sábado, 31 de julho de 2010
NATALIE MERCHANT: VOZ, POESIA E ALMA
Natalie Merchant, a voz inconfundível dos 10.000 Maniacs, entregou-se durante seis anos àquele que considera ser o projecto “mais elaborado” que alguma vez completou ou sequer imaginou. Leave Your Sleep, o primeiro álbum de estúdio desde 2003, é uma fulgurante colecção de 26 poemas em língua inglesa (supostamente) para crianças, por onde passam autores anónimos, nomes obscuros do século XIX e alguns consagrados como Robert Louis Stevenson, e.e. cummings ou Edward Lear. Ternos e melancólicos, uns; eivados de fantasia e humor nonsense, outros – todos adquirem uma qualidade rara na interpretação de Natalie Merchant, que pôs a plateia das Ted Talks a bater palmas entusiásticas – para depois mandar calar toda a gente, porque a música assim o exigia. O que se pode ver e ouvir aqui são algumas das canções de Leave Your Sleep, com Natalie Merchant acompanhada por excelentes intérpretes, por vezes soando como uma orquestra de câmara e outras como uma banda de blues. O disco demorou um ano a gravar e reuniu os contributos de uma centena de músicos de vários géneros.
Todos os poemas estão reproduzidos no site oficial, onde também se podem ouvir excertos das músicas durante tempo suficiente para ir a correr comprar o disco. Este vem acompanhado de um booklet de 80 páginas muitíssimo bem feito, com texto e fotografia, contendo informações preciosas acerca dos autores musicados, resultado da investigação de Natalie Merchant ao longo de cinco anos. Se isto não é o projecto de uma vida…
sexta-feira, 30 de julho de 2010
QUERO UM
NOVOS E VELHOS
Maria do Rosário Pedreira escreve sobre uma coisa que me faz muita confusão: a voluntária, persistente e, por vezes, sobranceira ignorância que os escritores já consagrados (no caso, de literatura infanto-juvenil, a “minha dama”) dedicam a quem começa a escrever. A história que MRP conta é de ir às lágrimas, mas a primeira parte do post, acima reproduzida, é o que importa reter. Para reflectir.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
SERVIÇOS MÍNIMOS

sexta-feira, 23 de julho de 2010
COMO EU ESTOU, TU ESTARÁS

Ainda a propósito do livro de Neil Gaiman e deste post, vale a pena registar um elemento que percorre toda a narrativa, a saber: a caracterização das personagens mortas (The Graveyard Book, pois então…) a partir das respectivas inscrições nas lápides, plenas de charme retro e de um finíssimo humor negro. Por exemplo:
- Dr. Trefusis (1870-1936, Que desperte na glória)
- Menina Liberty Roach (O que ela gastou perdeu-se, o que deu permanece com ela para sempre. Leitor, sê caritativo)
- Digby Poole (1785-1860, Como eu estou, tu estarás)
- Thackeray Porringer (1720-1734, filho do anterior)
- Menina Euphemia (1861-1883, Ela dorme, sim, mas dorme com os anjos)
- Thomas R. Stout (1817-1851, Chorado com tristeza por todos quantos o conheceram)
- Alonso Tomás Garcia Jones (1837-1905, Viajante, pousa o teu
bordão)
E o meu preferido:
- Menina Letitia Borrows, Celibatária desta Paróquia (Que não fez mal a homem algum em todos os dias da sua vida. Leitor, podes dizer o mesmo?)
Autênticas ou forjadas, é mais do que provável que Gaiman tenha tido ajuda neste processo de investigação; mas quem gosta de perscrutar cemitérios sabe que, em matéria de dedicatórias post-mortem, a realidade tende a superar a ficção.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
ECOLITERACIA

Sendo o meio universitário o espaço onde se desenvolve, por excelência, o pensamento contemporâneo sobre a literatura para crianças, o livro infantil ou o que lhe queiram chamar, é bom que projectos como o de Ana Margarida Ramos e Rui Ramos saiam da sombra. Cruzando os valores éticos da ecologia com a literatura/estética do livro para crianças, o projecto Ecoliteracia (do Centro de Estudos da Criança da Universidade do Minho) pode ser conhecido aqui. Não percam as sugestões de leitura, até porque estamos no Verão. E sim, o Ainda Falta Muito? é um deles. Para quem veja aqui uma subliminar declaração de interesses, aviso que se trata de um livro completamente fora de moda, saído em Julho do ano passado. Não o procurem, porque vai ser ser difícil encontrá-lo.
SO LONG, MARIANNE

Este blogue não está de férias. Mas gostava de estar.
(Fotografia de Marianne North, artista vitoriana e uma das primeiras mulheres a viajar para os Antípodas, a fim de registar as espécies botânicas da Austrália, Tasmânia e Nova Zelândia. O seu trabalho está exposto permanentemente num pavilhão dos Royal Botanic Gardens, em Kew.)
segunda-feira, 19 de julho de 2010
A ARTE DE ESCREVER CASSETES

