Ainda a propósito de reedição de Heidi pela Booksmile, compare-se com esta edição dos anos 1970 da colecção Histórias, colecção essa que tinha a particularidade de incluir páginas de banda desenhada, um atalho para leitores mais apressados (ou gulosos). As traduções, manhosas q.b., usavam como base adaptações em castelhano da Editorial Bruguera; mas isso não era relevante, face ao atractivo das imagens. Por falar em manha, talvez o leitor não saiba que existe uma polémica - por resolver - em relação à autoria de Heidi, desde que um investigador alemão descobriu um livro de 1830 intitulado Adelheid, das Madchen von Alpenbirge, a história de uma menina chamada Adelaide (Heidi é diminutivo) que também vive nos Alpes. O caso remonta a 2010 e, desde então, debate-se a originalidade da criação de Johanna Spyri; ou seja, falou-se de «plágio» e da hipótese de Heidi ter nacionalidade alemã. Também, querem ter tudo...
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
HEIDI OU ADELHEID
Ainda a propósito de reedição de Heidi pela Booksmile, compare-se com esta edição dos anos 1970 da colecção Histórias, colecção essa que tinha a particularidade de incluir páginas de banda desenhada, um atalho para leitores mais apressados (ou gulosos). As traduções, manhosas q.b., usavam como base adaptações em castelhano da Editorial Bruguera; mas isso não era relevante, face ao atractivo das imagens. Por falar em manha, talvez o leitor não saiba que existe uma polémica - por resolver - em relação à autoria de Heidi, desde que um investigador alemão descobriu um livro de 1830 intitulado Adelheid, das Madchen von Alpenbirge, a história de uma menina chamada Adelaide (Heidi é diminutivo) que também vive nos Alpes. O caso remonta a 2010 e, desde então, debate-se a originalidade da criação de Johanna Spyri; ou seja, falou-se de «plágio» e da hipótese de Heidi ter nacionalidade alemã. Também, querem ter tudo...
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
A VOZ DOS DRAGÕES
«Aqueles que se recusam a ouvir a voz dos dragões estão condenados a viver os pesadelos dos políticos. Gostamos de pensar que vivemos à luz do dia, mas metade do mundo está sempre na escuridão; e a fantasia, tal como a poesia, fala a linguagem da noite.»
Ursula K. Le Guin
A MONTANHA MÁGICA
"Da simpática aldeia de Maienfeld parte um caminho que atravessa prados verdes recobertos de árvores e vai dar ao sopé das montanhas, que lá do alto olham, imponentes e sérias, este lado do vale." Começa assim a história de Heidi, personagem criada por Johanna Spyri (lê-se "espirr") que a geração dos quarentas conheceu através da televisão, com a série homónima transmitida na RTP em meados dos anos 1970. A editora Booksmile presta um serviço aos leitores com esta nova tradução do original em língua alemã (a versão inglesa pode ser lida integralmente no site do Projecto Gutenberg), que surge no seguimento da publicação recente de outro clássico, Pippi das Meias Altas. Mais: respeitou-se a divisão da história em dois volumes, tal como tinha sido dada à estampa em 1880, e até o subtítulo da mesma época: "Uma história para crianças e para quem gosta de crianças". Embora as ilustrações de capa - da autoria de Rita Antunes - apontem claramente para o leitor actual, a tradução não surge nessa irritante versão digest dos "novos" livros de Os Cinco, Os Sete e outras obras de Enid Blyton, que são uma sensaboria para quem os leu no tempo da outra senhora. Valha-nos isso. Na sua idealização romântica da infância e da vida ao ar livre, antídotos contra as doenças da alma (Avô) e do corpo (Clara), o regresso de Heidi parece-nos muito, muito saudável.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
NOVIDADES DA OQO
OK, já não serão bem novidades, visto que o email chegou em fins de Julho... Mas há apenas um Verão por ano e os leitores mais fiéis dos Jardim Assombrado concordarão que viver não é (só) cumprir obrigações e rotinas. Invocando a vossa magnanimidade, senão clemência, regresso ao blogger com dois bons livros anunciados pela editora OQO: Os Sete Irmãos Chineses, um texto tradicional ilustrado por André da Loba e adaptado por Rodolfo Castro (mais conhecido como contador de histórias, et pour cause). Também de matriz tradicional, com raízes no Burkina Faso, chega-nos Árvores no Caminho, com texto de Régine Taymond-García e ilustrações de Varina Starkoff, sobre o qual se diz: « A árvore vermelha é o mogno africano (Khaya senegalensis), sob a qual se reúnem os sábios para tomar decisões. É conhecida como a árvore da palavra.»
