terça-feira, 12 de abril de 2016
FESTIVAL LITERÁRIO DA MADEIRA
«Todas as crianças do mundo devem ser concebidas como seres para ler.» É esta frase de Lídia Jorge, escritora homenageada na 6ª edição do Festival Literário da Madeira, que dá o mote para a primeira conversa de hoje. Lá estarei. Até breve! Programa completo e participantes aqui.
domingo, 10 de abril de 2016
UM AMIGO É O IRMÃO QUE ESCOLHEMOS
«Um amigo é como aquela árvore: vive da sua inutilidade. A nossa espiritualidade tem também de ser inútil, para ser mais do que um momento, mais do que uma necessidade, para persistir, para acolher a dança do eterno. Não é raro que a necessidade envenene a nossa relação com Deus. Ora, o amigo não é o necessário: é o eleito, o gratuito. Com razão dizemos: "Um amigo é o irmão que escolhemos." Eu escolho, eu sinto-me escolhido: trânsito do gratuito sem porquês.»
(José Tolentino Mendonça, Nenhum Caminho será Longo - Para uma teologia da amizade, ed. Paulinas, 2012.)
sexta-feira, 8 de abril de 2016
III ENCONTRO DE LITERATURA PARA A INFÂNCIA
«Com o terceiro encontro de literatura para a infância, subordinado ao tema A natureza dos/nos livros, pretende-se explorar uma dupla dimensão que aliará as características intrínsecas dos livros e da literatura às pontes que permitem que a educação ambiental e a criação literária se entrecruzem e se fortaleçam mutuamente. Deste modo, Literatura e Natureza abrem caminhos de fruição do objeto livro e de situações de leitura, de construção de conhecimento e de sensibilização ambiental.»
(Programa, cartaz, inscrições e tudo o que é preciso saber aqui.)
sexta-feira, 1 de abril de 2016
MAUVAIS SANG
Prisioneiros do risco e da tragédia, os piratas cultivam uma exuberância festiva, que no caso de James Gancho se associa ao porte de grand seigneur. Filho indesejado, cativo de um passado misterioso, «revelar quem ele era de facto poria ainda hoje o país a ferro e fogo», insinua J.M. Barrie no texto original de Peter Pan. Essa identidade reprimida mostra-se nos «olhos cor de miosótis e de uma profunda melancolia», um dos seus estados de alma constantes. O próprio autor diz que «o homem não era totalmente mau», embora procedesse como um canalha a maior parte das vezes. Prepotente com a tripulação do Jolly Roger, sádico com as vítimas, capaz de mentir e enganar sem escrúpulos, Gancho é um caso evidente de personalidade anti-social. A educação no colégio interno de Eton não lhe terá feito muito bem. Afinal, talvez seja o mais perdido dos lost boys, fugindo do tic-tac do crocodilo até à hora fatal. Não choremos por ele, já que morreu como um pirata: a rir-se dos seus tormentos.
terça-feira, 29 de março de 2016
HÁ LOBOS EM NELAS
«Irmão Lobo é um livro que tanto nos transmite felicidade como tristeza. É um livro "delicioso", principalmente pela maneira como a personagem principal, Bolota, e o seu pai, Alce Negro, falam entre si e vivem no seu mundo imaginário e de fantasia.» (Francisca Oliveira, 9º C)
«O pai, Alce Negro, vivia no mundo da fantasia e "ensinava" a filha a fazer o mesmo. Esta atitude fez-me reflectir, pois não sei até que ponto é correcto mostrar aos filhos que a vida é "um mar de rosas".» (Alícia Santos, 9º C)
«A meu ver, este é um livro que consegue, através de uma simplicidade e de uma inocência tremendas, fazer pensar nos problemas da vida. Gostei muito de o ler.» (Raul Sofia, 9º D)
«Senti-me cativada pela personagem Bolota, a narradora que me "obrigou" a mergulhar, do ponto de vista de uma criança, no bulício emocional da crise em que vivemos.» (Filomena Oliveira, 9º D)
«Não tenho palavras para descrever o meu sentimento ao ler este livro... Simplesmente fabuloso! Um livro que provoca, realmente, um pouco de ansiedade, esperança, alegria e até tristeza.» (Isabela Neves, 9º D)
«A meu ver, é daquelas obras que ficam para a vida. É daquelas obras que nos dá uma lição, uma lição para não imitar nem repetir.» (Raquel Costa, 9º C)
«Altamente recomendável para jovens e adultos!» (Professora Irene Santos)
(Excertos de algumas leituras interpretativas dos alunos da Escola Secundária de Nelas, que, em conjunto com os professores, desenvolveram um trabalho notável à volta do Irmão Lobo. Fiquei muito comovida por saber que o meu livro tocou tanta gente. Obrigada!)
A reportagem fotográfica da visita à escola pode ser vista aqui. As fotos são de Bruno Cardina, que também assinou o making of e alguns momentos do Concurso de Oratória - Texto puxa Palavra, realizado a 26 de Fevereiro, na Fundação Lapa do Lobo. Aqui.
sábado, 26 de março de 2016
DE PROFUNDIS
No conjunto da obra de David Almond que tem
sido vertida para português, Uma Criatura
Feita de Mar está mais tematicamente próximo de Que Monstros Fabricamos? (Livros Horizonte) do que O Rapaz que Nadava com as Piranhas
(Presença), mas destaca-se por dois motivos: é um livro de contos, género no
qual se estreou, em 1985, dirigindo-se ao público adulto; cada conto é
antecedido por um texto evocativo das experiências de infância que estão
subjacentes à ficção. Para os leitores habituais de Almond, algumas coisas
ficarão explicadas; para quem nunca o leu, poderá ser o princípio de uma surpreendente
dependência.
Dizer que Almond escreve como ninguém é uma
banalidade (mal estamos quando as imitações são evidentes), tratando-se de um
autor que acumulou prémios e louvores da crítica até chegar, em 2010, ao
ambicionado Prémio Hans Christian Andersen, o «Nobel da escrita para os mais
novos». Contrariaram-se as vozes de Cassandra que, um dia, o advertiram: «Mas
tu não passas de um miúdo vulgar. E vens da pequena e vulgar cidade de Felling.
Sobre que raio irás tu escrever?»
Precisamente: escrever sobre a pequena e vulgar
cidade de Felling, no norte de Inglaterra; sobre as suas casas de tijolo
vulgares, os seus habitantes vulgares, os seus dramas vulgares. No primeiro
conto, «O pai do Slog», há um miúdo que vê o pai morto num visitante ocasional,
um provável sem-abrigo. «A May Malone», de quem se dizia ter um filho-monstro
escondido, explora o tema do preconceito e do medo das diferenças, abrindo «as
portas da percepção» ao protagonista (as alusões a William Blake são assumidas).
