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domingo, 6 de março de 2016

THE WOMAN WHO LOVED THINGS


A woman finally learned how to love things, so things learned
how to love her too as she pressed herself to their shining sides,
their porous surfaces. She smoothed along walls until walls
smoothed along her too, a joy, a climax, this flesh
against plaster, the sweet suck of consenting molecules.

Sensitive men and women became followers, wrapping themselves
in violet, pasting her image over their fast hearts,
pressing against walls until walls came to appreciate
differences in molecules. This became a worship.
They became a love. A church. A cult. A way of being.

But, of course, it had to be: the woman's love kept growing
until she was loved by trees and appliances, from toasters
to natural obstacles, until her ceiling shook loose to send kisses,
sheets wound tight betwixt her legs, and floorboards broke free
of their nails, straining their lengths over her sleeping.

She awoke and drove out of town alone. In love, rocks flew
through her car windows, then whole hillsides slid, loosening
with desire. Her car shatttered its shaft to embrace her,
but she ran from the wreckage, calling all the sweet things
as she waited in a field of strangely complacent daisies.

She spoke of love until losing her breath, and the things
trilled to feel that loss too, at last, sighing in thingness.
She fell down, and the things fell down around her. She cried,
«Christ!» and the things cried «Christ!» in their things-hearts
until everything living and unliving wonderfully collided.


«The woman who loved things», de Cathleen Calbert, in The Best American Poetry - 1995 

terça-feira, 1 de março de 2016

ASSOMBRAÇÕES


Nos últimos dias, um fantasma brincalhão entrou no Jardim Assombrado e deixou um rasto branco no último post sobre Ana Margarida de Carvalho. Com alguma habilidade e diplomacia consegui mandar embora o danadinho. Simpatizo com fantasmas, desde que respeitem a privacidade. Não sei para onde terá ido o dito cujo, mas a partir de agora pode morar nesta fotografia da casa assombrada que existe em Nelas (lindíssima, por sinal) e que é uma honra ter aqui no meu jardim.  

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

HÁBITOS PECULIARES



Ransom Riggs, autor da trilogia iniciada com O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (ver post anterior) fala do seu hobby: coleccionar fotografias antigas de desconhecidos. Algumas entram nos livros, deixando-nos com aquilo a que se costuma chamar «uma inquietante estranheza». Mais sobre Ransom Riggs e outros videos aqui.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ALCE NEGRO VIVE


O meu Padrinho trouxe de Angola um tapete de parede igual a este, descoberto há dias num desses sites que compram e vendem coisas usadas. Até aos anos 70, quando ainda não estavam associados ao exotismo kitsh, encontravam-se frequentemente em muitas casas portuguesas, à entrada ou nas salas de jantar, representando leões, leopardos, antílopes e outros animais habituados aos grandes espaços. Eu teria uns quatro ou cinco anos e lembro-me de como me fascinava este enorme tapete-que-também-era-um-quadro (pelo menos, eu achava-o enorme), que se deixava tocar como veludo e exigia uma contemplação prolongada. Num mundo de adultos, em casa dos meus padrinhos, ninguém terá dado por este fascínio, nem eu teria gostado que dessem. Assim vivemos até hoje, os veados e eu, inseparáveis. Saciados pelo alimentar contínuo das imagens nas imagens sobre as imagens, num país livre onde nenhum animal se extingue.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

SAKURA


O ramo da cerejeira em flor
concede o seu perfume
a quem o quebrou.

(Chiyo-ni, O Crisântemo Branco - Antologia de Haiku, ed. Pedra Formosa, 1995.)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

TIPPI E O LIVRO DA SELVA




Ainda bem que este livro só foi publicado muito depois, ou Tippi Benjamine Okanti Degré teria sido perseguida por fotógrafos e jornalistas e gurus espirituais - e depois transformada numa atracção de freak show, o que certamente lhe teria sido fatal. Tippi, agora com 23 anos e a viver em França (nasceu a 4 de Junho de 1990), passou os seus primeiros dez anos entre os animais, acompanhando os pais, franceses e fotógrafos da vida selvagem, nas suas viagens por África. Estas fotografias e o video acima falam por si. Para uns, será um exemplo extremo de irresponsabilidade parental (como alguém comentou no FB); para outros, um caso raro de uma criança sobredotada, «índigo» ou outra dessas cores transcendentais muito em voga. Será ela a nossa parente mais próxima de um tempo não tão recuado assim, quando a humanidade ainda não tinha inventado a agricultura, o sedentarismo, a domesticação e, enfim, a civilização? Dá que pensar. As imagens são belíssimas. Bom fim-de-semana. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

