quarta-feira, 21 de outubro de 2015
VENTRÍCULOS
O título do post anterior, como terão reconhecido, foi roubado ao poema de Alice Gomes (1946) que tanto me impressionou pela sua sensibilidade magoada. No início dos anos 80, a única loja em Lisboa que vendia posters era a Altamira. Vieram de lá os dos Rolling Stones e outros que forraram as paredes do quarto, durante a adolescência. Este é mais antigo e não esconde as mazelas do tempo, embora o seu núcleo se mantenha intacto. Lembro-me de o ler em voz alta, muitas vezes, até o saber de cor. A parte que eu mais estranhava era a que dizia que «os corações têm duas aurículas e dois ventrículos», porque embora não fizesse sentido algum, só conseguia pensar num senhor a falar sem mexer a boca, como os que apareciam nos programas de variedades de sábado à tarde.
domingo, 18 de outubro de 2015
PROFESSOR, DIZ-ME PORQUÊ
«Educação não é encher um balde, mas acender uma chama.» (W. B. Yeats) Inspirado nas palavras do poeta irlandês, um bonito video de Paul e Peter Reynolds, lembrando por que ser professor é extraordinariamente difícil e extraordinariamente importante. Adenda: legendado em português.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
HERMANO LOBO COM GUITARRAS
«Durante algún tiempo creí que estaba enamorada de Kalkitos. Pero eso no podía ser así, porque en ese entonces yo tenía sólo ocho años y Kalkitos tenía la edad de Fósil, mi hermano mayor. Casi podía ser mi papá. Algo no funcionaba en esa historia. Casi nada.
Lo primero que no funcionaba era, según Blanche, que yo había nacido «fuera del tiempo». Comencé a captarlo antes de entender lo que quería decir. Hoy tengo quince años y estoy al borde de comenzar mi vida, pero todavía no he llegado a comprender todo lo que me ha sucedido.»
(Booktrailer de Hermano Lobo para a edição mexicana da El Naranjo, tradução de Jeronimo Pizarro.)
terça-feira, 13 de outubro de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 20
«Nada devem saber a meu respeito, se não tiverem lido um livro que dá pelo nome de As Aventuras de Tom Sawyer, mas isso não tem qualquer importância. Esse livro foi escrito por Mr. Mark Twain que, de um modo geral, contou a verdade. Houve coisas em que exagerou, mas disse quase sempre a verdade. Não tem importância. Nunca conheci ninguém que de vez em quando não mentisse, a não ser a tia Polly, ou a viúva, ou talvez Mary.»
Mark Twain, As Aventuras de Huckleberry Finn, Edições Nelson de Matos, 2010, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 1884.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 19
«A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso.»
José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima, Melhoramentos, 1976. Originalmente publicado em 1968.
domingo, 4 de outubro de 2015
AS NOSSAS SUFRAGISTAS
«Houve um tempo em que nenhuma mulher da tua família podia votar. Apenas por ser mulher. Mãe, avó, tia, irmã, sobrinha, prima, não importava. Mesmo que fossem muito inteligentes, mesmo que tivessem lido cem ou duzentos livros (o que seria imenso!), mesmo que soubessem dizer a tabuada de trás para a frente ou o nome de todos os rios e afluentes da Ásia (o que seria incrível!), tinham contra si uma série de leis que as julgavam como inferiores aos homens.
(...)
Nessa altura, só podiam votar os cidadãos portugueses maiores de 21 anos
que soubessem ler e escrever e fossem «chefes de família». Então imagina: enquanto
os homens vestiam as suas fatiotas para exercer o voto, as mulheres ficavam em
casa a preparar coisas como cola de arroz, água canforada, cera para móveis e
outras receitas domésticas que agora não servem para nada.
Mas serviu, e muito, a coragem de uma mulher
chamada Carolina Beatriz Ângelo. Foi a primeira médica cirurgiã em Portugal,
uma vitória numa profissão reservada aos homens. E foi também a primeira mulher
a votar, tanto em Portugal como no sul da Europa!»
(Primeiros parágrafos da biografia Ana de Castro Osório - A Mulher que Votou na Literatura, com ilustrações de Marta Monteiro e edição da Imprensa Nacional - Casa da Moeda/Pato Lógico. Escritora, editora, jornalista, ensaísta, pedagoga, feminista, maçónica e republicana, Ana de Castro Osório foi amiga e companheira de luta de Carolina Beatriz Ângelo, a primeira portuguesa a votar nas eleições de 28 de Maio de 1911, numa freguesia de Lisboa. Todas nós, mulheres, lhes devemos o exercício da consciência e da liberdade em dias como os de hoje. Sobre o livro, saiu no Público um texto de Rita Pimenta, também duplicado no blogue Letra Pequena. Obrigada!)
sábado, 3 de outubro de 2015
PORTUGUESES NOS WHITE RAVENS 2015
Mais três livros made in Portugal foram seleccionados pela Biblioteca Internacional da Juventude (um paraíso situado em Munique, onde também mora o Irmão Lobo) para integrar a lista White Ravens deste ano. Estão agora entre os melhores livros infantojuvenis publicados em todo o mundo: O Regresso, de Natalia Chernysheva (Bruaá); Supergigante, com texto de Ana Pessoa e ilustrações de Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina); e Barriga da Baleia, um álbum quase sem palavras de António Jorge Gonçalves (Pato Lógico). Autores e editoras, estão todos de parabéns! Vejam aqui a lista completa, organizada alfabeticamente por línguas.
NOT JUST KIDS
«Musician, poet and photographer, Ms. Smith, 68, is remarkably attuned to the sound and sorcery of words, and her prose here is both lyrical and radiantly pictorial. Like her famous black-and-white Polaroid photos (some of which are scattered throughout the book), the chapters of “M Train” are magic lantern slides, jumping, free-associatively, between the present and the past, and from subject to subject.» A crítica ao novo livro de Patti Smith, M Train, para ler no New York Times, aqui. Just Kids, as suas memórias novaiorquinas dos primeiros passos como artista, ao lado de Robert Mapplethorpe, foram publicadas pela Quetzal, numa tradução de Jorge Pereirinha Pires (Apenas Miúdos).
PATTI SMITH LÊ ÁLVARO DE CAMPOS
De improviso, Patti Smith leu a Saudação a Walt Whitman, de Álvaro de Campos, na retroversão para inglês assinada por Richard Zenith. Foi na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, pouco antes do fabuloso concerto no Coliseu. Reparem como a mão direita «fala», acompanhando as palavras e as imagens (in)contidas nas palavras.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
CHEGAR A BOM PORCO
Nem só de banda desenhada se fala no blogue Ler BD. As críticas aprofundadas de Pedro Moura abarcam também muitos álbuns ou picture books, bem como leituras ensaísticas que de outra forma tenderiam a passar despercebidas. Ainda não há muito tempo, saiu um texto sobre Chico-Chorão (Kalandraka), obra de Maurice Sendak que me deu especial gozo traduzir; sem deixar de partir a cabeça, como todos os outros.
Explica Pedro Moura que «este Bumble-Ardy suíno, ou na sua versão portuguesa incontestável e
segura, Chico-Chorão, é órfão de ambos os pais, transformados em chouriço (uma
leitura abusiva quase que poderia explorar vias alucinadas, de projecções do
Holocausto – nada estranho na obra de Sendak – nesta família de… porcos), e
encontra no seu nono aniversário (alguma cerimónia especial, passível de
interpretações simbólicas?) uma ocasião para a libertação de todas as regras. Não quer isso dizer que se chegue a bom porto.»
