segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SWISS COUNTRYSIDE


Tínhamos seis, sete, nove anos, por aí. A Heidi só tinha cinco quando a Tia Dette a deixou com o Avô, no alto da montanha. Ao princípio achámos que aquilo não ia correr bem, as sobrancelhas dele estremeciam quando falava, era mau sinal. Depois, passou. A Heidi usava sempre o mesmo vestido cor-de-rosa com corpete e cordões à frente, cruzados; nós tínhamos botões e fecho éclair, era diferente. Vestíamos casacos de lã feitos à mão e pullovers de gola em «V» com a camisa a aparecer por baixo, estilo orelhas do Dumbo. As mães não se preocupavam em mandar-nos para a escola com as meias a condizer com as calças, nem sabiam o que era roupa de marca, de modo que nas fotografias de grupo parecíamos todos iguais, apesar da sobreposição de riscas, losangos e xadrez. Estávamos em 1976 quando a Heidi passou na televisão, a moda era terrível, os Natais sucediam-se e não havia maneira de as mães nos darem um Kispo. Algumas insistiam em cortar-nos o cabelo em casa, com a franja à Mireille Mathieu, e tínhamos de nos conformar com aquilo, e também com camisolas interiores que picavam, sobretudo depois de correr muito. E então? A Heidi teve de calçar sapatos quando foi viver para Frankfurt – e a Menina Rottweiler, ou Rottenmeier, fez-lhe a vida negra. Também, com um nome daqueles, estava-se mesmo a ver. Coisas boas: os adultos não achavam estranho que andássemos à bulha com outros miúdos, sabiam que aquilo passava depressa. Deixavam-nos picotar com alfinetes em cima de uma placa de esferovite sem ficarem logo histéricos. Brincávamos na rua e no quintal, sozinhos. As mães queriam-nos limpos, alimentados e com as vacinas em dia, a partir daí que tratássemos de ser felizes. E éramos. Éramos, pois.

(Texto publicado na edição de 23 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sábado, 22 de outubro de 2011

PRÉMIO MARIA ROSA COLAÇO 2011

Só quem desconhece por completo a história da imprensa pode ter preconceitos contra a escola do jornalismo desportivo, que tem produzido muita pena ágil, segura e certeira. É por isso (e também por ter feito parte do júri...) que não me surpreende a atribuição do 6º Prémio Maria Rosa Colaço (este ano, na modalidade Infantil; para o ano, na Juvenil) a Joaquim Semeano, jornalista há mais de vinte anos e actual editor do jornal Record. A cerimónia de atribuição decorreu ontem, no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada. Notícia no Record.

TERTÚLIA PEQUENAS LEITURAS


“Há livros, que estão no princípio de tudo: são livros de mitologia, religião, mas também cartas de direitos, constituições. Servem para organizar, reger, construir. Criam linhas temporais. Dizem-nos de onde vimos e para onde ambicionamos ir. Como são apresentados às crianças estes textos? Como são ilustrados?”

Este é o mote da próxima Tertúlia Pequenas Leituras, que acontece na próxima quarta-feira, 26 de Outubro (18h30), na Bulhosa de Campo de Ourique, como é habitual. Pelo sugerido no excerto acima, que nos chegou por email, esta poderá ser uma excelente oportunidade de se discutirem as implicações político-ideológicas contidas nos livros para crianças (neste caso, no género informativo). Entre muitas outras coisas.

MAIS UMA ALICE


Desta vez com ilustrações de Tiago Albuquerque e Adriano Lameira. Uma edição Casa das Letras, a publicar em Novembro.

WORKSHOP DE LIVRO INFANTIL

De hoje a uma semana, no Hotel Tryp (Parque das Nações, Lisboa) Ana Mourato conduz mais um workshop de “Selecção do livro infantil adequado às diferentes etapas do desenvolvimento”. É um tema que dá azo a grandes dúvidas por parte de quem trabalha, de alguma forma, com livros para crianças. Destina-se ao público em geral, mas interessa sobretudo a professores, educadores, estudantes, psicólogos e a todos os que se preocupam em fazer escolhas acertadas nesta matéria (dizemos nós, que já o fizemos e recomendamos). Ana Mourato é psicóloga educacional, doutoranda em Psicologia da Educação, mestre Educação e Leitura e pós-graduada em Livro Infantil, além de coordenadora do projecto Ouvir o Falar das Letras (http://ouvirfalarletras.blogspot.com/). O workshop realiza-se das 9h30 às 17h45, custa 55.35 € e as inscrições podem ser feitas pelo telefone 93 780 71 61.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

SERENIDADE ESTÁTICA


Tantos anos de exposição à mira técnica não serviram para ensinar a maioria dos telespectadores a afinar a imagem, como era a intenção, mas foram suficientes para criar a memória de um mundo mais lento, com actividades limitadas entre a «abertura da emissão» e o «fecho da emissão». A mira técnica existia entre uma coisa e outra, ou fazia a sua aparição súbita em caso de avaria, precedendo o anúncio que também se tornou célebre: «Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos». Que sossego. Os dias eram largos e as noites primordiais. De certo modo, em versão espartana, a mira técnica foi a antecessora do canal MyZen TV, com a sua câmara imóvel durante horas seguidas a filmar a rebentação das ondas numa qualquer praia tropical. Onde hoje há compactos de televendas a impingir-nos espanadores anti-estáticos e faixas queima-gordura para o abdómen, não havia nada; a não ser um padrão geométrico indecifrável e a expectativa de que algo de bom estava para acontecer. Por exemplo: desenhos animados, tardes de cinema, variedades, hóquei em patins e, maravilha das maravilhas, telejornais que duravam apenas meia hora. O pesadelo da programação ininterrupta, da televisão acesa de manhã à noite, dos três aparelhos ligados em cada parede do restaurante de bairro, estava longe de ser realidade. E embora os verdadeiros motivos da mira técnica fossem insondáveis aos olhos do vulgo, a memória dessa presença estática parece-nos, hoje, tranquilizante. Tal como a expectativa de que algo de bom estava para acontecer.

(Texto publicado na edição de 16 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

NOVO LIVRO DE MARGARIDA FONSECA SANTOS


Amanhã, 19 de Outubro, pelas 19hoo, Maria Tereza Maia Gonzalez apresenta o livro Uma Questão de Azul-Escuro, de Margarida Fonseca Santos e Sandra Serra (ilustrações), uma abordagem ao tema do bullying. O lançamento decorrerá na Sede da APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (Rua José Estêvão 135-A, Lisboa).

