sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

CITY-BREAKS: ALENTEJO


O Jardim Assombrado vai mudar de ares e apanhar as folhas do Outono. Regressa no dia 16 de Novembro. Até lá!
(Fotografia de Guto Ferreira.)

FOI HÁ 25 ANOS


“Os grupos Táxi e Jáfumega não gravaram nenhum disco este ano, já que segundo António Pinho, responsável pelo sector nacional da gravadora das bandas, elas consideravam que não tinham «hit» para editar. Assim, Táxi e os Jáfumega não viram concretizados para vinil nenhum dos temas novos, muitos deles apresentados este ano em concertos ao vivo. As duas bandas foram as grandes ausências do mercado discográfico português de 1984.”

Notícia publicada no primeiro número do jornal Blitz, faz hoje precisamente 25 anos. Guardo-o religiosamente e acompanha-me a cada mudança de casa, apesar de já muito velhinho. Em formato de revista desde há uns anos, a edição especial de Novembro (nunca me habituei a dizer “a Blitz”) está aí nas bancas. Vale sempre a pena reconhecer a nossa história. E prestar-lhe homenagem.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

NOVOS EPISÓDIOS DA LUTA DE CLASSES


O Pato Camponês
Martin Waddell
Ilustrações de Helen Oxenbury
Caminho

Continuam a sair novos títulos da colecção Borboletras, objectos de capa mole e qualidade à prova de bala, para combater a ideia de que os livros para crianças “são muito caros”. De Martin Waddell, escritor da Irlanda do Norte contemplado com o Prémio Hans Christian Andersen de 2004, O Pato Camponês é uma interpretação da luta de classes superiormente ilustrada pelas aguarelas de Helen Oxenbury, a mesma de Vamos à Caça do Urso (Caminho, 2004). Aqui se conta como, graças a um plano bem bolado, os animais de uma quinta em decadência conseguem correr com o seu imprestável dono, acabando com a exploração do pato que é pau para toda a obra. Se as cores também se revoltam, passando dos tons lúgubres à luminosidade, o delinear da estratégia é um dos momentos altos de um texto que nunca perde o ritmo, e Martin Waddell economiza palavras com um golpe de génio: “– Muu!, disse a vaca. – Méé!, disseram as ovelhas! – Cácárácá!, disseram as galinhas. E esse é que era o plano.” E funcionou.

(Texto publicado na LER nº 85)

SOBRE CÃES E GATOS


Muito dinheiro público seria poupado em ansiolíticos e antidepressivos se toda a gente tivesse um casa com jardim e um animal ao seu lado. Viver amontoado em apartamentos não dá saúde a ninguém, é certo e sabido. Como poucos têm a sorte de morar no campo – com qualidade de vida – ou de passar os fins-de-semana em turismos rurais, ter um gato ou um cão ainda representa a possibilidade mais imediata de ligação à Natureza, sem a qual me parece difícil funcionar com o mínimo de serenidade e, ocasionalmente, ser feliz. Talvez isto seja “conversa da treta” para muita gente, mas para mim é uma questão de convicção e de valores. Valores fortes. Acredito que o estudo da vida emocional dos animais e do seu impacto nos seres humanos ainda nos trará conclusões a que já deveríamos ter chegado, intuitivamente; e este livro, Wild Justice: The Moral Lives of Animals (via Bomba Inteligente), é mais uma contribuição. Relevante é também o doutoramento de Isabel Marques, que analisou o papel dos animais em contexto terapêutico junto de casos de esquizofrenia, psicoses e outros distúrbios graves. Sobre este assunto, saiu uma reportagem no Público de segunda-feira que ainda pode ser lida aqui. Para outro género de leituras, sugiro um livro que reúne o pensamento de Eckhart Tolle e os desenhos Patrick McDonnell, o autor da BD Mutts, intitulado Guardiões do Ser (ed. Pergaminho). Não é para crianças nem para adolescentes nem para adultos – é para todos. É para quem entenda, ou queira entender, que a Natureza e os animais têm muito para nos ensinar sobre nós mesmos e sobre os outros. Se isso não é importante, então não sei o que é importante. Talvez discutir a cuspidela da Maitê Proença, sei lá.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

AUTOBIOGRAFIA IMAGINÁRIA


"Nasci quando os meus pais já não se amavam. Cristina, a minha irmã mais velha, era nessa altura uma rapariguinha altiva, cujo simples olhar me tornava culpada de qualquer misteriosa ofensa contra a sua pessoa, que nunca consegui decifrar. Quanto aos meus irmãos Jerónimo e Fabián, gémeos e cheios de acne, não me ligavam nenhuma. De forma que os primeiros anos da minha vida foram bastante solitários. Uma das minhas mais antigas recordações remonta à noite em que vi correr o Unicórnio que vivia emoldurado na reprodução de uma famosa tapeçaria. Com assombrosa nitidez, vi-o começar a correr e desaparecer por um canto da moldura para reaparecer de imediato e retomar o seu lugar: lindo, branquíssimo e enigmático. Nunca soube por que razão o Unicórnio tentara fugir do quadro e isso intrigou-me durante muito tempo, e até me atemorizou um pouco. Por aqueles dias eu não devia ter mais de cinco anos – talvez apenas quatro –, mas essa recordação tem um lugar relevante entre as primeiras da minha vida. Às vezes, as recordações parecem-se com alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem por que razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam por se amontoar no fundo dessa gaveta que evitamos abrir, como se lá fôssemos encontrar alguma coisa que não desejamos, ou inclusive tememos vagamente."

(Excerto do primeiro capítulo do livro Paraíso Inabitado, de Ana María Matute, nome grande das letras espanholas que também deixou uma marca indelével na literatura para crianças. Uma edição Planeta.)

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O GALO CANTA DE GALO


Canta o Galo Gordo – Poemas e Canções Para Todo o Ano, de Inês Pupo e Gonçalo Pratas (ed. Caminho), ganhou o prémio de Melhor Ilustração para Livro Infantil no último Amadora BD, em que também estavam nomeados Bernardo Carvalho (As Duas Estradas), Peter Newell (O Livro Inclinado), Luís Henriques (Sabes, Maria, o Pai Natal não Existe), Korky Paul (O Tapete Voador da Mimi) e Susanne Janssen (A Incrível História da Menina Pássaro e do Menino Terrível). O mérito vai para Cristina Sampaio, uma das mais reconhecidas ilustradoras e cartonistas portuguesas. Mais pormenores biográficos na informação enviada pela editora:

"Cristina Sampaio nasceu em Lisboa. Em 1985 licenciou-se em pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Ilustra livros infantis desde 1987 e trabalha desde 1986 como ilustradora e cartonista para diversas revistas e jornais em Portugal e no estrangeiro (entre outros, Público, Expresso e Diário de Notícias, em Portugal; Courrier International, em França; Boston Globe, Wall Street Journal e New York Times, nos EUA.) Trabalhou em cenografia, multimédia e animação. As suas ilustrações foram apresentadas em várias exposições colectivas e individuais, em Portugal, no Brasil, na Alemanha, França, República Checa e Grécia. Em 2002 e em 2005 foi-lhe atribuído pela Society of News Design (EUA) o Award of Exellence. Em 2006 recebeu o Prémio Stuart de Desenho de Imprensa na categoria de Cartoon/Caricatura. Em 2007 foi-lhe atribuído o 1.º Prémio na categoria de cartoon editorial do World Press Cartoon."