Muito acertado. Aqui deixo o prólogo, para abrir o apetite:
«Quando Chico-Chorão fez um ano, não houve festa.
(A família riu-se e franziu a testa.)
O segundo ano, o terceiro e o quarto foram
propositadamente esquecidos.
E o quinto, sexto e sétimo, nem sequer referidos.
Mas eis que Chico-Chorão completou os oito.
(Oh, que porquinho tão afoito!)
A família ia engordando, enquanto isso.
Até acabar feita em chouriço.
Então veio Adelina, essa tia deliciosa,
e adoptou Chico-Chorão mal ele fez nove.
Não foi uma sorte prodigiosa?
Ah, pois foi...»
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
CURSO DE LIVRO INFANTOJUVENIL - ADENDA
Quero agradecer a todas as pessoas, especialmente professores e educadores, que têm demonstrado interesse pelo Curso de Livro Infantojuvenil, feito em parceria com a Booktailors, em Lisboa, desde 2010. Frequentemente, perguntam-me pelo facebook, email ou blogue, se é possível realizá-lo noutros pontos do país. A verdade é que não, e tenho pena. Sendo um curso (oficina, workshop ou como lhe queiram chamar) de 18 horas, tem uma estrutura difícil de reproduzir, nomeadamente por razões logísticas. No entanto, quero lembrar que tenho versões mais abreviadas de 3h, 6h e 12h; essas sim, já realizadas em várias bibliotecas. As últimas aconteceram em Sintra, Torres Novas, Algés e Ovar (esta, a convite da Biblioteca Municipal de Ílhavo). A próxima será em Esposende, se tudo correr bem. Quem quiser, só tem de me contactar pelo email cmaia.almeida@netcabo.pt. Respondo sempre. :-)
terça-feira, 29 de setembro de 2015
NOVO CURSO DE LIVRO INFANTOJUVENIL
Eu, em pesquisa para o próximo Curso de Livro Infantojuvenil, com início marcado para 27 de Outubro, em Lisboa (Booktailors, Tv. das Pedras Negras, nº 1 - 3º Dto.). Todas as informações aqui. Na fotografia, sou a terceira a contar do fim.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
CASA, FAMÍLIA, IRMÃO
MR: Pensas que as crianças estão preparadas para ter dois pais ou duas mães?
CMA: Para te responder a essa questão, sem ser superficial, tinha de estar implicada numa de duas formas: afectivamente, ou seja, estar eu própria nessa situação, ou ter alguém muito próximo que estivesse... Ou então de uma forma teórica, com uma visão mais fundamentada e científica. Não tenho nem uma nem outra. O que sei é que as crianças estão sempre preparadas para serem amadas e respeitadas. Isso é no que eu acredito. Por isso é que neste livro eu e a Marta mostramos famílias funcionais e em situações felizes. Sempre.
(...)
MR: Nos títulos dos teus livros tu tens “casa”, “família”, “irmão” e a tua temática concentra-se muito na família. Porquê esse interesse?
CMA: Nós falamos daquilo que temos em abundância ou falamos daquilo que nos faz falta. A escrita é isso. Quando estás muito feliz queres viver. Não vais pensar em estar fechado a escrever. Eu falo daquilo que sinto falta – e a falta ocupa, às vezes, um lugar enorme. As minhas vivências familiares foram fortíssimas, cheias de coisas muito boas e outras muito más. E é aí que está o meu magma literário. Tenho uma memória emocional muito forte que se mobiliza quando escrevo. É a minha maior ferramenta. E as duas forças que me fazem ter vontade de escrever são sempre o amor e a revolta, disso tenho a certeza.
[Duas das muitas e boas perguntas de Mário Rufino - também autor das fotos - para a entrevista publicada sexta-feira no Diário Digital. Onde se fala do Amores de Família, do Irmão Lobo, dos outros livros, do processo criativo, da escrita, da família e outros mistérios. Pode ser lida na íntegra aqui.]
domingo, 27 de setembro de 2015
PRIMITIVOS, 2
Coisas que se descobrem sem querer:
«Lembro-me de ouvir a Blanche dizer que o Kalkitos ainda ia«acabar mal», mas naquela altura eu achava que nada de grave podia acontecer a um rapaz de boas famílias. Porque haveria sempre uma família boa para o adotar, se a outra família menos boa não o quisesse. Devia ser uma maravilha ter vários pais e várias mães, pensava eu, aos oito anos. Muito melhor do que ter uma única família e não poder escolher, como era o nosso caso.»
Quando escrevi este parágrafo do Irmão Lobo (p. 77, 1ª edição) nunca
tinha ouvido falar do povo Mossi, cujas crianças têm «uma dezena de pais
disponíveis no seu ambiente familiar», sendo que o preferido nem sempre
coincide com o progenitor. Mais: para os Mossi, «os lares ocidentais
são estritamente esqueléticos... Como vir a ser homem em lugares onde
apenas nos é atribuído um só pai? E que fazer se este último não nos
convém?» (in XY - A Identidade Masculina, Elisabeth Badinter)
Coisas de povos primitivos e da imaginação das crianças...
Coisas de povos primitivos e da imaginação das crianças...
PRIMITIVOS, 1
«Os Semai pensam que a agressividade é a pior das calamidades e a frustração do outro, o mal absoluto. Resultado: não se mostram nem ciumentos, nem autoritários, nem desdenhosos. Cultivam qualidades não competitivas, são sobretudo passivos e tímidos e apagam-se, de bom grado, perante os outros, homens ou mulheres. Pouco preocupados com a diferença dos sexos, não exercem qualquer pressão sobre os rapazes para que se distingam das raparigas e se tornem pequenos duros.»
(in XY - A Identidade Masculina, de Elisabeth Badinter, ed. Asa, 1996; citando a obra de Robert K. Dentan, The Semai: a Non Violent People of Malaysia)
domingo, 20 de setembro de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 18
«Buck não lia jornais. Caso contrário, teria sabido que desde Puget Sound a San Diego se tramava uma conjura, não só contra ele, mas também contra todos os cães do litoral, de forte musculatura e pelo comprido e quente. Como alguns homens, tateando na escuridão do Ártico, tivessem encontrado um metal amarelo, e as companhias de navegação e transporte propagassem a descoberta, milhares de outros homens precipitavam-se agora para as terras do Norte. Estes homens necessitavam de cães, cães de grande porte, de músculos fortes para o trabalho e pelo espesso que os protegesse da geada.»
Jack London, O Apelo da Selva (The Call of the Wild), Civilização, 2014, tradução de Emília Maria Bagão e Silva. Originalmente publicado em 1903.
sábado, 19 de setembro de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 17
«Eram sete horas de uma tarde muito cálida, nas colinas de Seoni, quando o Pai Lobo acordou do seu sono diurno e começou a coçar-se, bocejando e estendendo as patas, uma a uma, para se livrar da sensação sonolenta que ainda se lhe agarrava às pontas dos dedos. A Mãe Loba, deitada, tinha o grande nariz cinzento virado para os quatro filhotes, saltitantes e guinchadores, quando o luar surgiu à entrada do covil onde todos viviam.
- Augrh! - disse o Pai Lobo, - é tempo de voltarmos a caçar.»
