sábado, 31 de janeiro de 2015

TRÊS MINUTOS DE SABEDORIA



«Não quero exagerar, mas há uma grande diferença entre todo esse mundo de prémios, entrevistas e leituras públicas, e o mundo privado das portas fechadas, do rumor do silêncio, do "cá estamos nós outra vez", "como é que vais conseguir fazer sair essas letras?" Não se pode estar tranquilo, não se pode ter a certeza de que o vais conseguir outra vez.»

(Ian McEwan, a escrever contos e romances geniais há quatro décadas. Desculpem não traduzir o resto.)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É ENTÃO ISTO UM LIVRO?, 1


Os livros

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

Manuel António Pina, in Todas as Palavras, Assírio & Alvim, 2012

(Não me lembro do ano, mas foi no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian que ouvi Manuel António Pina dizer que «a literatura para crianças está cheia de pessoas que não percebem nada de literatura e não percebem nada de crianças». E outra coisa que me acompanhará para o resto da vida: «Sou um homem religioso, mas não professo nenhuma religião». Dia 9 de Fevereiro, no primeiro debate que me cabe moderar (ver aqui), sei que ele estará presente - de alguma forma, na ausência de forma - quando todos tentarmos responder à pergunta 'é então isto um livro?'.)

É ENTÃO ISTO PARA CRIANÇAS?


Já falei aqui do colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude. A ideia é excelente, o programa idem. Cliquem na imagem para ler melhor (também no site da fundação e no blogue Pim!). 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

1º ENCONTRO DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL DA LUSOFONIA


De 2 a 7 de Fevereiro, escritores, ilustradores, animadores, contadores de histórias e especialistas em literatura infantil vão trocar ideias e livros num encontro comissariado pelo escritor José Fanha e acolhido pela Fundação O Século, instituição bem conhecida por quem passa pela Av. Marginal, entre Lisboa e Cascais. A lista de participantes é grande (também lá estamos) e há que salientar a visita da escritora Ana Maria Machado, antiga presidente da Academia Brasileira de Letras e autora da citação acima reproduzida. O programa completo, ainda passível de alterações, pode ser consultado aqui. Inscrevam-se!

domingo, 25 de janeiro de 2015

O ARTISTA: UMA DEFINIÇÃO


«Encontrava-se exactamente onde tinha iniciado a viagem. E aqui ocorreu-lhe, não tendo herdeiros, ou amados, que estava sozinho. E que tinha de ser o seu próprio filho e o seu próprio pai e o seu próprio companheiro. Amar e elevar-se a si próprio como um deus se imprime contra o azul e se forma a partir do fogo.»

(Patti Smith sobre Robert Mapplethorpe, in O Mar de Coral, (não) edições. Momento de leituras de um não-lançamento, ontem, na Igreja Anglicana de Lisboa. Fotografia de Tânia Raposo)

sábado, 24 de janeiro de 2015

THE COAL BLACK SEA WAITS FOREVER



Well the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
The waves hit the shore
Crying more more more
But the coal black sea waits forever

The tornados come up the coast they run
Hurricanes rip the sky forever
Through the weathers change
the sea remains the same
The coal black sea waits forever

There are ashes split through collective guilt
People rest at sea forever
Since they burnt you up
Collect you in a cup
For you the coal black sea has no terror

Will your ashes float like some foreign boat
or will they sink absorbed forever
Will the Atlantic Coast
have its final boast
Nothing else contained you ever

Now the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
When I leave this joint
at some further point
The same coal black sea will it be waiting

(Lou Reed, «Cremation», do álbum Magic and Loss, 1992) 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SETE PALMOS DE MAR


Depois do velhinho Witt (1973), publicado pela Assírio & Alvim na Colecção Rei Lagarto, eis que chega um novo livro de poesia de Patti Smith, O Mar de Coral, dedicado ao companheiro e amigo Robert Mapplethorpe, falecido em Março de 1989 (saber mais aqui). O lançamento é amanhã e o local não podia ser mais digno: a Igreja Anglicana de St. George, em Lisboa. Uma edição da (não) edições. Sim, isso mesmo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 2


Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos

Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor


José Tolentino Mendonça, in Estação Central

O QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA TEM EM COMUM COM PATTI SMITH, 1


«O trabalho de um artista é sempre um trabalho espiritual porque remete para a procura da verdade. A arte e a fé são matérias comuns, remetem para a procura, a interrogação e para a abertura radical ao outro. O próprio sentido de transcendência, mesmo que não explicitado, está sempre presente no trabalho do artista. Essa espécie de estaleiro da transcendência, de grande atelier da transcendência, é uma coisa que faz existir uma proximidade muito grande entre a fé e a arte.»

Conferir no post «Goddess Patti». A entrevista completa a Catarina Carvalho, publicada no Diário de Notícias, pode ser lida aqui. Fotografia de Paulo Spranger.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ANIMAIS BESTIAIS


Com uma nova tradução do grande Tomi Ungerer em mãos, sinto-me grata por contribuir para a reabilitação de espécies animais pouco populares nos livros para crianças. A seu tempo, o polvo Emílio irá juntar-se à jibóia Crictor e ao canguru fêmea Adelaide, todos protegidos pela chancela da Kalandraka. Capas e minibiografia de Tomi Ungerer (França, 1931), um dos últimos dos moicanos, aqui mesmo

domingo, 18 de janeiro de 2015

DESMENTIDO


Entre as dezenas de livros que costumo levar para as formações está Samuel e Saltitão (Caminho), de Margaret Wild e Freya Blackwood, vencedor do prémio Kate Greenaway 2010. Ninguém lhe fica indiferente. Trata da perda e do luto de um animal de estimação, tema tanto mais difícil de partilhar quanto mais se esconde na noite de seda que envolve o nosso coração. De vez em quando surgem livros assim, capazes de cerzir as partes inconjuntas de que é feito o nosso corpo emocional. Andamos sempre à procura da linguagem que nos permita comunicar o incomunicável; e é também para isso que temos a arte e a literatura. Por isso, o que escrevi aqui, questionando a «plausível inutilidade da arte e da literatura em geral», não é só uma mentira. É uma mentira perigosa, estéril e inútil; e parte do nosso desamparo individual e colectivo advém do facto de nos tentarem convencer disso, constantemente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