«O poltergeist do Joe Quinn» trava-se no encontro de uma mãe hippie com um padre pouco convencido do
etéreo. Nunca temos a certeza do verdadeiro e do falso.
O que faz de David Almond um autor genial não
é só a elegância da linguagem, profunda e fluída como um rio subterrâneo, mas a
demonstração implacável de uma certa verdade que só existe na literatura: «É o
que tem de estranho esta coisa de escrever histórias – inclui-se algo
imaginário para tornar a coisa mais real.»
Uma
Criatura Feita de Mar
David Almond
Presença
quarta-feira, 23 de março de 2016
DEUSES E DEUSAS EM VALE DE CAMBRA
Nas últimas semanas, O Jardim Assombrado tem sofrido interrupções súbitas, algumas mais prolongadas do que outras. Que me desculpem os passeantes habituais e ocasionais, mas tenho sucumbido ao excesso de trabalho, por um lado; e aproveitado todas as oportunidades para sair de Lisboa, por outro... Foi uma maravilha a ida à Biblioteca do Centro Escolar do Búzio, em Vale de Cambra, uma pequena cidade entre Porto e Aveiro. Durante dois dias, pude conhecer dezenas das mais de 700 crianças do agrupamento (do 3º, 4º e 5º ano), que, em conjunto com os professores, desenvolveram um trabalho excelente à volta dos meus cinco livros para a Caminho, com momentos de dramatização, música, dança, cantigas, leitura, escrita, desenhos e tantas coisas que mostraram muita criatividade, originalidade e sensibilidade. Fiquei especialmente contente por terem escolhido o Amores de Família e vestido a pele dos deuses e deusas do Olimpo, como se pode ver pelas fotos. Há mais aqui, no blogue Biblio Búzio, e também nesta reportagem fotográfica completíssima. Obrigada a todos, foi mesmo fantástico!
segunda-feira, 21 de março de 2016
OS QUATRO ELEMENTOS
Desde a publicação de O Gato de Uppsala (Sextante, 2009), Cristina Carvalho construiu um
percurso literário pouco conforme às fronteiras etárias; ao mesmo tempo que
conseguiu, por portas travessas, alcançar um público adolescente difícil de
determinar e ainda mais de manter. Dizemos «por portas travessas» porque esse
percurso se nos afigura livre de intenções e fórmulas já testadas, o que faz
com que cada livro seu seja diferente dos anteriores, embora bebendo da mesma
fonte. Emotiva, sinestésica, cantante, a escrita de Cristina Carvalho ganha
quando sustentada por uma estrutura e coesão narrativas que dão forma a essa
predisposição lírica imanente à sua originalidade enquanto autora.
Noblesse
oblige, o tema da coincidência dos opostos, tão caro a
Hans Christian Andersen e aos escritores românticos, sempre rondando este
imaginário, manifesta-se uma vez mais em Quatro
Cantos do Mundo. Se o anterior Lusco-Fusco
(Porto Editora, 2011) se concentrava no mundo invisível dos seres elementais, agora
o olhar surge ampliado à escala dos continentes e oceanos, tendo como
protagonistas quatro verdadeiros heróis: Roald Amundsen, o conquistador dos Polos;
David Livingstone, explorador da África central e austral; David Attenborough, o
homem que tão bem nos comunicou a Natureza; e Jacques-Yves Cousteau, o
descobridor das inquietantes paisagens submersas.
Assumindo em nota prévia a homenagem aos seus
heróis, Cristina Carvalho inventou quatro contos que guardam em comum o sentido
do transcendente, a exaltação da natureza, a demanda da sobrevivência e a
partilha familiar e comunitária. «Vidas brancas», o primeiro, tem como personagem
principal um pequeno esquimó, comedor de carne crua, que salva uma cria de foca
durante a caçada. Do deserto de gelo para o sol incandescente, «A noite é o
lugar mais tranquilo do mundo» é um conto enigmático e introspectivo, à
semelhança do beduíno de vestes negras que o atravessa. Num registo mais
documental do que os anteriores, «Casa verde» narra a vida na selva, escolhendo
uma menina como protagonista. «Viajando sob o azul intenso das águas» regressa
ao tom efabulatório inicial e ao diálogo entre as espécies, desta vez com um
golfinho, símbolo da ligação do homem com o divino. Com as últimas palavras do
conto, fecha-se o círculo da quadratura: «Agora eu estava, realmente,
acordado.»
Quatro
Cantos do Mundo
Cristina Carvalho
Ilustrações de Manuel San Payo
Planeta
quinta-feira, 10 de março de 2016
PRINCESAS
Toda a árvore é um microcosmos singular
debruçado sobre o mundo. Dos capilares subterrâneos até ao ramo mais alto,
formas transitórias de vida passam por ela buscando abrigo e alimento. Os
coalas adoram eucaliptos, embora os eucaliptos não gostem de outras árvores à volta.
O carvalho-comum, mais generoso, cresce rodeado pelos seus parentes próximos: o
carvalho-negral, a azinheira e o sobreiro, espécies abundantes na Península
Ibérica. O espírito da floresta manifesta-se também nas comunidades de
sequóias, árvores que assistiram à aventura humana dos últimos três mil anos,
tal como as oliveiras, os embondeiros e os cedros-do-líbano.
Nenhum de nós se lembra, mas houve um tempo em
que as florestas cobriam cerca de metade da superfície da Terra, fervilhantes
de vida. Chegámos ao século XXI com apenas um quinto desse património agora
irrecuperável. A profecia de Macbeth cumpriu-se, mas ao contrário. Preso à
obsessão de se tornar rei, Macbeth repudiou os avisos das três feiticeiras e
duvidou de que algum dia a floresta de Birnan pudesse avançar sobre o castelo.
Mas o inimigo camuflou-se com ramagens e escalou a colina, pondo fim à ambição.
A diferença fundamental é que os soldados de outrora são coisa pouca se
comparados com os atuais exércitos de serras e escavadoras mecânicas. É por
isso que a flor-do-paraíso, originária de Madagáscar, vê as suas flores rubras
extinguirem-se num confronto desigual, como se a própria ideia de paraíso já
não fosse possível entre os homens.
Este livro é belo porque é importante – e é
importante porque é belo. Significa um passeio imóvel por entre 57 árvores e
arbustos de todo o mundo; uma caminhada que se faz admirando as ilustrações
naturalistas de Emanuelle Tchoukriel, traçadas a rotring e aguarelas, detalhando
texturas, cores e escalas. O texto de Virginie Aladjidi convoca o leitor para as
múltiplas dimensões da árvore, um arquétipo de autonomia que não encontra
paralelo no Mundo Animal: nasce, cresce e reproduz-se sem se mexer do seu
lugar. Quando morre, é como se adormecesse em casa. Essa dignidade solitária
que é comum a todas as árvores explica o conhecido aforismo: «as árvores morrem
de pé». Isto, claro, se as deixarmos viver. Comecemos por tratá-las pelo nome
próprio.
