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terça-feira, 19 de setembro de 2017

BEST OF OSCAR WILDE



«O atual tratamento das crianças é terrível, sobretudo por pessoas que não compreendem a psicologia peculiar da natureza da criança. A criança pode entender um castigo infligido por um indivíduo, como um pai ou um educador, mas não consegue entender um castigo imposto pela sociedade. Não consegue perceber o que é a sociedade.» (Oscar Wilde)



Num mundo onde as crianças já não têm só medo do escuro, de aranhas ou de fantasmas, mas passaram também a recear a guerra e os ataques terroristas, estas palavras são de uma profunda atualidade. Estamos todos – e não só as crianças – com dificuldade em «perceber o que é a sociedade». Ler estes contos talvez ajude os leitores mais jovens a compreender valores essenciais que os adultos não sabem ou não têm tempo para explicar. Valores como a amizade, a solidariedade, a coragem, a justiça e a bondade. Depois, há o lado lúdico da leitura que nos remete para o humor inimitável de Wilde – e nos recorda que os grandes leitores raramente são pessoas aborrecidas. Mais: que podem tornar-se grandes contadores de histórias. Para ajudar uma criança a não ser um adulto aborrecido, é importante dar-lhe bons livros a ler e encorajá-la a contar histórias que tragam significado para si e para os outros. Não é uma receita, é um projeto de vida. Plenos de sabedoria e graça, os contos de Oscar Wilde são indispensáveis na construção desse projeto. 

(Contos Escolhidos, Oscar Wilde, ed. Fábula, Setembro de 2017. Tradução e prefácio de Carla Maia de Almeida.)

sábado, 9 de setembro de 2017

UMA CRIANÇA PERGUNTOU


Uma criança perguntou O que é a erva? trazendo-ma nas suas mãos cheias;
Como poderia responder-lhe? eu que não sei mais do que ela?

Talvez seja a bandeira da minha índole, de matéria verde tecida.

Ou talvez seja o lenço do Senhor,
Uma perfumada prenda, uma lembrança que intencionalmente cai,
Com o nome do seu dono num dos cantos, para que ao vê-lo perguntemos De quem é?

Ou talvez a própria erva seja uma criança, um filho da vegetação.

(...)

in Canto de Mim Mesmo, de Walt Whitman, ed. Assírio e Alvim, 1992. Tradução de José Agostinho Baptista. Na foto: W.W. com os dois filhos da família Johnston.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

ROBIN HYDE, JOAN OF ARC


Não conheço nenhuma tradução para português desta mulher invulgar que escolheu o nome literário de Robin Hyde, evasivo e misterioso como os seus poemas. Nasceu em Cape Town, na África do Sul, em 1906, mas viajou com os pais para a Nova Zelândia quando tinha apenas um mês. Viveu sempre no limiar da sobrevivência, como jornalista e escritora, numa época e num país onde não era fácil ser mulher (mas alguma foi?). Interessou-se pelos direitos dos maoris, cujo estatuto de povo colonizado comparava ao do género feminino. Teve um filho que entregou para adopção, por não ter condições mínimas de o manter. Não gozava de boa saúde e acabou por se submeter a tratamento psiquiátrico, no Auckland Mental Hospital. Ironicamente, foi essa oportunidade de ter um quarto que fosse seu (para usar a expressão da sua contemporânea, Virginia Woolf), que lhe permitiu escrever, em quatro anos, sob o encorajamento dos médicos, três romances e dois livros de poesia, além de crónicas e reportagens. Escreveu muito sobre os proscritos da sociedade, numa busca de respostas que reflectia as suas próprias perdas, o seu desamparo e a sua quase indigência material. Os amigos foram o maior apoio, mas não conseguiram evitar o suicídio de Robin Hyde, aos 33 anos, a 23 de Agosto de 1939. A Segunda Guerra Mundial estava prestes a eclodir e ela estava em Londres. Um representante do governo da Nova Zelândia tinha ido buscá-la ao quarto onde morava, nesse mesmo dia, com o intuito de a repatriar. Falhou por umas horas.


Joan of Arc

It is for me to dare, whilst others dream.
Pity, my God, on all bewildered fools
Who must affront grave order, steadfast rules
Mellowed by centuries! How vain and crude
Will seem my tossing torches, in this town
Whose carven saints with quiet eyes gaze down
Into the sliding river. Wise friends above,
Had you but taught God's nobler name is Love.

