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terça-feira, 12 de setembro de 2017

OS LIVROS, OS LOBOS E OS MEDOS



Há algum livro, entre os doze que já editou, pelo qual sinta uma predileção especial? Parece-me que estou a perguntar à mãe qual o filho de que mais gosta, mas pronto… Fale-nos de três.
Mas há, claro que há. O livro do qual ainda não me desvinculei é o Irmão Lobo. Continua a viver em mim, tanto que me pede uma continuação. E vai acontecer. Eu nunca forço nada na escrita; não ando à procura de ideias mas mantenho-me atenta e disponível. E se as ideias ficam lá, durante algum tempo, dou-lhes atenção. Se elas se evaporam, deixo de pensar nisso. O Irmão Lobo foi importante porque me fez sair de uma zona de conforto; pode ser uma banalidade dizer isto, mas foi assim. Ao escrever, pela primeira vez, um livro para adolescentes e adultos, desviei-me do meu registo habitual, o álbum para crianças. O Irmão Lobo está dentro de mim e continuará a correr ao meu lado.
E sente esse retorno?
Um dos maiores retornos é saber que o livro foi traduzido na Colômbia, no México, na Alemanha, na Sérvia, em Itália. Este circular de um livro pelo mundo é muito bom, muito gratificante. Tal como dar conta de que a sua autenticidade atingiu o leitor.
E o segundo?
Também gosto muito do Onde Moram as Casas. Dos meus álbuns, é um dos mais arriscados. Apesar de a ilustração ser bastante figurativa, entendo ser uma proposta diferente.
Por não ter personagens?
Sim. As casas são as personagens e isso, só por si, torna-o original, creio eu. Mas recordo sempre o momento em que o terminei e o entreguei ao meu antigo editor na Caminho – o José Oliveira, uma pessoa marcante no meu percurso inicial – e notei que a primeira reação dele ao texto foi de estranheza. Eu estava segura da minha originalidade e, quando o ouvi dizer que talvez não fosse para crianças, fiquei desolada! Porque ao lado do escritor caminha sempre esta sombra do fracasso, da dúvida, da possibilidade concreta de morrer na pobreza… (risos) Não se ria, é verdade…
É um riso incongruente, por entender que é uma possibilidade bem real…
É o nosso medo mais atávico. Temos muitos exemplos ao longo da história. Herman Melville morreu sem ser reconhecido, e, noutro extremo, Truman Capote foi esmagado pelo sucesso de A Sangue Frio. Escrever exige-nos uma grande exposição, um abrir de entranhas, um caminhar numa linha muito ténue entre o poder e a extrema vulnerabilidade. O poder de tocar os outros e a vulnerabilidade de nos derrotarmos. Esta profissão é de uma tremenda imprevisibilidade. E precisamos de lidar com isso todos os dias.

(Excerto da entrevista à revista Focus Social, conduzida por Marta Vaz. Fotografia de Egídio Santos, na praia de Matosinhos. Pode ser lida na íntegra aqui.)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

CORVOS BRANCOS E SAUDADES DE MUNIQUE


4. White Ravens Festival: Carla Maia de Almeida, Portugal from Internationale Jugendbibliothek on Vimeo.

Quase um ano depois, recordo uma das semanas mais felizes da minha vida: representar a língua portuguesa pela primeira vez no Festival White Ravens 2016, uma iniciativa do IBBY/Biblioteca Internacional da Juventude (Munique), graças à tradução do Irmão Lobo (Bruder Wolf, ed. Sauerländer) para alemão. Obrigada à DGLAB, ao Planeta Tangerina, aos meus agentes da Bookoffice e a todas as pessoas que tornaram isto possível. Decididamente, não me interessa nada escrever "muito lá para casa". Um lobo deve correr mundo!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

HERMANO LOBO DISTINGUIDO PELO BANCO DEL LIBRO


Na Venezuela, a associação promotora da leitura Banco del Libro, vencedora do ambicionado Prémio ALMA 2007, incluiu a edição mexicana do Irmão Lobo (Hermano Lobo, El Naranjo, 2015) na sua lista anual dos melhores livros para crianças e jovens publicados em espanhol. Nunca é demais agradecer ao Jerónimo Pizarro pela tradução, ao António Jorge Gonçalves pelas ilustrações e a toda a equipa do Planeta Tangerina, além de todos os leitores que têm feito correr este livro além-mar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

IRMÃO LOBO NAS FINAIS DO CONCURSO NACIONAL DE LEITURA 2016/2017


Excelente notícia: Irmão Lobo (Planeta Tangerina, 2013) é o livro português eleito para a prova final dos alunos do 3º Ciclo das escolas da Área Metropolitana de Lisboa que participam na 11ª edição do Concurso Nacional de Leitura 2016/17, uma iniciativa do PNL - Plano Nacional de Leitura. Trata-se de uma área enorme que abrange 18 municípios da Grande Lisboa e da península de Setúbal; e todos os alunos seleccionados se encontrarão nas provas finais que decorrem em Sintra, município escolhido para receber o concurso, no Centro Cultural Olga Cadaval, a 2 de Maio. Alguém vai ter de ganhar, e Irmão Lobo até gostaria que todos ganhassem, mas distribui boa sorte em doses massivamente iguais. O livro estrangeiro que também chegou à final é o curiosíssimo e maravilhoso romance de John Boyne, A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket (Bertrand, 2013), o autor do best-seller O Rapaz do Pijama às Riscas. Irmão Lobo não podia estar melhor acompanhado. É uma honra! 

sábado, 11 de março de 2017

EM NOME DA FILHA: ENTREVISTA AO DN


Vamos começar pelo fim. Ao publicar este livro acredita que a violência na intimidade terá fim?
Não, pelo menos no meu tempo, não terei a sorte de assistir a isso. Mas temos de lutar para reduzir números que nos envergonham e, sobretudo, ampliar a consciência das gerações que estão em formação. A minha intenção, como jornalista e escritora, foi trazer informação relevante a um problema muito difícil de compreender. Como tudo o que envolve o humano.