Rudyard Kipling, O Livro da Selva, Tinta-da-China, 2010, tradução de Júlio Henriques. Originalmente publicado em 1894.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
NOVO CURSO DE LIVRO INFANTOJUVENIL
Com algumas reformulações, já está marcada a nova edição do curso de 18 horas que desde 2010 tenho feito em parceria com a Booktailors. A data de início está marcada para 27 de Outubro. Deixo aqui os objectivos, destinatários e programa. O resto pode ser consultado na página do Blogtailors.
Objetivos:
Um bom livro para crianças é também um bom livro para os adultos. Partindo desta premissa, pretende-se explorar o universo do livro infantojuvenil como objeto total, privilegiando a componente literária, mas abordando outras vertentes como a ilustração, a mediação, a edição ou a tradução. Centrando-se sobre o livro, o curso terá como base de discussão dezenas de títulos editados em Portugal e não só, com destaque para o álbum ou picture book.
Público-alvo:
Estudantes de literatura, edição e educação; professores, bibliotecários e educadores; pais e outros mediadores da leitura junto das crianças; ilustradores; livreiros. Todos os que gostam de ler livros para crianças e/ou adolescentes.
Programa:
1ª sessão: Um bom livro para crianças passa valores humanistas,
universais e intemporais. Fala dos «temas difíceis», sem moralismos. Está em
sintonia com o seu tempo. É progressista, muitas vezes. Revela a marca do autor
ou dos autores. O que faz, afinal, um bom livro para crianças? Desafio: chegar
a uma síntese.
2ª sessão: A extraordinária invenção do álbum ou picture book e o seu contributo para o
sistema literário. Ligações (mais ou menos perigosas) entre texto e ilustração.
A importância da literacia visual no jardim de infância e no 1º Ciclo. Desafio:
compreender a autonomia leitora.
3ª sessão: Regressar aos contos maravilhosos em época de informação
inútil. O contador de histórias ferido e a recuperação do sentido e da vida
interior pela palavra narrada. Mediação leitora e investimento pessoal do
mediador. Desafio: ajudar o leitor a alcançar o coração do livro.
4ª sessão: O bom, o mau e o vilão:
algumas personagens da literatura universal, de Robinson Crusoe a Peter Pan.
Tendências da literatura juvenil contemporânea. A literatura crossover. Autores-chave: David Almond,
Neil Gaiman, Shaun Tan. O triplo AAA português: Alice Vieira, Ana Saldanha,
António Mota. Desafio: entrar no cérebro de um adolescente.
5ª sessão: Quando a literatura não
chega, os livros de não-ficção também falam ao «ouvido
emocional» do leitor. Critérios de orientação por idades, interesses temáticos
e temperamento do leitor. O eneagrama da personalidade leitora. Recursos
disponíveis à volta do livro infantojuvenil, online e offline.
Desafio: cativar o leitor relutante.
6ª sessão: Escrever para crianças
também é escrever para adultos. Como enfrentar o fantasma do duplo destinatário
e alimentar uma poética da imaginação. Como se inventa um livro? Gestão de egos
artísticos e metodologia de trabalho entre escritor e ilustrador. Questões
relativas à tradução. Escritores de livros para crianças e autoimagem. Desafio:
observar as representações sociais da literatura infantojuvenil.
(ilustração de Roberto Innocenti)
terça-feira, 8 de setembro de 2015
LEIAM, MAS NÃO INALEM
É triste assistir a isto em qualquer parte do mundo dito «civilizado»; e logo num país progressista como a Nova Zelândia. Um livro para adolescentes e leitores mais crescidos (young adults), distinguido pela crítica e premiado em 2013, está a ser agora retirado das estantes das livrarias, bibliotecas e escolas, por força do lobby de um grupo cristão e conservador que se manifestou contra as referências explícitas ao uso de drogas e ao calão aplicado aos órgãos sexuais, entre outros tópicos «quentes». Interessante. Como se sabe, nestas idades, os miúdos inclinam-se mais para o ponto de cruz, o bricolage e a decoração de bolos festivos... Ted Dawe, o autor de Into the River, professor do ensino secundário há 40 anos, diz que o último livro banido na Nova Zelândia se chamava Como Construir uma Bazuca. «Talvez o conteúdo de Into the River seja uma bazuca apontada à oligarquia da classe média que governa este país», afirma. Da ordem do anedótico: uma especialista em direito dos media declarou ao New Zealand Herald que era «legal ter o livro para seu próprio uso, mas não passá-lo aos amigos». A literatura equiparada ao cultivo de marijuana nas varandas e quintais. Portem-se bem, amiguinhos. Leiam, mas não inalem.
(via Scoop it! - Ana Margarida Ramos)
terça-feira, 1 de setembro de 2015
WENDY NO DIVÃ: A BELA E O MONSTRO
A BELA E O MONSTRO Meio-homem, meio-animal, o Monstro não é flor que se cheire. Quanto a Bela, rapariga modesta e prendada, vê no autossacrifício a maior das virtudes. Só mesmo um desencantamento para salvar esta triste história.
Em 1946, Jean Cocteau
adaptou-o ao cinema e criou um prodígio de imaginação cenográfica e alegórica. A Bela e o Monstro, também conhecido por
A Bela e a Fera, é um dos mais populares
contos de fadas, celebrizado na Europa pela versão literária de Madame Le
Prince de Beaumont, publicada em 1757. Desde então, tem produzido estragos
consideráveis em inúmeras famílias, sensíveis à cantiga do «ele é bom rapaz, um
pouco tímido, até». Pois se é verdade que existem monstros capazes de inspirar compaixão,
como Frankenstein, King Kong ou o Corcunda da Nôtre-Dame, outros há cujo trato
é tão inútil e danoso como mandar o Freddy Krueger à manicura.
O Monstro da Bela não é dos piorzinhos, sobretudo se o compararmos com Barba-Azul, nosso psicopata de eleição, mas não temos outro remédio se não julgá-lo pelas aparências: «Além de ser feio, não tenho inteligência: sei que não passo de um animal», admite. Quem fala assim não é gago, mas Bela é uma mulher de palavra: «Estou disposta a abandonar-me à sua fúria e sinto-me muito feliz, porque, morrendo, terei a alegria de salvar meu pai e de lhe provar o meu amor.» Recorde-se que é o pai de Bela o primeiro a concordar com o sacrifício de uma das filhas ao Monstro, mesmo quando os irmãos mais velhos se prontificam a ir lá limpar-lhe o sebo. E fá-lo para salvar o próprio pelo, na boa tradição dos pais tiranos/ausentes/incestuosos dos contos de fadas: A Gata Borralheira, Pele de Burro, Branca de Neve e outros que tais (depois admiram-se).
Há quem veja nesta transferência edipiana uma conquista da maturidade. «Neste conto tudo é bondade e devoção amorosa de um pelo outro, da parte dos três personagens: a Bela, seu pai e o Monstro», escreve Bruno Bettelheim, na Psicanálise dos Contos de Fadas. A sério? Muitas Belas deste mundo diriam outra coisa, se tivessem vivido para contar a história.
(Texto publicado na LER nº 138.
Mais personagens semi ou totalmente insanos, da série «Wendy no Divã», podem ser lidos no Jardim Assombrado, aqui.)
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
IRMÃO LOBO É BRAT VUK
Tenho em mãos a recém-chegada versão sérvia do Irmão Lobo, cuja capa mole não desmerece em nada a cuidada edição da Kreativni Centar. Por esta editora de Belgrado, com o suporte dos programas de apoio à tradução da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, já saíram os romances juvenis de Ana Saldanha (Para Maiores de Dezasseis), Afonso Cruz (Os Livros que Devoraram o Meu Pai), Ondjaki (Bom Dia, Camaradas) e Alice Vieira (A Vida nas Palavras de Inês Tavares), todos eles essenciais para a compreensão da literatura portuguesa para «adolescentes e leitores mais crescidos», roubando a bem achada designação do Planeta Tangerina. Escusado será sublinhar o quanto me sinto grata por estar junto destes nomes. Irmão Lobo escreve-se como podem ver na imagem e pronuncia-se Brat Vuk.
