quinta-feira, 14 de julho de 2016
ELENA FERRANTE PARA CRIANÇAS?
Depois de ler A Praia de Noite, um texto de Elena Ferrante com ilustrações de Mara Cerri, fiquei com muitíssimas dúvidas sobre a sua adequação ao destinatário infantil. Não tenho como tirar a prova, mas não creio que este imaginário mórbido, grotesco e escatológico seja atraente para uma criança. A história da boneca esquecida na praia, pejada de tópicos emocionais ferrantianos (abandono, medo, prepotência, solidão, maldade, desajuste...) provocou-me uma «inquietação incómoda» a partir do momento em que me imaginei a lê-lo para uma criança ou a lê-lo enquanto eu-criança. Sem pôr em causa a qualidade literária, evidentemente (ferrantiana me confessei neste post do Jardim Assombrado), o problema é que vamos encontrar A Praia de Noite na secção infantojuvenil das livrarias... e enquanto não se assumir a viabilidade de um escaparate denominado «livros ilustrados para adultos», ou algo parecido, estamos expostos a este tipo de equívocos. Aliás, muito comuns.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
PRÉMIO NACIONAL DE ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA
A vigésima edição do Prémio Nacional de Ilustração foi arrebatada (é o termo) por um livro sem texto: Dança, de João Fazenda, com edição da Pato Lógico. As duas menções especiais foram para Verdade?!, de Bernardo P. Carvalho (da mesma colecção da Pato Lógico) e Gato Procura-se, ilustrado por Yara Kono, com texto de Ana Saldanha. As restantes menções e a composição do júri estão referidas na notícia da DGLAB. Este ano, concorreram ao prémio 98 livros (publicados em 2015) e 67 ilustradores. Parabéns a todos e especialmente aos vencedores!
Sobre Dança e Verdade?! escrevemos aqui.
sábado, 9 de julho de 2016
JÁ OUVIRAM A RADIOTECA?
Penalizo-me por nunca ter ouvido a Radioteca, um programa da RUC - Rádio Universidade de Coimbra conduzido por Inês Nascimento Rodrigues. Nesta edição, inteiramente dedicada à literatura infantojuvenil, Miguel Gouveia, editor da Bruaá e uma das vozes mais esclarecidas e independentes do «meio», dá uma entrevista imperdível em que se fala de quase tudo: a ditadura da novidade; plano de negócios vs. paixão pelos livros; os tiros no escuro e os tiros ao lado da edição; os equívocos dos famosos; o trabalho de arqueólogo do editor; os editores que abriram caminho na LIJ; o catálogo sui generis da Bruaá e as vendas de direitos para o estrangeiro... etc, etc. E ainda o anúncio, em primeira mão, o próximo título da Bruaá, com assinatura de Walter Benjamin!
Muito gentilmente, a Inês convidou-me a falar dos livros da minha vida, o que me «obrigou» a traçar um percurso sinuoso que começa no Atlas do Nosso Tempo, das Selecções do Reader's Digest, e no Cândido, de Voltaire, e segue por ali fora até acabar nas Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Pelo meio, Gilles Lapouge (Os Piratas), Michel Onfray (Teoria da Viagem), Marguerite Duras (O Amante), Patti Smith (Apenas Miúdos), Bachelard (Poética do Devaneio) e muitos outros que fazem parte da minha deriva leitora.
Link para a emissão completa em podcast.
Link para "Os Livros da minha Vida".
