terça-feira, 29 de novembro de 2011

SE EU FOSSE UM LIVRO...


Se eu fosse um livro gostaria sempre que me lessem até ao fim, mesmo contra o (ou por causa do) malefício da dúvida. Não podendo ser um livro, recomendo o novo do André Letria e José Jorge Letria, que é bem bonito e não se quer largar tão depressa. Aqui, o booktrailer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

LIVROS LILLIPUTIANOS


O título deste post não tem nada a ver (mas podia) com a rubrica de Sandy Gageiro sobre livros infantis, na Antena 2. É mesmo a última chamada para ir ver - hoje ou amanhã de manhã - a exposição de Livros Miniatura que está no CCB, alguns tão minúsculos que tiveram de ser cosidos com fios de cabelo. Está tudo aqui. No meio da colecção também há livros para os mais pequenos, e isso, noblesse oblige, é algo que não podíamos deixar passar em branco.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

JÁ NÃO FALTA MUITO


O próximo livro está quase pronto. O quarto, com ilustrações do Alexandre Esgaio. Dizem que o número 4 representa a ordem, o rigor, a estabilidade, a segurança. São bons ingredientes (mas não os únicos) para fazer o quinto livro. E outros mais.

sábado, 19 de novembro de 2011

CONTADORAS DE HISTÓRIAS


OINC! A História do Príncipe-Porco é uma co-edição entre a Fundação Paula Rego e as edições Orfeu Negro, realizada a partir de desenhos de Paula Rego e com texto de Isabel Minhós Martins (Planeta Tangerina), tendo lançamento previsto nas livrarias de todo o país em 25 de Novembro.

A ideia do livro surgiu de um convite da Fundação Paula Rego às edições Orfeu Negro para um projecto de edição de um livro para crianças baseado na série de seis litografias que a Pintora Paula Rego criou em torno da história do Príncipe Porco, e que integram a Colecção da Fundação.

O texto, adaptado para leitores a partir dos 4 anos, parte do conto de tradição oral Re Crin (Rei Porco), recolhido pelo escritor italiano Giovan Straparola na obra Le Piacevoli Noti e publicado em Veneza no ano de 1500. Conta a história de um príncipe que nasceu na pele de um porco e que, apesar de sujo e malcriado, deseja a todo o custo casar com uma jovem bela e graciosa. Mas as três fadas que lhe lançaram o feitiço não vão facilitar-lhe a vida e a cada noiva, cada morte, até que ele encontre o verdadeiro amor…”

(Do press-release enviado pela Fundação Paula Rego. O lançamento de OINC! A História do Príncipe-Porco, que inclui uma leitura encenada e uma conversa em torno do livro, acontece na próxima quarta-feira, 23 de Novembro, às 10h30, na Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais.)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

UMA MULHER DO NORTE

“A galeria portuguesa tem como objetivo dar espaço a profissionais portugueses. A pessoas inspiradas e inspiradoras. Uma galeria que expõe o melhor que se faz por cá nas suas diversas formas de arte.” Não sei quem é o autor – ou autores – deste novo blogue, mas agradeço desde já a referência e, especialmente, a forma como começa o texto: “A Carla é uma mulher do Norte mas vive em Lisboa.” É uma pequena frase que contém um destino, uma crença e a sua contradição. A ser de algum lado, de facto, serei do Norte, onde nasci e vivi até aos onze anos, no eixo Matosinhos-Braga-Monção. Do resto, que veio depois, recordo pouca coisa.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

17º ENCONTROS LUSO-GALAICOS-FRANCESES


Faltam cerca de duas semanas para os 17º Encontros Luso-Galaico-Franceses do Livro Infantil e Juvenil, que este ano se realizam na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, dias 2 e 3 de Dezembro. Tema escolhido: “O álbum na literatura para a infância” (ou, se preferirem, o picture book). Para o desvendar, haverá conferências, comunicações, debates, ateliers/encontros e venda de livros e de publicações científicas. A imagem acima é a capa de um dos álbuns de Oli e Ramón Trigo, participantes no encontro pela “facção galega”. Aqui fica o programa completo (sim, nós também vamos estar lá):

2 de Dezembro, sexta-feira

Auditório da ESE - manhã
9:00 - Recepção dos participantes
9:30 - Sessão de abertura – Presidente da ESE do Porto; representantes das entidades organizadoras
10:00 - Para uma poética do álbum – Ana Margarida Ramos (Univ. de Aveiro, LIJMI, ELOS, Portugal)
11:15 - As reescritas no álbum infantil galego – Carmen Ferreira Boo (Univ. de Santiago, Galiza)
11:45 - Os álbuns de Carla Maia de Almeida – Carla Maia de Almeida (escritora, Portugal) e Sara Reis da Silva (Univ. do Minho, LIJMI, ELOS, Portugal)

Auditório da ESE - tarde
14:30 - A investigação em Literatura para a Infância e a Juventude – Blanca-Ana Roig Rechou (Univ. de Santiago, LIJMI, ELOS, Galiza), Sara Reis da Silva (Universidade do Minho, LIJMI, ELOS, Portugal)
15:30 - Apresentação da obra O Álbum na Literatura Infantil e Xuvenil (2000-2010) - Mar Fernández (Univ. de Santiago, LIJMI, ELOS, Galiza)
16:15 Encontro com António Mota (escritor) e José Manuel Saraiva (ilustrador) – Maria Elisa Sousa (ESE do Porto, NELA)

Sala X
16:15 - Os álbuns de Eric Many – Eric Many (ESE do Porto, França)
Sala Y
Os álbuns de Oli e Ramón Trigo – Carme Ferreira (Liter21, Univ. de Santiago), Geovana Gentili (Univ. de Santiago, LIJMI, ELOS, Brasil)
Sala Z
16:15 - Os álbuns de Manuela Bacelar – Carina Rodrigues (bolseira da FCT; LIJMI, ELOS, Portugal)

Auditório da ESE
18:00 - Canções tradicionais de Portugal, da França e da Galiza
Alunos da licenciatura em Educação Musical; direção: Rui Ferreira (ESE do Porto, Portugal)