DOMINÓ DAS CASAS


Passei os últimos meses obcecada com a lembrança deste dominó da minha irmã mais nova, um dos jogos mais memoráveis da nossa infância; não tanto pelo jogo em si, mas pela possibilidade que me dava de imaginar mundos diferentes e arranjar casamentos improváveis entre as figuras. A cigana com o cowboy. O italiano com a romena. O inglês com a bretã. O índio com a cambojana. E depois havia as palavras raras, que eu saboreava como um mistério à minha medida: «cubata malgaxe», «isba russa», «coliba romena», «sampana chinês», «choça marroquina»... Ficou-me na ideia a graciosidade bamboleante da rapariga taitiana e a arquitectura robusta das casas do norte da Europa. Ainda hoje, quando fecho os olhos, parece que sinto o cheiro da relva que cobria o telhado do chalé sueco. Como devia ser bom fazer crescer flores mesmo por cima dos nossos sonhos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

AQUI MORA A CASA



Esta é a verdadeira casa que inspirou a ilustração de capa do Onde Moram as Casas, feita pelo Alexandre Esgaio. Fica nos Anjos, em Lisboa, e tem aquela morbosidade inexplicável que tanto fascina nas casas abandonadas. Nunca lá entrei, nem sei se continua habitada, mas pagava para ver. Quando vou às escolas e me perguntam o que queria ser se não fosse escritora, costumo responder que gostaria de ter uma profissão que me permitisse entrar nas casas das pessoas como um fantasma, só para lhes respirar a atmosfera.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O JARDIM CURIOSO


De uma extinta linha férrea dos anos 1930, apropriada pela natureza, nasceu este lugar incrível, mais tarde ficcionado no livro O Jardim Curioso (Caminho). Falámos do caso aqui. Fotografias retiradas daqui.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ADMIRÁVEL MUNDO ANTIGO


Em 1957, quando a Agência Portuguesa de Revistas lançou Maravilhas do Mundo II, a Praça de São Marcos e o Palácio dos Doges ainda não eram sítios a evitar por quem tem um pingo de fé na raça humana. Meio século depois, pensamos em Veneza e invade-nos um prenúncio de angústia e náusea, provocadas pelo pulsar de milhões de máquinas fotográficas a disparar em uníssono, embaladas num turbilhão de línguas e sorrisos circunstanciais. É assim em Veneza, na Catedral de Notre-Dame, no Mosteiro de Montserrat, no Taj Mahal, no Coliseu de Roma ou perto de qualquer «criação assombrosa do espírito e da mão do Homem», como então exaltava o editorial. A ideia de um vai e vem de barcos turísticos passando por baixo das pernas do Colosso de Rodes, à espera do ângulo exacto à sua brônzea privacidade, só não acontece porque o desgraçado há muito se precipitou no mar, vítima de terramoto. Valha-nos isso. Olhamos para estes cromos e sentimos a nostalgia de um mundo estranhamente despovoado, que se agudiza no primeiro álbum, dedicado às «maravilhas naturais da crosta terrestre». Aqui, são sobretudo as palavras que fazem ressurgir devaneios próprios da infância, quando nomes como os Penhascos Monstruosos de Jabalpur ou os Alcantilados da Heligolândia pareciam conter mais aventuras do que a própria ficção. «Súbitas e violentas tempestades põem em risco de morrer geladas as pessoas mais robustas», lia-se, no cromo do Mar de Gelo. E crescia pelo corpo um arrepio de medo que hoje nos deixa felizes, se o conseguirmos recuperar.