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

COISAS ACERTADAS

“Estamos num tempo com muito poucas narrativas. Creio que é isto que falta às gerações mais novas.” (Ler aqui a entrevista certeira de Dora Batalim à Pública. Via La Double Vie de Veronique.)

ONDE VIVE O MONSTRO


"I'm totally crazy, I know that. I don't say that to be a smartass, but I know that that's the very essence of what makes my work good. And I know my work is good. Not everybody likes it, that's fine. I don't do it for everybody. Or anybody. I do it because I can't not do it."

(Um artigo imperdível sobre Maurice Sendak publicado no The Guardian, onde se demonstra que alguns escritores de livros para crianças são gente pouco recomendável para se convidar para um churrasco ou coisa parecida. Via O Palácio da Lua).

HÁ TONTOS E TONTOS


"O Sr. Tonto vive na Terra dos Disparates, que é um sítio muito engraçado para se viver. Na Terra dos Disparates é tudo disparatado até mais não." Há tontos inofensivos e há tontos perigosos. Os segundos ganham eleições, os primeiros votam neles. É uma grande anedota, pois é.

domingo, 9 de outubro de 2011

OS GIGANTES INGLESES


Os primeiros autocarros de dois pisos chegaram a Portugal em 1947, poucos anos depois de a Carris ter iniciado o serviço de carreiras regulares. Traziam ainda a cabine do motorista do lado direito, sinal da ascendência inglesa comprovada pela marca Leyland, modelo Titan, um nome apropriado para gigantes de sete toneladas. Diz a tradição dos mitos e contos de fadas que os gigantes são mal compreendidos pelo vulgo – e estes não foram excepção. Recebidos com um misto de admiração e desconfiança nas ruas de Lisboa, tinham lugares sentados para 56 passageiros, sem por isso ocuparem mais espaço de via. Com este trunfo irrecusável venceram medos, curvas e solavancos, chegando também às sinuosas artérias do Porto, em 1960. Por onde quer que tenham passado, o tempo foi suficiente para integrá-los nas memórias mais felizes de várias gerações de passageiros. Quem foi criança e repetiu a aventura de subir ao primeiro piso com o autocarro em andamento, sempre na esperança de encontrar vazios os lugares da frente, pôde ver o mundo com os olhos bem abertos. Embalados por aquele equilíbrio instável e pelo motor trepidante, sentimo-nos invencíveis, dentro dos gigantes ingleses. Foi assim até 1995, ano em que desapareceram de vez das ruas de Lisboa, excepção feita para a inconstante versão turística. No Porto, ficaram até 1991, tendo regressado este ano, muito frescos e modernos, mas irreconhecíveis face à imagem que deles guardámos. É o progresso, dizem. No piso de cima, as crianças vêem agora o mundo com outros olhos.

(Texto publicado na edição de 9 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sábado, 8 de outubro de 2011

ALTERNATIVAS À INDIGNAÇÃO


O cartaz é inspirado no best-seller Indignai-vos! e foi bem achado. De Outubro a Dezembro, a Booktailors oferece um desconto de 50 por cento a todos os desempregados e recém-licenciados à procura do primeiro emprego que queiram frequentar os próximos cursos (Livro Infantil incluído, para puxar a brasa à nossa sardinha). É boa ideia. É de aproveitar. É saber mais aqui.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

HOJE HÁ HISTÓRIAS


Hoje, às 21h00, no Espaço Geraldine, aos Restauradores (Tv. da Glória, 18, 1º), um serão de contos que promete: "Histórias de se Tirar do Chapéu". Com Ana Lage e Bruno Batista. Tudo aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

VERSOS DESALINHADOS


Daniil Harms, pseudónimo de Dannil Ivánovitch Iuvatchov, foi alvo das perseguições do regime estalinista, que não se interessou apenas por escritores nobelizáveis como Boris Pasternak ou Aleksandr Solzhenitsyn. A educação das crianças sempre preocupou os sistemas totalitários; e daí a desconfiança pelos textos infantis de Daniil Harms, aqui ilustrados por Gonçalo Viana, cujas geometrias e sequências repetitivas não são estranhas ao construtivismo russo. Longe do realismo doutrinário e da celebração dos feitos e figuras gratas à nação, estes textos espelham, na sua brevidade e permanente autoirrisão (a começar pelo título, Esqueci-me Como se Chama), a incongruência e o absurdo da realidade, a par de um sentido lúdico totalmente desfasado dos imperativos moralizantes da cartilha política. Histórias nonsense com animais exóticos, episódios grotescos envolvendo a realeza ou viagens ao Brasil dos aborígenes e bisontes – tudo isto era mais do que a máquina do estado poderia tolerar. Daniil Harms morreu de fome, aos 37 anos, durante um dos encarceramentos onde terá sido convidado a reflectir sobre o alimento adequado à formação dos jovens cérebros.

Esqueci-me Como se Chama
Daniil Harms
Ilustrações de Gonçalo Viana
Tradução de Nina e Filipe Guerra
Bruaá

Texto publicado na edição da LER nº 106, secção “Leituras Miúdas”. Fora do registo infantil, Daniil Harms (S. Petersburgo, 1905) encontra-se publicado em português pelas editoras Hiena (Crónicas da Razão Louca, 1994) e Assírio & Alvim (A Velha e Outras Histórias, 2007).

domingo, 2 de outubro de 2011

É TERÇA-FEIRA


Apesar de o DN Jovem ter continuado na internet, do que os leitores a sério sentem saudades é sempre do «seu jornal»: o suplemento do Diário de Notícias que existiu entre 1983 e 1996, lançado por Mário Mesquita e coordenado por Manuel Dias. Saudades do papel, do cheiro oficinal do papel e das pontas dos dedos tingidas de letras, isso que faz algumas pessoas dizer logo «ai, que nojo». Saudades das terças-feiras, o dia em que a rapariga descia «as escadas quatro a quatro», como na canção do Sérgio Godinho, para sair à rua e comprar o DN, só por causa do seu suplemento favorito. Nessas terças-feiras a rapariga podia sentir-se especialmente importante, não só porque era bom ser «jovem» e ter um cartão catita que dava direito a seguro de acidentes pessoais e aconselhamento jurídico (e havia até um Ministério da Juventude, olha a excentricidade), mas sobretudo porque um texto seu podia ter sido publicado, com o nome por baixo, a idade e a terra onde vivia, fosse cidade ou uma aldeola qualquer perdida no mapa. Naquela página e nas páginas seguintes havia outros textos de quem tinha idade para ter Cartão Jovem e, muitas vezes, também se sentia perdido no mapa e no território. E sentir isso também era bom, era chegado, partilhado, generoso, é como ver alguém no comboio a ler um livro que também já lemos e ficar logo com vontade de meter conversa. Hoje, a rapariga ainda desce as escadas quatro a quatro, mas do que tem mesmo saudades é de marcar encontro com o «seu jornal» na tabacaria, todas as terças-feiras de manhã.