3 de Dezembro, sábado

Auditório da ESE
9:30 - A crítica e a investigação em Literatura Infantil e Juvenil – Vanessa Regina Ferreira da Silva (Univ. de Santiago, LIJMI, ELOS, Brasil)
A revista Malasartes: Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude – José António Gomes (ESE do Porto, NELA, LIJMI, ELOS, Portugal)
A revista AILIJ – Isabel Mociño González (Univ. de Vigo, LIJMI, ELOS, Galiza)
10:15 - A construção de álbuns ilustrados. Oli, Ramón Trigo (escritores e ilustradores-Galiza) e Marta Neira Rodríguez (Escuela Universitaria de Magisterio CEU-Univ. Vigo, LIJMI, ELOS, Galiza)
11:30 - A obra de Manuela Bacelar – Manuela Bacelar (ilustradora, Portugal) e Sara Reis da Silva (Universidade do Minho, LIJMI, ELOS, Portugal)
12:30 - Encerramento – Representantes das entidades organizadoras e Coordenador do NELA

Informações e inscrições: nela@ese.ipp.pt

UM LIVRO GIGANTE


É um livro grande, em todos os sentidos. A Bags of Books, que iniciou o seu projecto editorial com Beatrice Alemagna (O Meu Amor e Depois do Natal), editou agora A Gigantesca Pequena Coisa, a última obra da autora nascida na cidade italiana onde se mostra o melhor da ilustração do livro infanto-juvenil: Bolonha. É muito difícil arrumá-lo em qualquer prateleira, mas essa é uma questão absolutamente menor comparada com o que realmente importa.

domingo, 13 de novembro de 2011

A ÚLTIMA CRÓNICA


Não, nunca nos habituamos à nostalgia do fim do Verão, por muito que tentemos. Por muito que nos digam: «para o ano há mais», «é tempo de recomeços», «a chuva faz falta» e «são bonitas as folhas no Outono». Pois, diz que sim. Mas quando arrumamos de vez as toalhas de praia, limpando os vestígios de sal, de sol, do cheiro a areia e a bronzeador, todas essas verdades bem-intencionadas perdem para a nossa atávica memória sensorial. Porque o Verão é sobretudo isso: imagens, sons, cheiros, sabores, texturas. É um cão a correr junto às ondas, é uma cara sardenta cheia de creme Nívea, é um beijo com sabor a gelado, é o perfume das estevas e dos pinheiros numa estrada secundária. Todos os anos, temos a possibilidade de retomar esse imaginário enraizado no passado e saboreá-lo novamente. E se o imaginário significa a possibilidade de brincar com as imagens que acumulámos desde crianças, então não existe época do ano mais livre nem mais completa. Nada se lhe compara, em amplitude e agudeza dos sentidos. Quando acaba, sentimo-nos inevitavelmente mais velhos, mais responsáveis. De certo modo, cada verão que termina é um ano perdido da nossa infância. Por isso a nostalgia do fim do Verão é sempre igual, estando nós diferentes. Repete-se ciclicamente, adiantando-se ou atrasando-se em relação ao calendário, mas chega o dia em que nos apanha, tal como a data do nosso aniversário. Não, nunca nos habituamos à ideia de que também o Verão envelhece. Como todos nós.

(Texto publicado na edição de 6 de Novembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia". A extinção desta página, decorrente da reformulação editorial da revista, significa também o fim de uma colaboração regular que iniciei em 1994.)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A LEITURA NA IDADE DO ARMÁRIO


«Em suma, o adolescente não fecha a porta para sempre. Precisa de espaço e autonomia, pelo que não o podemos sufocar com a nossa prestável ajuda, como fazemos com as crianças. Temos também de perceber que está a construir o seu mundo a partir de estímulos diversos e simultâneos. Um livro adorado hoje será odiado amanhã, ou talvez não. E muito provavelmente um livro impenetrável hoje será legível amanhã. Para lermos com sucesso, temos de relacionar em permanência o que lemos com o nosso conhecimento prévio. Muitas vezes não damos por isso, mas sempre que lemos estabelecemos ligações. Por isso empatizamos com personagens, situações, descrições, ousentimos tristeza, nostalgia, medo, alegria, solidariedade, revolta. Se o livro estiver noutro hemisfério, para nós totalmente desconhecido, não o conseguimos ler. Pensando nos adolescentes e na instabilidade do seu desenvolvimento, a probabilidade de isto acontecer é muito maior. E é natural que assim seja.

A Promoção faz-se tentando e errando sempre. Muitos frutos não se vêem no imediato, não podemos cair na tentação de verificar se fizemos tudo bem, se o fizermos estamos a controlar a liberdade do outro e deitamos todo o trabalho por terra. Não há fórmulas milagrosas, há caminhos. Alguns não leitores nunca se tornam leitores, e têm esse direito. Muitos tornar-se-ão leitores selectivos, quando chegarem à idade adulta. É um mistério e uma maratona, necessariamente altruísta



(Só por falta de tempo é que ainda não tínhamos lido e linkado este excelente texto da Andreia Brites, entusiasta promotora da leitura e blogger do Bicho dos Livros. Ler tudo, mas tudo mesmo, aqui.)

ESTREIA


Com ilustrações de Anabela Dias, A Origem das Espécies Reinventada é o nome do livro de estreia de João Ferreira Oliveira, um novo autor editado agora pela Trinta Por Uma Linha. Lançamento marcado para a próxima sexta-feira, na Pó dos Livros.

EDUCAÇÃO, CULTURA E IMAGINÁRIO


Sexta-feira, 11 de Novembro, no Instituto de Educação da Universidade do Minho (Braga), o Colóquio Internacional Educação, Cultura e Imaginário propõe uma série de comunicações e mesas-redondas à volta dos temas “educação como viagem iniciática” e “educação sob o signo da luz e das sombras”. O colóquio tem como público-alvo estudantes, professores, educadores, investigadores, psicólogos e público em geral. Gostaríamos muito de estar presentes e esperamos que as greves dos transportes não atrapalhem o evento. O programa pode ser consultado aqui. Ilustração roubada a Daniel Silvestre da Silva.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

QUASE A COMEÇAR

A terceira edição do (mini) Curso de Livro Infantil com a Booktailors. Últimas inscrições e mais informações aqui.

domingo, 6 de novembro de 2011

TODOS OS CONTOS DELA


«As únicas histórias para crianças que eu escrevi são estas», afirma, levemente zangada, apontando o livro que nos acompanha na conversa, uma colectânea ilustrada e publicada em 2001 pela Editorial Lumen. «Los Niños Tontos não é uma história para crianças só porque tem a palavra «niño». As pessoas misturam tudo. E os editores também, a ver se cola. Mas uma coisa são livros sobre crianças e outra, completamente diferente, são livros para crianças. Não é uma literatura menor, de modo algum.»