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 16
«Durante a última primavera na Universidade, uma espécie de agitação apoderou-se de Myra. Era algo que não conseguia compreender; estava para além da inquietação de uma juventude exuberante. Era mesmo qualquer coisa de neurótico. Nada do que fazia parecia satisfazê-la ou realizá-la totalmente. Nem quando regressava tarde de um baile em que passara de par em par, nem isso bastava para que caísse de fadiga e adormecesse. Era como se faltasse não sabia o quê que atribuísse à noite toda a sua plenitude. Às vezes, tomava-a uma sensação de pânico, ou quase, como se tivesse perdido ou esquecido alguma coisa muito importante.»
Tennessee Williams, O Campo das Crianças Azuis, in A Noite da Iguana e Outras Histórias, Assírio & Alvim, 1987, tradução de José Agostinho Baptista. Originalmente publicado em 1936.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 15
«Ele estava a ler-lhe Rilke, um poeta que admirava, quando ela adormeceu com a cabeça no travesseiro dele. Gostava de ler em voz alta e lia bem, numa voz confiante e sonora, ora baixa e grave, ora retumbante, ora excitante. Enquanto lia nunca desviava os olhos da página e apenas interrompia para estender o braço para a mesinha-de-cabeceira e pegar num cigarro. Era uma voz que a transportava até um sonho povoado de caravanas que iniciavam uma viagem a partir das cidades rodeadas de ameias, com homens barbudos vestidos com túnicas. Tinha-o escutado durante alguns minutos, fechara os olhos e adormecera.»
Raymond Carver, A Mulher do Estudante, in Queres Fazer o Favor de te Calares?, Teorema, 1989, tradução de Carlos Santos. Originalmente publicado em 1976.
terça-feira, 21 de julho de 2015
E POR FALAR DE AMORES
(...) «Aqui há uns tempos fui à Escola S. João de Brito e estava a falar do meu Irmão Lobo para uma turminha de miúdos do 3º ano do 1º ciclo, e disse: «Bom, este livro, o Irmão Lobo, já é assim mais para adolescentes...». Queria pôr as coisas de uma forma que não soasse muito triste, e disse: «Bom, não sei como é que vos hei de dizer isto...». E há um miúdo que se levanta e diz: «Mas pode dizer, que nós percebemos.» E eu: «Pronto, então este livro é a história de uma família que se desmoronou.». E há outro miúdo, do outro lado da sala, que diz: «A minha família também se desmoronou.» Isto tocou-me imenso. Houve um silêncio naquela sala que foi de comunhão. Todos percebemos do que estávamos a falar.» (...)
Este é um excerto da uma entrevista para o programa Escrever na Água, da RDP África, conduzida pela jornalista Fernanda Almeida. O pretexto foi o Amores de Família, que saiu recentemente pela Editorial Caminho, um livro que cruza os arquétipos da mitologia greco-latina com algumas famílias que vivem mesmo ao nosso lado. Famílias funcionais e nutritivas, em que se valoriza o amor, o carinho e a ética do cuidar, forças essenciais numa sociedade tão fragmentada como a nossa. Falámos também de literatura para crianças, de mediadores de leitura apaixonados, de como nasce e se fixa a ideia para um livro, do processo de ilustração com a Marta Monteiro, da resistência dos adultos a livros fora da norma e, enfim, de outras coisas que podem surgir numa conversa que flui como a água. Com a Fernanda Almeida é sempre assim.
A entrevista demora meia hora (entre o minuto 00:00 e 29:55) e pode ser ouvida na íntegra aqui. Pode ser útil para os professores que estejam a pensar trabalhar o Amores de Família no próximo ano lectivo, em especial para a abordagem dos temas clássicos numa perspectiva literária e estética. O livro entrou agora para o Plano Nacional de Leitura, área de Apoio a Projectos - Educação para a Cidadania (3º, 4º, 5º e 6º anos), que é justamente onde deve estar.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 14
«Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me a volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
Deve ser a pior coisa do mundo.»
Sylvia Plath, A Câmpanula de Vidro, Assírio & Alvim, 1988, tradução de Mário Avelar. Originalmente publicado em 1963.
sábado, 18 de julho de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 13
«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»
Shirley Jackson, Sempre Vivemos no Castelo, Cavalo de Ferro, 2010, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 1962.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
GRANDE AFONSO
Afonso Cruz venceu esta semana a 19ª edição do Prémio Nacional de Ilustração com o livro Capital, uma obra da colecção Imagens que Contam (Pato Lógico), já assinada por alguns dos nossos melhores ilustradores: Marta Monteiro (Sombras), André da Loba (Bestial), Catarina Sobral (Vazio), João Fazenda (Dança) e Bernardo P. Carvalho (Verdade?!). Como o nome da colecção sugere, trata-se de livros sem texto, ancorados num título de uma só palavra que dá o mote para a narrativa de 32 páginas que se segue. Ainda há muito desconhecimento (e também preconceito intelectual e falta de curiosidade) em relação a este género de picture books - ou «álbuns puros», se preferirem - que se caracterizam pela recusa do primado da palavra, durante tanto tempo responsável pela clivagem hierárquica entre o texto e a ilustração. A prová-lo, como exemplo negativo desta tendência, temos aí uma quantidade de livros palavrosos, chatos, quadrados e absolutamente irrelevantes.
Graças ao trabalho de editores e autores, entre outros agentes (e honra seja feita ao investimento continuado da actual Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas), o panorama da literatura infanto-juvenil mudou muito nos últimos vinte anos, felizmente; e Afonso Cruz, com a sua vivência singular da arte e da criatividade, sem constrangimentos étarios, contribuiu para essa revolução. É um autor completo e complexo, de quem nunca sabemos bem o que esperar, e que já nos deu livros tão bons e tão peculiares como A Contradição Humana (Caminho), O Livro do Ano (Alfaguara), Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho) ou essa pequena pérola, rara nas livrarias, que dá pelo nome de Os Pássaros (APCC), só para falar da sua produção que acolhe (sublinhado meu) os leitores mais novos. A bibliografia completa de Afonso Cruz pode ser conhecida aqui.
A leitura de Capital é bastante explícita e não deixa dúvidas quanto à sujidade do chamado «vil metal», desde a primeira contaminação das personagens até à apropriação absoluta do Sistema Solar. A página dupla das guardas finais evidencia, simbolicamente, os resultados desta digestão devoradora, com o porquinho-mealheiro a flutuar no lugar onde antes estava a Terra. Limpinho. Para os professores e mediadores de leitura que queiram trabalhar esta obra recém-premiada de Afonso Cruz, sugiro que o façam em complemento com um excelente texto dramático, levado à cena no Centro Cultural de Belém e agora fixado em livro: A Cruzada das Crianças - Vamos Mudar o Mundo (Alfaguara).
