segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

DA INVEJA


Tenho muitos e terríveis defeitos, dolorosamente aperfeiçoados ao longo da vida. Fico de péssimo humor quando tenho fome (ninguém tente falar comigo nessa altura). Esqueço-me de comer fruta durante o dia. Tenho dificuldade em esconder estados de espírito melancólicos, coisa que na perspectiva do darwinismo social só me tem trazido problemas. Praguejo facilmente em determinadas situações; por exemplo, quando o computador começa a sobreaquecer e o blogger se torna lento como um comboio de torresmos. Consigo ser estupidamente picuinhas, hipercrítica e impaciente, tudo ao mesmo tempo. Mas há pelo menos um defeito que não tenho, desde logo porque me é difícil compreendê-lo: a inveja. Como é que se pode ser uma pessoa e querer ser outra, sem que isso provoque uma espécie de náusea existencial e um sentimento de absurdo? Como é que se pode invejar outra pessoa, sem pensar nos problemas que ser essa pessoa pode acarretar? Ter inveja é, para mim, um autêntico paradoxo ontológico.

Fico sempre sem jeito quando ouço comentários do género: “O quê, já foste duas vezes à Nova Zelândia? Bem, que inveja…”. Se disser que andei de mochila às costas durante um mês e meio, que trabalhei em quintas a tosquiar ovelhas e que vivi com gente para quem o almoço consiste em chá e torradas, é ver como a inveja começa logo a esmorecer. “Ah, é só uma maneira de falar”, dizem. Só uma maneira de falar? Por favor. Não é preciso ter lido Wittgenstein nem livros de auto-ajuda para saber que a nossa “maneira de falar” traduz aquilo que somos, o que os outros pensam que somos e o que nós próprios pensamos que somos. Tenho cada vez mais cuidado com a minha maneira de falar. Na dúvida, prefiro calar-me a maior parte do tempo.

A inveja contém outro paradoxo: quanto mais se alimenta, mais ridícula e mesquinha se torna. Transforma-se na invejazinha. O que começa por ser “só uma maneira de falar” rapidamente descamba na invejazinha pelo carro do vizinho ou da colega que tem liberdade de sair mais cedo para ir buscar o filho ao infantário. Defeito por defeito, mais vale ter uma boa inveja, por mais bacoca que possa ser. Por exemplo, a Kristin Scott Thomas. Olhem bem para ela. Não é uma mulher absolutamente invejável? É linda, elegante, talentosa e de uma classe irrepreensível. Contracenou com Ralph Fiennes em O Paciente Inglês, como se tudo isso não bastasse. Quando penso na Kristin Scott Thomas, imagino-me numa casa no british countryside, a beber um gin tónico no jardim, ao fim da tarde, com um cardigan sobre os ombros e as últimas novidades em literatura para crianças mesmo à mão de semear. O telefone toca. É a minha amiga Helena Bonham Carter, a convidar-me para jantar hoje em casa dela. O Tim (Burton) é um grande cozinheiro.

Mas não há vidas perfeitas, pois não? Não. Quando estou a um passo de sentir inveja da Kristin Scott Thomas, começo a pensar nos defeitos que ela poderá ter. Ou nos problemas por que estará a passar. Estará triste ou deprimida? Será que lhe morreu alguém querido há pouco tempo? Terá um namorado ciumento e parvo? Grita com a empregada? Não convive bem com os espelhos? Lava as mãos 300 vezes por dia? Sei lá, tudo é possível. A partir de uma certa idade, perde-se a paciência para descobrir novos defeitos; viver com os nossos e os de mais algumas pessoas já dá trabalho bastante. É nesta altura que regresso ao meu apartamento sem varanda em Lisboa e vou limpar o caixote de areia dos gatos, contente por não ser a Kristin Scott Thomas e mais os seus defeitos e problemas. Porque não há pessoas perfeitas, pois não? Não.

O que é preciso é que cada um faça o melhor que pode com a vida que tem.

7 comentários:

once disse...

"Como é que se pode ser uma pessoa e querer ser outra" .. pode. e até pode alimentar isso até ao infimo pormenor. de tal forma que ficamos sem saber quem é quem ..


Agora .. eu, por exemplo, tenho alguma (pouca) ;) "inveja bacoca" pela maneira como aborda este tema. ;) Parebéns!

o das caldas disse...

Parabéns nunca é demais relembrar estes defeitos do género humano com o ojectivo (utópico) de atingirmos a perfeição.
Deixo beijinhos das Caldas (doce regional)

Pan disse...

Não será o maior defeito, mas procurar a perfeição é, creio, a maior perda de tempo!
Eu pelo menos não "invejo" quem o faz!
Francisco Sousa

ana disse...

por vezes dizemos "uem me dera ser como ela" não como inveja mas como um elogio

Lola disse...

A não consciência e a ignorância são fatais..

Portuguesinha disse...

Subescrevo. Não compreendo a inveja (nem o ciúme) mas acho que, com o avançar da idade, começamos a adquirir crescentemente alguns "maneirismos" do género. Estaremos condenados a ser uns velhinhos insuportáveis??

PS: Os famosos são como qualquer pessoa de carne e osso e sim, a eles também acontecem desgraças! (E dependendo da "classe" onde estão iseridos, convivem com mais inveja do que o comum mortal)

Elzinha disse...

Não é preciso SER a tal atriz. Mas se parecer com ela, por exemplo. Ter tanto dinheiro quanto( ela é rica...não sei), ter as amizades e tudo de bom que a ela é proporcionado. Eu entendo a inveja. Gostaria de ter o talento d atriz Cate Blanchett, por exemplo. Eu invejo o talento dela. Gostaria de ter a beleza de Scarlett Johansson. Eu invejo a beleza dela. Gostaria de ser uma diretora de cinema tão talentosa, quanto Woody Allen, que dirigiu, dentre outros filmes, Match Point, que foi fortemente influenciado por Dostoyevski, do romance Crime e Castigo. Invejo o talento de Woody Allen, assim como invejo o talento de Dostoyevski, dentre outras pessoas que invejo, por este ou aquele motivo. Invejar não significa QUERER SER a pessoa. É simplesmente admirar algo a ponto de invejar, de querer ter algo daquilo para si.