segunda-feira, 20 de julho de 2009

QUANDO OS AUTORES VÃO ÀS ESCOLAS


Em 2006, poucos meses depois de ter sido publicado O gato e a Rainha Só, tive o primeiro convite para visitar um Agrupamento de Escolas no interior do país. Encorajada pelo editor, aceitei de imediato, apesar do receio de falar em público, partilhado por 90 por cento da população mundial. Com deslocação e estada paga, que um freelancer não se pode dar a certos luxos, saí de Lisboa em direcção a um IP qualquer, para na manhã seguinte mergulhar no meu banho de multidão liliputiano.

Quinze minutos volvidos sobre o início da primeira sessão, achei que tinha nascido para aquilo. Senti-me um verdadeiro Liberace da promoção da leitura, uma one-girl-show de biblioteca… Os miúdos, dos seus sete ou oito anos, faziam perguntas curiosas e inteligentes, que revelavam uma leitura prévia estimulante por parte do professor, e mesmo os mais tímidos se mostravam atentos – não sei se às respostas, se à minha movimentação imparável de animal de circo em noite de estreia, um hábito progressivamente corrigido. No fim, depois dos autógrafos e beijinhos, o optimismo e a confiança eram já os meus nomes do meio, e ostentava a oferta do ramo de flores como se de uma lança em África se tratasse.

Dez minutos depois, a sessão seguinte, com miúdos de idades semelhantes mas de outras escolas, foi pouco menos do que um desastre, e dei por mim a desejar que aquela hora passasse depressa. Não só as perguntas eram repetitivas e banais, como traduziam uma obsessão inédita pela minha vida privada (“Tem filhos?”, “Tem irmãos?”, “É casada?”) que me parecia de todo desajustada à situação. Lá fui respondendo como pude, enquanto a voz me doía. Olhava para os miúdos e olhava para as professoras, enviando-lhes um S.O.S. desesperado, mas só obtinha em troca um assentimento próximo do sadismo.

Sem protagonizarem qualquer intervenção ou encorajamento dos alunos, terminada a sessão, as professoras despediram-se com um cumprimento seco e formal, que desfez em pó as ruínas da minha pobre auto-estima. Soube, mais tarde, que não tinham concordado com o convite e a escolha de O gato e Rainha Só, por lhes parecer uma história muito urbana e com referências difíceis para alunos de um ambiente rural e semi-rural – argumentos absurdos, para quem conhece o livro. Não perceberam que o desinteresse ostensivo na leitura e interpretação da história, servindo como arma de arremesso, só prejudicou as próprias crianças, privando-as do direito à leitura literária e da visão do mundo de um autor.

Três anos depois deste episódio, com mais dois livros publicados, creio que a falta de investimento e preparação dos professores ou mediadores na leitura das obras é o principal factor de desmotivação na ida dos autores às escolas. Apesar de muitas experiências correrem de forma exemplar, há um momento em que estes se perguntam, inevitavelmente: valerá a pena perder tempo quando se pode ficar em casa a escrever?

3 comentários:

CPrice (once) disse...

Entendo lindamente a que se refere Carla, mas penso que uma excelente experiência valerá para apagar essas outras menos boas :) ou estarei a ser demasiado ingénua?

Na escola da minha filha por exemplo (EBI Miraflores) Alunos, Pais e Professores têm pena que seja tão esporádico e dificil de organizar este convívio.
E não .. ainda não entrámos nessas perguntas (risos)

:)) Beijinho*

may shuravel disse...

Igual, igualzinho ao que acontece no Brasil:nunca se sabe como será o encontro, se maravilhoso ou puro desastre.Tudo vai depender do preparo dos professores.E tanto mais que irá depender disso...
um abraço
May Shuravel

Mariposa Roja disse...

Muitos parabéns pelo teu novo livro!

Fiquei muito contente.

Um abraço,

Susana