Inventário
das Árvores
Virginie Aladjidi
Emanuelle Tchoukriel (ilustr.)
Kalandraka
quarta-feira, 9 de março de 2016
AUGÚRIOS
«Jacinto era um bom contador de histórias. A
sua voz equilibrava-se entre a serenidade e a fúria.» As primeiras três linhas
de O Último Conto fazem jus a um dos
títulos de Maria Gabriela Llansol, segundo a qual «o começo de um livro é
precioso». Assim é também para o contador de histórias, cuja voz ressoa nas
paredes míticas da casa do mundo. O seu trabalho consiste em amalgamar
memórias, explicações, augúrios, sonhos e rituais. É um nómada da palavra dita.
Onde quer que pare, a viagem começa.
No caso, Jacinto «gostava de contar histórias
debaixo de uma árvore, apoiando a perna sobre um caixote». Os habitantes do
bairro convergiam para aquele lugar, as casas inclinavam-se para o ouvir
melhor. «Não conseguíamos resistir à tentação de viver, por alguns minutos, o
tempo infinito da fantasia.» Ninguém acreditava que o encantamento se quebrasse,
mas chegou um dia em que a voz de Jacinto deixou de se ouvir. Tinha desaparecido
no olhar de alguém que escutava, e todos o viram «dar um passo em direção
àquele mistério». O ar encheu-se de presságios perante o que estava para
acontecer. «Permanecemos em silêncio até que o estrondo de um avião nos
dispersou.»
Lançado em edição simultânea no México, Brasil
e Portugal, O Último Conto é o
segundo livro de Rodolfo Castro (Argentina, 1963) publicado na Gatafunho,
depois de A Intenção Leitora, a Intenção
Narrativa, sobre a sua experiência de contador de histórias, a viver há
três anos e meio em Portugal. É um picture book com marcas de novela gráfica,
em que o trabalho do ilustrador Enrique Torralba (México, 1969), com nítidas influências
de Shaun Tan, nos remete para um universo onírico mas inquietantemente próximo.
Um pequeno tesouro.
O Último
Conto
Rodolfo Castro
Enrique Torralba (ilustr.)
Gatafunho
domingo, 6 de março de 2016
THE WOMAN WHO LOVED THINGS
A woman finally learned how to love things, so things learned
how to love her too as she pressed herself to their shining sides,
their porous surfaces. She smoothed along walls until walls
smoothed along her too, a joy, a climax, this flesh
against plaster, the sweet suck of consenting molecules.
Sensitive men and women became followers, wrapping themselves
in violet, pasting her image over their fast hearts,
pressing against walls until walls came to appreciate
differences in molecules. This became a worship.
They became a love. A church. A cult. A way of being.
But, of course, it had to be: the woman's love kept growing
until she was loved by trees and appliances, from toasters
to natural obstacles, until her ceiling shook loose to send kisses,
sheets wound tight betwixt her legs, and floorboards broke free
of their nails, straining their lengths over her sleeping.
She awoke and drove out of town alone. In love, rocks flew
through her car windows, then whole hillsides slid, loosening
with desire. Her car shatttered its shaft to embrace her,
but she ran from the wreckage, calling all the sweet things
as she waited in a field of strangely complacent daisies.
She spoke of love until losing her breath, and the things
trilled to feel that loss too, at last, sighing in thingness.
She fell down, and the things fell down around her. She cried,
«Christ!» and the things cried «Christ!» in their things-hearts
until everything living and unliving wonderfully collided.
«The woman who loved things», de Cathleen Calbert, in The Best American Poetry - 1995
sexta-feira, 4 de março de 2016
NÁUFRAGOS
There was a king who commanded his subjects
to rebel against him,
upon penalty of death whether they obey or refused.
(Excerto do poema The Interior Prisoner, de Geoffrey O'Brien, nascido em 1948, New York. Pintura a óleo de Howard Pyle, nascido em 1856, em Wilmington, Delaware, EUA. Representa uma prática muito comum na navegação: o abandono de marinheiros amotinados em ilhas ou bancos de areia, tendo como recursos apenas algumas provisões, um cantil de água e uma pistola carregada de pólvora para facilitar o suicídio rápido. Esta punição implacável foi designada por «marooning» . Ben Gunn, o marinheiro enlouquecido de A Ilha do Tesouro, é um dos raros casos de sobrevivência, ainda que ficcional. Actualmente, o «marooning» subsiste de formas mais subtis mas não menos insidiosas, como a privação da esperança nas gerações mais jovens ou a crença na condenação a uma vida árida e solitária.)
quinta-feira, 3 de março de 2016
NOSTALGIA
A história de O Regresso começou por um pequeno filme animado de Natalia
Chernysheva, autora russa que se estreia na Bruaá em resposta ao desafio de
passar as imagens para o papel. Não é primeira nem a segunda vez que a editora
de Miguel Gouveia convida escritores e/ou ilustradores estrangeiros a produzirem
trabalhos originais para o seu catálogo: aconteceu com Lara Hawthorne (Herberto) e Davide Cali (Arturo, A Rainha das Rãs Não Pode Molhar os Pés), por exemplo. Outras
vezes, tratou-se de recuperar textos esquecidos e marginais, para depois os
reinventar pela mão de ilustradores portugueses: casos de André da Loba (O Arenque Fumado) ou Gonçalo Viana (Esqueci-me Como se Chama).
Esta opção editorial não contradiz a presença
de autores consagrados (Shel Silverstein, Bruno Munari, Wolf Erlbruch), nem tão
pouco transformou o catálogo da Bruaá numa manta de retalhos, desde a sua promissora
estreia em 2008. É antes uma declaração de princípios – de qualidade e de
originalidade – que faz jus ao estatuto de «editora independente» e que valoriza
a obra do autor (o autor e não o seu invólucro), independentemente da sua
nacionalidade e outras baias. É por isso que uma boa parte dos livros da Bruaá
revertem para a categoria do «destinatário incerto», arriscando a comunicação
possível entre adultos e crianças no território das emoções e razões partilhadas.
O
Regresso inscreve-se coerentemente nesta linha e
explora um dos temas mais incomunicáveis: a nostalgia da infância. É um longo travelling que parte do espaço caótico
da cidade em direção ao campo e ao lugar da casa mítica, a datcha onde a avó espera a neta, ao lado de uma árvore carregada
maçãs vermelhas. Explorando a alteração de formas e perspectivas, planos picados
e contra-picados, pormenores sinestésicos de cor aplicados na depuração das
linhas a preto e branco, a autora coloca-nos diante da inequívoca felicidade do
reencontro. O Regresso conduz-nos a
casa, a essa mesma «casinfância» do poema de Herberto Helder: «Eu metia as mãos
na água: adormecia, relembrava.» É isso mesmo.