"«Para mim, gravar uma cassete é como escrever uma carta», diz Bob Flemming, o protagonista de Alta Fidelidade, primeiro romance de Nick Hornby e um must para os que passaram as últimas décadas do século XX a comprar discos de vinil e a gravar cassetes em casa.
Lembram-se dessa espécie que tratava a música como uma religião e a aparelhagem como um altar? Gente para quem uma TDK não era o mesmo que uma BASF. Que sabia as diferenças entre cassetes de «tipo I» e «tipo IV». Que só escolhia a «posição normal» se não tivesse dinheiro para mais no bolso. Que nunca juntaria na mesma fita o Phil Collins com os Durutti Column, a Samantha Fox com a Marianne Faithfull, os Wham! com os Red House Painters. Gente que levou muito a sério o conselho de Nick Hornby («… e não vale a pena fingir que qualquer relação pode ter futuro se as vossas colecções de discos são violentamente discordantes»), pelo menos até ao momento em que o celibato se tornou demasiado penoso. Que música escolheríamos para dizer isto? Hum… Que tal Holding Back the Years, dos Simply Red?
Gravar uma cassete em casa é como escrever uma carta, sim. Podia dizer-se tudo. Ambas representam um acto criativo, artesanal, individualista. Gravavam-se cassetes para ouvir na auto-estrada, cassetes para as férias, cassetes para dias cinzentos, cassetes para noites especiais (Brian Ferry + Grace Jones + Prince = sucesso garantido). Se escolher os temas era um gozo, atentar na ligação entre eles, ponderando cada minuto de fita disponível, exigia rigor e atenção. Uma cassete gravada de forma displicente, com raccords mal feitos e faixas cortadas, é como uma carta mal pontuada. A questão é saber se já ninguém escreve cartas porque deixou de gravar cassetes ou ao contrário.
Hoje mandamos e-mails e descarregamos música. Que diferença."
(Texto publicado na edição de 18 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia". Na mesma página, há uma legenda que diz "Lembram-se dessa gente para quem uma TDK não era o mesmo que uma BASF?". Não assinei e não gosto. Nunca trataria "a minha gente" por "essa gente".)
domingo, 18 de julho de 2010
O VERÃO É ISTO, ASSIM
Risos, tagarelice, vadiagem, gaivotas a voar baixo, crianças sentadas nos muros, infinitos pretextos para abraçar alguém, a sensação do tempo que resta e o sol a dilatar todos os pormenores à nossa volta, como uma miragem prodigiosa. Há discos que só consigo ouvir no Verão e este é um deles: Simple Things, dos Zero 7. Em repeat.
SINAIS DOS TEMPOS, 2

“Normalmente as crianças… vivem com a mãe e o pai. Mas em alguns países é diferente e podem viver com duas mães ou com dois pais.
Algumas crianças… vivem só com a mãe ou só com o pai.
Há crianças que vivem em pequenas famílias.
Há crianças que vivem em grandes famílias, com os avós, ou com o pai e a madrasta e os filhos dela, ou com a mãe e o padrasto e os filhos dele.
Algumas crianças são adoptadas.
Outras vivem com famílias de acolhimento.
São as famílias do coração.
Há também crianças que vivem em instituições onde estão pessoas que as acarinham e tratam delas.
Durante o dia, há formas muito diferentes de as famílias conviverem com as suas crianças.
Em geral, os irmãos e as irmãs dão-se bem uns com os outros. Mas às vezes também se zangam.
As famílias podem fazer muitas coisas em conjunto.
Na família, as pessoas confortam-se umas às outras.
As famílias não são todas iguais.
Como é a tua família?”
(Texto retirado de As Famílias Não São Todas Iguais, uma edição original Tango Books agora publicada pela Presença. As ilustrações de Rachel Fuller são indispensáveis à compreensão do livro, enriquecido com técnicas de recorte e pop-ups. Mais reflexos dos "sinais dos tempos" no livro infantil por exemplo aqui.)
MATILDE ROSA ARAÚJO REVISITADA EM EXPOSIÇÃO
quinta-feira, 15 de julho de 2010
O AUTOR E OS SEUS AUTORES

A Estranha Vida de Nobody Owens (The Graveyard Book), editado recentemente pela Presença, já ganhou tudo o que havia para ganhar, incluindo dois dos prémios mais importantes da literatura para crianças nos EUA e Reino Unido – respectivamente, o Newbery e o Carnegie. Quem ainda não leu, aproveite as férias e perceba as razões que fazem deste romance um livro muito superior ao anterior Coraline (que já era bom) e de Neil Gaiman um dos escritores mais dotados da sua geração. Se tudo correr bem, o Prémio Hans Christian Andersen também lhe há-de vir parar às mãos.
Leia-se, também, a página final dos agradecimentos, uma lição de sagesse e humildade que muitos candidatos a “jovens escritores” (e mesmo “velhos escritores”) deveriam ter em conta. Neil Gaiman agradece a Rudyard Kipling e à presença tutelar de O Livro da Selva; aos filhos, que o inspiraram nas concepção da ideia; aos amigos que leram o manuscrito (“Todos detectaram coisas que era preciso corrigir”); aos editores, aos ilustradores e à agente; e, enfim, a todas as pessoas que acrescentaram o seu saber no processo de pesquisa, nomeadamente no que diz respeito a cemitérios, cenário onde se passa a maior parte da acção.
Serve isto para dizer que um livro bem feito é o resultado, muitas vezes, do investimento de uma série de pessoas – além do próprio autor, é claro. Só os inseguros têm medo de ser corrigidos e ouvir sugestões. Ou então querem escrever para si próprios, correndo o risco de apenas serem lidos pelo espelho das suas vaidades.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
UM PRÉMIO ESPECIAL PARA BENFIQUISTAS
quinta-feira, 8 de julho de 2010
CITY-BREAKS: BRAGA