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
PÓS-GRADUAÇÃO EM LIVRO INFANTIL EM B-LEARNING
Em 2009, tive a sorte de fazer parte de um grupo de alunos - mais de vinte - que concluíram o primeiro ano do curso de Pós-Graduação em Livro Infantil da Universidade Católica Portuguesa, lançado por iniciativa de José Alfaro e Dora Batalim. Foi um passo fundamental para a legitimação académica de um campo do sistema literário há muito carecido de credibilidade (a culpa tem as costas largas e não vale a pena entrar por aí...). Teve defeitos? Com certeza. Desde logo, porque foi o primeiro; e esse mérito e coragem implicam uma dose de risco que cabe a cada um gerir, na medida das suas expectativas. Perguntaram-me muitas vezes se «recomendava», se «achava bom» e «se valia a pena». Tentei esquivar-me com a mesma souplesse que reservo aos conselhos amorosos: simplesmente, não dou. Cada um que faça o seu caminho; de pouco serve a experiência alheia em matérias do coração. Porque é disso que se trata, resumindo: livros e amor aos livros. O que posso dizer, com toda a certeza e honestidade, é que nunca me arrependi de ter feito este curso - entretanto revisto e aumentado nos anos seguintes. Os nomes do actual corpo docente são do melhor que temos, isso também o garanto: pessoas esclarecidas, com muita experiência nas suas áreas, e um olhar contemporâneo que se foi aperfeiçoando. Foi importantíssimo para o meu itinerário profissional e pessoal. Entretanto, não sei se por culpa da «crise» se por necessidade metodológica, o curso passou este ano do regime presencial para o regime de b-learning; o que também corresponderá aos desejos de muitas pessoas que não residem em Lisboa. Parece-me uma excelente opção. Como vai funcionar nesta nova modalidade, não sei. Ninguém sabe. Informem-se, reflictam, decidam, pensem pela vossa cabeça. De resto, está tudo aqui muito bem explicado.As candidaturas decorrem até 11 de Outubro.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
ILUSTRAI-VOS!
Ilustradores de todo o mundo: até 30 de Setembro podeis enviar três das vossas melhores ilustrações para o edifício da Central Tejo, Lisboa, Portugal. O regulamento está todo aqui.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
ANDEI NO CARROSSEL COM O CRIA CRIA
No Verão passado, o blogue Cria Cria teve a ideia de convidar algumas pessoas do meio editorial a deixarem as suas sugestões lúdicas, literárias, musicais e outras que tais. Faço parte dos reincidentes deste ano. Yoga para crianças, um livro sobre jardinagem e outro sobre "Os Cinco" são três coisas boas que me apraz recomendar. É só clicar para saber mais.
domingo, 21 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
DOMINÓ DAS CASAS
Passei os últimos meses obcecada com a lembrança deste dominó da minha irmã mais nova, um dos jogos mais memoráveis da nossa infância; não tanto pelo jogo em si, mas pela possibilidade que me dava de imaginar mundos diferentes e arranjar casamentos improváveis entre as figuras. A cigana com o cowboy. O italiano com a romena. O inglês com a bretã. O índio com a cambojana. E depois havia as palavras raras, que eu saboreava como um mistério à minha medida: «cubata malgaxe», «isba russa», «coliba romena», «sampana chinês», «choça marroquina»... Ficou-me na ideia a graciosidade bamboleante da rapariga taitiana e a arquitectura robusta das casas do norte da Europa. Ainda hoje, quando fecho os olhos, parece que sinto o cheiro da relva que cobria o telhado do chalé sueco. Como devia ser bom fazer crescer flores mesmo por cima dos nossos sonhos.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
DO BOM USO DO TEMPO
Mais dois livros informativos que vale a pena conhecer. De Fernanda Botelho, com ilustrações de Sara Simões, Salada de Flores e Sementes à Solta são um convite às primeiras descobertas sobre botânica, alimentação e medicinas naturais, temas amplamente divulgados no blogue da autora: Malva Silvestre.
