
Não, nunca nos habituamos à nostalgia do fim do Verão, por muito que tentemos. Por muito que nos digam: «para o ano há mais», «é tempo de recomeços», «a chuva faz falta» e «são bonitas as folhas no Outono». Pois, diz que sim. Mas quando arrumamos de vez as toalhas de praia, limpando os vestígios de sal, de sol, do cheiro a areia e a bronzeador, todas essas verdades bem-intencionadas perdem para a nossa atávica memória sensorial. Porque o Verão é sobretudo isso: imagens, sons, cheiros, sabores, texturas. É um cão a correr junto às ondas, é uma cara sardenta cheia de creme Nívea, é um beijo com sabor a gelado, é o perfume das estevas e dos pinheiros numa estrada secundária. Todos os anos, temos a possibilidade de retomar esse imaginário enraizado no passado e saboreá-lo novamente. E se o imaginário significa a possibilidade de brincar com as imagens que acumulámos desde crianças, então não existe época do ano mais livre nem mais completa. Nada se lhe compara, em amplitude e agudeza dos sentidos. Quando acaba, sentimo-nos inevitavelmente mais velhos, mais responsáveis. De certo modo, cada verão que termina é um ano perdido da nossa infância. Por isso a nostalgia do fim do Verão é sempre igual, estando nós diferentes. Repete-se ciclicamente, adiantando-se ou atrasando-se em relação ao calendário, mas chega o dia em que nos apanha, tal como a data do nosso aniversário. Não, nunca nos habituamos à ideia de que também o Verão envelhece. Como todos nós.
(Texto publicado na edição de 6 de Novembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia". A extinção desta página, decorrente da reformulação editorial da revista, significa também o fim de uma colaboração regular que iniciei em 1994.)















































