quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PRÉMIOS LIMÃO 2010


Algumas coisas incompreensíveis, delirantes, inanes ou de gosto duvidoso que foram dadas à estampa em 2010, com o pretexto de serem “para crianças”:

Prémio “a Ferreirinha dos pequeninos”

– Pode trazer mais uma garrafa disto?
– Vinho do Porto?
– Exactamente. Aqui o meu colega hipopótamo tornou-se apreciador.
– Revela bom gosto – retorqui delicadamente. – O Vinho do Porto é um dos grandes orgulhos de Portugal.

(Francisco Moita Flores, As Aventuras de Maresia do Mar e Outras Histórias para Aprender)


Prémio “Vais acabar nas Novas Oportunidades, ai vais, vais”

Se António admirava os grandes campeões desportivos, não admirava menos os heróis das histórias e os escritores que tinham sido capazes de as inventar.
– Ainda por cima – gabava-se o avô Francisco, à conversa com os amigos –, o miúdo também adora ler. Vamos lá a ver o que sai dali, porque ele, afinal, tem jeito para tudo.

(José Jorge Letria, A Magia do Círculo Azul)


Prémio “O camisinha amarela”

[Útero]
É resguardado e secreto
com a lição aprendida
pois é nele que começa
o mistério desta vida.
E os espermatozóides
nele encontram ambiente
para que a promessa de vida
possa enfim seguir em frente.

(José Jorge Letria, O Alfabeto do Corpo Humano)


Prémio “Puto, enriquece o teu vocabulário”

Deixem que lembre ainda
O m de merda: dá tanto jeito
Para mandar alguns mm dos tais…
E é nome escorreito:
Vem no Morais.

(José Carlos de Vasconcelos, Arco, Barco, Berço, Verso)


Prémio “E se for só à expressão já vais com muita sorte”

– Vamos agora. Isto vai ser sem espinhas – disse o Tição sem perceber porque é que os outros não acharam graça à expressão.

(Luís Represas, A Coragem de Tição)


Prémio “Assim também eu votava nas presidenciais”

Na cidade de Cata-vento viviam-se dias de grande agitação. Chegara a hora de escolher um novo Presidente que servisse com honra e inteligência toda a comunidade.

(Carmen Zita Ferreira, O Bicho-de-Sete-Cabeças – História de uma eleição democrática)


Prémio “Os malefícios do álcool e do tabagismo”

O António, que tinha tido todas as oportunidades na vida mas nenhuma cabeça para as aproveitar, acabou mal, precocemente envelhecido, com hábitos alcoólicos e sem saber fazer nada, porque nunca tinha aprendido nem querido aprender, e revoltou-se contra o mundo em vez de se revoltar contra ele próprio. Teve a sorte de ir parar a uma instituição social mesmo sem pagar a mensalidade.

(Maria de Belém Roseira, in Contos Pouco Políticos)


Prémio “Depois de ler este livro também já bebia qualquer coisa”

O Riscas não precisou de pensar muito para formular o primeiro desejo, a viagem estava a ser cansativa e precisava de beber algo para seguir a caminhada. Sim, beber era de facto o primeiro desejo.
Largar o grito seria o segundo e talvez o mais importante desejo.

(Sónia Borges, O Riscas)


Prémio “Conselhos aos meus amigos caçadores”

– Os homens são perigosos mas também são estúpidos, Ismael. Eles estão sempre a fazer barulho, estão sempre a falar uns com os outros e em voz alta, ao contrário de nós, coelhos. Depois, eles não sabem caminhar no mato silenciosamente: fazem sempre tanto ruído que, se estiveres atento, vais poder esconder-te antes que eles cheguem próximo de ti.

(Miguel Sousa Tavares, Ismael e Chopin)


Prémio “Não estive em Woodstock, mas já fui ao Andanças”

Alana aproximou-se das outras ninfas e viu que elas estavam mais alegres. Cantavam com mais vigor, bailavam com mais energia, procuravam as essências mais activas, teciam grinaldas maravilhosas e túnicas delicadas e esvoaçantes…
– A Primavera é como uma festa diária nos nossos corações, explicou a rainha das ninfas. – A festa da alegria e da cor!