CORRE, COELHO

«O meu nome é Ismael. Sou um coelho bravo e vivo no bosque.» Em homenagem a Moby Dick, Miguel Sousa Tavares parafraseou um dos incipits mais famosos da literatura e criou um personagem descendente dos bestiários pedagógicos. Descendente, também, de um pai chamado Coelho Maltese (escusado explicar) que lhe ensina tudo o que há para saber acerca da sobrevivência e um pouco mais, incluindo a linguagem dos homens. Com os neurónios bem estimulados, chega o dia em que Ismael se aproxima da casa onde Frédéric Chopin ensaia os seus «Nocturnos». Rendido à música, acaba por denunciar-se e tornar-se amigo do compositor polaco, que, doente, lhe oferece uma das partituras, «a melhor de todas que ele alguma vez escreveu». Não há muito mais a contar a partir daqui. Miguel Sousa Tavares regressou ao elemento em que nitidamente se sente mais à vontade – a Natureza, a temática ecológica, o relacionamento entre homens e animais… –, mas falta a esta história um pouco (ou muito) de acção e conflito, sem os quais a narrativa não descola. E Miguel Sousa Tavares conseguiu isso com O Segredo do Rio, apesar de depois ter perdido o rumo com O Planeta Branco. Mais do que os nomes dos personagens – uma opção estética do autor –, o que nos causou perplexidade em Ismael e Chopin foi a preferência por um registo contemplativo que, apesar de competente, impede a história de correr como o seu protagonista merece.
Ismael e Chopin
Miguel Sousa Tavares
Ilustrações de Fernanda Fragateiro
Oficina do Livro
(Texto publicado na LER nº 93)
quarta-feira, 7 de julho de 2010
MATILDE, POR JOSÉ ANTÓNIO GOMES

“Conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo em 1989, em Lisboa, na sessão de lançamento desse belo romance juvenil que é Os Olhos de Ana Marta, de Alice Vieira. A cave da Livraria Barata era pequena para albergar tanta gente conhecida e menos conhecida, todos amigos da autora de Rosa Minha Irmã Rosa. Começara, há pouco tempo, a publicar recensões críticas sobre literatura para crianças e a Caminho convidara-me por isso a apresentar o livro. Estávamos em vésperas do Natal, o frio era cortante, eu andava sufocado de trabalho e o meu texto acabou de se escrever no automóvel, em plena A1, sentido Porto-Lisboa, ao lado de uma motorista simpática e que sabe compreender, quase sempre, o meu silêncio nervoso e a minha fleuma de futuro cardíaco. Lembro-me que um dos «meus» poetas, o grego Iannis Ritsos, havia morrido dias antes e entendi por bem homenageá-lo, integrando, no texto de apresentação, um dos seus pungentes poemas sobre as crianças mortas – já que me parecia especialmente talhado para fazer entender, de modo mais intenso, a dor das personagens de Alice Vieira.” (...)
Por José António Gomes, um belo texto dedicado a Matilde Rosa Araújo, tão real quanto sentido. Ler o resto no blogue A Inocência Recompensada. A ilustração é de Marta Madureira e pertence ao livro citado no post anterior.
MATILDE CONTADA ÀS CRIANÇAS

Com texto de Adélia Carvalho e posfácio de Álvaro Magalhães, Um Olhar de Menina (ed. Trinta por uma Linha) é uma aproximação biográfica à vida e obra de Matilde Rosa Araújo, escrita como se fosse uma história para crianças. Atenção às ilustrações de Marta Madureira, uma pequena maravilha. Recorde-se que a autora, também trabalhando em parceria com Adélia Carvalho, recebeu uma das duas menções especiais atribuídas este ano pelo júri do Prémio Nacional de Ilustração, com a obra O Livro dos Medos (ed. Trampolim).
terça-feira, 6 de julho de 2010
MORREU A ERVA DO MONTE

«Acho que sou uma erva do monte», respondeu Matilde Rosa Araújo quando lhe perguntei onde estavam as suas raízes – ela, que já tinha feito tantas estradas e caminhos. O privilégio de a ter conhecido resultou no perfil de uma grande mulher e escritora que contribuiu para trazer a liberdade de pensar e de sentir à literatura para crianças. O artigo completo para a Notícias Magazine, com fotografias de Reinaldo Rodrigues, publicado em Junho de 2007, pode ser lido aqui. Notícia de hoje no Público aqui.
SERVIÇO PÚBLICO