20 ANOS EM 90 MINUTOS


Qual é o cúmulo da gula intelectual? Devorar em 90 minutos aquilo que pode saborear em 20 anos. De Henrik Lange, está aí a chegar 90 Livros Clássicos Para Pessoas com Pressa (ed. Presença). “Em quatro vinhetas, contamos-lhe toda a história, uma espécie de romance destilado, para que consiga ler 90 livros numa hora.” Eis alguns da lista:

A Bíblia
Admirável Mundo Novo
, 1932, Aldous Huxley
Cidade de Vidro, 1987, Paul Auster
Drácula, 1897, Bram Stoker
Rambo, 1972, David Morrell
The Golden Notebook, 1962, Doris Lessing
O Grande Gatsby, 1925, F. Scott Fitzgerald
As Viagens de Gulliver, 1726, Jonathan Swift
À Boleia pela Galáxia, 1979, Douglas Adams
Cem Anos de Solidão, 1967, Gabriel Garcia Marquez
Em Busca do Tempo Perdido, 1913-1927, Marcel Proust
O Perfume: História de Um Assassino, 1985, Patrick Süskind
Cemitério das Mascotes, 1983, Stephen King
A Sombra do Vento, 2001, Carlos Ruiz Zafón
O Código Da Vinci, 2003, Dan Brown
O Senhor dos Anéis, 1954 e 1955, J.R.R: Tolkien
O Processo, 1925, Franz Kafka
Crime e Castigo, 1866, Fiódor Dostoiévski
Dom Quixote de La Mancha, 1605, Miguel de Cervantes
Orgulho e Preconceito, 1813, Jane Austen
O Alquimista, 1988, Paulo Coelho

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

... DA FRENTE


Por causa do António Sérgio, subi ao sótão para procurar um velho fanzine dos anos 80, o …Da Frente, escrito e editado pelo João Reis (que depois se tornou actor), com a colaboração de mais alguns indefectíveis melómanos. Esta é a capa do nº 4, com data de Abril-Maio de 1985. Lá dentro, dactilografados numa letrinha minúscula, havia poemas de produção caseira e artigos sobre os GNR, Cocteau Twins, This Mortal Coil, The Smiths, Ezra Pound e a Loucura, Leonard Cohen, Tones on Tail, Bauhaus, Tom Waits, Julian Cope, Echo & The Bunnymen e Rita Mitsouko. O …Da Frente vendia-se, entre outros locais, na Livraria Castil do Centro Comercial Alvalade, em Lisboa, e na Discoteca Tubitek, no Porto. Custava 40 Escudos. Tudo isto fez parte do meu crescimento e tudo isto me continua a assombrar, tal como a voz do António Sérgio, desde ontem. Esta canção é para ele.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

KALANDRAKA COM NOVA CHANCELA: FAKTORIA K


Não é exactamente “nova”, porque em Abril já tinha saído um livro com o logótipo da Faktoría K de Libros: Nascer – Animais Extraordinários, de Xulio Gutiérrez e Nicolás Fernández, que pode ser visto aqui. Agora adaptada para português, a Faktoria K envereda por “uma linha editorial um pouco diferente da da Kalandraka e nem sempre direccionada para o público infanto-juvenil”, disse-nos a editora Margarida Noronha. Em breve, serão publicados dois novos títulos: Todas as Respostas às Perguntas que Nunca te Fizeste e Mais Respostas às Perguntas que Nunca te Fizeste, ambos de Philippe Nessmann (texto) e Natalie Choux (ilustrações). Ainda segundo Margarida Noronha, que aposta numa crescente portugalização da editora galega com sede em Matosinhos, estes títulos “destinam-se a crianças com mais de 7 anos e até, sensivelmente, 12 anos, constituindo uma espécie de livro dos porquês”.

Para já, está aí a chegar o muito esperado Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak – nas livrarias a partir de 13 de Novembro, nos cinemas a 26 do mesmo mês. Até ao Natal, a Kalandraka publicará ainda três novos picture books: Um Bicho Estranho, de Mon Daporta e Óscar Villán; Mago Goma, de Toño Núñez e Adrià Fruitós; e ainda Um Grande Sonho, de Filipe Ugalde, obra vencedora do II Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

PICTURE BOOKS: MAIS DO QUE LIVROS COM IMAGENS

Não há muito tempo, tive o desprazer de ouvir uma conhecida autora e ilustradora referindo-se em público a «esses livros com pouco texto» com um desdém notável. «Livros com pouco texto» são aqueles que se escrevem «enquanto se lava a louça», para dar o seu próprio exemplo – a não seguir. Em bom rigor, teremos de lhes chamar picture books ou álbuns, consoante se prefira a terminologia da escola anglófona ou francófona. Opto pela primeira, por razões geracionais e não só.

É verdade que os picture books, ou picture story books, têm pouco texto ou até nenhum texto. A brevidade faz parte da sua natureza, à semelhança dos aforismos e ao contrário das epopeias. Nada a fazer a esse respeito. Com muito texto, é provável que entrem na categoria de livros ilustrados, mas não de picture books. Não sendo as fronteiras entre uns e outros totalmente estanques nem isentas de controvérsia, há um critério fundador a ter em conta: os picture books distinguem-se pela relação sempre indissociável entre texto e ilustração, assentando normalmente num esquema de leitura de página dupla (double-page spread), marcado pela tensão dramática e pela expectativa em relação ao que vem a seguir.

Um bom picture book não mostra tudo; antes sugere e provoca inferências de significado, estimulando a capacidade de interpretação da criança e de qualquer leitor. Mais do que uma relação forte, palavras e imagens desenvolvem uma relação de forças, no sentido em que se gera uma tensão criativa entre as duas linguagens, longe da mera função complementar do livro ilustrado tradicional. Em vez de se limitar a reproduzir em imagens o que já é dito por palavras, um bom picture book acrescenta informação ao texto, podendo mesmo subvertê-lo com a inclusão de efeitos irónicos, ambíguos ou incongruentes. Quando escritor e ilustrador se libertam do ego e do complexo competitivo, esta tensão criativa costuma dar origem a livros admiráveis. O mesmo vale quando escritor e ilustrador são um só, sendo neste caso a competição mais fácil de gerir. Last but not least, o design, o grafismo e a concepção editorial contribuem para o enriquecimento do que pode ser uma obra de arte global, talvez a primeira a que a criança tem acesso fácil.

Peter Hunt, professor da Universidade de Cardiff e um nome de referência nestas matérias, considera que o picture book será o único contributo – genuíno e original – da literatura infantil para o campo literário em geral. Seria bom ver mais editores portugueses a interessarem-se por este amplo mercado, ainda muito preenchido por traduções de qualidade oscilante. E também escritores, ilustradores e designers gráficos ou directores de arte, já que todos têm um papel determinante no conjunto do processo criativo. Ainda há um juízo de valor implícito na apreciação dos picture books, como se os livros ilustrados não pudessem ser também literatura. Como se um escritor de livros para crianças provasse o seu talento seguindo o ritmo do contador de caracteres. Convenhamos: se escrever pouco e bem fosse fácil, os melhores publicitários não seriam tão generosamente remunerados. Grandes ideias podem surgir «enquanto se lava a louça», mas fazer um bom picture book dá mais trabalho do que parece.

(Texto publicado ontem na secção de «Opinião» do Blogtailors.)

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

MAIS DIAS COM ÁRVORES

Por causa de um comentário deixado neste post, fiquei a saber do regresso – após um ano em pousio – do blogue Dias Com Árvores. Obrigada ao Paulo, à Manuela e à Maria por continuarem esta obra admirável (e acho que não é exagerado dizer isto). Agora desculpem, que tenho muita leitura para pôr em dia.