(Também eu tive o privilégio de conhecer Ana María Matute, Premio Cervantes 2010, que passou meteoricamente por Lisboa há poucas semanas. É um ser raro, daqueles que nos impressionam só pela presença. Pedi-lhe para autografar este livro comprado na Fnac, há dez anos – uma edição já difícil de encontrar, segundo ela –, que guarda os seus únicos contos para crianças, a despeito do que possa dizer a wikipedia. O excerto acima pertence ao artigo publicado na última LER, que por lapso não surge assinado.)

sábado, 5 de novembro de 2011

OUTRAS COISAS SELVAGENS


Com obra dispersa por várias editoras, Sara Monteiro tem feito um percurso discreto pela literatura infantil, paredes meias com a poesia, o que nem por isso obscurece a sua originalidade e talento literário – duas qualidades nem sempre consideradas quando se trata de escrever para crianças. A Linha do Horizonte, uma narrativa relativamente extensa a que as ilustrações de Danuta Wojciechowska acrescentam significado (substituindo-se, no final, ao próprio corpo do texto), retoma o imaginário do primeiro livro da escritora, As Meninas de La Mancha (Asa, 1991). Crianças que entram subtilmente em mundos paralelos, abandonando os lugares seguros da casa e da família; aventuras em que o entusiasmo da descoberta convive com medos primitivos; jogos de espelho entre o narrador e os personagens; e uma noção poética do tempo e do espaço que reverte para a pura subjectividade da autora. Ao ler a história de Verão destas três crianças que navegam num dragão de borracha até aportar numa ilha desconhecida, habitada por um urso de humores flutuantes, é difícil não nos recordarmos de Maurice Sendak e O Sítio das Coisas Selvagens. Os monstros também moram aqui. E recomendam-se.

A Linha do Horizonte
Sara Monteiro
Ilustrações de Danuta Wojciechowska
Caminho

(Texto publicado na edição da LER nº 107, secção “Leituras Miúdas”)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A VIDA ANTES DA NIGELLA LAWSON


Naquela altura estávamos longe de adivinhar que especialidades como cannelloni, strogonoff ou chop suey entrariam nos hábitos alimentares portugueses. Em 1977, quando o Círculo de Leitores publicou o best-seller de Roland Gööck, tudo nos parecia exótico, irresistível, voluptuoso. Comparando com o Livro de Pantagruel, que marcava presença sóbria e reverencial nas cozinhas portuguesas, As 100 Mais Famosas Receitas do Mundo eram como um concurso da Radiotelevisão Italiana irrompendo a meio de uma eucaristia dominical a preto e branco. Não se conseguia tirar os olhos daquilo, sobretudo se o almoço tinha sido faneca frita com batata. Revestidos por um manto espesso de vernizes e conservantes, os pratos refulgiam nas páginas. A carne tenra do chateaubriand ainda palpitava. O zabaione era digno de receber o último banho de Cleópatra. A charlotte russe parecia um castelo de contos de fadas defendido por palitos à la reine. No meio deste cortejo de volúpias, que o autor dividia entre «alta cozinha» e «especialidades de rústico encantador», Portugal incluía-se, como é óbvio, no segundo grupo. A hierarquia de poderes era visível na supremacia da cozinha francesa (16 pratos), enquanto todo o continente africano se resumia a uma travessa de cuscus. «Especialidades de rústico encantador» eram também as nossas fatias de Tomar, confeccionadas com umas proibitivas 24 gemas, e a carne de porco à alentejana, servida em prato lascado e mesa humilde. Tratava-se de duas escolhas felizes, mas reveladoras das tendências ciclotímicas da nação: ora afundada em açúcar ora a apertar o cinto. É preciso ter estômago.

(Texto publicado na edição de 30 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

PORTUGAL VIAJA ATÉ À FEIRA DE BOLONHA


É oficial. Portugal vai ser o país convidado da próxima Feira do Livro Infantil de Bolonha, marcada para os dias 19 a 22 de Março de 2012 (esperamos arranjar maneira de voltar lá...). O que há para saber, de momento, está no blogue de Sílvia Borges Silva, jornalista de cultura da Lusa, O Palácio da Lua.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SWISS COUNTRYSIDE


Tínhamos seis, sete, nove anos, por aí. A Heidi só tinha cinco quando a Tia Dette a deixou com o Avô, no alto da montanha. Ao princípio achámos que aquilo não ia correr bem, as sobrancelhas dele estremeciam quando falava, era mau sinal. Depois, passou. A Heidi usava sempre o mesmo vestido cor-de-rosa com corpete e cordões à frente, cruzados; nós tínhamos botões e fecho éclair, era diferente. Vestíamos casacos de lã feitos à mão e pullovers de gola em «V» com a camisa a aparecer por baixo, estilo orelhas do Dumbo. As mães não se preocupavam em mandar-nos para a escola com as meias a condizer com as calças, nem sabiam o que era roupa de marca, de modo que nas fotografias de grupo parecíamos todos iguais, apesar da sobreposição de riscas, losangos e xadrez. Estávamos em 1976 quando a Heidi passou na televisão, a moda era terrível, os Natais sucediam-se e não havia maneira de as mães nos darem um Kispo. Algumas insistiam em cortar-nos o cabelo em casa, com a franja à Mireille Mathieu, e tínhamos de nos conformar com aquilo, e também com camisolas interiores que picavam, sobretudo depois de correr muito. E então? A Heidi teve de calçar sapatos quando foi viver para Frankfurt – e a Menina Rottweiler, ou Rottenmeier, fez-lhe a vida negra. Também, com um nome daqueles, estava-se mesmo a ver. Coisas boas: os adultos não achavam estranho que andássemos à bulha com outros miúdos, sabiam que aquilo passava depressa. Deixavam-nos picotar com alfinetes em cima de uma placa de esferovite sem ficarem logo histéricos. Brincávamos na rua e no quintal, sozinhos. As mães queriam-nos limpos, alimentados e com as vacinas em dia, a partir daí que tratássemos de ser felizes. E éramos. Éramos, pois.

