domingo, 25 de setembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 25


   «Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
   Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.»

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, ed. Relógio d'Água, 2002. Originalmente publicado em 1977.

(Ver todos da etiqueta "O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO na «nuvem» ou aqui)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

COMECEI A DESENHAR PORQUE ERA MÁ ALUNA



Entrevista a Jutta Bauer (com respostas em inglês e legendas em espanhol), Prémio Hans Christian Andersen de Ilustração 2010, que estará este fim-de-semana no Festival Folio, em Óbidos (programa aqui).

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

MARIA TERESA ANDRUETTO EM ENTREVISTA À BLIMUNDA




A argentina Maria Teresa Andruetto, senhora de um profundo e originalíssimo pensamento sobre a escrita e a leitura, foi a jóia da coroa das Palavras Andarilhas deste ano, em Beja. Falámos dela na sequência da atribuição do Prémio Hans Christian 2012 de Literatura, aqui. A Andreia Brites entrevistou-a para a Blimunda de Setembro, que pode ser lida ou descarregada aqui. Copiei três perguntas/respostas para o Jardim Assombrado e permiti-me aplicar uns sublinhados em alguns pontos (em itálico):

AB: Que balanço faz destes últimos trinta anos ao nível da formação leitora na Argentina?
MTA: Desde 1984, quando comecei a trabalhar nesta área, até ao presente houve um desenvolvimento muito grande na formação leitora de professores na Argentina. Também houve um crescimento muito grande da literatura para crianças. Claro que se edita muita porcaria também mas há mais editoras e mais qualidade nos escritores e nos ilustradores e um trabalho maior por parte da crítica. Sobretudo há uma muito maior formação de professores leitores. Há que ver isto de um modo particular: quando digo mais formação estou a pensar em mais inclusão. É muito importante esta diferença: mais quantidade de professores que se formam, maior quantidade de crianças que acedem à leitura nas escolas, porque se trata de escolas públicas. Antes havia uma grande diferença entre algumas escolas privadas, urbanas, de grandes cidades e as escolas públicas de aldeias pequenas e isso mudou. Há muito por fazer, todavia. Há muito para crescer. Temos um governo novo, desde dezembro passado, e não estamos no melhor momento. As pessoas estão a reclamar porque foram suspensos muitos projetos de desenvolvimento cultural, nomeadamente as compras estatais de livros para as escolas públicas de todo o país. Nos últimos dez anos compraram-se 90 milhões de exemplares de livros para as escolas públicas.

AB: E quem escolhe os livros para comprar?
MTA: Em 2008 houve uma mudança que me parece muito importante. Se há uma equipa de cinco pessoas, por mais que sejam excelentes, a selecionar compras milionárias há muita pressão das editoras. Então, em 2008 as pessoas que integravam as equipas de compras de livros passaram a ser à razão de duas ou três por província, professores do secundário e politécnico nomeados para uma comissão de dois meses para ler os livros, com um contrato de confidencialidade para não divulgarem a sua identidade. No total eram 70 pessoas. Isso parece-me que tornou a seleção mais diversificada, não tão urbana, não tão de Buenos Aires, com outras perspetivas e é muito mais difícil encontrar uma maneira de subornar 70 pessoas do que quatro ou cinco. Isso por um lado. Por outro lado, tudo o que se comprou desde 2008 foi para todas as escolas do país, ou seja, uma escola rural na Patagónia recebe o mesmo número de caixas que uma escola de um bairro da capital.

AB: Foi distinguida com o Prémio Hans Christian Andersen, em 2012, o maior na área da literatura infantil e juvenil. No discurso de entrega do prémio terminou dizendo não conseguir, então, compreender o seu alcance. Hoje já conseguiu?
MTA: Às vezes parece que não aconteceu. Hoje reconheço que o prémio me trouxe muitas coisas. Esse foi o alcance que não previ: talvez não estivesse aqui, não tivesse ido a tantos lugares onde me convidaram se não tivesse os meus livros traduzidos em línguas que nunca tinha imaginado. Nesse aspeto houve mudanças mas na minha relação mais profunda com a escrita não, nem tão-pouco com a minha vida pessoal. Talvez porque já tinha uns bons anos. Também porque na América-Latina já tinha muitos leitores e disso estou muito orgulhosa. Comecei a ser conhecida da periferia para o centro. Primeiro na minha cidade, onde agora há muitas editoras mas na altura não. Comecei a publicar em 1993 e em 2003, passados dez anos, descobri que tinha mais leitores do que pensava. Porquê o orgulho? Porque acredito que o escritor constrói os seus leitores, que constrói o tipo de leitores que quer para os seus livros. Nos primeiros dez anos vendia muito pouco. Ganhava prémios mas os editores reclamavam. Stefano chegou a ser devolvido porque não se vendia. As escolas rejeitavam-no porque ali também foi preciso mudar a condição leitora dos professores. Aí começaram a tolerar questões mais complexas. Bom, fui crescendo com os meus leitores e os meus leitores foram crescendo com os meus livros. Quando o Andersen chegou fiquei muito surpreendida porque nunca imaginei ganhar. Quando fui nomeada pela Argentina comemorei, porque, isso sim, considerei um prémio. Comemorei em família e tudo. O prémio não o esperava. Mas agradeço-o, como agradeço tantas outras coisas que a vida me deu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AUDÁCIA E SANGUE-FRIO


Sempre que me pedem uma lista dos livros da minha infância, este não pode faltar: Sandokan - Os Mistérios da Floresta Negra, de Emilio Salgari, uma edição Europa-América traduzida por J. Ferreira a partir do texto integral da terceira edição italiana (publicada em 1903, segundo a nota do editor Francisco Lyon de Castro). Reeencontrei-o há pouco numa feira do livro, a bom preço e em óptimo estado. Fiquei muito admirada quando o li pela primeira vez e não achei o nome de Sandokan nem de Lady Marianne, mas de uma outra dupla romântica e fatal: Tremal-Naik e Ada Corishant, «a virgem do Pagode». Este epíteto causava-me uma grande perplexidade, confesso. «Pagode», ou «estar no pagode», é uma expressão muito usada no Norte, referindo-se às crianças quando estão na brincadeira. Agora, «virgem do Pagode» era muito à frente para os meus escassos oito ou nove anos; só muito mais tarde percebi o que queria dizer. Desta leitura tão marcante resultou também a curiosidade pela deusa Kali e pelas misteriosas Sunderbunds; o arrepio de palavras tão estranhas como «bangaló», «sipaios», «faquir» «brâmanes», «rupias», «tugues», «inexoráveis» e tantas outras; e ainda um fascínio por braceletes como os que envolvem os braços da suavíssima Ada. Ofereçam-me braceletes e juro que me atiro aos tigres com audácia e sangue-frio.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