(Texto publicado na edição de 2 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia". De Helena de Sousa Freitas, DN Jovem Entre o Papel e a Net, em edição da Esfera do Caos, conta toda a história do suplemento. Ver o post anterior.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

DN JOVEM: HISTÓRIA E MEMÓRIAS


Não tendo sido uma “DN Jota” (traduzindo para as novas gerações: nunca tendo publicado no extinto suplemento do Diário de Notícias), fui fiel seguidora desde o início e tenho a memória vívida de acordar todas as terças-feiras com a expectativa acrescida de fazer parte dessa comunidade de leitores que foi o DN Jovem. Sei que não é muito canónico falar de lançamentos de livros um dia depois de terem acontecido (o Bibliotecário de Babel, atento como de costume, avisou a tempo), mas quem dera que fossem todos assim. Interessantes, descontraídos, participados, emocionados, indignados, com histórias reais para contar, longe das vaidades e das vacuidades do costume. Ontem, na Bulhosa de Entrecampos, Pedro Mexia apresentou o livro de Helena de Sousa Freitas que teve origem numa tese de mestrado do ISCTE: DN Jovem – Entre o papel e a net (História e Memórias de uma Transição), agora editado pela Esfera do Caos. Falei nele aqui e aqui, não vou repetir-me, a não ser para dizer que vale muito a pena ler ou consultar. Foi também o primeiro lançamento a que assisti em que o editor atingiu o nirvana do discurso encomiástico para o apresentador do livro (incluiu até a palavra “ilustríssimo”), sem no entanto dedicar uma palavra à sua autora. Sem dúvida, um lançamento diferente do habitual. Até nisso.

ENXERGAR MAIS LONGE


“Na visita ao oftalmologista veio a notícia: o menino teria que usar óculos. Um susto. Como serão meus óculos? O que eles vão me fazer enxergar? Que tipo de óculos serão? Ficarei parecendo uma mosca? As ilustrações do premiado André Letria acompanham as dúvidas e elucubrações do pequeno menino, apresentando ao leitor os mais diferentes tipos de óculos. Trata-se de um livro de literatura, mas também um livro de apoio para pais e crianças que vivem essa situação tão comum.”

(Do site da editora paulista Peirópolis, que acaba de lançar a versão brasileira do Não Quero Usar Óculos. Grande sorriso cá deste lado do Atlântico!)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

COLÓQUIO INTERNACIONAL DE LIJ


É um aliciante programa de dois dias que reúne três dezenas de escritores, investigadores, professores, mediadores de leitura e outros especialistas à volta das literaturas de língua portuguesa para crianças e jovens, num eixo geográfico que abarca o Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde e Moçambique. Acontece na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dias 27 e 28 de Outubro. Está tudo aqui (clique na imagem deste link para aumentar o cartaz).

(Inscrições e informações pelo telefone 217920044 ou clepul@gmail.com)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

NOVO LIVRO DA GATO NA LUA


E vão três. O Que é o Amor?, de Davide Cali (texto) e Anna Laura Cantone (ilustrações) é novo título da Gato na Lua, nas livrarias esta semana. Davide Cali, nascido na Suíça, em 1972, foi o segundo autor publicado pela Bruaá, e não deverá desiludir quem gostou de Eu Espero…

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

NOVO LIVRO DA BAGS OF BOOKS


Com texto de Nuno Casimiro e ilustrações de João Vaz de Carvalho, O Mundo no Chão é a próxima novidade da Bags of Books, com lançamento marcado para o próximo dia 15 de Outubro, às 16h00, na FNAC Coimbra. A apresentação estará a cargo de Valter Hugo Mãe.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

OS DESASTRES DE TEODORO


Preferia ser reconhecido como um escritor que ilustrava, mas tudo o que fazia revelava esse génio criativo próprio de quem tira de si um universo tão singular quanto transbordante. Edward Gorey, cujo fantasma terá sempre um banco cativo no Jardim Assombrado, vai reaparecer em Outubro nas livrarias (depois desta edição já muito difícil de encontrar), agora com a chancela da Livros Horizonte. Quando Teodoro Encolheu (The Shrinking of Treehorn) é o primeiro título de uma trilogia que gostaríamos muito de ver continuada, com ilustrações de Gorey e texto de Florence Parry Heide (EUA, 1919), uma senhora que escrevia livros para crianças com o seu quê de excêntrico e absurdo, no tempo em que escrever livros para crianças com o seu quê de excêntrico e absurdo era, em si mesmo, excêntrico e absurdo. A tradução é nossa (Oh deuses, sede clementes!) e juramos que não encontrarão frases como a anterior.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

ERA UMA VEZ... O HOMEM, 2

ERA UMA VEZ... O HOMEM, 1


Há uma geração eternamente grata a um senhor de bigode e suíças grisalhas, de seu nome Albert Barillé. Foi o autor de uma das séries de animação mais inteligentes de sempre: Era uma vez… o Homem. Transmitida originalmente pela cadeia francesa FR3, passou na RTP entre 1978 e 79 (se a memória não nos falha, aos sábados de manhã), com a Tocata e Fuga em Ré Menor de J.S. Bach no genérico. Era a época em que os desenhos animados a preto e branco, esparsamente distribuídos pela grelha televisiva, se aguardavam com uma ansiedade quase natalícia. Depois de Vickie, o Viking, que anunciou um grito de libertação em relação aos bonecos fofinhos e semiestáticos; depois da descoberta de emoções mais dramáticas e complexas, graças à Heidi e ao Marco, a série Era uma vez… o Homem representou os primeiros passos na conquista da maturidade, mais ou menos como passar da escola primária para o ciclo preparatório dos desenhos animados. Foram 26 semanas a acompanhar a evolução da primeira célula e a extinção dos dinossauros, a transição do homem de Neanderthal para o Cro-Magnon, as civilizações dos vales férteis da Mesopotâmia, a expansão dos grandes impérios. Vinte e seis semanas para conhecer o século de Péricles, a rota de Marco Polo, o reinado de Isabel I, a corte de Luís XIV, a Rússia de Pedro o Grande e tantos outros mundos. Os argumentos e diálogos de Albert Barillé eram historicamente factuais, mas não escondiam preocupações pacifistas ou ecológicas, nem a sua desconfiança pelo pior da espécie humana. O último episódio intitulava-se, justamente, «Era uma vez… a Terra (e amanhã?)». Passados mais de trinta anos, continuamos sem saber responder.