I MISS MY HERMES, BABY


Quando quero matar saudades da minha primeira máquina de escrever, procuro A Namorada de Wittgenstein. Também tive uma assim, “igualita, igualita, igualita, igualita, igualita”, como se diz num filme do Almodóvar. Era do meu pai, a mesma máquina em que ele escreveu centenas de poemas, antes de os queimar um a um, com medo de parecer sei lá o quê. Uma Hermes Baby dos anos 1960, verde-água, aquele verde igual a uns certos comprimidos que faziam pensar depressa, fumar muito e acordar no dia seguinte a ranger os dentes, na ressaca de uma genialidade ilusória. Desse tempo, só tenho um monte de folhas amarelecidas, dactilografadas a um espaço, com títulos parvos e pomposos como “Formalização e idealização da realidade poética em Baudelaire” (efeito dos comprimidos), cheios de baboseiras académicas que não me atrevo a reler. Não sei o que foi feito dela, dessa Hermes Baby. Um dia mudei de casa e deixei para trás uma arca cheia de coisas preciosas, mas esqueci-me de a fechar a chave, até porque não havia chave. Foi o bastante para “facilitar o extravio”, como se diria em linguagem alfandegária. Perdi-a, em boa verdade; ou deixei que a perdessem, o que vai dar no mesmo. Pagava para ter de volta a minha Hermes Baby, se a culpa tivesse preço. Não tem. O melhor que consigo fazer é olhar para este blogue e imaginá-la em boas mãos. É que nunca se sabe as voltas que os extravios dão até se completarem.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

OS MONSTROS CHEGARAM


Finalmente editado em Portugal, 46 anos depois. É quase o tempo de uma ditadura. Ver aqui e clicar nas "Novidades".

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

TRILOGIA SAGRADA




Há algum tempo, o Márcio Almeida Jr., do blogue brasileiro Viver e Contar, pediu-me que elegesse os três melhores livros da história da literatura infantil. Aceitei, sabendo de antemão tratar-se de uma tarefa ingrata, inglória, impossível – e essencialmente pessoal. Where the Wild Things Are, o livro de Maurice Sendak que deu origem ao filme prestes a estrear-se nas salas de cinema, foi uma dessas escolhas. Os senhores que o acompanham não lhe ficam atrás.

1. Peter Pan, J. M. Barrie (1911)

«Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer», escreveu Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos? Quase um século depois da passagem do palco para o romance, Peter Pan continua a questionar as nossas noções comuns do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. A ambiguidade serve-lhe de ampla matéria literária, moldada entre a luz e as sombras. A Terra do Nunca, com os seus índios, piratas, sereias e fadas – e os seus meninos tão livres e tão perdidos – é uma das fantasias mais consistentes de sempre. E se Gancho é um vilão nobre e melancólico que porventura apetece consolar, Peter Pan pode ser amado justamente pelas razões contrárias. Herói excessivo, egocêntrico, inconveniente, ingrato e egoísta – como todas as crianças –, ele representa a nossa reserva amoral de compreensão. O que nele podemos detestar é algo que em nós já se perdeu há muito. Daí a mágoa, daí a sedução.


2. Where the Wild Things Are, Maurice Sendak (1963)

Where the Wild Things Are é um título revolucionário de um autor que continua a ser alvo de controvérsia e censura. Publicado numa época de mudança de mentalidades, tem da criança uma visão que nunca é redutora ou infantilizante, antes emocionalmente complexa e plena de potencialidades. Visualmente, cada página é uma lição de enquadramento, cor, forma e textura. Há um investimento extraordinário na ligação entre texto e imagem, como é próprio da linguagem do picture book (ou álbum, na tradição francesa), numa história que se desenrola como uma viagem interior – à conquista da identidade e da autonomia. Com um domínio tão inventivo quanto rigoroso dos códigos linguístico, simbólico e plástico, Maurice Sendak concebeu uma obra que representa um ponto de viragem na arte de escrever e ilustrar esse livros que as crianças reclamam para si.


3. Matilde, Roald Dahl (1988)

Entre os muitos livros de Roald Dahl, Matilde é um caso sério de humor insolente, resistência e imaginação – três antídotos seguros contra o derrotismo, a mediocridade, a violência e outros males permanentes da humanidade que também passam por este livro. A maioria das personagens adultas – desde os imbecis pais de Matilde à directora torcionária da escola, a Sra. Trunchbull – não são tratadas com brandura, porque não o merecem. Roald Dahl soube olhar para o mundo com as emoções e os sentidos de uma criança; e, ao mesmo tempo, interpretá-lo com o distanciamento sábio e irónico de certos adultos. As ilustrações de Quentin Blake, seu compagnon de route, fazem deste livro uma referência contemporânea, seguindo a herança de Charles Dickens e outros grande escritores.

domingo, 25 de Outubro de 2009

UNIDOS PELO VERBO


Com mais produção e menos religião, os Flor Caveira poderiam ser uma espécie de Flight of the Conchords portugueses. O calibre das letras é idêntico e até as iniciais são as mesmas. Via Senhor Palomar.

(…)

I asked Dave if he's going to move on you.
He's not sure.
I said "Dave, do you mind if I do?"
He says he doesn't mind.
But I can tell he kind of minds.
But I'm going to do it anyway.

I see you standing all alone by the stereo.
I dim the lights down to very low, here we go
You're so beautiful.
You could be a waitress.
You're so beautiful.
You could be a air hostess in the 60s.
You're so beautiful.
You could be a part-time model.
But then I seal the deal,
I do my moves.
I do my dance moves.

(The Most Beautiful Girl in the World. Para ouvir e ver aqui.)

O PAÍS PALEOLÍTICO


Castelo Melhor, freguesia do concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma aldeia parada no tempo, ruas estreitas onde pouca gente passa e as casas ostentam o avanço da decrepitude. O quadro repete-se no país interior, pobre e desertificado, mas Castelo Melhor é um caso extremo de perplexidade.

Há 13 anos que esta é uma das portas de entrada para o Parque Arqueológico do Vale do Côa, sinónimo de dezenas de turistas que ali aportam diariamente, à espera de encontrarem um restaurante, uma esplanada ou um café decente, enquanto aguardam a hora da visita às gravuras rupestres. Não há nada. A cerca de meia hora de entrar para o jipe, às 13h30, tentei comer qualquer coisa rápida, sem cerimónias. Uma sopa, uma sande de presunto, uma cerveja e a coisa compunha-se. Pensava eu.

Ao lado da Junta de Freguesia, encontrei um sítio onde não arriscaria sequer lavar as mãos. Mais acima, um café onde não tinham pão – o equivalente a um hotel sem camas ou a uma biblioteca sem livros. No Restaurante Paleolítico, uma tasca onde o único prato era frango com massa, a má vontade sobressaiu quando perceberam que não queria comer de faca e garfo. Mandaram-me esperar pelas sandes, que havia clientes à frente. Fui-me embora e almocei amêndoas e figos secos, vendidos na casa de produtos artesanais que abriu este Verão, o único sítio simpático da terra. É assim há 13 anos, e cada vez pior, dizem os responsáveis do parque. Aparentemente, os turistas que vão ver “os riscos feitos pelos pastores”, como ainda há quem pense, são um enfado e um incómodo para a próspera freguesia de Castelo Melhor, onde a riqueza é tal que ninguém precisa de trabalhar nem de ter ideias para ganhar dinheiro. Mais vale embrutecer, orgulhosamente sós. Ah, ditosa terra que tais filhos tem.

sábado, 24 de Outubro de 2009

A NOSSA SOPHIA


O correio trouxe ontem mais um novo livro da colecção editada desde 2005 pela Dom Quixote. Com texto de Fernando Pinto do Amaral, especialista na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen e, em especial, nos seus livros “para crianças”, A Minha Primeira Sophia surge enriquecida com as ilustrações de Fernanda Fragateiro, aquelas aguarelas profundas e delicadas que tão bem reconhecemos. Há algumas páginas em que alguns pormenores mais escuros se confundem com a mancha de texto, dificultando a leitura, mas fora isso é um livro muito bonito e bem concebido. Sophia haveria de gostar.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

LER PARA A VIDA

“Households with girls have ten more children’s books than those with boys. One in every 20 family homes in Britain today has fewer than ten books.”