(Texto publicado na edição de 15 de Maio da Notícias Magazine, revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, na secção "Nostalgia". Informação adicional: no original espanhol da Editorial Bruguera não havia cromos de «maravilhas portuguesas naturais». A Agência Portuguesa de Revistas acrescentou-lhe o Vale das Furnas, nos Açores, a Cabeça da Velha, na Serra da Estrela, e a Ilha da Madeira.)

domingo, 15 de maio de 2011

ÁRVORES, POR MANUEL ANTÓNIO PINA


"São seres silenciosos que, a nosso lado, partilham quotidianamente a mesma única vida, a sua e a nossa vida. Mal damos por elas, as árvores, tão comum e familiar é a sua antiquíssima presença perto de nós, e tão anónima. A maior parte das vezes pouco mais somos capazes de dizer do que «árvore», ou «árvores», porque também as nossas palavras se foram, pouco a pouco, tornando silenciosas. E, no entanto, cada árvore, como cada um de nós, é um ser absoluto e irrepetível, idêntico apenas mutantemente a si mesmo, uma vida única com uma história única, um passado para sempre atado, de forma única, ao nosso próprio passado."

(Do prefácio de Manuel António Pina para o livro À Sombra de Árvores com História, dos mesmos autores do blogue Dias Com Árvores: Paulo Ventura Araújo, Maria Pires de Carvalho e Manuela Delgado Leão Ramos. Foi editado pela associação de defesa do ambiente Campo Aberto, em 2004. Fotografia de Guto Ferreira, no Jardim Botânico do Porto.)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

CORRESPONDÊNCIAS, 1




“La nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.”

(Fotografia de Guto Ferreira meets Correspondances de Baudelaire meets Na Noite Escura de Bruno Munari.)

quinta-feira, 10 de março de 2011

O GIGANTE ARREPENDIDO



Já falei neste post de Natalie Merchant, a vocalista dos 10.000 Maniacs que assinou um disco de excepção, em 2010 (Leave Your Sleep, Nonesuch Records), uma antologia não canónica de poemas para crianças, por ela musicados e cantados. Maioritariamente do século XIX e primeira metade do século XX, tanto encontram a sua origem em autores anónimos ou esquecidos como em nomes consagrados como e.e. cummings, Christina Rossetti ou Robert Graves.

The Sleepy Giant, de Charles Edward Carryl (1841-1920), pertence mais ao primeiro caso; apesar de os seus livros terem usufruído de bastante popularidade, estão actualmente “out of print”. A história do gigante devorador de crianças, enraizada no mito de Saturno, é transversal à literatura para crianças e tem muitas variantes. Esta é uma delas. O vídeo acima está bastante bem feito e tem a vantagem de ser uma criação de autor, mas não corresponde à versão do CD, que pode ser ouvida aqui, com melhor qualidade de som e um delicioso excerto introduzido no corpo do poema por Natalie Merchant: “More eels my lady?/ Perhaps some bubble and squeak,/ or a little toad in the hole?/ A Lyconshire hot pot, perhaps?/ That would be nice.” Bem, é ouvir as duas versões, não sei qual delas é a melhor. Eis então a breve história do gigante arrependido:

The Sleepy Giant

My age is three hundred and seventy-two.
I think, with the deepest regret,
how I used to pick up and voraciously chew
the dear little boys that I met.

I've eaten them raw, in their holiday suits,
eaten them curried with rice.
I've eaten them baked, in their jackets and boots,
and found them exceedingly nice.

But now that my jaws are too weak for such fare,
I think it's exceedingly rude
to do such a thing, when I'm quite well aware,
little boys do not like being chewed.

And so I contentedly live upon eels,
and try to do nothing amiss,
pass all the time I can spare for my meals
in innocent slumber like this.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

RECUERDOS



Podia jurar que anteontem vi a águia ibérica do Félix Rodríguez de la Fuente a voar por cima da minha cabeça. E não, não foi num sonho.

