
Tínhamos seis, sete, nove anos, por aí. A Heidi só tinha cinco quando a Tia Dette a deixou com o Avô, no alto da montanha. Ao princípio achámos que aquilo não ia correr bem, as sobrancelhas dele estremeciam quando falava, era mau sinal. Depois, passou. A Heidi usava sempre o mesmo vestido cor-de-rosa com corpete e cordões à frente, cruzados; nós tínhamos botões e fecho éclair, era diferente. Vestíamos casacos de lã feitos à mão e pullovers de gola em «V» com a camisa a aparecer por baixo, estilo orelhas do Dumbo. As mães não se preocupavam em mandar-nos para a escola com as meias a condizer com as calças, nem sabiam o que era roupa de marca, de modo que nas fotografias de grupo parecíamos todos iguais, apesar da sobreposição de riscas, losangos e xadrez. Estávamos em 1976 quando a Heidi passou na televisão, a moda era terrível, os Natais sucediam-se e não havia maneira de as mães nos darem um Kispo. Algumas insistiam em cortar-nos o cabelo em casa, com a franja à Mireille Mathieu, e tínhamos de nos conformar com aquilo, e também com camisolas interiores que picavam, sobretudo depois de correr muito. E então? A Heidi teve de calçar sapatos quando foi viver para Frankfurt – e a Menina Rottweiler, ou Rottenmeier, fez-lhe a vida negra. Também, com um nome daqueles, estava-se mesmo a ver. Coisas boas: os adultos não achavam estranho que andássemos à bulha com outros miúdos, sabiam que aquilo passava depressa. Deixavam-nos picotar com alfinetes em cima de uma placa de esferovite sem ficarem logo histéricos. Brincávamos na rua e no quintal, sozinhos. As mães queriam-nos limpos, alimentados e com as vacinas em dia, a partir daí que tratássemos de ser felizes. E éramos. Éramos, pois.
(Texto publicado na edição de 23 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)















