Mais resultados do inquérito do projecto Reading For Life no Beattie’s Book Blog.

ANTÍPODAS, 2


“In his book Mark Price tells the bare truth of his expedition to the other side of the world to find New Zealand’s Antipodes. With his six white poplin shirts and rented Ford Focus he proves the perfect fall guy for the somewhat downbeat expedition members, and the ever frugal La Campana. Effortlessly, he captures the kiwi sense of the ridiculous with a dry, dead pan humour and an economy of words.”

Como já se percebeu, Antipodes, de Mark Price, é um livro de viagens sobre os antípodas dos antípodas: Espanha, pensa ele. Portugal, dizemos nós. Aqui é que era. Não tiveram coragem.

ANTÍPODAS, 1


Rachel King, autora neozelandesa que se estreou há pouco por cá com A Música das Borboletas, já tem um novo livro: Magpie Hall. Sai em Novembro. Nos antípodas, é claro.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

ATELIER ESTRAMBÓTICO DO PROFESSOR REVILLOD


Conhecem o Tifantu – cabeça de tigre, dorso de elefante, cauda de tatu? É provável que não. O Animalário Universal do Professor Revillod, que já tínhamos apresentado aqui, explica-nos que se trata de um “animal feroz de porte majestoso da região do Orinoco”. Mas, se trocarmos uma das três partes da página, o resultado será um “animal feroz de hábitos omnívoros da região do Orinoco”. Nova troca e deparamo-nos com um “animal feroz de hábitos omnívoros de ambientes malsãos.” E podíamos ficar nesta experimentação de combinações anatómicas até ao fim do dia, ou talvez até mais, já que esta “jóia bibliográfica da zootecnia moderna” permite chegar à formulação de 4096 feras diferentes, todas retratadas com o pormenor e o rigor científico do Professor Revillod. Podíamos fazer isso e seria mais divertido do que ir trabalhar, mas pronto. Lembramos ainda que quem quiser participar no Atelier Estrambótico organizado pela Orfeu Mini só tem de aparecer no próximo sábado, dia 24 de Outubro, às 11h00, no Centro Comercial Colombo (Lisboa). É para miúdos dos 4 aos 8 anos, com entrada livre.

TEXTO GANHA PRÉMIO EM FRANKFURT


Palmo e Meio (3-4 anos), um projecto de ensino pré-escolar da Texto Editores, ganhou o segundo prémio de melhor manual escolar na categoria Primary School, atribuído na Feira do Livro de Frankfurt. Organizado pelo European Educational Publishers Group e direccionado a todas as editoras escolares do espaço europeu, o concurso distingue os três melhores livros publicados em toda a Europa na categoria Primary School (Pré-Escolar, 1.º e 2.º ciclos) e na categoria Secondary School (3.º ciclo e ensino secundário). Com o projecto Palmo e Meio, de Manuela Guedes e Luísa Mendes (e ilustrações de Carla Nazareth), seleccionado entre os 48 manuais a concurso, a Texto vê um projecto escolar seu premiado nesta categoria pelo segundo ano consecutivo.

Mais informações sobre o concurso nos seguintes links:
http://www.schoolbookawards.org/
http://www.eepg.org/
http://www.iartem.no/

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O PORTUGAL DA PORRA


Miguel Sousa Tavares, o mesmo que acha estranho que haja quem se preocupe com as “condições psicológicas” em que vivem os animais domésticos (as aspas são dele), preferindo certamente assobiar para o lado quando sabe de um cão fechado na varanda ou na casa de banho durante dias a fio, insurgiu-se na sua última crónica no Expresso contra a nova lei respeitante aos animais no circo. Diz ele, alcandorado no sarcasmo confortável das elites:

“Eis mais um retumbante triunfo da cultura urbana, moderna e civilizada. Porque o fundo da questão está no que diz Victor Hugo Cardinali – um honrado nome de uma família que tem feito sonhar gerações e gerações de crianças, com os seus tigres, leões e elefantes, saídos da televisão e dos joguinhos de computador para a tenda do circo: «Eu também posso fazer algo como o Cirque do Soleil, para os intelectuais de Lisboa e do Porto. Mas experimentem levar isso a Portalegre e eles vão perguntar ‘que porra é essa?’». É contra este Portugal da porra que em boa hora surgiu a portaria a defender as centopeias, os aligators e também, já me esquecia, os nandus e os crotalos.”

Que fique sossegado o “Portugal da porra”, porque ainda não é desta que Victor Hugo Cardinali vai averiguar que porra é essa do teatro-circo, nem dar emprego aos alunos da porra da escola do Chapitô. Ele sabe que “a cultura do povo português não passa por aí”, afirmou-o na entrevista que o jornal i puxou para a capa, com um título a tresandar a demagogia: “Os meus animais são mais bem tratados que os pobres deste país.” Mais esclarecimentos no excerto que se segue:

“Mas os circos estão condenados?
Muitos circos pequenos sim, mas eu não tenho nada a ver com isso. [o altruísmo de um honrado nome de uma família]
E o circo enquanto arte?
Nesse sentido acho que sim, porque o que traz as pessoas ao circo são os animais. [a sabedoria de um honrado nome de uma família]
Há o argumento de que podia haver mudanças, como quando se deixou de usar mulheres barbudas e anões…
Este ano vou trazer outra vez anões. Nos circos lidamos com os anões como um ser humano qualquer. E os cegos que andam todos a pedir em Lisboa, porque são cegos? Não é discriminação? Os ceguinhos deste país deviam ser acolhidos por quem de direito. É uma hipocrisia, uma fantochada. [o progressismo de um honrado nome de uma família]”.

P.S. - No meio desta confusão de alhos e bugalhos, só uma coisa me intriga: quem é o nandu e quem é o crotalo?

domingo, 18 de Outubro de 2009

PRÉMIO JOSÉ SARAMAGO 2009


Deixem-me ser exclamativa: parabéns, João!

DOURO SUPERIOR








Entre São Salvador do Mundo e o Vale do Côa, há cerca de uma semana, o Douro estava assim. As fotografias foram tiradas pelo jardineiro convidado do blogue, Guto Ferreira, com uma velhinha Yashica FX-3 e um rolo Kodak Ektar 100. Parece que o filme é que faz a diferença, digo eu que não percebo nada do assunto.

HÁ QUANTO TEMPO NÃO VIA ISTO


Uma tapeçaria com paisagem de cavalos na chapeleira de um Toyota Corolla. Fotografia tirada na aldeia de Castelo Rodrigo (Douro Superior), onde há uma casa de chá com um fabuloso sortido de whiskies e as melhores tartes de amêndoa que me lembro de ter experimentado nos últimos tempos. Vão por mim.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

BONS SONHOS


quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

PAIS E FILHOS



Acho que foi o MEC quem escreveu, há uma data de anos, que não imaginava ninguém a reler banda desenhada. Bom. Provavelmente, até ele já discorda desta ideia peregrina. À semelhança de Tamara Drewe, não sei se Fun Home – A Family Tragicomic se classifica mais como uma novela gráfica do que como banda desenhada, mas pouco importa. É um dos melhores livros que me passaram pelas mãos este ano e só estou a adiar por mais um pouco o gozo de o reler, com atenção aos pormenores mais subtis e àquelas palavras que se tem preguiça de ir ver ao dicionário, quando ganha a voracidade leitora.

