segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

MATERNIDADE


Há pouco tempo, tive uma visão do mal. Foi num desses parques comerciais dos arredores de Lisboa onde as famílias vão passear aos fins-de-semana, andando de loja em loja enquanto chamam alto pelo nome dos filhos. Justamente: era uma criança, um miúdo aí dos seus seis anos, e não parecia pobre nem rico. Aqui já estou a mentir: era pobre, sim, de uma pobreza angustiante, ali exposta no meio da multidão, reflectida nos vidros das montras; uma coisa gigantesca, um monstro disforme de pobreza moral. Ia agora dizer que o miúdo seguia acompanhado pela mãe, mas estaria a mentir outra vez. Não é preciso ter lido Elisabeth Badinter para desconstruir o mito do «instinto maternal». Conheço mulheres que não são mães e que são mais mães do que aquela criatura, cuja indiferença pelo filho era de uma evidência ofensiva. Percebi que o miúdo não estava a ter uma birra ocasional. Aquilo era ele, a vida dele, um dia como os outros. O miúdo gritava, atirava-se ao chão, rebolava-se como um cabrito, fazia caretas, puxava pelas roupas da mulher, e a única reacção que conseguia obter era a mais total e abjecta indiferença. Segui-os durante algum tempo, para ver até onde iria aquele teatro da crueldade, e só parei quando entraram numa loja cara. Fiquei do lado de fora, ainda a observá-los, vendo a mulher a mexer nas malas e nas carteiras com uma atenção dedicada, enquanto o miúdo vagueava pelo meio dos escaparates, atirado ao seu íntimo naufrágio. Apeteceu-me ir ter com a mulher, bater-lhe, esmurrar-lhe a cara contra uma parede. Sei que isto não é bonito nem cristão, mas foi exactamente o que senti. Depois desviei o olhar e segui em frente, em direcção ao presépio de cartão e lantejoulas.

Imagem: Our Lady of Czestochowa (The Black Madonna).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

FAMÍLIAS FORA DA CAIXA



(...) No Dicionário de Lugares Imaginários, Alberto Manguel nota que «a organização social dos Mumins centra-se em torno da família e não existem instituições governamentais formais.» Perturbada pela Segunda Guerra Mundial, em que a Finlândia tomou parte ativa, acabando do lado dos perdedores, Tove Jansson inspirou-se na sua própria família e no círculo de amigos, refletindo valores pessoais e também identitários da sociedade finlandesa. Tolerância, respeito pelo indivíduo, união familiar e cortesia enformam todas as histórias dos Mumins, editadas entre 1945 e 1970 e traduzidas em mais de 30 línguas. Em 1966, Jansson recebeu o Prémio Hans Christian Andersen pelo conjunto da sua obra literária, também extensiva ao público adulto. 

Publicados pela Caminho no início da década de 1990, com tradução de Mafalda Eliseu (agora revista), os dois volumes reeditados pela Relógio d’Água há muito que faziam falta nas livrarias. Por ordem cronológica, A Família dos Mumins é o terceiro título da série, originalmente publicado em 1948 (O Cometa na Terra dos Mumins é de 1946). A opção explica-se facilmente: foi o primeiro a ser traduzido para inglês, com grande êxito, trazendo visibilidade a uma obra demasiado universal para ficar restringida às fronteiras nórdicas. 

(in LER nº 140, secção «Leituras Miúdas»)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

ESTE MÊS, NA LER


Já saiu a LER deste Inverno. É um trimestre em que há sempre demasiados livros para três páginas, em contraste com a escassez dos primeiros meses do ano, mas são os ossos do ofício. Nas «Leituras Miúdas» desta edição, destacam-se as reedições dos clássicos livros dos Mumins, da finlandesa Tove Jansson (Relógio d'Água); o magnífico livro de contos de David Almond (Uma Criatura Feita de Mar, Presença); e um livro informativo feito com rigor e muito charme retro (O Professor Astrogato nas Fronteiras do Espaço, Orfeu Negro). Os irmãos Hansel e Gretel foram ao divã de psicanálise das personagens, e Ana Margarida de Carvalho responde às três questões do Scrapbook sobre o seu primeiro álbum «para crianças e para adultos muito infantis» (A Arca do É, Teorema}. Ainda uma mão-cheia de sugestões na secção «Livros ao Microscópio»... e pronto, para o ano há mais.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

IRMÃO LOBO EM FÁTIMA


Ontem à tarde estive no Centro de Estudos de Fátima para falar com alunos do 8º e 9º ano sobre o Irmão Lobo, livro seleccionado pela escola para o Concurso Nacional de Leitura (será esta a designação correcta?). Os adolescentes são sempre um público tramado, mas com sinceridade e as unhas do lobo não é impossível agarrá-los. Gostei muito! Grata a todos os alunos que lá estiveram - mais de 150 - e também à Livraria Arquivo (Leiria) e às professoras Marlene Frazão e Cristina Carvalho, pelo caloroso acolhimento num dia de muito frio e muita chuva, como se pode notar pelo figurino.

(foto: cortesia Fernando Pinho)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O IRMÃO ALEMÃO


Bruder Wolf, título da edição alemã do Irmão Lobo, com tradução de Claudia Stein e chancela da editora Fischer Verlage. Ver aqui

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CINCO PAIS NATAIS E TUDO O MAIS


Um primeiro livro é sempre um acontecimento e, no caso da Maria Bouza, creio que ilustrar Cinco Pais Natais e tudo o mais (ed. Máquina de Voar) não terá sido obra única. No próximo domingo, ela contará (ou não). Manuela Castro Neves, com livros publicados na Caminho e na Planeta Tangerina, tem um talento nato para orquestrar as palavras e produzir textos de grande qualidade literária e musical. Depois vou explicar melhor o que quero dizer com isto. A apresentação acontece na Livraria Pó dos Livros, domingo, às 16h00. Apareçam!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

HÁBITOS PECULIARES



Ransom Riggs, autor da trilogia iniciada com O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (ver post anterior) fala do seu hobby: coleccionar fotografias antigas de desconhecidos. Algumas entram nos livros, deixando-nos com aquilo a que se costuma chamar «uma inquietante estranheza». Mais sobre Ransom Riggs e outros videos aqui.