ATELIER PARA CRIANÇAS COM ANA MOURATO


O Jardim Assombrado é fã do espaço Anagrama - Oficina do Sonhos, um lugar onde se põem ideias a mexer e pessoas a partilhar as coisas boas do mundo, livros e não só. Para estarem a par das actividades, o melhor é seguirem a página no Facebook. No próximo sábado vai lá estar Ana Mourato, psicóloga que dinamiza, desde 2005, projectos que envolvem a literatura para a infância e a psicologia do desenvolvimento, destinando-se a crianças e a adultos. Foi uma das convidadas deste ano das Palavras Andarilhas. Desta vez, o atelier é destinado a crianças dos 4 aos 10 anos e começa às 10h30 (cliquem na imagem para ler melhor). O espaço Anagrama fica na Av. de Berlim, 35C, por baixo de umas arcadas (a melhor referência geográfica que consigo dar é aquele restaurante chinês antiquíssimo, situado do outro lado da avenida). E não duvidem: a Ana Mourato é grande!

Inscrições: anagrama.oficinadesonhos@gmail.com/211966088

terça-feira, 13 de setembro de 2016

MESTRE DAHL NASCEU HÁ CEM ANOS




Odiado por uns, amado pela maioria, Roald Dahl nasceu há cem anos, no dia 13 de Setembro de 1916, em Cardiff. Autor de dezenas de short stories adaptadas para as séries de televisão Contos do Imprevisto e Hitchcock Apresenta, foi como escritor de literatura para crianças que se distinguiu, em parceria com o ilustrador Quentin Blake.

Só na década que precedeu a sua morte, a 23 de Novembro de 1990, venderam-se onze milhões de livros do escritor que um número indeterminado de professores, bibliotecários e críticos classificou como «não recomendável». Depois de morrer, em Oxford, aos 74 anos, feito o diagnóstico de leucemia e uma vida inteira de dedicação aos cigarros, álcool e analgésicos, Roald Dahl continuou – até hoje – a suscitar as mais antagónicas reacções.

Nos Estados Unidos, país onde se estreou literariamente com uma narrativa de não-ficção sobre a sua experiência como piloto da RAF (publicada na Saturday Evening Post, em 1942), Dahl é agora irreconciliável com os tempos do politicamente correcto. O seu humor selvático, sustentado numa predisposição intrínseca para a ironia e para o grotesco, atinge especialmente os personagens de adultos, muitas vezes retratados como bárbaros estúpidos e capazes das maiores vilanias contra os mais fracos. Veja-se o casal de Os Tontos (The Twits), Mrs. Trunchbull, a directora de escola em Matilde (Matilda), ou esse desfile de horrores carnavalescos que é As Bruxas (The Witches), uma das suas obras mais polémicas.

A enredos de estrutura transparente, consistindo no reavivar da luta mítica do herói contra o Mal, Roald Dahl acrescentou a singularidade da sua imaginação e a sua memória obsessiva (e o bom trabalho dos seus editores, justiça lhes seja feita). Nos seus livros não há sentimentalismos, mas há afectos e emoções intensas. Nascido em Cardiff, no País de Gales, de pais noruegueses, «vinha de uma família de bons cozinheiros e bons contadores de histórias», como lembra um dos seus biógrafos, Jeremy Treglown. A mãe foi, segundo o próprio, «a primeira influência», ampliada pelo desaparecimento prematuro do pai e de uma irmã, quando ele tinha apenas três anos.

Repetindo o padrão familiar, uma série de acontecimentos trágicos acompanharia a vida pessoal de Roald Dahl, ao longo dos trinta anos conturbados de casamento com a actriz Patricia Neal. Também a experiência dos colégios internos ingleses, com os seus castigos sádicos e permanente clima de bullying, lhe deixou marcas indeléveis. No entanto, muitos dos seus heróis e heroínas – quase sempre crianças – são animados por um espírito combativo e industrioso, expurgado do narcisismo e arrogância de que o autor era acusado, entre outros defeitos. O «gigante amigo», citando um dos seus livros mais felizes, O GAG (The BFG), podia não ter o melhor feitio e carácter do mundo, mas deixou-nos grandes livros, à imagem dos seus quase dois metros de altura.


(Não costumo reeditar textos no blogue, mas creio que este se justifica. Saiu na edição nº 96 da LER, em Novembro de 2010.)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O REGRESSO DE BEATRIX POTTER



Se excluirmos o merchandising e algumas adaptações simplificadas, como é a tendência editorial das últimas décadas (o caso de Enid Blyton é um dos mais visíveis e desgostantes), há muito tempo que Beatrix Potter andava sumida dos escaparates. A coleção Pedrito Coelho, publicada pela Verbo no início da década de 1990, é quase uma relíquia; já fazia falta uma edição que preenchesse esse vazio de forma sistemática.

Até ao final de 2016, a Pim! Edições, chancela resultante da parceria Europress/Ponto de Fuga, vai publicar mais três volumes dos contos de Beatrix Potter (1866-1943), aproveitando o embalo das comemorações dos 150 anos do seu nascimento. O primeiro tomo saiu neste verão, contando com seis das 23 histórias de animais antropomorfizados, tal como foram lidas entre 1902 e 1930. Não é um trabalho feito ao acaso. À nova tradução de Eugénia Antunes e Paulo Rêgo soma-se o cuidado posto na opção por capa flexível e formato reduzido, a pensar nas «mãos pequenas» das crianças, como desde o início pretendeu a autora.

A tradução dos textos canónicos da literatura para a infância é uma questão inesgotável, pelo menos enquanto houver clássicos a entrar no domínio público e, logo, a possibilitar várias versões do mesmo texto. Resta saber que leitores beneficiam com essas versões reescritas por outros autores, a partir do momento em que o texto original é cortado e simplificado, quer na sua estrutura sintática e vocabular, quem nas suas crescentes camadas de interpretação. 

(...)

[Mais na próxima edição da LER, que deve estar quase, quase aí a chegar...]

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CITY-BREAKS: OVAR


E já estamos de abalada para o II Festival Literário de Ovar, que este ano tem muitas coisinhas boas (como diria o Bruno Nogueira) para quem gosta da literatura para os mais novos. Para consultar o programa ou ler uma síntese, veja-se o post anterior. Darei conta do que se vai passando na minha página do Facebook, mais prático e rápido do que o blogger-comboio-de-torresmos. Au revoir!