What if the pity in my heart has wrung
Silence to speech, the semblance of a tongue
Given to meadowsweet, to brook and tree?
What matter? Many faces lift to me
Their ancient loss and evil. Have I choice,
Save to stand firm, and cry, "Thus speak the Voice"?
Some love me, some will mock... for I am young...
I think that they will doom me at the last.
All but the scent of grasses will glide past,
All but the quiver in my tree will cease...
God send, I flung the starved some shred of peace.

(in The Conquerors and Other Poems, originalmente publicado em Londres pela Macmillan, 1935.)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

OS MONSTROS MUDAM DE CASA



Uma releitura de Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak, com ilustrações de Maria Bouza Pinto, é o risco assumido de Monterroso (ed. Máquina de Voar). Segue-se a minientrevista a João Ferreira Oliveira, jornalista e escritor, publicada na última edição da LER, secção «Scrapbook», onde escritores, ilustradores, editores, livreiros e outros intervenientes do circuito da LIJ (literatura infantojuvenil) falam, meio a sério, meio a brincar, do seu processo criativo: 

CMA: Maurice Sendak e Augusto Monterroso: é arriscado juntar dois grandes escritores no mesmo livro, não?  
JFO: Literatura sem risco é uma redação. Há autores que parecem ter escrito tudo e não deixam espaço para mais nada, outros há (os grandes) que colocam todo um novo mundo à disposição de quem vem a seguir. Monterroso escreveu aquele que é considerado o mais pequeno conto de sempre: «Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá». Sendak ilustrou como ninguém os monstros que vivem na cabeça de uma criança. Achei que se dariam bem no mesmo livro.

CMA: Os pais de Monterrosso andam à procura do filho. O tempo está mau para a navegação familiar?
JFO: Os tempos nunca são fáceis para a navegação familiar. Em todas as épocas e em todas as casas há tempestade. Mas enquanto há vida, há bonança. 


CMA: «O teu filho desapareceu e tu vais ler?», diz o pai. Costuma tomar nota de frases estranhas?
JFO: Se não forem estranhas para quê tomar nota? «Na Selva viveu uma vez um Macaco que queria ser um escritor satírico.» É o começo de um conto de Augusto Monterroso. Nem sequer é para crianças, mas faz-nos querer brincar com as palavras. 


(Fotografia tirada do site do CCB, onde Monterroso foi tema para uma oficina para crianças.)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MANEIRAS DE SER MENINO


   «Meninos da rua. Bulhentos, sujos, execrados. Escorregam nas escadinhas do bairro em tábuas roubadas a vedações, pondo à roda a cabeça das vizinhas velhas. Urinam nos portais. Viram caixotes do lixo. Vendem pentes. São presos às vezes.
   Meninos da serra. Acanhados, desconfiados, lentos. Têm dez, doze irmãos. Não gostam de doces. Estudam na escola a nascente e a foz dos rios, e nunca viram o mar.
   Meninos pastores. Solitários. Sabem histórias medonhas de lobos e de bruxas. Guiam-se pelo Sol. Guardam no bolso o Universo num ovo de pisco, num seixo vidrento, num saltão todo verde.
   Meninos filhos de pescadores. Olhos de alga, corpo de onda, voz de vento. Embalados em canastras ou ao colo de velhas redes, seus sonhos cabem num barco. E como nada os espanta e nada os amedronta, nem chegam a ter infância.
   Meninos ciganos. Nascidos e criados à borda dos caminhos. Alimentam-se de bagas silvestres e de rábanos como os cavalos. De pele da cor da terra, têm gestos fugidios de cobra e olhos de noite e de mistério. E a sua alma é antiga como a própria raça.»

(...)

Maria Ondina Braga, «Maneiras de ser menino», crónica incluída no livro A Revolta das Palavras, ed. Livraria Bertrand, 1975.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 26


«O mar acabara para os olhos de Macário, naquela noite. A areia frágil também acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela erosão, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que peixes morriam e o amor, às vezes, principiava.»

Maria Gabriela Llansol, A Terra Fora do Sítio, in Os Pregos na Erva, ed. Portugália, 1962.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

TEMPOS DO TEMPO



DIA DE OUTONO

Senhor: é tempo. O verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.

Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda dois dias mais meridionais,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, longo tempo o será,
fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.