CIDADE SEM ALMA


Exemplo perfeito de literatura crossover, O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares foi um dos livros que mais gostei de ler este ano. Cidade sem Alma, a sequela, também não desmerece. O último volume da trilogia saiu em Setembro passado. Aguardamos tradução. Agora que o próximo número da LER está a chegar, deixo aqui o texto que escrevi para a edição nº 140:

Uma rapariga que faz fogo com as mãos. Outra, capaz de erguer um rochedo bíblico com o braço. Outra que faz crescer flores e trepadeiras em poucos segundos. E também um rapaz invisível; e ainda outro rapaz que abriga milhões de abelhas dentro de si, prontas a atuar como arma mortífera. Há mais para esta amostra de freak show, mas fiquemo-nos por uma sucinta apresentação dos personagens conhecidos de O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (Contraponto), já adaptado ao cinema por Tim Burton e aguardado para 2016.


O segundo volume da trilogia de Ransom Riggs, que do anonimato passou a best-seller do New York Times, começa com a fuga do grupo de «peculiares» para um lugar incerto: «Éramos dez crianças e um pássaro em três pequenos e instáveis barcos, remando com uma intensidade silenciosa rumo ao mar...». Possível evocação do tema da nave dos loucos, um método barbaramente ancestral de as populações se livrarem dos seus elementos dissonantes, a deriva marítima separa o grupo da ilha galesa onde a casa da Senhora Peregrine lhes serviu de abrigo e de consolação trágica. Numa manhã de Junho de 1940, os esquadrões da Luftwaffe arrasam o lar clandestino dos órfãos de guerra, que a esta condição somam poderes sobrenaturais. E passam a existir num tempo paralelo, graças a um vórtice aberto para outra dimensão da realidade.


Ser «peculiar» sempre foi um dom e uma maldição, em todas as épocas. Além do monstro nazi, reaparecem no encalço das crianças (alguns, já adolescentes) outros seres monstruosos, híbridos das experiências dos homens quando brincam a Deus: os «sem-alma» e os «errantes». Não haverá piedade para quem se atravesse ao caminho. «Somos todos excluídos e deambulantes», dirá o líder dos ciganos ao bando de crianças peculiares, passada a desconfiança.


Além de uma imaginação invejável, das descrições vívidas e de um sentido de ritmo narrativo sem distrações, o livro tem a particularidade de integrar no enredo uma série de fotografias reais, a preto e branco, que aumentam a surpresa da história e da própria percepção leitora. Perante estas imagens, vindas dos arquivos do autor e de outras coleções pessoais, fica a pergunta: para que precisamos de viagens no tempo, se este nosso tempo já é estranho q.b.? 

Cidade sem Alma
Ransom Riggs
Contraponto

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LAURIE LOVES LOU



What do you call love
Well I don't call it family and I don't call it lust
And as we all know marriage isn't a must
And I suppose in the end, it's a matter of trust

If I had to I'd call love time
She says, what do you call love
Can't you be more specific
What do you call love

Is it more than the heart's hieroglyphic
Well for me time has no meaning, no future, no past
And when you're in love, you don't have to ask
There's never enough time to hold love in your grasp

Turning time around
Turning time around
That is what love is

(Turning Time Around, Lou Reed)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

TÍTULOS LARGOS COMO AS ASAS DO CONDOR







Se «o começo de um livro é precioso» (Maria Gabriela Llansol), há títulos que iluminam a noite escura das páginas por abrir. Títulos longos, títulos que são frases, títulos que escondem perguntas, dúvidas anti-metódicas e as convicções de quem escreve por dentro das palavras, na lura do animal-escrevedor. Títulos que abarcam as coisas grandes do mundo e também os seus mais ínfimos recônditos. Títulos que se estendem como as asas do condor, deixando-nos em suspenso sob a extensão das suas inquietantes afirmações.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

LAURIE


Fui ver o documentário da Laurie Anderson ao CCB, «Heart of a Dog». Minutos antes da sessão, vi-a passear nos corredores, absorta no seu mundo, com aquele ar de duende maroto, sem peso nem idade. Pensei falar-lhe, mas senti-me tímida e fui por outro lado. Depois esbarrei com ela, assim mesmo, voici, voilà, como na canção da serpente com pernas que vivia numa ilha («Yes. That’s true. A snake with legs.»). Olhámo-nos, sorrimos. Disse-lhe «I love you» e dei-lhe um beijo. Ela retribuiu. «That's so nice to hear that.» Seguiu adiante e eu fui à procura do meu lugar na plateia. Durante o filme, fiz festas à serpente que se enrolou aos meus pés, como um gato pequeno, e no regresso a casa avistei a ilha no meio do rio Tejo, pairando sob as luzes da ponte. Voici, voilà. «Voici le langage de l'amour.»

domingo, 22 de novembro de 2015

BOM DIA, FRANCISCO



Gostava mesmo de saber como é ter apenas meio dia de vida. Como é que olhas para este mundo onde acabaste de aterrar? O que vês? O que sentes? De que te lembras? Que tens para nos contar? Estou muito, muito curiosa para saber de ti. Estava a ver que não ficava para tia. 


Nasceste em Coimbra, à meia-noite e um minuto, um Escorpião a caminhar para Sagitário, o que promete qualquer coisa. Não sei bem o quê, mas será com certeza qualquer coisa intensa, autêntica, aventureira e um bocado cabeçuda (não te preocupes, vem de família). De qualquer modo, não estás aqui para agradar aos outros, se isso significar seres desonesto contigo. «Don’t be a people pleaser», dizem os ingleses, que também inventaram o «fair-play». Isso é importante. Aceitas um chá? Daqui a uns anos, quero dizer.


Olha, nem sempre precisamos de tomar partido. Podes ser religioso sem professar uma religião; podes ter fortes convicções políticas e ideológicas, sendo apartidário; podes praticar yoga e cometer uns exageros (já sabes que o corpo é que paga, mas pronto). Acima de tudo, não deixes de viver, caramba. Usa a cabeça e o coração para perceber qual é a acção mais correcta para determinada circunstância. Sê um diplomata, mas dá um estalo se for preciso, desde que o outro lado também se possa defender (não vale bater em crianças nem em animais). Quando fizeres asneira, pede desculpa. Diz sempre «obrigado» e «bom dia»; duas vezes, até, porque algumas pessoas são meio surdas, coitadas. Pratica um desporto de que gostes, futebol ou tiro com arco, ou outros, consoante te sintas mais sociável ou mais introspectivo. 


