Finalmente o Verão, de Mariko Tamaki (texto) e Jillian Tamaki
(ilustração), duas primas de ascendência japonesa nascidas no Canadá, é o
quarto título publicado na colecção
Dois Passos e um Salto,
«para adolescentes e outros leitores mais crescidos», como desde o
início foi apresentada pela editora Planeta Tangerina. Nada de
equívocos, portanto. A linguagem explícita que aqui aparece é até
bastante soft, se comparada com alguns «diálogos» avulsos que captamos
na rua ou perto de qualquer escola secundária. Se há pais, professores,
livreiros e adultos em geral que preferem olhar para os adolescentes
como se os pudessem conservar num frasco de formol delicodoce, talvez
seja porque se esqueceram dessa época bruta, incerta, confusa e sempre
angustiante que se sucede à relativa previsibilidade da infância.
Finalmente o Verão tem tudo a ver com isso e muito mais.
A
maternidade é um dos temas que atravessam o livro de uma ponta à outra -
e esta noção de «travessia» é, em si mesma, estruturante do ponto de
vista narrativo. Primeiro, a travessia da família Wallace para a zona
dos grandes lagos, um lugar idílico chamado Awago Beach onde desde há
muitos anos passam as férias de Verão. Rose Wallace, adolescente magra e
aérea como um galho, reencontra ali a amiga de infância, Windy, cujo
corpo redondo contrasta com o seu e oferece já outra visão do feminino,
menos agreste e mais maternal. Mas perceberemos rapidamente algumas das
razões da crispação de Rose: um aborto espontâneo da mãe às seis
semanas, ainda por curar, transporta o mal-estar e as discussões do
casal Wallace para o desejado retiro no seu éden privado.
Interligando-se
com o cenário familiar, o quotidiano rude dos adolescentes e jovens
adultos da localidade de Awago Beach - e o impacto de uma gravidez não
desejada entre duas personagens - adensam o clima sufocante da teia de
relações humanas. Surgem alguns presságios: as referências aos
feiticeiros da tribo Huron, ancestrais habitantes daquela região do
Canadá, agora convertidos em atracção turística; ou a fantasmática
figura do homem que aparece a Rose quando ela foge para o lago,
avisando-a do perigo dos relâmpagos. No entanto, nada nos prepara a
iminência da tragédia nem para o final redentor do livro. E essa
surpresa é um dos deslumbramentos desta novela gráfica em tons de azul,
por isso não a estraguemos aqui.
Mas esta é,
esssencialmente, uma travessia dos lugares cristalizados da infância,
ainda com cheiro a gomas e refrigerantes e festas de pijama, para outros
lugares insondáveis onde se fala (muito) de sexo, rapazes, casamento,
filhos... Personagens que são, sobretudo, seres em transição: raparigas
que gostariam de ser mulheres para serem desejadas; mulheres que
gostariam de voltar a ser crianças só «para poder gritar e espernear»,
mulheres que não querem ter filhos porque elas próprias se sentem ainda
crianças. A maternidade, fortemente simbolizada nas águas uterinas do
lago, recorda que «a mãe natureza nem sempre é a pessoa mais simpática
do mundo». Por vezes, navegamos em águas turvas ou desconhecidas. Há
perdas de sangue e de filhos; há conversas cortadas a meio e mensagens
não respondidas no telemóvel. Há a eterna incomunicabilidade das coisas
brutais, e também o esforço que fazemos para lhes dar um nome. Onde
faltam as palavras, exorbitam as onomatopeias, traduzindo emoções,
cheiros, sabores, sensações, gestos, movimentos, sons. Do muito grande
ao muito pequeno, o espaço de página faz convergir espaços antagónicos e
tempos paralelos com absoluta mestria.
Muito mais poderia ser dito sobre
Finalmente o Verão, livro que mereceu, com bastante polémica (
ver aqui),
o prestigiado Caldecott Honour, atribuído pela American Library
Association, em 2015. É um daqueles livros que não hesitamos em
classificar como obra-prima, por muito batida que esteja a palavra. E
ainda bem que agora se escrevem tantas obras-primas na literatura
infanto-juvenil. Mas nada de equívocos, novamente: este é um livro «para
adolescentes e outros leitores mais crescidos», que muitos adultos
deviam ler pelo menos duas vezes. Terminamos com a fala do homem do
lago, que com o seu cão magro aparece junto de Rose, deixando-lhe um
sábio conselho: «Algumas lições só se aprendem a doer, miúda. Não
precisas armar ao pingarelho.»