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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LEONARD COHEN (1934 - 2016)


QUE FAÇO AQUI?

Não sei se o mundo mentiu
Eu menti
Não sei se o mundo conspirou contra o amor
Eu conspirei contra o amor
O ambiente de tortura não é agradável
Eu torturei
Mesmo sem a nuvem em forma de cogumelo
ainda assim teria odiado
Escutai
teria feito as mesmas coisas
mesmo que a morte não existisse
Não me deterei como um bêbado
sobre a fria corrente dos factos
Recuso o álibi universal

Como uma cabine telefónica vazia na noite
da memória
como os espelhos de uma sala de cinema
como uma só saída
como uma ninfomaníaca que se une a mil seres
em estranha fraternidade
espero
que cada um de vós confesse.

(Leonard Cohen, Que faço aqui?, in Filhos da Neve, ed. Assírio & Alvim, 1985. Versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê.)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LAURIE LOVES LOU



What do you call love
Well I don't call it family and I don't call it lust
And as we all know marriage isn't a must
And I suppose in the end, it's a matter of trust

If I had to I'd call love time
She says, what do you call love
Can't you be more specific
What do you call love

Is it more than the heart's hieroglyphic
Well for me time has no meaning, no future, no past
And when you're in love, you don't have to ask
There's never enough time to hold love in your grasp

Turning time around
Turning time around
That is what love is

(Turning Time Around, Lou Reed)

sábado, 24 de janeiro de 2015

THE COAL BLACK SEA WAITS FOREVER



Well the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
The waves hit the shore
Crying more more more
But the coal black sea waits forever

The tornados come up the coast they run
Hurricanes rip the sky forever
Through the weathers change
the sea remains the same
The coal black sea waits forever

There are ashes split through collective guilt
People rest at sea forever
Since they burnt you up
Collect you in a cup
For you the coal black sea has no terror

Will your ashes float like some foreign boat
or will they sink absorbed forever
Will the Atlantic Coast
have its final boast
Nothing else contained you ever

Now the coal black sea waits for me me me
The coal black sea waits forever
When I leave this joint
at some further point
The same coal black sea will it be waiting

(Lou Reed, «Cremation», do álbum Magic and Loss, 1992) 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

THE KIDS ARE ALRIGHT: PIERRE



Versão cantada de Carole King para Pierre, um dos quatro títulos da adorável Nutshell Library, de Maurice Sendak, também já traduzida e a publicar pela Kalandraka em 2015. Um bocado chatota, digo eu (a música, não a colecção), tendo em conta que Pierre é um verdadeiro punk. Mais posts da série The Kids Are Alright: Alice, The Sisters of Mercy; Alice, Jefferson Airplane; The House That Jack Built, Metallica.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

THE KIDS ARE ALRIGHT: ALICE, 2



Esta Alice veste-se de negro. Em 1982, os ingleses The Sisters of Mercy criaram mais uma personagem atraída por estados alterados de consciência. A austeridade dos anos 80 substituiu o devaneio lúdico e psicadélico dos Jefferson Airplane: «Alice in her party dressed to kill/ She thanks you turns away/ Needs you like she needs her pills/ To tell her that the world's okay.» E o mundo ficou negro durante muito tempo.

THE KIDS ARE ALRIGHT: ALICE, 1



Entre as muitas canções inspiradas em Alice no País das Maravilhas, White Rabbit, dos Jefferson Airplane, é um clássico que não perdeu o seu charme indiscreto. Onde se fala de cogumelos, cachimbos de água, comprimidos e outros elementos de conteúdo explícito, tal como quis Grace Slick, que leva todos os créditos pela canção. Do álbum Surrealistic Pillow, de 1967.