(Texto publicado na edição de 18 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

V CONFERÊNCIA DO PLANO NACIONAL DE LEITURA


Amanhã e depois, na Fundação Calouste Gulbenkian, muitas horas para falar de livros, leituras e leitores. Nós também vamos estar presentes no painel das 14h30. Programa completo aqui.

domingo, 11 de setembro de 2011

BRANCO SOBRE AZUL


O sabão azul e branco responde pelo improvável nome técnico de «sabão offenbach», uma espécie de cartão de visita para impressionar quem se interessa por nomes sonantes – neste caso, o da cidade alemã homónima onde terá tido origem. À parte isso, é o sabão mais português que existe, com todas as contradições implícitas em tal opção. Visto de fora, é uma amálgama concreta de ingredientes naturais, cujo maior peso provém dos quase 50 por cento de matéria gorda que o diferenciam de outros sabões e sabonetes. Não deixa de ser curioso pensar que um produto vocacionado para combater a sujidade – nódoas de gordura, por exemplo – comporte em si mesmo as causas do problema; mas esse é um paradoxo antigo, procedente de épocas remotas em que o azeite se usava para lavar o corpo. Não consta que alguém tenha sujado as mãos por causa disso. Mais interessante, porém, é o sabão azul e branco quando visto por dentro, após golpe de lâmina certeira. É aí que perde a faculdade de ser apenas concreto e se revela em imprevisíveis nuances e ramificações marmóreas, que tanto lembram os contornos da deriva dos continentes como as formações nebulosas do céu. Esta poética da reconstrução das formas é algo que nenhum detergente em pó consegue reproduzir, por mais sofisticado que seja. Contrariando todos os prognósticos, falta dizer que o sabão azul e branco está para o sul de Portugal como o seu equivalente rosa e branco está para o norte; onde, por tradição, regista maior número de adeptos. De um sabão português é lícito esperar todas as contradições.

(Texto publicado na edição de 11 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CONVERSAS DE BAIRRO À VOLTA DOS LIVROS


No próximo dia 15 de Setembro (de hoje a uma semana), pelas 18h30, estarei presente na Bulhosa de Campo de Ourique para uma das "Conversas de Bairro", juntamente com a Andreia Brites e a Sara Figueiredo Costa (moderação). Tema: "Livros para crianças ou livros que também podem ser lidos por crianças?". Não se presta a esclarecimentos fáceis nem a conclusões definitivas. Mesmo assim - ou por isso mesmo - apareçam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O TESOURO DO RIO


O Silêncio da Água é um fragmento retirado do livro As Pequenas Memórias, evocação autobiográfica da infância e primeira adolescência de José Saramago. Descreve um episódio não extraordinário no quotidiano de um rapaz do campo: o dia em que um peixe do rio morde o isco e, depois de alguma luta, lhe arrebata os «petrechos de pesca», deixando-o com uma «cana inútil e ridícula nas mãos». O rapaz insiste, correndo a casa para «armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas com o monstro». Valendo por si próprio, o texto ganha outra nitidez e intensidade emocional graças às ilustrações de Manuel Estrada (Madrid, 1953), que atribui à água as qualidades da escrita – as letras dispersas na torrente conduzem a essa extrapolação simbólica. A luta do protagonista transforma-se, assim, no resgatar da linguagem às profundezas do rio, sendo a cana o equivalente às ferramentas do escritor. Nesse dia, o «monstro» não volta, como é de prever. Porém, com o anzol nas guelras, à semelhança de Moby Dick, será alvo de uma perseguição incansável até que devolva a palavra certa. O que acabou por acontecer.

O Silêncio da Água
José Saramago
Ilustrações de Manuel Estrada
Caminho

(Texto publicado na edição da LER nº 105, secção “Leituras Miúdas”. Manuel Estrada, um dos mais conceituados artistas gráficos espanhóis, assina o design editorial dos livros de José Saramago na Alfaguara.)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TUDO O QUE SEMPRE QUISEMOS SABER SOBRE SEXO (VÁ LÁ, QUASE TUDO)


A Enciclopédia da Vida Sexual foi publicada em português pela Livraria Bertrand (e também pelo Círculo de Leitores) no ano seguinte à Revolução dos Cravos. No Portugal recém-saído da casca, as capas dos cinco livros que compunham a colecção denotam uma liberdade de costumes hoje impensável. No primeiro volume, dedicado aos 7/9 anos, duas crianças nuas posam descontraidamente numa cadeira estilo Emanuelle, e no segundo (10/13 anos) correm pela praia de mãos dadas, sorridentes e felizes na sua revisitação do Paraíso. Há muito que não se vêem capas assim na secção infanto-juvenil das nossas livrarias, e nem vale a pena explicar porquê. Os autores da Enciclopédia da Vida Sexual, quatro médicos franceses, afirmavam que «nenhuma censura devia existir» e apontavam Camus, Sartre e Malraux como «modelos» para os adolescentes de então. «A educação sentimental é, antes de tudo, uma situação vivida e nada substitui a experiência pessoal», acrescentavam. Quando um livro consegue a proeza de juntar referências a Camus, Sartre e Malraux (e ainda Baudelaire, Diderot, Laclos, Fellini…), ao mesmo tempo que tenta responder a perguntas tão irrespondíveis como «qual é a razão de ser da adolescência?» ou «porquê permanecer casto?», temos obra. Por tudo o que fez pelo esclarecimento de uma geração sem acesso à internet nem aos documentários do canal Odisseia, já para não falar nos Morangos com Açúcar, a Enciclopédia da Vida Sexual merece ser erigida no cânone das leituras memoráveis, sobretudo se foram feitas às escondidas.

(Texto publicado na edição de 4 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SETEMBRO É TEMPO DE RECOMEÇOS


Porque o fim de uma coisa é sempre o princípio cativo de outra coisa qualquer – quantas vezes maior e mais forte –, não é com penas nem melancolias de chuva pré-outonal que O Jardim Assombrado termina o silêncio das últimas semanas para anunciar o fim de A Bruxinha, suplemento infantil do semanário Região de Leiria coordenado por Sílvia Alves – autora, contadora de histórias e uma das pessoas que mais têm contribuído para a divulgação da literatura para crianças nos últimos anos. Para a Sílvia, vai um grande abraço e o desejo de outros voos e outras latitudes. O texto que se segue corresponde à última crónica publicada no Região de Leiria, a 27 de Agosto de 2011:

“Os hábitos de leitura fazem-se de pequenos passos. Os leitores do futuro são as crianças que começam a fazer caminho. A Bruxinha começou há doze anos a falar de livros e leitura, muito antes de um PNL decretar esse caminho. Os jornais estão em reinvenção lenta de um saber fazer que pede a articulação da tradição do papel com novos caminhos que se abrem online. Os que souberem ver mais longe construirão o futuro. A rapidez da notícia viverá a par da narrativa mais detalhada mas, num ou noutro formato, não haverá jornais grátis: são feitos de pessoas e do seu trabalho que tem um preço inalienável.