O
Regresso
Natalia Chernysheva
Bruaá
quarta-feira, 2 de março de 2016
VER O MUNDO NUM GRÃO DE AREIA
Lançado em 1995 e premiado
como melhor livro infantil do ano pelo New
York Times e Publisher’s Weekly, Zoom, de Istvan Banyai (Budapeste,
1949), é uma viagem pelo mundo às suas múltiplas escalas, cada ilustração
esclarecendo a anterior, numa progressão geográfica e espacial que se desvela na
ampliação do pormenor. No corpo humano existem cinco vezes mais células do que
estrelas na nossa galáxia. Como pensar esta ideia sem experimentar uma sensação
de vertigem? Zoom causa-nos um efeito
semelhante.
Sem texto narrativo, o
percurso é governado pela imagem: desenhos de cores vivas e linhas bem
definidas, remetendo para a matriz da banda desenhada e do cartoon. Tratada graficamente
(um anúncio, uma carta, um selo...), a palavra é apenas usada com um duplo
intuito: situar o leitor num itinerário concreto, de uma avenida de Nova Iorque
até uma praia nas Ilhas Salomão; e providenciar pistas para a compreensão da imagem
seguinte.
Elemento decisivo, sem o
qual se poderia ter caído num exercício de estilo, é a reserva de subjetividade
e estranheza permitida ao leitor. O adolescente que dormita à beira da piscina,
estará doente ou entediado? O ranchero
no deserto do Arizona olha para o televisor ou para a paisagem? Quem escreve
desde a América ao chefe da tribo das Ilhas Salomão? Tantas perguntas... Partir
da observação do mundo para uma visão unificadora da realidade é algo que tem
ocupado místicos, filósofos e artistas; e podemos dizer que neste livro de
Istvan Banyai há um pouco dessas três demandas, tal como nos versos de William
Blake: «Ver o mundo num grão de areia/e um céu numa flor silvestre/ter o
infinito na palma da mão/e a eternidade num minuto.»
Zoom
Istvan Banyai
Kalandraka
terça-feira, 1 de março de 2016
MONSIEUR AVÔ
Com O
Meu Avô, Catarina Sobral demarcou-se da linha conceptual explorada nas duas
obras anteriores (Greve e Achimpa), centradas na linguagem e nas
variantes linguísticas, e passou para um registo humanizado que adopta um
personagem de forte ligação afectiva às crianças. Quer o título do livro quer a
figura adulta e esguia desenhada na capa, de guarda-chuva e meias às riscas,
remetem de imediato para O Meu Tio,
de Jacques Tati; homenagem inequívoca de uma autora que concilia a ilustração
com a escrita e o cinema de animação.
Não há dúvida de que este avô, um flâneur atento e sabedor das pequenas
grandes coisas, pertence à mesma família de Monsieur Hulot, quer na sua relação
com o neto quer com a vida. Ficamos a conhecê-lo pelas descrições textuais («o
meu avô nunca se lembra de ler as notícias», «acorda todos os dias à 6 da
manhã», «tem aulas de alemão e aulas de Pilates»), mas sobretudo pelo contraste
com outro personagem paralelo na narrativa, o Dr. Sebastião, cujo dia-a-dia
também acompanhamos.
No esquema de página dupla, Catarina Sobral
estabelece raccords brilhantes entre
as ilustrações, criando efeitos de continuidade visual e, ao mesmo tempo, de
total divergência significante. Assim, enquanto o Dr. Sebastião faz equilíbrio
com pilhas de papéis e dossiês, o Avô exercita um movimento idêntico na aula de
Pilates. Enquanto um aquece o almoço no micro-ondas, o outro faz piqueniques
durante a semana, acompanhado pelo neto e por amigos. Esta imagem é uma
recriação da paz bucólica de Le déjeuner
sur l’herbre, de Manet, uma das referências artísticas que Catarina Sobral
gosta de trazer para os seus livros. Mas há outras: Chaplin, Almada, Pessoa.
Descobri-las faz parte do passeio.
Catarina Sobral
O Meu
Avô
Orfeu Negro
ASSOMBRAÇÕES
Nos últimos dias, um fantasma brincalhão entrou no Jardim Assombrado e deixou um rasto branco no último post sobre Ana Margarida de Carvalho. Com alguma habilidade e diplomacia consegui mandar embora o danadinho. Simpatizo com fantasmas, desde que respeitem a privacidade. Não sei para onde terá ido o dito cujo, mas a partir de agora pode morar nesta fotografia da casa assombrada que existe em Nelas (lindíssima, por sinal) e que é uma honra ter aqui no meu jardim.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
BRINCAR É UMA COISA MUITO SÉRIA
Uma versão vegetariana da Arca de Noé? Nem mais. Crianças e adultos, todos cabem na A Arca do É. Com texto de Ana Margarida de Carvalho e ilustrações de Sérgio Marques, foi recentemente editado pela Teorema. Na última edição da LER, fizemos três perguntas à escritora que venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, no registo meio-a-sério-meio-a-brincar das minientrevistas para o Scrapbook:
Como foi a experiência de escrever para crianças?
Óptima. Sobretudo trabalhar com o ilustrador Sérgio Marques, que é excelente e soube ler tão bem as minhas palavras e desenhá-las do outro lado do espelho, que é o do absurdo e do bizarro, do nonsense, do anacronismo, do disparate... É um livro para crianças e para adultos muito infantis; o que é obviamente um elogio. Porque eu nunca digo só um disparate ou «apenas» uma brincadeira. Brincar é uma coisa muito séria. Além disso, mesmo sem qualquer pretensão, é possível dizer-se que as histórias, até as bíblicas ou mitológicas, podem ter as versões que a gente quiser.
Conhece alguma receita de sopa que faça bem ao cérebro do leitor?
Bem, depois de atirar uma pedra para dentro do panelão, lançar também os grãos da imaginação de Carlos Queirós e rezar com ele, livrai-me também de quem me detém e graça não tem.
Três coisas a que diga «não» e três coisas a que diga «sim».
Não: Aníbal, Cavaco e Silva (bolas, já gastei as três). Sim: os meus filhos, os meus cães, os meus livros e amêijoas da Ria Formosa (fiz batota).
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
HANSEL E GRETEL: A COOPERAÇÃO INTELIGENTE
(...) Até hoje, não faltam versões truncadas, de remate feliz e singelo, em que os dois irmãos são acolhidos de braços abertos pelos progenitores, no retorno a casa. Nada mais falso. À parte o lado negro da história, provável reflexo da História com «agá» maiúsculo, quando a fome e o desespero podem conduzir ao impensável, Hansel e Gretel é também um caso em que os papéis tradicionais do masculino e do feminino se invertem, mudando o curso dos acontecimentos. Se Hansel é o pensador, o cérebro que congemina a estratégia de regresso a casa, primeiro com pedrinhas brancas e depois com migalhas de pão, Gretel é a executora da ação, protagonista do gesto decisivo de empurrar a bruxa para o forno em chamas. Aqui, a cooperação inteligente e astuciosa leva vantagem sobre a rivalidade bíblica entre irmãos. Morre a megera, libertam-se as crianças e enchem-se os bolsos de pedras preciosas e demais riquezas. A conquista da maturidade e uma carta de alforria, de uma só penada.