Publicado originalmente em 2006 (ed. Mariner Book, New York), premiado e incensado pela crítica, Fun Home é a autobiografia de Alison Bechdel, cartoonista norte-americana nascida em 1960 que, ainda adolescente, constrói a sua verdade identitária sobre a grande mentira do pai, homossexual dissimulado e dado a escapadelas com rapazes menores de idade. Só perto dos vinte anos, após a morte deste num acidente de viação (com ressonâncias de suicídio à la Albert Camus), é que Alison, já lésbica assumida, descobre o segredo obscuro que pairou na casa neo-gótica de uma pequena terra da Pensilvânia, restaurada e decorada com desvelo pelo próprio pai. Nessa casa do século XIX, “uma natureza-morta com crianças”, Alison cresce com mais dois irmãos sob a vigilância de pais eruditos e afectivamente ausentes que se suportam com azedume. O negócio de família, uma agência funerária (Fun Home, o título, é a abreviação irónica de Funeral Home), contamina cada tentativa de aproximação com a frieza minuciosa dos cadáveres. Apesar de tudo, o relacionamento entre pai e filha, feito de compreensão tácita, mas sobretudo de silêncios e de dominação, é demasiado importante para ser ignorado. Como Ícaro voando no céu, Alison parte para a conquista da sua identidade desejando que o pai, um Dédalo de mãos hábeis e personalidade labiríntica, esteja lá para a amparar se ela cair. Não é o que todos os filhos desejam?

HOJE É DIA DE AGUSTINA BESSA-LUÍS


Festa no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 15h00. A entrada é livre.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

PARECE MESMO O PARAÍSO


Stonefield é um retiro para escritores em pleno british countryside, onde a inspiração se cultiva em camas com edredões de penas, sestas à lareira, tartes de fruta e comida orgânica. Se tudo isso não chegar, há sempre uma taça de vinho ao fim da tarde e o pub local, onde o gossip literário e não só se põe em dia. Por trás deste cenário privilegiado, há especulação imobiliária e adolescentes a envelhecer de tédio nas paragens de autocarro abandonadas, cujas maiores diversões consistem em atirar ovos aos automóveis e assustar as vacas que pastam no prado. Fuma-se muito. O campo é um deserto de ideias e de sentimentos sólidos – e se os adultos se entretêm com o adultério, a intriga e a má-língua, os adolescentes sonham com a vida das celebridades e “snifam” latas de aerossol quando precisam de um bom kick. Não é um retrato simpático, este que Posy Simmonds publicou em banda desenhada nas páginas do The Guardian e mais tarde passou a livro (ed. Jonathan Cape, 2007). Tamara Drewe, uma beldade esculpida a bisturi que aterra em Stonefield e de quem vagamente se pode dizer que é jornalista (mas também quer escrever dois ou três romances antes dos 35 e, claro, fazer um livro para crianças), é uma daquelas personagens que irritam do princípio ao fim. Os escritores não se saem melhor do retrato. Egocêntricos, egoístas, invejosos, arrivistas, vaidosos, autoindulgentes e mentirosos, não têm problemas em conciliar o homicídio involuntário com a escrita de best-sellers. OK. Já tive a minha dose de cinismo para as próximas semanas. Resta lembrar que Stephen Frears vai adaptar Tamara Drewe ao cinema, com a Bond girl Gemma Arterton no papel principal. Tem todas as condições para ser um bom filme.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

O PRINCÍPIO DO FIM

É verdade que a nova lei não garante o bem-estar dos animais que já se encontram nos circos, mas, caramba, não digam que esta não foi uma boa notícia para começar a semana. Tadinho do Sr. Cardinalli e quejandos. Ainda vão ter de engolir o Cirque du Soleil e aprender a fazer espectáculos que não agradem só aos "queques de Lisboa".

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

PROLONGAMENTO


aqui falámos do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio Centro Cultural do Alto Minho. A ideia é incentivar o aparecimento de "novos escritores e consolidar aqueles que já escrevem há algum tempo, mas que por falta de oportunidade não encontram espaço para a publicação dos seus textos". Todos vão gostar de saber que o prazo de recepção de candidaturas foi alargado até à próxima quinta-feira, 15 de Outubro. Regulamento completo e telefone aqui.

NAMORAR ÀS ESCURAS


Enquanto passeávamos no Douro, fazendo fintas às inesperadas chuvas torrenciais, A Namorada de Wittgenstein andou pelo meio dos canteiros e visitou os fantasmas que dormem há um ano nas nossas árvores. E eles ficaram assombrados com este belíssimo texto.

AVES MIGRATÓRIAS


Há histórias com tanto para dizer que se transformam em exposições. É o caso de A História do Zeca Garro, um livro sobre as características aves dos Açores, assinado por Filipe Lopes e Carla Goulart Silva – com ilustrações de Bernardo Carvalho, um dos artistas da editora Planeta Tangerina. A exposição, que vai percorrer diversas ilhas do arquipélago açoriano e chega ao território continetal em 2010 (Aveiro, Famalicão, Miranda do Corvo e Fundão, entre outros locais), descreve o processo completo de concepção e feitura da obra e pretende “contribuir para o conhecimento e preservação de uma espécie protegida e, em simultâneo, estimular o gosto pelos livros”. Para saber um pouco mais sobre estes pássaros, alvo de uma campanha de preservação há mais de uma década, eis alguns dados:

“O cagarro é uma ave migratória cuja maioria da população mundial (cerca de 75%) escolhe esta região insular para nidificar. Características muito próprias como o facto dos progenitores apenas terem uma cria por ano e de partirem para migração antes deste conseguir voar tornam a espécie vulnerável, nomeadamente pela atracção que os juvenis sentem pela luz, o que faz com que muitos sejam atropelados nas estradas quando se dirigem para o mar. A Campanha SOS Cagarro mobiliza centenas de voluntários que patrulham as estradas costeiras à noite, recolhendo aves feridas.”


Para outras informações complementares, pedidos de envio de livro ou de imagens, contacte através do email mail@ocontadordehistorias.com ou pelo telefone 918569662.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

CITY-BREAKS: DOURO


No fim de Julho, o Jardim Assombrado fechou os portões para sair em reportagem ao Douro. Está aqui a prova em papel, com fotografias do jardineiro convidado. Agora vai voltar lá mais uns dias – e vai voltar quantas mais vezes puder. A parte boa, desta vez, é que não estamos em trabalho. A parte má é que o tempo está um bocado foleiro. Aliás, promete chover torrencialmente. Não faz mal. Adoramos o cheiro da terra molhada.

Fotografia de Guto Ferreira.

MALDITAS DIOPTRIAS


O Tubarão na Banheira
David Machado
Ilustrações de Paulo Galindro
Presença

O quarto livro para crianças de David Machado prossegue a deriva fantástica dos anteriores, incluindo até um cameo dos bonecos dos semáforos de Um Homem Verde num Buraco Muito Fundo (Presença, 2008). A história começa quando um avô parte os óculos e é incapaz de distinguir um tubarão de um peixe pequeno. Se há netos com sorte, o protagonista de O Tubarão na Banheira é um deles. O mesmo se pode dizer de David Machado, que encontrou em Paulo Galindro um ilustrador hábil no domínio da expressividade e volumetria aplicadas ao reino animal, como demonstrou a menção especial atribuída pelo Prémio Nacional de Ilustração a O Cuquedo (Livros Horizonte, 2008). O livro ganharia com mais espaço para a ilustração e mais economia numa técnica narrativa que exagera nas descrições. Uma imagem substitui frases como «Não era possível fechar a porta», por exemplo. Mais conseguida é a integração das «palavras difíceis» num léxico final subjectivo: «Melancolia: é o que sinto quando estou triste e penso que estou triste.» A julgar pela pescaria, apostamos que esta dupla tem ainda muito para dar.