Hoje, com memorandos hostis a ditar tempestades, a Bruxinha chega ao fim. No seu coração, amarrotado já de saudade, leva a esperança de ter deixado algumas sementes de bons leitores. A eles e a todos os que, em doze anos, comigo colaboraram desejo as maiores felicidades. Continuaremos a encontrar-nos nos livros e nas histórias contadas onde nascem e vivem para sempre as Bruxinhas de Papel.

Esta é também, ao fim de sete anos, a minha última crónica no Região de Leiria. O sempre e o nunca são palavras armadilhadas, neste tempo de estender mapas e descobrir novos rumos. Do fim diz Agustina: “O que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa". Seja.”


(Na imagem: pormenor de pintura de Fátima Mendonça, 1997.)

domingo, 31 de julho de 2011

EM POUSIO


O Jardim Assombrado vai recolher-se por uns dias. Ou umas semanas. (Ilustração de Joana Rêgo para a Kalandraka.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

O CÉREBRO E A FLOR SELVAGEM


Calpurnia Tate é uma menina de onze anos, nascida no Texas e filha de boas famílias, a quem a tradição e a moral do século XIX predestinam o recato da vida doméstica, sem outros entretenimentos que não a gestão da copa e da cozinha – e a procura de um bom partido para casar. O tédio feito existência, dito de outra maneira. Porque Calpurnia Tate é também uma menina curiosa e inteligente, fascinada pelas descobertas científicas do século de Darwin, cuja natureza instintiva quer mais do que crescer entre barrelas de roupa e tartes de nozes pecã, por muito doces que estas sejam. Um avô naturalista, homem de poucas falas e nenhuma inclinação por crianças, vai ajudá-la a entender o vasto mundo que cabe entre o céu estrelado e um olhar microscópico, o mundo a que Calpurnia Tate escolheu pertencer. Não é líquido que o consiga, mas, chegados à última página, outra coisa não podemos desejar.

A Evolução de Calpurnia Tate é um belíssimo primeiro livro de Jaqueline Kelly, autora neozelandesa que se estreou a ganhar o Prémio Newbery, em edição da Contraponto. Para todas as idades.

domingo, 24 de julho de 2011

A TABUADA PORTUGAL


Longe de ser tão popular como a tabuada Ratinho, a tabuada Portugal não traz data nem chancela do editor, mas apresenta inequívocos sinais de antiguidade. Não é só pela esfera armilar da capa e pelo menino de cabelo aparado à escovinha; nem pelos conteúdos (como hoje se diz) que nos falam da velha moeda portuguesa e das medidas de lenha… São já as noções básicas de aritmética que temos dificuldade em compreender. Por exemplo, frases como esta: «São quatro as operações de que nos servimos para resolvermos os problemas que se nos deparam: adição, subtracção, multiplicação e divisão.» Ora, se as coisas fossem assim tão simples, os nossos problemas estariam resolvidos. Mas a tabuada é um sistema de valores do tempo em que acreditávamos que 3x2 maçãs era igual a seis maçãs, e repetíamos aquela lengalenga com a convicção e a humildade dos crentes. Não comprávamos maçãs a crédito, nem pedíamos mais crédito para pagar os juros do crédito sobre as maçãs. Agora, 3x2 maçãs pode ser igual a seis mil maçãs ou a zero maçãs, dependendo do lado para que acorda a bolsa de Nova Iorque. A aritmética real foi substituída pela aritmética virtual, e nunca os números foram tão manipulados como hoje. Entretanto, esquecemo-nos da tabuada, essa coisa tão repetitiva e remediada. Deixámos de ser os «bons alunos» da Europa e perdemos as graças dos professores, que passaram a tratar-nos como delinquentes. Que fazer? Há que voltar atrás e reaprender a fazer contas. Vai uma maçã?

(Texto publicado na edição de 24 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CITY-BREAKS: ALTO MINHO

Vou lá visitar parentes.

(Fotografia de Manoel Carneiro, início do séc. XX. Grupos da Gandarela: família rural. Edição do Museu Nogueira da Silva, Universidade do Minho.)

IRMÃOS GRIMM EM TESE DE DOUTORAMENTO


Os Contos de Grimm em Portugal - A Recepção dos Kinder-und Hausmärchen entre 1837 e 1910, de Maria Teresa Cortez, professora da Universidade de Aveiro, é uma edição Minervacoimbra, do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos e da Universidade de Aveiro, e foi publicado em 2001. Creio que esta é (ou era, até há pouco tempo) a única tese de doutoramento em Portugal versando a literatura para crianças. Se estou a dizer “inverdades”, por favor corrijam-me. Naturalmente, este post vem na sequência do anterior, sobre o simpósio internacional dos Irmãos Grimm que está a ser preparado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

OS IRMÃOS GRIMM EM PORTUGAL


Como muitas das personagens dos seus contos, os Irmãos Grimm também passaram fome e toda a sorte de privações, a partir do momento em que Philipp Grimm morreu subitamente, com apenas 44 anos, deixando mulher e seis filhos na pobreza. Jacob e Wilhelm Grimm enfrentaram a vida árdua dos colégios internos, mas a possibilidade de estudarem – graças à ajuda de uma tia – permitiu-lhes tornarem-se alunos brilhantes e, mais tarde, especialistas em literatura medieval. A maior parte das cerca das duas centenas de contos recolhidos da tradição oral, na região alemã do Hesse, de onde eram originários, provêm da Idade Média e destinavam-se a ser contadas entre adultos, o que explica a sua violência e crueldade intrínsecas, bem como a explicitação de uma série de interditos sexuais – caso do incesto, presente em muitíssimos contos. Na primeira recolha, dada à estampa em 1812, os Irmãos Grimm mantiveram-se fiéis a estas versões mais cruas, que foram sendo progressivamente suavizadas nas colectâneas seguintes, incorporando os valores da sociedade burguesa e cristã da Alemanha do século XIX, quando a literatura de tradição oral conheceu um público mais amplo: as crianças.

