sexta-feira, 26 de março de 2010

LOSS AND MAGIC


Nunca acreditem numa pessoa que cresceu a dançar Boney M. em frente ao espelho, mas realmente acho que o sacana do Lou Reed nunca mais fez um disco tão bom desde que saiu o Magic and Loss; e já lá vão quase vinte anos, não se admite. Estávamos em 1992, o ano em que comecei a trabalhar como estagiária no SE7E e vestia camisas de flanela axadrezadas e sapatos Doc Martens. Pior: achava o Bret Easton Ellis o supra sumo da literatura e cultivava o niilismo com o mesmo jeito com que muitas mulheres regam vasos de salsa nas marquises de Queluz de Baixo, acreditando que aquilo lhes confere uma certa distinção. Anyway, o Lou Reed fez um disco fabuloso e lembro-me perfeitamente de uma crítica do João Lisboa no Expresso, cujo título era “Magic, no loss” (hoje está a dar-me para o name dropping, espero que passe depressa, ó Deus); um título que é perfeito em si mesmo, quase tão bom como “Faz-me festas mais avante” ou algo assim, de idêntica safra jornalística.

Só que o Lou Reed trocou a ordem das coisas (volto a dizer, nunca acreditem numa pessoa que cresceu a dançar Boney M. em frente ao espelho), porque no meu modesto entender só pode haver magia quando há perda, e todos nós podíamos encher uma arca de tesouros com as coisas que fomos perdendo ao longo dos anos, desde berlindes rascas a melhores amigos ou amigas. Quem não consegue fazer isso é porque nunca deu nada de verdade. Perder é sempre doloroso, não por aquilo que se perde mas pelo valor atribuído à perda – e não vale a pena fazer comparações e juízos sobranceiros porque da nossa vida sabemos nós, ok? Ok. Uma vez perdi, ou julguei que tinha perdido, um porta-moedas em malha de prata, daqueles que se usavam antigamente; pus um anúncio no supermercado a dizer “gratifica-se” e chorei por tudo o que tinha perdido a vida inteira durante uma semana a fio, até que descobri o dito cujo na gaveta do frigorífico, dentro de um saco de plástico cheio de feijão verde para fazer sopa. Logo a seguir senti-me a pessoa mais feliz e sortuda do mundo, nem vos digo em que é que acreditei na semana seguinte. Mas estão a ver como são as coisas. Numa destas noites perdi um brinco enquanto pulava desvairadamente no Music Box e voltei a sentir-me miserável até à hora em que as senhoras da limpeza me atenderam ao telefone com uma simpatia notável e disseram “sim, achámos um brinco assim e assado, é seu?”. É meu, é (sorriso de orelha a orelha). E nesse mesmo dia fui buscá-lo ao Cais do Sodré, eu de ressaca e o brinco intacto, e então voltei a sentir-me a pessoa mais feliz e sortuda do mundo. O que eu quero dizer é isto: umas vezes vale a pena correr atrás do que perdemos, outras vezes não. Distingue-se facilmente uma coisa da outra pela força que vem de dentro, isso que nos faz levantar da cama sem a preocupação de reunir todas as partes – cabeça, coração e ossos, principalmente. E o fígado, que também dá muito jeito para saco de pancadas. Quando não vale a pena correr atrás do que perdemos, é preciso acreditar que depois da perda vem a magia. Sempre, sempre, sempre. Depois da perda vem a magia. Só é preciso arriscar perder.

5 comentários:

Brikebrok disse...

sim, é mágico porque finalmente nos damos conta do quanto nos falta !

Paulo disse...

Mágica intuição!
Por razões de competência biomecânica e eficácia marcial o grande mestre do Tai Chi Chuan, prof. Cheng Man Ching, dizia frequentemente aos seus alunos para investirem na perda. "Invest in Loss" tornou-se uma marca do seu ensino da bela arte do tai chi até meados da década de 70 em Nova Iorque. A dado passo esclarece que, a partir da sabedoria de Lao Tze, a primeira directiva do tai chi é: ""Concentrate your chi to become soft and young." Concentrating your chi to become soft is the only proper method to invest in loss - then you will not fear losing...".
Investir na perda é ultrapassar o desejo ardente de vencer a qualquer preço e a ganância absurda de ganhar custe o que custar.

ié-ié disse...

E eu estou farto de andar atrás do boné irlandês oferta do meu filhote mais velho e não há meio de o encontrar!

Perdi-o numa festa do José Cid!

Chiça!!!!

LT

Sara Veiga disse...

Pela primeira vez venho a este canto, e estou já encantada. :)

Identifico-me bastante com o seu estilo de escrita e com a temática.

As duas últimas frases resumem tudo de forma brilhante. Leio-as dentro de mim, também.

Um beijinho, parabéns.d

madalena disse...

Eu costumo ter pesadelos em que perco coisas. São coisas insignificantes (como um par de meias), mas no sonho têm a maior importância e eu fico muito angustiada . Até gosto de ter esses sonhos porque o acordar é um alívio, como se se resolvesse qualquer coisa... acho que tem a ver com essa magia de que falas.
Na vida real, perco muitas coisas (alguma aparecem — respirar fundo — outras não)