(Excerto do texto que escrevi para a LER nº 140, secção «Wendy no divã», desta vez com os irmãos Hansel e Gretel - um mais populares contos recolhidos pelos Grimm - como objecto de estudo psicológico.)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE INVESTIGADORES
De um dos núcleos de investigação mais activos na área do livro infantojuvenil, o Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, chega uma proposta a não perder, desde logo por ser de entrada livre e aberta ao público não especializado. Durante uma tarde, estarão em debate esses livros-que-não-são-bem-livros-mas-também-não-deixam-de-ser-livros, com comunicações várias, vindas de nomes amplamente creditados em Portugal e Espanha. «O livro-objecto no universo infantojuvenil: potencialidades criativas e propostas de leitura» decorre no dia 9 de Março e começa às 14h00, no Auditório Aldónio Gomes (sala 2.1.10). Cliquem na imagem para ler melhor.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE CONTOTERAPIA
«O poder terapêutico e performativo da palavra, a sua capacidade implícita de deslocar o leitor/ouvinte de um lugar interior para outro lugar (sempre no sentido ascendente, como bem notou Bruno Bettelheim na sua Psicanálise dos Contos de Fadas), depende muito da autenticidade e da adesão simbólica desse mesmo leitor/ouvinte, no momento e nas circunstâncias artificialmente recriadas onde a palavra do conto é retomada.» Escrevi este comentário depois de uma das mais importantes formações que já fiz, cujos efeitos ainda se repercutem: An International Seminar on Fairy-Tale Therapy, traduzido por Seminário Internacional sobre Contoterapia. Aconteceu em Março de 2015, no Hotel Tivoli, em Sintra, e se quiserem ter uma ideia do que foi podem ver aqui mais comentários, programa e fotografias. O êxito foi tão grande que seria estranho não se repetir, agora ainda com mais participantes e workshops. Eis a lista dos confirmados:
Rosie Strain, Arte-Psicoterapeuta & Contadora de Histórias, Reino Unido
Boaz and Vered Zur, Artes Expressivas da Irlanda
Susan McCullough, Conselheira Escolar & Contadora de Histórias, Alemanha
Olga Lipadatova, Psicoterapueta, Canadá
Michał Malinowski, Museu de Contos e Histórias, Polónia
Shai Karta Schwartz, Terapeuta de grupos e individuais e professor, Centro Baobab para Jovens Sobreviventes Exilados em Londres, Israel
Beatrice Bowles, Mestre em Artes Plásticas, Contadora de Histórias, Estados Unidos da América
Jill McWilliam and Gill Morton, Psicoterapeutas Educacionais, Londres, Reino Unido
Jacqueline Silva, Ludoterapeuta, Conselheira em Terapia Centrada na Pessoa, Instrutora e Supervisora para Terapia pelo Brincar e pelas Artes Criativas na LudoClínica, Portugal
Laura Simms, Contadora de Histórias, Escritora, Estados Unidos da América
Monica Carpendale, Diretora Executiva, Instituto de Arteterapia Kutenai, Canada
John L. Plews, Phd, Professor Associado de Línguas Modernas, Universidade de Saint Mary's, Halifax, Canada
O ideal é mesmo ficar em Sintra e usufruir de uma atmosfera única; mas, porque o ideal nem sempre é possível, podem só inscrever-se nos workshops do seminário, acrescentando (ou não) as sessões de storytelling. Todas as modalidades de inscrição e respectivos preços estão no site da Moonluza. Atenção: os lugares são limitados e já estão a acabar. Se puderem, não percam mesmo.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
ATELIER DE ILUSTRAÇÃO NA FJS
«A
Fundação José Saramago, com a colaboração do Instituto Cervantes, do
Museu de História Natural da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Belas
Artes de Lisboa e da Oficina do Cego, organiza no mês de fevereiro um
atelier de ilustração e edição, com a participação de Elena Odriozola,
Prémio Nacional de Iustração de Espanha 2015, e de Alejandro García
Schnetzer, editor e director de colecções na Libros del Zorro Rojo. O atelier decorrerá entre os dias 24 e 26 de fevereiro e é composto por três sessões, num total de dez horas.»
O atelier custa 35 € e é limitado a 15 participantes. Todas as informações na página da Fundação José Saramago. Aqui.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 3
Ontem, Linha Verde do Metropolitano de Lisboa. Carruagens semi-vazias, o ar ainda leve da manhã. Há uma senhora com um cão enrolado aos pés, lugares a toda a volta. Sento-me à frente dela, abro a mala, abro o livro.
- Está a gostar?, pergunta-me.
- Muito.
- Eu já vou no quarto volume, mas o terceiro é diferente de todos.
- Porquê? (pergunto por amabilidade, no fundo não quero saber a resposta)
- Não sei, é diferente...
A senhora tem olhos claros, cabelo alourado, veste-se para não impressionar. Não parece portuguesa. Ao lado dela, senta-se agora uma mulher mais nova, dos seus trinta e poucos. Diz:
- Ah, é a Ferrante. Também ando a ler.
O cão, um épagneul breton ainda cachorro (percebo pelas orelhas, sou zero quanto a caninos), mexe-se irrequieto, pede festas, atenção, sente-se aconchegado. Parece um cão feliz. Chama-se Luca.
- Todos os meus outros cães tinham nomes de pintores, mas este não, diz a senhora. As minhas sobrinhas começaram a chamar-lhe "Luc, Luc..". E ficou Luca.
- E teve mais?, pergunto.
- Sempre. Quando morreu o último, um labrador, disse para o meu marido que não queria mais cães... Aquilo dói. Dali a um mês já tínhamos este.
- Fez bem, há cães como nós. E como se chamava o outro?
- Dali. Como o Salvador Dali.
Esquecemos a Ferrante, as famílias a ferro e fogo, a violência doméstica, a escrita que põe o leitor a correr por cima das linhas como se estas fossem cordas esticadas até ao limite do insuportável. Falamos antes de animais.
Chegamos à estação do Martim Moniz. Desejo um bom dia às minhas companheiras de viagem e despeço-me:
- Vou sair aqui.
Quando a porta do metro se abre, ainda ouço a senhora perguntar à mulher mais nova:
- E está a gostar da Ferrante?
Não ouço a resposta. Saio como se entrasse numa qualquer irmandade. Saio acompanhada. Pressinto que vai ser um bom dia. E foi.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 2
Hoje,
ao final da tarde, na Linha Vermelha do Metropolitano de Lisboa. Um
senhor bem vestido, mas com um aspecto muito cansado e, talvez por isso,
parecendo mais velho do que na realidade seria, sentou-se no lugar vago
ao meu lado:
- Saldanha?! Então, mas eu acabei de entrar no Saldanha!...