Ouviremos falar muito dos Irmãos Grimm em Junho de 2012, quando Lisboa for palco de um grande simpósio internacional que está a ser preparado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, com a coordenação de Francisco Vaz da Silva, de quem já falámos aqui. O deadline para o envio de propostas de comunicação é o dia 4 de Setembro. Mais informação e uma amostra do apetitoso programa pode ser encontrada no site do IELT.

terça-feira, 12 de julho de 2011

QUE FAZER COM ESTES LIVROS?





O que está num esconderijo secreto? Como são os monstros escondidos debaixo da cama? Como se desenha e pinta uma trovoada? O que cresce nos feijoeiros mágicos? Estes são alguns dos 200 desafios lançados por Nikalas Catlow, ilustrador e designer de livros infantis e autor de E Tu, Rabiscas?, um livro para usar com lápis de cor (ou de cera, ou guaches, ou aguarelas, ou…) e imaginação ilimitada. Além desta edição recente da Gailivro, vale a pena lembrar também dois livros de actividades da colecção Orfeu Mini, ambos de origem francesa: Dias Felizes e Caderno de Pintura para Aprender as Cores – na imagem, ainda na edição original, porque o grande formato não se presta ao scanner. Três bons livros de actividades para levar na bagagem de férias e manter miúdos (e graúdos) entretidos fora das PS3.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O COPO MEIO CHEIO


O leitor pode pensar que ainda ontem viu esta garrafa, e é quase verdade. Ainda «ontem», isto é, há cinco anos, as garrafas de vidro de um quarto de Vigor faziam parte do cenário habitual dos cafés e pastelarias; tão habitual que há quem não tenha notado o seu desaparecimento. É sempre assim: uma pessoa distrai-se e acaba a fazer fintas à memória, a teimar que ainda «ontem» viu coisas que já se perderam de vista. Para todos os efeitos, as garrafas de um quarto de Vigor desapareceram em 2006, e com elas a esperança irrealista de que não nos obriguem a ser cada vez mais sofisticados. Que não nos obriguem a escolher entre leite sem lactose, vitaminado, com cálcio, ómega 3, magnésio ou outro ingrediente «essencial», porque tantas escolhas deixam-nos cansados e, pior, só são válidas até ao próximo estudo científico que vem negar o anterior. Uma das alegrias do leite Vigor, para além de um nome que não engana ninguém (do latim vigore, força vital), é o facto de valer por si mesmo, dentro daquela garrafa de vidro tosca e robusta que surgiu há 60 anos, no contexto do pós-guerra. Em 1951, o leite fresco Vigor começou por querer agradar aos ingleses residentes no eixo Sintra-Cascais-Estoril, habituados a certas mordomias. Foi aí que alguém se lembrou de criar um sistema de distribuição porta a porta, com o leiteiro ao volante da carrinha branca, um ícone dos anos 1950. Desde então, pedir «um quarto de Vigor» tornou-se sinónimo de leite, por metonímia – e pedir «um quarto de Vigor e meia torrada» é algo que só se entende em Portugal. Quem o faz é um ser praticamente completo, faltando-lhe apenas mais um quarto de qualquer coisa para lá chegar.

(Texto publicado na edição de 10 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A GENEROSIDADE É SILENCIOSA


“Os caçadores que subiam aos montes atrás de lebres ou javalis aperceberam-se do alastramento de pequenas árvores, mas atribuíam-no aos caprichos da Natureza. Era esta a razão pela qual ninguém tocava na obra deste homem. Se alguém tivesse suspeitado, a sua acção teria sofrido interferências, teriam tentado demovê-lo, ou mesmo impedi-lo. Mas tudo isto era inimaginável! Quem poderia ter acreditado, nas aldeias e a nível administrativo, numa tal obstinação, em tão magnífico acto de generosidade?”

Do conto O Homem que Plantava Árvores, um relato de fundo humanista e ecológico escrito por Jean Giono (1895-1970), fez-se um filme de animação que pode ser visto aqui. A edição portuguesa é da Far Far Away Books.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

NOVIDADES DA KALANDRAKA



Do escritor e ilustrador Arnold Lobel, “estranhamente” pouco amado pelo mercado português, a Kalandraka já tinha publicado Contos de Ratinhos e O Porquinho, livros em que a função securizante e agregadora de emoções se evidencia com a subtileza necessária. Poupar-se-iam toneladas de papel e tinta se muitos escritores ditos para crianças percebessem, de uma vez por todas, que as crianças querem emoções, não querem sermões… De Arnold Lobel (EUA, 1933-1987), falta chegar cá, sobretudo, a série Frog and Toad, já publicada em espanhol (Sapo y Sepo, Alfaguara), vencedora dos prémios Caldecott e Newbery. Outro “clássico contemporâneo” a bisar na Kalandraka é Janosch, pseudónimo de Horst Hecker (Alemanha, 1931). Correio Para o Tigre segue-se a Oh, que Lindo é o Panamá, numa tradução que nos deixou algo confusos, há que dizê-lo…

O Tio Elefante estará nas livrarias a partir de 15 de Agosto, Correio Para o Tigre chega esta semana.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LIKE TEARS IN THE RAIN


Em tempos de chumbo e cólera dos mercados, o Almanaque Silva lembra a época em que fomos prósperos, contemporâneos e criativos: ilustradores portugueses fotografados por João Francisco Vilhena, com a chancela da Bedeteca de Lisboa. “São imagens de um tempo e um lugar que celebraram o triunfo da ilustração editorial portuguesa e de um futuro otimista que o nosso inquietante presente remeteu para a gaveta da memória”, diz Jorge Silva.

É bem verdade. Mas, nem que seja em homenagem ao final de Blade Runner – filme glosado na imagem acima de Alice Geirinhas –, ainda não é hora de declinar o futuro que nos sobra. Sejamos criativos, o impossível cuidará do resto.

Ver aqui.

domingo, 3 de julho de 2011

GRANDE GALO


Os livros só com imagens tendem a gerar inseguranças entre pais e educadores, pela ausência de um guião escrito que os "obriga" a contar a história à sua maneira. O medo das ambiguidades, a necessidade de extrair uma moral e a dificuldade de fazer leituras partilhadas com as crianças levam a que sejam cautelosamente evitados, até porque não vale a pena gastar dinheiro com "livros de bonecos"… Quando isto acontece, ignoram-se as imensas potencialidades narrativas e interpretativas contidas nas imagens, de que O Ladrão de Galinhas é exemplo. Béatrice Rodriguez (n. 1961) não precisa de palavras para descrever a perseguição de três amigos – um coelho, um urso e um galo – à raposa que lhes rouba uma galinha à hora do pequeno-almoço. O formato rectangular, alongado, presta-se a um trabalho de composição que explora a distância física e emocional entre os personagens, subtilmente caracterizados pelas suas expressões e comportamentos, em cenários muito diversos. No volte-face final em que a galinha defende e escolhe ficar com o raptor, o leitor adulto poderá lembrar-se da famosa «síndrome de Estocolmo». É aí que se percebe como um livro aparentemente naïf tem o poder de nos questionar. Não há que ter medo.

