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segunda-feira, 17 de julho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 31


«Sou constantemente assaltado por memórias de sítios onde vivi, as casas e os bairros. Por exemplo, há um prédio vermelho de arenito, nas East Seventies, onde, no princípio da guerra, aluguei o meu primeiro apartamento em Nova Iorque. Era uma assoalhada atravancada de mobílias de sótão, um sofá e grandes cadeiras estofadas daquele veludo vermelho desbotado tão característico, que geralmente se associa aos dias de calor dentro de um comboio. As paredes eram de estuque, de uma cor de seiva de tabaco. Por toda a parte, até na casa de banho, havia gravuras de ruínas romanas acastanhadas pelo tempo. A única janela dava para uma escada de incêndio. Mesmo assim, ficava bastante eufórico quando sentia no bolso a chave para aquele apartamento tão esconso e sombrio; não deixava de ser um sítio meu, o primeiro, e tinha lá os meus livros e colecções de lápis por afiar, tudo o que precisava, julgava eu, para me tornar o escritor que queria ser.»

Truman Capote, Breakfast at Tiffany's (Boneca de Luxo), ed. Dom Quixote, 2009. Tradução de Margarida Vale de Gato. Originalmente publicado em 1958.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 30


«É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de fortuna necessita de uma esposa.»

Jane Austen, Orgulho e Preconceito, ed. Presença, 2014, tradução de Ângela Miranda Cardoso com Maria João da Rocha Afonso. Originalmente publicado em 1813. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 29


«Ele estava prestes a entrar na meia-idade e vivia, por essa altura, num bangaló em Woodland Avenue. O verde das ervas rasgava os degraus do alpendre e, mais acima, um ninho de abelhas estava agarrado a um espigão, bem visível. Do olmo, moribundo, pendia uma corda, enlaçada no feitio sinistro de uma forca, e o chão por baixo dela tinha sido tão esfregado pelas inúmeras marcas de botas que estava tão macio como farinha. Jesse instalara-se numa cadeira de baloiço e fumava lentamente o seu charuto, apreciando o ar da noite, enquanto a sua mulher limpava as mãos rosadas ao avental de algodão e se ocupava alegremente dos dois filhos do casal. Sempre que ele caminhava pela casa, trazia consigo vários jornais - o Daily Democrat, de Sedalia, o Gazette, de St. Joseph, e o Times, de Kansas City - e a sua pistola calibre .44, enfiada numa prega de roupa onde coubessem os seus trinta centímetros. Andava sempre com os bolsos atafulhados de lápis sem bicos. Divertia-se a atirar amêndoas aos esquilos. Gostava de entrelaçar dentes-de-leão amarelos no cabelo loiro da sua mulher. Esforçava-se por desenvolver habilidades para viajar para fora do seu corpo e interessava-se por premonições e feiticiaria. Chupava gemas cruas das cascas dos ovos e comia ervas quando estava doente, como um cão. Abria a Bíblia Sagrada sempre do mesmo modo, ou seja, com grande alarido e solenidade.»

Ron Hansen, O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, ed. Magnólia, 2007, tradução de Amândio Oliveira. Originalmente publicado em 1983.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 28


«Foi mau, o inverno de 1933. Avançando penosamente naquela noite por entre labaredas de neve, com os dedos dos pés a arder e as orelhas em chamas, a neve a revolutear à minha volta como um bando de freiras raivosas, parei abruptamente. Chegara a hora de pensar bem. Com bom ou mau tempo, havia certas forças no mundo que se conjugavam para tentar destruir-me.»

John Fante, 1933 Foi um Mau Ano, ed. Alfaguara, 2017, tradução de José Remelhe. Originalmente publicado em 1985.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 27


   «Arminda era alta, esbelta, tinha cabelos ondeados e gordurosos de cigana e uma expressão sensual nos lábios feridos do cieiro que se entreabriam num sorriso doce e púdico, de virgem. Isabel Montalvão nunca fora muito bonita mas, ao ir perdendo a frescura, os traços tinham-se-lhe depurado e ganhara em distinção a tal ponto que a sua fotografia preferida, a que devia representá-la para a posteridade, havia de ser tirada por um fotógrafo profissional, contratado para ir a casa no dia em que fez cinquenta anos. No dia a dia, sobretudo se não tencionava sair, arranjada com simplicidade e de cara lavada, podia passar por criada de uma casa rica, mas bastava-lhe calçar as luvas, prender o cabelo no chapéu e empoar-se, para ficar o nec plus ultra da elegância. Havia ainda Leni, morena e espalhafatosa, que usava boina, fazia caretas de palhaço e tinha sempre um cigarro suspenso entre dois dedos ou provocadoramente entalado nos lábios.
   O meu pai gostava das três e toda a sua infelicidade estava em que nenhuma o consolava da ausência das outras.»