No início de mais um dia de calor infernal, a melhor coisa que posso fazer pelos leitores do Jardim Assombrado – para compensar a ausência de posts nos últimos quatro dias – é convidá-los a passar pela Gelataria Fragoleto (Rua da Prata, 74), onde para mim se encontram os melhores gelados de Lisboa e arredores. Saudáveis, artesanais, criativos e (quase) italianos. Este ano, a novidade é a linha de gelados de flores e plantas aromáticas: poejo e chá verde com hortelã, morango com lavanda, limão com manjericão, biscoito com sementes de papoila, chá earl grey com erva cidreira e violeta, entre outros. Esclareço que ninguém me paga a publicidade grátis. Mas, se o fizerem, pode ser em forma de uma pensão vitalícia de gelados.
UMA NOVA COLECÇÃO: JOÃO PASTEL


A partir de 8 de Julho, chegam às livrarias os dois primeiros títulos de uma nova colecção – entre o registo informativo e a ficção – que a editora Booksmile recomenda a crianças a partir dos sete anos. João Pastel é o nome do herói, Michael Broad o autor. Fica um excerto do press-release e a sugestão para saber um pouco mais, aqui.
PERRAULT DE BOLSO
quinta-feira, 1 de julho de 2010
ESTA SEMANA, NO PINGO DOCE

É muito estranho ouvir o nome de Maria do Carmo Vieira anunciado com a mesma voz que nos fala da alcatra e do azeite gourmet a não sei quantos euros, mas juro que algures entre a florista e o balcão do pão encontrei uma pequena “ilha” destes livrinhos, uma colecção de ensaios lançada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, com coordenação editorial da Relógio d’Água. O Ensino do Português (3,15 euros), escrito por uma professora inconformista e pró-activa, é o primeiro da lista. O que esta senhora pensa e diz – porque há muito quem pense e não ouse dizer – merece sempre ser seguido com atenção. Ver também aqui, aqui e aqui.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
FEIRA DO LIVRO DA RIBEIRA

«A Feira do Livro "Saldos Verão 2010" decorre no Mercado da Ribeira, em Lisboa, de 26 de Junho a 11 de Julho, diariamente, das 10h00 às 19h00. Milhares de livros em fim de edição e em saldo, usados e manuseados, estão à venda a preços acessíveis, com 20 por cento a serem vendidos em “operação fim de stock”. Há também um local onde, diariamente, estão expostos livros com promoções adicionais. Os livros infantis têm também uma forte presença na feira onde, paralelamente, decorre uma venda de utilidades, velharias, discos de vinil, cassetes e CD.»
(Informação enviada pela agência LPM.)
domingo, 27 de junho de 2010
VIEW-MASTER: A REALIDADE AGORA A CORES



"Não há turistas mal comportados nas Cataratas do Niágara. Como figurantes na maqueta de um mundo perfeito, vivem suspensos no interior dos discos do View-Master, com os seus binóculos e oleados pretos, imunes ao vento e aos salpicos de água, sempre rodando no sentido dos ponteiros do relógio. Se quiséssemos, poderiam rodar até à eternidade, sem nunca tirar os olhos da paisagem.
O View-Master foi uma das atracções da Feira Internacional de Nova Iorque, em 1939, a par da Magna Carta e do ar condicionado. Patenteada no ano seguinte, a invenção partiu do engenho de dois norte-americanos, Gruber e Graves, apostados em recuperar o princípio dos visores estereoscópicos do século XIX: duas imagens bidimensionais que, sobrepostas, dão a ilusão de profundidade. O uso do filme Kodachrome, outra invenção recente do tempo de Gruber e Graves, completou a magia. Com as suas cores saturadas e formato 16 mm, também usado pelo cinema, a realidade nunca foi tão luminosa como através do View-Master. Até os oleados pretos dos visitantes das Cataratas do Niágara adquirem um brilho especial.
Para as gerações de miúdos que nele tiveram um dos seus brinquedos preferidos – o equivalente em sofisticação às actuais consolas de videojogos –, saber que o View-Master surgiu para mostrar o Grand Canyon ou as Grutas de Carslbad é uma relativa decepção. Além de gadget turístico, também foi usado para fins militares, uma ideia aviltante, mesmo sabendo que estávamos na época em que até o mais inocente objecto era olhado como potencial contribuinte para o esforço de guerra.
Mas pouco importa. O View-Master continua a ser o cinema portátil a que tivemos direito, o único onde nunca pagámos bilhete. Fomos os projeccionistas amadores das histórias de Peter Pan, Cinderela, Mickey Mouse e Os 101 Dálmatas, entre tantas outras. Tivemos um vislumbre da Estátua da Liberdade e do Outono no Vermont, sem saber onde era o Vermont. Conhecemos a vida selvagem de África, acompanhando as imagens com legendas típicas dos interlúdios do cinema mudo: «O leão é naturalmente preguiçoso.» Ou: «Jovens elefantes tomando banho.»
Com o View-Master, nunca foi preciso acumular pontos para subir de nível. O jogo era outro. O jogo era só nosso."
(Texto integral da versão publicada no número de 13 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia". Imagens originais de view-master digitalizadas com a cortesia do jardineiro honorário deste blogue, Guto Ferreira.)
sábado, 26 de junho de 2010
VENCEDOR DO PRÉMIO KATE GREENAWAY 2010, 2