MORTALIDADE, MORALIDADE


Tenho três gatos. Já aqui escrevi sobre eles, várias vezes, e sobre animais em geral. Gosto de animais porque gosto da Natureza; não gosto de todas as pessoas, nem todas as pessoas gostam de mim, porque há demasiadas comparações e juízos nesse conjunto de forças individuais e sociais a que se chama Cultura. Refiro-me à dicotomia antropológica Natureza e Cultura, evidentemente. Mas não interessa, para o caso. Tenho três gatos (ou «eles é que me têm a mim», como dizia Agostinho da Silva) e em breve vou ter apenas dois; e quando digo «em breve» quero mesmo dizer dentro de dias ou de horas. Depende de uma decisão que parte da minhas emoções e termina na moralidade, no meu sistema de valores. É sempre assim. Todas as formas de sofrimento, físico ou psicológico (para o cérebro, a leitura é semelhante, explicam as neurociências), acabam por interrogar a nossa humanidade, a nossa consciência. Isto, se não formos uns brutos ou psicopatas. Devo prolongar a vida dele por mais alguns dias, correndo o risco de repetir o sofrimento intenso e repentino pelo qual passou? Devo partilhar a dor da perda iminente com mais alguém, sabendo que nenhum dos meus amigos tem, neste momento, uma vida fácil? Como enfrentar a provação que será devolver o seu corpo à terra e à Natureza? São questões que merecem tempo, sabendo de antemão que o «dever», o «sentir» e o «reflectir» nem sempre estão de acordo quando se trata de chegar ao inevitável: decidir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ALL THE CREATURES GREAT AND SMALL


«Há nos humanos um desequilíbrio congénito que se exprime numa insatisfação que não é constante mas é frequente.
Ora, não sucede isto com os animais. Se os alimentarmos, se lhes dermos abrigo, espaço e companhia, se lhes cuidarmos da saúde, se os amarmos, eles são felizes, esfusiantemente felizes, sempre. A infelicidade é a excepção na vida dos animais amados, e não, como no caso dos humanos, a regra. Isto quer dizer que nós, que partilhamos a experiência irreversível do gosto pelos animais, conseguimos por vezes trazer a felicidade absoluta a algumas criaturas deste planeta.»

("in" Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes, ed. Tinta-da-China)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SINÓNIMOS PARA A 'CRIANÇA INTERIOR'


Estamos em contagem decrescente para o colóquio que acontecerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dias 9 e 10 de Fevereiro, comissariado pela jornalista Inês Fonseca Santos e denominado É então isto para crianças? - Criações para a Infância e a Juventude

Desde o colóquio Formar Leitores para Ler o Mundo, também na Gulbenkian, em 2009, não surgia nada tão estimulante. A aproximação a um tema tão vasto parte de um ângulo menos óbvio e com uma forte tónica subjectiva, posto que a questão se coloca do lado de quem pensa e faz o objecto criativo: escritores, ilustradores, músicos, coreógrafos, realizadores, editores e outros agentes, em alguns casos «agentes duplos» ou mesmo «triplos» (Afonso Cruz, João Paulo Cotrim, Regina Pessoa...). E eis então a pergunta que importa interrogar: «o que é afinal uma criação para a infância? Cria-se para ou será que o que é criado encontra naturalmente, na sua fase final e última, aquele a quem se destina?» 

Como moderadora do primeiro debate, «É então isto um livro?», onde vão estar Catarina Sobral, João Fazenda, Francisco Vaz da Silva e Davide Cali, interessa-me muito reflectir sobre os mecanismos conscientes e insconscientes que ligam o criador à coisa criada, partindo desse lugar de potencialidade pura em que tudo é possível: a infância. Tudo é possível porque tudo está no princípio, longe da morte. Atravessar esse estado de máxima confiança e máxima vulnerabilidade não é tarefa fácil; muitos sucumbem pelo caminho, construindo egos postiços que lhes hão de servir pela vida fora, no trabalho, nos casamentos, em frente ao espelho.

Leio Bachelard, Jung, Joseph Campbell, Marie-Louise von Franz, Ursula K. Le Guin, Alice Miller, Erik Erikson e outros pensadores que estudaram a «criança interior», um conceito psicológico não erudito, infelizmente degradado pela força do uso e abuso na praça pública, mas que me parece indissociável deste debate. Ando à procura de sinónimos para falar na tal «criança interior» sem arrepelar os neurónios do público nem fazer de conta que se ouvem sininhos no palco do auditório da Gulbenkian. Não é fácil, mas lá chegarei.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O AMOR SEM DONO



O mapa

aprendido num salmo sufi

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca de essência de rosas
do amor divino
eu deambulo


José Tolentino Mendonça, in Estação Central
Fotografia de Nacho Doce (1998)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

HEART CONDITION


Mulheres que escrevem vivem perigosamente. Mulheres que não vivem não têm nada para dizer. O maior perigo será contentarmo-nos com uma existência de papel.