Não deixes que ninguém te rebaixe, te humilhe, te despreze, te trate com indiferença. Não tenhas medo de ninguém. Olha para os dois lados quando atravessares a rua. Acredita que o melhor investimento é sempre em ti, e isso não é egoísmo: se souberes multiplicar, vais ter mais para dividir. Qualquer forma de arte é boa para isso. Como os teus pais são artistas, muitos tesouros vão passar à tua frente e vais morder o mundo com os seis sentidos (o sexto é a intuição). Também podes ter de aprender a viver na corda-bamba, independentemente do talento que possas ter. Mas nunca estarás sozinho. Nunca.


Vais querer sempre fazer as coisas à tua maneira, por isso não vale a pena convencer-te de nada. Muito rapidamente, mais rapidamente do que outras pessoas, vais perceber que todos os gurus têm pés de barro e que os espíritos-livres não te vão querer vender teorias nem receitas. Vais ouvir muitas mentiras: por exemplo, que «o mundo é uma selva», que «as mulheres são chatas», que «os homens são todos iguais», que «quem vai ao mar perde o lugar» e outras coisas bem piores e mais destrutivas. Espero que estejas sempre do lado dos que lutam e não se rendem à ignorância e à maldade. É a única coisa que te peço. Também ficava contente se gostasses dos meus livros, mas isso logo se vê.


Um beijo, 
C.

sábado, 21 de novembro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 21



«Em primeiro lugar, há o problema do começo; principalmente, o de sabermos como é que passamos de onde estamos, o que, por enquanto, é em sítio nenhum, para o outro lado. É, pura e simplesmente, um problema de ponte, um problema de se improvisar uma ponte. As pessoas resolvem estes problemas todos os dias. Resolvem-nos e, uma vez resolvidos, avançam.»

J.M. Coetzee, Elisabeth Costello, ed. Dom Quixote, 2004, tradução de Maria João Delgado. Originalmente publicado em 2003.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

TRÊS DIAS A NÃO PERDER


Começam hoje, em Lisboa, os encontros O Que Um Livro Pode, já referidos neste post. Três dias para conhecer e pensar a edição para a infância, «um território que nos últimos anos tem mostrado uma capacidade extraordinária de reinvenção e diversidade, graças sobretudo aos esforços dos próprios ilustradores e novos editores com uma nova cultura visual e maior capacidade de risco editorial». Nem mais. A exposição de ilustração é a pièce de résistance, à qual se junta um programa atractivo de ateliers para crianças, apresentações de livros e projectos, conversas e, claro, uma feira do livro onde estarão presentes as editoras mais «alternativas», por assim dizer. Está tudo aqui muito bem explicado. E onde é? No Espaço 'Rua das Gaivotas', ao Largo do Conde Barão. Então até logo!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

LUTO COM AS ARMAS QUE TENHO


DD: Curiosamente, a amizade que muitos acreditam que poderá ficar para segundo plano num futuro não muito longe devido a utilização das novas tecnologias, que cada vez mais isolam os mais novos aos ecrãs do seu telemóvel. Como acha que devemos recuperar a “amizade do contato”?

MFS: Como deve imaginar, acredito que o podemos fazer todos os dias, cada um no seu plano. O meu é o dos livros. Tenho recusado, por exemplo, escrever romances juvenis que se baseiam nas redes sociais, em trocas de mensagens. Para mim, esta é uma preocupação gigantesca. No outro dia, parando para dar passagem a estudantes numa passadeira, reparei que nenhum conversava, iam todos agarrados aos ecrãs. Por isso, no que depender da minha escrita e do meu trabalho no treino da mente, estarei sempre a alertar para o perigo de se perderem as ferramentas sociais e de relacionamento (linguagem não-verbal, comunicação eficaz, avaliação de estados emocionais, e por aí adiante), de nos isolarmos uns dos outros e dos custos que isso traz no futuro. Não é também de relegar o impacto que isto tem na capacidade de atenção e memorização, e já estamos a sentir os efeitos disto. Luto com as armas que tenho, neste caso, através do que escrevo, polvilhando os textos com esses pequenos detalhes emocionais, fugindo de adjetivar, mas dando pistas de como se comportam as personagens e obrigando o leitor a perceber qual a emoção que está por trás disso.

(Margarida Fonseca Santos em entrevista ao Diário Digital, a propósito do seu mais recente livro, Bicicleta à Chuva. Vale a pena ler tudo, aqui.)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

BARAFUNDA


Ari: E não é uma grande confusão? Uma grande barafunda?
Nave: É, mas muito organizada.
Ari: Então está tudo arrumado, não está?
Nave: Sim e não.
Ari: Então? Sim e não? Que confusão!
Nave: As coisas nunca estão todas arrumadas nem todas desarrumadas. Elas vão dançando e mexendo-se e nós, ao olharmos para elas com atenção, e dançando com elas, ajudamo-las a encontrar o lugar de que elas gostam mais.
Ari: As coisas dançam e nós dançamos com elas? Nem que seja a vê-las dançar? Dançamos com os olhos? Que coisa tão difícil!
Nave: Não é difícil. É tão simples como ver as estrelas e dar-lhes um nome. Acredita.

(in Barafunda, um livro com texto de Afonso Cruz e Marta Bernardes, editado pela Caminho, com ilustração de José Cardoso. Um livro para crianças? Sim e não. Um livro, diz o posfácio, «para compreender, de forma poética e lúdica, uma série de processos filosóficos e organizacionais, tanto do mundo como da mente humana, que são fundamentais na formação de um pensamento emancipado e crítico.» Nas escolas de um futuro melhor, os manuais serão substituídos por livros como este.)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O GATO DA MATILDE


A Livros Horizonte publicou uma nova obra de Emily Gravett, escritora e ilustradora inglesa muito amada no Jardim Assombrado (provas dadas aqui, aqui e aqui). Originalmente publicado em 2012, O Gato da Matilde desenvolve um jogo irónico e contraditório entre texto e imagem, num «quem é quem» muito cómico e extensivo às habituais marcas autoparódicas da autora: por exemplo, algumas palavras surgem riscadas e Gravett faz-se representar por um livro seu... que não existe. Remetendo para possíveis intertextualidades, talvez esta menina vestida de gato cor de laranja tenha algo da Matilde de Roald Dahl, bem como de Max (e seu pijama de lobo), de Maurice Sendak. Todas são  personagens insubmissas da literatura para crianças. «Aprovado», diz o Radar.

sábado, 14 de novembro de 2015

E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?