(Texto publicado na LER nº 84.)

domingo, 4 de Outubro de 2009

LIVROS COM BICHOS DENTRO - UM GUIA









Eis uma parte do artigo publicado hoje na Notícias Magazine, a propósito do Dia Mundial do Animal. Muitos mais livros poderiam fazer parte desta lista, mas um guia de sugestões de leitura é isso mesmo: selectivo. Gostaria de ter intercalado cada capa com o respectivo texto, mas a minha habilidade informática não tem unhas para tal. E também não consigo descolar este parágrafo do título do livro que vem a seguir. Blogger irritante. Grrrrrrrrr!

Vamos Fazer Amigos
Adam Relf
Ambar

«Como se faz um amigo?», pergunta a Raposinha. Juntar ramos e frutos em forma de espantalho não é suficiente, mas com a ajuda de um esquilo e um coelho descobre-se o inesperado. Uma história com profundidade emocional, contada com ilustrações que provocam empatia imediata nas crianças.

Aldo
John Burningham
Caminho

Na nova colecção de livros de capa mole da Caminho está um dos maiores autores em língua inglesa, John Burningham. A temática do amigo imaginário – um coelho chamado Aldo – é aqui retratada com grande acutilância e sensibilidade.

Macário Dromedário
Rachel Chaundler (texto)
Bernardo Carvalho (ilustrações)
OQO

Um dromedário, porventura demasiado sensível, perde a bossa de tanto chorar e só a recupera com um acto inaugural de coragem. As cores e o traço expressivo de Bernardo Carvalho estão de acordo com a força do pequeno Macário.

O Porco Muda de Casa
Claudia Fries
Ambar

Richard Scarry, autor de Palavras em Bicha com Todos os Bichos, dizia que usava animais como personagens para eliminar os estereótipos raciais. Um conceito que também se aplica neste livro, onde o problema da xenofobia é tratado com inteligência e humor.

Dança Quando Chegares ao Fim
Richard Zimmler (texto)
Bernardo Carvalho (ilustrações)
Caminho

«Pensa bem no teu plano/ Recomenda o tucano!» «Não sejas resmungão e chato/ Dizem o camaleão e o pato!» «Faz caretas ao espelho/ Sugere o escaravelho!» Com bom humor e uma pitada de nonsense, estes «bons conselhos de amigos animais» são para levar a sério. Eles sabem muito, ainda que não falem.

Poemas com Animais
Vários autores
Pedro Pires (ilustrações)
Gailivro

Para ler ou ouvir no CD em anexo, poetas portugueses, brasileiros e moçambicanos, numa antologia organizada e declamada por José Fanha. António Osório, Nuno Júdice, António Botto e Eduardo Guerra Carneiro são alguns dos nomes. Não esperem encontrar o mais óbvio.

A Charada da Bicharada
Alice Vieira (texto)
Madalena Matoso (ilustrações)
Texto

O livro vencedor do último Prémio Nacional de Ilustração é uma trama engenhosa e bem urdida entre palavras e imagens. É nestas últimas que se encontram as respostas para as adivinhas lançadas por Alice Vieira, sempre com os animais em pano de fundo. Genial.

Nascer – Animais Extraordinários
Xulio Gutiérrez (texto)
Nicolas Fernández (ilustrações)
Kalandraka

A particularidade deste livro informativo é dedicar-se a um aspecto da vida animal que suscita grande curiosidade e fascínio: o nascimento. O elefante, o cavalo-marinho, o macaco bonobo, o cuco, o bicho-da-seda e a abelha figuram entre as espécies mais surpreendentes.

Os Animais Fantásticos
José Jorge Letria (texto)
André Letria (ilustrações)
Ambar

O centauro, o dragão, a salamandra, o lobisomem, a serpente marinha, o ogre, o ciclope… Estes animais (ou quase animais) são da espécie inventada e também têm as suas histórias para contar. Sem dúvida, um dos melhores livros da dupla Letria, pai e filho.

Perto
Natalia Colombo
Kalandraka

O senhor Pato e o senhor Coelho cruzam-se todos os dias, mas nunca chegam a encontrar-se. O não dito tem mais força do que as morais sublinhadas no final de tantos livros. Um picture book premiado com uma abordagem original ao tema da amizade vs. solidão, desafiando a capacidade de pensar além das aparências.

CITAÇÃO DO DIA

“Outside of a dog, a book is probably man's best friend, and inside of a dog, it's too dark to read.” (Groucho Marx)

ESPECIAL ANIMAIS NA NOTÍCIAS MAGAZINE


A Notícias Magazine de hoje – revista de domingo do Jornal de Notícias e Diário de Notícias – é dedicada aos animais, uma opção editorial digna de registo (no Público, há apenas uma notícia generalista sobre o assunto). Para ler, a entrevista de Carla Amaro a Miguel Moutinho, presidente da associação Animal; uma reportagem sobre um hospital de animais selvagens em Castelo Branco, também de Carla Amaro; e outra sobre a única escola de cães-guias para cegos que existe em Portugal, assinada por Licínia Girão. Ah, nós também contribuímos com um artigo sobre os animais na literatura infantil, que contou com as esclarecidas declarações de Ana Margarida Ramos, professora na Universidade de Aveiro e um dos elementos da Casa da Leitura.

HOJE É O DIA DELES


Não é fácil juntar estes três para um retrato de família felino. De baixo para cima: Mini, Spooky e Radar. Hoje é Dia Mundial do Animal.

sábado, 3 de Outubro de 2009

LA VACHE QUI RIT


"Une vache regardait la voie lactée et n'y voyait aucun train passer."

OS MEUS LIVROS


A revista e o novo blogue. Com referência a um artigo sobre Hans Christian Andersen publicado na Que Leer.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

AFINIDADES ELECTIVAS


Cheguei ao Papel de Lustro através de uma pesquisa ao Ainda Falta Muito? e descobri um blogue primorosamente bem feito, com excelentes referências de ilustradores, livros para crianças e coisas sensíveis do mundo em geral. Curiosamente, surgiu um dia depois do Jardim Assombrado, a 27 de Setembro de 2008 (sim, já fizemos um ano). Não sei quem é Leonor F., mas a definição peca por excesso de modéstia: “Um blogue oportunista que vive do brilho dos outros.” Nem pensar. Mais uma consulta diária na lista dos blogues ao sol.

CAMELO


Dunas ambulantes
Com muita água dentro.

Este animal é uma miragem.


(“Camelo”, de Francisco Duarte Mangas, um poema do livro Verso a Verso – Antologia Poética, ed. Trinta por uma linha, 2009. Com ilustrações de João Concha.)

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

FLOATING DREAMS


Uma semana é pouco para ver "Floating Dreams", a exposição de Filipe Pinto Soares inaugurada a 23 de Setembro no último armazém do lado esquerdo da Lx Factory, o NCS. Passei por lá no domingo mas estava fechada. José Pinho, da Ler Devagar, contou-me que em duas horas tinha sido tudo vendido. Parece que muita gente gostou destes mundos liliputianos entre a escultura e a instalação, alguns deles construídos em forma de mobiles. Julgo que a exposição termina hoje (ou foi ontem?), embora continue acessível on-line. As peças são iluminadas e movidas a energia solar, mas isso é claro que não se pode ver aqui.