Rainer Maria Rilke, Poemas I, ed. Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1967. Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela.

domingo, 30 de outubro de 2016

CHESTERTON, O MEDO E OS CONTOS DE FADAS


«Dei-me conta de que existem realmente seres humanos que acham que os contos de fadas fazem mal às crianças. Não estou a falar do homem da gravata verde, até porque nunca poderei considerá-lo como um verdadeiro ser humano. A verdade é que uma senhora escreveu-me uma carta muito sentida a dizer que os contos de fadas não deviam ser ensinados às crianças, mesmo que sejam verdadeiros. Ela diz-me que é cruel ler contos de fadas às crianças visto que os mesmos as aterrorizam. Pela mesma lógica, poderemos então dizer que é cruel oferecer romances sentimentais às raparigas porque estes as fazem chorar. Este género de conversa baseia-se num total esquecimento do que é uma criança, esquecimento esse que tem sido o fundamento incontornável de tantos programas pedagógicos. Se mantivermos as crianças longe dos bichos-papões e dos duendes, elas acabarão por inventá-los na mesma. Uma criancinha a sós e rodeada de escuro é capaz de desvendar mais infernos do que Swedenborg. Uma criancinha é capaz de imaginar monstros tão gigantes e negros que uma só imagem não os conseguirá capturar, ao mesmo tempo que lhes atribui nomes demasiado irreais e cacofónicos para figurarem sequer nos gritos de um qualquer lunático. Em primeiro lugar, a criança sente-se naturalmente inclinada para os vários horrores, e mesmo que não goste deles não deixará de os alimentar. A dificuldade de dizer com propriedade onde é que o puro tormento começa neste caso é tão grande quanto a de dizer onde começa o nosso tormento quando decidimos encaminharmo-nos de livre vontade para a câmara de tortura de uma grande tragédia. O medo não nasce dos contos de fadas; o medo nasce do universo da alma.»

G.K. Chesterton, «O Anjo Vermelho», in Ficar na Cama e Outros Ensaios, tradução de Frederico Pedreira, ed. Relógio d'Água, 2016. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VAMOS COMPRAR UM POETA? VAMOS!



Imagine-se um mundo onde poetas e artistas inspirassem medo. Novela para todas as idades ou retrato do poeta enquanto jovem cão, nada se exclui. Afonso Cruz assinou o Scrapbook da LER de Verão, uma coluna onde se pretende cruzar o trivial com o essencial, sem nunca ultrapassar os 1200 caracteres. Ora (re)leiam:

CMA: Vamos Comprar um Poeta é uma novela distópica ou realista?
AC: Não são sinónimos?

CMA: Gostaria que este livro fosse lido por quem?
AC: Por toda a gente, claro. Há sempre a legítima esperança de chegar a pessoas que sabem ler, mas que (ainda) não são leitoras. Por vezes faz-se alguma confusão entre uma coisa e outra. Aprender a ler é um trabalho mais ou menos confinado no tempo, mas ser leitor é um trabalho eterno. É sempre possível interpretar melhor, é um processo inesgotável.
A cultura tem um papel muito importante a todos os níveis, ontologicamente e teleologicamente, por isso espero que nunca seja demais sublinhar isso. Tenho pena de que, por vezes, os próprios agentes culturais desprezem a profundidade que lhe é inerente e digam coisas como «a ficção é um escape para uma realidade difícil». Acho que é muito mais do que isso. A ficção constrói toda a realidade. Todo o futuro humano depende dela.

CMA: Quando usou a palavra «debalde», imaginou-a meio cheia ou meio vazia?
AC: No contexto, vazia. Mas acredito que terá a sua ressurreição, enquanto vocábulo em desuso, em relação a direitos humanos, democracia, justiça social.

(Mais sobre Vamos Comprar um Poeta aqui.) 

domingo, 25 de setembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 25


   «Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
   Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.»

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, ed. Relógio d'Água, 2002. Originalmente publicado em 1977.

(Ver todos da etiqueta "O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO na «nuvem» ou aqui)

terça-feira, 13 de setembro de 2016

MESTRE DAHL NASCEU HÁ CEM ANOS




Odiado por uns, amado pela maioria, Roald Dahl nasceu há cem anos, no dia 13 de Setembro de 1916, em Cardiff. Autor de dezenas de short stories adaptadas para as séries de televisão Contos do Imprevisto e Hitchcock Apresenta, foi como escritor de literatura para crianças que se distinguiu, em parceria com o ilustrador Quentin Blake.

Só na década que precedeu a sua morte, a 23 de Novembro de 1990, venderam-se onze milhões de livros do escritor que um número indeterminado de professores, bibliotecários e críticos classificou como «não recomendável». Depois de morrer, em Oxford, aos 74 anos, feito o diagnóstico de leucemia e uma vida inteira de dedicação aos cigarros, álcool e analgésicos, Roald Dahl continuou – até hoje – a suscitar as mais antagónicas reacções.