HISTÓRIA INTERMINÁVEL
Especialmente para miúdos em «idade enciclopédica» (8-10 anos), aí está um novo título da colecção O Mundo que nos Rodeia (ed. Texto), um dos melhores exemplos de livros informativos ilustrados que por cá se publicam. Na mesma colecção: A História das Invenções, A História da Pintura, A História da Ciência e A História da Astronomia e do Espaço.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
DE FÉRIAS COM O PATO LÓGICO
segunda-feira, 8 de julho de 2013
GRANDE MUNDO
O Mundo num Segundo, uma das primeiras obras do catálogo do Planeta Tangerina, acaba de ser reeditado num formato maior do que o original publicado em 2008 (um quadrado com cerca de 15 cm de lado), permitindo assim uma apreensão mais fácil dos infinitos pormenores destes cenários multiqualquercoisa. É uma reedição há muito esperada e que agradará à maioria, sobretudo a bibliotecários e promotores da leitura, a braços com a dificuldade de o mostrar "ao longe". Numa altura em que existe um certo fenómeno de "o rei vai nu" à volta da ilustração disforme e esgrouvinhada, é um prazer reencontrar estas páginas tão bem desenhadas por Bernardo Carvalho. Ouçam-no, juntamente com Isabel Minhós Martins (autora do texto) neste pequeno video do Letra Pequena.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
O TAPETE MÁGICO
Desconhecida do comum dos leitores, a força da ilustração iraniana já não surpreende, pelo menos, quem vai regularmente à Feira do Livro Infantil de Bolonha. Mas a singularidade de O Jardim de Babai deve-se mais à sua riqueza interpretativa do que ao convite a um olhar exótico, patente na edição bilingue (português e persa) e na possibilidade de leitura em sentidos contrários. Tal como uma tecelagem que se faz e desfaz, pegando por um fio ou por outro, o que encontramos no âmago desta belíssimo livro é, acima de tudo, uma reflexão sobre a integridade do ser. No centro do jardim que é também um tapete – dois símbolos antiquíssimos da ordem e da proporção –, está sempre a mesma figura concêntrica de Babai (sinónimo infantil para “cordeirinho”), ela própria desenhada como um jardim e um tapete. Filha de mãe belga e pai iraniano, Mandana Sadat (Bruxelas, 1971) recorre à iconografia islâmica, onde se destaca a geometria simbólica do número quatro e os elementos sagrados da natureza rodeando o centro. “Depois de muito procurar, encontrei esta parcela de terra soalheira junto a uma nascente”, diz Babai. E assim começou a cultivar o seu jardim.
O Jardim de Babai
Mandana Sadat
Tradução de Dora Batalim
Bruaá
(Texto publicado na edição 126 da revista LER.)
segunda-feira, 24 de junho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
RIDERS ON THE STORM
Na
última Feira do Livro de Lisboa, comprei, ao preço da chuva, meia dúzia de
edições originais da Abril, editora brasileira que nos anos 70 publicava a
banda desenhada do nosso contentamento. Zé Carioca, O Pato Donald, Mônica,
Cebolinha, Os Monstrinhos, Luluzinha, Disney Especial... Achei até uma raridade
de 1976: uma banda desenhada de Li’l Abner, o hillbilly americano criado por
All Capp durante a Grande Depressão, que chegou cá com o nome Ferdinando
Buscapé (quem se lembra?).