AZUL AGUSTINA


Vou passar 2010 com Agustina Bessa-Luís. Ninguém poderá dizer que não cuido das companhias.

OS CORDÉIS, 2

Apraz-me saber que Adília Lopes também notou o desaparecimento progressivo dos cordéis nas casas portuguesas. Ler aqui.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

CONTADORES, LAREIRAS E SABORES


A terceira edição do “Estória, História - Encontro de Contadores, Lareiras e Sabores” vai decorrer de 3 a 5 de Outubro no Retiro da Fraguinha, Candal e Manhouce, aldeias cravados no Maciço da Gralheira. A contar às lareiras, estarão, este ano, António Fontinha, Cristina Taquelim, José Craveiro, Luís Carmelo, Helena Gravato e os Contabandistas. “Teremos ainda oportunidade para aprender saberes de outrora e participar em actividades que cruzam o universo mágico dos contos com a descoberta sensorial de percursos naturais”, dizem os organizadores. Ver o programa completo aqui.

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

OUTRAS SEQUELAS: PETER PAN


A propósito da sequela de Winnie-the-Pooh, já falada aqui e aqui, lembramos outro “clássico adaptado à continuidade”, não há muito tempo: Peter Pan e o Feitiço Vermelho, título dado pela Presença a Peter Pan in Scarlet, de Geraldine McCaughrean, editado no final de 2006. O texto publicado na Notícias Magazine – com declarações dadas por e-mail pela escritora inglesa – está na página do Scribd, disponível para leitura ou download. Aqui fica uma parte. Aviso que contém efeito plot spoiler:

O feitiço, o feiticeiro e o fio solto

Estamos em 1926, a década do charleston e do champagne. Os Rapazes Perdidos têm agora profissões respeitáveis e fazem parte do Clube dos Cavalheiros, embora por vezes sonhem com piratas e peles-vermelhas. Wendy Darling podia ter sido uma das corajosas sufragistas inglesas, mas J.M. Barrie guardou-a em casa e ainda lhe deu o trabalho das limpezas da Primavera na Terra do Nunca. No entanto, anos depois, é ela quem pressente que algo de errado se passa e que é altura de todos se juntarem para um regresso urgente. Todos, salvo Michael, morto nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial (tal como, na vida real, George Llewelyn Davies, um dos cinco irmãos «adoptados» pelo escritor).

Mas como voltar à Terra do Nunca, quando se deixou de ser uma criança alegre, inocente e descuidada – o segredo de voar segundo Mr. Barrie? A autora de Peter Pan e o Feitiço Vermelho tem outros truques. Encontrar pó-de-fada não chega, é preciso vestir uns números abaixo. «Toda a gente sabe que, quando vestimos roupas de disfarce, nos tornamos outra pessoa. De onde se conclui que, se vestirmos roupas dos nossos filhos, ficamos outra vez da idade deles.» É assim que John, Wendy, Tootles, Slightly, Curly e os Gémeos regridem no tempo, deixando para trás o mundo dos adultos. Só Nibs não conseguiu despedir-se dos filhos e desistiu da viagem.

Geraldine McCaughrean faz desta ideia – trocar de roupa equivale a uma troca de identidade – um tema estruturante da narrativa e repeti-lo-á até ao fim. Não só o fato verde de Peter Pan foi substituído por uma túnica de penas e folhas de tons vermelho-escarlate, como toda a Terra do Nunca se «vestiu» de cores outonais, rubras e assustadoras (de onde o título original, Peter Pan in Scarlet). As descrições de um território devastado, submerso em névoas e águas pestilentas, cheias de carcaças (ou espinhas?) das antigas sereias, são pouco menos do que brilhantes e abrem o apetite para a já anunciada adaptação ao cinema. Outra criação interessante de McCaughrean é o mestre de cerimónias do circo Ravello, «um miasma lanudo de pontas soltas», personagem encantadora, melíflua, mas que esconde – literalmente – algo na manga.

Peter Pan e o Feitiço Vermelho é a história de uma aventura à maneira dos últimos exploradores da Terra, homens como Scott, Amundsen ou Hillary (Scott era, aliás, amigo de J.M. Barrie, e Geraldine McCaughrean retoma o tema da exploração do Pólo Sul num dos seus últimos livros, The White Darkness). Com o mapa do tesouro encontrado no navio-fantasma do Gancho, liderados por Peter, os heróis lançam-se numa demanda que os conduz a mil e um acontecimentos e reviravoltas. Ravello juntar-se-á ao grupo. Todos ficam sem fôlego, incluindo o leitor. Pode ser um pouco cansativo, às vezes.

Do navio vem também a sobrecasaca de brocado vermelho do malogrado capitão. Peter Pan, que continua egocêntrico, vaidoso, caprichoso e insolente (certas coisas nunca mudam…), irá usá-la durante todo o percurso, até descobrir que sucumbiu a um feitiço terrível idealizado por Ravello… Que não é outro se não Gancho, depois de ter passado anos em digestão ácida na barriga do crocodilo. É um twist bem achado, mas fica por explicar como é que o veneno que matou o crocodilo e alastrou pela Terra do Nunca não matou o próprio Gancho. A fantasia não dispensa a sua lógica e esta é uma ponta solta no novelo de uma história bem urdida.

O confronto entre os dois arqui-inimigos e a derrota de Ravello/Gancho, que adormece agarrado à sua Taça do Colégio de Eton, com a ajuda de um beijo de boas-noites de Wendy, é um final quase apoteótico, e quase tudo o que vem a seguir é dispensável. Mas Geraldine McCaughrean quis ser mais generosa com os adultos do que J.M. Barrie alguma vez o foi. O regresso a casa faz-se em tom de reconciliação entre as mães e os seus meninos perdidos. «Ainda a entrarem para os seus carrinhos de bebé afeitos ao mar, no Recife do Pesar, já as mães tinham começado a polir maneiras e a escovar as roupas.» Rapazes, a brincadeira acabou…

domingo, 27 de Setembro de 2009

PALAVRAS IMENSAS, QUE ESPERAM POR NÓS


Álamo
Aloés
Âmbar
Argonauta
Assombro
Assombrado
Avalanche
Bolota
Bruma
Caleidoscópio
Caruma
Cedro-do-líbano
Desolado
Encavalitado
Escarlate
Estroina
Fleuma
Freamunde
Gabriel
Gata
Hipopótamo
Imaginário
Itapuã
Jacarandá
Jaguar
Livor
Luar
Magnólia
Mágoa
Musgo
Nefelibata
Nuvem
Ossos
Ovo
Pindérico
Plúmbeo
Psicopompo
Quântico
Rododendro
Sacripanta
Salamaleque
Sândalo
Sublime
Tartaruga
Ululante
Veludo
Violeta
Xilofone
Ziguezaguear

(Uma colecção das minhas palavras preferidas. O título do post foi roubado a um poema de Mário Cesariny, “You Are Welcome to Elsinore”. As nuvens passaram na viagem de avião entre Auckland e Kuala Lumpur.)

sábado, 26 de Setembro de 2009

SHINE


"Shine", de Laura Marling (do álbum Alas, I Cannot Swim, 2008).
Fotografia de Guto Ferreira.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

ATÉ JÁ


E com o sentimento do dever cumprido, vou sair e prometo voltar tarde.

