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terça-feira, 18 de novembro de 2014
LER: UM TESOURO FANTÁSTICO
O fantástico site brasileiro Garatujas Fantásticas convidou-me para bater um papo virtual sobre o meu trabalho, fazendo companhia a outros escritores, designers e ilustradores portugueses: Isabel Minhós Martins, André da Loba, André Letria, Catarina Sobral, Yara Kono, Madalena Matoso, Ana Pessoa, Ricardo Henriques e Bernardo Carvalho. Responder às perguntas foi tão divertido como tirar as fotografias. Aqui está o resultado: http://garatujasfantasticas.com/cma_nopapo/. Na foto (cortesia de Tânia Raposo) está uma colecção essencial na minha formação leitora: O Tesouro das Crianças, um clássico dos anos 70 das edições Finsu Panamá, em português do Brasil. Oferta da minha Mãe.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
APRENDER COM OS MESTRES - 2
- Todos
os livros incorporam um conjunto de valores, intencionalmente ou não.
- Os
adultos gostam de alguns livros escritos para crianças.- As crianças gostam de alguns livros escritos para adultos.
- Crianças e adultos são influenciados pelo que leem.
- Um livro escrito para crianças pode ser um bom livro, ainda que as crianças em geral não gostem dele.
- Um livro escrito para crianças pode ser um mau livro, ainda que as crianças em geral gostem dele.
- Um livro pode influenciar num sentido (ou vários) que o autor não previu ou não teve intenção.
- Um livro pode estar bem escrito e, no entanto, dar forma a valores que numa determinada sociedade são largamente contestados.
- Um livro pode estar mal escrito e, no entanto, dar forma a valores que numa determinada sociedade são largamente aprovados.
- Um livro pode ser desaconselhável às crianças por causa dos valores que transmite.
- O mesmo livro pode significar coisas diferentes para crianças diferentes.
- É sensato prestar atenção aos julgamentos das crianças acerca dos livros, independentemente de os adultos concordarem.
- É sensato prestar atenção aos
julgamentos dos adultos acerca dos livros, independentemente de as crianças
concordarem.
(Fotografia retirada daqui.)
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
APRENDER COM OS MESTRES - 1
- É bom para as crianças lerem ficção.
- Os gostos das crianças são importantes.
- Alguns livros para crianças são melhores do que outros.
- É bom ajudar as crianças a gostarem de livros melhores.
- Um bom livro para crianças não é necessariamente mais difícil ou menos entusiasmante do que um mau livro para crianças.
- As crianças são indivíduos e têm gostos diferentes.
- Crianças de idades diferentes tendem a gostar de tipos de livros diferentes.
- Crianças de etnias diferentes e contextos sociais diferentes podem divergir nos seus gostos e necessidades.
(Algumas ideias sobre livros para crianças segundo Peter Hollindale, do artigo «Ideology and the Children's Book». Amanhã, parte 2 e 3)
DA MÃO PARA A BOCA
«Dizem que se os seres humanos não pudessem sonhar à noite acabariam loucos. Do mesmo modo, se não se permite a uma criança entrar no mundo do imaginário, ela nunca chegará a assumir a realidade. A necessidade dos contos, para uma criança, é tão fundamental como a sua necessidade de comida e manifesta-se do mesmo modo que a fome.»
(Paul Auster, A Invenção da Solidão)
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
MEDIADORAS DE LEITURA
Esta fotografia foi tirada na Praia de Matosinhos, entre os meus três ou quatro anos. Rodeada de tias, primas e senhoras amigas da família, usufruo de um dos valores mais importantes com que uma criança pode ser contemplada: ser encorajada a mostrar a sua originalidade; aquilo que a língua inglesa define como uniqueness e que não me parece ter tradução exacta para português. Pedem-me para ler qualquer coisa escrita num papelinho, porque sabem que sou capaz. Apesar do meu ar desconfiado e do olhar por cima do sobrolho, eu também sei que sou capaz. Creio que nesta fotografia está tudo o que é preciso de imaterial para fazer um bom leitor: incentivo, confiança, atenção, tempo, amor, descontracção, reconhecimento, autonomia. Tive essa sorte. Tenho essa gratidão.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
COISAS ACERTADAS
“Estamos num tempo com muito poucas narrativas. Creio que é isto que falta às gerações mais novas.” (Ler aqui a entrevista certeira de Dora Batalim à Pública. Via La Double Vie de Veronique.)
quarta-feira, 1 de junho de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ

«Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler na mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.
Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira à superfície, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Oferece-lhe outra chávena de café com leite.
Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.
Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.
Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.
Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.»
(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução livre de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
O ÚNICO LUGAR QUE

Não percebo o que têm os lugares a ver com a qualidade dos leitores e das leituras. Volta e meia, diz-se que o verdadeiro leitor não lê antes de adormecer (porque é displicente), não lê na casa de banho (porque é indigno), não lê na praia (porque é desconfortável) e não lê numa data de sítios e situações por uma razão ou por outra. Se isto fosse verdade, estávamos bem arranjados. Precisávamos de ser aristocratas e ricos para usufruir do nosso sofá italiano, biblioteca privada e mansão com jardim de buxo, ficando a salvo de todo o burburinho e incómodo do mundo. É claro que há lugares mais favoráveis ao sossego da leitura, mas quem gosta de ler, lê em qualquer lado, até no meio do Festival Sudoeste ou no autocarro mais bruto de Lisboa, o 750. O único lugar que conheço onde às vezes não se consegue ler, por muito que se tente ou que não se tente, é dentro da nossa cabeça. E contra isso não há nada a fazer.
Também há quem se especialize em ler no metro, sentado ou em pé, direito ou inclinado. The New York Times dedicou um slideshow e uma reportagem ao tema. A foto acima é de Ruth Fremson.
Também há quem se especialize em ler no metro, sentado ou em pé, direito ou inclinado. The New York Times dedicou um slideshow e uma reportagem ao tema. A foto acima é de Ruth Fremson.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
ESCOLA E LITERATURA, 2

No seguimento do post anterior, aqui ficam as respostas finais de Maria do Carmo Vieira, publicadas no último JL:
Que lugar devia ter então a literatura nas escolas?
Devia ser privilegiada. Qualquer aluno que saiba interpretar e ler Luís de Camões ou qualquer texto literário sabe interpretar um texto pragmático ou escrever um regulamento, uma acta, um relatório. E não me venham dizer, como tem sido argumento, de que isto é elitismo. As pessoas ‘pobrezinhas’ são pobres, não são estúpidas.
Qual é o perigo de, como diz no livro, «banir a frase ‘Era uma vez…’»?
Perder os contos de fadas é fazer as crianças perder o contacto com o simbólico. Sobretudo, é não deixar que elas sejam crianças e se deixem seduzir para a beleza da palavra. É nos contos de fadas que fazemos a nossa primeira aprendizagem, quase iniciática, da vida, mas de um modo protegido. Um dia mais tarde, vamos entrar em contacto com a vida já sem protecções, mas já fomos treinados. É isso que agora não se faz às crianças, não se lhes dão defesas. É só o lúdico. Ora, a vida não é isso. Por isso mesmo a Escola tem de preparar para a vida. Não é fingir que ama as crianças, porque isso não é amá-las mas desprezá-las.
terça-feira, 14 de abril de 2009
ESCOLA E LITERATURA, 1

Maria do Carmo Vieira, professora de português desde 1975 e um dos membros fundadores do Projecto Literatura e Literacia, tem sido uma voz persistente e incómoda na defesa da literatura nos curricula escolares. Está prestes a sair um livro que sintetiza algumas das suas perspectivas quanto ao lugar da literatura na aprendizagem, justamente intitulado A Arte, Mestra da Vida – Reflexões Sobre a Escola e o Gosto pela Leitura (ed. Quimera). A última edição do Jornal de Letras fez uma antevisão da obra e lançou algumas questões a que Maria do Carmo Vieira responde com a lucidez que lhe é habitual. Sem paninhos quentes (sublinhado meu):
“A Escola actual valoriza devidamente a literatura?
Deixou de valorizar a literatura… Apresentá-la dissociada da língua ou pô-la a par do texto informativo ou pragmático é um ultraje. A literatura é uma arte. Aliás, o título do livro, A Arte, Mestra da Vida, é retirado de um texto de Fernando Pessoa. Tenho cada vez mais convicta consciência de que não se quer fazer os alunos conviver com o que é belo e, sobretudo, não se quer que eles pensem. Basta ver os textos da OCDE sobre Educação para se sentir que está tudo organizado no sentido de dividir as pessoas nos que mandam e decidem e nos que obedecem sem pensar. Daí eu achar que a Escola está a perder esse papel milenar de formar para a vida e está antes a formar escravos.”
terça-feira, 7 de abril de 2009
MALASARTES 17