(Texto publicado na edição de 23 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sábado, 22 de outubro de 2011

PRÉMIO MARIA ROSA COLAÇO 2011

Só quem desconhece por completo a história da imprensa pode ter preconceitos contra a escola do jornalismo desportivo, que tem produzido muita pena ágil, segura e certeira. É por isso (e também por ter feito parte do júri...) que não me surpreende a atribuição do 6º Prémio Maria Rosa Colaço (este ano, na modalidade Infantil; para o ano, na Juvenil) a Joaquim Semeano, jornalista há mais de vinte anos e actual editor do jornal Record. A cerimónia de atribuição decorreu ontem, no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada. Notícia no Record.

TERTÚLIA PEQUENAS LEITURAS


“Há livros, que estão no princípio de tudo: são livros de mitologia, religião, mas também cartas de direitos, constituições. Servem para organizar, reger, construir. Criam linhas temporais. Dizem-nos de onde vimos e para onde ambicionamos ir. Como são apresentados às crianças estes textos? Como são ilustrados?”

Este é o mote da próxima Tertúlia Pequenas Leituras, que acontece na próxima quarta-feira, 26 de Outubro (18h30), na Bulhosa de Campo de Ourique, como é habitual. Pelo sugerido no excerto acima, que nos chegou por email, esta poderá ser uma excelente oportunidade de se discutirem as implicações político-ideológicas contidas nos livros para crianças (neste caso, no género informativo). Entre muitas outras coisas.

MAIS UMA ALICE


Desta vez com ilustrações de Tiago Albuquerque e Adriano Lameira. Uma edição Casa das Letras, a publicar em Novembro.

WORKSHOP DE LIVRO INFANTIL

De hoje a uma semana, no Hotel Tryp (Parque das Nações, Lisboa) Ana Mourato conduz mais um workshop de “Selecção do livro infantil adequado às diferentes etapas do desenvolvimento”. É um tema que dá azo a grandes dúvidas por parte de quem trabalha, de alguma forma, com livros para crianças. Destina-se ao público em geral, mas interessa sobretudo a professores, educadores, estudantes, psicólogos e a todos os que se preocupam em fazer escolhas acertadas nesta matéria (dizemos nós, que já o fizemos e recomendamos). Ana Mourato é psicóloga educacional, doutoranda em Psicologia da Educação, mestre Educação e Leitura e pós-graduada em Livro Infantil, além de coordenadora do projecto Ouvir o Falar das Letras (http://ouvirfalarletras.blogspot.com/). O workshop realiza-se das 9h30 às 17h45, custa 55.35 € e as inscrições podem ser feitas pelo telefone 93 780 71 61.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

SERENIDADE ESTÁTICA


Tantos anos de exposição à mira técnica não serviram para ensinar a maioria dos telespectadores a afinar a imagem, como era a intenção, mas foram suficientes para criar a memória de um mundo mais lento, com actividades limitadas entre a «abertura da emissão» e o «fecho da emissão». A mira técnica existia entre uma coisa e outra, ou fazia a sua aparição súbita em caso de avaria, precedendo o anúncio que também se tornou célebre: «Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos». Que sossego. Os dias eram largos e as noites primordiais. De certo modo, em versão espartana, a mira técnica foi a antecessora do canal MyZen TV, com a sua câmara imóvel durante horas seguidas a filmar a rebentação das ondas numa qualquer praia tropical. Onde hoje há compactos de televendas a impingir-nos espanadores anti-estáticos e faixas queima-gordura para o abdómen, não havia nada; a não ser um padrão geométrico indecifrável e a expectativa de que algo de bom estava para acontecer. Por exemplo: desenhos animados, tardes de cinema, variedades, hóquei em patins e, maravilha das maravilhas, telejornais que duravam apenas meia hora. O pesadelo da programação ininterrupta, da televisão acesa de manhã à noite, dos três aparelhos ligados em cada parede do restaurante de bairro, estava longe de ser realidade. E embora os verdadeiros motivos da mira técnica fossem insondáveis aos olhos do vulgo, a memória dessa presença estática parece-nos, hoje, tranquilizante. Tal como a expectativa de que algo de bom estava para acontecer.

(Texto publicado na edição de 16 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

NOVO LIVRO DE MARGARIDA FONSECA SANTOS


Amanhã, 19 de Outubro, pelas 19hoo, Maria Tereza Maia Gonzalez apresenta o livro Uma Questão de Azul-Escuro, de Margarida Fonseca Santos e Sandra Serra (ilustrações), uma abordagem ao tema do bullying. O lançamento decorrerá na Sede da APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (Rua José Estêvão 135-A, Lisboa).

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

COISAS ACERTADAS

“Estamos num tempo com muito poucas narrativas. Creio que é isto que falta às gerações mais novas.” (Ler aqui a entrevista certeira de Dora Batalim à Pública. Via La Double Vie de Veronique.)

ONDE VIVE O MONSTRO


"I'm totally crazy, I know that. I don't say that to be a smartass, but I know that that's the very essence of what makes my work good. And I know my work is good. Not everybody likes it, that's fine. I don't do it for everybody. Or anybody. I do it because I can't not do it."

(Um artigo imperdível sobre Maurice Sendak publicado no The Guardian, onde se demonstra que alguns escritores de livros para crianças são gente pouco recomendável para se convidar para um churrasco ou coisa parecida. Via O Palácio da Lua).

HÁ TONTOS E TONTOS


"O Sr. Tonto vive na Terra dos Disparates, que é um sítio muito engraçado para se viver. Na Terra dos Disparates é tudo disparatado até mais não." Há tontos inofensivos e há tontos perigosos. Os segundos ganham eleições, os primeiros votam neles. É uma grande anedota, pois é.

domingo, 9 de outubro de 2011

OS GIGANTES INGLESES


Os primeiros autocarros de dois pisos chegaram a Portugal em 1947, poucos anos depois de a Carris ter iniciado o serviço de carreiras regulares. Traziam ainda a cabine do motorista do lado direito, sinal da ascendência inglesa comprovada pela marca Leyland, modelo Titan, um nome apropriado para gigantes de sete toneladas. Diz a tradição dos mitos e contos de fadas que os gigantes são mal compreendidos pelo vulgo – e estes não foram excepção. Recebidos com um misto de admiração e desconfiança nas ruas de Lisboa, tinham lugares sentados para 56 passageiros, sem por isso ocuparem mais espaço de via. Com este trunfo irrecusável venceram medos, curvas e solavancos, chegando também às sinuosas artérias do Porto, em 1960. Por onde quer que tenham passado, o tempo foi suficiente para integrá-los nas memórias mais felizes de várias gerações de passageiros. Quem foi criança e repetiu a aventura de subir ao primeiro piso com o autocarro em andamento, sempre na esperança de encontrar vazios os lugares da frente, pôde ver o mundo com os olhos bem abertos. Embalados por aquele equilíbrio instável e pelo motor trepidante, sentimo-nos invencíveis, dentro dos gigantes ingleses. Foi assim até 1995, ano em que desapareceram de vez das ruas de Lisboa, excepção feita para a inconstante versão turística. No Porto, ficaram até 1991, tendo regressado este ano, muito frescos e modernos, mas irreconhecíveis face à imagem que deles guardámos. É o progresso, dizem. No piso de cima, as crianças vêem agora o mundo com outros olhos.

