domingo, 26 de setembro de 2010

AS IOGURTEIRAS DE BOA OU MÁ MEMÓRIA


Nos primórdios da década de 1970, o país foi tomado de assalto por uma vaga de calor produzida por duas bactérias, de seu nome (abreviado) Lactobacillus e Streptococcus. Associadas na fermentação do leite desde tempos bíblicos, sem elas não seria conjurado um fenómeno que atingiu inúmeras cozinhas portuguesas: a moda das iogurteiras. De repente, toda a gente quis ser uma espécie de Robinson Crusöe na era da electricidade, produzir os seus próprios alimentos, ter um quinhão de autosuficiência na economia doméstica. A troco de um iogurte e um litro de leite, as iogurteiras exibiam o milagre da multiplicação, com um custo mínimo de trabalho e investimento. Ao fim de oito horas, muitas vezes passadas durante o sono familiar, lá estavam os seis frascos de vidro repletos do bom derivado do leite. Estamos a falar do tempo em que os iogurtes industriais eram caros e paupérrimos em matéria de sabores. Ainda há quem recorde a chegada da variedade baunilha como sinónimo de festa, quase um golpe de estado contra a ditadura morango-ananás.

Produto da época em que os electrodomésticos se exibiam como bibelôs, não faltando sequer o naperonzinho a amparar, as iogurteiras deixaram boas e más memórias na mesma geração. Iogurtes deliciosos, associados à nostalgia da infância, para uns; mistela branca, inconsistente e totalmente desprovida de sabor, para outros, é impossível dizer quem ganha neste campeonato. Mas, enquanto a moda durou, as iogurteiras ocuparam centros de mesa e fizeram um brilharete como presentes de casamento. Essa é que é essa.

(Texto publicado na edição de 26 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)

7 comentários:

Beatrix Kiddo disse...

a minha irmã ainda faz iogurtes nisso :)

Margarida disse...

...adoro os iogurtes feitos em casa! Comprei uma há dois anos e adoro. Mistura-se mel, fruta, cereais, ficam uma delícia!
E os iogurtes de antanho, além de 'naturais' também sabiam a chocolate... :)
Lembro-me bem dos vidrinhos da Longa Vida com tampinhas de prata de cores segundo os sabores. Mas o de chocolate era mesmo beijezinho, uma delícia...
As modas, pois: agora são as máquinas de fazer pão...
:)
(mas que ideia maravilhosa trazer aqui os textos adoráveis da NM!!!!... e o dos postais de férias, que tanto amei?... :))))

Carla Maia de Almeida disse...

É só clicar na etiqueta "Jornalismo" que o dos postais também aparece...

um abraço e continuação de boas iogurtadas (eu confesso que fiquei traumatizada nos anos 70)

vera disse...

Quando vivia em África dei um uso enorme à iogurteira (os iogurtes importados saõ caríssimos e nem sempre chegavam em boas condições).
Agora está ali esquecida, prova de que somos consumistas e poluidores (mas depois reciclamos as embalagens ! ...)
Agora que me falaste disso, vou tirá-la do armário e tentar ser mais coerente com aquilo que penso ;-)

Filipa Luz disse...

isto é uma crónica jornalística, correcto ?

Carla Maia de Almeida disse...

Pode dizer-se que sim, Filipa.

Unknown disse...

Interessante, pois tenho uma iogurteira exactamente igual à do artigo que era da minha sogra e nunca tinha sido utilizada! A poupança assim o ordena e cá em casa os iogurtes ja se fazem com sabores e compotas muito semelhantes aos de compra! uma ideia que acho boa de voltar a renascer!