Já se encontra à venda a edição semestral da revista Malasartes, com data de Abril de 2009. A capa (linda) é de Luís Henriques, ilustrador que tem acompanhado Rita Taborda Duarte desde A Verdadeira História de Alice (2004) até O Tempo Canário e o Mário ao Contrário (2008). A dupla merece o destaque de abertura em dois artigos assinado por Ana Margarida Ramos e José António Gomes. Outros temas e autores presentes nesta edição: a multiculturalidade na literatura portuguesa para a infância, formação literária e mediação leitora, os picture books e a Planeta Tangerina, a colecção ecológica «Pintar o Verde com Letras», Ondjaki, Manuela Bacelar e Antero de Quental. Na “secção galega” da revista, encontram-se artigos sobre as primeiras traduções de literatura infantil para esta língua minoritária, a customização de ilustrações e ainda sobre o escritor Antonio García Teijeiro. Tudo isto e mais as habituais críticas de livros nas últimas páginas. Excelente!
terça-feira, 30 de setembro de 2008
PLANO NACIONAL DE LEITURA: UMA DÚVIDA
Achei muito elucidativo o último “Câmara Clara”, onde se falou do Plano Nacional de Leitura. Só não percebo uma coisa: se, como afirmou Isabel Alçada, os responsáveis fazem (cito) “quando muito, análises de livros” e não de autores, por que razão aparecem livros etiquetados com o selo do PNL mal acabam de ser editados? Serão os senhores das gráficas que os analisam? Os livreiros? Sejamos concretos: a Presença faz isso. E garante que não age à revelia do PNL, que na sua listagem de obras recomendadas tem uma nota de rodapé a esclarecer os professores: “Os títulos que pertencem a uma colecção podem ser substituídos por outro título do mesmo autor e da mesma colecção.” A Presença entende que este critério se aplica mesmo aos livros acabados de sair. Eu não interpreto assim. Quer dizer: então basta um autor escrever um novo título para a mesma colecção, para o ver automaticamente incluído no PNL. Mesmo que seja de qualidade inferior ao antecedente. Em que ficamos? Isto é abrir um precedente grave. Se todas as editoras decidem fazer o mesmo, passamos a alucinar com milhares de rodelinhas brancas na livrarias. Então, para que serve o PNL?
Achei muito elucidativo o último “Câmara Clara”, onde se falou do Plano Nacional de Leitura. Só não percebo uma coisa: se, como afirmou Isabel Alçada, os responsáveis fazem (cito) “quando muito, análises de livros” e não de autores, por que razão aparecem livros etiquetados com o selo do PNL mal acabam de ser editados? Serão os senhores das gráficas que os analisam? Os livreiros? Sejamos concretos: a Presença faz isso. E garante que não age à revelia do PNL, que na sua listagem de obras recomendadas tem uma nota de rodapé a esclarecer os professores: “Os títulos que pertencem a uma colecção podem ser substituídos por outro título do mesmo autor e da mesma colecção.” A Presença entende que este critério se aplica mesmo aos livros acabados de sair. Eu não interpreto assim. Quer dizer: então basta um autor escrever um novo título para a mesma colecção, para o ver automaticamente incluído no PNL. Mesmo que seja de qualidade inferior ao antecedente. Em que ficamos? Isto é abrir um precedente grave. Se todas as editoras decidem fazer o mesmo, passamos a alucinar com milhares de rodelinhas brancas na livrarias. Então, para que serve o PNL?
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