Mais da série «The Kids are Alright» com Metallica e René Aubry, respectivamente, aqui e aqui.

sexta-feira, 28 de março de 2014

THE KIDS ARE ALRIGHT: THE HOUSE THAT JACK BUILT



The House That Jack Built ou This is the House That Jack Built é uma das mais conhecidas nursery rhymes inglesas, remontando a meados do século XVIII. Um clássico das rimas de estrutura cumulativa, em que a primeira frase é o pretexto para o desencadear sucessivo de interligações nem sempre lógicas (por exemplo: «Minha mãe teve dez filhos,/ Todos dez dentro de um pote;/ Deu-lhe o tangro-mangro neles,/ Não ficaram senão nove.», etc., etc.), The House That Jack Built tem sido reformulada ao sabor das épocas e tendências, sendo provavelmente um dos títulos mais parodiados de sempre. Os australianos The Go-Betweens revestiram-na de melancolia ácida em The House That Jack Kerouac Built, mas a versão que fica para a história será a dos Metallica. É o terceiro tema do álbum Load, dos idos de 1996. Um prodígio.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

LOU, LAURIE & LOVE



«To our neighbors:
 
What a beautiful fall! Everything shimmering and golden and all that incredible soft light. Water surrounding us.

Lou and I have spent a lot of time here in the past few years, and even though we’re city people this is our spiritual home.

Last week I promised Lou to get him out of the hospital and come home to Springs. And we made it!

Lou was a tai chi master and spent his last days here being happy and dazzled by the beauty and power and softness of nature. He died on Sunday morning looking at the trees and doing the famous 21 form of tai chi with just his musician hands moving through the air.

Lou was a prince and a fighter and I know his songs of the pain and beauty in the world will fill many people with the incredible joy he felt for life. Long live the beauty that comes down and through and onto all of us.

Laurie Anderson
his loving wife and eternal friend»


(carta de Laurie Anderson para Lou Reed, publicada no East Hampton Star, um jornal de Long Island, New York. O concerto de homenagem dos músicos portugueses é hoje, no Largo do Intendente, Lisboa)

domingo, 27 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

INSENSATEZ - TOM JOBIM



A insensatez
Que você fez
coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
o seu amor um amor
tão delicado
Ah porque você
foi fraco assim
assim tão desalmado
Ah, meu coração
quem nunca amou
não merece ser amado
Vai meu coração
ouve a razão
usa só sinceridade
Quem semeia vento,
diz a razão,
colhe sempre tempestade
Vai meu coração
pede perdão
perdão apaixonado
Vai porque quem não
pede perdão
não é nunca perdoado

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

CHARLOTTE SOMETIMES


Recentemente descobri que uma das melhores canções dos The Cure é inspirada numa obra de referência da literatura juvenil inglesa: Charlotte Sometimes. Foi escrita por Penelope Farmer e publicada no Reino Unido pela Chatto & Windus, em 1969. Uma pesquisa superficial diz-me tratar-se da história de uma rapariga (Charlotte, of course), recém-chegada a um colégio interno, que se descobre «encarnada» noutra aluna, Clare, cuja vida remonta a quarenta anos antes. Não percebo bem se é uma história de fantasmas se de exploração do tema das viagens no tempo... Let’s look at the video? Estávamos em 1993 e cantávamos «sometimes I'm dreaming/ Charlotte sometimes...»

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ROCK'N'ROLL NIGGER



Quem vê músicas vê corações? Je ne sais pas. A ser verdade, o meu é assim, entre o negro, o azul e o numinoso:

FISHERS Z – So Long
JOSÉ AFONSO – Vejam Bem
STRANGLERS – Golden Brown
NATALIE MERCHANT – The Sleepy Giant
THE WALKABOUTS – The River People
BRUCE SPRINGSTEEN – Youngstown
NICK CAVE AND THE BAD SEEDS – The Ballad of Robert Moore and Betty Coltrane
PATTI SMITH – Rock’n’roll Nigger
PINK FLOYD – Comfortably Numb
HANK WILLIAMS – Alone and Foresaken
JACQUES BREL – Mathilde
SCREAMIN’ JAY HAWKINS – I Put a Spell on You
ROLLING STONES – Paint it Black
NEIL YOUNG – Dead Man Soundtrack
KRISTIN HERSH – Houdini Blues
MÃO MORTA – Tu Disseste
JOHNNY CASH – I Won’t Back Down
LITTLE ANNIE – Freddy and Me
TOM WAITS – Yesterday is Here
LOU REED – Sword of Damocles
LLOYD COLE – Chelsea Hotel
MARTHA AND THE MUFFINS – Echo Beach