(A fotografia é da edição do ano passado, com o Carlos Nuno Granja, bem-disposto organizador e anfitrião.)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

2º FESTIVAL LITERÁRIO DE OVAR


Começou ontem e prolonga-se até domingo, com uma programação especialmente interessante para quem gosta de literatura infantojuvenil. No sábado de manhã (11h00), José Fanha encontra-se com Cidália Fernandes para debater o tema «A literatura para a infância: o primeiro impulso para a literacia». A moderação é da jornalista Rita Pimenta. À tarde (15h00), com moderação de Ivo Machado, conversa-se sobre poesia: Rita Taborda Duarte, Maria João Cantinho e Cláudia Lucas Chéu («A poesia: misto de realidade e fantasia»). No domingo de manhã (11h00), Manuela Castro Neves e João Pedro Mésseder conversam sobre «A escrita poética na criação de novos leitores», numa mesa moderada por Ana Margarida Ramos. Pelo meio, sempre no Jardim Cáster, há apresentações de livros e workshops de ilustração com Rachel Caiano e Cátia Vidinhas. A fechar o domingo, lá estarei para moderar o último debate, às 17h00, com os escritores Ana Margarida de Carvalho, Possidónio Cachapa e Pedro-Guilherme Moreira. A pergunta que vai estar em cima da mesa: «Como se defende o autor dos lados obscuros da trama?». A programação completa está aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

ACEITAR QUE NÃO VEMOS, SÓ TATEAMOS


«Não consigo separar a sabedoria do amor; a sabedoria é uma inteligência, uma ciência, uma arte, mas é tudo isso como uma forma de amar. Quando pensamos na grande sabedoria, pensamos naqueles que, vivendo a grande depuração que o tempo opera em cada um de nós, são capazes de conservar uma inocência, uma pureza, um afeto. É sempre necessária uma porção muito grande de amor para chegar à sabedoria.

S. Paulo, no momento da conversão, ficou cego para começar a ver. A cegueira é uma metáfora de uma outra visão. É necessário um apagamento, um corte. Quer a experiência da tradução quer a da criação literária nasce de um corte primordial, que é muitas vezes a contemplação do mundo, o espanto perante o real. Esse corte obriga-me a ver as coisas de outra forma. Há que apagar o modo imediato, comum, mais óbvio e aceitar a escuridão, aceitar que não vemos, só tateamos.»

(Da maravilhosa intervenção de José Tolentino Mendonça na recente Festa do Livro em Belém. Para ler na íntegra na Pastoral da Cultura.)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O AR E OS SONHOS


«Foi ela quem fez as malas. Foi ela quem escolheu ir. E escolher já é metade do movimento, é aragem.» As ilustrações sempre elegantes de Fátima Afonso, premiadas com uma menção honrosa do VII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, dão corpo a uma prosa poética que metaforiza o tema da viagem, do movimento e da liberdade. 

Sonho com Asas
Teresa Marques
Fátima Afonso (ilust.)
Kalandraka 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CADA VEZ MAIOR


«Certa manhã, ao acordar, o Samuel deu por si na cama transformado num gigantesco hipopótamo.» Se este começo faz lembrar A Metamorfose, não é por acaso. Uma paródia genial ao mestre Kafka, recriando a estranheza e as dores do crescimento.


Tão Tão Grande
Catarina Sobral
Orfeu Negro

domingo, 4 de setembro de 2016

SIZA VIEIRA, O BICHO-ARQUITECTO


E vão onze. Este já estava escrito há algum tempo e a aguardar calendário para publicação. É uma biografia para os mais novos de Álvaro Siza Vieira, que completou 83 anos neste Verão, inserida na colecção «Chamo-me...» (Didáctica Editora) e com ilustrações de João Concha. Escrevi-a com um certo peso na consciência por não perceber nada de arquitectura, mas entre os nomes biografáveis tinha mesmo que escolher alguém de Matosinhos. Começa assim:  

«Sabes o que é um arquitecto? Se fores procurar o significado da palavra ao dicionário (eu sei que sabes, mas procura na mesma) vais poder ler, por exemplo, que um arquitecto é alguém «que projecta ou dirige construções de edifícios». OK, até aqui é fácil. Começas logo a pensar em cidades, casas, fábricas, estádios de futebol, centros comerciais e esse género de lugares por onde passa sempre muita gente. Inclusive tu. Mas logo a seguir o mesmo dicionário diz que um arquitecto «é o que projecta ou idealiza qualquer coisa». Hum… Parece mais interessante.

Projectar ou idealizar quer dizer dar forma concreta a uma ideia que passa pela nossa cabeça e fica lá o tempo suficiente para não ser varrida por outra ideia qualquer. Portanto, se calhar, todos podemos ser arquitectos à nossa maneira, já que todos sabemos usar a cabeça, certo?

Lembras-te de quando eras muito pequeno e tentavas encavalitar cubos de madeira uns nos outros? Não? Espera lá, talvez os cubos de madeira não sejam brinquedos do teu tempo… Mas lembras-te, com certeza, das construções de legos. Ora aí está! Podemos ser arquitectos de brinquedos. E já viste alguém bater claras de ovo em castelo até elas ficarem completamente brancas e tão leves como bocados soltos de nuvens? Pronto, é isso. Também podemos ser arquitectos de bolos.

Agora vou dizer-te uma coisa que talvez te deixe surpreendido, mas juro-te que está escrita no meu dicionário. É incrível, mas aqui diz que um arquitecto pode ser «Deus». Hã?! Como é que é isso? Um «arquitecto» pode ser sinónimo de «Deus»? Hum… Isto parece ainda mais interessante. Quer dizer que, no fundo, um arquitecto é um criador. Bom, eu prometo-te que vamos voltar a este assunto, mas, para já, há algumas coisas que te quero contar sobre mim.»

terça-feira, 23 de agosto de 2016

UMA ESPÉCIE DE PARAÍSO




-->A 3 de Julho de 1946, era inaugurada a primeira exposição internacional de livros para crianças, que estaria na base da construção de um projecto maior: a Biblioteca Internacional da Juventude, sediada em Munique. A ideia partiu de Jella Lepman, alemã de origem judia que fugiu ao regime hitleriano para se exilar voluntariamente em Londres. Terminada a guerra, regressou ao país a convite do exército dos Estados Unidos, uma das potências ocupantes. Na Blimunda de Agosto conto um pouco desta história que tem tanto de pessoal como de universal. Talvez por isso tenha funcionado tão bem. Um excerto do artigo:
 
«Talvez esse sentimento de não-pertença tenha contribuído para fazer emergir uma visão de futuro, assente num idealismo com os pés na terra. Podemos apenas especular. Porém, o desejo [de Jella Lepman] foi formulado sobre alicerces bem concretos: que a literatura infantojuvenil pudesse ser um território comum para todas essas crianças das ruínas, ávidas de comida e, nas suas próprias palavras, de «alimento espiritual». O alcance visionário desta ideia consistiu em imaginar que os livros pudessem chegar de todas as partes do mundo e ser uma ponte entre as muitas culturas da infância. Ainda hoje é assim.»