Nos Estados Unidos, país onde se estreou literariamente com uma narrativa de não-ficção sobre a sua experiência como piloto da RAF (publicada na Saturday Evening Post, em 1942), Dahl é agora irreconciliável com os tempos do politicamente correcto. O seu humor selvático, sustentado numa predisposição intrínseca para a ironia e para o grotesco, atinge especialmente os personagens de adultos, muitas vezes retratados como bárbaros estúpidos e capazes das maiores vilanias contra os mais fracos. Veja-se o casal de Os Tontos (The Twits), Mrs. Trunchbull, a directora de escola em Matilde (Matilda), ou esse desfile de horrores carnavalescos que é As Bruxas (The Witches), uma das suas obras mais polémicas.

A enredos de estrutura transparente, consistindo no reavivar da luta mítica do herói contra o Mal, Roald Dahl acrescentou a singularidade da sua imaginação e a sua memória obsessiva (e o bom trabalho dos seus editores, justiça lhes seja feita). Nos seus livros não há sentimentalismos, mas há afectos e emoções intensas. Nascido em Cardiff, no País de Gales, de pais noruegueses, «vinha de uma família de bons cozinheiros e bons contadores de histórias», como lembra um dos seus biógrafos, Jeremy Treglown. A mãe foi, segundo o próprio, «a primeira influência», ampliada pelo desaparecimento prematuro do pai e de uma irmã, quando ele tinha apenas três anos.

Repetindo o padrão familiar, uma série de acontecimentos trágicos acompanharia a vida pessoal de Roald Dahl, ao longo dos trinta anos conturbados de casamento com a actriz Patricia Neal. Também a experiência dos colégios internos ingleses, com os seus castigos sádicos e permanente clima de bullying, lhe deixou marcas indeléveis. No entanto, muitos dos seus heróis e heroínas – quase sempre crianças – são animados por um espírito combativo e industrioso, expurgado do narcisismo e arrogância de que o autor era acusado, entre outros defeitos. O «gigante amigo», citando um dos seus livros mais felizes, O GAG (The BFG), podia não ter o melhor feitio e carácter do mundo, mas deixou-nos grandes livros, à imagem dos seus quase dois metros de altura.


(Não costumo reeditar textos no blogue, mas creio que este se justifica. Saiu na edição nº 96 da LER, em Novembro de 2010.)

domingo, 29 de maio de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 24


«As pernas das mulheres estão escancaradas, por isso trauteio. Os homens começam a irritar-se, mas sabem que é tudo por eles. Descontraem-se. Mantenho-me de lado, incapaz de fazer alguma coisa para além de observar, é uma provação, mas não digo uma palavra. De qualquer maneira, a minha natureza é de estilo silencioso. Quando criança consideravam-me respeitadora; quando jovem chamavam-me discreta. Mais tarde, pensavam que tinha a sabedoria que só a maturidade traz. Hoje em dia o silêncio é visto como algo de estranho, e grande parte da minha raça esqueceu a beleza de dizer muito ao falar pouco.»

Toni Morrison, Love, ed. Dom Quixote, 2009, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 2003.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A MINHA FADA ORIANA



Um minuto e meio para falar de um dos livros da minha vida: A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais um testemunho incluído na série «Ler para Crer», iniciativa da biblioteca da Fundação Lapa do Lobo.

terça-feira, 10 de maio de 2016

CLARA FERREIRA ALVES, 1



No livro é muito crítica das elites.
Sou.

Dessas elites que parecem não ter consciência dessas vidas de que falava.
Não têm consciência nenhuma. Já não tinham no tempo do Eça de Queirós. N’O Primo Basílio, quando faz o retrato daquela família, do Jorge, da Luísa e depois da Juliana das botinas, a melhor parte é quando ele descreve a vida da Juliana. A explicar um pouco o rancor, o ódio, a velhacaria, mostrando o que foi a vida da Juliana que evidentemente as elites portuguesas ignoravam e sempre ignoraram e continuam a ignorar. Só que nós agora temos uma nova elite que é a elite dos grandes assalariados: vão esquiar, têm uma vida muito confortável nas grandes empresas ou na banca, e muitos deles tomaram o aparelho de Estado, têm negociatas... Essa nova elite, que não se parece com as antigas (que eram as do nome de família, de nascimento, os aristocratas, mas que eram quase sempre descendentes de um merceeiro que tinha feito fortuna), essa nova elite é a da democracia – mas não é melhor, só leem as revistas do coração, lixo, e consomem exatamente os mesmos produtos que o lumpen. Consomem a mesma televisão, as mesmas revistas e os mesmos jornais. Já fui a casa de pessoas com muito dinheiro, que têm uma casa maravilhosa, com arte – agora toda a gente tem arte –, objetos de design extraordinários e depois apercebemo-nos de que não há um livro.