Ainda não tenho em mãos a edição brasileira do Irmão Lobo, recém-publicado pela Editora Rovelle (Rio de Janeiro), mas pude acompanhar parte do processo. O texto «sofreu» uma adaptação ao português do Brasil, com alterações morfosintáticas e mudanças de vocabulário que dão outro ritmo e outra graça à leitura. Tudo feito com o maior cuidado pela equipa da Rovelle, em colaboração com o Planeta Tangerina e moi-même. Não foi só a substituição óbvia do «tu» por «você» ou o «pai» que passou a «papai». Houve que suprimir, por exemplo, a referência ao menu Família Feliz, que não existe nos restaurantes chineses do Brasil; por outro lado, em vez de dizer «aquela coisa que parecia areia e entrava nos dentes», só foi preciso escrever uma palavra familiar a qualquer brasileiro: «farofa». Mudámos expressões como «pior do que estragado», «patos-bravos» e «homem-mocho» - respectivamente, para «puto da vida», «vândalos» e «homem-urubu». Aprendi expressões muito curiosas: «morcegando» é sinónimo de «andar a pastar» (na cena da mudança de casa) e «estamos ferrados!» quer dizer «estamos tramados!» (quando Bolota e Alce Negro são roubados). Não sei como se diz por lá, mas acho que está uma edição com muita pinta! 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

CONTOS COM LUÍS CARMELO


Quem é que não gosta de ouvir Luís Carmelo, sempre bem acompanhado pela melancólica concertina? Dia 20 de Novembro, às 21h30, a Biblioteca Municipal de Oeiras recebe o autor das Contatinas, um projecto estreado nas Palavras Andarilhas de 2012 e mais tarde registado em cd pelas edições BOCA. Onde se conta, entre outros enredos, como o amor de Horácio e Clarita sobreviveu à luta de classes e como Esteves e Joaquim transformaram a rivalidade que os desunia em algo maior. Jovens e adultos são o público-alvo da noite. «Que histórias? Contos do arco-da-velha, fábulas do tempo em que os animais falavam, mas também lendas de terras distantes e próximas, mitos antigos do Norte e do Sul, histórias de amor, de ódio, de sonhos e desencontros.» Adenda: entrada livre.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

SEXTA, NA UNIVERSIDADE DE AVEIRO


Às vezes penso mudar-me para Aveiro. Passam-se ali coisas interessantes. Pronto, há também o vento.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

LUTEMOS CONTRA A BARBÁRIE


Após dez anos de actuação, o Plano Nacional de Leitura chegou ao fim. Era sabido. Na conferência realizada na Gulbenkian não se falou da continuidade de um projecto fundamental para uma geração de leitores, que deixou marcas nos sistemas educativo e editorial - particularmente nestes dois. O que vai acontecer depois? Não sabemos. O país está em stand-by. Andreia Brites, mediadora que desenvolve um trabalho sistemático com leitores, professores, bibliotecas e outras instituições, conhecendo bem os vários nós do problema, reflecte sobre o assunto com a acutilância analítica que lhe é habitual. Esperando que me perdoe a barbaridade, confesso já que lhe roubei o título do post.

«O PNL, seja qual for o balanço que dele se venha a fazer, foi esvaziado com alterações sucessivas das políticas culturais e de educação. Não adianta agora falar de factores externos. Por um lado, o abandono de uma política de promoção da leitura que se desenvolvia em estreita relação com as bibliotecas públicas, por outro as dificuldades burocráticas crescentes impostas aos professores nas hipotéticas saídas da escola, manietaram as bibliotecas públicas, dificultando o seu trabalho junto do público escolar a partir do 5º ano. Ao nível da educação, a queda do PNEP que visava um trabalho mais continuado em sala de aula da leitura recreativa, e a implementação das metas, nomeadamente as que consigo trouxeram um cânone obrigatório, mataram a influência da lista de livros recomendados anualmente pelo PNL.»

Ler o texto completo no blogue O Bicho dos Livros.

O GÉNERO INFORMATIVO


Não sabia o que era escrever um conto longo até ter escrito O gato e a Rainha Só. Não sabia o que era imaginar e escrever um picture book até ter feito o Não Quero Usar Óculos. Não sabia o que era escrever um romance para adolescentes e adultos até ter acabado o Irmão Lobo. Não sabia o que era escrever uma biografia até ter pesquisado para Ana de Castro Osório - A mulher que votou na literatura. E até agora também não sabia o que era escrever um livro informativo; ou melhor, dois. Com ilustrações de João Fazenda e edição conjunta da Pato Lógico e Ordem dos Farmacêuticos, A Ilha dos Diabretes (este, em co-autoria) e Atento ao Medicamento são dois novos livros da Geração Saudável, um projecto para a promoção da saúde nas escolas e para a adoção de estilos de vida saudáveis. A diabetes e o uso adequado dos medicamentos explicados aos mais novos, ora aí está.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

QUANDO HITLER ROUBOU O COELHO COR-DE-ROSA


(...)

Podemos pôr poucas coisas numa mala de viagem, e foi assim que o coelho cor-de-rosa se perdeu para sempre, tal como se perdeu a vida feliz e tranquila de Anna em Berlim. Isto sucedeu pouco antes de Hitler chegar ao poder, mas foi mesmo a tempo. Anna e a família – os pais e um irmão mais velho – conseguiram salvar-se e tudo fizeram para se manterem unidos. Da Alemanha para a Suíça, da Suíça para a França, da França para a Inglaterra, Anna conta como passou por experiências e emoções muito fortes, que fizeram crescer nela a vontade de escrever ficção. (Sim, esta é uma história semiautobiográfica...)
Neste livro há muita coragem, afecto e sentido de humor, como vais ver. A parte que achei mais interessante foi quando a família está quase a separar-se, e Anna se zanga com os pais. Porque, se ficar sozinha, tem medo de se sentir mesmo como uma refugiada, diz ela. É como se, até ali, a família fosse ainda o seu país... Um país que nunca se pode abandonar. Fiquei a pensar nisto durante muito tempo. Quando estiveres sozinho a ler este livro tão bonito, tão sensível e tão humano, talvez te sintas também assim, e então poderemos conversar sem que ninguém nos ouça.»