Regressando ao post anterior, é preciso dizer que Samuel e Saltitão (Caminho) é um livro a todos os títulos memorável. Não só pelas suas extraordinárias ilustrações a aguarela, guache e carvão, que deram a Freya Blackwood a prestigiada Kate Greenaway Medal, atribuída anualmente no Reino Unido desde 1956; como pelo texto de Margaret Wild, autora de origem sul-africana também amplamente premiada. É raro um livro para crianças conseguir tratar com tanta “magia” (costumo inibir-me de usar esta palavra, mas não desta vez) o tema da morte e do luto – neste caso, de um animal – sem lhe subtrair um pingo de honestidade. Samuel e Saltitão consegue-o, sem lamechices, mas com toda a comoção possível (mal vai quem não se emocionar com este livro...). Curiosamente, Freya Blackwood já tinha ilustrado uma narrativa de teor semelhante, em que a perda de um elemento da família e a relação entre pai e filha foram brilhantemente interpretados por Roddy Doyle. Sobre Her Mother’s Face, ler aqui o post publicado no Jardim Assombrado/LER.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
VENCEDOR DO PRÉMIO KATE GREENAWAY 2010, 1

Anunciámos aqui e confirmou-se ontem:
“A ilustradora australiana Freya Blackwood ganhou a medalha Kate Greenaway de 2010, o prémio de ilustração para crianças mais prestigiado do Reino Unido, pelas suas ilustrações do livro Samuel e Saltitão (Harry & Hopper, no original), com texto de Margaret Wild. O livro, publicado pela Caminho em 2009, retrata de modo comovente o modo como um rapazinho, Samuel, lida com a morte súbita de Saltitão, o seu cão.
Margaret Pemberton, presidente do júri, afirmou sobre o livro vencedor: «Em Samuel e Saltitão, Freya Blackwood prima pelo uso da cor suave, da perspectiva, do espaço exterior e interior, para abordar de forma poderosa o relacionamento pai-filho e a morte de um animal de estimação muito amado. Um tema delicado para as crianças é tratado com grande mestria, e as emoções de Samuel e as suas recordações de Saltitão são expressas visualmente com grande eficácia.»
Esta distinção foi instituída no Reino Unido em 1955 em honra de Kate Greenaway, ilustradora infantil do século XIX. A medalha é atribuída anualmente a um livro notável do ponto de vista da ilustração para crianças. É concedida pelo CILIP (Chartered Institute of Library and Information Professionals).
Freya Blackwood nasceu em Edimburgo em 1975 durante uma viagem turística dos seus pais ao Reino Unido. Cresceu no estado australiano de New South Wales, na cidade de Orange, onde continua actualmente a viver com a sua filha de quatro anos.
As ilustrações de Freya Blackwood para Samuel e Saltitão foram parcialmente inspiradas por um cão que ela própria teve na infância, Furlani, que conheceu um fim igualmente triste e repentino. A ilustradora aponta Maurice Sendak e Shaun Tan como dois dos seus ilustradores preferidos.”
(Informação enviada pela editora.)
CONTADORES DE HISTÓRIAS

Hoje há festa em Montemor-o-Novo. Às 21h00, no pátio da Biblioteca Municipal Almeida Faria, oito contadores de histórias mostram o que valem no Festival Contos de Outra Hora. São eles: Jorge Serafim, Emílio Gomes, António Fontinha, Carlos Marques, Cristina Taquelim, Ana Sofia Paiva, Thomas Bakk e Luís C. Carmelo.
Quem não tiver hipótese de se deslocar até ao Alentejo (1h30 desde Lisboa… vá lá), fique também a saber que Luís Carmelo e Thomas Bakk são os protagonistas dos audiolivros O Mistério do Coiso e Anda Cá Que Eu Já te Conto, com a chancela da BOCA. Segundo palavras da editora (“palavras que alimentam”, pois claro), “os dois volumes inauguram a colecção HOT - Histórias Oralmente Transmissíveis, através da qual queremos registar e actualizar os vários géneros literários da tradição oral e homenagear os contadores de histórias.”
À apresentação da colecção HOT, que conta com o apoio do IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional e se integra na programação final do Festival Silêncio!, junta-se a narração das Memórias de Um Craque, de Fernando Assis Pacheco, por Nuno Moura. Nada mais apropriado para uma tarde de intenso fervor futebolístico, com o jogo Portugal-Brasil, que acontece poucas horas antes do encontro no Jardim dos Sons do Goethe Institut, ao Campo Mártires de Pátria (Lisboa), às 18h00. Eu torço pelos contadores – não de golos, mas de histórias.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O MEU AVÔ, O LEIXÕES E A NAU CATRINETA
“E se me perguntarem porque torço pelo Leixões antes de qualquer outra equipa, não sei se sei responder, mas suspeito que as raízes no Porto e a associação aos pescadores de Matosinhos têm algum peso. O essencial é isto, parece-me: as escolhas futebolísticas também se fazem através de certos imaginários, afectivos, políticos e da memória, mesmo que para tal se ignorem várias outras coisas. Eu sei que o Leixões não coloca em campo jogadores-pescadores cheios de histórias do mar e de lutas por melhores condições de trabalho e de vida, e sim jogadores profissionais, tal como qualquer outro clube, que jogam no Leixões mas que poderiam jogar em qualquer parte. E é aqui que entra o irracional.”
Fiquei a saber que por motivos diferentes – ou nem tanto – partilho com a Sara Figueiredo Costa uma parte desta irracionalidade clubística.
LAICOS DESTE MUNDO, UNI-VOS