O estudo mais aprofundado da questão faz com que esteja mais atenta no dia-a-dia ao que as "telhas escondem"?
Talvez. O conhecimento das coisas abre duas portas: primeiro, a da consciência. Depois, a da atuação, da intervenção. Tenho a certeza de que, se todos tentássemos perceber o que é a violência doméstica, todos estaríamos mais atentos. A prevenção é fundamental. 

Como se explica que após uma revolução nos alegados brandos costumes portugueses nas últimas quatro décadas esta violência se mantenha na ordem do dia?
Não acredito na teoria dos brandos costumes. Somos um povo ameno e pacífico, mas no que toca aos costumes podemos ser muito truculentos, porque é preciso pensar nos séculos que antecedem essas “últimas quatro décadas” que refere. A violência, aqui como no resto do mundo, está na ordem do dia, e exerce-se contra os mais fracos: mulheres e crianças. O último relatório Organização Mundial de Saúde diz uma em cada três mulheres vai ser vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais pelo simples facto de ser mulher.

Os portugueses foram surpreendidos recentemente com a violência no namoro. Esta é uma atitude que não tem limites em tudo o que diz respeito à relação entre pessoas? 
Foram surpreendidos pelos dados de investigação quanto à violência no namoro, porque esta sempre existiu. Nota-se, por um lado, uma embriaguez do poder por parte dos rapazes, imitando os piores exemplos que veem no mundo e, por outro, uma falta de rede de apoio para as raparigas terem consciência de que nada disto "é normal" e aceitável. Para ambos, rapazes e raparigas, estes dados revelam uma manifesta incompreensão do que é - já nem digo o amor! - mas uma relação afectiva plena e sadia, na qual ferir o outro, conscientemente, é algo intolerável.

A premeditação está sempre na base destes atos violentos?
Isso já é matéria de investigação criminal. Muitos agressores agem premeditadamente, outros por impulso e incapacidade de gerir as suas tensões internas. Uma coisa é certa: a violência não surge do nada. Há todo um historial, individual e familiar, que conduz à agressão. O pior é quando esta se banaliza.

Do que viu e ouviu, considera possível ultrapassar-se a passividade que decorre da violência psicológica contínua ou estamos apenas perante uma violência ainda maior?
Do que vi e ouvi, os relatos são coincidentes: a violência psicológica chega a ser mais marcante do que a violência física. Há palavras e ações que têm um efeito devastador na psique humana, especialmente quando são praticadas de uma forma sistemática e ritualizada. Lembro-me do caso de uma senhora cujo marido lhe exigia que tivesse o jantar pronto às sete da tarde, senão recusava-se a comer e atirava o prato para o chão. Isto é de uma humilhação brutal. É claro que, quando há agressão física, a violência psicológica está inerente, é o desrespeito pelo corpo do outro, pela totalidade do seu ser. Mas a violência psicológica ocupa um espaço tremendo no esquema mental e emocional da vítima. É insidiosa e muitíssimo destrutiva.  

Refere a perpetuação do ciclo da agressão. Está a ser contrariado pelas novas gerações?
Uma coisa é o ciclo da agressão numa relação conjugal, que obedece a um comportamento mais ou menos padronizado. Há uma escalada de tensão, há o explodir dessa tensão que desemboca na violência, e há a fase de acalmia, que mais não é do que um prelúdio do recomeço do ciclo. Outra coisa é o perpetuar de uma visão distorcida das relações de intimidade, em que há sempre um dominador e um dominado, e a violência torna-se admissível. Desde logo, porque não é entendida como violência! O estudo recentíssimo da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), sobre violência no namoro, é muito preocupante.    

Chocou-a ter de colocar a palavra "puta" tantas vezes nesta narrativa?
Chocou-me em que sentido? «Puta» é um dos insultos mais frequentes nos casos de violência relacional, não só entre adultos como adolescentes. Reproduzi o que ouvi, como era meu dever de jornalista, dentro de um contexto e de um enquadramento. Numa reportagem sobre violência doméstica seria absurdo usar floreados.

O atual papel da comunicação social e das redes sociais está a destruir os mitos da misoginia ou é complacente? 
A misoginia não é um mito, é uma realidade bem inculcada que se manifesta de mil e uma maneiras. Desde o comentário de café que rebaixa as mulheres, «as gajas que são isto ou aquilo», até aos casamentos impostos a meninas de 11 anos  ou às vinganças «de honra» que permitem a um homem atirar ácido sulfúrico para a cara de uma mulher, sem que daí venha nenhum mal ao mundo.

Ainda se pode acusar a Igreja de colaborar no encobrimento destas práticas ou só se o pode fazer em relação à família?
Não sei responder a isso. As mentalidades são sempre o mais difícil de mudar, e na sociedade portuguesa essas duas instituições têm um peso enorme. Para a maior parte das pessoas, quando a violência doméstica lhes bate à porta, o sentimento predominante ainda é a vergonha. É melhor varrer para debaixo do tapete do que sacudi-lo cá fora. Mais do que acusar, temos de ouvir e agir. Tudo menos silenciar, porque a violência doméstica alimenta-se muito do silêncio e do isolamento.

