terça-feira, 17 de março de 2009

CAMINHOS DA INFÂNCIA


Numa aula do curso de Pós-Graduação em Livro Infantil, um contador de histórias quis saber qual era a primeira recordação de infância, pergunta que achei impossível de responder. Que idade tínhamos quando o enorme gafanhoto verde pousou na perna e fixou a imagem da monstruosidade? Que dia era aquele em que colámos o olhar ao musgo e nos pareceu ver um vasto bosque pré-histórico? O cheiro do peixe frito da véspera no armário da cozinha parte exactamente de quando? Não faço a mínima ideia. A infância é uma espécie de tempo mítico e, como tal, não tem princípio nem fim. Não é uma sucessão de acontecimentos assinaláveis no calendário; é antes um chamamento permanente, abismo e claridade, um eco a ressoar no escuro. É isso que também diz uma entrevista memorável de José Tolentino de Mendonça a Tonino Guerra (saiu na Pública, em 2002), cujo título era este: “Um artista tem sempre os olhos na sua infância”. Com Tonino Guerra respondo ao desafio lançado pela Tânia Raposo, que me convidou a procurar um poema que evocasse uma recordação. Ou vice-versa. Não sei se ela vai responder, mas gostava que a Mónica Marques fizesse o mesmo. Ou algo parecido.


Onde vais?

A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi “onde vais?”
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.

Tonino Guerra, Histórias Para Uma Noite de Calmaria, ed. Assírio & Alvim, 2002.

(A fotografia acima é da autoria do jardineiro convidado do blogue, que anda a treinar canteiros fotográficos panorâmicos.)

2 comentários:

Pan disse...

Creio que isso é o que todos nós queremos! Que a criança que, por vezes, espreita o mundo através dos nossos olhos, fique sempre por perto!

Francisco Sousa

once disse...

que delicia de poema .. obrigada pela partilha :)