sexta-feira, 8 de julho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 9: OS BEBÉS DA ÁGUA
Publicada em 1863, numa crítica implícita à
Revolução Industrial, a obra maior de Charles Kingsley faz parte do cânone da
literatura para crianças. Um «conto de fadas para um bebé terreno», chamou-lhe
o autor, apresentando o seu herói na primeira frase: «Era uma vez um pequeno limpa-chaminés
que se chamava Tom.» O que começa por soar como uma intriga
dickensiana (as aventuras de Oliver Twist
tinham surgido três décadas antes), reveste-se de contornos mágicos quando
aparece uma certa figura feminina: a mulher irlandesa que se revelará como «a rainha
de todas as fadas, e talvez do que está para além delas». Ao imprimir a sua
subjetividade e expor uma visão do mundo em que se cruzam as ideias do
Socialismo Cristão, do misticismo das folktales
e da fé nas conquistas da ciência, Kingsley produziu uma obra tão excêntrica
como ele: um homem capaz de acreditar, simultaneamente, nas teorias revolucionárias
de Darwin, de quem era amigo, e ser capelão da devota Rainha Victoria. Sem
reprimir um exorbitante e arrevesado simbolismo, bem como comentários críticos
aos seus contemporâneos e muitas deambulações filosóficas, Os Bebés da Água leva-nos por caminhos intrigantes, em que as notas
do tradutor Júlio Henriques fornecem pistas valiosas. Uma edição da Tinta-da-China.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 8: A ILHA DO TESOURO
terça-feira, 5 de julho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 7: MOMO
Publicado originalmente em 1973, quando nascia a
última geração autorizada a brincar na rua, Momo
é um romance portador dessa qualidade premonitória que a boa literatura tem o
dom (ou a maldição) de revelar. Escreveu-o Michael Ende (1929-1995), para no
ano seguinte ganhar o prestigiado Prémio de Literatura Juvenil Alemã pela
segunda vez. Em Portugal, conheceu a sua primeira edição em 1984, ano orwelliano. Não podia ter calhado
melhor: Momo é uma distopia do tempo
em que as distopias juvenis não estavam na moda: cidades onde as crianças não
podem brincar, adultos consumidos pelo tédio e pelo trabalho repetitivo, o
mundo dividido em párias e seres produtivos, celebridades espremidas até ao
tutano, bairros tristes e montanhas de lixo nos arrabaldes. Um livro
bem pensado e bem escrito, sem peripécias em exagero a intoxicar o leitor
incauto e com cuidadas passagens descritivas que deixam muito lugar à imaginação. Momo
é o nome da heroína da história, uma menina capaz de entender o que é o tempo.
Só ela poderá interromper o plano inexorável dos «senhores cinzentos», para
quem tempo é dinheiro. Ao que parece, alguns foram esquecidos e ficaram para
semente. Momo é uma reedição da Presença, com tradução de Maria Margarida
Morgado.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
VISTAS MUITO ALEGRES
A partir de hoje, o Museu da Vista Alegre, em Ílhavo, recebe a exposição da Ilustrarte 2016, que se prolonga até 1 de Outubro. E ainda Serge Bloch e os fantásticos cartoons de António, em duas exposições temporárias. Há oficinas para crianças, inseridas no serviço educativo, e conversas com escritores e ilustradores. Hoje, às 21h00, com Valter Hugo Mãe. Amanhã, às 18h00, com João Vaz de Carvalho, Marta Madureira e moi-même. Tema: «Outros modo de ler - texto e imagem na edição para a infância». A moderação é de Adélia Carvalho e Nuno Barra. A entrada é livre. Apareçam, que o programa é mesmo bom! Está tudo aqui.
quinta-feira, 30 de junho de 2016
BLIMUNDA: 4 ANOS DE CLARIVIDÊNCIA
Nascida na Fundação José Saramago, em Lisboa, a Blimunda fez quatro anos este mês. Para quem não sabe, é uma revista digital, gratuita, mensal (inclusive em Agosto) e dedicada à cultura na sua vasta expressão, com destaque para a literatura de todos os géneros, mas também à «música, futebol, dança, fotografia, artes plásticas, exposições, viagens, cinema», como recorda o editorial. Face ao esboroamento do jornalismo cultural tal como o conhecíamos antes da internet e das fusões empresariais, é preciso lembrar que há quem insista em dar o seu melhor. E isso consegue-se trabalhando muitas horas, escrevendo e reescrevendo, procurando ângulos, pessoas e temas fora do mainstream, aplicando o conhecimento adquirido sem perder de vista o essencial: comunicar. Aqui tenho de falar da minha dama: a literatura infantojuvenil e a ilustração têm sido muito bem tratadas pela Blimunda. Quem quer estar informado sobre esta área não pode deixar de ler os textos da Andreia Brites e da Sara Figueiredo Costa. O design gráfico do Jorge Silva explora o melhor uso do suporte digital, deixando sem argumentos até aqueles que continuam, hélas, a preferir ler em papel. Mas fora da caverna há mais luz. A entrevista de Pilar del Rio a José Saramago fala-nos disso mesmo. Um excerto:
Pilar del Rio: As personagens de A Caverna rebelam-se. É
necessária rebeldia para sair da caverna?