O Ladrão de Galinhas
Ilustrações de Béatrice Rodriguez
Bags of Books

(Texto publicado na edição da LER nº 104, secção “Leituras Miúdas”. Seguindo o êxito de O Ladrão de Galinhas – e também as sugestões dos leitores – Béatrice Rodriguez publicou as sequelas Fox and Hen Together e Rooster’s Revenge, pela Enchanted Lion Books).

quinta-feira, 30 de junho de 2011

GO THE FUCK TO WORK


Adam Mansbach é um tipo esperto. Uns tantos como ele devidamente entronizados nos lugares certos e o mundo seria outra coisa – parecida com o que é hoje, mas ligeiramente mais asquerosa. Diz que Mansbach é um escritor sério e premiado, autor de ensaio e ficção, professor universitário e palestrante, além de membro fundador de uma publicação dedicada ao hip hop; e se o leitor nunca tinha ouvido falar é só porque anda distraído.

Mas Mansbach é, principalmente, um tipo esperto. Ele é como a minhoca que acorda o pássaro madrugador: o que outros pensaram, Mansbach fez; onde outros capitularam, Mansbach triunfou. O seu grande contributo para o avanço civilizacional, já inscrito nos anais da história da edição, é um livro para crianças chamado Go The Fuck to Sleep. Uma versão lida em voz alta por Samuel L. Jackson está a bater records de downloads. Há outra versão, igualmente bera e rufia, protagonizada por um imitador de Christopher Walken. É escolher. O white trash americano exulta. E Adam Mansbach já tem casa nova. Go The Fuck to Sleep é o best-seller do momento e, segundo a Amazon, “um dos livros mais falados da década”. Olha a nossa sorte.

Peço desculpa: acabei de ouvir uma entrevista do autor à ABC e parece que, afinal, Go The Fuck to Sleep não é um livro para crianças. Parece mesmo, mesmo, mesmo – mas não é. Ca burros ca malta somos, perdão, semos... O formato, as ilustrações, as cores, as rimas em verso, os tigres-cordeirinhos na capa, tudo aquilo é só para enganar o leitor desavisado que depois deixa comentários na Amazon. Como aquele papá que leu o livro à hora de dormir – pronunciando bem as sílabas “go the fuck to sleep”, esperemos – e pôs a miúda de quatro anos a chorar. Ele há putos sem nenhum sentido de humor, bolas. Um pai esforça-se, esforça-se, e depois é isto. Apre. Cambada de ingratos.

Entendamo-nos, portanto: Go The Fuck to Sleep é um livro para adultos. A partir dos três anos, mais ou menos. Na entrevista, Adam Mansbach recomenda que o coloquem numa prateleira bem alta, longe do alcance das crianças – que é precisamente o que todos vão fazer, nas livrarias e tudo. Assim, bem lá no alto, onde ninguém chegue senão com um escadote.

Adam Mansbach podia ter escrito um romance ou um ensaio sobre a difícil e debilitante condição da paternidade, mas sabia que ninguém lhe ia ligar pevas. Sobretudo, daria muito trabalho. Por isso, entre duas cervejas e o sumário das aulas, escreveu Go The Fuck to Sleep. Escreveu-o a pensar nos milhões de pais atormentados que se sentem “identificados” com o problema de pôr as crianças a dormir (poderemos chamar-lhe uma “issue”?), e agora estão muito mais aliviados, porque finalmente alguém os compreende. Taditos. Sentiam falta de “empatia”. Já não sabiam o que fazer com tanto sentimento de culpa, com esses momentos em que a bílis sobe ao esófago (a bílis, o cansaço, a pressão do trabalho, o vizinho a martelar, as contas por pagar, os fritos que caíram mal e todas essas coisas chatas da vida), provocando um súbito e premente desejo de torcer aqueles pescocinhos alvos que se recusam a tombar na almofada, pelo menos até à manhã seguinte. Aí, entra o bom do Mansbach. Os papás pegam no livro e riem-se muito. Ele também.

terça-feira, 28 de junho de 2011

LIVROS VICIANTES




Eu também me lembro. Os Filhos da Droga foi, de longe, o livro que reli mais vezes: 13, para ser exacta. Li-o na edição do Círculo de Leitores (1981), que resistiu até hoje com as mazelas naturais do tempo. Nessa altura, devorei também outros clássicos do género – Viagem ao Mundo da Droga e Perguntem à Alice, por exemplo –, mas foi a vida sórdida e extraordinária de Christiane F. e do namorado prostituto, Detlef, mais a descrição da sua família disfuncional, das amigas Babsi e Stella, dos clientes da Estação do Zoo e dos apartamentos com as alcatifas ensopadas em “caldo” que verdadeiramente me impressionaram. Quando fui pela primeira vez a Berlim, em 1993, comprei um postal na Kurfürstendamm, uma das palavras mais fascinantes do livro, a par de turkey, Mandrax, Valium e Valeron. Adorava saber estas coisas e acredito que ressoem da mesma maneira junto de quem tem hoje 12 ou 13 anos.

AO CUIDADO DO INSTITUTO DE NOVAS PROFISSÕES


Freguesa: Queria um livro para uma rapariga de 26 anos que é decoradora de infância…
Livreira Anarquista (reticente): …..decoradora de infância?!
Freguesa: Sim, decoradora de infância…ela fez mesmo o curso e tudo!