Uma situação que este ensaio foca é o da repercussão nos filhos. Não é um lado sempre demasiado ignorado?
A violência doméstica em que as vítimas são as crianças e os adolescentes daria tema para outra reportagem. É preciso compreender que são sempre vítimas, mesmo que não levem estalos ou murros. Porquê? Porque percebem que não podem fazer nada nas guerras dos adultos – não é o seu papel, de resto – e essa sensação de impotência é desorganizadora e paralisante. Depois tudo se reflete, seja nos comportamentos hiperactivos e agressivos, seja numa interiorização recalcada de emoções muito fortes. Espanta-me a forma como os adultos falam à frente dos filhos, achando que eles não percebem nada só porque são crianças.

Esta questão está na ordem do dia. Foi o que a fez despertar para o problema?
Em parte, sim, mas a família é um dos meus temas literários – para não dizer que é «o» tema. Quis compreender os comportamentos, as motivações, as repercussões e alguns meandros que existem por trás das famílias disfuncionais. O que se sabe sobre a violência doméstica é realmente pouco. Sabemos dos casos pelos jornais, pela rádio, pela televisão, mas muito na perspectiva do efeito de choque, não da compreensão do fenómeno. Isto gera um efeito perverso, que é de não irmos além da superfície. Acabamos por nos cansar e desligamos, género «Olha, foi mais uma que morreu!»

Foi-lhe difícil a recolha dos depoimentos?
Não tive dificuldade nos contactos, porque garanti anonimato e o nome da Fundação Francisco Manuel dos Santos é sinónimo de credibilidade. Mas foi difícil ouvir, desgravar, ler, reler, sublinhar e depois escrever. Comovi-me muito ao escrever. Mas creio que não há ponta de lamechice neste trabalho.

Admite investigar o outro lado da questão, o da violência sobre os homens?
Claro. Ainda agora comecei.

A maior parte da sua obra é no livro infanto-juvenil. A partir de agora o tema da violência na intimidade impor-se-á como pano de fundo ou fica por este Em nome da filha?
A minha obra literária tem sido sempre no livro infanto-juvenil, mas o tema da família é quase omnipresente: no Onde Moram as Casas, no Irmão Lobo, no Amores de Família, sobretudo. Sinto que esta reportagem em forma de livro abre um ciclo novo, mas não sei o que vai acontecer. Só sei que não quero deixar de escrever. Como os meus livros irrompem de uma forma muito ligada ao inconsciente, muito orgânica, é provável que este tema regresse, mesmo que eu não queira. 


(Texto completo da entrevista conduzida por João Céu e Silva para o Diário de Notícias de 22/2/2017, cuja maior parte foi publicada aqui. Não tenho fotos. A imagem acima pertence à entrevista ao jornal i, publicada no mesmo dia e conduzida por Marta F. Reis: aqui. A foto é de Paulo Sousa Coelho.)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

EM NOME DA FILHA: DIA D



O último relatório da Organização Mundial de Saúde (2014) reflecte a proporção desmedida que a violência doméstica atingiu no mundo inteiro: uma em cada três mulheres será vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher. Está a acontecer, neste momento. O jornal El País chamou-lhe «uma pandemia devastadora», num artigo publicado a 25 de Novembro, Dia Internacional contra a Violência de Género.

Quase um quarto dos países ainda não possui legislação própria que permita combater este drama humano, mas não é o caso de Portugal. Sobretudo desde a aplicação do I Plano Nacional contra a Violência Doméstica, lançado em 1999 e renovado até à presente data, com sucessivos melhoramentos, têm sido enormes os progressos em matéria de legislação e meios de intervenção específicos. Falta o mais difícil: mudar mentalidades, formar a consciência das novas gerações. Desde logo, questionar a existência de uma hierarquia entre homens e mulheres, atribuindo aos primeiros o privilégio e a primazia do poder. O caminho a seguir parece ser inquestionável: educar, educar, educar.

Da autora da jornalista Carla Maia de Almeida, a reportagem Em Nome da Filha - Retratos de Violência na Intimidade, é maioritariamente composta por testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica. Entrevistadas em vários pontos do país, acederam a contar as suas histórias sob anonimato, por razões compreensíveis. Essa condição não lhes retira a força nem a pertinência, porque a essa urgência de partilha correspondeu a vontade de contribuir para a mesma causa: lutar contra um problema que não é «doméstico», mas de toda a sociedade. Nas palavras da mais jovem entrevistada, que finaliza a segunda parte do livro, ficou bem expressa essa intenção: «Quero dizer a todas a raparigas que façam como eu. Foi só à primeira.»

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

EM NOME DA FILHA



(...) Violência doméstica, violência relacional, violência entre parceiros íntimos, violência em contexto de intimidade: nas páginas que se seguem usei as várias expressões num sentido equivalente. Na primeira parte, conta-se a história de uma adolescente, hoje com 39 anos, que no início da década de 1990 presenciou o assassinato da mãe às mãos do pai. Desde então, muito se progrediu no afrontar de um drama que deixou de ser «doméstico» e se assumiu como uma responsabilidade político-social, dotada de legislação e de intervenção específicas. Na segunda parte, podem ler-se nove testemunhos recolhidos em casas de abrigo (com uma excepção), intercalados com contributos de vários especialistas nesta área, com conhecimentos teóricos e «de terreno». Por fim, na terceira parte, e porque acredito que as histórias têm o poder de curar, proponho a adaptação de um conto dos irmãos Grimm, A Rapariga das Mãos Cortadas, uma metáfora da condição agredida das mulheres; mas também da possibilidade de aceitarmos, corajosamente, as nossas feridas emocionais e seguirmos em frente. Homens e mulheres, juntos, num caminho de absoluta igualdade.
A violência, doméstica ou não, nunca vai acabar, mas não podemos remeter-nos ao silêncio dos não-inocentes. Este é o tempo que nos foi dado a viver. Temos de estar à altura dele. 