José Saramago: A Caverna é uma história de perdedores cuja única
vitória consiste em que não se entregam ao triunfador. É a rebelião possível
mas sem ela não poderá haver outra. A derrota definitiva seria a submissão, e
ainda assim não devemos esquecer que as gerações se sucedem, mas não se
repetem. Assim como de insubmissos podem nascer submissos, também dos que se
submeteram poderão nascer os que se revelarão.
PdR: Neste romance introduzem-se dois elementos novos
na sua obra: a família e a ternura. Crê que estes conceitos são importantes
para que algo se modifique para melhor?
JS: Não tenho ilusões sobre a família como
instituição. A família é lugar de crimes, traições e vilanias, tanto como
qualquer outro grupo humano. Mas continuo a acreditar no poder regenerador da
bondade pessoal e da ternura. A casualidade quis que em A Caverna se reunissem
quatro pessoas boas e um cão não menos bom, ainda que a realidade, sabemo-lo
por experiência, demasiadas vezes seja diferente.
PdR: Há uns meses em Santander disse que «quanto mais
velho mais sábio, quanto mais sábio, mais radical». Não foi só uma frase de
efeito
JS: Não me lembro se a frase dita em Santander era
exactamente assim. Seja como for, parece-me que fica mais clara a ideia se digo
que quanto mais velho me vejo, mais livre me sinto e mais radicalmente me
expresso. Não se trata de uma frase de efeito, é uma verificação de todos os
dias. As palavras que com mais frequência me digo são estas: «Não te permitas
nunca seres menos do que és».
quarta-feira, 29 de junho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 6: A MINHA CIDADE
Com o turismo de massas a tornar as cidades
irreconhecíveis, surgem ideias em contracorrente. Embora algo inclassificável, A Minha Cidade é um projeto coerente com
a linha editorial da Pato Lógico de André Letria (isto como quem diz «o Real
Madrid de Cristiano Ronaldo»). Desde o início, a aposta passou por autonomizar
o trabalho dos ilustradores e desafiá-los a serem contadores de histórias. Explorar
as dinâmicas narrativas sem o suporte do texto de um escritor começou com a
coleção Desconcertinas, do próprio
André Letria, e ampliou-se com a coleção Imagens
que Contam, à qual se juntou o álbum de Teresa Cortez, Balbúrdia. Desta vez, estamos perante um «objecto-livro-mapa»
concebido para usufruto em dois tempos: primeiro, na leitura imediata das
imagens e textos que compõem o itinerário urbano traçado pelo ilustrador;
segundo, na vivência empírica que o leitor poderá seguir, in loco, de cada um dos doze sítios selecionados para o formato
desdobrável. Os dois primeiros títulos, dedicados a Beja e a Edimburgo, são assinados,
respectivamente, por Susa Monteiro e Marcus Oakley. Madrid e Huesca, ilustrados por Manuel Marsol e Isidro Ferrer,
deverão sair em 2017. «Cidades do mundo para desdobrar e descobrir pelos olhos,
mãos e pés dos ilustradores que as habitam.» Boas viagens!
terça-feira, 28 de junho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 5: FINALMENTE O VERÃO
Finalmente o Verão, de Mariko Tamaki (texto) e Jillian Tamaki (ilustração), duas primas de ascendência japonesa nascidas no Canadá, é o quarto título publicado na colecção Dois Passos e um Salto, «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», como desde o início foi apresentada pela editora Planeta Tangerina. Nada de equívocos, portanto. A linguagem explícita que aqui aparece é até bastante soft, se comparada com alguns «diálogos» avulsos que captamos na rua ou perto de qualquer escola secundária. Se há pais, professores, livreiros e adultos em geral que preferem olhar para os adolescentes como se os pudessem conservar num frasco de formol delicodoce, talvez seja porque se esqueceram dessa época bruta, incerta, confusa e sempre angustiante que se sucede à relativa previsibilidade da infância. Finalmente o Verão tem tudo a ver com isso e muito mais.