(Mais um testemunho único e inolvidável da Livreira Anarquista, para ler na íntegra aqui.)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

PARA UMA EDUCAÇÃO ELEMENTAR


Confesso que esperava um pouco mais de uma mente brilhante como Ken Robinson, mas talvez a expressão plena do seu elemento se encontre na comunicação oral e não na escrita (ouçam-no aqui, nas Ted Talks). O que é “o elemento”? Na definição do autor, “é o ponto onde a aptidão natural e a paixão pessoal se encontram”, proporcionando às pessoas a possibilidade de “fazerem aquilo de que gostam, o que as torna autênticas”. Facílimo, não? Basta ver a quantidade de gente que se levanta às sete da manhã, entusiasmada com a perspectiva de mais um dia de trabalho, para ver como a coisa não tem mesmo nada que se lhe diga…

Se me perguntarem se O Elemento (Porto Editora) é um livro de auto-ajuda, direi que não, porque embirro com o termo auto-ajuda; a não ser, eventualmente, para baptizar uma oficina de reparação de automóveis. Mas se me perguntarem se é um livro implicado no conhecimento do indivíduo e na sua harmonização com o colectivo e com as instituições sociais – a começar pela escola –, direi que sim, com muito gosto, e recomendo a leitura. Há uma enumeração algo exaustiva de casos “famosos”; pessoas que, cedo ou tarde, encontraram o seu elemento (de Matt Groening, criador dos Simpsons, a Richard Branson, o homem forte da Virgin), por contraponto a uma certa rarefacção teórico-científica, mas quem sentir que Ken Robinson está a fazer chover no molhado pode sempre fazer uma leitura diagonal dessas partes. No essencial, O Elemento é um livro estimulante, questionador e algo incómodo, sobretudo numa altura em que os cursos de Humanidades estão às moscas e nos tornámos num país (falido) de gestores e engenheiros. O caso escandaloso dos alunos do Centro de Estudos Judiciários, futuros magistrados que respondem a testes de cruzinhas e, mesmo assim, copiam vergonhosamente, é bem exemplo da mediocridade de espírito que grassa por aí.

“O pensamento criativo envolve muito mais do que os pensamentos lógicos e lineares que dominam a perspectiva ocidental da inteligência e, sobretudo, da educação”, afirma Ken Robinson. “O pensamento criativo depende, em grande parte, daquilo a que por vezes chamamos pensamento divergente ou lateral e, sobretudo, das metáforas e das analogias”. A citação faz pensar na literatura e nas artes? Pois, não a escolhi por acaso. Resta lembrar que conhecimento não é igual a inteligência, e inteligência não é igual a criatividade. Para sair deste atoleiro, vamos precisar principalmente desta última.

domingo, 26 de junho de 2011

GERAÇÃO KALKITOS


Para muita gente, os Kalkitos foram a invenção mais marcante desde a roda e do café instantâneo. Compravam-se em quiosques e papelarias, a preço módico, e consistiam numa série de figuras decalcáveis numa folha com um cenário previamente desenhado. Havia sempre um pequeno texto sobre o tema, de uma ingenuidade épica e comovente: «Colecciona-os e vive sempre que queiras as mais excitantes aventuras», prometiam. E era verdade. Com a ajuda de um simples lápis ou de uma esferográfica, qualquer menor de idade teve oportunidade de sentar-se à mesa com Os Vikings, voar com O Barão Vermelho, alimentar os Animais Pré-Históricos, entrar na Cidade Troglodita ou participar no Desembarque na Normandia. Não é exagero dizer que os Kalkitos fizeram mais pela cultura geral de uma geração do que muitos decretos-leis do Ministério da Educação. A sua importância foi tal que chega a surpreender a ausência do nome «Kalkitos» na lista dos nomes próprios autorizados pelo Instituto dos Registos e do Notariado; sobretudo depois de darmos caras com «Liliano», «Lindorfo» ou «Libertário», só para citar três exemplos próximos do «K». Francamente, é impossível que alguém nascido antes de 1980 nunca se tenha lembrado de prestar homenagem a uma das mais extraordinárias brincadeiras do século XX tardio, baptizando o seu filho de Kalkitos Manuel, Pedro Kalkitos ou mesmo Sebastião Kalkitos. São nomes capazes de influenciar o destino de qualquer pessoa e até de uma nação inteira – e se o mundo está como está, é só porque falta colocar um Kalkitos no lugar certo.


(Texto publicado na edição de 26 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia".)

sábado, 25 de junho de 2011

FESTIVAL HISTÓRIAS DE IDA E VOLTA


Começou hoje de manhã na Fábrica da Pólvora (Barcarena) e prolonga-se até amanhã à noite, mas quem quiser assistir às melhores sessões de contadores de histórias (António Fontinha, Rodolfo Castro, Cristina Taquelim e Tim Bowley, entre outros) vai ter de lá ir hoje. O programa completo está aqui.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

UM PINGUIM PERDIDO DE CASA


Como no livro de Oliver Jeffers, Perdido e Achado (Orfeu Mini), também este pinguim-imperador se perdeu de casa, nadando desde a Antártida até à Nova Zelândia, o que aconteceu pela última vez em 1967. Mas nem sempre há alguém para cuidar de nós, incondicionalmente. Passados os primeiros dias do “fenómeno”, com autóctones e turistas a acorrerem à praia de Peka Peka, na costa oeste da Ilha Norte (aqui, o vídeo do New Zealand Herald), a história caminha para um desenlace triste. Os serviços oficiais de conservação do ambiente recusaram – numa atitude sensata – assumir a responsabilidade de transportar o pinguim para a Antártida, com receio de introduzir doenças no ecossistema (além de que a viagem seria caríssima); e os centros de acolhimento parecem não possuir as condições necessárias. Depois de ter dado sinais graves de inadaptação ao novo habitat, demasiado quente para os seus hábitos, começou a ser tratado, estando agora com 50 por cento de hipóteses de sobreviver. É pouco provável que tal aconteça. A vida não é tão bonita como certos livros. Por isso fazemos livros.

MERGULHAR É PRECISO


Por nós todas as praias seriam assim, livres e luminosas. Sem famílias aos gritos, sem música de bares a massacrar-nos os ouvidos, sem criancinhas a fazer birras porque já não sabem brincar fora das playstations. Praia Mar (Planeta Tangerina) é um livro de imagens onde apetece mergulhar em dias de calor como hoje. Não há adereços inúteis nas páginas ilustradas por Bernardo Carvalho; só a expressão da natureza em sintonia com o elemento humano, uma tranquilidade delicada de onde não está ausente o movimento e a dinâmica das coisas. Mergulhem e verão.

terça-feira, 21 de junho de 2011

UMA NOVA EDITORA: GATO NA LUA


Gato na Lua (belo nome) é uma editora de livros para crianças fundada por Paulo Monteiro, cuja experiência na Ambar o levou agora ao novo projecto. Com sede em Leça do Balio, a Gato na Lua define-se por “uma orientação editorial assente na publicação de álbuns ilustrados de grande qualidade dirigidos a crianças entre os 3 e os 10 anos”. Um dos primeiros títulos, O Meu Balão Vermelho, de Kazuaki Yamada – cujas ilustrações foram seleccionadas para a última Feira do Livro de Bolonha – deve chegar em breve às livrarias. Entretanto, sigam as pegadas do gato através do site e do blogue. Aqui.