(Texto publicado na edição de 9 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sábado, 8 de outubro de 2011

ALTERNATIVAS À INDIGNAÇÃO


O cartaz é inspirado no best-seller Indignai-vos! e foi bem achado. De Outubro a Dezembro, a Booktailors oferece um desconto de 50 por cento a todos os desempregados e recém-licenciados à procura do primeiro emprego que queiram frequentar os próximos cursos (Livro Infantil incluído, para puxar a brasa à nossa sardinha). É boa ideia. É de aproveitar. É saber mais aqui.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

HOJE HÁ HISTÓRIAS


Hoje, às 21h00, no Espaço Geraldine, aos Restauradores (Tv. da Glória, 18, 1º), um serão de contos que promete: "Histórias de se Tirar do Chapéu". Com Ana Lage e Bruno Batista. Tudo aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

VERSOS DESALINHADOS


Daniil Harms, pseudónimo de Dannil Ivánovitch Iuvatchov, foi alvo das perseguições do regime estalinista, que não se interessou apenas por escritores nobelizáveis como Boris Pasternak ou Aleksandr Solzhenitsyn. A educação das crianças sempre preocupou os sistemas totalitários; e daí a desconfiança pelos textos infantis de Daniil Harms, aqui ilustrados por Gonçalo Viana, cujas geometrias e sequências repetitivas não são estranhas ao construtivismo russo. Longe do realismo doutrinário e da celebração dos feitos e figuras gratas à nação, estes textos espelham, na sua brevidade e permanente autoirrisão (a começar pelo título, Esqueci-me Como se Chama), a incongruência e o absurdo da realidade, a par de um sentido lúdico totalmente desfasado dos imperativos moralizantes da cartilha política. Histórias nonsense com animais exóticos, episódios grotescos envolvendo a realeza ou viagens ao Brasil dos aborígenes e bisontes – tudo isto era mais do que a máquina do estado poderia tolerar. Daniil Harms morreu de fome, aos 37 anos, durante um dos encarceramentos onde terá sido convidado a reflectir sobre o alimento adequado à formação dos jovens cérebros.

Esqueci-me Como se Chama
Daniil Harms
Ilustrações de Gonçalo Viana
Tradução de Nina e Filipe Guerra
Bruaá

Texto publicado na edição da LER nº 106, secção “Leituras Miúdas”. Fora do registo infantil, Daniil Harms (S. Petersburgo, 1905) encontra-se publicado em português pelas editoras Hiena (Crónicas da Razão Louca, 1994) e Assírio & Alvim (A Velha e Outras Histórias, 2007).

domingo, 2 de outubro de 2011

É TERÇA-FEIRA


Apesar de o DN Jovem ter continuado na internet, do que os leitores a sério sentem saudades é sempre do «seu jornal»: o suplemento do Diário de Notícias que existiu entre 1983 e 1996, lançado por Mário Mesquita e coordenado por Manuel Dias. Saudades do papel, do cheiro oficinal do papel e das pontas dos dedos tingidas de letras, isso que faz algumas pessoas dizer logo «ai, que nojo». Saudades das terças-feiras, o dia em que a rapariga descia «as escadas quatro a quatro», como na canção do Sérgio Godinho, para sair à rua e comprar o DN, só por causa do seu suplemento favorito. Nessas terças-feiras a rapariga podia sentir-se especialmente importante, não só porque era bom ser «jovem» e ter um cartão catita que dava direito a seguro de acidentes pessoais e aconselhamento jurídico (e havia até um Ministério da Juventude, olha a excentricidade), mas sobretudo porque um texto seu podia ter sido publicado, com o nome por baixo, a idade e a terra onde vivia, fosse cidade ou uma aldeola qualquer perdida no mapa. Naquela página e nas páginas seguintes havia outros textos de quem tinha idade para ter Cartão Jovem e, muitas vezes, também se sentia perdido no mapa e no território. E sentir isso também era bom, era chegado, partilhado, generoso, é como ver alguém no comboio a ler um livro que também já lemos e ficar logo com vontade de meter conversa. Hoje, a rapariga ainda desce as escadas quatro a quatro, mas do que tem mesmo saudades é de marcar encontro com o «seu jornal» na tabacaria, todas as terças-feiras de manhã.

(Texto publicado na edição de 2 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia". De Helena de Sousa Freitas, DN Jovem Entre o Papel e a Net, em edição da Esfera do Caos, conta toda a história do suplemento. Ver o post anterior.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

DN JOVEM: HISTÓRIA E MEMÓRIAS


Não tendo sido uma “DN Jota” (traduzindo para as novas gerações: nunca tendo publicado no extinto suplemento do Diário de Notícias), fui fiel seguidora desde o início e tenho a memória vívida de acordar todas as terças-feiras com a expectativa acrescida de fazer parte dessa comunidade de leitores que foi o DN Jovem. Sei que não é muito canónico falar de lançamentos de livros um dia depois de terem acontecido (o Bibliotecário de Babel, atento como de costume, avisou a tempo), mas quem dera que fossem todos assim. Interessantes, descontraídos, participados, emocionados, indignados, com histórias reais para contar, longe das vaidades e das vacuidades do costume. Ontem, na Bulhosa de Entrecampos, Pedro Mexia apresentou o livro de Helena de Sousa Freitas que teve origem numa tese de mestrado do ISCTE: DN Jovem – Entre o papel e a net (História e Memórias de uma Transição), agora editado pela Esfera do Caos. Falei nele aqui e aqui, não vou repetir-me, a não ser para dizer que vale muito a pena ler ou consultar. Foi também o primeiro lançamento a que assisti em que o editor atingiu o nirvana do discurso encomiástico para o apresentador do livro (incluiu até a palavra “ilustríssimo”), sem no entanto dedicar uma palavra à sua autora. Sem dúvida, um lançamento diferente do habitual. Até nisso.

