terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O FILME DAS COISAS SELVAGENS


Há muitas virtudes no filme de Spike Jonze – e alguns defeitos, também. O pior, para os meus ouvidos, foi mesmo a banda sonora alternativa; talvez estimulante quando escutada lá fora, mas demasiado opressiva na intimidade do cinema, sobretudo graças àquela capacidade irritante de manipular as emoções do espectador. É um momento triste? Entrem os acordes melódicos e prolongados. Ah, agora é para animar? Venha a secção rítmica em grande força. Por mim, preferia algo menos intrusivo e, se possível, um pouco mais de silêncio.

À parte esse pormenor – que está longe de o ser – gostei muito do filme de Spike Jonze, apesar de algumas imagens mais pastelosas aqui e ali. À saída, ouvi um espectador comentar que o filme "não tinha narrativa". Se bem o entendi, discordo. Não estamos perante uma estrutura clássica hollywoodesca, mas ninguém pode dizer que o argumento de Jonze e Dave Eggers (estou agora a ler o livro editado pela Quetzal) não tenha pés e cabeça, nem coerência intrínseca. Pontos fortes: ao contrário do picture book de Maurice Sendak, a terra das "coisas selvagens" não se parece com uma floresta tropical; é antes um território estranho, semi-desértico e semi-destruído, um habitat acolhedor para os nossos monstros mais verdadeiros. Sem histerismos de actor-prodígio, Max está bem retratado na sua doçura febril de menino perdido, sempre na fronteira entre o apaziguamento e o caos interior. Os monstros de pano são simplesmente deliciosos e as suas expressões quase reais, muito longe da superficialidade digital das últimas gerações Disney ou DreamWorks. Houve alturas em que pensei ver Tony Soprano (James Gandolfini, que empresta a voz ao monstro Carol) a ter um ataque de ansiedade, para depois entrar em pânico e destruir tudo à sua volta, como se acabasse de receber uma má notícia no escritório do Bada-Bing.

4 comentários:

nils disse...

Bem, eu comecei por oferecer o Onde Vivem os Monstros ao meu filho de 4 anos. Depois li o livro da Quetzal. E agora vou para o filme...

sofia wahnon disse...

Gostei muito de ler o que pensou e sentiu ao ver o filme e também me danam as bandas sonoras manipuladoras, o silêncio é de ouro e para mais no escuro da sala de cimena...Ainda não o vi e ainda não decidi se é ou não um filme para ver com os miúdos de 6, como o meu. Pelo que já li, este é um filme sobre a infância para adultos, será assim de facto?!

CPrice disse...

.. e eu estava deveras curiosa. Obrigada Carla. Vou, decididamente, ver :)

Carla Maia de Almeida disse...

Confesso ter sempre alguma dificuldade em decidir se certos livros (ou filmes, no caso) são para crianças "ou" para adultos. Nestas coisas, sou pela inclusão. De qualquer modo, não me parece o típico filme para as crianças, habituadas ao barulho das luzes das recentes animações, tipo Faísca McQueen e coisas do género. Miúdos muito pequenos, de 4 e 5 anos, devem aborrecer-se de morte. Os outros, também, em certas cenas mais introspectivas e ambíguas. Mas depende muito dos miúdos, claro. E dos pais. Alguns terão dificuldade em explicar o enredo. Curiosamente, na sessão a que fui só havia adultos, quase todos na casa dos 20-30 e com ar de quem não perde o festival Indie Lisboa.