(da introdução à reportagem Em Nome da Filha - Retratos de Violência na Intimidade, o meu 12º livro, recém-publicado na colecção «Retratos» da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Fotografia de capa de Valter Vinagre) 

sábado, 28 de janeiro de 2017

HERMANO LOBO DISTINGUIDO PELA FUNDACIÓN CUATROGATOS


Começar o dia com esta notícia que me faz sentir muito grata: a prestigiada Fundación Cuatrogatos, sediada em Miami, EUA, incluiu a edição em espanhol do Irmão Lobo na sua selecção dos melhores livros de ficção para crianças e jovens publicados no mercado iberoamericano, nos últimos dois anos. São 20 livros «altamente recomendados pelos seus valores literários e plásticos», de todos os géneros e para vários tipos de leitor, e que este ano integraram os catálogos de editoras sediadas na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha e México. Desta lista constam também os 90 livros finalistas; entre os quais um dos meus álbuns favoritos, A Contradição Humana, de Afonso Cruz. Não nos iludamos, porém. Pelo menos no que ao mercado português diz respeito, estas distinções prestigiam autores, tradutores e editoras, mas não fazem vender mais livros... directamente. Mas essa é outra conversa.

Agrada-me muito que Hermano Lobo tenha sido classificado na categoria «Para os que se atrevem com livros desafiadores». Ou seja: «livros para leitores valentes, que não se deixam intimidar pela complexidade das obras ou pela sua extensão. Propostas que exigem um maior compromisso do leitor na sua condição de co-criador do texto literário». Foi assim que a equipa de seleccionadores da Fundación Cuatrogatos descreveu o livro:

«Através de dois planos narrativos, que se alternam em páginas de branco e azul, este romance de grande profundidade psicológica e agilidade expositiva retrata a vida de uma família disfuncional, através de um puzzle de memórias evocadas pela sua jovem protagonista. Com a sua precária estabilidade física e emocional, Bolota, Alce Negro, Blanche, Fóssil e Miss Kitty são personagens poliédricos, de grande verosimilhança e humanismo, chamados a enfrentar situações complexas. Obra comovedora, que explora com subtileza as paisagens humanas e nos fala, com extraordinária sinceridade e acutilância, de desmembramentos, sobrevivência, redenção e amor.»

Com ilustrações de António Jorge Gonçalves e edição portuguesa do Planeta Tangerina, Hermano Lobo foi traduzido por Jerónimo Pizarro e publicado inicialmente na Colômbia (Taller de Edición Rocca, 2014), seguindo-se a edição no México pela El Naranjo, em 2015, com distribuição extensiva à Argentina, Chile, Perú, Uruguai e Guatemala. No Brasil, foi publicado pela Rovelle, depois de uma cuidadosa adaptação ao português do Brasil. Na Europa, depois da Alemanha e Sérvia, a próxima tradução será em italiano e acho que se vai chamar Lupo Sorello.

domingo, 13 de novembro de 2016

ADEUS, OLHO DE RELÂMPAGO


Esta é Dharma, a husky que entrou na pele (ou devo dizer no pêlo?) de Malik, o cão-lobo do meu livro. Morreu no passado domingo, com 14 anos, e tenho a certeza de que nunca lhe faltou amor. Conheci-a no verão de 2012, quando andava a escrever o Irmão Lobo. Precisava desesperadamente de ver um husky de perto, ir além da pesquisa enciclopédia, e pedi ajuda pelo Facebook. Várias pessoas me responderam, amavelmente, entre as quais o Mário Rufino, que se prontificou a apresentar a (sua) Dharma. Combinámos encontrar-nos no Vale do Silêncio, aqui perto de casa, e passeámos os quatro pelos trilhos do parque; a Ana e o Mário a explicarem-me, com toda a paciência, que os huskies não ladravam (ou raramente ladravam), mas produziam um som que depois descrevi como «um uivar soletrado, uma espécie de código morse dos huskies». Era parecido com a fala do Chewbacca, do Star Wars, insistia o Mário. Eu, burra, fiquei na mesma; foi preciso conhecer a Dharma e a sua estupenda família para colmatar essa falha cinéfila. Bom, então lá seguia ela, muito tranquila no seu andar gingão, sem me conceder a graça de um olhar, um olharzinho que fosse. Só quando o Mário lhe disse qualquer coisa é que a deusa levantou a cabeça e me encarou, fulminando-me ali mesmo, implacável; nem dez segundos aguentei a profundidade daquele azul-estalactite. Digo-vos, é preciso coragem para acolher os olhos de um cão. Agora que a Dharma se foi embora deste mundo, repito a pergunta que fiz ao Malik, seu irmão lobo: «Em que pradarias corres agora, Olho de Relâmpago? Solta o teu ladrar de trovão para eu saber onde estás.»