SEMANA DOS LIVROS CENSURADOS


O blogue da Bruaá, sempre bem informado, avisa que começa amanhã a Semana dos Livros Censurados, uma iniciativa que contraria o silenciamento moralista imposto nas últimas três décadas a mais de mil obras literárias. Onde? Nos Estados Unidos da América. Foi lá que o primeiro livro de J. K. Rowling (Harry Potter e a Pedra Filosofal, na tradução portuguesa) se tornou o título mais “desafiado” em escolas e bibliotecas, entre 1999 e 2002, ocupando o top da censura. Não se iludam com o termo desportivista. Segundo a American Library Association, quando um livro é “desafiado” (“challenged”) isso quer dizer que um qualquer Zé da Esquina se queixou por escrito à escola ou à biblioteca locais, com o argumento de que “contém linguagem imprópria”, “fala do comunismo num tom favorável”, tem ilustrações “demasiado vulgares ou eróticas” e coisas do género. Está tudo bem se o Zé da Esquina não gosta de determinado livro – é um direito que lhe assiste –, mas algo vai mal quando consegue impor aos outros a estreiteza da sua visão do mundo. Em Julho de 2002, uma estudante e os pais processaram o conselho directivo de uma escola em Cedarville, estado do Arkansas, depois de ouvirem o sermão anti-Harry Potter ditado por uma dessas milhentas igrejas que proliferam à custa da ignorância e da vulnerabilidade das pessoas. Largas dezenas de casos semelhantes são registados todos os anos, com a acusação do costume: as histórias de Harry Potter promovem a bruxaria, o ocultismo, o satanismo e até o uso de drogas. Que dizer de tudo isto? Uma tristeza. Às vezes sinto que vivo num país altamente civilizado, onde não é qualquer Zé da Esquina que vem dizer-me o que devo ou não devo ler. Thank you, God.

(Harry Potter e a Pedra Filosofal é um dos 120 livros mundialmente censurados por razões políticas, sociais, religiosas ou sexuais. Conferir em 120 Banned Books, de Nicholas J. Karolides, Margaret Bald e Dawn B. Sova, ed. Chekmark Books, 2005)

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

UM OUTONO AINDA VERÃO


(…)

"O Outono
é o tempo
em que o sol parece morno."

(…)

E é mesmo. Pelo menos nestes dias.

(O Outono é o Tempo a Envelhecer, texto de Maria Isabel César Anjo e ilustrações de Maria Keil, ed. Sá da Costa, 1981)

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

A TED A DAY KEEPS THE DOCTOR AWAY


Entre os hábitos saudáveis que gostava de aplicar na minha vida, além de prescindir do Nescafé em jejum pela manhã e andar a pé uma hora por dia, estão as palestras do TED. Trata-se de uma organização não lucrativa que reúne centenas de palestras de investigadores de várias áreas do pensamento, da tecnologia à criatividade, das neurociências às artes performativas, da linguística ao desenvolvimento pessoal. TED significa “technology, entertainment, design” – e o lema do projecto, iniciado em 1984, é “ideas worth spreading”. Especialistas mundiais são convidados a expor as suas ideias em público, em comunicações que se pretendem cativantes, consistentes, breves e com humor. Naturalmente, nem todas atingem os píncaros, mas raras são uma perda de tempo. Cada palestra demora em média 20 minutos e há outras de apenas três minutos; todas em inglês, mas muitas traduzidas para várias línguas, inclusive em português. Um grupo significativo de voluntários do Brasil (e também de Portugal) encarrega-se de levar a cabo esta tarefa.

Querem exemplos? Oliver Sacks fala de um certo tipo de alucinações visuais em pessoas cegas. As escritoras Elisabeth Gilbert (Eat, Pray, Love) e Amy Tan (The Joy Lucky Club) explicam o seu conceito de criatividade. A cientista Rebecca Saxe aponta a região do cérebro que lê as mentes dos outros. Ken Robinson questiona o sistema de aprendizagem escolar. Talks Rives conta uma pequena história só com emoticons projectados no ecrã. Marvin Minsky fala sobre saúde e a mente humana. E por aí fora. Numa altura em que meio mundo anda entretido a “esmiuçar” a vacuidade da campanha eleitoral, confesso que prefiro esmiuçar ideias a sério. “Ideas worth spreading”. http://www.ted.com

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

THE BIRTHDAY PARTY



É um dia importante para algumas pessoas. O senhor Nicholas Edward Cave faz hoje 52 anos. Envelhecer em boa companhia é um dos benefícios da fidelidade. Mas para dar valor a isso é preciso ficar velho. Isto parece um anúncio a uma seguradora. Está certo.

O BENEDITO E O BURGESSO


Faltam duas semanas para o lançamento da sequela das histórias de Winnie-the-Pooh e companhia no Bosque dos 100 Acres, de que já tínhamos falado aqui, citando Manuel António Pina. Mais de 80 anos depois da publicação da obra original de A[lan] A[lexander] Milne, Winnie-the-Pooh (1926) e The House at Pooh Corner (1928), a editora australiana Hardie Grant Egmont e os gestores do legado patrimonial de A. A. Milne e E. H. Sheperd (ilustração acima) acordaram na atribuição de uma nova paternidade autoral ao urso que entre nós também é conhecido por Joanica Puff. Prometem uma história escrita “como se tivesse saído da caneta do próprio A. A. Milne”, que será traduzida em cerca de 50 línguas. A sequela intitula-se Return to the Hundred Acre Wood e é assinada por David Benedictus, autor que aparentemente não sofre da angústia da influência. As ilustrações – ou “decorações”, como vem na capa – pertencem a Mark Burgess. Benedictus & Burgess, que dupla… Sim, estamos a ser preconceituosos. Preferíamos que tivessem deixado os bichos em paz.

“Pooh and Piglet, Christopher Robin and Eeyore were last seen in the Forest – oh, can it really be eighty years ago? But dreams have a logic of their own and it is as if the eight years have passed in a day.” Ler o resto da apresentação de David Benedictus aqui.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

UM NOVO HERBÁRIO


De vez em quando ainda se encontrava em feiras do livro, aqui e ali, mas agora é certo: Herbário, um dos títulos mais bonitos da colecção Assirinha, com texto de Jorge Sousa Braga e ilustrações de Cristina Valadas, já está de novo disponível no catálogo da Assírio & Alvim. Um poema:

A alfazema

― Fecha os olhos bem fechados,
e diz-me a que é que cheira.
Cheira a rosa, cheira a nardo,
ou a flor de laranjeira?

― Nem a rosa, nem a nardo,
nem a cravos, nem a cravinas
me cheira este poema.
O que me chega às narinas
é o cheiro a alfazema!

AFAGAR LIVROS, FOLHEAR GATOS


A Maria João Freitas sabe muito bem como trocar as voltas às perguntas difíceis:
“Tenho uma enorme biblioteca fragmentada por divisões para afagar (sobretudo desde que descobri como certos livros ronronam quando a minha mão lhes acaricia a lombada). Não é mentira. Tenho um número respeitável de gatos, que parecem saídos de livros e se passeiam esquivos pelos cantos da casa, para folhear.”

“Gatos & Livros”, um texto para ler sem falta n’A Namorada de Wittgenstein. Em cima, Mr. E., o gato vadio que apareceu na casa de Edward Gorey, no dia em que uma parte dos seus objectos pessoais foram a leilão. A ilustração que acompanha o post da MJF também é de Gorey.

(… e a fotografia foi tirada pelo jardineiro honorário deste blogue, Guto Ferreira, em Yarmouth Port, Cape Cod.)

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

OUTLET BERTRAND


“Livros únicos a preços únicos”. O que quer isto dizer, exactamente, ainda não conseguimos confirmar. Todas as sextas-feiras e sábados, das 10h00 às 20h00, quem quiser investigar o Outlet Bertrand só tem de seguir as setas para a Rua da Anchieta, junto à loja do Chiado. Até 31 de Outubro, livros a partir de um euro.