ENXERGAR MAIS LONGE


“Na visita ao oftalmologista veio a notícia: o menino teria que usar óculos. Um susto. Como serão meus óculos? O que eles vão me fazer enxergar? Que tipo de óculos serão? Ficarei parecendo uma mosca? As ilustrações do premiado André Letria acompanham as dúvidas e elucubrações do pequeno menino, apresentando ao leitor os mais diferentes tipos de óculos. Trata-se de um livro de literatura, mas também um livro de apoio para pais e crianças que vivem essa situação tão comum.”

(Do site da editora paulista Peirópolis, que acaba de lançar a versão brasileira do Não Quero Usar Óculos. Grande sorriso cá deste lado do Atlântico!)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

COLÓQUIO INTERNACIONAL DE LIJ


É um aliciante programa de dois dias que reúne três dezenas de escritores, investigadores, professores, mediadores de leitura e outros especialistas à volta das literaturas de língua portuguesa para crianças e jovens, num eixo geográfico que abarca o Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde e Moçambique. Acontece na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dias 27 e 28 de Outubro. Está tudo aqui (clique na imagem deste link para aumentar o cartaz).

(Inscrições e informações pelo telefone 217920044 ou clepul@gmail.com)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

NOVO LIVRO DA GATO NA LUA


E vão três. O Que é o Amor?, de Davide Cali (texto) e Anna Laura Cantone (ilustrações) é novo título da Gato na Lua, nas livrarias esta semana. Davide Cali, nascido na Suíça, em 1972, foi o segundo autor publicado pela Bruaá, e não deverá desiludir quem gostou de Eu Espero…

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

NOVO LIVRO DA BAGS OF BOOKS


Com texto de Nuno Casimiro e ilustrações de João Vaz de Carvalho, O Mundo no Chão é a próxima novidade da Bags of Books, com lançamento marcado para o próximo dia 15 de Outubro, às 16h00, na FNAC Coimbra. A apresentação estará a cargo de Valter Hugo Mãe.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

OS DESASTRES DE TEODORO


Preferia ser reconhecido como um escritor que ilustrava, mas tudo o que fazia revelava esse génio criativo próprio de quem tira de si um universo tão singular quanto transbordante. Edward Gorey, cujo fantasma terá sempre um banco cativo no Jardim Assombrado, vai reaparecer em Outubro nas livrarias (depois desta edição já muito difícil de encontrar), agora com a chancela da Livros Horizonte. Quando Teodoro Encolheu (The Shrinking of Treehorn) é o primeiro título de uma trilogia que gostaríamos muito de ver continuada, com ilustrações de Gorey e texto de Florence Parry Heide (EUA, 1919), uma senhora que escrevia livros para crianças com o seu quê de excêntrico e absurdo, no tempo em que escrever livros para crianças com o seu quê de excêntrico e absurdo era, em si mesmo, excêntrico e absurdo. A tradução é nossa (Oh deuses, sede clementes!) e juramos que não encontrarão frases como a anterior.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

ERA UMA VEZ... O HOMEM, 2

ERA UMA VEZ... O HOMEM, 1


Há uma geração eternamente grata a um senhor de bigode e suíças grisalhas, de seu nome Albert Barillé. Foi o autor de uma das séries de animação mais inteligentes de sempre: Era uma vez… o Homem. Transmitida originalmente pela cadeia francesa FR3, passou na RTP entre 1978 e 79 (se a memória não nos falha, aos sábados de manhã), com a Tocata e Fuga em Ré Menor de J.S. Bach no genérico. Era a época em que os desenhos animados a preto e branco, esparsamente distribuídos pela grelha televisiva, se aguardavam com uma ansiedade quase natalícia. Depois de Vickie, o Viking, que anunciou um grito de libertação em relação aos bonecos fofinhos e semiestáticos; depois da descoberta de emoções mais dramáticas e complexas, graças à Heidi e ao Marco, a série Era uma vez… o Homem representou os primeiros passos na conquista da maturidade, mais ou menos como passar da escola primária para o ciclo preparatório dos desenhos animados. Foram 26 semanas a acompanhar a evolução da primeira célula e a extinção dos dinossauros, a transição do homem de Neanderthal para o Cro-Magnon, as civilizações dos vales férteis da Mesopotâmia, a expansão dos grandes impérios. Vinte e seis semanas para conhecer o século de Péricles, a rota de Marco Polo, o reinado de Isabel I, a corte de Luís XIV, a Rússia de Pedro o Grande e tantos outros mundos. Os argumentos e diálogos de Albert Barillé eram historicamente factuais, mas não escondiam preocupações pacifistas ou ecológicas, nem a sua desconfiança pelo pior da espécie humana. O último episódio intitulava-se, justamente, «Era uma vez… a Terra (e amanhã?)». Passados mais de trinta anos, continuamos sem saber responder.

(Texto publicado na edição de 18 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

V CONFERÊNCIA DO PLANO NACIONAL DE LEITURA


Amanhã e depois, na Fundação Calouste Gulbenkian, muitas horas para falar de livros, leituras e leitores. Nós também vamos estar presentes no painel das 14h30. Programa completo aqui.

domingo, 11 de setembro de 2011

BRANCO SOBRE AZUL


O sabão azul e branco responde pelo improvável nome técnico de «sabão offenbach», uma espécie de cartão de visita para impressionar quem se interessa por nomes sonantes – neste caso, o da cidade alemã homónima onde terá tido origem. À parte isso, é o sabão mais português que existe, com todas as contradições implícitas em tal opção. Visto de fora, é uma amálgama concreta de ingredientes naturais, cujo maior peso provém dos quase 50 por cento de matéria gorda que o diferenciam de outros sabões e sabonetes. Não deixa de ser curioso pensar que um produto vocacionado para combater a sujidade – nódoas de gordura, por exemplo – comporte em si mesmo as causas do problema; mas esse é um paradoxo antigo, procedente de épocas remotas em que o azeite se usava para lavar o corpo. Não consta que alguém tenha sujado as mãos por causa disso. Mais interessante, porém, é o sabão azul e branco quando visto por dentro, após golpe de lâmina certeira. É aí que perde a faculdade de ser apenas concreto e se revela em imprevisíveis nuances e ramificações marmóreas, que tanto lembram os contornos da deriva dos continentes como as formações nebulosas do céu. Esta poética da reconstrução das formas é algo que nenhum detergente em pó consegue reproduzir, por mais sofisticado que seja. Contrariando todos os prognósticos, falta dizer que o sabão azul e branco está para o sul de Portugal como o seu equivalente rosa e branco está para o norte; onde, por tradição, regista maior número de adeptos. De um sabão português é lícito esperar todas as contradições.