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

MARIA TERESA ANDRUETTO EM ENTREVISTA À BLIMUNDA




A argentina Maria Teresa Andruetto, senhora de um profundo e originalíssimo pensamento sobre a escrita e a leitura, foi a jóia da coroa das Palavras Andarilhas deste ano, em Beja. Falámos dela na sequência da atribuição do Prémio Hans Christian 2012 de Literatura, aqui. A Andreia Brites entrevistou-a para a Blimunda de Setembro, que pode ser lida ou descarregada aqui. Copiei três perguntas/respostas para o Jardim Assombrado e permiti-me aplicar uns sublinhados em alguns pontos (em itálico):

AB: Que balanço faz destes últimos trinta anos ao nível da formação leitora na Argentina?
MTA: Desde 1984, quando comecei a trabalhar nesta área, até ao presente houve um desenvolvimento muito grande na formação leitora de professores na Argentina. Também houve um crescimento muito grande da literatura para crianças. Claro que se edita muita porcaria também mas há mais editoras e mais qualidade nos escritores e nos ilustradores e um trabalho maior por parte da crítica. Sobretudo há uma muito maior formação de professores leitores. Há que ver isto de um modo particular: quando digo mais formação estou a pensar em mais inclusão. É muito importante esta diferença: mais quantidade de professores que se formam, maior quantidade de crianças que acedem à leitura nas escolas, porque se trata de escolas públicas. Antes havia uma grande diferença entre algumas escolas privadas, urbanas, de grandes cidades e as escolas públicas de aldeias pequenas e isso mudou. Há muito por fazer, todavia. Há muito para crescer. Temos um governo novo, desde dezembro passado, e não estamos no melhor momento. As pessoas estão a reclamar porque foram suspensos muitos projetos de desenvolvimento cultural, nomeadamente as compras estatais de livros para as escolas públicas de todo o país. Nos últimos dez anos compraram-se 90 milhões de exemplares de livros para as escolas públicas.

AB: E quem escolhe os livros para comprar?
MTA: Em 2008 houve uma mudança que me parece muito importante. Se há uma equipa de cinco pessoas, por mais que sejam excelentes, a selecionar compras milionárias há muita pressão das editoras. Então, em 2008 as pessoas que integravam as equipas de compras de livros passaram a ser à razão de duas ou três por província, professores do secundário e politécnico nomeados para uma comissão de dois meses para ler os livros, com um contrato de confidencialidade para não divulgarem a sua identidade. No total eram 70 pessoas. Isso parece-me que tornou a seleção mais diversificada, não tão urbana, não tão de Buenos Aires, com outras perspetivas e é muito mais difícil encontrar uma maneira de subornar 70 pessoas do que quatro ou cinco. Isso por um lado. Por outro lado, tudo o que se comprou desde 2008 foi para todas as escolas do país, ou seja, uma escola rural na Patagónia recebe o mesmo número de caixas que uma escola de um bairro da capital.

AB: Foi distinguida com o Prémio Hans Christian Andersen, em 2012, o maior na área da literatura infantil e juvenil. No discurso de entrega do prémio terminou dizendo não conseguir, então, compreender o seu alcance. Hoje já conseguiu?
MTA: Às vezes parece que não aconteceu. Hoje reconheço que o prémio me trouxe muitas coisas. Esse foi o alcance que não previ: talvez não estivesse aqui, não tivesse ido a tantos lugares onde me convidaram se não tivesse os meus livros traduzidos em línguas que nunca tinha imaginado. Nesse aspeto houve mudanças mas na minha relação mais profunda com a escrita não, nem tão-pouco com a minha vida pessoal. Talvez porque já tinha uns bons anos. Também porque na América-Latina já tinha muitos leitores e disso estou muito orgulhosa. Comecei a ser conhecida da periferia para o centro. Primeiro na minha cidade, onde agora há muitas editoras mas na altura não. Comecei a publicar em 1993 e em 2003, passados dez anos, descobri que tinha mais leitores do que pensava. Porquê o orgulho? Porque acredito que o escritor constrói os seus leitores, que constrói o tipo de leitores que quer para os seus livros. Nos primeiros dez anos vendia muito pouco. Ganhava prémios mas os editores reclamavam. Stefano chegou a ser devolvido porque não se vendia. As escolas rejeitavam-no porque ali também foi preciso mudar a condição leitora dos professores. Aí começaram a tolerar questões mais complexas. Bom, fui crescendo com os meus leitores e os meus leitores foram crescendo com os meus livros. Quando o Andersen chegou fiquei muito surpreendida porque nunca imaginei ganhar. Quando fui nomeada pela Argentina comemorei, porque, isso sim, considerei um prémio. Comemorei em família e tudo. O prémio não o esperava. Mas agradeço-o, como agradeço tantas outras coisas que a vida me deu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

ACEITAR QUE NÃO VEMOS, SÓ TATEAMOS


«Não consigo separar a sabedoria do amor; a sabedoria é uma inteligência, uma ciência, uma arte, mas é tudo isso como uma forma de amar. Quando pensamos na grande sabedoria, pensamos naqueles que, vivendo a grande depuração que o tempo opera em cada um de nós, são capazes de conservar uma inocência, uma pureza, um afeto. É sempre necessária uma porção muito grande de amor para chegar à sabedoria.

S. Paulo, no momento da conversão, ficou cego para começar a ver. A cegueira é uma metáfora de uma outra visão. É necessário um apagamento, um corte. Quer a experiência da tradução quer a da criação literária nasce de um corte primordial, que é muitas vezes a contemplação do mundo, o espanto perante o real. Esse corte obriga-me a ver as coisas de outra forma. Há que apagar o modo imediato, comum, mais óbvio e aceitar a escuridão, aceitar que não vemos, só tateamos.»