(A revista Blimunda, editada pela Fundação José Saramago, pode ser lida aqui, em versão online ou para download. «Biblioteca Internacional da Juventude - Uma espécie de Paraíso» começa na página 45.» Copyright das fotografias: Biblioteca Internacional da Juventude.)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

UM MINUTO E MEIO





Sei que não é a melhor altura do ano para postar estes videos (camisola de gola alta... ai!), mas foram feitos há uns meses e só agora os vi. Um minuto e meio para falar do Irmão Lobo e do Amores de Família, com legendas em inglês. Uma produção da Bookoffice.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

IRMÃO LOBO A BANHOS


«Conhecemos nessa família uma miúda de oito anos (a mais nova de três irmãos) que, em processo de sobrevivência emocional face à inesperada situação, emana de si um esforço de compreensão e de maturidade alternados com uma doce ingenuidade criativa, num mundo quotidiano onde ela própria cria e constrói os seus cenários imaginários, nos quais dá outros nomes às personagens de quem depende e que giram à sua volta, entre elas, o seu cão-lobo, um husky. É um livro para todas as idades, uma história onde o final é, afinal, apenas um recomeço, um outro caminho, uma vida inteira pela frente.»

(Margarida Teodora Trindade, directora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas, escreveu uma bela crítica ao Irmão Lobo e recomenda-o no jornal Mediotejo.net, na rubrica «Passe pela biblioteca». O texto completo está aqui.) 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A SENHORA CLAP VAI AO BRASIL


A Senhora Clap é um livro que fica mesmo bem em palco. Não sei o que pensa a Marta Duque Vaz, autora deste originalíssimo texto ilustrado por Alexandre Esgaio e editado pela Planeta, mas não importa assim tanto (ou importa?) que a adaptação para a linguagem cénica se dê no Brasil e não em Portugal. Porque é que o público de Lisboa ou Porto ou Braga ou Viseu há de ser mais importante do que o do Rio de Janeiro? A arte é universal e o que importa é que o texto circule e seja reconhecido, penso eu de que. O Jardim Assombrado, que escreveu sobre o livro aqui, aplaude as afirmações Cadu Cinelli, director artístico da peça com estreia marcada para 3 de Setembro:

"São tempos estranhos que a gente vive", reconheceu, falando num "golpe da nova democracia" no Brasil e assumindo que o espetáculo "O tratado da Senhora Clap" é, de certa forma, uma reação ao "estado de política tão sombrio e temeroso" que hoje se vive no Brasil.
"Acho que a gente precisa se repensar enquanto artista, enquanto cidadão, enquanto ator político, e ver qual o nosso papel", sustentou.

Leiam o texto no Notícias ao Minuto

sexta-feira, 29 de julho de 2016

LEITORES EM FÉRIAS


Para as crianças, as leituras de férias devem estar associadas ao tempo livre, à partilha de experiências com a família e amigos, ao usufruir das coisas significativas da vida. Esqueça, por umas semanas, os programas e as metas escolares. A meta mais importante passa por se conhecerem, ter curiosidade por tudo e procurar ligações menos óbvias na diversidade do mundo. Os bons livros fazem parte do caminho. 

Ler as minhas «7 dicas para incentivar a leitura nas férias» no site da Porto Editora. Aqui.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

FESTIVAL WHITE RAVENS: DEPOIS DE MUNIQUE, 2


Porque «isto anda tudo ligado», a reportagem de Raquel Marinho que passou no Jornal da Noite do último domingo (SIC) transportou-me para a escola secundária E.T.A. Hoffmann, em Bamberg, na Baviera. As artes plásticas, a música e as línguas estão no centro dos interesses dos alunos que a frequentam. Por todo o lado, vêem-se pinturas e outros trabalhos artísticos feitos por eles. Lá fora, num dos relvados, há um espaço comum onde decorrem as «green classes», aulas dadas ao ar livre. A atmosfera é descontraída, os miúdos interessados, os professores também. É uma escola pública onde o estímulo à autodescoberta pela linguagem da arte (das várias artes) transparece imediatamente, o que só é possível quando se compreende que a arte e a cultura não são para uma elite endinheirada e/ou esclarecida. O sistema escolar actual, importado do século XIX e martirizado pela «papelada» e pelo vazio de ideias de longo prazo, vai continuar a alimentar escolas onde crianças e adolescentes não são convocados para algo que lhes diga respeito; algo que toque as suas vidas, a sua realidade, a sua urgência de expressão interior. É aí que os radicalismos começam a tomar forma, alimentados pela propaganda fácil via internet e pela ausência de uma rede que ampare o medo e a angústia.

Na extraordinária reportagem de Raquel Marinho, «Quando estou a cantar não estou preso», percebemos como «a arte pode ser veículo de mudança, e de que mudança». Ao longo de três anos, sob a orientação do maestro Paulo Lameiro e de cantores profissionais, 23 reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria aprenderam a cantar a ópera Don Giovanni, de Mozart. «É um projecto apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que faz parte do Programa Partis, cuja ideia é a integração através da arte», explica a Raquel na sua página do Facebook.

No início do projecto, foi o riso e a estranheza; depois, a entrega e uma mudança de olhar: quem dera que na rua tivessem aprendido a cantar. Para compreender, é preciso experimentar. A dado ponto, diz um deles: «É uma história da vida dos rapazes. Não é de todos os rapazes, mas é, basicamente, a nossa vida. É um bocado de... mulheres... e como ele [Don Giovanni] tem o seu empregado que tenta comer os restos.» E mais adiante: «Há muitos de nós que se dizem Don Juans, mas somos todos Leporellos.» É muito difícil conseguir um trabalho jornalístico tão equilibrado entre a emoção e a contenção. Parabéns à Raquel Marinho e a toda a equipa.

(A reportagem «Quando estou a cantar não estou preso» pode ser vista aqui. Na segunda-feira, foram tema dos Sinais, de Fernando Alves, na TSF.)

domingo, 24 de julho de 2016

FESTIVAL WHITE RAVENS: DEPOIS DE MUNIQUE, 1


Quando eles chegaram às portas da Biblioteca Internacional da Juventude, na manhã de quinta-feira, último dia do Festival White Ravens, houve quem pensasse: «Oxalá não sejam estes.» Mas eram. Miúdos de 13 anos vindos de uma das escolas problemáticas de Munique, situada na base da pirâmide do sistema escolar alemão. Alguns descendentes de emigrantes; refugiados, talvez, mas não tínhamos como confirmá-lo. Entraram na sala sem alegria nem espalhafato e sentaram-se nas cadeiras dispostas em círculo; rapazes de um lado, raparigas do outro. A professora deu-me um aperto de mão frouxo, sorriu ligeiramente e não disse nada. Começámos. Durante uma hora e meia, virei-me do avesso para lhes provocar um sorriso, um comentário, um olhar vivaz. Ao meu lado, o Jochen Weber fazia a tradução do inglês para alemão e a actriz Sandra Schwittau lia em voz alta os capítulos escolhidos do Bruder Wolf. Três ou quatro rapazes fizeram perguntas; as raparigas mantiveram-se em silêncio, fechadas naquela amálgama de timidez, enfado e desconfiança. Tentaram perceber o título do livro: Irmão Lobo. Um deles disse que o lobo era um animal forte e selvagem («e um irmão é alguém que nos protege», acrescentei). Também lhes fiz perguntas: quem eram os heróis deles, quem os inspirava, quem lhes dava forças? Um dos miúdos, a escorregar de sono na cadeira, falou em Cristiano Ronaldo. Contei-lhe tudo o que sabia sobre Cristiano Ronaldo e disse-lhes que para mim também ele era um herói (não menti). Outro miúdo disse que não tinha heróis, que não precisava, que se bastava a ele próprio. Perguntei-lhe se se sentia sozinho no mundo, mas não respondeu. Não quis ou não soube. Nós, os adultos da geração Christiane F. e do «nuclear, não obrigado», ficámos ali a digerir aquele vazio. No dia seguinte, pelas seis da tarde, no centro de Munique, um rapaz pouco mais velho matava nove pessoas, sete das quais adolescentes. Apesar das suspeitas iniciais de ligação a grupos terroristas, soube-se depois que também se bastou a ele próprio. «Um lobo solitário», chamaram-lhe.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

4º FESTIVAL WHITE RAVENS, 2


Amanhã vou estar aqui, em Munique, no Castelo de Blutenburg, onde desde 1983 se encontra a maior colecção de livros infantojuvenis dos últimos 400 anos... Na edição da Blimunda de Abril há um belo artigo de Andreia Brites sobre a biblioteca idealizada pela jornalista e escritora Jella Lepman, em 1945, durante o deserto emocional do pós-guerra, como tentativa de resposta a uma ferida indelével. São mais de 610 mil livros em 130 línguas, uma mistura de Babel e Alexandria, eu sei lá. Sinto-me como se estivesse a olhar para o céu, sem saber como vou conseguir contar as estrelas e por onde começar. Espero que não me dê um treco quando chegar, porque não é todos os dias que os sonhos se cumprem (a última foi há 13 anos, quando viajei sozinha pela Nova Zelândia). Já tinha dado muitas voltas à cabeça, a imaginar como é que raio eu ia conseguir entrar neste palácio encantado, de preferência sem me endividar, e eis que tudo acontece num ápice. A publicação do Irmão Lobo em alemão deu origem ao convite para estar na edição deste ano do Festival White Ravens, ao lado de mais 13 escritores e ilustradores de 11 países: Alemanha, Áustria, Arábia Saudita, Dinamarca, Estónia, Estados Unidos da América, França, Grã-Bretanha, Holanda, Portugal e Rússia. Vamos fazer centenas de quilómetros entre Munique e outras cidades da Baviera. Vai ser uma loucura. Vai ser uma canseira. Vai ser fantástico.

Porque os sonhos não se cumprem sozinhos, quero agradecer do coração à Isabel Minhós Martins e à equipa da Planeta Tangerina, que editou o Irmão Lobo; ao António Jorge Gonçalves, pelas suas preciosas ilustrações; à equipa da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, que tanto tem apoiado a edição e a ilustração portuguesa no estrangeiro; à Helga Preugschat, que se bateu pela edição alemã do Irmão Lobo na editora Fischer Sauerlander; à Claudia Stein, por todo o cuidado posto na tradução; ao Jochen Weber, da Biblioteca Internacional da Juventude, que tem sido impecável na organização; aos meus incansáveis agentes da Booktailors; ao José Oliveira, meu primeiro editor na Caminho e também a primeira pessoa a quem falei desta história; à minha família, aos meus amigos e a todos os que, de uma forma ou de outra, acreditam em mim e me incentivam, hélas, a continuar a escrever. E aqui, desculpem, mas já não escrevo nomes porque ficava aqui o resto da noite, e tenho ainda uma mala para fazer e a areia dos gatos para mudar.

Se o tempo e as condições tecnológicas o permitirem, vou relatando o que se passa no Festival White Ravens na minha página do Facebook e no Jardim Assombrado. Até já! Wish me luck!

Todos os autores participantes no Festival White Ravens aqui.

4º FESTIVAL WHITE RAVENS, 1


Começa amanhã! A quarta edição do Festival White Ravens, nome inspirado no catálogo anual dos melhores livros publicados em todo o mundo, é um grande acontecimento em Munique e em dezenas de cidades da Baviera. Este ano, os 14 escritores e ilustradores convidados desdobram-se em workshpos e encontros com leitores de todas as idades, num total de 90 eventos agendados em escolas, bibliotecas, teatros e outros lugares públicos, incluindo o belíssimo Castelo de Blutenburg, sede da Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique. Países representados nesta quarta edição: Alemanha, Áustria, Arábia Saudita, Dinamarca, Estónia, Estados Unidos da América, França, Grã-Bretanha, Holanda, Portugal e Rússia. Se querem conhecer os autores e saber quem vai representar o nosso «petit pays» cliquem aqui. ;-)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ELENA FERRANTE PARA CRIANÇAS?


Depois de ler A Praia de Noite, um texto de Elena Ferrante com ilustrações de Mara Cerri, fiquei com muitíssimas dúvidas sobre a sua adequação ao destinatário infantil. Não tenho como tirar a prova, mas não creio que este imaginário mórbido, grotesco e escatológico seja atraente para uma criança. A história da boneca esquecida na praia, pejada de tópicos emocionais ferrantianos (abandono, medo, prepotência, solidão, maldade, desajuste...) provocou-me uma «inquietação incómoda» a partir do momento em que me imaginei a lê-lo para uma criança ou a lê-lo enquanto eu-criança. Sem pôr em causa a qualidade literária, evidentemente (ferrantiana me confessei neste post do Jardim Assombrado), o problema é que vamos encontrar A Praia de Noite na secção infantojuvenil das livrarias... e enquanto não se assumir a viabilidade de um escaparate denominado «livros ilustrados para adultos», ou algo parecido, estamos expostos a este tipo de equívocos. Aliás, muito comuns.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

PRÉMIO NACIONAL DE ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA


A vigésima edição do Prémio Nacional de Ilustração foi arrebatada (é o termo) por um livro sem texto: Dança, de João Fazenda, com edição da Pato Lógico. As duas menções especiais foram para Verdade?!, de Bernardo P. Carvalho (da mesma colecção da Pato Lógico) e Gato Procura-se, ilustrado por Yara Kono, com texto de Ana Saldanha. As restantes menções e a composição do júri estão referidas na notícia da DGLAB. Este ano, concorreram ao prémio 98 livros (publicados em 2015) e 67 ilustradores. Parabéns a todos e especialmente aos vencedores!

Sobre Dança e Verdade?! escrevemos aqui.

sábado, 9 de julho de 2016

JÁ OUVIRAM A RADIOTECA?


Penalizo-me por nunca ter ouvido a Radioteca, um programa da RUC - Rádio Universidade de Coimbra conduzido por Inês Nascimento Rodrigues. Nesta edição, inteiramente dedicada à literatura infantojuvenil, Miguel Gouveia, editor da Bruaá e uma das vozes mais esclarecidas e independentes do «meio», dá uma entrevista imperdível em que se fala de quase tudo: a ditadura da novidade; plano de negócios vs. paixão pelos livros; os tiros no escuro e os tiros ao lado da edição; os equívocos dos famosos; o trabalho de arqueólogo do editor; os editores que abriram caminho na LIJ; o catálogo sui generis da Bruaá e as vendas de direitos para o estrangeiro... etc, etc. E ainda o anúncio, em primeira mão, o próximo título da Bruaá, com assinatura de Walter Benjamin! 

Muito gentilmente, a Inês convidou-me a falar dos livros da minha vida, o que me «obrigou» a traçar um percurso sinuoso que começa no Atlas do Nosso Tempo, das Selecções do Reader's Digest, e no Cândido, de Voltaire, e segue por ali fora até acabar nas Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Pelo meio, Gilles Lapouge (Os Piratas), Michel Onfray (Teoria da Viagem), Marguerite Duras (O Amante), Patti Smith (Apenas Miúdos), Bachelard (Poética do Devaneio) e muitos outros que fazem parte da minha deriva leitora.

Link para a emissão completa em podcast.

Link para "Os Livros da minha Vida".

sexta-feira, 8 de julho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 9: OS BEBÉS DA ÁGUA


Publicada em 1863, numa crítica implícita à Revolução Industrial, a obra maior de Charles Kingsley faz parte do cânone da literatura para crianças. Um «conto de fadas para um bebé terreno», chamou-lhe o autor, apresentando o seu herói na primeira frase: «Era uma vez um pequeno limpa-chaminés que se chamava Tom.» O que começa por soar como uma intriga dickensiana (as aventuras de Oliver Twist tinham surgido três décadas antes), reveste-se de contornos mágicos quando aparece uma certa figura feminina: a mulher irlandesa que se revelará como «a rainha de todas as fadas, e talvez do que está para além delas». Ao imprimir a sua subjetividade e expor uma visão do mundo em que se cruzam as ideias do Socialismo Cristão, do misticismo das folktales e da fé nas conquistas da ciência, Kingsley produziu uma obra tão excêntrica como ele: um homem capaz de acreditar, simultaneamente, nas teorias revolucionárias de Darwin, de quem era amigo, e ser capelão da devota Rainha Victoria. Sem reprimir um exorbitante e arrevesado simbolismo, bem como comentários críticos aos seus contemporâneos e muitas deambulações filosóficas, Os Bebés da Água leva-nos por caminhos intrigantes, em que as notas do tradutor Júlio Henriques fornecem pistas valiosas. Uma edição da Tinta-da-China.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 8: A ILHA DO TESOURO



Se há razões que explicam a qualidade perene e universal de um romance de aventuras publicado em 1883, A Ilha do Tesouro (Civilização Editora), uma delas prende-se à pulsão lúdica própria do ser humano, ao seu desejo de ensaiar e repetir o jogo, instituído como um fim em si mesmo e, por isso, livre de regras e de retórica. No fundo, a pirataria. Sobre um género em voga no seu tempo, Robert Louis Stevenson aplicou o estilo de narrar enérgico e expressivo, sempre comprometido com a ação, sem maneirismos e moralismos de época. Ao mesmo tempo, divertia-se (é lícito pensá-lo) a construir personagens dotadas de tal graça e manha que não desdenharíamos conhecê-las. É reconfortante saber que boa parte delas foram inspiradas em amigos e conhecidos do autor... Obedecendo à sua moral peculiar, Stevenson, um cavalheiro escocês que sempre gostou das más companhias, fará os possíveis para nos confundir, juntando no mesmo barco aparentes virtuosos como doutor Livesey e requintados sacanas como Long John Silver. Chegaremos a decifrá-los? Ganharemos a compreensão profunda destes personagens, das suas motivações e comportamentos? Todo o romance é um jogo de escondidas; e o pacto estabelecido com o leitor não ficará completo sem que este se atreva a perder, porque saber perder também é uma das finalidades do jogo. Nada de grave: os derrotados dão boas histórias.

terça-feira, 5 de julho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 7: MOMO


Publicado originalmente em 1973, quando nascia a última geração autorizada a brincar na rua, Momo é um romance portador dessa qualidade premonitória que a boa literatura tem o dom (ou a maldição) de revelar. Escreveu-o Michael Ende (1929-1995), para no ano seguinte ganhar o prestigiado Prémio de Literatura Juvenil Alemã pela segunda vez. Em Portugal, conheceu a sua primeira edição em 1984, ano orwelliano. Não podia ter calhado melhor: Momo é uma distopia do tempo em que as distopias juvenis não estavam na moda: cidades onde as crianças não podem brincar, adultos consumidos pelo tédio e pelo trabalho repetitivo, o mundo dividido em párias e seres produtivos, celebridades espremidas até ao tutano, bairros tristes e montanhas de lixo nos arrabaldes. Um livro bem pensado e bem escrito, sem peripécias em exagero a intoxicar o leitor incauto e com cuidadas passagens descritivas que deixam muito lugar à imaginação. Momo é o nome da heroína da história, uma menina capaz de entender o que é o tempo. Só ela poderá interromper o plano inexorável dos «senhores cinzentos», para quem tempo é dinheiro. Ao que parece, alguns foram esquecidos e ficaram para semente. Momo é uma reedição da Presença, com tradução de Maria Margarida Morgado.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