(Texto publicado na edição de 11 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CONVERSAS DE BAIRRO À VOLTA DOS LIVROS


No próximo dia 15 de Setembro (de hoje a uma semana), pelas 18h30, estarei presente na Bulhosa de Campo de Ourique para uma das "Conversas de Bairro", juntamente com a Andreia Brites e a Sara Figueiredo Costa (moderação). Tema: "Livros para crianças ou livros que também podem ser lidos por crianças?". Não se presta a esclarecimentos fáceis nem a conclusões definitivas. Mesmo assim - ou por isso mesmo - apareçam.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O TESOURO DO RIO


O Silêncio da Água é um fragmento retirado do livro As Pequenas Memórias, evocação autobiográfica da infância e primeira adolescência de José Saramago. Descreve um episódio não extraordinário no quotidiano de um rapaz do campo: o dia em que um peixe do rio morde o isco e, depois de alguma luta, lhe arrebata os «petrechos de pesca», deixando-o com uma «cana inútil e ridícula nas mãos». O rapaz insiste, correndo a casa para «armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas com o monstro». Valendo por si próprio, o texto ganha outra nitidez e intensidade emocional graças às ilustrações de Manuel Estrada (Madrid, 1953), que atribui à água as qualidades da escrita – as letras dispersas na torrente conduzem a essa extrapolação simbólica. A luta do protagonista transforma-se, assim, no resgatar da linguagem às profundezas do rio, sendo a cana o equivalente às ferramentas do escritor. Nesse dia, o «monstro» não volta, como é de prever. Porém, com o anzol nas guelras, à semelhança de Moby Dick, será alvo de uma perseguição incansável até que devolva a palavra certa. O que acabou por acontecer.

O Silêncio da Água
José Saramago
Ilustrações de Manuel Estrada
Caminho

(Texto publicado na edição da LER nº 105, secção “Leituras Miúdas”. Manuel Estrada, um dos mais conceituados artistas gráficos espanhóis, assina o design editorial dos livros de José Saramago na Alfaguara.)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TUDO O QUE SEMPRE QUISEMOS SABER SOBRE SEXO (VÁ LÁ, QUASE TUDO)


A Enciclopédia da Vida Sexual foi publicada em português pela Livraria Bertrand (e também pelo Círculo de Leitores) no ano seguinte à Revolução dos Cravos. No Portugal recém-saído da casca, as capas dos cinco livros que compunham a colecção denotam uma liberdade de costumes hoje impensável. No primeiro volume, dedicado aos 7/9 anos, duas crianças nuas posam descontraidamente numa cadeira estilo Emanuelle, e no segundo (10/13 anos) correm pela praia de mãos dadas, sorridentes e felizes na sua revisitação do Paraíso. Há muito que não se vêem capas assim na secção infanto-juvenil das nossas livrarias, e nem vale a pena explicar porquê. Os autores da Enciclopédia da Vida Sexual, quatro médicos franceses, afirmavam que «nenhuma censura devia existir» e apontavam Camus, Sartre e Malraux como «modelos» para os adolescentes de então. «A educação sentimental é, antes de tudo, uma situação vivida e nada substitui a experiência pessoal», acrescentavam. Quando um livro consegue a proeza de juntar referências a Camus, Sartre e Malraux (e ainda Baudelaire, Diderot, Laclos, Fellini…), ao mesmo tempo que tenta responder a perguntas tão irrespondíveis como «qual é a razão de ser da adolescência?» ou «porquê permanecer casto?», temos obra. Por tudo o que fez pelo esclarecimento de uma geração sem acesso à internet nem aos documentários do canal Odisseia, já para não falar nos Morangos com Açúcar, a Enciclopédia da Vida Sexual merece ser erigida no cânone das leituras memoráveis, sobretudo se foram feitas às escondidas.

(Texto publicado na edição de 4 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SETEMBRO É TEMPO DE RECOMEÇOS


Porque o fim de uma coisa é sempre o princípio cativo de outra coisa qualquer – quantas vezes maior e mais forte –, não é com penas nem melancolias de chuva pré-outonal que O Jardim Assombrado termina o silêncio das últimas semanas para anunciar o fim de A Bruxinha, suplemento infantil do semanário Região de Leiria coordenado por Sílvia Alves – autora, contadora de histórias e uma das pessoas que mais têm contribuído para a divulgação da literatura para crianças nos últimos anos. Para a Sílvia, vai um grande abraço e o desejo de outros voos e outras latitudes. O texto que se segue corresponde à última crónica publicada no Região de Leiria, a 27 de Agosto de 2011:

“Os hábitos de leitura fazem-se de pequenos passos. Os leitores do futuro são as crianças que começam a fazer caminho. A Bruxinha começou há doze anos a falar de livros e leitura, muito antes de um PNL decretar esse caminho. Os jornais estão em reinvenção lenta de um saber fazer que pede a articulação da tradição do papel com novos caminhos que se abrem online. Os que souberem ver mais longe construirão o futuro. A rapidez da notícia viverá a par da narrativa mais detalhada mas, num ou noutro formato, não haverá jornais grátis: são feitos de pessoas e do seu trabalho que tem um preço inalienável.

Hoje, com memorandos hostis a ditar tempestades, a Bruxinha chega ao fim. No seu coração, amarrotado já de saudade, leva a esperança de ter deixado algumas sementes de bons leitores. A eles e a todos os que, em doze anos, comigo colaboraram desejo as maiores felicidades. Continuaremos a encontrar-nos nos livros e nas histórias contadas onde nascem e vivem para sempre as Bruxinhas de Papel.

Esta é também, ao fim de sete anos, a minha última crónica no Região de Leiria. O sempre e o nunca são palavras armadilhadas, neste tempo de estender mapas e descobrir novos rumos. Do fim diz Agustina: “O que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa". Seja.”