sábado, 31 de julho de 2010

NATALIE MERCHANT: VOZ, POESIA E ALMA




Natalie Merchant, a voz inconfundível dos 10.000 Maniacs, entregou-se durante seis anos àquele que considera ser o projecto “mais elaborado” que alguma vez completou ou sequer imaginou. Leave Your Sleep, o primeiro álbum de estúdio desde 2003, é uma fulgurante colecção de 26 poemas em língua inglesa (supostamente) para crianças, por onde passam autores anónimos, nomes obscuros do século XIX e alguns consagrados como Robert Louis Stevenson, e.e. cummings ou Edward Lear. Ternos e melancólicos, uns; eivados de fantasia e humor nonsense, outros – todos adquirem uma qualidade rara na interpretação de Natalie Merchant, que pôs a plateia das Ted Talks a bater palmas entusiásticas – para depois mandar calar toda a gente, porque a música assim o exigia. O que se pode ver e ouvir aqui são algumas das canções de Leave Your Sleep, com Natalie Merchant acompanhada por excelentes intérpretes, por vezes soando como uma orquestra de câmara e outras como uma banda de blues. O disco demorou um ano a gravar e reuniu os contributos de uma centena de músicos de vários géneros.

Todos os poemas estão reproduzidos no site oficial, onde também se podem ouvir excertos das músicas durante tempo suficiente para ir a correr comprar o disco. Este vem acompanhado de um booklet de 80 páginas muitíssimo bem feito, com texto e fotografia, contendo informações preciosas acerca dos autores musicados, resultado da investigação de Natalie Merchant ao longo de cinco anos. Se isto não é o projecto de uma vida…

quinta-feira, 22 de julho de 2010

SO LONG, MARIANNE


Este blogue não está de férias. Mas gostava de estar.

(Fotografia de Marianne North, artista vitoriana e uma das primeiras mulheres a viajar para os Antípodas, a fim de registar as espécies botânicas da Austrália, Tasmânia e Nova Zelândia. O seu trabalho está exposto permanentemente num pavilhão dos Royal Botanic Gardens, em Kew.)

domingo, 27 de junho de 2010

VIEW-MASTER: A REALIDADE AGORA A CORES




"Não há turistas mal comportados nas Cataratas do Niágara. Como figurantes na maqueta de um mundo perfeito, vivem suspensos no interior dos discos do View-Master, com os seus binóculos e oleados pretos, imunes ao vento e aos salpicos de água, sempre rodando no sentido dos ponteiros do relógio. Se quiséssemos, poderiam rodar até à eternidade, sem nunca tirar os olhos da paisagem.

O View-Master foi uma das atracções da Feira Internacional de Nova Iorque, em 1939, a par da Magna Carta e do ar condicionado. Patenteada no ano seguinte, a invenção partiu do engenho de dois norte-americanos, Gruber e Graves, apostados em recuperar o princípio dos visores estereoscópicos do século XIX: duas imagens bidimensionais que, sobrepostas, dão a ilusão de profundidade. O uso do filme Kodachrome, outra invenção recente do tempo de Gruber e Graves, completou a magia. Com as suas cores saturadas e formato 16 mm, também usado pelo cinema, a realidade nunca foi tão luminosa como através do View-Master. Até os oleados pretos dos visitantes das Cataratas do Niágara adquirem um brilho especial.

Para as gerações de miúdos que nele tiveram um dos seus brinquedos preferidos – o equivalente em sofisticação às actuais consolas de videojogos –, saber que o View-Master surgiu para mostrar o Grand Canyon ou as Grutas de Carslbad é uma relativa decepção. Além de gadget turístico, também foi usado para fins militares, uma ideia aviltante, mesmo sabendo que estávamos na época em que até o mais inocente objecto era olhado como potencial contribuinte para o esforço de guerra.

Mas pouco importa. O View-Master continua a ser o cinema portátil a que tivemos direito, o único onde nunca pagámos bilhete. Fomos os projeccionistas amadores das histórias de Peter Pan, Cinderela, Mickey Mouse e Os 101 Dálmatas, entre tantas outras. Tivemos um vislumbre da Estátua da Liberdade e do Outono no Vermont, sem saber onde era o Vermont. Conhecemos a vida selvagem de África, acompanhando as imagens com legendas típicas dos interlúdios do cinema mudo: «O leão é naturalmente preguiçoso.» Ou: «Jovens elefantes tomando banho.»

Com o View-Master, nunca foi preciso acumular pontos para subir de nível. O jogo era outro. O jogo era só nosso."

(Texto integral da versão publicada no número de 13 de Junho da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia". Imagens originais de view-master digitalizadas com a cortesia do jardineiro honorário deste blogue, Guto Ferreira.)