braços sobre o volante, suspira fundo e fica ali a pensar na vida, e nós a pensarmos com ela. Pensamos num desgosto de amor, porque é isso que mais aflige aos 17 anos, mas pode ser outra coisa – nada assim tão grave que supere ter um Carocha e a liberdade de ir ver o mar enquanto a família dorme, pensamos nós, aos 12 anos. A rapariga é bonita, mas não excessivamente; é um tipo de beleza suave e instintiva que passou de moda, tal como o blusão de ganga e o corte de cabelo escadeado que se despenteia com o vento. O saco cheio de tralha com o Nescafé, o porta-luvas desarrumado onde remexe, à procura da resistência para aquecer a água, tudo compõe um desalinho que nos comove e consola, à luz do amanhecer. É evidente que ela vai fazer as pazes com o namorado; ou então vai mesmo dar-lhe com os pés, ao cafajeste. Não há mal que sempre dure enquanto houver uma resistência à mão, n’est-ce pas? Custa a crer que nem a rapariga nem a praia nem o anúncio sejam portugueses, mas isso só o sabemos agora e, de qualquer modo, ela já partiu para outra.

(Texto publicado na edição de 29 de Maio da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

GATO MALABARISTA


Sou um gato de pêlo preto
e de olhos tão brilhantes,
que no meio da escuridão
até parecem diamantes!
Ao telhado gosto de subir,
danço nas telhas sem cair.
Gosto de dormir em frente à lareira,
mas não posso com os cães
mais a sua barulheira!
Se tentam dar-me uma coça,
dou-lhes três voltas nos focinhos,
caio de patas numa poça
e deixo-os encharcadinhos!
Sou o maior fã dos novelos de lã,
mas também aprecio uma boa maçã!
Sou um gato vadio,
mas também sou requintado:
como filete e bebo leite,
de laço e guardanapo.
Sou guloso e também habilidoso.
Gosto de pregar partidas
e de coisas divertidas.
Sou malabarista,
malandro e trocista.
Num dia de Abril,
levaram-me para o gatil,
para fugir dali,
as minhas patas
transformaram-se em mil!
Tornei-me agente secreto
e, de garras afiadas,
vigio os malfeitores
nas noites assombradas.
Se o inimigo anda à solta,
tenho de o apanhar,
pois não sabemos os sarilhos
que ele pode arranjar…
Quando precisarem de mim,
só têm de me chamar:
apareço-vos do nada,
de patas para o ar!
Miauuuu!

(E depois do auto-retrato da Rainha Só, eis o do gato, feito pelos alunos do 5º A do Centro Helen Keller, em Lisboa. Está bestial. Parabéns!)

terça-feira, 24 de maio de 2011

SOU UMA RAINHA SÓ, IÔ!


Sou uma rainha só
e vivo num mundo à parte;
numa torre, vivo sozinha,
rodeada de luxo e arte.
Como sou uma menina,
uso coroa pequenina;
de vestido azul e verde,
ando sempre bem vestidinha.
Quando me olho ao espelho,
o meu sorriso brilha,
assim como os meus olhos,
que são da cor da ervilha.
Sou rainha, sou vaidosa;
só, mas grandiosa.
Para me rir, é uma grande cena!
Faço-me cócegas com uma pena.
Quando choro, tomo banho
de lágrimas no meu jardim
e perfumo-me com rosas e jasmim.
É também aqui que gosto de comer doces,
principalmente pudim.
Gosto de café Nespresso,
mas só se for em excesso,
enquanto faço tricô
na terra que o meu pai me deixou!
Sou uma rainha só, iô!
Sou uma rainha só, iô!