Acha que esse défice cultural resulta num défice de empatia? O que transparece do seu livro é que essas elites não vivem preocupadas com o que se está a passar com os outros.
Não, estão preocupadas com os seus próprios bens. Tirando os que têm uma consciência católica e sentem um dever moral da sua própria religião (e há muita gente assim, é justo que se diga, que age por um imperativo religioso ou familiar), tirando isso estão muito pouco preocupados com a vida das pessoas. Não fazem ideia de como vive uma pessoa que tem a mãe paralisada, ou o filho que não é bom aluno, que moram na periferia, que têm de vir para a cidade, que têm muito pouco dinheiro. Acha que essas elites têm alguma ideia do que é ir para a bicha com o cartão da segurança social às seis da manhã, esperar que aquilo abra, tirar uma senha e esperar até às duas da tarde para ser atendido? Uma vez escrevi uma crónica sobre isso. Nunca as elites portuguesas foram tratar pessoalmente do cartão do cidadão. O cartão foi ter com eles. Acha que um grande banqueiro português alguma vez foi tratar do cartão do cidadão ou do passaporte? Claro que não. Não ajudam ninguém, não dão dinheiro a ninguém, não dão dinheiro para uma ala do hospital, não patrocinam. No outro dia estava no supermercado e ouvi qualquer coisa para ajudar o Sequeira a ficar em Portugal. Até pensei que fosse um drama humano. Afinal era o quadro do Domingos Sequeira. Mas não há um desgraçado de um milionário em Portugal que permita que o quadro fique em Portugal? Acho isto incrível.

[Clara Ferreira Alves, in LER nº 141. Entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral. Fotografias de Pedro Loureiro.]

domingo, 17 de abril de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 23


«Ele acordou bem-disposto. Não havia razão para acordar de outra maneira.
Era apenas uma criança. Tinha vinte anos. Tinha mais de um metro e oitenta e pesava noventa quilos e nunca estivera doente na vida. Era o número dois da equipa de ténis e, em casa, no escritório do pai, existia uma prateleira cheia de taças que havia ganho em torneios desde os onze anos. Tinha o rosto esguio, de traços rudes, cabelo negro liso que usava um pouco comprido, o que evitava que ele parecesse um atleta. Uma vez, uma rapariga tinha-lhe dito que ele se parecia com Shelley, outra achava-o parecido com Lawrence Olivier e ele sorriu, discordando de ambas.»

Irwin Shaw, Onde Todas as Coisas Sábias e Belas Descem, in Estórias da Playboy - O Melhor de Quarenta Anos de Ficção, ed. Círculo de Leitores, 1995, tradução de Teresa Bernardes e Carlota Pracana. Originalmente publicado em 1995. 

sábado, 16 de abril de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 22


«Embora o seu pai tivesse imaginado para ele um brilhante futuro no exército, Hervé Joncour acabara por ganhar a vida com um ofício insólito, ao qual não era estranho, por singular ironia, um jeito tão amável ao ponto de revelar uma vaga entoação feminina.
Para viver, Hervé Joncour comprava e vendia bichos-da-seda.
Corria o ano de 1861. Flaubert escrevia Salammbô, a iluminação eléctrica ainda não passava de uma hipótese, e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, combatia uma guerra da qual nunca chegaria a ver o fim.
Hervé Joncour tinha 32 anos.
Comprava e vendia.
Bichos-da-seda.»

Alessandro Baricco, Seda, ed. Dom Quixote, 2008, tradução de Simonetta Neto. Originalmente publicado em 1996.

domingo, 6 de março de 2016

THE WOMAN WHO LOVED THINGS


A woman finally learned how to love things, so things learned
how to love her too as she pressed herself to their shining sides,
their porous surfaces. She smoothed along walls until walls
smoothed along her too, a joy, a climax, this flesh
against plaster, the sweet suck of consenting molecules.

Sensitive men and women became followers, wrapping themselves
in violet, pasting her image over their fast hearts,
pressing against walls until walls came to appreciate
differences in molecules. This became a worship.
They became a love. A church. A cult. A way of being.

