segunda-feira, 26 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 29


«Ele estava prestes a entrar na meia-idade e vivia, por essa altura, num bangaló em Woodland Avenue. O verde das ervas rasgava os degraus do alpendre e, mais acima, um ninho de abelhas estava agarrado a um espigão, bem visível. Do olmo, moribundo, pendia uma corda, enlaçada no feitio sinistro de uma forca, e o chão por baixo dela tinha sido tão esfregado pelas inúmeras marcas de botas que estava tão macio como farinha. Jesse instalara-se numa cadeira de baloiço e fumava lentamente o seu charuto, apreciando o ar da noite, enquanto a sua mulher limpava as mãos rosadas ao avental de algodão e se ocupava alegremente dos dois filhos do casal. Sempre que ele caminhava pela casa, trazia consigo vários jornais - o Daily Democrat, de Sedalia, o Gazette, de St. Joseph, e o Times, de Kansas City - e a sua pistola calibre .44, enfiada numa prega de roupa onde coubessem os seus trinta centímetros. Andava sempre com os bolsos atafulhados de lápis sem bicos. Divertia-se a atirar amêndoas aos esquilos. Gostava de entrelaçar dentes-de-leão amarelos no cabelo loiro da sua mulher. Esforçava-se por desenvolver habilidades para viajar para fora do seu corpo e interessava-se por premonições e feiticiaria. Chupava gemas cruas das cascas dos ovos e comia ervas quando estava doente, como um cão. Abria a Bíblia Sagrada sempre do mesmo modo, ou seja, com grande alarido e solenidade.»

Ron Hansen, O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, ed. Magnólia, 2007, tradução de Amândio Oliveira. Originalmente publicado em 1983.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 28


«Foi mau, o inverno de 1933. Avançando penosamente naquela noite por entre labaredas de neve, com os dedos dos pés a arder e as orelhas em chamas, a neve a revolutear à minha volta como um bando de freiras raivosas, parei abruptamente. Chegara a hora de pensar bem. Com bom ou mau tempo, havia certas forças no mundo que se conjugavam para tentar destruir-me.»

John Fante, 1933 Foi um Mau Ano, ed. Alfaguara, 2017, tradução de José Remelhe. Originalmente publicado em 1985.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

SOLTA O MONSTRO QUE HÁ EM TI!


Na semana de 10 a 14 de Julho, eu e a Marta Alves, que juntou a formação académica em arquitectura à aprendizagem do yoga para crianças, meditação e mindfulness, estaremos no espaço Anagrama para orientar a semana de férias «Se Eu Fosse Um Monstro», destinada a crianças dos 8 aos 14 anos. Mais do que uma oficina de escrita criativa, a proposta é construirmos um livro ilustrado, da capa à contracapa (aí entram os saberes gráficos e estéticos da Marta), que no final se leva para casa. Trabalharemos o tema da biografia, mas com imaginação. Exactamente: como se fôssemos um monstro. Podemos ser um monstro simpático, antipático ou as duas coisas ao mesmo tempo. E não, não vamos ser todos verdes e com olhos amarelos...

A oficina decorre das 9h00 às 18h00, de segunda a sexta, no Anagrama (Av. de Berlim, 35 C, Lisboa). Preços: 95 € por semana. Cliquem na imagem para mais informações ou liguem para o 211 966 088.