Inspirada num acontecimento adstrito aos «ficheiros secretos» da História, um movimento semiespontâneo de milhares de crianças e adolescentes que, em 1212, partiram em peregrinação por terras de França e da actual Alemanha, empenhados na missão insana de libertar Jerusalém dos muçulmanos, A Cruzada das Crianças - Vamos Mudar o Mundo é seguramente a obra mais política de Afonso Cruz destinada a este público. Intercalando ilustrações, notícias de jornais e fotografias de manifestações com crianças, um pouco por todo o mundo (excelente trabalho de design gráfico de Maria João Lima), é um livro de uma inteligência poética e argumentativa desconcertantes.
«Dedicado a todas as crianças que já fui», diz o autor em epígrafe, a peça parte desta possibilidade extraordinária: como seria se milhares de crianças resolvessem questionar todas as instituições e os adultos que as dirigem? Crianças para quem o território da justiça é sempre maior do que o mapa das leis; crianças para quem a semiótica e a retórica dos «crescidos» não interessa patavina; crianças que só querem respostas directas, honestas e verdadeiras:
(...)
Polícia (condescendente): Não podem andar assim, aos milhares, a reclamar coisas tão importantes.
Criança 1: Não se pode reclamar coisas importantes?
Polícia: Não têm idade para isso. Vocês não percebem.
Criança 2: Com que idade é permitido?
Polícia: A partir da idade em que sabem o que querem e não andam a brincar com as pessoas.
Criança 1: Quando ficarmos sentados no sofá sem tempo para brincar?
Criança 2: Estamos presos?
Polícia: Não estão presos. Estamos à espera dos vossos pais.
(...)
Com imagens ou sem imagens, Afonso Cruz é um autor capital. E estes dois livros só nos enriquecem ainda mais. Agora chega de trocadilhos. Vão ler.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
A VIDA EM ANEXO
A 15 de Julho de 1944, faz hoje 71 anos, uma rapariga judia escrevia num diário secreto a uma amiga imaginária: «...se estás a pensar que a vida aqui no Anexo é mais difícil para os adultos do que para os jovens, a resposta é não, sem dúvida que não. As pessoas mais velhas têm uma opinião sobre tudo e estão seguras de si próprias e das suas ações.»
Se há nomes próprios que reflectem algo do carácter do seu portador, a frontalidade e a argúcia de Anne Frank transparecem no que lhe foi atribuído à nascença (em inglês, «frank» é sinónimo de «sincero», «honesto», «directo»). Do horror generalizado até aos familiares e residentes no «anexo», expressão por que ficou conhecida a parte da casa de Amesterdão onde oito pessoas viveram escondidas durante dois anos, Anne não foi branda nas palavras. Quando veio a público a primeira edição do diário, em 1947, a opção de Otto Frank, pai de Anne e único sobrevivente, foi eliminar os trechos mais íntimos ou então pouco abonatórios para a família, em especial para a mãe. «Tenho uma característica predominante que deve ser óbvia para qualquer pessoa que me conheça: tenho um grande autoconhecimento [«autocrítica» na tradução anterior de Ilse Losa para a Livros do Brasil]», escreveu Anne: «Em tudo o que faço, consigo observar-me como se fosse uma desconhecida. Consigo pôr-me de fora da Anne de todos os dias e, com imparcialidade e sem a tentar desculpar, observar o que ela está a fazer, tanto o bom como o mau.»
Este grau de honestidade só é possível quando a capacidade de observação é aliada do pensamento crítico e reflexivo. Mais: quando a vida interior de uma adolescente brutalizada ainda não foi totalmente destruída pelo «lado pior da natureza humana, quando toda a gente duvida da verdade, da justiça e de Deus». Pergunto-me que esforço intolerável teremos ainda nós de fazer - adultos, mas sobretudo adolescentes e crianças - para resistir à distribuição diária de pequenas e grandes mentiras a que somos expostos. Mais do que um testemunho histórico, O Diário de Anne Frank, hoje integrado nas Metas Curriculares de Português (8º ano), é uma obra «que nunca acabou de dizer o que tem a dizer» (para recorrer à definição de Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos?), precisamente porque se construiu ancorada na verdade essencial de um indivíduo, uma rapariga morta aos 15 anos num campo de concentração.
Recentemente, numa visita que fiz à escola EB1 de São João de Brito, em Lisboa, uma professora desassombrada comentava: «Outro dia, o meu filho perguntou-me "mãe, o que é a esperança?", e eu não sabia o que lhe dizer... E agora acontece isto: queremos que eles leiam O Diário de Anne Frank, mas não lhes sabemos explicar o que é a esperança.»
Possa a vida prosseguir e prosperar, mas não em anexo.
O Diário de Anne Frank - versão definitiva
Tradução de Elsa T. S. Vieira
Livros do Brasil, 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
SEI O QUE FIZESTE NO VERÃO PASSADO
Finalmente o Verão, de Mariko Tamaki (texto) e Jillian Tamaki (ilustração), duas primas de ascendência japonesa nascidas no Canadá, é o quarto título publicado na colecção Dois Passos e um Salto, «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», como desde o início foi apresentada pela editora Planeta Tangerina. Nada de equívocos, portanto. A linguagem explícita que aqui aparece é até bastante soft, se comparada com alguns «diálogos» avulsos que captamos na rua ou perto de qualquer escola secundária. Se há pais, professores, livreiros e adultos em geral que preferem olhar para os adolescentes como se os pudessem conservar num frasco de formol delicodoce, talvez seja porque se esqueceram dessa época bruta, incerta, confusa e sempre angustiante que se sucede à relativa previsibilidade da infância. Finalmente o Verão tem tudo a ver com isso e muito mais.
A maternidade é um dos temas que atravessam o livro de uma ponta à outra - e esta noção de «travessia» é, em si mesma, estruturante do ponto de vista narrativo. Primeiro, a travessia da família Wallace para a zona dos grandes lagos, um lugar idílico chamado Awago Beach onde desde há muitos anos passam as férias de Verão. Rose Wallace, adolescente magra e aérea como um galho, reencontra ali a amiga de infância, Windy, cujo corpo redondo contrasta com o seu e oferece já outra visão do feminino, menos agreste e mais maternal. Mas perceberemos rapidamente algumas das razões da crispação de Rose: um aborto espontâneo da mãe às seis semanas, ainda por curar, transporta o mal-estar e as discussões do casal Wallace para o desejado retiro no seu éden privado.
Interligando-se com o cenário familiar, o quotidiano rude dos adolescentes e jovens adultos da localidade de Awago Beach - e o impacto de uma gravidez não desejada entre duas personagens - adensam o clima sufocante da teia de relações humanas. Surgem alguns presságios: as referências aos feiticeiros da tribo Huron, ancestrais habitantes daquela região do Canadá, agora convertidos em atracção turística; ou a fantasmática figura do homem que aparece a Rose quando ela foge para o lago, avisando-a do perigo dos relâmpagos. No entanto, nada nos prepara a iminência da tragédia nem para o final redentor do livro. E essa surpresa é um dos deslumbramentos desta novela gráfica em tons de azul, por isso não a estraguemos aqui.
Mas esta é, esssencialmente, uma travessia dos lugares cristalizados da infância, ainda com cheiro a gomas e refrigerantes e festas de pijama, para outros lugares insondáveis onde se fala (muito) de sexo, rapazes, casamento, filhos... Personagens que são, sobretudo, seres em transição: raparigas que gostariam de ser mulheres para serem desejadas; mulheres que gostariam de voltar a ser crianças só «para poder gritar e espernear», mulheres que não querem ter filhos porque elas próprias se sentem ainda crianças. A maternidade, fortemente simbolizada nas águas uterinas do lago, recorda que «a mãe natureza nem sempre é a pessoa mais simpática do mundo». Por vezes, navegamos em águas turvas ou desconhecidas. Há perdas de sangue e de filhos; há conversas cortadas a meio e mensagens não respondidas no telemóvel. Há a eterna incomunicabilidade das coisas brutais, e também o esforço que fazemos para lhes dar um nome. Onde faltam as palavras, exorbitam as onomatopeias, traduzindo emoções, cheiros, sabores, sensações, gestos, movimentos, sons. Do muito grande ao muito pequeno, o espaço de página faz convergir espaços antagónicos e tempos paralelos com absoluta mestria.