(Alice Cardoso, Alana e a Festa da Cor)


Prémio "O problema é que os fios de lã se metem nos dentes"

A menina Adélia era amiga da sua avó e recepcionista do museu. Por ano produzia quilómetros e quilómetros de cachecóis de lã para ajudar meninos carenciados.

(Mariana Roquette Teixeira, O Pintor Desconhecido)


Prémio "Sir Richard Attenbourough de sacristia"

Mas a verdade é que há cobras más, cobras boas e cobras mais ou menos boas e mais ou menos más. O mesmo acontece com os outros animais e também com as pessoas. E por isso devemos sempre olhar e ouvir com atenção, antes de dizermos se uma cobra, animal ou pessoa são maus ou são bons.

(Francisco Alegre Duarte, Joana Serpentina)

11 comentários:

Miguel Gouveia disse...

O drama, o horror, o pânico...
Bela colheita, Carla.

Carla Maia de Almeida disse...

E já me esquecia dos cachecóis para os "meninos carenciados"...

leonor f. disse...

Assustador! "Mau" costume o meu de só me aproximar dos livros que me acenam...acabo por viver longe desta outra realidade, que a Carla aqui deixou com tanto humor. Ainda me lembro há meia dúzia de anos atrás - menos edições, menos editoras - a dificuldade que tinha em escolher livros para os meus filhos e os horrores com que me deparava.

Beatrix Kiddo disse...

adorei este post

fiquei com vontade de copiar a ideia

obrigada **

angelina maria pereira disse...

Ó Carla, que lista tão 'sumarenta'!! Mas havia muitos mais Prémios Lmão para atribuir!! O que por aí vai de pretensa literatura para crianças e jovens!!!...E alguns são 'doutos' que muito (não) opinam sobre a mesma! Obrigada por esta 'limonada' que vou partilhar no Bibliotecar!

Carla Maia de Almeida disse...

Havia mais, Angelina, mas fico-me por esta selecção "Reserva 2010". :-)

Márcio Almeida Júnior disse...

Carla,
Esta seleção é, não digo "boa", pois isso seria contraditório, mas pertinente e oportuna. A propósito, citei você em meu último post, a propósito de um livro que não convenceu. Gostaria de ouvir-lhe a opinião,caso o tenha lido. Na oportunidade, desejo-lhe, bem como aos seus, um bom ano de 2011.

Favas disse...

ó Carla e isto é só o texto... se fossemos fazer o mesmo em relação à ilustração... é de cortar os pulsos!!!
o que se pública neste país... e o pior de tudo é que alguns destas pérolas com que tu nos presenteaste foram obras premiadas e reconhecidas como sendo de "colidade" já que qualidade, não têm nenhuma.... é triste, é muito triste :(((

Carla Maia de Almeida disse...

Pois é, Ana, como o caso daquela enormidade dos "cachecóis para os meninos carenciados", que entra no livro que ganhou o último Prémio Gulbenkian/Branquinho da Fonseca/Expresso.

Márcio, desculpe o atraso na resposta, mas na verdade não conheço o livro de que fala. No entanto, tenho para mim que o Jostein Gaarder não é grande espingarda como ficcionista. Um abraço.

Mariana Roquette Teixeira disse...

Oh Carla, que perseguição. Ficou mesmo afectada. Ninguém a obrigou a ler, nem a colocá-lo na sua secção da revista LER. LOL!! Que pena só ter visto estes Prémios Limão agora, são mesmo divertidos. Lamento não ter compreendido o tom humorístico da frase, talvez assim ficasse menos amarga.

Carla Maia de Almeida disse...

Engana-se, Mariana, eu sou "obrigada" a ler, faz parte do meu trabalho. E é "obrigatório" divulgar um prémio desses. Mas não se trata de perseguição, não pense nisso... Em relação à frase, de facto não é brilhante. Mas, como disse na sua entrevista à LER, a Mariana é pouco permeável às críticas: "... nunca alterei nada em função das sugestões que foram surgindo". Quem sabe daqui a alguns anos veja as coisas de outra maneira. Mas não fique amarga, que isso não faz bons livros, regra geral.