segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRILOGIA SAGRADA




Há algum tempo, o Márcio Almeida Jr., do blogue brasileiro Viver e Contar, pediu-me que elegesse os três melhores livros da história da literatura infantil. Aceitei, sabendo de antemão tratar-se de uma tarefa ingrata, inglória, impossível – e essencialmente pessoal. Where the Wild Things Are, o livro de Maurice Sendak que deu origem ao filme prestes a estrear-se nas salas de cinema, foi uma dessas escolhas. Os senhores que o acompanham não lhe ficam atrás.

1. Peter Pan, J. M. Barrie (1911)

«Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer», escreveu Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos? Quase um século depois da passagem do palco para o romance, Peter Pan continua a questionar as nossas noções comuns do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. A ambiguidade serve-lhe de ampla matéria literária, moldada entre a luz e as sombras. A Terra do Nunca, com os seus índios, piratas, sereias e fadas – e os seus meninos tão livres e tão perdidos – é uma das fantasias mais consistentes de sempre. E se Gancho é um vilão nobre e melancólico que porventura apetece consolar, Peter Pan pode ser amado justamente pelas razões contrárias. Herói excessivo, egocêntrico, inconveniente, ingrato e egoísta – como todas as crianças –, ele representa a nossa reserva amoral de compreensão. O que nele podemos detestar é algo que em nós já se perdeu há muito. Daí a mágoa, daí a sedução.


2. Where the Wild Things Are, Maurice Sendak (1963)

Where the Wild Things Are é um título revolucionário de um autor que continua a ser alvo de controvérsia e censura. Publicado numa época de mudança de mentalidades, tem da criança uma visão que nunca é redutora ou infantilizante, antes emocionalmente complexa e plena de potencialidades. Visualmente, cada página é uma lição de enquadramento, cor, forma e textura. Há um investimento extraordinário na ligação entre texto e imagem, como é próprio da linguagem do picture book (ou álbum, na tradição francesa), numa história que se desenrola como uma viagem interior – à conquista da identidade e da autonomia. Com um domínio tão inventivo quanto rigoroso dos códigos linguístico, simbólico e plástico, Maurice Sendak concebeu uma obra que representa um ponto de viragem na arte de escrever e ilustrar esse livros que as crianças reclamam para si.


3. Matilde, Roald Dahl (1988)

Entre os muitos livros de Roald Dahl, Matilde é um caso sério de humor insolente, resistência e imaginação – três antídotos seguros contra o derrotismo, a mediocridade, a violência e outros males permanentes da humanidade que também passam por este livro. A maioria das personagens adultas – desde os imbecis pais de Matilde à directora torcionária da escola, a Sra. Trunchbull – não são tratadas com brandura, porque não o merecem. Roald Dahl soube olhar para o mundo com as emoções e os sentidos de uma criança; e, ao mesmo tempo, interpretá-lo com o distanciamento sábio e irónico de certos adultos. As ilustrações de Quentin Blake, seu compagnon de route, fazem deste livro uma referência contemporânea, seguindo a herança de Charles Dickens e outros grande escritores.