quinta-feira, 21 de abril de 2011

NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ


«Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler na mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira à superfície, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.»

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução livre de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)

29 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Adorei! :D

Isabel disse...

Ora bem!

José Oliveira disse...

Uma curiosidade: o dia mundial do livro, 23 de Abril, é também o dia da morte de Shakespeare (1616). Este ano completam-se 395 anos.

Carla Maia de Almeida disse...

"Love is merely a madness." (Rosalind, "As You Like It", acto III).

Bem lembrado.

Cynthia disse...

Thanks for posting Carla. Love this. More about St. Jordi day-World Book day, Cervantes, Shakespeare on my blog today....
http://www.cynthiagrow.com/

Carla Maia de Almeida disse...

Chers, Cynthia! That photo with the tulips, is it yours? Where is it?

Ana Eustáquio disse...

Adorei o texto! É um texto inspirador e reconfortante para leitoras, leitores e gente que escreve!

PAS[Ç]SOS disse...

Namora uma rapariga que lê... e verás como te sentirás livro!

Anónimo disse...

Es curioso que también el dia 23 de abril muriera D. Miguel de. Cervantes. Otro motivo más para que ese dia se celebre el dia del libro. Un saludo desde España. BB

Margarida disse...

Por tantas (tantas, tantas, mas tantas) razões, 'tenho' absolutamente de 'levar' este texto que "é a minha cara"!
Posso? Posso? Posso? :)))
Obrigada! Sabia que ia deixar...
Abraço grande, deste mar aqui, entre a Foz e Matosinhos.

Licínia Quitério disse...

Fascinada por este texto. Obrigada por tê-lo traduzido e trazido aqui.

miGuel pesTana disse...

adorei este texto!!!!
adorava namorar uma rapariga dessas;)

silenciosquefalam.blogspot.com

Alda disse...

Obrigada pela tradução deste texto fantástico :)

VERA DE VILHENA disse...

Simples e maravilhoso, este texto.
E não pude deixar de me sentir lisonjeada, pois identifiquei-me totalmente com a espécie que a autora descreve :) Conheço outras assim e são algumas das minhas pessoas favoritas que merecem tanto, mas tanto, ser felizes.

DCSdeC disse...

Adorei... e concordo completamente.
Vou "roubar para o meu respectivo blog.
Muito obrigada! :)

Beatrix Kiddo disse...

"Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas." style is the dress of thoughts, e uma rapariga que lê tem pensamentos tais que merecem um outfit à altura

gostei do texto

Ella disse...

Gostei muito e comovi-me. Vou guardar para partilhar com os meus filhos quando eles forem capazes de compreender.

Nazaré

jorge vicente disse...

maravilhoso :)

e eu leio
e eu escrevo

e eu adorei ler este texto :D

Muitos abraços
Jorge Vicente

Larissa disse...

comovente!

Clara disse...

pode ser uma rapariga que lê, que escreve e que compra roupas? é pena pôr-se sempre as duas coisas como incompatíveis e, às vezes, até opostas. de resto, texto lindíssimo.

miGuel pesTana disse...

adorei o texto..magnifico..deslumbrante


silenciosquefalam.blogspot.com

aldina vaza disse...

A proposta tem de ser igualmente válida para "Namora Um Rapaz Que Lê".
Gostei muito!
11 de maio de 2011

André Nóbrega disse...

Lindo lindo lindo!
Cada vez há menos raparigas a ler.

Mariana Oliveira disse...

um texto swem duvida magnifico, onde me identifiquei na plenitude...
peço aqui, atraves deste simples comentário autorização para colocar no meu próprio blog...
obrigada!!!
fantástico!!!

beijinhos**

Carla Maia de Almeida disse...

Nem é preciso pedir... :-)

Irene disse...

Excelente! ... só compreensível para quem vive fascinado pelas palavras...

JK disse...

Lindo... simplesmente verdade

Anónimo disse...

Namora com uma rapariga que lê pois é a mesma que escreve. Namora com uma rapariga que escreve para que lhe sirvas de inspiração, e torna a sua vida num romance que outros terão o prazer de ler no futuro.

Adorei o texto
http://psicose95.blogspot.pt/

paula disse...

Fa-bu-lo-so!