quinta-feira, 16 de abril de 2009

LARANJEIRA


Quando nos preparamos para ouvir falar de viagens, a morte intromete-se na bagagem e espera-nos na curva seguinte. Somos passageiros cativos destas horas desencontradas, é certo que nunca estamos a tempo de nos arrependermos. O silêncio estende um manto glauco sobre os penedos, a casa, a eira e os pinhais em volta. Ouve-se já a terra em avalanche, levanta uma poeira fina que faz berço nas nossas primeiras rugas e fica ali a fermentar saudades. Depois, nada, só um tremor de passos desfeitos, cada vez mais longe. Mas existe uma árvore onde te vou guardar, assim tão grande e tão inteira, e a ninguém direi qual é. Nos dias de neblina, eu hei-de encostar o meu ouvido ao tronco e ouvir as folhas que estremecem quando por acaso passares por ali, à procura das laranjas que caíram ao chão, pesadas de tanto Inverno.

5 comentários:

Margarida Pereira disse...

Belíssimo..., um diáfano manto cerzido de ternura, de saudade, de respeito e intensíssimo amor...
Dizer isto a quem sempre será.
A quem, partindo, permanece, nos é por dentro, nos amará como só uma luz divina inspira...
Murmurar isso na neblina dos dias que ficarão frios e na brisa daqueles que serão tórridos.
Respirar dessa maneira nas noites azuis pontilhadas de cristais.
Belíssimo sentir assim, tão intensa e profundamente. Um Amor.

...'fermentar saudades'... que expressão feliz, em horas de mágoa...

sweety disse...

E é o que de melhor retemos são essas memórias que nos afagam a saudade quando nos é insuportável.
Beijos muitos

Anónimo disse...

Lamento. Era linda. Tu também.
Agora é deixar o tempo fazer o seu trabalho. Certos de que haverá sempre laranjeiras, para além de nós.

R.P.

once disse...

(abraço)

Carla Maia de Almeida disse...

Obrigada pelas vossas mensagens. "One from the heart".