- Não se preocupe, é a voz que não está a bater certo com as estações, também já tinha reparado...
- Ah, pronto! Uma pessoa já lhe falha a memória, e eles ainda tornam isto pior. Olhe, minha senhora, não sei para que lemos tantos livros... Eu li tanta coisa e não me serve para nada.
- Oh... Então porque é que diz isso? Os livros...
- Porque, se calhar, o único objectivo disto tudo é segurar a bola...
- A bola?... Ah, quer dizer, a Terra.
- Pois, a Terra, o globo...
- Então, mas os livros fazem a civilização...
- Se calhar! Mas foram eles que nos puseram cá, para segurarmos a bola.
- Eles, quem?
- Os extraterrestres, os alienígenas...
- Ah... talvez...
- Isto é tudo muito cansativo. Uma pessoa nasce e morre, e depois acabou-se. Uns atrás dos outros. Para que servem os livros?
- Servem para as pessoas que ficam depois de nós...
- Essas depois também morrem. Se começamos a pensar nisso, ficamos doentes. Isto não faz sentido nenhum. Somos todos robots nas mãos deles, estamos aqui só para segurar a bola!
- Não diga isso.... Então e a arte? Para que serve a arte?
- Olhe, serve para provar que eles já cá estiveram. Deixaram desenhos nas grutas para provar que já cá estiveram. E um dia talvez voltem para salvar a bola, porque nós não conseguimos tomar conta dela.
- ..... (silêncio)
- Há cada vez mais máquinas e robots para nos substituir. Qualquer dia inventam robots para limpar a casa, já pensou?
- Eu acho que já inventaram robots para limpar a casa...
- Ai sim? Olhe, então talvez eu seja um robot e esteja a aqui a ser controlado por alguém. Quem me diz a mim que eu não sou um robot? Adeus, minha senhora, muito gosto em falar consigo. Feliz Natal!
- Para o senhor também, Feliz Natal!
- Saldanha?! Então, mas eu acabei de entrar no Saldanha!...
- Não se preocupe, é a voz que não está a bater certo com as estações, também já tinha reparado...
- Ah, pronto! Uma pessoa já lhe falha a memória, e eles ainda tornam isto pior. Olhe, minha senhora, não sei para que lemos tantos livros... Eu li tanta coisa e não me serve para nada.
- Oh... Então porque é que diz isso? Os livros...
- Porque, se calhar, o único objectivo disto tudo é segurar a bola...
- A bola?... Ah, quer dizer, a Terra.
- Pois, a Terra, o globo...
- Então, mas os livros fazem a civilização...
- Se calhar! Mas foram eles que nos puseram cá, para segurarmos a bola.
- Eles, quem?
- Os extraterrestres, os alienígenas...
- Ah... talvez...
- Isto é tudo muito cansativo. Uma pessoa nasce e morre, e depois acabou-se. Uns atrás dos outros. Para que servem os livros?
- Servem para as pessoas que ficam depois de nós...
- Essas depois também morrem. Se começamos a pensar nisso, ficamos doentes. Isto não faz sentido nenhum. Somos todos robots nas mãos deles, estamos aqui só para segurar a bola!
- Não diga isso.... Então e a arte? Para que serve a arte?
- Olhe, serve para provar que eles já cá estiveram. Deixaram desenhos nas grutas para provar que já cá estiveram. E um dia talvez voltem para salvar a bola, porque nós não conseguimos tomar conta dela.
- ..... (silêncio)
- Há cada vez mais máquinas e robots para nos substituir. Qualquer dia inventam robots para limpar a casa, já pensou?
- Eu acho que já inventaram robots para limpar a casa...
- Ai sim? Olhe, então talvez eu seja um robot e esteja a aqui a ser controlado por alguém. Quem me diz a mim que eu não sou um robot? Adeus, minha senhora, muito gosto em falar consigo. Feliz Natal!
- Para o senhor também, Feliz Natal!
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 1
À porta do Vasco da Gama, em Lisboa, dois jornalistas interpelam quem passa, armados de microfone e câmera. Param uma senhora dos seus 60 anos, mala de rodinhas e ar apressado. Fica uns segundos a falar com eles e segue adiante, resmungando.
- Que queriam saber? – pergunto-lhe, na passadeira.
- O que é que eu achava de não sei quem ter saído da quinta!
- Ah... aqueles programas tipo...
- Se me perguntassem o que é que eu acho dos atentados de Paris e das pessoas que trabalham, eu sabia o que dizer, agora a quinta! Quero lá saber da quinta! Francamente! Que nojo de país, este!
Foi assim o encontro com a minha alma gémea de hoje. Amanhã há mais.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
ESCRITA E VULNERABILIDADE
O acto de escrever também reescreve o escritor e a sua vida. Numa palavra: transforma-o. A menos que a escrita seja coisa anódina, exercício de estilo ou construção artificial, é impossível escrever com sinceridade sem nos tornarmos cada vez mais vulneráveis. Não quero dizer «sensíveis», porque todos somos mais ou menos sensíveis. Mas nem todos temos a intenção de nos tornarmos vulneráveis, com tudo o que de assombroso e assustador implica esse estado de porosidade ao mundo. É muito difícil separar as águas e dizer «isto é a vida e isto é a literatura», porque a contaminação é inevitável, mesmo insidiosa. Escrever pode baixar tremendamente o sistema imunitário e, com isso, originar livros sublimes: livros belos, terríveis e profundos. Livros que nos atravessam como um nevoeiro e nos fazem chegar à última página com as mãos molhadas e um arrepio no corpo todo. Ler também pede que nos tornemos vulneráveis, mas podemos sair airosamente. A vulnerabilidade que a escrita exige não é algo a que se possa escapar com o mesmo grau de conforto e desprendimento. No entanto, é ao tornar-se vulnerável que o escritor pode chegar a curar pela palavra. Para mim, esse é que é o Graal.
(Na imagem: Flannery O'Connor. Retirada daqui.)
domingo, 31 de janeiro de 2016
FLORESTAS DE SÍMBOLOS
Também para mim foi surpreendente - e gratificante - encontrar «ecos» do Onde Moram as Casas (ed. Caminho) numa passagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Guiada pelo instinto único que existe em cada bicho-leitor, a Andreia Brites detectou-os e explicou porquê no seu blogue. Há pouco tempo, ao ler um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, o «eco» ressoou na direcção de um dos meus livros favoritos de Shaun Tan: A Árvore Vermelha (ed. Kalandraka). A ligação entre o universo opressivo e o alento providenciado por um elemento natural de cor vermelha também se pode ler no poema de Sophia:
Como uma flor vermelha
À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.
Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.
Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
(Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, ed. Assírio& Alvim, 2013)
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
LIVROS PARA LER POR DENTRO, 2
«Sentimentos de tristeza podem ser dolorosos, e alguns doem tanto que são difíceis de suportar. Foi assim que a Madalena, uma amiga da Catarina, se sentiu quando os pais lhe disseram que já não podiam continuar a viver juntos. A Madalena precisava que as pessoas que lhe eram mais próximas percebessem o quanto estava magoada e que a amassem mesmo quando ela as afastava.»
A Catarina, o Simão, o Pai e a Mãe (e ainda o cão Feijão Peludo) são uma família funcional, na qual os sentimentos se manifestam com autenticidade, mesmo tratando-se de «uma sensação de rabiscos a enrolarem-se todos na barriga». Com um fio narrativo condutor, mostrando situações e contextos que fazem parte do quotidiano, este livro apresenta-se como «um lugar seguro onde [as crianças] podem pensar sobre os sentimentos, os seus e os das outras pessoas. Da nota autoral: «Algumas crianças podem querer falar sobre os seus sentimentos quando lerem este livro consigo. Outras talvez prefiram falar sobre os sentimentos das personagens - ou talvez pensem sem falar, pelo menos por agora.»
Um Livro de Sentimentos (ed. Livros Horizonte) é assinado por Amanda McCardie (texto) e Salvatore Rubinno (ilustrações). Neste último, é impossível não detectar a influência do «mestre» Quentin Blake. Demasiada influência, até.
(Ver mais «Livros para ler por dentro» aqui.)
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
A MALA DO ESCRITOR
Um escritor viaja sempre com os seus tesouros. Uma bússola, uma lupa antiga, uma fotografia em tons de sépia, umas lunetas, uma estatueta africana, um jogo de dominó de casas tradicionais, um livro de pensamentos de Ralph Waldo Emerson, um lobo, uma nota de 50 escudos... Eis algumas das preciosidades que transportei na malinha encarnada que a minha mãe me ofereceu, em Angola, quando teria uns dois anos (era quase do meu tamanho...). Partilhei-a nas 15 oficinas de escrita criativa que fiz a semana passada no município de Nelas, a convite da Fundação Lapa do Lobo, e incitei os miúdos (cerca de 250. ao todo) a fazerem o mesmo, para que um dia possam sentir o amor das coisas suas. A julgar pelo silêncio e pela atenção, creio que a malinha deu origem à maior surpresa e aos momentos mais mágicos. Fizemos também jogos de palavras, de atenção, de imaginação... e, claro, escrevemos pequenos contos. O tema era a família e todos tinham lido o Amores de Família nas semanas anteriores. Gostaram do tema e do livro, «porque era diferente», disseram-me. Surgiram textos com muita graça, outros ainda muito presos ao concreto e ao banal, mas todos participaram, sem quaisquer embirrações. É espantosa a diferença que fazem os professores: afectuosos e entusiastas, nos melhores casos; rígidos e desinteressados, nos piores. Encontrei crianças num estado de apatia total, como se tudo fosse uma grande maçada. Triste. Como alguém dizia, «alguns professores não se dão conta do poder que têm na formação da consciência e da autoestima das crianças». Totalmente de acordo.
domingo, 17 de janeiro de 2016
FAMÍLIAS, LOBOS, ALCATEIAS
Para onde quer que olhe, os lobos estão sempre lá. Durante a próxima semana, a convite da Fundação Lapa do Lobo, vou estar em várias escolas do concelho de Nelas para conduzir oficinas de escrita criativa e de microcontos, junto de mais de 260 crianças do 3º e 4º anos de escolaridade. Partiremos do Amores de Família, o livro que fiz com a ilustradora Marta Monteiro (ed. Caminho) e que está recomendado pelo PNL na área de Apoio a Projectos - Educação para a Cidadania (3º. 4º. 5º e 6º anos). Não sei que famílias vão surgir daqui, mas espero que sejam autênticas e amorosas, acima de tudo. Depois conto como foi.
PRÓXIMA FORMAÇÃO
No próximo dia 13 de Fevereiro, a convite da Biblioteca Municipal Manuel de Boaventura, em Esposende, farei uma formação de 6 horas especialmente dirigida a professores, bibliotecários, educadores e outros mediadores de leitura. A inscrição é gratuita.
sábado, 16 de janeiro de 2016
ONDE MORAM AS IDEIAS
Quando disse neste post que as ideias surgiam daquilo que acontece na minha vida interior, queria dizer precisamente isto. O corpo como uma casa em permanente (des)arrumação.
(cortesia Filipa Teles Carvalho)
LIVROS PARA LER POR DENTRO, 1
«Todas as actividades que tenham, como objectivo, trazer a calma e a tranquilidade para dentro de nós, são importantíssimas e, a meu ver, imprescindíveis nos dias de hoje, em que a satisfação é imediata, a resiliência decresce, e em que se ignoram os valores que nos permitem viver melhor neste mundo partilhado com outros. O impacto que têm os exercícios de atenção, de relaxamento e de mudança de estado emocional, é de tal forma grande que não pode ser descurado. E as histórias são uma ferramenta fundamental e muito simples de aplicar. Ora, tudo isto se encontra neste livro: explicações, exercícios e várias histórias metafóricas.»
[Com este livro de Margarida Fonseca Santos (texto) e de Joana Jesus (ilustrações), concebido com a qualidade habitual da Edicare, inaugura-se no Jardim Assombrado uma nova etiqueta: «Livros para ler por dentro». Não é grande literatura nem pequena literatura. É outra coisa. Livros bem feitos, sérios, honestos, informados, cuja principal motivação é o desenvolvimento integrado da identidade e da consciência. Livros para uma nova política da educação, talvez. Livros para um novo mundo... Chegaremos lá? Acreditar é preciso.]
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
LET'S GET LOST
Tenho a certeza de que haverá livrarias especializadas em livros para crianças muito mais bonitas do que estas, mas vale a pena ver a amostra. Aqui.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
PROFESSOR ASTROGATO
Depois de trabalhar anos numa livraria, e farto de ver álbuns sobre o espaço com as mesmas fotografias e as mesmas legendas de sempre, Ben Newman, ilustrador inglês, decidiu desenhar um universo à sua medida. Convidou Dominic Walliman, cientista doutorado em física quântica e autor de livros para crianças nas horas vagas, e o resultado foi surpreendente: um álbum esteticamente cuidado e pleno de charme retro, com uma linguagem transversal para crianças e adultos, factual e afectivo ao mesmo tempo. Uma edição da Orfeu Negro.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
HISTÓRIA DA LEBRE DE CHUMBO
«Onde vai buscar as ideias para os seus livros?» Apesar de mil vezes repetida, esta pergunta contém uma curiosidade genuína, porque participa do mesmo mistério: o leitor questiona o escritor para que o escritor se questione. Já lhe respondi de várias maneiras, consoante as idades a que me dirijo, mas creio que a resposta mais simples e mais verdadeira será: vou buscar as ideias àquilo que me acontece. Ou, para ser exacta: vou buscar as ideias àquilo que acontece na minha vida interior; sempre nas entrelinhas das circunstâncias, dos eventos, dos factos, dos enunciados externos. Se não preservar a possibilidade desse espaço aberto e ilimitado, posso dar a volta ao mundo e regressar sem nada para contar. Consigo localizar de forma bastante precisa as ideias prévias a cada livro, a memória sensorial que as acompanha (onde estava, com quem estava, o que fazia...), mas ter um objecto na mão e poder partilhá-lo com os leitores é algo especial.