[Do prefácio a Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, um romance indispensável da literatura infantojuvenil, escrito e ilustrado por Judith Kerr - hoje com 92 anos - e publicado na colecção Caminho Jovens em 1992, com tradução de António Pescada. Há muito tempo que andava ausente dos escaparates e foi um privilégio traduzi-lo para a nova edição da Booksmile. Como a literatura tem o dom de se antecipar à dita «realidade», o acaso e as circunstâncias providenciaram para que reaparecesse no ano em que a Europa enfrenta a maior vaga de refugiados desde o tempo da Segunda Guerra Mundial. Chega hoje à livrarias.]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

COISAS BOAS QUE AÍ VÊM, 2


Também nas mesmas datas, entre 20 e 22 de Novembro, realiza-se a 5ª edição dos encontros O Que Um Livro Pode, este ano dedicados à edição de livros de autores portugueses para a infância... e mais do que isso. «Os Livros Não Têm Idade - um passeio ilustrado pela infância» foi a designação (bem) achada para explorar, nas palavras da organização, «um território que nos últimos anos tem mostrado uma capacidade extraordinária de reinvenção e diversidade, graças a uma nova cultura visual e maior capacidade de risco editorial». O sublinhado é meu. Uma exposição de ilustração, uma feira de livros infantis, apresentações de livros, ateliês para crianças, conversas e o que mais se verá num fim-de-semana com tudo para mostrar o talento dos autores e o empenho de quem aposta em concretizar projectos «fora da caixa». Os encontros acontecem no Espaço Rua das Gaivotas, 6 (ao Largo do Conde Barão, Lisboa). O Jardim Assombrado vai ficar atento.

COISAS BOAS QUE AÍ VÊM, 1


Que bonito está o cartaz de Pierre Pratt para o próximo encontro ETerna Biblioteca! Faltam só duas semanas e o programa deste ano inclui, além dos habituais ateliês de sábado (21 de Novembro), uma série de conferências que saem um pouco fora dos temas habituais. Por exemplo: «A síndrome de Alice no País das Maravilhas - uma leitura neurológica», pelo neurocirurgião Joaquim Ferreira Monteiro, ou «A matéria da ficção: ciência e literatura», pelo escritor Nuno Camarneiro, formado em Física. Mais conferências sobre as bibliotecas Maria Helena Vieira da Silva e Manuel António Pina; leituras e música; o lançamento de um novo livro de Rita Taborda Duarte (texto) e André da Loba (ilustração); um debate e uma exposição de Pierre Pratt fazem parte das actividades seleccionadas. As inscrições para os ateliês podem ser feitas aqui. Não deixem para a última hora.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

LITERATURA AQUI: ANA DE CASTRO OSÓRIO



Ana de Castro Osório - A Mulher que Votou na Literatura, uma biografia para os mais novos com texto meu e ilustrações da Marta Monteiro (ed. IN-CM/Pato Lógico), foi pretexto para uma peça no «Literatura Aqui», o melhor programa sobre literatura que actualmente passa na televisão portuguesa (sim, eu sei que não há muito por onde escolher). A reportagem é da jornalista Cristina Guedes e o video foi uma cortesia da produtora Até ao Fim do Mundo. Grata.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A CASA DO SENHOR MALAPARTE


Uma casa controversa para um escritor controverso. «O senhor chamado Malaparte era escritor. Escrevia. Diz-se que, para escrever melhor, procurou uma ilha num lugar distante. A ilha chamava-se Capri.» O escritor de quem se fala é, evidentemente, Curzio Malaparte (1898-1957), um caso incómodo de apropriação e oportunismo ideológico, tão cedo apologista da Itália de Mussolini como militante tardio do Partido Comunista Italiano. O texto de Joana Couceiro é, no mínimo, simpático para o homem que chamou a Hitler «uma mulher» e que escreveu alguns parágrafos de dar a volta ao estômago, rendido ao que parecia ser um fascínio compulsivo pela crueldade... mas essa é outra história. Importa sublinhar que A Casa do Senhor Malaparte inaugura uma prometedora colecção denominada Casas com nome e é quase um projecto de autor, ou de autores. Foi recentemente publicado pela associação cultural portuense Circo de Ideias, fundada «com o objectivo de promover a divulgação e o estudo da arquitectura através da edição e produção de livros, exposições e debates». Com ilustrações de Mariana Rio (em páginas duplas que se adequam à opção pelo grande formato), desdobram-se aqui formas angulares e geométricas, sempre dominadas pela alternância de cores: «Malaparte é azul, é casa estranha, é animal a hibernar, é barco à deriva.». Gostámos muito. Qual será a próxima casa deste novo bairro habitado por livros?

(A primeira imagem foi retirada do blogue Hipopótamos na Lua, que mostra o livro por dentro, como habitualmente. Vejam mais aqui.)

sábado, 31 de outubro de 2015

DIZER QUE SIM A TUDO


Creio que remonta a meados da década de 1990: numa edição da LER, deparei com uma entrevista em que alguém afirmava a importância de ir pela vida fora dizendo que «sim» a tudo (desculpem tanta imprecisão, mas dar-me-ia muito trabalho percorrer agora 17 anos de revistas). Há que ver nestas palavras a intenção de uma disponibilidade diária para a surpresa e para o estabelecer de laços; não confundir com permissividade, com indiferença ou com aquele confortável relativismo que balança ao sabor dos ventos favoráveis. Dizer que «sim» a tudo, com a salvaguarda de saber dizer «não» quando é preciso, lembra-nos de que somos seres para o mundo, que guardamos em nós a raiz e o seu movimento, decorrendo a vida como uma dança entre esses dois extremos e pouco mais.

Foi nessa ideia que pensei ao folhear, pela primeira vez, o novo livro de António Jorge Gonçalves, um picture book que parte de uma imagem fortíssima: de tanto dizer «não», uma menina perde a cabeça, assim mesmo, de repente, ploc! O que fazer? Ir procurá-la, naturalmente. Primeira pista: «Uma gaivota contou-lhe que o vento estava a levá-la para a montanha.» Numa demanda que remete para o itinerário mítico do herói dos contos étnicos/tradicionais/de fadas, com a sua sequência de obstáculos e forças coadjuvantes, a menina sobe a montanha e, num gesto involuntário (como quase sempre acontece), mergulha no seu interior obscuro e ardente. Como sair dali? De novo, a gaivota recorda-lhe outra pista: «Era preciso usar a palavra mágica», a palavra que é o oposto da que a fez perder a cabeça. A palavra mágica é «sim». Após a transformação, o regresso a casa é então possível.