A maternidade é um dos temas que atravessam o livro de uma ponta à outra - e esta noção de «travessia» é, em si mesma, estruturante do ponto de vista narrativo. Primeiro, a travessia da família Wallace para a zona dos grandes lagos, um lugar idílico chamado Awago Beach onde desde há muitos anos passam as férias de Verão. Rose Wallace, adolescente magra e aérea como um galho, reencontra ali a amiga de infância, Windy, cujo corpo redondo contrasta com o seu e oferece já outra visão do feminino, menos agreste e mais maternal. Mas perceberemos rapidamente algumas das razões da crispação de Rose: um aborto espontâneo da mãe às seis semanas, ainda por curar, transporta o mal-estar e as discussões do casal Wallace para o desejado retiro no seu éden privado.
Interligando-se com o cenário familiar, o quotidiano rude dos adolescentes e jovens adultos da localidade de Awago Beach - e o impacto de uma gravidez não desejada entre duas personagens - adensam o clima sufocante da teia de relações humanas. Surgem alguns presságios: as referências aos feiticeiros da tribo Huron, ancestrais habitantes daquela região do Canadá, agora convertidos em atracção turística; ou a fantasmática figura do homem que aparece a Rose quando ela foge para o lago, avisando-a do perigo dos relâmpagos. No entanto, nada nos prepara a iminência da tragédia nem para o final redentor do livro. E essa surpresa é um dos deslumbramentos desta novela gráfica em tons de azul, por isso não a estraguemos aqui.
Mas esta é, esssencialmente, uma travessia dos lugares cristalizados da infância, ainda com cheiro a gomas e refrigerantes e festas de pijama, para outros lugares insondáveis onde se fala (muito) de sexo, rapazes, casamento, filhos... Personagens que são, sobretudo, seres em transição: raparigas que gostariam de ser mulheres para serem desejadas; mulheres que gostariam de voltar a ser crianças só «para poder gritar e espernear», mulheres que não querem ter filhos porque elas próprias se sentem ainda crianças. A maternidade, fortemente simbolizada nas águas uterinas do lago, recorda que «a mãe natureza nem sempre é a pessoa mais simpática do mundo». Por vezes, navegamos em águas turvas ou desconhecidas. Há perdas de sangue e de filhos; há conversas cortadas a meio e mensagens não respondidas no telemóvel. Há a eterna incomunicabilidade das coisas brutais, e também o esforço que fazemos para lhes dar um nome. Onde faltam as palavras, exorbitam as onomatopeias, traduzindo emoções, cheiros, sabores, sensações, gestos, movimentos, sons. Do muito grande ao muito pequeno, o espaço de página faz convergir espaços antagónicos e tempos paralelos com absoluta mestria.
Muito mais poderia ser dito sobre Finalmente o Verão, livro que mereceu, com bastante polémica (ver aqui), o prestigiado Caldecott Honour, atribuído pela American Library Association, em 2015. É um daqueles livros que não hesitamos em classificar como obra-prima, por muito batida que esteja a palavra. E ainda bem que agora se escrevem tantas obras-primas na literatura infanto-juvenil. Mas nada de equívocos, novamente: este é um livro «para adolescentes e outros leitores mais crescidos», que muitos adultos deviam ler pelo menos duas vezes. Terminamos com a fala do homem do lago, que com o seu cão magro aparece junto de Rose, deixando-lhe um sábio conselho: «Algumas lições só se aprendem a doer, miúda. Não precisas armar ao pingarelho.»