A Lebre de Chumbo, o conto de fadas que escrevi para a colecção da APCC (Associação para a Promoção Cultural da Criança) começou com a réplica homónima que se pode ver nesta imagem: uma pequenina lebre de chumbo encontrada numa loja de velharias de Lisboa, na zona do Rato. Nunca lá tinha entrado. Foi o único objecto que me chamou a atenção e, mal olhei para ela, exposta dentro de uma cristaleira, soube imediatamente que era para mim. Custou-me dez euros.
A lebre, animal associado à lua e ao feminino, simboliza em vários contos o valor do sacrifício, no sentido de «sacro ofício»: acto sagrado para a pessoa que o realiza em nome de algo ou de alguém. Há quem goste muito desse conto, há quem não goste e há quem não o entenda. Está tudo certo. Escrever para agradar ao leitor é a morte do artista.
E, por falar nisso, eis como a lebre de chumbo foi vista pelo Alex Gozblau:
sábado, 9 de janeiro de 2016
NOVIDADES DA ORFEU MINI
Vêm aí coisas muito boas com a chancela da Orfeu Mini, colecção da Orfeu Negro que abarca a produção literária para os mais novos. Ainda sem capa em português, destacamos, para Fevereiro, O Sr. Tigre Torna-se Selvagem (Mr. Tiger Goes Wild), de Peter Brown, autor do divertidíssimo A Minha Professora é um Monstro! (Não Sou, Não) e de O Jardim Curioso (ed. Caminho). Também em Fevereiro, chega O Que Aconteceu à Minha Irmã?, um novo álbum de Simona Ciraolo, de quem já conhecemos (e adorámos) o anterior Quero um Abraço. Janeiro marca a estreia de um novo autor, Benji Davies, ilustrador britânico que recebeu o prémio Oscar (a pensar nas crianças do pré-escolar) com The Storm Whale (A Baleia, em português), história de um menino que encontra uma baleia encalhada na praia e a tenta salvar. Há mais novidades anunciadas para 2016, mas, para começar, estas já nos fazem crescer água na boca.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
O GRITO DO TROVÃO
Retrato agridoce da sociedade em convulsão na América dos anos 30, Trovão, Ouve o Meu Grito foi publicado há 40 anos, sendo agora pretexto para uma nova e melhorada edição. Seria óptimo se alguma editora portuguesa arriscasse o mesmo, já que a primeira tradução, editada na colecção Caminho Jovens, em 1986, já é muito difícil de encontrar (ver aqui). O romance de Mildred D. Taylor, recorde-se, foi distinguido em 1977 com o Prémio Newberry, o mais importante galardão da literatura infantojuvenil dos Estados Unidos, cujo júri é constituído por membros de bibliotecas públicas e escolares. Continua actualíssimo.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
MATERNIDADE
Há pouco tempo, tive uma visão do mal. Foi num desses parques comerciais dos arredores de Lisboa onde as famílias vão passear aos fins-de-semana, andando de loja em loja enquanto chamam alto pelo nome dos filhos. Justamente: era uma criança, um miúdo aí dos seus seis anos, e não parecia pobre nem rico. Aqui já estou a mentir: era pobre, sim, de uma pobreza angustiante, ali exposta no meio da multidão, reflectida nos vidros das montras; uma coisa gigantesca, um monstro disforme de pobreza moral. Ia agora dizer que o miúdo seguia acompanhado pela mãe, mas estaria a mentir outra vez. Não é preciso ter lido Elisabeth Badinter para desconstruir o mito do «instinto maternal». Conheço mulheres que não são mães e que são mais mães do que aquela criatura, cuja indiferença pelo filho era de uma evidência ofensiva. Percebi que o miúdo não estava a ter uma birra ocasional. Aquilo era ele, a vida dele, um dia como os outros. O miúdo gritava, atirava-se ao chão, rebolava-se como um cabrito, fazia caretas, puxava pelas roupas da mulher, e a única reacção que conseguia obter era a mais total e abjecta indiferença. Segui-os durante algum tempo, para ver até onde iria aquele teatro da crueldade, e só parei quando entraram numa loja cara. Fiquei do lado de fora, ainda a observá-los, vendo a mulher a mexer nas malas e nas carteiras com uma atenção dedicada, enquanto o miúdo vagueava pelo meio dos escaparates, atirado ao seu íntimo naufrágio. Apeteceu-me ir ter com a mulher, bater-lhe, esmurrar-lhe a cara contra uma parede. Sei que isto não é bonito nem cristão, mas foi exactamente o que senti. Depois desviei o olhar e segui em frente, em direcção ao presépio de cartão e lantejoulas.
Imagem: Our Lady of Czestochowa (The Black Madonna).
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
FAMÍLIAS FORA DA CAIXA
(...) No Dicionário
de Lugares Imaginários, Alberto Manguel nota que «a organização social dos
Mumins centra-se em torno da família e não existem instituições governamentais
formais.» Perturbada pela Segunda Guerra Mundial, em que a Finlândia tomou
parte ativa, acabando do lado dos perdedores, Tove Jansson inspirou-se na sua
própria família e no círculo de amigos, refletindo valores pessoais e também identitários
da sociedade finlandesa. Tolerância, respeito pelo indivíduo, união familiar e
cortesia enformam todas as histórias dos Mumins, editadas entre 1945 e 1970 e traduzidas
em mais de 30 línguas. Em 1966, Jansson recebeu o Prémio Hans Christian
Andersen pelo conjunto da sua obra literária, também extensiva ao público
adulto.
Publicados pela Caminho no início da década de
1990, com tradução de Mafalda Eliseu (agora revista), os dois volumes
reeditados pela Relógio d’Água há muito que faziam falta nas livrarias. Por
ordem cronológica, A Família dos Mumins
é o terceiro título da série, originalmente publicado em 1948 (O Cometa na Terra dos Mumins é de 1946).
A opção explica-se facilmente: foi o primeiro a ser traduzido para inglês, com
grande êxito, trazendo visibilidade a uma obra demasiado universal para ficar
restringida às fronteiras nórdicas.
(in LER nº 140, secção «Leituras Miúdas»)
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