(Da maravilhosa intervenção de José Tolentino Mendonça na recente Festa do Livro em Belém. Para ler na íntegra na Pastoral da Cultura.)

domingo, 4 de setembro de 2016

SIZA VIEIRA, O BICHO-ARQUITECTO


E vão onze. Este já estava escrito há algum tempo e a aguardar calendário para publicação. É uma biografia para os mais novos de Álvaro Siza Vieira, que completou 83 anos neste Verão, inserida na colecção «Chamo-me...» (Didáctica Editora) e com ilustrações de João Concha. Escrevi-a com um certo peso na consciência por não perceber nada de arquitectura, mas entre os nomes biografáveis tinha mesmo que escolher alguém de Matosinhos. Começa assim:  

«Sabes o que é um arquitecto? Se fores procurar o significado da palavra ao dicionário (eu sei que sabes, mas procura na mesma) vais poder ler, por exemplo, que um arquitecto é alguém «que projecta ou dirige construções de edifícios». OK, até aqui é fácil. Começas logo a pensar em cidades, casas, fábricas, estádios de futebol, centros comerciais e esse género de lugares por onde passa sempre muita gente. Inclusive tu. Mas logo a seguir o mesmo dicionário diz que um arquitecto «é o que projecta ou idealiza qualquer coisa». Hum… Parece mais interessante.

Projectar ou idealizar quer dizer dar forma concreta a uma ideia que passa pela nossa cabeça e fica lá o tempo suficiente para não ser varrida por outra ideia qualquer. Portanto, se calhar, todos podemos ser arquitectos à nossa maneira, já que todos sabemos usar a cabeça, certo?

Lembras-te de quando eras muito pequeno e tentavas encavalitar cubos de madeira uns nos outros? Não? Espera lá, talvez os cubos de madeira não sejam brinquedos do teu tempo… Mas lembras-te, com certeza, das construções de legos. Ora aí está! Podemos ser arquitectos de brinquedos. E já viste alguém bater claras de ovo em castelo até elas ficarem completamente brancas e tão leves como bocados soltos de nuvens? Pronto, é isso. Também podemos ser arquitectos de bolos.

Agora vou dizer-te uma coisa que talvez te deixe surpreendido, mas juro-te que está escrita no meu dicionário. É incrível, mas aqui diz que um arquitecto pode ser «Deus». Hã?! Como é que é isso? Um «arquitecto» pode ser sinónimo de «Deus»? Hum… Isto parece ainda mais interessante. Quer dizer que, no fundo, um arquitecto é um criador. Bom, eu prometo-te que vamos voltar a este assunto, mas, para já, há algumas coisas que te quero contar sobre mim.»

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

UM MINUTO E MEIO





Sei que não é a melhor altura do ano para postar estes videos (camisola de gola alta... ai!), mas foram feitos há uns meses e só agora os vi. Um minuto e meio para falar do Irmão Lobo e do Amores de Família, com legendas em inglês. Uma produção da Bookoffice.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

IRMÃO LOBO A BANHOS


«Conhecemos nessa família uma miúda de oito anos (a mais nova de três irmãos) que, em processo de sobrevivência emocional face à inesperada situação, emana de si um esforço de compreensão e de maturidade alternados com uma doce ingenuidade criativa, num mundo quotidiano onde ela própria cria e constrói os seus cenários imaginários, nos quais dá outros nomes às personagens de quem depende e que giram à sua volta, entre elas, o seu cão-lobo, um husky. É um livro para todas as idades, uma história onde o final é, afinal, apenas um recomeço, um outro caminho, uma vida inteira pela frente.»

(Margarida Teodora Trindade, directora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas, escreveu uma bela crítica ao Irmão Lobo e recomenda-o no jornal Mediotejo.net, na rubrica «Passe pela biblioteca». O texto completo está aqui.) 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

IRMÃO LOBO NO KING'S COLLEGE


O Irmão Lobo esteve na exposição do King's College, em Londres. Parabéns, António Jorge Gonçalves!


«Aqui ficam algumas imagens da exposição Playground for Words, que esteve patente no Kings College, University of London, entre 5 e 6 de Maio de 2016. Com a colaboração da Embaixada Portuguesa e do Departamento de estudos de português e Espanhol, Humanidades, Kings College. Com a participação de Bernardo Carvalho, Afonso Cruz, João Fazenda, António Jorge Gonçalves, Yara Kono, Madalena Matoso, Madalena Moniz, Marta Madureira, e Catarina Sobral. Com o apoio das editoras: Editorial Acaminho, Orfeu Negro, Pato Lógico, Planeta Tangerina, e Tcharan.» 

(Informação retirada do blogue da livraria Miúda - Children's Books in Portuguese. Cortesia de Gabriela Ruivo Trindade.)

domingo, 22 de maio de 2016

UM LUGAR SEGURO


Soube recentemente do triste caso de um/a professor/a bibliotecário/a que se vê em palpos de aranha para conseguir trazer um escritor à sua escola, inserida num agrupamento com largas centenas de alunos e numa região economicamente «não deprimida». Motivo: os/as colegas boicotam qualquer iniciativa deste género, alegando não ter tempo nem disponibilidade para preparar a visita. Dito de forma mais simples: não estão para se chatear. Eu compreendo. Há escritores que também não estão para se chatear com visitas a escolas. Feitas as contas, talvez a proporção entre os que dão «negas» de parte a parte seja equilibrada. O problema é que, neste caso, menos por menos não dá mais e quem se lixa é o mexilhão. Talvez seja o meu romantismo a falar, mas quando conheço crianças que ainda têm uma imagem idealizada do escritor (percebe-se pelo tipo de perguntas que fazem), parece-me que há aqui um capital afectivo e simbólico a explorar no que toca à formação de novos leitores.

