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quinta-feira, 23 de abril de 2015

NAMORA UMA RAPARIGA QUE LÊ


Este é, sem dúvida, um dos posts mais namorados do Jardim Assombrado. O texto, originalmente em inglês, é atribuído a Rosemarie Urquico, escritora filipina de quem pouco se sabe. Deu origem a muitas reproduções e algumas réplicas curiosas, incluindo a versão oposta masculina, sarcástica, despudorada e também convincente: «Namora Uma Rapariga que Não Lê» (You Should Date an Illiterate Girl, por Charles Warnke). Porque todos os dias são dias do livro e todos os dias são bons para namorar, recupero o post, ligeiramente revisto mas não aumentado:


«Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro em livros em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler na mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que procurava. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas e usadas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares para a chávena, verás a espuma a pairar à superfície, porque também ela está enlevada. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade do Anel. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal, em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, subtileza, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que lê, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.»

quinta-feira, 2 de abril de 2015

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL


Comemora-se hoje, dia 2 de Abril, homenageando o nascimento de Hans Christian Andersen em Odense, Dinamarca, em 1805. A ideia partiu do IBBY (International Board on Books for Young People) e remonta a 1967. Desde então, o livro infantil passou por muitas mudanças, sem nunca perder um dos seus traços genéticos: ser portador de linguagens cruzadas que mobilizam a vida interior das crianças e aprofundam a sua relação com o mundo, ajudando a explicá-lo, questioná-lo ou, simplesmente, a usufruí-lo e imaginá-lo. É o que parecem dizer estes dois cartazes: o primeiro, do «nosso» António Jorge Gonçalves, vencedor do Prémio Nacional de Ilustração 2014, a convite da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas; e o segundo, cuja autoria não consegui identificar, do próprio IBBY. Hoje estaremos atentos à passagem de unicórnios e borboletas pelos locais menos habituais.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O QUE TEM UM BOM LIVRO PARA CRIANÇAS?


- Tem uma boa ideia e um conceito global forte.
- Tem uma linguagem verbal cuidada, estimulante e adequada ao destinatário infantil, abrindo para o literário, com possibilidades plurisignificativas, múltiplas, com um carácter aberto.
- Tem ritmo e musicalidade na leitura em voz alta.
- Tem ilustrações criativas e adequadas ao texto, acrescentando-lhe significado. Põe cuidado no design gráfico, formato e edição.
- Tem valores humanistas e intemporais. Está em sintonia com o seu tempo. É progressista, muitas vezes.
- Tem uma marca autoral forte.
- Tem emoções associadas à infância e significativas para a criança (humor, gozo, fantasia, devaneio, justiça, segurança…).
- Tem pensamento. Questiona. Permite reflectir.


(Esta é uma síntese a que cheguei - discutível, certamente - e que costumo transmitir nas minhas formações, sabendo de antemão que os livros «perfeitos» são aqueles que cada leitor escolhe. Fica a partilha, a pedido de várias famílias.)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL 2


«Cada leitor de uma história tem alguma coisa em comum com os outros leitores da mesma história. Separadamente, mas também em conjunto, eles recriam a história do escritor com a sua própria imaginação: um acto ao mesmo tempo privado e público, individual e coletivo, íntimo e internacional. Isto deve ser o que o ser humano faz melhor. Continuem a ler!»

Mensagem para o Dia Internacional do Livro Infantil escrita por de Siobhán Parkinson, autora, editor e tradutora irlandesa. Ler o texto completo no site da DGLAB.


terça-feira, 1 de abril de 2014

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL


É amanhã. A convite da DGLAB - Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e da Biblioteca, o cartaz deste ano foi desenhado por Ana Biscaia, vencedora do último Prémio Nacional de Ilustração.

[Ontem, no programa Praça da Alegria, estive com a Ana Biscaia a falar sobre o livro para crianças. É logo no início do programa, cerca de dez minutos de conversa: http://www.rtp.pt/play/p1057/e149375/praca-da-alegria-ii. O link foi enviado por cortesia de Ana Evaristo.]

quinta-feira, 6 de março de 2014

NO REGRESSO DO ALTO MAR


Maurice Sendak descreveu Outside Over There (Harper Collins, 1981) como a sua obra «mais pessoal». Não só as personagens se reportam directamente à sua biografia (o rapto do bebé Lindbergh, que o traumatizou), como todo o processo de trabalho o deixou exausto e deprimido, não obstante este ser também reclamado como o «favorito» entre os seus livros. E compreende-se. Numa leitura rápida, Outside Over There consegue ser quase impenetrável. Apesar da aparente simplicidade do texto, a sintaxe é muito mais complexa (ou inventiva) do que no caso de Onde Vivem os Monstros e Na Cozinha da Noite, conservando ecos de arcaísmos e da cadência das nursery rhymes. A história é furtiva e enigmática. As ilustrações, de tendência hiper-realista, guardam numerosas referências sociais, culturais e artísticas; esclarecendo o texto, umas vezes, e confundindo-o, outras. Traduzi-lo foi um prazer e uma dor de cabeça. Acabei ontem. Mas, na verdade, parece-me impossível de acabar. Querem saber como traduzi o título? Não digo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010