sexta-feira, 24 de junho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 4: MARY POPPINS
Em 1924, Pamela Lyndon Travers, aliás Helen
Lyndon Goff, chegou a Londres disposta a reinventar tudo, a começar pelo nome
que lhe foi dado na Austrália, onde nasceu a 9 de Agosto de 1899. A sua
biografia é aventurosa e cheia de incógnitas e bizarrias; como o facto de ter
separado e adoptado um de dois irmãos gémeos bebés – decisão salomónica eticamente
questionável. No documentário que circula no You Tube, o filho adoptivo, Camillus
Travers, fala da mãe com uma fleuma bem cultivada, descrevendo Mary Poppins nesta
frase lapidar: «Ela é bastante parecida com a minha mãe.» Tal como a mulher que
lhe deu origem, ninguém sabe quem é nem de onde vem Mary Poppins, quando num
dia de vento aterra na Rua das Cerejeiras, disposta a cuidar das quatro
crianças da casa. Ela é «a sua própria obra», para usar a máxima de Madame de
Stael («Je suis mon ouvrage.») Ele é única, incomparável, narcisista, excêntrica,
misteriosa, ríspida, presumida e insolente. «Ela é diferente. É a Grande
Exceção», diz o Estorninho. «Quanto aos sentimentos de Mary Poppins», escreve
também P.L. Travers, «ninguém sabia nada, porque ela nunca falava deles». Está
tudo dito. Nada está dito (e é melhor assim). O livro foi originalmente publicado
em 1934 e está editado na colecção de clássicos da Relógio d’Água, com
ilustrações de Susana Oliveira.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 3: PIPPI DAS MEIAS ALTAS
«A sós com um livro, uma criança cria as suas
próprias imagens, nos espaços secretos da sua alma. Essas imagens estão acima
de tudo. São necessárias às pessoas. No dia em que a imaginação das crianças já
não for capaz de criá-las, a humanidade ficará empobrecida.» Astrid Lindgren
(1907-2002) proferiu estas palavras ao receber o prestigiado Prémio Hans
Christian Andersen, em 1958, mas a sua criação mais famosa, Pippi das Meias
Altas, seria bem capaz de faltar à cerimónia ou de interromper o discurso com uma
das suas delirantes partidas. Pippi tem nove anos, é órfã e vive com dois
animais de estimação, um macaco e um cavalo. Recusa-se a ir à escola, ganhou
experiência de vida como «embarcada» e define-se como «encontradora de coisas».
Alexandre Pastor, que traduziu diretamente do sueco, lembra, no texto
introdutório da edição da Relógio d’Água: «Quando Pippi das Meias Altas foi publicado em 1945, conheceu um êxito
imediato, apesar do alvoroço que criou entre os pais e os professores que viam
em Pippi um perigo para a educação tradicional.» Visto que o modelo educativo não
se alterou substancialmente desde então, não é de admirar que a leitura destes
capítulos continue a provocar alguns arrepios. Entre as personagens femininas
subversivas da literatura infanto-juvenil, de Alice às princesas mal
comportadas dos álbuns de Babette Cole, é difícil encontrar quem manifeste
tanta indiferença pelas instituições sociais, a par um sentido elementar de
justiça e de liberdade individual. Uma espécie de anarquista, portanto.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 2: PROFESSOR ASTROGATO
Imaginemos que o Sistema Solar cabia entre as duas mãos. Se a Terra fosse um tomate-cereja, Júpiter seria uma melancia e Mercúrio não mais do que um grão de pimenta. É isto um facto? Uma curiosidade? Sim e sim. Também é um bom exemplo das possibilidades criativas de uma categoria habitualmente menos privilegiada do que a ficção: os livros informativos. Depois de trabalhar anos numa livraria, e farto de ver álbuns sobre o espaço com as mesmas fotografias e as mesmas legendas de sempre, Ben Newman decidiu desenhar um universo à sua medida. Convidou Dominic Walliman (também inglês, como ele), cientista doutorado em física quântica e autor de livros para crianças nas horas vagas, e o resultado foi surpreendente: um álbum esteticamente cuidado e pleno de charme retro, com uma linguagem transversal para crianças e adultos, factual e afectivo ao mesmo tempo. Se a combinação de formas e cores faz lembrar os álbuns dos anos 1960 e 70, a informação tem a garantia científica de um perito – e é nítido que os autores se divertiram durante o processo. Desde a primeira edição no Reino Unido (Flying Eye Books), em 2013, O Professor Astrogato nas Fronteiras do Espaço já foi traduzido para várias línguas. Incluindo, é claro, a língua de gato. Em português, saiu na Orfeu Negro.