Dez anos depois de começar a ser convidada a visitar escolas, na sequência da publicação do meu primeiro livro (O gato e a Rainha Só, Caminho, 2005), constato que o sucesso e os riscos deste tipo de actividade são difíceis de calcular. Nesta matéria, faço parte do núcleo dos «positivistas de serviço». Na maior parte das vezes, as coisas correm bem ou muito bem: há curiosidade e entusiasmo, há comunicação, há criatividade, há cortesia, há livros para autografar. Outras vezes, a indiferença e até hostilidade dos professores é tão notória que convém ter poker face para conduzir uma sessão até ao fim. Como às vezes peco por não ter poker face, quando percebo que as coisas vão dar para o torto procuro concentrar-me nas crianças e num providencial espírito de missão que evite a catástrofe. Não é a sensação de tempo perdido que me angustia, mas a da exposição pessoal, quando inútil e confrangedora. Lembro-me de uma vez ter caído de pára-quedas no meio de uma turma do 9º ano e de pensar: «Tenho dez segundos para os agarrar ou isto vai ser um suplício.» Escapei por pouco, mas sempre se sai com algumas sequelas.

Às vezes levo a minha «mala de tesouros» (falei dela neste post), mas só na altura é que sei se a vou abrir ou não. Porque isto de mostrarmos de que massa somos feitos tem que se lhe diga e requer intimidade, silêncio, atenção, empatia, curiosidade. Naquele momento, são as crianças que me estão a ler e a «mala de tesouros» é um instrumento de mediação leitora, ao ligar a pessoa aos livros e à escritora. 

A semana passada, no âmbito do programa «Os escritores vão às escolas», uma ideia da Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra em articulação com a APE, estive na E.B./J.I de S. Marcos nº1. É uma escola do concelho de Sintra onde a vista para a serra ilude, durante algum tempo, a paisagem descarnada dos prédios sem árvores à volta. Olha-se com mais cuidado e percebe-se que muitas daquelas crianças não terão uma vida fácil. «A escola é o lugar onde elas se sentem seguras», disse-me depois o director, que também esteve presente na sessão. Éramos poucos, só uma turma do 4º ano, mas havia bastantes pais a assistir, e que a escola tenha conseguido esse envolvimento parece-me extraordinário nos tempos (desinteressados) que correm.

Os miúdos mostraram o que tinham feito à volta do Onde Moram as Casas e do Não Quero Usar Óculos. Além da criatividade, é de salientar a autonomia com que as professoras os deixaram conduzir a sessão. Via-se que estavam contentes e orgulhosos (os pais também). No fim das perguntas, abri a mala e mostrei alguns dos objectos que estavam lá dentro. Desafiei-os a fazerem o mesmo, para um dia terem também tesouros para partilhar. Quando fechei a mala e saí daquele lugar seguro, sem dúvida que levava mais coisas lá dentro. Foi uma das visitas mais bonitas a que já tive direito. Muito obrigada a todos.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

CLARA FERREIRA ALVES, 2


Mas ganhava-se bem nos jornais nessa época.
Não, não se ganhava nada bem. Há um período nos anos 90 em que se ganhava melhor mas eu complementava com a televisão. Só nos jornais propriamente ditos não. Nunca ninguém ficou rico a escrever num jornal. Claro que hoje há uma chacina das pessoas e na altura não havia esta austeridade. Mas hoje também há muita gente a escrever, muita oferta, muitos estagiários, muita mão de obra barata que na altura não havia. Havia mais triagem. A vida que levávamos implicava ter dinheiro, havia um desejo primordial de ganhar dinheiro, que também era importante. É que o jornalismo dava dinheiro e a literatura não dava. Os primeiros anos do Saramago dificilmente se pode dizer que tenham sido anos de prosperidade. O Zé Cardoso Pires vivia ultramodestamente. Tive essa conversa com ele várias vezes. Eu perguntava-lhe como é que ele conseguia viver só a escrever livros, e ainda por cima era muito lento... Foram 10 anos para escrever o Alexandra Alpha, era um escritor bissexto. Ele aguentava-se no limite da pobreza. A Edite, a mulher, trabalhava, e tinham uma vida ultrafrugal. Ele não viajava, não jantava fora todas as noites. O Alexandre O’Neill ganhava dinheiro na publicidade. O Fernando Assis Pacheco, que era um extraordinário escritor e poeta, estava na redação a fechar o jornal, outros davam aulas, tinham que trabalhar. Hoje é mais fácil um autor viver dos livros do que na altura. A Agustina uma vez disse-me isso no Frágil (o que é que a Agustina estava a fazer no Frágil, não sei, alguém a levou para lá), estava numa esquininha, com aquela curiosidade dela e eu perguntei-lhe o que é que era preciso para escrever um romance, para me tornar escritora a tempo inteiro, e ela disse a frase da minha vida: «Arranje um marido rico.» Lapidar.

Não tinha medo de falhar?
Não. Tinha medo de ficar sem dinheiro. Coisa que ainda tenho. Nunca tive medo de falhar. Vou-lhe dizer uma coisa muito sinceramente: o medo de falhar é aquilo com que vive todo o jornalista. Quando já tem a reportagem toda feita na cabeça, com as notinhas todas, uma reportagem de guerra, por exemplo, que é muito intensa e é sob pressão, e você já tem tudo, as 10 histórias incríveis que lhe contaram, e tem a deadline, e todo o jornalista que tem a pressão da escrita, desde os tempos da tarimba de que lhe falei, em que me incutiram o terror da prosa mal feita ·– nessa altura tem o medo de falhar. E é o medo que alimenta o jornalista, o medo de no fim, depois daquele trabalho todo, aquilo seja uma merda.

