sexta-feira, 10 de outubro de 2008

PORQUE ESCREVO


Se tiver de resumir tudo numa frase: escrevo para recuperar a minha infância.

Escrevo para voltar a ver as cores daquela salamandra que encontrei debaixo de uma pedra, na leira pequena. Escrevo para me lembrar de como era bom e proibido arrancar as crostas do joelho esfolado. Escrevo para trazer à boca o sabor das romãs, dos pêssegos de roer e das maçãs verdes. Escrevo para me deitar ao sol no penedo ao lado da casa, onde musgos e líquenes cresciam como bosques ínfimos. Escrevo porque nunca tive uma casa na árvore, mas todas as bolotas e bugalhos eram meus. Escrevo porque quando fecho os olhos vejo a águia ibérica do Félix Rodríguez de la Fuente a voar por cima da minha cabeça. Escrevo para não me esquecer de que sei assobiar. Escrevo porque não acredito que Miguel Strogoff ficou cego e que a Pérola de Labuan tenha morrido envenenada. Escrevo porque sei que nunca hei-de ter um amigo tão leal e valente como Tremal Naik. Escrevo para ter a certeza de que não está ninguém atrás de mim quando leio o livro de S. Cipriano e para não ter medo de atravessar o corredor onde a luz nunca se acende. Escrevo para ouvir tocar os sinos da igreja de Matosinhos e correr no adro onde os plátanos se despenteavam no Inverno. Escrevo para voltar a calçar as minhas sandálias vermelhas e ir à praia, onde todos os dias faço e desfaço a minha cabana de toalhas. Escrevo porque não há nada melhor do que beber leite com chocolate por uma palhinha depois de voltar do banho. Escrevo porque hoje o meu avô vai levar-me à Obra do Padre Grilo e comprar-me uma rifa que talvez traga um brinde, uma caneta ou algo assim importante. Escrevo porque nunca me canso de o ouvir contar a história da Nau Catrineta, sobretudo aquela parte que diz “vejo sete espadas nuas que estão para te matar” e que eu não entendo, não entendo como é que as espadas podem estar nuas mas arrepia-me na mesma e quero que ele conte tudo outra vez.

Não sei se te respondi, miúdo.

9 comentários:

Anónimo disse...

Ao miúdo, não sei, mas a mim, respondeu-me e muito. Lindo texto. Regressei à infância, lembrei-me da minha... Acho que, em alguma hora de todos os dias, penso e reestruturo essa resposta... para uma semelhante pergunta... :-)
Inês Oliveira

Filipa Carvalho disse...

Lindíssimo, uma saborosa viagem interna. Muito crua e muito bela, na minha opinião.
Eu escrevo para voltar a sentir essas temperaturas(todos teremos as nossas), brancas e quentes e gélidas de emoção que é mais difícil dizer do que escrever. Tragos mágicos da inocência e dos primeiros olhares. Julgo que às vezes a escrita pode ser uma promessa de nunca esquecer, de nunca trair isso.Ou de trair com o máximo amor, porque se escreve por cima, porque se inventa por cima.

Tal como na infância, quando leio coisas assim e quando escrevo tenho mesmo a certeza de que estou viva e que sou feliz. Mesmo com perigo de incêndio e inundação. Especialmente por isso.
Obrigada
*
por tudo
F.

Anónimo disse...

Carla: só tomei conhecimento dos seus escritos através de uns artigos numa revista dum jornal que leio de vez em quando no café; vejo as notícias com desconfiança e não compro jornais porque acho estúpido ser manipulado e ainda pagar por isso. Os colunistas e os seus desvarios pessoais aborrecem-me e confesso que só comecei a ler os seus pela temática dos mesmos. Poder-se-ia pensar que a ligação emocional aos produtos abordados facilitaria o elo com os leitores e pronto, ficaríamos por aí mas ao fim de ter lido vários em que o acaso de um bem escrito foi definitivamente descartado, constato um brilhantismo invulgar: clareza, própria de uma jornalista, emoções pessoais que tocam no colectivo, próprias de uma escritora e uma ordem e ligações entrecruzadas, indicativas de uma pessoa inteligente. Ou seja, neste momento gosto muito de a ler, não interessa sobre o que escreve! Tudo isto me fez procurar o seu nome na net e confirmar o seu raro talento para a escrita; os seus livros vão ter mais um comprador. Confesso que a desconhecia e os meus comentários devem-se unicamente à minha surpresa, não à presunção de a "avaliar", aliás, quem sou eu para isso... No entanto, permita-me uma consideração pessoal: esse prazer da surpresa morreu, agora será só alimentar a fome que a sua escrita me provoca. Quem a lê e edita também já percebeu que o seu futuro profissional será bastante risonho, com muitos sucessos, traduções, adaptações a argumentos e obviamente prémios!