Muito mais poderia ser dito sobre Finalmente o Verão, livro que mereceu, com bastante polémica (ver aqui), o prestigiado Caldecott Honour, atribuído pela American Library Association, em 2015. É um daqueles livros que não hesitamos em classificar como obra-prima, por muito batida que esteja a palavra. E ainda bem que agora se escrevem tantas obras-primas na literatura infanto-juvenil. Mas nada de equívocos, novamente: este é um livro «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», que muitos adultos deviam ler pelo menos duas vezes. Terminamos com a fala do homem do lago, que com o seu cão magro aparece junto de Rose, deixando-lhe um sábio conselho: «Algumas lições só se aprendem a doer, miúda. Não precisas armar ao pingarelho.»
Finalmente o Verão
Mariko Tamaki (texto)
Jillian Tamaki (ilustração)
Tradução de Isabel Minhós Martins
Planeta Tangerina
quarta-feira, 8 de julho de 2015
E NÓS, MÃE, PARA ONDE VAMOS DE FÉRIAS?
O Jardim Assombrado não foi de férias, muito pelo contrário: sucumbiu a uma avalanche de trabalho que fez os livros acumularem-se numa pilha rival à da roupa para passar a ferro, havendo agora que desbastar uma e outra. Começo por uma das novidades da Kalandraka, Gatinho e as Férias, o terceiro título da série iniciada com Gatinho e a Neve e Gatinho e a Bola. Não é muito fácil encontrar obras adequadas a pré-leitores (a partir dos 3/4 anos, diria) em que a aparente simplicidade é o resultado de um trabalho invisível que implica muita reflexão, bom senso e profundidade psicológica; um pouco como a indispensável colecção do Sapo, do holandês Max Velthuijs (1923-2005).
Partindo de situações familiares à vida interior das crianças, sempre realçando os tempos livres e as brincadeiras (sem i-pads nem consolas), faz-se aqui uma subtil apologia da oportunidade de aprender com situações inesperadas e mesmo geradoras de ansiedade. Neste caso, é a aproximação das férias a dar o mote: o que fazer com esses dias que interrompem a segurança das rotinas, seja ela falsa ou verdadeira? Um dos amigos do Gatinho não vai de férias porque o pai tem de trabalhar; outros vão sozinhos para casa da avó, na aldeia; outro passa metade das férias com o pai e outra metade com a mãe... Circunstâncias sociais comuns na vidas dos miúdos de hoje. Algum vocabulário pode ser desconhecido («espesso», «caldeira», «lomba», de O Gatinho e a Neve), mas guarda a oportunidade de aprender palavras novas com a ajuda das imagens e dessa força agregadora que preside às ligações parentais. Estes são livros ideais para leituras partilhadas entre adultos e crianças pré-leitoras, em que a figura nutritiva da mãe sobressai com o tal «bom senso» supracitado. Mais informação sobre o livro e os autores na página da Kalandraka, aqui.
Gatinho e as Férias
Joel Franz Rosell (texto)
Constance v Kitzing (ilustração)
Kalandraka
quinta-feira, 25 de junho de 2015
AMAR É BATER PALMAS
«A senhora Clap é excelente a bater palmas. Bate palmas mesmo muito bem.» Começa assim a história da Senhora Clap, um livro que não é bem uma história - no sentido estritamente narrativo do termo - mas que guarda uma integridade e coesão estranhamente invulgares. Podemos chamar-lhe um «livro de personagem», na medida em que a força da sua argumentação se concentra à volta de uma só figura, à semelhança do conto «Retrato de Mónica», de Sophia de Mello Breyner Andresen, ou O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares, entre tantos outros.
Mas as comparações acabam aqui, porque a Senhora Clap, que conhece «quase todos os segredos sobre cada salva de palmas e sabe ler os sentimentos e as emoções de cada pessoa que as dá», é demasiado original para ser comparada com outra personagem qualquer. Muito ocupada a escrever o Tratado Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes, aplica grande parte do seu tempo em conferências sobre o assunto, explicando ao público algumas noções retiradas do seu diário de campo. Por exemplo:
38 - «Só devemos bater palmas quando nos apetece.»
41 - «Não devemos ter receio de bater palmas mesmo quando somos os únicos a fazê-lo.»
74 - «As pessoas que batem palmas a olhar para o lado, não sentem muito.»
75 - «As palmas que não se sentem perdem o som.»
94 - «Não é preciso ganhar para que as pessoas mereçam palmas.»
108 - «As pessoas apaixonadas batem palmas com mais intensidade.»
387 - «Amar é bater palmas.»
Na caracterização da Senhora Clap, que aqui não se pretende exaustiva, há que referir ainda um pormenor da ordem da fenomenologia: é que a Senhora Clap fica transparente do lado esquerdo quando bate palmas, e isso contribui para o seu interesse científico e antropológico, acham os especialistas. A única condição é que as palmas têm de ser sinceras (confirmar acima, nota 38), sob pena de nela se produzir o efeito adverso. Quem acha que bater palmas é um acto banal e desprovido de interesse, «são só as mãos a fazerem uma espécie de barulho», deve pelo menos ter a delicadeza de guardar esse julgamento para si. Caso contrário, pode acontecer isto:
«Uma vez, enquanto aplaudia, a Senhora Clap ouviu um comentário deste género e - zás - perdeu a transparência num ápice! Começou a ficar opaca, muito opaca, tão opaca que não se conseguia ver nada, nem a cor dos seus olhos, principalmente do esquerdo. E nessa altura disse:
- Peço desculpa, mas hoje não consigo bater mais palmas!»
Seria uma pena que isso acontecesse muitas vezes, pois a matéria do Tratado Universal sobre a Arte de Bater Palmas em Situações Alegres ou Tristes é vastíssima, mesmo inesgotável. Se «amar é bater palmas» (confirmar acima, nota 387), é impossível ficarmos quietos e calados por muito tempo, está bem de ver. Comecemos por aplaudir a Senhora Clap e de certeza que sentiremos o eco da atenção dela em nós. Experimentem.
A Senhora Clap e o Mundo na Palma das Mãos
Marta Duque Vaz (texto)
Alexandre Esgaio (ilustração)
Planeta Manuscrito, 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
A ILHA DO TESOURO
Enquanto esperamos (ansiosamente) que chegue às bancas a LER de Verão, aqui fica um texto publicado na edição anterior, na secção de «clássicos recuperados», Biblioteca do Nautilus. A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (1850-1894), é um daqueles romances sem tempo e sem idade, tal como Peter Pan ou As Viagens de Gulliver, mas que se compreendem com outra amplitude depois de instalada (esperemos que não demasiado instalada) essa época designada por «maturidade. A colecção chama-se Vício dos Livros e é editada pela Civilização. Adoro a(s) capa(s). E nunca me canso de voltar a estes mares turbulentos:
A Ilha do Tesouro
«Estamos mais que nunca no espírito do jogo
infantil, entre assédios, surtidas e assaltos de bandos rivais.» Em Porquê Ler os Clássicos? (Teorema),
Italo Calvino não se referia à história de Jim Hawkins e do execrável bando de
piratas que acompanha o seu crescimento, mas o que afirmou a propósito de outro
livro pode ser aplicado, sem reservas, ao clássico A Ilha do Tesouro. É um dos títulos recuperados do catálogo da editora
Civilização, com traduções revistas e design gráfico de Pedro Aires Pinto. De Anne dos Cabelos Ruivos (Lucy Maud
Montgomery) a O Príncipe e o Pobre
(Mark Twain), passando por O Apelo da
Selva (Jack London) e As Minas de
Salomão (H. Rider Haggard), os doze primeiros títulos estão já definidos.