But, of course, it had to be: the woman's love kept growing
until she was loved by trees and appliances, from toasters
to natural obstacles, until her ceiling shook loose to send kisses,
sheets wound tight betwixt her legs, and floorboards broke free
of their nails, straining their lengths over her sleeping.

She awoke and drove out of town alone. In love, rocks flew
through her car windows, then whole hillsides slid, loosening
with desire. Her car shatttered its shaft to embrace her,
but she ran from the wreckage, calling all the sweet things
as she waited in a field of strangely complacent daisies.

She spoke of love until losing her breath, and the things
trilled to feel that loss too, at last, sighing in thingness.
She fell down, and the things fell down around her. She cried,
«Christ!» and the things cried «Christ!» in their things-hearts
until everything living and unliving wonderfully collided.


«The woman who loved things», de Cathleen Calbert, in The Best American Poetry - 1995 

sábado, 21 de novembro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 21



«Em primeiro lugar, há o problema do começo; principalmente, o de sabermos como é que passamos de onde estamos, o que, por enquanto, é em sítio nenhum, para o outro lado. É, pura e simplesmente, um problema de ponte, um problema de se improvisar uma ponte. As pessoas resolvem estes problemas todos os dias. Resolvem-nos e, uma vez resolvidos, avançam.»

J.M. Coetzee, Elisabeth Costello, ed. Dom Quixote, 2004, tradução de Maria João Delgado. Originalmente publicado em 2003.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

LUTO COM AS ARMAS QUE TENHO


DD: Curiosamente, a amizade que muitos acreditam que poderá ficar para segundo plano num futuro não muito longe devido a utilização das novas tecnologias, que cada vez mais isolam os mais novos aos ecrãs do seu telemóvel. Como acha que devemos recuperar a “amizade do contato”?

MFS: Como deve imaginar, acredito que o podemos fazer todos os dias, cada um no seu plano. O meu é o dos livros. Tenho recusado, por exemplo, escrever romances juvenis que se baseiam nas redes sociais, em trocas de mensagens. Para mim, esta é uma preocupação gigantesca. No outro dia, parando para dar passagem a estudantes numa passadeira, reparei que nenhum conversava, iam todos agarrados aos ecrãs. Por isso, no que depender da minha escrita e do meu trabalho no treino da mente, estarei sempre a alertar para o perigo de se perderem as ferramentas sociais e de relacionamento (linguagem não-verbal, comunicação eficaz, avaliação de estados emocionais, e por aí adiante), de nos isolarmos uns dos outros e dos custos que isso traz no futuro. Não é também de relegar o impacto que isto tem na capacidade de atenção e memorização, e já estamos a sentir os efeitos disto. Luto com as armas que tenho, neste caso, através do que escrevo, polvilhando os textos com esses pequenos detalhes emocionais, fugindo de adjetivar, mas dando pistas de como se comportam as personagens e obrigando o leitor a perceber qual a emoção que está por trás disso.

(Margarida Fonseca Santos em entrevista ao Diário Digital, a propósito do seu mais recente livro, Bicicleta à Chuva. Vale a pena ler tudo, aqui.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

DAVID ALMOND: O MESTRE TEM LIVRO NOVO


«As histórias têm um aspeto maravilhosamente ordenado no papel. Toda aquela mancha preta fantástica; aquelas linhas direitas, páginas e parágrafos fantásticos. Mas as histórias são coisas vivam, criaturas que se mexem e que se desenvolvem na imaginação do autor e do leitor. Devem ser consistentes e palpáveis, tal como a terra, e devem possuir profundidades fluidas, tal como o mar. Estas histórias têm lugar num mundo real - nas ruas onde cresci, nas praias e nos campos por mim palmilhados. Pessoas que conheço entram nelas. Mas, na ficção, mundos reais fundem-se com mundos imaginados. Pessoas reais caminham lado a lado com fantasmas e produtos da imaginação. A verdade terrena anda de mãos dadas com as mentiras aquosas.»

(Na fotografia: David Almond, escritor inglês (n. 1951) distinguido com o Prémio Hans Christian Andersen 2010. O texto pertence à introdução ao livro de Uma Criatura Feita de Mar (Half a Creature From the Sea, 2014), agora publicado pela Presença. Oito contos de estranhamento e concepção mágica do mundo, do melhor que já li deste «meu» mestre. Vou no terceiro: «Quando Deus Apareceu no Jardim da Cathleen». Já conto mais.)