Carla Maia de Almeida disse...

Caro leitor, custa-me tratá-lo por "anónimo". Escreveu com a generosidade e a atenção próprias de um amigo, e isso comoveu-me muito. Às vezes esse tipo de textos de que fala saem melhor, outras pior, mas o que faz mesmo a diferença são comentários como o seu. Talvez outras pessoas tenham pensado o mesmo, mas foi o primeiro a dizê-lo. O que escrevo não é nada de especial, mas se consigo passar "emoções pessoais que tocam no colectivo", pelo menos não será totalmente inútil. De resto, a escrita é bastante inútil, como sabe; sobretudo a escrita jornalística que hoje se pratica, tendencialmente. Quanto a isso, subscrevo a sua opinião. De resto, sinto-me pouco jornalista; apenas ponho em prática a essa "clareza" que aprendi do tempo em que acreditava no jornalismo. Ah, e não se preocupe por não me conhecer, sou uma pessoa perfeitamente normal e também anónima: não apareço na televisão, não escrevo best-sellers e faço compras da semana no supermercado, sempre comparando os preços. Vaticina-me um futuro profissional próspero e brilhante, mas, aos 41 anos, se calhar já é tarde para começar. Em todo o caso, fique por perto, para me criticar sempre que for preciso, pois não há outra maneira de evoluir. Obrigada. "One from the heart". (Tom Waits)

PS - o meu livro preferido continua a ser o primeiro, "O gato e a Rainha Só".

Luís Botelho Ribeiro disse...

subscrevo inteiramente o sentimento do nosso "anónimo escocês*". E só o explicito porque, mesmo dizendo o mesmo, muda tudo se já somos dois.

De resto... vou procurar "a rainha e o gato só" (bem sei, bem sei! Mas entristece-me admitir que até uma rainha possa sentir-se só)

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* refiro-me àquela anedota do escocês que, não tendo gostado de mais uma anedota no seu manipulador jornal sobre a "liberalidade" escocesa, decide escrever ao director: "se não pára com as anedotas sobre os escoceses deixo de vir ler o seu jornal...
à biblioteca municipal!"

(espero que o nosso anónimo não leve a mal a comparação)

Carla Maia de Almeida disse...

Caro Luís Botelho Ribeiro, eu acho que o nosso "anónimo escocês" só pode apreciar um episódio tão espirituoso. E eu, mais uma vez, fico sem jeito perante elogios. Muito obrigada. Um abraço.

Isabel Lucas disse...

Ola Carla. E com este texto conheci o teu blog. Revejo-me nele. Parabéns. Vou acompanhar-te por aqui

Anónimo disse...

Muito bem, escreves por tudo isso.
Mas posso acrescentar: Escreves porque sim! Pela mesma razão que inventaste as letras. O X não me lembro como foi, só posso deduzir; mas 42 anos depois ainda estou a ver a posição relativa dos teus pés para formarem o T. "Oia um T" -- disseste.
Sim, falo de Luanda: estou a ver as revistas mutiladas pelo chão da sala, de que a mãe extraía recortes para materiais didáticos que não havia; e estou a ouvir-te perguntar "Eta [letra] como chama-se?" "E eta?" "E eta?"
Escreves porque há uma voz imperativa, imperatriz, aquela voz que olhando pela janelinha do avião o céu marítimo-noturno de Lisboa para Luanda, vendo as estrelas deslocando-se à velocidade de cruzeiro se soltou: "Oia, pai, flôs a voá no chéu..." Tinhas 25 meses.
É essa voz que em ti se expressa.

Carla Maia de Almeida disse...

Obrigada, Pai.