Emocionante,
mesmo, foi reencontrar algumas páginas de publicidade que naquele tempo
mostravam que o Brasil já estava muito à frente, enquanto nós gramávamos os
anúncios da margarina Planta. Esta, dos jeans Staroup, era absolutamente fascinante, na sua sugestão de liberdade e sensualidade inocente (ou não) que por cá só
encontrava paralelo – numa perspectiva didáctica – na famosa Enciclopédia da
Vida Sexual, da Verbo. Imagino que as doutas consciências a achem politicamente
incorrecta, tal como o slogan: “Agora criança também pode.” Para mim, foi todo um
imaginário que se acendeu.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
RAINHA TODOS OS DIAS
Embora atrasada, eu sei, não quero deixar de lembrar que a primeira edição do Prémio Manuel António Pina, criado este ano pela editora Tcharan, foi para o livro A Rainha dos Estapafúrdios, de José Eduardo Agualusa (texto) e Danuta Wojciechowska (ilustrações). Parabéns a ambos! Aqui fica a crítica que escrevi para a LER aquando da publicação:
«Uma das premissas dos
contos tradicionais é que «os maus não são tão maus como parecem, e os bons são
bem piores do que se pensa» (Maria Teresa Meireles). É esse o ponto de partida
de A Rainha dos Estapafúrdios,
história de uma perdigota «gorducha e desajeitada» que consegue livrar-se do
estigma de Patinho Feio e encontrar o seu lugar fora do ninho familiar. Como?
Com astúcia, coragem e muita bazófia, tal e qual o Gato das Botas. Os conflitos
e as provas dos contos repetem-se, mudando apenas cenários e personagens; aqui,
o campo dá lugar à savana, e a hiena e o leão substituem o urso ou o lobo. À
estrutura narrativa de base, José Eduardo Agualusa acrescenta um olhar próprio,
poético e cheio de humor, isso que seduziu os leitores do (já longínquo) Estranhões e Bizarrocos. As cores quentes
e os padrões africanos encontram o seu elemento nas ilustrações de Danuta
Wojciechowska, contribuindo para fazer deste livro um encontro feliz.»
A Rainha dos Estapafúrdios
José Eduardo Agualusa
Ilustrações de Danuta
Wojciechowska
Dom Quixote
terça-feira, 18 de junho de 2013
PORQUE É URGENTE RESISTIR
«Aos quinze anos, Bolota quebra com dedicação e prazer a resistência da água, a cada braçada. E a novela fecha-se com um passo noutra direcção, nascida provavelmente dessa perda, porque a vida se faz vivendo e resistir implica também integrar e mudar. Em algum momento, todos os leitores o sabem, o pressentem. E mesmo que disso não fique memória, não serão exactamente os mesmos. É isso que este livro faz.» Ler o texto completo aqui.
(Um excerto do belíssimo texto que a Andreia Brites escreveu para o lançamento do Irmão Lobo, na Galeria Monumental, em Lisboa, e que levámos no último sábado à Culsete, em Setúbal. Obrigada, Fátima Ribeiro de Medeiros. Obrigada também ao José Teófilo Duarte, pelo convite no post abaixo, e ao Eduardo, Lena e Luís, pelas fotos e pelo resto.)
sexta-feira, 14 de junho de 2013
IRMÃO LOBO CORRE ATÉ SETÚBAL
Amanhã à tarde tenho o prazer de visitar uma das nossas livrarias de referência, que está de parabéns por tudo e também pelo aniversário: a Culsete, em Setúbal. A anfitriã Fátima Ribeiro de Medeiros fará as honras da casa, como é costume. Vão estar também presentes a Andreia Brites, que fez a apresentação do livro na Galeria Monumental e vai explicar "Porque é urgente resistir", e a Isabel Minhós Martins, minha editora na Planeta Tangerina (uau, ainda não tinha escrito "minha editora"). O António Jorge Gonçalves não pode ir (está de férias e bem merece) mas nós deixaremos os devidos elogios. Sei que a concorrência da praia é grande, mas estão todos convidados a passar pela Culsete.
Para vos convencer (espero), deixo aqui alguns dos uivos mais recentes do Irmão Lobo nos media e redes sociais, obviamente com um grande sorriso de contentamento:
Luís Caetano, Antena 2, Última Edição.
Sara Figueiredo Costa, Expresso.
José Mário Silva, LER (o texto está no site do Planeta Tangerina).
Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias.
Sílvia Souto Cunha, Visão.