Barriga da Baleia, o livro anterior de António Jorge Gonçalves para a editora Pato Lógico (distinguido na selecção White Ravens 2015), assentava também na demanda iniciática de uma menina atraída pelo mundo dos sonhos, mas decorria sob o elemento simbólico da água. Corrigidas pequenas imperfeições ao nível do texto, Eu Quero a Minha Cabeça! constrói-se agora sob o signo da terra e das suas diversas manifestações: a montanha, a árvore, a raiz, a pedra, o vulcão. É um livro belo e sábio, intemporal, peculiar. É um livro que só pode formar um enorme e brilhante «sim» na cabeça do leitor.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A DE AULA



«O que é uma aula», segundo Gilles Deleuze. Um minuto e 33 segundos de sabedoria, legendados em português.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SE A MINHA CASA VOASSE


«Um dia a casa foi-se embora. Simplesmente ergueu-se do chão e levantou voo.» Ao começar a ler o novo livro de Davide Cali para a Bruaá, lembrei-me de um outro autor da francofonia, o grande Enki Bilal (nascido em Belgrado, ex-Jugoslávia) e da história surreal de O Cruzeiro dos Esquecidos, de 1975. Podem avivar a memória aqui. Ilustrado por Catarina Sobral, com um impecável trabalho de composição, sugestão de movimento e uso simbólico da cor, A Casa que Voou conduz-nos (é a palavra) para a dimensão das descobertas improváveis: as que guardamos sem saber. Da antepenúltima página: «No ar pairava o perfume das figueiras e o cheiro a lenha queimada. O homem já se tinha esquecido de como gostava destes cheiros.» Deixemos o final em suspenso, tal como esta casa que procura o seu lugar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

LIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO


Recentemente publicado pela Orfeu Negro, O Meu Irmão Invisível foi distinguido com uma Menção Especial na Feira do Livro de Bolonha 2015, na categoria de Primeira Obra; e também com a Menção Honrosa do V Catálogo Iberoamericano de Ilustração. Para acompanhar o percurso do protagonista, um rapaz que se crê invisível aos olhos da irmã mais velha e do resto do mundo, é melhor que se faça a primeira leitura com os óculos de filtros vermelhos que acompanham o livro (a surpresa começa logo pela capa). No blogue Picture Makers, a autora, Ana Pez, explica com pormenores e muitas imagens todo o processo de feitura do livro, desde o momento da sua concepção para um trabalho de faculdade até ao objecto que agora temos em mãos. A editora recomenda o livro para crianças entre os 5 e os 9 anos.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ANJOS SEM GRAVIDADE



O nosso sistema educativo está completamente obsoleto. Crianças do pré-escolar que levam trabalhos para casa e adolescentes confusos mas obrigados a fazer escolhas determinantes para o resto das suas vidas, eis dois exemplos de uma sociedade às avessas. Nenhuma consistência interior, sem a qual a maturidade permanece adiada (e com ela a confiança nos laços afectivos e a intervenção na sociedade, entre outras coisas); nenhuma consistência é possível sem o desenvolvimento da sensibilidade, da percepção e do entendimento do mundo. Temos mais a aprender com os espíritos livres do que nos autorizamos, mas o preconceito intelectual é como um inquilino que paga uma renda irrisória para habitar uma mansão.

(A propósito de Laurie Anderson e do seu documentário, Heart of a Dog. E também da sátira homónima de Mikhail Bulgakov à formatação do «homem novo».)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

DAVID ALMOND: O MESTRE TEM LIVRO NOVO


«As histórias têm um aspeto maravilhosamente ordenado no papel. Toda aquela mancha preta fantástica; aquelas linhas direitas, páginas e parágrafos fantásticos. Mas as histórias são coisas vivam, criaturas que se mexem e que se desenvolvem na imaginação do autor e do leitor. Devem ser consistentes e palpáveis, tal como a terra, e devem possuir profundidades fluidas, tal como o mar. Estas histórias têm lugar num mundo real - nas ruas onde cresci, nas praias e nos campos por mim palmilhados. Pessoas que conheço entram nelas. Mas, na ficção, mundos reais fundem-se com mundos imaginados. Pessoas reais caminham lado a lado com fantasmas e produtos da imaginação. A verdade terrena anda de mãos dadas com as mentiras aquosas.»

(Na fotografia: David Almond, escritor inglês (n. 1951) distinguido com o Prémio Hans Christian Andersen 2010. O texto pertence à introdução ao livro de Uma Criatura Feita de Mar (Half a Creature From the Sea, 2014), agora publicado pela Presença. Oito contos de estranhamento e concepção mágica do mundo, do melhor que já li deste «meu» mestre. Vou no terceiro: «Quando Deus Apareceu no Jardim da Cathleen». Já conto mais.)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

AS PRINCESAS REGRESSAM A SINTRA



Porque a primeira edição foi um sucesso e porque a Adriana Jurckyc, da Moonluza, não brinca em serviço, já está quase fechado o programa do segundo Seminário Internacional sobre Contoterapia e Storytelling, a acontecer entre oito e 12 de Março de 2016, em Sintra. Foi uma das formações mais marcantes que já fiz e recomendo-a sem reservas, especialmente se trabalham nas áreas da psicologia/psicanálise ou das terapias pelas artes (sobre a edição de 2015 deixei um post aqui e também aqui). As inscrições já estão abertas para várias bolsas e modalidades, mas se for possível fiquem em regime de «internato» no clássico Hotel Tivoli de Sintra, porque uma boa parte do impacto do seminário depende do envolvimento com a geografia e a força da montanha. A julgar pela experiência do ano passado, cria-se um lugar à parte, longe do rodopio turístico, e conhecem-se pessoas verdadeiramente especiais. As informações e inscrições estão disponíveis no site da Moonluza e esta é a lista dos oradores já confirmados:

Rosie Strain, Arte-Psicoterapeuta & Contadora de Histórias, Reino Unido
Boaz and Vered Zur,  Artes Expressivas da Irlanda
Susan McCullough, Conselheira Escolar & Contadora de Histórias, Alemanha
Olga Lipadatova, Psicoterapueta, Canadá
Michał Malinowski, Museu de Contos e Histórias, Polónia
Shai Karta Schwartz, Baobab Centro para Jovens Sobreviventes Exilados em Londres, professor, Israel
Beatrice Bowles, Mestre em Artes Plásticas, Contadora de História, Estados Unidos da América 
Jill McWilliam and Gill Morton, Psicoterapeutas Educacionais, Londres, Reino Unido
Jacqueline Silva, Ludoterapeuta, Conselheira em Terapia Centrada na Pessoa, Treinadora e Supervisora para Terapia pelo Brincar e pelas Artes Criativas na LudoClínica, Portugal
Laura Simms, Contadora de Histórias, Escritora, Estados Unidos da América

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

PERGUNTEM A ALICE


De Winnie-the-Pooh a Harry Potter, «vinte citações de livros para crianças que todos os adultos deviam conhecer». A supracitada pertence a Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Ler as outras aqui.