VISTAS MUITO ALEGRES


A partir de hoje, o Museu da Vista Alegre, em Ílhavo, recebe a exposição da Ilustrarte 2016, que se prolonga até 1 de Outubro. E ainda Serge Bloch e os fantásticos cartoons de António, em duas exposições temporárias. Há oficinas para crianças, inseridas no serviço educativo, e conversas com escritores e ilustradores. Hoje, às 21h00, com Valter Hugo Mãe. Amanhã, às 18h00, com João Vaz de Carvalho, Marta Madureira e moi-même. Tema: «Outros modo de ler - texto e imagem na edição para a infância». A moderação é de Adélia Carvalho e Nuno Barra. A entrada é livre. Apareçam, que o programa é mesmo bom! Está tudo aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

BLIMUNDA: 4 ANOS DE CLARIVIDÊNCIA


Nascida na Fundação José Saramago, em Lisboa, a Blimunda fez quatro anos este mês. Para quem não sabe, é uma revista digital, gratuita, mensal (inclusive em Agosto) e dedicada à cultura na sua vasta expressão, com destaque para a literatura de todos os géneros, mas também à «música, futebol, dança, fotografia, artes plásticas, exposições, viagens, cinema», como recorda o editorial. Face ao esboroamento do jornalismo cultural tal como o conhecíamos antes da internet e das fusões empresariais, é preciso lembrar que há quem insista em dar o seu melhor. E isso consegue-se trabalhando muitas horas, escrevendo e reescrevendo, procurando ângulos, pessoas e temas fora do mainstream, aplicando o conhecimento adquirido sem perder de vista o essencial: comunicar. Aqui tenho de falar da minha dama: a literatura infantojuvenil e a ilustração têm sido muito bem tratadas pela Blimunda. Quem quer estar informado sobre esta área não pode deixar de ler os textos da Andreia Brites e da Sara Figueiredo Costa. O design gráfico do Jorge Silva explora o melhor uso do suporte digital, deixando sem argumentos até aqueles que continuam, hélas, a preferir ler em papel. Mas fora da caverna há mais luz. A entrevista de Pilar del Rio a José Saramago fala-nos disso mesmo. Um excerto:

Pilar del Rio: As personagens de A Caverna rebelam-se. É necessária rebeldia para sair da caverna?
José Saramago: A Caverna é uma história de perdedores cuja única vitória consiste em que não se entregam ao triunfador. É a rebelião possível mas sem ela não poderá haver outra. A derrota definitiva seria a submissão, e ainda assim não devemos esquecer que as gerações se sucedem, mas não se repetem. Assim como de insubmissos podem nascer submissos, também dos que se submeteram poderão nascer os que se revelarão.

PdR: Neste romance introduzem-se dois elementos novos na sua obra: a família e a ternura. Crê que estes conceitos são importantes para que algo se modifique para melhor?
JS: Não tenho ilusões sobre a família como instituição. A família é lugar de crimes, traições e vilanias, tanto como qualquer outro grupo humano. Mas continuo a acreditar no poder regenerador da bondade pessoal e da ternura. A casualidade quis que em A Caverna se reunissem quatro pessoas boas e um cão não menos bom, ainda que a realidade, sabemo-lo por experiência, demasiadas vezes seja diferente.

PdR: Há uns meses em Santander disse que «quanto mais velho mais sábio, quanto mais sábio, mais radical». Não foi só uma frase de efeito
JS: Não me lembro se a frase dita em Santander era exactamente assim. Seja como for, parece-me que fica mais clara a ideia se digo que quanto mais velho me vejo, mais livre me sinto e mais radicalmente me expresso. Não se trata de uma frase de efeito, é uma verificação de todos os dias. As palavras que com mais frequência me digo são estas: «Não te permitas nunca seres menos do que és».

quarta-feira, 29 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 6: A MINHA CIDADE


Com o turismo de massas a tornar as cidades irreconhecíveis, surgem ideias em contracorrente. Embora algo inclassificável, A Minha Cidade é um projeto coerente com a linha editorial da Pato Lógico de André Letria (isto como quem diz «o Real Madrid de Cristiano Ronaldo»). Desde o início, a aposta passou por autonomizar o trabalho dos ilustradores e desafiá-los a serem contadores de histórias. Explorar as dinâmicas narrativas sem o suporte do texto de um escritor começou com a coleção Desconcertinas, do próprio André Letria, e ampliou-se com a coleção Imagens que Contam, à qual se juntou o álbum de Teresa Cortez, Balbúrdia. Desta vez, estamos perante um «objecto-livro-mapa» concebido para usufruto em dois tempos: primeiro, na leitura imediata das imagens e textos que compõem o itinerário urbano traçado pelo ilustrador; segundo, na vivência empírica que o leitor poderá seguir, in loco, de cada um dos doze sítios selecionados para o formato desdobrável. Os dois primeiros títulos, dedicados a Beja e a Edimburgo, são assinados, respectivamente, por Susa Monteiro e Marcus Oakley. Madrid e Huesca, ilustrados por Manuel Marsol e Isidro Ferrer, deverão sair em 2017. «Cidades do mundo para desdobrar e descobrir pelos olhos, mãos e pés dos ilustradores que as habitam.» Boas viagens!

terça-feira, 28 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 5: FINALMENTE O VERÃO


Finalmente o Verão, de Mariko Tamaki (texto) e Jillian Tamaki (ilustração), duas primas de ascendência japonesa nascidas no Canadá, é o quarto título publicado na colecção Dois Passos e um Salto, «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», como desde o início foi apresentada pela editora Planeta Tangerina. Nada de equívocos, portanto. A linguagem explícita que aqui aparece é até bastante soft, se comparada com alguns «diálogos» avulsos que captamos na rua ou perto de qualquer escola secundária. Se há pais, professores, livreiros e adultos em geral que preferem olhar para os adolescentes como se os pudessem conservar num frasco de formol delicodoce, talvez seja porque se esqueceram dessa época bruta, incerta, confusa e sempre angustiante que se sucede à relativa previsibilidade da infância. Finalmente o Verão tem tudo a ver com isso e muito mais.