Teresa Veiga, A Paz Doméstica, ed. Cotovia, 1999.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 26


«O mar acabara para os olhos de Macário, naquela noite. A areia frágil também acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela erosão, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que peixes morriam e o amor, às vezes, principiava.»

Maria Gabriela Llansol, A Terra Fora do Sítio, in Os Pregos na Erva, ed. Portugália, 1962.

domingo, 25 de setembro de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 25


   «Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
   Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.»

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, ed. Relógio d'Água, 2002. Originalmente publicado em 1977.

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domingo, 29 de maio de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 24


«As pernas das mulheres estão escancaradas, por isso trauteio. Os homens começam a irritar-se, mas sabem que é tudo por eles. Descontraem-se. Mantenho-me de lado, incapaz de fazer alguma coisa para além de observar, é uma provação, mas não digo uma palavra. De qualquer maneira, a minha natureza é de estilo silencioso. Quando criança consideravam-me respeitadora; quando jovem chamavam-me discreta. Mais tarde, pensavam que tinha a sabedoria que só a maturidade traz. Hoje em dia o silêncio é visto como algo de estranho, e grande parte da minha raça esqueceu a beleza de dizer muito ao falar pouco.»

Toni Morrison, Love, ed. Dom Quixote, 2009, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 2003.

domingo, 17 de abril de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 23


«Ele acordou bem-disposto. Não havia razão para acordar de outra maneira.
Era apenas uma criança. Tinha vinte anos. Tinha mais de um metro e oitenta e pesava noventa quilos e nunca estivera doente na vida. Era o número dois da equipa de ténis e, em casa, no escritório do pai, existia uma prateleira cheia de taças que havia ganho em torneios desde os onze anos. Tinha o rosto esguio, de traços rudes, cabelo negro liso que usava um pouco comprido, o que evitava que ele parecesse um atleta. Uma vez, uma rapariga tinha-lhe dito que ele se parecia com Shelley, outra achava-o parecido com Lawrence Olivier e ele sorriu, discordando de ambas.»

Irwin Shaw, Onde Todas as Coisas Sábias e Belas Descem, in Estórias da Playboy - O Melhor de Quarenta Anos de Ficção, ed. Círculo de Leitores, 1995, tradução de Teresa Bernardes e Carlota Pracana. Originalmente publicado em 1995. 

sábado, 16 de abril de 2016

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 22


«Embora o seu pai tivesse imaginado para ele um brilhante futuro no exército, Hervé Joncour acabara por ganhar a vida com um ofício insólito, ao qual não era estranho, por singular ironia, um jeito tão amável ao ponto de revelar uma vaga entoação feminina.
Para viver, Hervé Joncour comprava e vendia bichos-da-seda.
Corria o ano de 1861. Flaubert escrevia Salammbô, a iluminação eléctrica ainda não passava de uma hipótese, e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, combatia uma guerra da qual nunca chegaria a ver o fim.
Hervé Joncour tinha 32 anos.
Comprava e vendia.
Bichos-da-seda.»

Alessandro Baricco, Seda, ed. Dom Quixote, 2008, tradução de Simonetta Neto. Originalmente publicado em 1996.

sábado, 21 de novembro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 21



«Em primeiro lugar, há o problema do começo; principalmente, o de sabermos como é que passamos de onde estamos, o que, por enquanto, é em sítio nenhum, para o outro lado. É, pura e simplesmente, um problema de ponte, um problema de se improvisar uma ponte. As pessoas resolvem estes problemas todos os dias. Resolvem-nos e, uma vez resolvidos, avançam.»

J.M. Coetzee, Elisabeth Costello, ed. Dom Quixote, 2004, tradução de Maria João Delgado. Originalmente publicado em 2003.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 20


«Nada devem saber a meu respeito, se não tiverem lido um livro que dá pelo nome de As Aventuras de Tom Sawyer, mas isso não tem qualquer importância. Esse livro foi escrito por Mr. Mark Twain que, de um modo geral, contou a verdade. Houve coisas em que exagerou, mas disse quase sempre a verdade. Não tem importância. Nunca conheci ninguém que de vez em quando não mentisse, a não ser a tia Polly, ou a viúva, ou talvez Mary.»