Se há razões que explicam a qualidade perene e
universal de um romance de aventuras publicado em 1883, talvez uma delas se
prenda à pulsão lúdica própria do ser humano, ao seu desejo de ensaiar e
repetir o jogo, instituído como um fim em si mesmo e, por isso, livre de regras
e de retórica. No fundo, a pirataria. Sobre um género em voga no seu tempo,
Robert Louis Stevenson aplicou o estilo de narrar enérgico e expressivo, sempre
comprometido com a ação, sem maneirismos e moralismos de época. Ao mesmo tempo,
divertia-se (é lícito pensá-lo) a construir personagens dotadas de tal graça e
manha que não desdenharíamos conhecê-las. É reconfortante saber que boa parte
delas foram inspiradas em amigos e conhecidos do próprio autor.
Obedecendo à sua moral peculiar, Stevenson, um
cavalheiro escocês que sempre gostou das más companhias, fará os possíveis para
nos confundir, juntando no mesmo barco aparentes virtuosos como doutor Livesey
e requintados sacanas como Long John Silver. Chegaremos a decifrá-los?
Ganharemos a compreensão profunda destes personagens, das suas motivações e
comportamentos? Todo o romance é um jogo de escondidas, e o pacto estabelecido
com o leitor de A Ilha do Tesouro –
seja adolescente curioso ou adulto nostálgico – não ficará completo sem que
este se atreva a perder, porque saber perder também é uma das finalidades do
jogo. Nada de grave: os derrotados dão boas histórias.
A Ilha
do Tesouro
R.L. Stevenson
Civilização Editora
domingo, 21 de junho de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 12
«Uma coisa, logo que conhecida, jamais poderá ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E, na medida em que domina o tempo, enquanto puder ser lembrada, indicará o futuro. É mais prudente, sejam quais forem as circunstâncias, esquecer, cultivar a arte de esquecer. Lembrar é defrontar o inimigo. A verdade jaz na lembrança.»
Anita Brookner, Olhem Para Mim, Teorema, 1988, tradução de Paula Reis. Originalmente publicado em 1983.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
RATING MÁXIMO
Não é um «triplo A», mas um «quádruplo A», esta segunda leva da colecção Grandes Vidas Portuguesas, uma edição conjunta da Pato Lógico/Imprensa-Nacional Casa da Moeda. Dá-se a coincidência de todos os biografados partilharem a letra A no nome com que ficaram para a História. Por ordem, na imagem: Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian; Alfredo Keil, artista e compositor do hino nacional; Aristides de Sousa Mendes, o diplomata que salvou milhares de vidas do regime nazi; e Ana de Castro Osório, escritora, editora, feminista, republicana e unanimemente considerada «a mãe da literatura infantil». A colecção foi apresentada por Henrique Cayatte no passado domingo, durante a Feira do Livro de Lisboa, com a presença dos quatro escritores: António Torrado, José Jorge Letria, José Fanha e moi-même. Faltaram os ilustradores, que fizeram um trabalho primososo. Também por ordem: Susa Monteiro, Susana Carvalhinhos, Alex Gozblau e Marta Monteiro. Venham mais quatro.
domingo, 14 de junho de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 11
«Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira, o mundo transformou-se.»
Julian Barnes, Os Níveis da Vida, Quetzal, 2013, tradução de Helena Cardoso. Originalmente publicado em 2013.
sábado, 13 de junho de 2015
VIDAS PORTUGUESAS
Azeredo Perdigão, Alfredo Keil, Aristides de Sousa Mendes e Ana de Castro Osório. Mais quatro biografias para a colecção Grandes Vidas Portuguesas (Pato Lógico/INCM) e a minha segunda parceria deste ano com a ilustradora Marta Monteiro, depois do Amores de Família (Caminho). Amanhã, 14 de Junho, os autores reunem-se na Feira do Livro (Auditório da APEL, 16h00) para um debate moderado por Henrique Cayatte. Será que as biografias ainda são importantes na formação de novos leitores? É disso que vamos falar. E é o último dia da feira. Apareçam!
sexta-feira, 5 de junho de 2015
OUTROS AMORES DE FAMÍLIA
Em Junho de 2005, chegava ao fim uma das melhores séries de televisão de sempre: Sete Palmos de Terra. Obra-prima do argumentista, produtor e realizador norte-americano Alan Ball, ao longo de cinco temporadas tratou de tudo o que há entre a vida e a morte, criando um espaço simbólico onde os mortos falavam com os vivos, sem sustos, sem surpresas, como se fosse natural conversarmos todos sobre as nossas culpas, os nossos medos e ressentimentos (e que algum alívio, às vezes, pudesse resultar dessas conversas). A história da família Fisher é também a nossa História: o antes e o depois da Guerra do Iraque, o 11 de Setembro e a antevisão dos tempos sombrios que nos esperavam, com piscadelas de olho ao colapso financeiro iminente (George é uma espécie de Cassandra) e à queda da classe média. Julgo que nas séries feitas agora, a maior parte delas versando psicopatas, não seria possível um final épico como este: Claire a conduzir o automóvel por uma longa estrada onde há luz e poeira, Claire a conduzir-nos pelos caminhos da incerteza com um sorriso de esperança, apesar de tudo.
Dez anos volvidos sobre Sete Palmos de Terra, o Público fez um excelente trabalho jornalístico multimédia em que, entre outras abordagens, entrevistou 13 grandes fãs da série. Aceitei. Foi um privilégio. Está aqui.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
DE VOLTA À FEIRA DO LIVRO
Ainda a propósito do post de ontem, deixo a programação da Pato Lógico e Orfeu Negro (ambas no stand A42) para esta Feira do Livro de Lisboa. No último dia, a colecção Grandes Vidas Portuguesas será o pretexto de um debate com os autores António Torrado, José Jorge Letria, José Fanha e moi-même. «A importância da biografia literária na formação de novos leitores» será moderado pelo designer e ilustrador Henrique Cayatte. Dia 14 de Junho, domingo, às 16h30, no auditório da APEL. Cliquem na imagem para ler melhor.
terça-feira, 2 de junho de 2015
E VÃO OITO
No mesmo dia em que estive com a Marta Monteiro na Feira do Livro de Lisboa, para o lançamento do Amores de Família, chegava ao Stand A 42 a nossa primeira produção conjunta: a biografia de Ana de Castro Osório para a colecção Grandes Vidas Portuguesas, nascida da parceria entre a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e a editora Pato Lógico. Não é a primeira biografia que escrevo (há outra na gaveta), mas gostei muito de pesquisar sobre a vida e a obra de uma mulher tão versátil, que deixou a sua marca na literatura infantil portuguesa e não só: foi editora de Camilo Pessanha (Clepsidra) e uma figura proeminente na luta pelos direitos das mulheres e pelo sufrágio universal. Escrevi um breve post no Verão passado, quando estava mergulhada no assunto. Por razões de calendário, o livro acabou por só sair agora, a fazer pendant (galicismo dispensável) com o Amores de Família e indo juntar-se aos outros sete que estão no lado direito do Jardim Assombrado.
domingo, 31 de maio de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 10
«Os escritores que engendram histórias sobre outros escritores, não há quem o não saiba, arriscam-se a trazer à luz do dia a pior espécie de literatura. Inicia-se uma narrativa pela frase: "Craig esmagou o cigarro no cinzeiro e dirigiu-se à máquina de escrever", e não haverá um único editor nos Estados Unidos que sinta o desejo de ler a frase seguinte.