Maria João Costa, Rádio Renascença, Ensaio Geral (ao minuto 58).
Andreia Brites, revista Blimunda, da Fundação José Saramago.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
MANUEL ANTÓNIO PINA EM TESE DE DOUTORAMENTO
sexta-feira, 7 de junho de 2013
UMA LUZ AO FUNDO DO COELHO
Pôr o coelho a correr para que surja uma luz ao fundo do túnel. Eu olho para a capa dupla do último livro publicado pelo Planeta Tangerina (novamente, o ilustrador Bernardo Carvalho a solo) e só consigo fazer esta leitura. Mas claro que não pode ser isso... Não pode. Os livros para crianças não se metem na política. Política é coisa muito séria.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
TRABALHAR NA OFICINA
O Teatro do Bairro e o Pato Lógico juntaram-se para preparar o regresso às férias. Nos meses de Junho e Julho, crianças dos seis aos doze anos vão trabalhar para as oficinas. Isto é exploração da criatividade!
terça-feira, 4 de junho de 2013
PIPPI LANGSTRUMP: O DIREITO À INSURREIÇÃO
“Pouco a pouco, os clássicos da literatura para crianças (ou literatura tout court) vão sendo objecto de novas edições mais arejadas. E, no caso em apreço, já tardava. Desde a década de 1970 que não se encontrava facilmente uma tradução da obra que deu origem à série emitida pela RTP, no tempo em que a televisão era a preto e branco. O texto agora vertido para português por Maria do Céu Mascarenhas segue a nova tradução ilustrada pela inglesa Lauren Child, autora de personagens igualmente irrequietas como Clarice Bean – com a qual se estreou em 1999 – e vencedora do prestigiado prémio de ilustração Kate Greenaway. Dificilmente se poderia ter escolhido um nome mais indicado para esta parceria.
Pippi das
Meias Altas (Pippi
Langstrump ou Longstocking) foi a
mais célebre criação da escritora sueca Astrid Lindgren (1907-2002) e,
provavelmente, uma projecção da sua personalidade contestatária e irreverente. «A
morte e o amor são os grandes acontecimentos que as pessoas experimentam»,
afirmou: «Não devemos assustar as crianças, mas elas continuam a necessitar de
serem chocalhadas pela arte, tal como os adultos.»
Quando o livro foi publicado na Suécia, em 1945,
houve receio de que tão livre espírito não fosse capaz de se tornar
suficientemente popular entre os leitores – receio que se revelou infundado, já
que as colecções de Pippi venderam
mais de 145 milhões de exemplares e foram traduzidas em 91 idiomas, segundo
informação da Booksmile, a editora que apostou no regresso desta miúda
excepcional. Em vários sentidos. À luz de certas correntes educativas actuais e
mesmo do senso comum, Pippi é um caso flagrante do «politicamente incorrecto»:
estende massa de biscoitos no chão da cozinha, contrariando as mais elementares
regras de higiene. Entra na escola a trote de cavalo, faz orelhas moucas quando
a professora lhe pede para não a tratar por «tu» e acaba por desestabilizar a
aula com as suas respostas desconcertantes. Quando os bem-intencionados
cidadãos da pequena cidade sueca onde vive decidem que o melhor será interná-la
num lar para crianças, Pippi mostra a sua força hercúlea e pega nos polícias
como se fossem caixas de fósforos.
E, depois, há essa questão incómoda relativa à
ordem familiar: Pippi é órfã e vive sozinha, acompanhada por um cavalo e um
macaquinho, o famoso Senhor Nelson. E acha uma maravilha, «porque assim não
havia ninguém que a mandasse para a cama quando estava a meio de um jogo
fascinante, nem que a impedisse de comer todos os chocolates que lhe
apetecesse» (já estamos a ver várias testas franzidas…). Sardenta, de cabelos
ruivos espetados, um par de meias altas às riscas e de cores diferentes, Pippi
sobreviveu à normalização. Sorte dela. E nossa.”
(Texto integral publicado na edição de Maio da
revista LER, sobre o clássico da escritora sueca Astrid Lindgren, que acaba de
chegar numa nova tradução da Booksmile, ilustrada por Lauren Child.)
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