(cortesia de Hugo Xavier)

VENTRÍCULOS


O título do post anterior, como terão reconhecido, foi roubado ao poema de Alice Gomes (1946) que tanto me impressionou pela sua sensibilidade magoada. No início dos anos 80, a única loja em Lisboa que vendia posters era a Altamira. Vieram de lá os dos Rolling Stones e outros que forraram as paredes do quarto, durante a adolescência. Este é mais antigo e não esconde as mazelas do tempo, embora o seu núcleo se mantenha intacto. Lembro-me de o ler em voz alta, muitas vezes, até o saber de cor. A parte que eu mais estranhava era a que dizia que «os corações têm duas aurículas e dois ventrículos», porque embora não fizesse sentido algum, só conseguia pensar num senhor a falar sem mexer a boca, como os que apareciam nos programas de variedades de sábado à tarde.

domingo, 18 de outubro de 2015

PROFESSOR, DIZ-ME PORQUÊ



«Educação não é encher um balde, mas acender uma chama.» (W. B. Yeats) Inspirado nas palavras do poeta irlandês, um bonito video de Paul e Peter Reynolds, lembrando por que ser professor é extraordinariamente difícil e extraordinariamente importante. Adenda: legendado em português.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

HERMANO LOBO COM GUITARRAS



«Durante algún tiempo creí que estaba enamorada de Kalkitos. Pero eso no podía ser así, porque en ese entonces yo tenía sólo ocho años y Kalkitos tenía la edad de Fósil, mi hermano mayor. Casi podía ser mi papá. Algo no funcionaba en esa historia. Casi nada.
Lo primero que no funcionaba era, según Blanche, que yo había nacido «fuera del tiempo». Comencé a captarlo antes de entender lo que quería decir. Hoy tengo quince años y estoy al borde de comenzar mi vida, pero todavía no he llegado a comprender todo lo que me ha sucedido.»

(Booktrailer de Hermano Lobo para a edição mexicana da El Naranjo, tradução de Jeronimo Pizarro.)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 20


«Nada devem saber a meu respeito, se não tiverem lido um livro que dá pelo nome de As Aventuras de Tom Sawyer, mas isso não tem qualquer importância. Esse livro foi escrito por Mr. Mark Twain que, de um modo geral, contou a verdade. Houve coisas em que exagerou, mas disse quase sempre a verdade. Não tem importância. Nunca conheci ninguém que de vez em quando não mentisse, a não ser a tia Polly, ou a viúva, ou talvez Mary.»

Mark Twain, As Aventuras de Huckleberry Finn, Edições Nelson de Matos, 2010, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 1884.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 19


«A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso.»

José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima, Melhoramentos, 1976. Originalmente publicado em 1968.

domingo, 4 de outubro de 2015

AS NOSSAS SUFRAGISTAS



«Houve um tempo em que nenhuma mulher da tua família podia votar. Apenas por ser mulher. Mãe, avó, tia, irmã, sobrinha, prima, não importava. Mesmo que fossem muito inteligentes, mesmo que tivessem lido cem ou duzentos livros (o que seria imenso!), mesmo que soubessem dizer a tabuada de trás para a frente ou o nome de todos os rios e afluentes da Ásia (o que seria incrível!), tinham contra si uma série de leis que as julgavam como inferiores aos homens.

(...)
Nessa altura, só podiam votar os cidadãos portugueses maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever e fossem «chefes de família». Então imagina: enquanto os homens vestiam as suas fatiotas para exercer o voto, as mulheres ficavam em casa a preparar coisas como cola de arroz, água canforada, cera para móveis e outras receitas domésticas que agora não servem para nada.

Mas serviu, e muito, a coragem de uma mulher chamada Carolina Beatriz Ângelo. Foi a primeira médica cirurgiã em Portugal, uma vitória numa profissão reservada aos homens. E foi também a primeira mulher a votar, tanto em Portugal como no sul da Europa!»


(Primeiros parágrafos da biografia Ana de Castro Osório - A Mulher que Votou na Literatura, com ilustrações de Marta Monteiro e edição da Imprensa Nacional - Casa da Moeda/Pato Lógico. Escritora, editora, jornalista, ensaísta, pedagoga, feminista, maçónica e republicana, Ana de Castro Osório foi amiga e companheira de luta de Carolina Beatriz Ângelo, a primeira portuguesa a votar nas eleições de 28 de Maio de 1911, numa freguesia de Lisboa. Todas nós, mulheres, lhes devemos o exercício da consciência e da liberdade em dias como os de hoje. Sobre o livro, saiu no Público um texto de Rita Pimenta, também duplicado no blogue Letra Pequena. Obrigada!)

sábado, 3 de outubro de 2015

PORTUGUESES NOS WHITE RAVENS 2015


Mais três livros made in Portugal foram seleccionados pela Biblioteca Internacional da Juventude (um paraíso situado em Munique, onde também mora o Irmão Lobo) para integrar a lista White Ravens deste ano. Estão agora entre os melhores livros infantojuvenis publicados em todo o mundo: O Regresso, de Natalia Chernysheva (Bruaá); Supergigante, com texto de Ana Pessoa e ilustrações de Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina); e Barriga da Baleia, um álbum quase sem palavras de António Jorge Gonçalves (Pato Lógico). Autores e editoras, estão todos de parabéns! Vejam aqui a lista completa, organizada alfabeticamente por línguas.

NOT JUST KIDS


«Musician, poet and photographer, Ms. Smith, 68, is remarkably attuned to the sound and sorcery of words, and her prose here is both lyrical and radiantly pictorial. Like her famous black-and-white Polaroid photos (some of which are scattered throughout the book), the chapters of “M Train” are magic lantern slides, jumping, free-associatively, between the present and the past, and from subject to subject.» A crítica ao novo livro de Patti Smith, M Train, para ler no New York Times, aqui. Just Kids, as suas memórias novaiorquinas dos primeiros passos como artista, ao lado de Robert Mapplethorpe, foram publicadas pela Quetzal, numa tradução de Jorge Pereirinha Pires (Apenas Miúdos).

PATTI SMITH LÊ ÁLVARO DE CAMPOS



De improviso, Patti Smith leu a Saudação a Walt Whitman, de Álvaro de Campos, na retroversão para inglês assinada por Richard Zenith. Foi na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, pouco antes do fabuloso concerto no Coliseu. Reparem como a mão direita «fala», acompanhando as palavras e as imagens (in)contidas nas palavras.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

CHEGAR A BOM PORCO


Nem só de banda desenhada se fala no blogue Ler BD. As críticas aprofundadas de Pedro Moura abarcam também muitos álbuns ou picture books, bem como leituras ensaísticas que de outra forma tenderiam a passar despercebidas. Ainda não há muito tempo, saiu um texto sobre Chico-Chorão (Kalandraka), obra de Maurice Sendak que me deu especial gozo traduzir; sem deixar de partir a cabeça, como todos os outros. 

Explica Pedro Moura que «este Bumble-Ardy suíno, ou na sua versão portuguesa incontestável e segura, Chico-Chorão, é órfão de ambos os pais, transformados em chouriço (uma leitura abusiva quase que poderia explorar vias alucinadas, de projecções do Holocausto – nada estranho na obra de Sendak – nesta família de… porcos), e encontra no seu nono aniversário (alguma cerimónia especial, passível de interpretações simbólicas?) uma ocasião para a libertação de todas as regras. Não quer isso dizer que se chegue a bom porto.»

Muito acertado. Aqui deixo o prólogo, para abrir o apetite:

«Quando Chico-Chorão fez um ano, não houve festa.

(A família riu-se e franziu a testa.)

O segundo ano, o terceiro e o quarto foram propositadamente esquecidos.

E o quinto, sexto e sétimo, nem sequer referidos.

Mas eis que Chico-Chorão completou os oito.

(Oh, que porquinho tão afoito!)

A família ia engordando, enquanto isso.

Até acabar feita em chouriço.

Então veio Adelina, essa tia deliciosa,

e adoptou Chico-Chorão mal ele fez nove.

Não foi uma sorte prodigiosa?

Ah, pois foi...»

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

CURSO DE LIVRO INFANTOJUVENIL - ADENDA

Quero agradecer a todas as pessoas, especialmente professores e educadores, que têm demonstrado interesse pelo Curso de Livro Infantojuvenil, feito em parceria com a Booktailors, em Lisboa, desde 2010. Frequentemente, perguntam-me pelo facebook, email ou blogue, se é possível realizá-lo noutros pontos do país. A verdade é que não, e tenho pena. Sendo um curso (oficina, workshop ou como lhe queiram chamar) de 18 horas, tem uma estrutura difícil de reproduzir, nomeadamente por razões logísticas. No entanto, quero lembrar que tenho versões mais abreviadas de 3h, 6h e 12h; essas sim, já realizadas em várias bibliotecas. As últimas aconteceram em Sintra, Torres Novas, Algés e Ovar (esta, a convite da Biblioteca Municipal de Ílhavo). A próxima será em Esposende, se tudo correr bem. Quem quiser, só tem de me contactar pelo email cmaia.almeida@netcabo.pt. Respondo sempre. :-)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

NOVO CURSO DE LIVRO INFANTOJUVENIL


Eu, em pesquisa para o próximo Curso de Livro Infantojuvenil, com início marcado para 27 de Outubro, em Lisboa (Booktailors, Tv. das Pedras Negras, nº 1 - 3º Dto.). Todas as informações aqui. Na fotografia, sou a terceira a contar do fim.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

CASA, FAMÍLIA, IRMÃO


MR: Pensas que as crianças estão preparadas para ter dois pais ou duas mães?

CMA:
Para te responder a essa questão, sem ser superficial, tinha de estar implicada numa de duas formas: afectivamente, ou seja, estar eu própria nessa situação, ou ter alguém muito próximo que estivesse... Ou então de uma forma teórica, com uma visão mais fundamentada e científica. Não tenho nem uma nem outra. O que sei é que as crianças estão sempre preparadas para serem amadas e respeitadas. Isso é no que eu acredito. Por isso é que neste livro eu e a Marta mostramos famílias funcionais e em situações felizes. Sempre.


(...) 

MR: Nos títulos dos teus livros tu tens “casa”, “família”, “irmão” e a tua temática concentra-se muito na família. Porquê esse interesse?

CMA: Nós falamos daquilo que temos em abundância ou falamos daquilo que nos faz falta. A escrita é isso. Quando estás muito feliz queres viver. Não vais pensar em estar fechado a escrever. Eu falo daquilo que sinto falta – e a falta ocupa, às vezes, um lugar enorme. As minhas vivências familiares foram fortíssimas, cheias de coisas muito boas e outras muito más. E é aí que está o meu magma literário. Tenho uma memória emocional muito forte que se mobiliza quando escrevo. É a minha maior ferramenta. E as duas forças que me fazem ter vontade de escrever são sempre o amor e a revolta, disso tenho a certeza.


[Duas das muitas e boas perguntas de Mário Rufino - também autor das fotos - para a entrevista publicada sexta-feira no Diário Digital. Onde se fala do Amores de Família, do Irmão Lobo, dos outros livros, do processo criativo, da escrita, da família e outros mistérios. Pode ser lida na íntegra aqui.]

domingo, 27 de setembro de 2015

PRIMITIVOS, 2


Coisas que se descobrem sem querer:

«Lembro-me de ouvir a Blanche dizer que o Kalkitos ainda ia«acabar mal», mas naquela altura eu achava que nada de grave podia acontecer a um rapaz de boas famílias. Porque haveria sempre uma família boa para o adotar, se a outra família menos boa não o quisesse. Devia ser uma maravilha ter vários pais e várias mães, pensava eu, aos oito anos. Muito melhor do que ter uma única família e não poder escolher, como era o nosso caso.»

Quando escrevi este parágrafo do Irmão Lobo (p. 77, 1ª edição) nunca tinha ouvido falar do povo Mossi, cujas crianças têm «uma dezena de pais disponíveis no seu ambiente familiar», sendo que o preferido nem sempre coincide com o progenitor. Mais: para os Mossi, «os lares ocidentais são estritamente esqueléticos... Como vir a ser homem em lugares onde apenas nos é atribuído um só pai? E que fazer se este último não nos convém?»  (in XY - A Identidade Masculina, Elisabeth Badinter)

Coisas de povos primitivos e da imaginação das crianças...