Não se aflijam: garanto-vos que o que se vai seguir é uma simples narrativa de ficção, talvez um tanto insensata, acerca de um motorista de táxi, de um astro de cinema e de um psicólogo de crianças. Mas, pelo menos durante um instante, tereis de ter paciência, pois também irá aparecer em cena um escritor. Não lhe vou chamar Craig, e posso garantir-vos que não será a única pessoa sensível entre todas as personagens, mas iremos encontrá-lo ao longo desta narrativa e é preferível que contem com ele, como criatura desairosa e embaraçante, dado que assim são, quase sempre, os escritores, quer na ficção, quer na vida.»
Richard Yates, Construtores, in Onze Tipos de Solidão, Livraria Bertrand, s/ data, tradução de Bertha Lopes. Originalmente publicado em 1962.
sábado, 30 de maio de 2015
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 9
«Sou americano, nascido em Chicago - Chicago, aquela cidade sombria -, e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre. Vou, portanto, fazer o relato à minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; às vezes uma pancada inocente, outras nem tanto. Mas o carácter de um homem é o seu destino, diz Heraclito, e no fundo não há forma de disfarçar a natureza das pancadas, nem fazendo um tratamento acústico na porta nem cobrindo os nós dos dedos com uma luva.
Toda a gente sabe que não existe primor nem exactidão na supressão; quando se corta uma coisa, acaba-se por amputar o que está ao lado.»
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, Quetzal, 2010, tradução de Salvato Telles de Menezes. Originalmente publicado em 1953.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
ALICE JÁ NÃO MORA AQUI
Tinha de partilhar aqui esta fotografia, eu que não percebo nada de fotografia. Porque foi distinguida num concurso da Gulbenkian, A Terra Como um Jardim (Prémio do Júri), e sobretudo porque é da autoria de um amigo chamado Fernando Lopes dos Reis, que umas vezes tratávamos por Paulo e outras por Fernandinho (esqueçam a lógica). Não é fotógrafo profissional, não vale a pena googlar. Conheço-o desde o tempo em que comprávamos singles e LPs em vinil e tínhamos o gozo de ler e decorar as letras das canções, dando graças quando estas apareciam no interior do disco. Portanto, estão a ver os séculos... Não percebo nada de fotografia e não me atrevo a comentar a luz e o enquadramento e por aí fora, mas sei que quem olha assim para as árvores vê além do visível e é sempre isso que me interessa; é sempre isso que distingue um olhar poético de um olhar concreto e banal. Os anos vão passando e começo a reparar nas pessoas da minha geração que se salvaram da morte por suicídio, overdose e doenças várias, todas elas estúpidas e demasiado rápidas. Se me dissessem que iria escrever isto há 30 anos, diria que estavam malucos, mas os anos passam e uma pessoa aprende a dar valor a certas coisas, se não for arrogante ou autista de todo. Enfim, que grande relambório só para dizer que estou orgulhosa por ter esta foto no meu Jardim Assombrado (fica a matar, na verdade), com a devida permissão do autor: Fernando, Fernandinho, Paulo Reis, Sonic Vessel ou o que ele quiser. A foto tem um título: Alice Já Não Mora Aqui, como o filme do Martin Scorcese que todos nós vimos, os da geração do vinil. E ainda que o disfarcemos, estamos sempre à procura uns dos outros, nas nossas moradas frequentemente extraviadas, perdidas, incompletas, rasuradas. Estamos sempre à procura uns dos outros e ficamos contentes quando, por acaso, nos encontramos no abraço de uma árvore.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
CONVITE
Começa hoje a Feira do Livro de Lisboa, para durar até 14 de Junho. E é já neste primeiro fim-de-semana - domingo, 31 de Maio, às 18h30, na Praça Leya - que acontece o lançamento do Amores de Família, meu recente livro para a Caminho A apresentação será feita pela jornalista e directora da revista Pais & Filhos, Helena Gatinho, a quem muito agradeço, e lá estarei com a Marta Monteiro, autora das lindíssimas ilustrações que podem ver no convite. Se não forem à praia nem ao Estádio do Jamor, apareçam, porque a conversa vai ser boa.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
DOIS REBELDES
Quase ao mesmo tempo, a editora Relógio d'Água fez sair dois novos títulos da colecção Universos Mágicos. De Mark Twain, Viagens de Tom Sawyer (Tom Sawyer Abroad), uma das sequelas de As Aventuras de Tom Sawyer, já publicado na mesma colecção. E com uma nova tradução de Alexandre Pastor (directamente da língua sueca, incluindo algumas notas úteis), surge também Pippi das Meias Altas, de Astrid Lindgren, obra publicada originalmente em 1945 e já então motivo de controvérsia. De facto, entre as personagens femininas mais subversivas da literatura infantojuvenil, desde Alice às meninas mal comportadas dos álbuns de Babette Cole, é difícil encontrar quem manifeste tanta indiferença pelas instituições sociais, a par de um sentido elementar de justiça e liberdade individual. Uma espécie de anarquista, portanto.
terça-feira, 26 de maio de 2015
COM O TEMPO: PRÉMIO SPA/RTP 2015
Confesso que é um dos meus álbuns preferidos do catálogo Tangerina, pela inteligência com que palavras e imagens se conjugam para explicar um tema tão difícil de materializar. Com o Tempo, de Isabel Minhós Martins (texto) e Madalena Matoso (ilustração), foi o vencedor dos prémios da Sociedade Portuguesa de Autores/RTP, entre os nomeados deste ano para Melhor Livro Infantojuvenil. O Planeta Tangerina bisou com a representação de Supergigante, de Ana Pessoa (texto) e Bernardo Carvalho (ilustração), e a Orfeu Negro voltou à liça com Hoje Sinto-me, de Madalena Moniz (texto e ilustração). Parabéns a todos!
ERA UMA VEZ UM RAPAZ
«Um artista tem sempre os olhos postos na sua infância», disse Tonino Guerra (1920-2012), poeta, escritor e argumentista, numa entrevista à Pública. Já a tinha citado num post dos primórdios do Jardim Assombrado, Caminhos da Infância. Recordei-a a propósito de José Fanha e de Era Uma Vez Eu (Booksmile), um livro feito de pequenas histórias que transmitem as emoções de uma criança perante os segredos, as estranhezas e as interrogações do mundo à sua volta. Por exemplo, sentir-se protegido debaixo da mesa da sala de jantar, acreditar que a mítica carrinha itinerante da Gulbenkian pertencia a uma tal Senhora Dona Gulbenkian ou que havia (e há!) um lago cheio de plantas carnívoras lá para os lados do Largo da Luz. Se não acreditam, vão lá ver.
O lançamento de Era Uma Vez Eu é hoje, às 18h30, no Piso 7 do El Corte Inglés (Lisboa), com apresentação de Eduardo Sá.
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