(Os alunos da Turma 5º E, do Centro Helen Keller, em Lisboa, fizeram uma canção para a Rainha Só em versão rap. Foi um dos trabalhos mais criativos e originais a que já assisti numa escola. Adoro o texto e revejo-me totalmente neste auto-retrato. Lindo!)

domingo, 22 de maio de 2011

RECOLHIMENTO, INTERACTIVIDADE, DÚVIDAS


A segunda edição do workshop de Livro Infantil para a Booktailors tem-me deixado pouco tempo para actualizar o blogue. C’est la vie. Jornais e revistas lidos com uma ou duas semanas de atraso são consequência habitual da acumulação de “urgências”, coisa que sempre fiz sem remorsos ou sentimentos de culpa. Com atraso, pois, mas porque o assunto ainda vai no adro, vale a pena pensar nas palavras de Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora, ao Expresso da semana passada, que provocaram alguma turbulência nas minhas indómitas rugas de expressão.

Referindo-se às novas plataformas e edições digitais, Manuel Alberto Valente considera que «“esta interactividade vai ser perfeita tanto para livros de divulgação científica como para a literatura infantil”. Não crê, porém, que seja aplicável às obras de ficção: “A verdadeira literatura exige um recolhimento que não se compadece com distracções acessórias.»

Ora bem, haverá talvez nuances nestas declarações sintetizadas, mas creio que temos de reflectir muito sobre as benesses da interactividade na literatura infantil. Arrisco dizer: se existe área que justifique reflexão e mais do que um mero “ir na onda”, é justamente esta.

É preciso distinguir, primeiro, o livro infantil da literatura infantil. No que toca ao livro didáctico e informativo (atlas, livros de conceitos, livros de alfabetos, livros sobre arte ou ciência, etc), é evidente que existe um amplo espectro de intervenção para tirar partido do potencial de comunicação e aprendizagem dos suportes digitais – e é desejável que surjam bons produtos que acrescentem algo ao livro tradicional. Tenho mais dúvidas no caso de obras de ficção, sejam a Alice no País das Maravilhas ou a colecção de Álvaro Magalhães. Quer dizer: quantas vezes é que um miúdo tem vontade de esticar e diminuir o pescoço da Alice ou fazer qualquer outra brincadeira com o IPad até perceber que aquilo não o leva muito longe? Os bons leitores, isto é, os leitores empenhados, que reconhecem e incorporam para toda a vida o poder transformador da literatura, formam-se “nesse recolhimento que não se compadece com distracções acessórias”, como afirma Manuel Alberto Valente. Por que razão havemos de negar às crianças essa exigência e submetê-las à ditadura do lúdico? (por favor, não me digam que elas é que mandam…).

Hoje, é quase impossível para um miúdo passar horas a ler um livro, no mais absoluto silêncio e solidão. Desgraciadamente. Sabemos que as novas tecnologias da informação estão a mudar radicalmente o processo orgânico pelo qual lemos e percebemos (e, sobretudo, não percebemos) o mundo à nossa volta, mas convém usar algum bom senso. A organização de estímulos e de informações a que hoje as crianças e pré-adolescentes se sujeitam (telemóveis, televisão, videojogos, downloads, internet, facebook, messenger…) assemelha-se, como diz Ken Robinson em O Elemento, à autêntica gestão de um império. A questão é: como vamos ensiná-las a governá-lo? Ou melhor: como vamos ensiná-las a governarem-se a si mesmas?

LULU FAZ DAS SUAS

Obrigada, José Fanha.

XUMBIANTE OU XIMBIMPANTE

Um texto esclarecedor sobre Manuel António Pina, Prémio Camões 2011, para ler no blogue A Inocência Recompensada.

O QUE PENSA UMA CRIANÇA DEPOIS DE LER?

Na entrevista concedida à Lusa, Violante Saramago Matos, filha de José Saramago e da pintora Ilda David, explica as razões que a levaram a escrever – e ilustrar – um livro para crianças. E chama a atenção para o que entende serem duas particularidades intrínsecas a esta produção literária. O primeiro tem a ver com a necessidade de criar “uma linguagem sedutora”, que contribuirá para a construção (ou afastamento) do leitor; mas parece-me que essa ambição se pode aplicar a qualquer forma de literatura. O segundo aspecto é muito mais específico e remete para a dimensão político-ideológica dos livros para crianças, coisa que muito boa gente não imagina ou prefere não imaginar que exista:

«A outra responsabilidade – prosseguiu – “é exactamente aquilo que se escreve, porque a criança não refila connosco, não diz ‘não estou de acordo, isso é um disparate, por isto, aquilo ou aqueloutro’. O adulto faz isso. Quando discutimos um livro, ou uma opinião, nós somos capazes de contra-argumentar. A criança, por princípio, é uma esponja e, portanto, ela vai absorver. Por isso, tem de se ter muito cuidado com o que se lhe diz”.»

