quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

POEMAS QUE SALVAM O DIA


GANSOS SELVAGENS
Não tens que ser bom.
Não tens que caminhar ajoelhado
durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento.
Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama.
Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu.
Entretanto o mundo não pára.
Entretanto o sol e os seixos transparentes da chuva
movem-se através da paisagem
sobre as pradarias e as árvores mais altas,
as montanhas e os rios.
Entretanto os gansos selvagens, lá no alto de um límpido azul,
dirigem-se para casa de novo.
Quem quer que tu sejas, por mais solitário que estejas,
o mundo oferece-te à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, de uma forma áspera e emocionante -
repetidamente anunciando o teu lugar
na família das coisas.»


(«Gansos Selvagens», de Mary Oliver, in ANIMAL ANIMAL - um bestiário poético, ed. Assírio & Alvim, 2005. Tradução de Jorge Sousa Braga.)

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