(Esta foi a lista. Para ouvir o compacto da Play-List na TSF, clicar aqui.)

quinta-feira, 10 de março de 2011

O GIGANTE ARREPENDIDO



Já falei neste post de Natalie Merchant, a vocalista dos 10.000 Maniacs que assinou um disco de excepção, em 2010 (Leave Your Sleep, Nonesuch Records), uma antologia não canónica de poemas para crianças, por ela musicados e cantados. Maioritariamente do século XIX e primeira metade do século XX, tanto encontram a sua origem em autores anónimos ou esquecidos como em nomes consagrados como e.e. cummings, Christina Rossetti ou Robert Graves.

The Sleepy Giant, de Charles Edward Carryl (1841-1920), pertence mais ao primeiro caso; apesar de os seus livros terem usufruído de bastante popularidade, estão actualmente “out of print”. A história do gigante devorador de crianças, enraizada no mito de Saturno, é transversal à literatura para crianças e tem muitas variantes. Esta é uma delas. O vídeo acima está bastante bem feito e tem a vantagem de ser uma criação de autor, mas não corresponde à versão do CD, que pode ser ouvida aqui, com melhor qualidade de som e um delicioso excerto introduzido no corpo do poema por Natalie Merchant: “More eels my lady?/ Perhaps some bubble and squeak,/ or a little toad in the hole?/ A Lyconshire hot pot, perhaps?/ That would be nice.” Bem, é ouvir as duas versões, não sei qual delas é a melhor. Eis então a breve história do gigante arrependido:

The Sleepy Giant

My age is three hundred and seventy-two.
I think, with the deepest regret,
how I used to pick up and voraciously chew
the dear little boys that I met.

I've eaten them raw, in their holiday suits,
eaten them curried with rice.
I've eaten them baked, in their jackets and boots,
and found them exceedingly nice.

But now that my jaws are too weak for such fare,
I think it's exceedingly rude
to do such a thing, when I'm quite well aware,
little boys do not like being chewed.

And so I contentedly live upon eels,
and try to do nothing amiss,
pass all the time I can spare for my meals
in innocent slumber like this.

domingo, 6 de março de 2011

A MINHA ESCOLA


O primeiro número da Música & Som foi para as bancas a 11 de Fevereiro de 1977. Conseguiu o prodígio gráfico-ideológico de juntar, na mesma capa, os Abba com os Pink Floyd, e Bob Dylan com Art Sullivan. Nas semanas seguintes, houve protestos contra a inclusão do «principezinho» belga que derretia corações com a sua Petite Demoiselle, mas a revista contestava, na secção de cartas dos leitores: «Não faças o sacrifício de ler Art Sullivan. Respeitamos e compreendemos a tua posição. Só que há leitores (e não são poucos) que exigem o Art. Que fazer?...». Pergunta retórica. Durante os dez anos seguintes, a Música & Som fez muito por diferentes gerações de melómanos, publicando milhares de artigos, crónicas, reportagens, entrevistas, letras de canções, posters, críticas de discos e tudo o que interessasse a um «magazine musical». Muito rock e pop, algum jazz, alguma clássica. Os tops foram oscilando, tal como o preço do papel, e o tempo passou com o seu cortejo de preferências. As capas de Joan Baez deram lugar a Kim Wilde; os Van der Graaf Generator cederam passagem aos Bauhaus; os Tantra abriram caminho para os Heróis do Mar. Mas quando uma leitora de Lisboa escreveu a dizer que «gostaria que no ano de 83 publicassem um poster do Marco Paulo», a Música & Som respondeu, sempre tu cá, tu lá: «Olha, Fátima, temos de confessar que, de facto, não está nos nossos planos publicar qualquer poster do Marco Paulo.» Até 1987, ano em que fechou, os seguidores do rock’n’roll agradeceram a frontalidade.