O Quinas Ganha Nova Casa, título do livro, foi publicado pela editora 7 Dias, 6 Noites. Seria óptimo poder vê-lo no site, nem que fosse só para conhecer a capa. Os excertos mais significativos da entrevista podem ser lidos aqui.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O JARDIM DE ALAIN DE BOTTON


Mais ou menos há seis anos, num hotel da baixa de Lisboa, entrevistei Alain de Botton para a Notícias Magazine, a pretexto do livro Status Ansiedade (Dom Quixote). No início, vi o caso mal parado: levava mais de vinte perguntas e as primeiras quatro foram respondidas com uma rapidez monossilábica assustadora. Entre dentes, perguntei ao assessor de imprensa se Alain de Botton tinha sido informado de que se tratava de uma entrevista de fundo, pensada para seis ou sete páginas (bons tempos), dado que estava a responder como se pensasse que ia ser reduzido a três ou quatro parágrafos. Feitos os esclarecimentos, a entrevista fluiu, sem chegar a transformar-se numa conversa, como às vezes acontece em casos de empatia fácil. Guardei de Alain de Botton a imagem de uma pessoa inteligente, erudita, simpática, bem-educada e bastante formal. Não tive coragem de lhe pedir para autografar um dos livros que levava comigo, Las Consolaciones de la Filosofia (O Consolo da Filosofia), o primeiro que li dele. Durante algum tempo, talvez pela perturbação do arranque, convenci-me de que tinha feito uma péssima entrevista, mas o tempo e a distância relativizaram as coisas. No outro dia, ao vasculhar nos meus arquivos, reli-a e apeteceu-me trazer esta passagem para O Jardim Assombrado. Não é preciso explicar porquê.

“CMA: Voltaire falou do terramoto [de 1755] em Cândido ou o Optimismo. E no fim ele diz mais ou menos isto: apesar de tudo o que nos acontece ou não nos acontece, apesar de todos os «ses», o que é preciso fazer é «cultivar o nosso jardim». Qual é, ou como é o seu jardim?
AB: O meu jardim são os meus livros, obviamente. O que é a jardinagem? É uma tentativa de mudar qualquer coisa para melhor, de aperfeiçoar, de plantar flores bonitas – mas é também uma pequena parte do mundo. É como se Voltaire reconhecesse a necessidade de esforço e de trabalho, mas também os limites do que podemos mudar. Talvez só possamos mudar um pequeno espaço, um jardim, e talvez isso esteja certo. É uma visão da vida modesta e, ao mesmo tempo, ambiciosa.”

(Publicado na edição de 24 de Abril de 2005 da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Fotografias de Paulo Alexandrino.)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ADMIRÁVEL MUNDO ANTIGO


Em 1957, quando a Agência Portuguesa de Revistas lançou Maravilhas do Mundo II, a Praça de São Marcos e o Palácio dos Doges ainda não eram sítios a evitar por quem tem um pingo de fé na raça humana. Meio século depois, pensamos em Veneza e invade-nos um prenúncio de angústia e náusea, provocadas pelo pulsar de milhões de máquinas fotográficas a disparar em uníssono, embaladas num turbilhão de línguas e sorrisos circunstanciais. É assim em Veneza, na Catedral de Notre-Dame, no Mosteiro de Montserrat, no Taj Mahal, no Coliseu de Roma ou perto de qualquer «criação assombrosa do espírito e da mão do Homem», como então exaltava o editorial. A ideia de um vai e vem de barcos turísticos passando por baixo das pernas do Colosso de Rodes, à espera do ângulo exacto à sua brônzea privacidade, só não acontece porque o desgraçado há muito se precipitou no mar, vítima de terramoto. Valha-nos isso. Olhamos para estes cromos e sentimos a nostalgia de um mundo estranhamente despovoado, que se agudiza no primeiro álbum, dedicado às «maravilhas naturais da crosta terrestre». Aqui, são sobretudo as palavras que fazem ressurgir devaneios próprios da infância, quando nomes como os Penhascos Monstruosos de Jabalpur ou os Alcantilados da Heligolândia pareciam conter mais aventuras do que a própria ficção. «Súbitas e violentas tempestades põem em risco de morrer geladas as pessoas mais robustas», lia-se, no cromo do Mar de Gelo. E crescia pelo corpo um arrepio de medo que hoje nos deixa felizes, se o conseguirmos recuperar.