Estou há pouco mais de dois meses a morar nos Olivais Sul, a dez minutos a pé da Expo e a outros tantos da Bedeteca de Lisboa, onde este fim-de-semana acontece mais uma Feira Laica. Pretexto para conviver com editoras mui respeitáveis e independentes como A Estante, Ana Oliveira, projecto Apupópapa, Associação Chili Com Carne, Averno, zine B74, Blam Blam + Toys Are Evil, Contraprova, grupo Entropia, discos F.Leote + Ana Menezes, Imprensa Canalha, Mike Goes West, MMMNNNRRRG, Narcolepsia, autor Nevada Hill (EUA), Noori, Oficina do Cego, Opuntia Books, Pedro Gonçalves, Pedranocharco, Quarto de Jade, Reject'zine, Ruru Comix + Latrina do Chifrudo, Thisco...
Melhor do que isto, nos Olivais, só a gentileza das meninas do Happy Grill, explicando, calma e repetidamente, se é mais compensador optar por um Menu Family ou comprar os acompanhamentos à parte. Não caiam é na asneira de confundir os «supremos de porco» com «secretos de porco», a menos que tenham uns canitos em casa a quem dar razões de euforia e contentamento salivar.
JE VOUS EN PRIE
FOGO À PEÇA
Na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, encontram-se as últimas "produções ilustradas" do Alexandre Esgaio: um livro de actividades, outro de culinária e ainda outro sobre profissões extintas. A questão é: como exportá-los para outros lugares?
HIS MASTER'S VOICE

A Gramofone é o exemplo de uma colecção bem conseguida de livros didácticos, que junta o objectivo da aprendizagem de regras de gramática e fonética da língua portuguesa com a desenvoltura da linguagem textual e visual. Para esta qualidade concorrem, desde logo, os nomes dos autores: Alice Vieira, Rosário Alçada Araújo, Margarida Fonseca Santos, Luísa Costa Gomes e Afonso Cruz, nas ilustrações. Sem forçar a nota, conseguiram criar histórias divertidas e irrequietas em prosa e poesia, evitando o ar professoral e a rigidez da temática. Saíram, até agora, quatro volumes – cinco, com este de Rosário Alçada Araújo (na imagem), dedicado às onomatopeias e pontuação. Um novo título da autoria de Margarida Fonseca Santos está para breve. Vejam as capas e informação sobre todos os volumes no site da Texto.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
SE EU FOSSE TUDO O QUE EU QUISESSE SER

A VIDA GRAÇAS A NÓS

“No lado ocidental de Manhattan há uma velha linha férrea elevada chamada Highline. Durante décadas os seus comboios rugiram muito acima das ruas da cidade, mas em 1980 a Highline foi fechada e esquecida. Sem ter de enfrentar pessoas nem comboios, a natureza viu-se livre para mudar a decoração. Com o passar dos anos, o cascalho e os carris oxidados deram lentamente lugar a flores selvagens e a árvores. E se hoje formos espreitar a linha, veremos um jardim luxuriante que serpenteia acima das ruas e por entre os prédios.”
Assinada pelo autor deste excelente livro, em jeito de posfácio, a descrição faz lembrar o guião de uma série fascinante que estreou o ano passado no Canal de História, A Vida Depois de Nós; ou como seria a Terra se, de repente, o ser humano desaparecesse e a Natureza tomasse conta de tudo. Com base em acontecimentos reais, Peter Brown, escritor e ilustrador norte-americano, desenhou um cenário semelhante, mas com um menino industrioso no papel de jardineiro demiurgo que decide transformar o local abandonado. Best-seller do The New York Times durante quase dois anos, O Jardim Curioso é, pela notável articulação entre a ideia, o texto e as ilustrações, um dos melhores títulos até agora publicados pela colecção Borboletras (Caminho).
Saiba mais sobre Peter Brown no site do autor, Some Brown Stuff.
OBRAS

