terça-feira, 25 de maio de 2010

DA BONDADE DOS AVÓS


A livraria de um centro comercial, ontem à tarde. A miúda terá entre três e quatro anos e corre pelo meio dos livros como um diabrete, vigiada de perto pelo avô, um senhor bem posto e de modos suaves. “Olha este, avô! Tão giro!”. Pega nos livros, folheia-os, carrega nos botões que emitem sons, abre pop-ups, demora-se nos mais coloridos e sofisticados. Revela bom gosto. O avô, conformado com a ideia de que lá terá de abrir os cordões à bolsa, vai atrasando o momento como pode: “Esse não, é mais para o teu irmão.” “Esse é muito caro.” “Esse não é para a tua idade.” “Esse não, que tem muitas letras.” A avó, entretanto chegada, dá uma ajuda: “E tu ainda não sabes ler, pois não?”. A cada "não" escutado dos beneméritos avós, a miúda vai esmorecendo no seu entusiasmo e curiosidade. Até que o avô descobre, exultante, a resolução do problema: “Pronto! Já sei o que é que vamos levar! E logo dois de uma vez, já viste?” “Que luxo!”, rejubila a avó. A criança agarra nos livros sem sequer olhar para eles e, como um animalzinho domesticado, agradece a generosidade alheia com voz sumida: “Obrigada…”

Para não levantar mais suspeitas da avó, que já me olha de lado e estranha a observação descarada, espero que deixem a livraria e só depois vou ao escaparate onde o avô teve a sua epifania. Unidos por um elástico, descubro um molho de livros de capa de papel e pequeno formato, de uma editora que nunca ouvi falar. Lá estão A História da Carochinha, O Gato das Botas, O Capuchinho Vermelho e outros contos tradicionais, com uma chamada na capa a prometer um “vocabulário adaptado a crianças a partir dos quatro anos”. O texto é indigente, as ilustrações uma desgraça, a edição paupérrima. Dá para perceber por que é que o avô não hesitou em levar “logo dois de uma vez”. Custam 1.95 € cada. Um luxo, de facto.

1 comentário:

  1. Que chatisse... ainda por cima estes contos não deviam custar nada, porque não deviam ser lidos, mas contados.

    Antes as avós não precisavam de livros para contar histórias...

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