(Texto publicado na edição de 15 de Maio da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia". Informação adicional: no original espanhol da Editorial Bruguera não havia cromos de «maravilhas portuguesas naturais». A Agência Portuguesa de Revistas acrescentou-lhe o Vale das Furnas, nos Açores, a Cabeça da Velha, na Serra da Estrela, e a Ilha da Madeira.)

domingo, 15 de maio de 2011

POR QUE É QUE ESCREVE?

«Essa é a pergunta fatal. Aquela a que não se pode responder com sinceridade.» (Lídia Jorge, ontem, no penúltimo dia da Feira do Livro de Lisboa, durante o encontro Vida d’Escrita, onde também estiveram Mia Couto, Mário de Carvalho e, no papel de moderador, o jornalista do JL, Luís Ricardo Duarte).

ÁRVORES, POR MANUEL ANTÓNIO PINA


"São seres silenciosos que, a nosso lado, partilham quotidianamente a mesma única vida, a sua e a nossa vida. Mal damos por elas, as árvores, tão comum e familiar é a sua antiquíssima presença perto de nós, e tão anónima. A maior parte das vezes pouco mais somos capazes de dizer do que «árvore», ou «árvores», porque também as nossas palavras se foram, pouco a pouco, tornando silenciosas. E, no entanto, cada árvore, como cada um de nós, é um ser absoluto e irrepetível, idêntico apenas mutantemente a si mesmo, uma vida única com uma história única, um passado para sempre atado, de forma única, ao nosso próprio passado."

(Do prefácio de Manuel António Pina para o livro À Sombra de Árvores com História, dos mesmos autores do blogue Dias Com Árvores: Paulo Ventura Araújo, Maria Pires de Carvalho e Manuela Delgado Leão Ramos. Foi editado pela associação de defesa do ambiente Campo Aberto, em 2004. Fotografia de Guto Ferreira, no Jardim Botânico do Porto.)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA: NOTÍCIAS DA CIDADE FELIZ


Por causa dos humores do blogger, que andou em baixo nas últimas 48 horas, O Jardim Assombrado não pôde dar os parabéns a Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011. Não que isso tenha importância alguma. O importante é o rasto de felicidade que esta notícia deixou em quem vive no “país das pessoas de pernas para o ar”, tentando vislumbrar uma luz constante sob o céu plúmbeo. Não sei se Manuel António Pina, poeta e cronista (vindo da escola do jornalismo, não um pato-bravo de rumo volúvel e nidificação previsível), é também “o maior autor da nossa literatura infantil”, como afirmou Osvaldo Silvestre ao Público (e Álvaro Magalhães, e Luísa Ducla Soares, e António Torrado?, e…). Mas é, com certeza, um dos grandes no meio de “gigões e anantes”. Paradoxalmente, os superlativos são sempre redutores: desviam o olhar do pormenor da descoberta e remetem-nos para a superfície distraída dos consensos. De resto, também os superlativos não têm importância alguma, salvo a consequência oportuna da reedição (espera-se) de alguns livros difíceis de encontrar – por exemplo, pela extinta Campo das Letras. Foi um prémio absolutamente merecido para alguém que disse, não sei onde nem quando e cito de memória, que “já cá temos bons escritores, o que precisamos é de boas pessoas”. As crianças, com o seu sentido intuitivo de justiça, são capazes de concordar. Muitos adultos, também. Nos livros de Manuel António Pina encontramo-nos para um acordo possível e temporário. Está tudo certo.