Há tempos, um inglês descrevia-me o seu fascínio pela palavra “obras”. Estabelecido em Portugal há mais de dez anos, continuava a surpreender-se pelo uso abrangente e multifacetado do termo, por contraste com a objectividade dos ingleses. Enquanto estes especificam o que querem fazer, seja proceder a uma intervenção na via pública (“doing roadworks”), recuperar a fachada de um edifício (“renovate a building”) ou algo mais doméstico como mudar a casa de banho (“get the bathroom done”), a nós basta-nos uma palavra mágica para significar a mesma coisa e coisas muito diferentes. “A minha casa está em obras”, “tenho a cozinha em obras”, “aquela rua está em obras”, “o hospital vai entrar para obras”, “o país está em obras”, “este blogue está em obras”. Até há uma editora que conseguiu criar um slogan – brilhante, diga-se de passagem – a partir do termo: “Oficina do Livro. É bom trabalhar nas obras”.
TOMAR NOTA
PEQUENOS PESSOAS

Em Lisboa, a Casa Fernando Pessoa inaugurou recentemente a “Exposição Pequenos Pessoas”, uma mostra de trabalhos realizados por alunos das escolas Engenheiro Ressano Garcia, Fernanda de Castro, Santo Condestável e Vale de Alcântara – visitável até 16 de Julho. O projecto visou a “divulgação e estudo da obra do autor, recorrendo à expressão plástica, à palavra e à partilha de conhecimentos, incentivando o público mais novo (6-9 anos) à leitura e à escrita”. Quase a começar estão oficinas criativas de Verão (3-9 anos), a decorrer entre 28 de Junho e 28 de Julho. O leit-motiv das oficinas, gratuitas, será o heterónimo Álvaro de Campos. Obrigatória a inscrição prévia pelo telefone 213913270.
domingo, 20 de junho de 2010
O TIGRE NÃO MORREU

"Por uma nota de vinte escudos, a extinta distribuidora Regimprensa fez chegar às mãos dos fãs uma das cadernetas de cromos mais procuradas de sempre. Para quem se tinha habituado a seguir a série de televisão na RTP, descobrir um Sandokan a cores causou alguma estranheza, mas a bandeira vermelha do Tigre de Mompracem estava de acordo com o air du temps. Herói revolucionário, incansável na luta contra a opressão e a injustiça, Sandokan representa o espírito romântico da pirataria, o fora-da-lei secretamente admirado pelo inimigo: «Quem sabe se eu não tivesse nascido com a pele branca, talvez pertencesse àquele lado…”, diz Lord James Brooke, no cromo 288, ao ver o pirata da Malásia fugir-lhe por entre os dedos. E conclui, com a lucidez dos derrotados: «Mas agora é demasiado tarde.»
No mundo de Emilio Salgari, nem os bons são incorruptíveis nem os maus são sempre odiosos. Lord Brooke mostra-se «um homem sem escrúpulos, mas com o sentido da honra». Koa, um dos fiéis a Sandokan, conspira com os ingleses numa armadilha, mas suicida-se por não poder «resistir à vergonha da sua traição». Lord Guillonk, tio da bela Marianne, a pérola de Labuan, «é um homem frio mas com uma afeição muito grande pela sobrinha». E o Capitão Fitzgerald, que lhe move uma corte diplomática e insistente, é morto «à sombra de uma enorme árvore, gloriosamente, como um militar teria desejado.»
Porém, ninguém se compara à figura de Ianes, o braço-direito de Sandokan, um gentleman de bigode e cigarrilha cuja aparente fleuma não desmerece as origens: «Português, de origem nobre, atravessou meio mundo antes de alcançar Mompracem e de se tornar no melhor amigo de Sandokan. Aventureiro temido, com um passado misterioso, leal, generoso, está sempre pronto para a aventura e sempre com o sorriso nos lábios.»
Ainda se fazem cromos assim?"
(Publicado na Notícias Magazine de hoje, junto com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Para quem quiser rever imagens da série e trautear a música do genérico em italiano, aqui fica o registo da canção de Claudio Baglioni no You Tube. Todos em coro: “Sandokan Sandokan / giallo il sole la forza mi dà / Sandokan Sandokan / dammi forza ogni giorno ogni notte coraggio verrà / Sandokan Sandokan ...)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
ABECEDÁRIO DE LUÍSA DUCLA SOARES

Do mais recente livro de Luísa Ducla Soares, Brincar com as Palavras, eis um ABC que nos traz qualquer coisa da deliciosa perversidade de Edward Gorey:
“Abecedário Maluco de Nomes”
A é o António, que faz coisas do demónio.
B é o Bernardo, picou o rabo num cardo.
C é a Catarina, a fugir de uma vacina.
D é a Diana, com o sapato se abana.
E é a Elisa, sai à rua sem camisa.
F é o Filipe, para faltar diz que tem gripe.
G é a Gabriela, que se julga muito bela.
H é o Hugo, mais gordo que um texugo.
I é a Isabel, tem mais borbulhas que pele.
J é o João, a beber do garrafão.
L é a Leonor, namora o computador.
M é o Mário, guarda os livros no aquário.
N é a Natália, quando chove usa sandália.
O é a Olívia, lava as unhas com lixívia.
P é a Paulina, põe creme de margarina.
Q é o Quim, nas aulas come pudim.
R é o Ricardo, morde como um leopardo.
S é a Susana, a cavalo numa cana.
T é o Tomás, só de mentir é capaz.
U é o Urbino, come as cascas do pepino.
V é a Vanda, caiu na jaula do panda.
X é a Xana, tropeçou numa banana.
Z é o Zeca, plantou relva na careca.
(Brincar com as Palavras, de Luísa Ducla Soares, tem ilustrações de Joana Alves, Maria João Lopes e Teresa Lima, e ainda um CD musicado e interpretado por Daniel Completo. Ed. Civilização, 2010)
UMA NOVA COLECÇÃO


TALENTOS RENOVÁVEIS

(Informação enviada pela editora.)
terça-feira, 15 de junho de 2010
AMANHÃ ARREBATAREI UMA BESTA

“Amanhã arrebatarei uma besta é o título de uma narrativa gráfica ainda no prelo. A exposição que dá pelo mesmo nome, na Galeria de Papel do Espaço Campanhã, mostra a maior parte do trabalho que deu corpo a este livro. Uma maqueta do livro está igualmente presente para consulta no espaço da galeria.”
Não me importava de dar um salto ao Porto só para ver a exposição do Daniel Silvestre da Silva; sem dúvida, um dos meus ilustradores portugueses preferidos. Licenciado em Artes Plásticas/Pintura pela ESAD de Caldas da Rainha, trabalha em ilustração infanto-juvenil desde 2006, tendo colaborado com autores como Alice Vieira, Ana Saldanha, João Pedro Mésseder, José Jorge Letria, Wang Suoying e Ana Cristina Alves. Vejam o blogue aqui.
O horário do Espaço Campanhã é de terça a sábado, das 14h00 às 20h00. Morada: Rua Pinto Bessa 170 r/c tras., 122 Armazém 4/5 (atrás do BANIF). A exposição deverá ficar até ao fim do mês.
CARLA MATADINHO
E DEPOIS DISTO VOU DORMIR
“Era uma vez um menino pobre, que não tinha pai, nem mãe. Tudo estava morto e não havia ninguém mais no mundo. Tudo morto. E o menino andou, procurando dia e noite. E já que não havia ninguém mais no mundo, quis ir para o céu, onde a lua olhava com tanta simpatia. E quando chegou na lua, viu que era um pedaço de madeira podre. E então foi para o sol, e quando chegou no sol, viu que era um girassol murcho. E quando chegou nas estrelas, viu que eram mariposas douradas, estavam espetadas, como se espetam os vagalumes nas árvores. E quando quis voltar para a terra, a terra era um porto destruído. E o menino estava sozinho. Então se sentou e chorou, e até hoje ainda está sentado, sozinho.”
Foi postado há pouco tempo no Blogtailors e Pó dos Livros (pelo menos), mas não podia faltar no Jardim Assombrado: “Children’s Story”, uma pequena obra-prima de humor negro, escárnio e sacanice, contada e musicada por Tom Waits. Para quem não saiba, vem no álbum triplo Orphans – variante Bastards (os “bastards” dão sempre as melhores histórias). O texto acima (retirado daqui) é um excerto da célebre peça de George Büchner, Woyzeck, e a animação pertence a Matt Rosemier. Só escapou ao vídeo o riso sarcástico de Tom Waits, no final, tal como vem no disco…
PS – Tenho dúvidas quanto à tradução de “porto destruído”, mas infelizmente não leio alemão para poder comparar com o original.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
LER PARA CRESCER
A ILUSTRAÇÃO EM DESTAQUE
quinta-feira, 10 de junho de 2010
O SENHOR MELANCÓMICO
Sob os céus de Lisboa, algures entre as Amoreiras e Campo de Ourique, encontra-se o Melancómico, um possível pen-friend do Senhor Palomar (qual deles?) que carrega o mundo em sacos de supermercado. É o melhor pedaço de televisão que já vi desde Um Mundo Catita. Os quatro episódios, aqui, por partes. Pode começar pelos primeiros cinco minutos, clicando agora no "play".
quarta-feira, 9 de junho de 2010
GENIOZINHO

“Na altura dizíamos-lhe que se trabalhasse muito ainda ia conseguir publicar um livro e isso passou a ser um sonho para ela. No verão passado, quando estávamos de férias ela estava a ler O Rapaz de Bronze de Sophia de Mello Breyner Andresen e disse-nos que não sabia como a autora tinha conseguido publicar o livro porque escrevia como ela”, contou Emília.
Emília é a mãe da menina de nove anos que acaba de publicar um livro de histórias para crianças, a que deu o nome de A Grande Máquina do Tempo. Uma editora de Coimbra, Temas Originais, aceitou publicar o texto; que, segundo se diz nas notícias (aqui e aqui), não encontrou resposta noutras casas. Sinceramente, só espero que a moda não pegue. Não acredito em geniozinhos da literatura infantil que gostam de brincar às casinhas e vão à natação todos os dias, e muito menos em pais babados que admitem que a filha possa escrever como a Sophia de Mello Breyner Andresen. Se a catraia fosse minha, mandava-a já ler The Book of Virtues, do William J. Bennett, com posterior resumo de todos os capítulos.
Esclareço que a imagem acima não é da menina de Vila Real. Fui agora buscá-la à minha colecção de postais pirosos.
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MALASARTES 19