(Texto publicado na edição de 6 de Março da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ UMA VELHINHA, 2



There Was An Old Lady Who Swallowed A Fly cantada no Muppet Show por Judy Collins, uma discípula de Pete Seeger e Woody Guthrie. Como sempre, a dupla Statler & Waldorf – mais conhecida por “os velhos dos Marretas” – vai tecendo os seus comentários do alto do camarote. Divertidíssimo. Estávamos em 1977.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A PAIXÃO DOS FORTES





"Alone and foresaken", de Hank Williams, gravado em 1949, é um dos melhores temas incluídos na especialíssima colectânea que acompanha a Uncut de Setembro. Straight to You - The Gothic Country & Blues That Inspired Nick Cave, título do CD gratuito, contém um punhado de canções de amor e ódio permeadas de desejo insano, paixões fortes e álibis assassinos. O tipo de histórias que faz Cave dizer: “As far back as I can remember, there was something that thrilled me about telling a story, and it’s absolutely the way I think, and when I sit down and try and write a song, I think in a narrative way”.

No artigo que faz capa da revista elegem-se as 30 melhores canções dos últimos 30 anos, devidamente comentadas pelo próprio, mas também por ex-Bad Seeds e outros músicos, produtores e realizadores de alguma forma relacionados com o universo caveano (do qual seremos fãs penitentes até ao dia do Juízo Final, mas nem que o homem passe a cantar rimas de berço).

sábado, 31 de julho de 2010

NATALIE MERCHANT: VOZ, POESIA E ALMA




Natalie Merchant, a voz inconfundível dos 10.000 Maniacs, entregou-se durante seis anos àquele que considera ser o projecto “mais elaborado” que alguma vez completou ou sequer imaginou. Leave Your Sleep, o primeiro álbum de estúdio desde 2003, é uma fulgurante colecção de 26 poemas em língua inglesa (supostamente) para crianças, por onde passam autores anónimos, nomes obscuros do século XIX e alguns consagrados como Robert Louis Stevenson, e.e. cummings ou Edward Lear. Ternos e melancólicos, uns; eivados de fantasia e humor nonsense, outros – todos adquirem uma qualidade rara na interpretação de Natalie Merchant, que pôs a plateia das Ted Talks a bater palmas entusiásticas – para depois mandar calar toda a gente, porque a música assim o exigia. O que se pode ver e ouvir aqui são algumas das canções de Leave Your Sleep, com Natalie Merchant acompanhada por excelentes intérpretes, por vezes soando como uma orquestra de câmara e outras como uma banda de blues. O disco demorou um ano a gravar e reuniu os contributos de uma centena de músicos de vários géneros.

Todos os poemas estão reproduzidos no site oficial, onde também se podem ouvir excertos das músicas durante tempo suficiente para ir a correr comprar o disco. Este vem acompanhado de um booklet de 80 páginas muitíssimo bem feito, com texto e fotografia, contendo informações preciosas acerca dos autores musicados, resultado da investigação de Natalie Merchant ao longo de cinco anos. Se isto não é o projecto de uma vida…

domingo, 18 de julho de 2010

O VERÃO É ISTO, ASSIM


Risos, tagarelice, vadiagem, gaivotas a voar baixo, crianças sentadas nos muros, infinitos pretextos para abraçar alguém, a sensação do tempo que resta e o sol a dilatar todos os pormenores à nossa volta, como uma miragem prodigiosa. Há discos que só consigo ouvir no Verão e este é um deles: Simple Things, dos Zero 7. Em repeat.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

THE KILLING MOON REVISITED

Filme animado com versão atmosférica de uma grande canção dos Echo & The Bunnymen: "The Killing Moon", pelos Nouvelle Vague. Terno, enigmático e poético. Ou apenas muito bonito.