Mark Twain, As Aventuras de Huckleberry Finn, Edições Nelson de Matos, 2010, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 1884.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 19


«A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso.»

José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima, Melhoramentos, 1976. Originalmente publicado em 1968.

domingo, 20 de setembro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 18


«Buck não lia jornais. Caso contrário, teria sabido que desde Puget Sound a San Diego se tramava uma conjura, não só contra ele, mas também contra todos os cães do litoral, de forte musculatura e pelo comprido e quente. Como alguns homens, tateando na escuridão do Ártico, tivessem encontrado um metal amarelo, e as companhias de navegação e transporte propagassem a descoberta, milhares de outros homens precipitavam-se agora para as terras do Norte. Estes homens necessitavam de cães, cães de grande porte, de músculos fortes para o trabalho e pelo espesso que os protegesse da geada.»

Jack London, O Apelo da Selva (The Call of the Wild), Civilização, 2014, tradução de Emília Maria Bagão e Silva. Originalmente publicado em 1903.

sábado, 19 de setembro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 17


«Eram sete horas de uma tarde muito cálida, nas colinas de Seoni, quando o Pai Lobo acordou do seu sono diurno e começou a coçar-se, bocejando e estendendo as patas, uma a uma, para se livrar da sensação sonolenta que ainda se lhe agarrava às pontas dos dedos. A Mãe Loba, deitada, tinha o grande nariz cinzento virado para os quatro filhotes, saltitantes e guinchadores, quando o luar surgiu à entrada do covil onde todos viviam.
- Augrh! - disse o Pai Lobo, - é tempo de voltarmos a caçar.»

Rudyard Kipling, O Livro da Selva, Tinta-da-China, 2010, tradução de Júlio Henriques. Originalmente publicado em 1894.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 16


«Durante a última primavera na Universidade, uma espécie de agitação apoderou-se de Myra. Era algo que não conseguia compreender; estava para além da inquietação de uma juventude exuberante. Era mesmo qualquer coisa de neurótico. Nada do que fazia parecia satisfazê-la ou realizá-la totalmente. Nem quando regressava tarde de um baile em que passara de par em par, nem isso bastava para que caísse de fadiga e adormecesse. Era como se faltasse não sabia o quê que atribuísse à noite toda a sua plenitude. Às vezes, tomava-a uma sensação de pânico, ou quase, como se tivesse perdido ou esquecido alguma coisa muito importante.»

Tennessee Williams, O Campo das Crianças Azuis, in A Noite da Iguana e Outras Histórias, Assírio & Alvim, 1987, tradução de José Agostinho Baptista. Originalmente publicado em 1936.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 15


«Ele estava a ler-lhe Rilke, um poeta que admirava, quando ela adormeceu com a cabeça no travesseiro dele. Gostava de ler em voz alta e lia bem, numa voz confiante e sonora, ora baixa e grave, ora retumbante, ora excitante. Enquanto lia nunca desviava os olhos da página e apenas interrompia para estender o braço para a mesinha-de-cabeceira e pegar num cigarro. Era uma voz que a transportava até um sonho povoado de caravanas que iniciavam uma viagem a partir das cidades rodeadas de ameias, com homens barbudos vestidos com túnicas. Tinha-o escutado durante alguns minutos, fechara os olhos e adormecera.»

Raymond Carver, A Mulher do Estudante, in Queres Fazer o Favor de te Calares?, Teorema, 1989, tradução de Carlos Santos. Originalmente publicado em 1976.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 14


   «Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me a volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
   Deve ser a pior coisa do mundo.»

Sylvia Plath, A Câmpanula de Vidro, Assírio & Alvim, 1988, tradução de Mário Avelar. Originalmente publicado em 1963.

sábado, 18 de julho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 13


«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

Shirley Jackson, Sempre Vivemos no Castelo, Cavalo de Ferro, 2010, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 1962.

domingo, 21 de junho de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 12


«Uma coisa, logo que conhecida, jamais poderá ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E, na medida em que domina o tempo, enquanto puder ser lembrada, indicará o futuro. É mais prudente, sejam quais forem as circunstâncias, esquecer, cultivar a arte de esquecer. Lembrar é defrontar o inimigo. A verdade jaz na lembrança.»

Anita Brookner, Olhem Para Mim, Teorema, 1988, tradução de Paula Reis. Originalmente publicado em 1983.