A maternidade é um dos temas que atravessam o livro de uma ponta à outra - e esta noção de «travessia» é, em si mesma, estruturante do ponto de vista narrativo. Primeiro, a travessia da família Wallace para a zona dos grandes lagos, um lugar idílico chamado Awago Beach onde desde há muitos anos passam as férias de Verão. Rose Wallace, adolescente magra e aérea como um galho, reencontra ali a amiga de infância, Windy, cujo corpo redondo contrasta com o seu e oferece já outra visão do feminino, menos agreste e mais maternal. Mas perceberemos rapidamente algumas das razões da crispação de Rose: um aborto espontâneo da mãe às seis semanas, ainda por curar, transporta o mal-estar e as discussões do casal Wallace para o desejado retiro no seu éden privado.

Interligando-se com o cenário familiar, o quotidiano rude dos adolescentes e jovens adultos da localidade de Awago Beach - e o impacto de uma gravidez não desejada entre duas personagens - adensam o clima sufocante da teia de relações humanas. Surgem alguns presságios: as referências aos feiticeiros da tribo Huron, ancestrais habitantes daquela região do Canadá, agora convertidos em atracção turística; ou a fantasmática figura do homem que aparece a Rose quando ela foge para o lago, avisando-a do perigo dos relâmpagos. No entanto, nada nos prepara a iminência da tragédia nem para o final redentor do livro. E essa surpresa é um dos deslumbramentos desta novela gráfica em tons de azul, por isso não a estraguemos aqui.

Mas esta é, esssencialmente, uma travessia dos lugares cristalizados da infância, ainda com cheiro a gomas e refrigerantes e festas de pijama, para outros lugares insondáveis onde se fala (muito) de sexo, rapazes, casamento, filhos... Personagens que são, sobretudo, seres em transição: raparigas que gostariam de ser mulheres para serem desejadas; mulheres que gostariam de voltar a ser crianças só «para poder gritar e espernear», mulheres que não querem ter filhos porque elas próprias se sentem ainda crianças. A maternidade, fortemente simbolizada nas águas uterinas do lago, recorda que «a mãe natureza nem sempre é a pessoa mais simpática do mundo». Por vezes, navegamos em águas turvas ou desconhecidas. Há perdas de sangue e de filhos; há conversas cortadas a meio e mensagens não respondidas no telemóvel. Há a eterna incomunicabilidade das coisas brutais, e também o esforço que fazemos para lhes dar um nome. Onde faltam as palavras, exorbitam as onomatopeias, traduzindo emoções, cheiros, sabores, sensações, gestos, movimentos, sons. Do muito grande ao muito pequeno, o espaço de página faz convergir espaços antagónicos e tempos paralelos com absoluta mestria.

Muito mais poderia ser dito sobre Finalmente o Verão, livro que mereceu, com bastante polémica (ver aqui), o prestigiado Caldecott Honour, atribuído pela American Library Association, em 2015. É um daqueles livros que não hesitamos em classificar como obra-prima, por muito batida que esteja a palavra. E ainda bem que agora se escrevem tantas obras-primas na literatura infanto-juvenil. Mas nada de equívocos, novamente: este é um livro «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», que muitos adultos deviam ler pelo menos duas vezes. Terminamos com a fala do homem do lago, que com o seu cão magro aparece junto de Rose, deixando-lhe um sábio conselho: «Algumas lições só se aprendem a doer, miúda. Não precisas armar ao pingarelho.»

sexta-feira, 24 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 4: MARY POPPINS


Em 1924, Pamela Lyndon Travers, aliás Helen Lyndon Goff, chegou a Londres disposta a reinventar tudo, a começar pelo nome que lhe foi dado na Austrália, onde nasceu a 9 de Agosto de 1899. A sua biografia é aventurosa e cheia de incógnitas e bizarrias; como o facto de ter separado e adoptado um de dois irmãos gémeos bebés – decisão salomónica eticamente questionável. No documentário que circula no You Tube, o filho adoptivo, Camillus Travers, fala da mãe com uma fleuma bem cultivada, descrevendo Mary Poppins nesta frase lapidar: «Ela é bastante parecida com a minha mãe.» Tal como a mulher que lhe deu origem, ninguém sabe quem é nem de onde vem Mary Poppins, quando num dia de vento aterra na Rua das Cerejeiras, disposta a cuidar das quatro crianças da casa. Ela é «a sua própria obra», para usar a máxima de Madame de Stael («Je suis mon ouvrage.») Ele é única, incomparável, narcisista, excêntrica, misteriosa, ríspida, presumida e insolente. «Ela é diferente. É a Grande Exceção», diz o Estorninho. «Quanto aos sentimentos de Mary Poppins», escreve também P.L. Travers, «ninguém sabia nada, porque ela nunca falava deles». Está tudo dito. Nada está dito (e é melhor assim). O livro foi originalmente publicado em 1934 e está editado na colecção de clássicos da Relógio d’Água, com ilustrações de Susana Oliveira.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

LEITURAS DE FÉRIAS, 3: PIPPI DAS MEIAS ALTAS


«A sós com um livro, uma criança cria as suas próprias imagens, nos espaços secretos da sua alma. Essas imagens estão acima de tudo. São necessárias às pessoas. No dia em que a imaginação das crianças já não for capaz de criá-las, a humanidade ficará empobrecida.» Astrid Lindgren (1907-2002) proferiu estas palavras ao receber o prestigiado Prémio Hans Christian Andersen, em 1958, mas a sua criação mais famosa, Pippi das Meias Altas, seria bem capaz de faltar à cerimónia ou de interromper o discurso com uma das suas delirantes partidas. Pippi tem nove anos, é órfã e vive com dois animais de estimação, um macaco e um cavalo. Recusa-se a ir à escola, ganhou experiência de vida como «embarcada» e define-se como «encontradora de coisas». Alexandre Pastor, que traduziu diretamente do sueco, lembra, no texto introdutório da edição da Relógio d’Água: «Quando Pippi das Meias Altas foi publicado em 1945, conheceu um êxito imediato, apesar do alvoroço que criou entre os pais e os professores que viam em Pippi um perigo para a educação tradicional.» Visto que o modelo educativo não se alterou substancialmente desde então, não é de admirar que a leitura destes capítulos continue a provocar alguns arrepios. Entre as personagens femininas subversivas da literatura infanto-juvenil, de Alice às princesas mal comportadas dos álbuns de Babette Cole, é difícil encontrar quem manifeste tanta indiferença pelas instituições sociais, a par um sentido elementar de justiça e de liberdade individual. Uma espécie de anarquista, portanto.