[Clara Ferreira Alves, in LER nº 141. Entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral. Fotografias de Pedro Loureiro.]

terça-feira, 29 de março de 2016

HÁ LOBOS EM NELAS


«Quando li o livro senti revolta: no momento em que a família começa a desmoronar-se senti-me revoltada pelo facto de correr tudo mal à Bolota e à sua família.» (Joana Sobral, 9º C)

«Irmão Lobo é um livro que tanto nos transmite felicidade como tristeza. É um livro "delicioso", principalmente pela maneira como a personagem principal, Bolota, e o seu pai, Alce Negro, falam entre si e vivem no seu mundo imaginário e de fantasia.» (Francisca Oliveira, 9º C)

«O pai, Alce Negro, vivia no mundo da fantasia e "ensinava" a filha a fazer o mesmo. Esta atitude fez-me reflectir, pois não sei até que ponto é correcto mostrar aos filhos que a vida é "um mar de rosas".» (Alícia Santos, 9º C)

«A meu ver, este é um livro que consegue, através de uma simplicidade e de uma inocência tremendas, fazer pensar nos problemas da vida. Gostei muito de o ler.» (Raul Sofia, 9º D)

«Senti-me cativada pela personagem Bolota, a narradora que me "obrigou" a mergulhar, do ponto de vista de uma criança, no bulício emocional da crise em que vivemos.» (Filomena Oliveira, 9º D)

«Não tenho palavras para descrever o meu sentimento ao ler este livro... Simplesmente fabuloso! Um livro que provoca, realmente, um pouco de ansiedade, esperança, alegria e até tristeza.» (Isabela Neves, 9º D)

«A meu ver, é daquelas obras que ficam para a vida. É daquelas obras que nos dá uma lição, uma lição para não imitar nem repetir.» (Raquel Costa, 9º C)

«Altamente recomendável para jovens e adultos!» (Professora Irene Santos)



(Excertos de algumas leituras interpretativas dos alunos da Escola Secundária de Nelas, que, em conjunto com os professores, desenvolveram um trabalho notável à volta do Irmão Lobo. Fiquei muito comovida por saber que o meu livro tocou tanta gente. Obrigada!)

A reportagem fotográfica da visita à escola pode ser vista aqui. As fotos são de Bruno Cardina, que também assinou o making of e alguns momentos do Concurso de Oratória - Texto puxa Palavra, realizado a 26 de Fevereiro, na Fundação Lapa do Lobo. Aqui.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

ESCRITA E VULNERABILIDADE


O acto de escrever também reescreve o escritor e a sua vida. Numa palavra: transforma-o. A menos que a escrita seja coisa anódina, exercício de estilo ou construção artificial, é impossível escrever com sinceridade sem nos tornarmos cada vez mais vulneráveis. Não quero dizer «sensíveis», porque todos somos mais ou menos sensíveis. Mas nem todos temos a intenção de nos tornarmos vulneráveis, com tudo o que de assombroso e assustador implica esse estado de porosidade ao mundo. É muito difícil separar as águas e dizer «isto é a vida e isto é a literatura», porque a contaminação é inevitável, mesmo insidiosa. Escrever pode baixar tremendamente o sistema imunitário e, com isso, originar livros sublimes: livros belos, terríveis e profundos. Livros que nos atravessam como um nevoeiro e nos fazem chegar à última página com as mãos molhadas e um arrepio no corpo todo. Ler também pede que nos tornemos vulneráveis, mas podemos sair airosamente. A vulnerabilidade que a escrita exige não é algo a que se possa escapar com o mesmo grau de conforto e desprendimento. No entanto, é ao tornar-se vulnerável que o escritor pode chegar a curar pela palavra. Para mim, esse é que é o Graal.

(Na imagem: Flannery O'Connor. Retirada daqui.)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

HISTÓRIA DA LEBRE DE CHUMBO


«Onde vai buscar as ideias para os seus livros?» Apesar de mil vezes repetida, esta pergunta contém uma curiosidade genuína, porque participa do mesmo mistério: o leitor questiona o escritor para que o escritor se questione. Já lhe respondi de várias maneiras, consoante as idades a que me dirijo, mas creio que a resposta mais simples e mais verdadeira será: vou buscar as ideias àquilo que me acontece. Ou, para ser exacta: vou buscar as ideias àquilo que acontece na minha vida interior; sempre nas entrelinhas das circunstâncias, dos eventos, dos factos, dos enunciados externos. Se não preservar a possibilidade desse espaço aberto e ilimitado, posso dar a volta ao mundo e regressar sem nada para contar. Consigo localizar de forma bastante precisa as ideias prévias a cada livro, a memória sensorial que as acompanha (onde estava, com quem estava, o que fazia...), mas ter um objecto na mão e poder partilhá-lo com os leitores é algo especial.

A Lebre de Chumbo, o conto de fadas que escrevi para a colecção da APCC (Associação para a Promoção Cultural da Criança) começou com a réplica homónima que se pode ver nesta imagem: uma pequenina lebre de chumbo encontrada numa loja de velharias de Lisboa, na zona do Rato. Nunca lá tinha entrado. Foi o único objecto que me chamou a atenção e, mal olhei para ela, exposta dentro de uma cristaleira, soube imediatamente que era para mim. Custou-me dez euros.

A lebre, animal associado à lua e ao feminino, simboliza em vários contos o valor do sacrifício, no sentido de «sacro ofício»: acto sagrado para a pessoa que o realiza em nome de algo ou de alguém. Há quem goste muito desse conto, há quem não goste e há quem não o entenda. Está tudo certo. Escrever para agradar ao leitor é a morte do artista.

E, por falar nisso, eis como a lebre de chumbo foi vista pelo Alex Gozblau: