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sexta-feira, 11 de novembro de 2016
LEONARD COHEN (1934 - 2016)
QUE FAÇO AQUI?
Não sei se o mundo mentiu
Eu menti
Não sei se o mundo conspirou contra o amor
Eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é agradável
Eu torturei
Mesmo sem a nuvem em forma de cogumelo
ainda assim teria odiado
Escutai
teria feito as mesmas coisas
mesmo que a morte não existisse
Não me deterei como um bêbado
sobre a fria corrente dos factos
Recuso o álibi universal
Como uma cabine telefónica vazia na noite
da memória
como os espelhos de uma sala de cinema
como uma só saída
como uma ninfomaníaca que se une a mil seres
em estranha fraternidade
espero
que cada um de vós confesse.
(Leonard Cohen, Que faço aqui?, in Filhos da Neve, ed. Assírio & Alvim, 1985. Versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê.)
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
AUDÁCIA E SANGUE-FRIO
Sempre que me pedem uma lista dos livros da minha infância, este não pode faltar: Sandokan - Os Mistérios da Floresta Negra, de Emilio Salgari, uma edição Europa-América traduzida por J. Ferreira a partir do texto integral da terceira edição italiana (publicada em 1903, segundo a nota do editor Francisco Lyon de Castro). Reeencontrei-o há pouco numa feira do livro, a bom preço e em óptimo estado. Fiquei muito admirada quando o li pela primeira vez e não achei o nome de Sandokan nem de Lady Marianne, mas de uma outra dupla romântica e fatal: Tremal-Naik e Ada Corishant, «a virgem do Pagode». Este epíteto causava-me uma grande perplexidade, confesso. «Pagode», ou «estar no pagode», é uma expressão muito usada no Norte, referindo-se às crianças quando estão na brincadeira. Agora, «virgem do Pagode» era muito à frente para os meus escassos oito ou nove anos; só muito mais tarde percebi o que queria dizer. Desta leitura tão marcante resultou também a curiosidade pela deusa Kali e pelas misteriosas Sunderbunds; o arrepio de palavras tão estranhas como «bangaló», «sipaios», «faquir» «brâmanes», «rupias», «tugues», «inexoráveis» e tantas outras; e ainda um fascínio por braceletes como os que envolvem os braços da suavíssima Ada. Ofereçam-me braceletes e juro que me atiro aos tigres com audácia e sangue-frio.
quinta-feira, 26 de maio de 2016
A MINHA FADA ORIANA
Um minuto e meio para falar de um dos livros da minha vida: A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais um testemunho incluído na série «Ler para Crer», iniciativa da biblioteca da Fundação Lapa do Lobo.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
MAUVAIS SANG
Prisioneiros do risco e da tragédia, os piratas cultivam uma exuberância festiva, que no caso de James Gancho se associa ao porte de grand seigneur. Filho indesejado, cativo de um passado misterioso, «revelar quem ele era de facto poria ainda hoje o país a ferro e fogo», insinua J.M. Barrie no texto original de Peter Pan. Essa identidade reprimida mostra-se nos «olhos cor de miosótis e de uma profunda melancolia», um dos seus estados de alma constantes. O próprio autor diz que «o homem não era totalmente mau», embora procedesse como um canalha a maior parte das vezes. Prepotente com a tripulação do Jolly Roger, sádico com as vítimas, capaz de mentir e enganar sem escrúpulos, Gancho é um caso evidente de personalidade anti-social. A educação no colégio interno de Eton não lhe terá feito muito bem. Afinal, talvez seja o mais perdido dos lost boys, fugindo do tic-tac do crocodilo até à hora fatal. Não choremos por ele, já que morreu como um pirata: a rir-se dos seus tormentos.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
LAURIE
Fui ver o documentário da Laurie Anderson ao CCB, «Heart of a Dog». Minutos antes da sessão, vi-a passear nos corredores, absorta no seu mundo, com aquele ar de duende maroto, sem peso nem idade. Pensei falar-lhe, mas senti-me tímida e fui por outro lado. Depois esbarrei com ela, assim mesmo, voici, voilà, como na canção da serpente com pernas que vivia numa ilha («Yes. That’s true. A snake with legs.»). Olhámo-nos, sorrimos. Disse-lhe «I love you» e dei-lhe um beijo. Ela retribuiu. «That's so nice to hear that.» Seguiu adiante e eu fui à procura do meu lugar na plateia. Durante o filme, fiz festas à serpente que se enrolou aos meus pés, como um gato pequeno, e no regresso a casa avistei a ilha no meio do rio Tejo, pairando sob as luzes da ponte. Voici, voilà. «Voici le langage de l'amour.»
terça-feira, 27 de outubro de 2015
ANJOS SEM GRAVIDADE
O nosso sistema educativo está completamente obsoleto. Crianças do pré-escolar que levam trabalhos para casa e adolescentes confusos mas obrigados a fazer escolhas determinantes para o resto das suas vidas, eis dois exemplos de uma sociedade às avessas. Nenhuma consistência interior, sem a qual a maturidade permanece adiada (e com ela a confiança nos laços afectivos e a intervenção na sociedade, entre outras coisas); nenhuma consistência é possível sem o desenvolvimento da sensibilidade, da percepção e do entendimento do mundo. Temos mais a aprender com os espíritos livres do que nos autorizamos, mas o preconceito intelectual é como um inquilino que paga uma renda irrisória para habitar uma mansão.
(A propósito de Laurie Anderson e do seu documentário, Heart of a Dog. E também da sátira homónima de Mikhail Bulgakov à formatação do «homem novo».)
sábado, 3 de outubro de 2015
NOT JUST KIDS
«Musician, poet and photographer, Ms. Smith, 68, is remarkably attuned to the sound and sorcery of words, and her prose here is both lyrical and radiantly pictorial. Like her famous black-and-white Polaroid photos (some of which are scattered throughout the book), the chapters of “M Train” are magic lantern slides, jumping, free-associatively, between the present and the past, and from subject to subject.» A crítica ao novo livro de Patti Smith, M Train, para ler no New York Times, aqui. Just Kids, as suas memórias novaiorquinas dos primeiros passos como artista, ao lado de Robert Mapplethorpe, foram publicadas pela Quetzal, numa tradução de Jorge Pereirinha Pires (Apenas Miúdos).
PATTI SMITH LÊ ÁLVARO DE CAMPOS
De improviso, Patti Smith leu a Saudação a Walt Whitman, de Álvaro de Campos, na retroversão para inglês assinada por Richard Zenith. Foi na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, pouco antes do fabuloso concerto no Coliseu. Reparem como a mão direita «fala», acompanhando as palavras e as imagens (in)contidas nas palavras.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
OUTROS AMORES DE FAMÍLIA
Em Junho de 2005, chegava ao fim uma das melhores séries de televisão de sempre: Sete Palmos de Terra. Obra-prima do argumentista, produtor e realizador norte-americano Alan Ball, ao longo de cinco temporadas tratou de tudo o que há entre a vida e a morte, criando um espaço simbólico onde os mortos falavam com os vivos, sem sustos, sem surpresas, como se fosse natural conversarmos todos sobre as nossas culpas, os nossos medos e ressentimentos (e que algum alívio, às vezes, pudesse resultar dessas conversas). A história da família Fisher é também a nossa História: o antes e o depois da Guerra do Iraque, o 11 de Setembro e a antevisão dos tempos sombrios que nos esperavam, com piscadelas de olho ao colapso financeiro iminente (George é uma espécie de Cassandra) e à queda da classe média. Julgo que nas séries feitas agora, a maior parte delas versando psicopatas, não seria possível um final épico como este: Claire a conduzir o automóvel por uma longa estrada onde há luz e poeira, Claire a conduzir-nos pelos caminhos da incerteza com um sorriso de esperança, apesar de tudo.