(Na imagem: pormenor de pintura de Fátima Mendonça, 1997.)

domingo, 31 de julho de 2011

EM POUSIO


O Jardim Assombrado vai recolher-se por uns dias. Ou umas semanas. (Ilustração de Joana Rêgo para a Kalandraka.)

terça-feira, 26 de julho de 2011

O CÉREBRO E A FLOR SELVAGEM


Calpurnia Tate é uma menina de onze anos, nascida no Texas e filha de boas famílias, a quem a tradição e a moral do século XIX predestinam o recato da vida doméstica, sem outros entretenimentos que não a gestão da copa e da cozinha – e a procura de um bom partido para casar. O tédio feito existência, dito de outra maneira. Porque Calpurnia Tate é também uma menina curiosa e inteligente, fascinada pelas descobertas científicas do século de Darwin, cuja natureza instintiva quer mais do que crescer entre barrelas de roupa e tartes de nozes pecã, por muito doces que estas sejam. Um avô naturalista, homem de poucas falas e nenhuma inclinação por crianças, vai ajudá-la a entender o vasto mundo que cabe entre o céu estrelado e um olhar microscópico, o mundo a que Calpurnia Tate escolheu pertencer. Não é líquido que o consiga, mas, chegados à última página, outra coisa não podemos desejar.

A Evolução de Calpurnia Tate é um belíssimo primeiro livro de Jaqueline Kelly, autora neozelandesa que se estreou a ganhar o Prémio Newbery, em edição da Contraponto. Para todas as idades.

domingo, 24 de julho de 2011

A TABUADA PORTUGAL


Longe de ser tão popular como a tabuada Ratinho, a tabuada Portugal não traz data nem chancela do editor, mas apresenta inequívocos sinais de antiguidade. Não é só pela esfera armilar da capa e pelo menino de cabelo aparado à escovinha; nem pelos conteúdos (como hoje se diz) que nos falam da velha moeda portuguesa e das medidas de lenha… São já as noções básicas de aritmética que temos dificuldade em compreender. Por exemplo, frases como esta: «São quatro as operações de que nos servimos para resolvermos os problemas que se nos deparam: adição, subtracção, multiplicação e divisão.» Ora, se as coisas fossem assim tão simples, os nossos problemas estariam resolvidos. Mas a tabuada é um sistema de valores do tempo em que acreditávamos que 3x2 maçãs era igual a seis maçãs, e repetíamos aquela lengalenga com a convicção e a humildade dos crentes. Não comprávamos maçãs a crédito, nem pedíamos mais crédito para pagar os juros do crédito sobre as maçãs. Agora, 3x2 maçãs pode ser igual a seis mil maçãs ou a zero maçãs, dependendo do lado para que acorda a bolsa de Nova Iorque. A aritmética real foi substituída pela aritmética virtual, e nunca os números foram tão manipulados como hoje. Entretanto, esquecemo-nos da tabuada, essa coisa tão repetitiva e remediada. Deixámos de ser os «bons alunos» da Europa e perdemos as graças dos professores, que passaram a tratar-nos como delinquentes. Que fazer? Há que voltar atrás e reaprender a fazer contas. Vai uma maçã?

(Texto publicado na edição de 24 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

CITY-BREAKS: ALTO MINHO

Vou lá visitar parentes.

(Fotografia de Manoel Carneiro, início do séc. XX. Grupos da Gandarela: família rural. Edição do Museu Nogueira da Silva, Universidade do Minho.)

IRMÃOS GRIMM EM TESE DE DOUTORAMENTO


Os Contos de Grimm em Portugal - A Recepção dos Kinder-und Hausmärchen entre 1837 e 1910, de Maria Teresa Cortez, professora da Universidade de Aveiro, é uma edição Minervacoimbra, do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos e da Universidade de Aveiro, e foi publicado em 2001. Creio que esta é (ou era, até há pouco tempo) a única tese de doutoramento em Portugal versando a literatura para crianças. Se estou a dizer “inverdades”, por favor corrijam-me. Naturalmente, este post vem na sequência do anterior, sobre o simpósio internacional dos Irmãos Grimm que está a ser preparado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

OS IRMÃOS GRIMM EM PORTUGAL


Como muitas das personagens dos seus contos, os Irmãos Grimm também passaram fome e toda a sorte de privações, a partir do momento em que Philipp Grimm morreu subitamente, com apenas 44 anos, deixando mulher e seis filhos na pobreza. Jacob e Wilhelm Grimm enfrentaram a vida árdua dos colégios internos, mas a possibilidade de estudarem – graças à ajuda de uma tia – permitiu-lhes tornarem-se alunos brilhantes e, mais tarde, especialistas em literatura medieval. A maior parte das cerca das duas centenas de contos recolhidos da tradição oral, na região alemã do Hesse, de onde eram originários, provêm da Idade Média e destinavam-se a ser contadas entre adultos, o que explica a sua violência e crueldade intrínsecas, bem como a explicitação de uma série de interditos sexuais – caso do incesto, presente em muitíssimos contos. Na primeira recolha, dada à estampa em 1812, os Irmãos Grimm mantiveram-se fiéis a estas versões mais cruas, que foram sendo progressivamente suavizadas nas colectâneas seguintes, incorporando os valores da sociedade burguesa e cristã da Alemanha do século XIX, quando a literatura de tradição oral conheceu um público mais amplo: as crianças.

Ouviremos falar muito dos Irmãos Grimm em Junho de 2012, quando Lisboa for palco de um grande simpósio internacional que está a ser preparado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, com a coordenação de Francisco Vaz da Silva, de quem já falámos aqui. O deadline para o envio de propostas de comunicação é o dia 4 de Setembro. Mais informação e uma amostra do apetitoso programa pode ser encontrada no site do IELT.

terça-feira, 12 de julho de 2011

QUE FAZER COM ESTES LIVROS?





O que está num esconderijo secreto? Como são os monstros escondidos debaixo da cama? Como se desenha e pinta uma trovoada? O que cresce nos feijoeiros mágicos? Estes são alguns dos 200 desafios lançados por Nikalas Catlow, ilustrador e designer de livros infantis e autor de E Tu, Rabiscas?, um livro para usar com lápis de cor (ou de cera, ou guaches, ou aguarelas, ou…) e imaginação ilimitada. Além desta edição recente da Gailivro, vale a pena lembrar também dois livros de actividades da colecção Orfeu Mini, ambos de origem francesa: Dias Felizes e Caderno de Pintura para Aprender as Cores – na imagem, ainda na edição original, porque o grande formato não se presta ao scanner. Três bons livros de actividades para levar na bagagem de férias e manter miúdos (e graúdos) entretidos fora das PS3.