Tropecei há pouco neste texto do Fábulas de Leitura e fiquei abismada. Não sei se se trata de um assumido guilty pleasure ou se a autora do blogue, nascida em 1981, faz questão de ignorar qualquer interpretação histórica e ideológica da obra de Odette Saint-Maurice. Chamar-lhe «um tesouro nacional desconhecido das gerações mais novas» seria apenas anedótico, se não fosse um insulto à inteligência e à memória de um país que passou por 48 anos de ditadura (e ainda não recuperou). Andei à procura da crónica que publiquei na LER de Setembro de 2011, aquando da inexplicável reedição desta obra serôdia e inane, mas não a encontrei. Deixo um excerto de um artigo mais recente, publicado no Le Monde Diplomatique, onde cito precisamente a figura e o livro em causa. E não, isto não é uma questão de opinião. É mais sério do que isso.
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O paternalismo (ou maternalismo) do adulto que
quer partilhar a sua «criança interior» foi, noutra época, o do «adulto
exterior», mais preocupado com o amor à Pátria do que com o amor-próprio.
Falamos da época «da mocidade que se dirigia valorosa e radiante para o dia de
amanhã», quando as «pessoas da melhor sociedade» se cruzavam com outras,
«acanhadas, mas com um ar feliz que nada igualava»; e o mundo se dividia entre
«os que estavam muitíssimo bem vestidos e os que apenas vinham decentes e
asseados».
Não são páginas da revista O Mundo Ilustrado, por onde alegremente
se passeava o jet-set dos anos 1950, mas de Um
Rapaz às Direitas, de Odette de Saint-Maurice (1918-1993), recentemente
reeditado. A fechar o livro, uma nota biográfica: «À literatura juvenil, de que
foi uma das mais notáveis cultoras, dedicou o melhor do seu trabalho, que um
critério elevado e uma feição sadia definem e impõem.» Enigmático.
O tema da distinção de classes, com o seu
séquito de virtudes bem constituído – o dever, a caridade, a docilidade, o
patriotismo... –, marcou profundamente a produção literária para a infância e
juventude em Portugal, em particular no género da novela de costumes, de que Odette
de Saint-Maurice foi, sem dúvida, «uma das mais notáveis cultoras». Porque
legitimado pela função educativa desde a sua génese, o livro para crianças sempre
foi permeável à moral e às ideologias políticas vigentes, tornando-se
facilmente um veículo de instrumentalização.
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