Dez anos volvidos sobre Sete Palmos de Terra, o Público fez um excelente trabalho jornalístico multimédia em que, entre outras abordagens, entrevistou 13 grandes fãs da série. Aceitei. Foi um privilégio. Está aqui.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
BORBOLETA NO JARDIM
Que uma alemã de 21 anos se faça passar por jornalista e se infiltre numa reunião do Banco Central Europeu, espalhando confettis e gritos de rebeldia por cima dos «donos disto tudo», é de uma coragem e de uma graça extraordinárias. Pouco importam as vozes cínicas que vão comentar a ingenuidade da carta ou a tanguinha insolente da miúda. Gestos simbólicos como o de Josephine Witt contêm um potencial tremendo de consciencialização colectiva (como o punho levantado dos atletas negros nos Jogos Olímpicos de 1968, como a recusa de Rosa Parks em ceder o lugar no autocarro a um branco, como tantos outros que não ficaram para a História) e nunca ninguém pode prever as suas repercussões. Josephine Witt, ex-membro do movimento feminista FEMEN e «activista freelancer», como agora se define, fez-me lembrar uma outra Josephine, Freda Josephine McDonald, mais conhecida como Josephine Baker, que além de cantar e dançar com a graça própria de quem estava bem na sua pele, também fez parte da Resistência francesa e lutou pelos direitos de cidadania. Oxalá houvesse mais Josephines com fibra semelhante. O mundo, tal como o conhecemos (podre, violento e corrupto), está por um fio. Ou melhor, por uma tanguinha.
sábado, 4 de abril de 2015
O OURO DO DIA
O desejo de luz produz luz.
É realmente a luz que se deseja
quando qualquer outro móbil está ausente.
Embora os esforços de atenção
fossem durante anos aparentemente estéreis,
um dia, uma luz exatamente proporcional
a esses esforços
inundará a alma.
Cada esforço acrescentará um pouco mais de ouro
a um tesouro que nada no mundo poderá roubar.
Simone Weil, pensadora e activista política francesa (1909-1943)
domingo, 8 de março de 2015
GRANDES MULHERES
Depois de terminado este ciclo de destruição, egoísmo e insanidade colectiva, virá o seu contraponto, em que pessoas como Malala Yousafzai serão imprescindíveis. Quem diria que uma adolescente, quase criança, se tornaria a pessoa mais jovem de sempre a receber o Prémio Nobel da Paz? No Paquistão pobre e esquecido, Malala lutou pelo direito à educação das raparigas sob o terror do regime talibã e quase perdeu a vida. Tinha apenas dez anos. Não me digam que já não há heróis nem nada em que acreditar.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
DEAR PATTI
Patti Smith faz hoje 68 anos. Há um certo conforto em envelhecer com os nossos heróis, aqueles que tiveram a arte de roubar o fogo aos deuses sem se autoimolarem no altar das oferendas (Ian Curtis, Janis Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse). Contrariando o aforismo grego, «morrem cedo aqueles que os deuses amam», Patti foi sempre fiel à vida e atravessou os seus tumultosos abismos com uma dignidade de princesa. Estas fotografias ilustram-no: de donzela dos infernos a velha sábia, reconhece-se aqui a inteireza de um espírito clarividente e perene, enraizado na força do rock'n'roll. Nas entranhas do dragão esconde-se uma pérola, rezam os mitos. Ela regressou para contar como foi.
Mais sobre Patti Smith n'O Jardim Assombrado: May Your Path Be Your Own, Rock'n'Roll Nigger, Goddess Patti.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
OS CONTOS SÃO UMA MEDICINA
«Os contos são uma medicina. Senti-me fascinada por eles desde que ouvi o primeiro, pela primeira vez. Têm um poder extraordinário: não exigem que façamos, sejamos ou ponhamos em prática algo: basta que os escutemos. Os contos contêm o remédio para reparar ou recuperar qualquer pulsão perdida. Os contos engendram emoções, tristeza, perguntas, desejos e pensamentos que trazem espontaneamente os arquétipos à superfície; neste caso, o arquétipo da Mulher Selvagem.»
(um excerto da minha «bíblia»: Women Who Run With Wolves [Mulheres que Correm com os Lobos], de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista junguiana, escritora e contadora de histórias, só para ficarmos por aqui)
sexta-feira, 20 de junho de 2014
GODDESS PATTI
«O artista procura o contacto com a sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar a sua obra, ele não pode ficar nesse domínio sedutor e incorpóreo. Tem de regressar ao mundo material para efectuar a sua obra. É responsabilidade do artista equilibrar a comunicação mística e o labor da criação.»
(Patti Smith, Apenas Miúdos, ed. Quetzal, tradução de Jorge Pereirinha Pires. Fotografia de Robert Mapplethorpe.)
segunda-feira, 2 de junho de 2014
MAURICE SENDAK EM ENTREVISTA
«I think there's something barbaric in children, and it's missing in lots of books for children because we don't like to think of it. We want them to be happy. And childhood is a very tough time. It was for me, and it was for my brother and my sister.»
(Um pequena e tocante entrevista a Maurice Sendak, realizada em 2009, com a particularidade de ser feita em animação e com legendas em inglês. Cortesia de Bruno Vide).
sexta-feira, 25 de abril de 2014
CAPITÃO DE ABRIL
Este post só poderia ir para a etiqueta «Heróis». Com texto de José Jorge Letria e ilustrações de António Jorge Gonçalves, Salgueiro Maia - o homem do tanque da liberdade é uma das primeiras biografias da nova colecção produzida em parceria pela Imprensa Nacional Casa da Moeda e a editora Pato Lógico. Daqui a uns meses também darei o meu contributo, num volume dedicado à escritora e feminista Ana de Castro Osório. Para já, celebremos este dia que nos lembra o valor da liberdade!
segunda-feira, 21 de abril de 2014
UMA PRINCESA COM CEM ANOS
Correcção ao título: quase cem anos, como se diz no post abaixo. Aqui, a capa da primeira edição de A Little Princess (Warne, 1905) e um retrato contemporâneo para a editora Livre de Poche, assinado (quase posso jurar) por Rébecca Dautremer. [cortesia de Filipa Teles Carvalho]
terça-feira, 15 de abril de 2014
SAUDADES, MR. GOREY
Edward Gorey, um dos meus excêntricos heróis, morreu a 15 de Abril de 2000, na casa de Cape Cod, EUA. Ataque cardíaco. Estive lá em 2007: a reportagem publicada na Notícias Magazine continua a poder ser lida aqui. Como ilustrador, Gorey deixou uma colecção valiosa de capas de livros, sempre de autores de quem gostava (não era do tipo de aceitar encomendas), como esta e e outras que se podem ver aqui. Link enviado por cortesia de Isabel Minhós Martins.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
SOU EU O CAPITÃO DA MINHA ALMA
Repórter e correspondente da LUSA e RTP na África do Sul, António Mateus é um dos mais sérios conhecedores da vida de Nelson Mandela; e se há alguma biografia a recomendar aos adolescentes, neste momento, será esta: Mandela - O Rebelde Exemplar (Planeta). Começa em 1926, quando o pequeno Rolihalahla Mandela é «rebaptizado» de Nelson («como o grande almirante britânico») pela professora primária, e segue por uma vida ímpar em que os acontecimentos são narrados com objectividade e concisão, num encadeamento em género «grande reportagem», com ilustrações sóbrias de Nuno Tuna. A infância e juventude de Mandela ocupam quase metade das 155 páginas, uma opção compreensível, embora gostássemos de ter visto mais desenvolvidos os capítulos sobre os 18 anos de prisão em Robben, quando a solidão e as provações empurraram um homem de carácter para a sua transformação num líder capaz de sentir compaixão pelo inimigo. Na ilha-prisão de Robben, Mandela repetiria como uma oração o poema de William Ernest Henley, cujo último quarteto resume a divisa que sempre o guiou: «Não importa quão estreito é o portão, / Que martírios guarde ainda a minha palma. / Sou eu o senhor do meu destino/ Sou eu o capitão da minha alma.» (tradução de Ana Maria Pereirinha)
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