terça-feira, 21 de junho de 2016
LEITURAS DE FÉRIAS, 1: OS LIVROS DA SELVA
Mogli, o filhote de homem cujas origens não ficam totalmente esclarecidas, é criado com o Povo Livre, os lobos, e recebe os ensinamentos da Lei da Selva sob a orientação de dois animais-mestres: Balu, o urso-pardo, e Baguera, a pantera negra. Mas nem estes nem o seu pai-lobo e velho líder da alcateia conseguem salvá-lo de ser rejeitado pelo Conselho dos Animais. O menino-lobo regressa à aldeia, onde é tratado por «fedelho mendigo» e obrigado a aprender usos e costumes que lhe parecem «inúteis e aborrecidos», sem fazer «a menor ideia das diferenças que as castas estabelecem entre os homens». Contrariando a moral repressiva do sécculo XIX, Kipling adopta claramente o ponto vista da criança perdida entre as leis dos adultos, o que é louvável. Condenado a viver a sua dualidade animal e humana, Mogli canta: «Ambas estas coisas dentro de mim combatem, como as cobras lutam na primavera. Corre-me água dos olhos, embora, ao mesmo tempo, eu ria. Porquê?» Elaborada mas fluente, viva nos diálogos, sempre reflectida, nesta prosa se refletem muitas das questões ecológicas, políticas e filosóficas que estão na ordem do dia. O Livro da Selva e O Segundo Livro da Selva foram publicados, respectivamente, em 1894 e 1895. A reedição é da Relógio d'Água.
sábado, 18 de junho de 2016
HOJE, NA PAPA-LIVROS
Hoje é sábado, o dia da semana mais animado na Rua Miguel Bombarda - e não só pelas inaugurações nas galerias de arte. Na livraria Papa-Livros revela-se O Homem da Mala, recente edição da La Fragatina com texto de Adélia Carvalho e ilustrações de João Vaz de Carvalho. Ainda não sabemos o que está lá dentro. Às 16h30.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
TERTÚLIA: CORAÇÃO, CABEÇA E MÃOS
Um bom livro para crianças é também um bom
livro para adultos. Não é preciso que tenha muitas palavras, importa que essas
palavras tenham significado. Que façam diferença, mas para melhor.
Um bom livro para crianças contém valores
humanistas, universais e intemporais. Fala dos «temas difíceis». Está em
sintonia com o seu tempo. É progressista, muitas vezes. Revela a marca do autor
ou dos autores. É por isso que um bom livro tem uma linguagem verbal cuidada,
abrindo para o literário, com várias possibilidades de interpretação. Tem ritmo
e musicalidade na leitura em voz alta. Tem ilustrações criativas e adequadas ao
texto, acrescentando-lhe algo mais. Põe cuidado no design gráfico, formato e
edição.
Essencialmente, um bom livro para crianças tem pensamento e tem alma. É um livro que questiona. Que permite refletir, rir e chorar. É um livro com coração, cabeça e mãos. Tudo o que é preciso.
Os livros para crianças vão ser o tema da próxima tertúlia do espaço Anagrama. Pais, professores, educadores e todos os que se interessam estão convidados a aparecer e a trazer dúvidas, ideias e inquietações para a conversa. Lá estarei para moderar (na medida do possível...). Das 18h00 às 20h00, na próxima quinta-feira, 23 de Junho.
Morada: Av. de Berlim, 35, Loja C. Tel. 211 966 088.
quarta-feira, 15 de junho de 2016
IRMÃO LOBO NO KING'S COLLEGE
O Irmão Lobo esteve na exposição do King's College, em Londres. Parabéns, António Jorge Gonçalves!
«Aqui ficam algumas imagens da exposição Playground for Words, que esteve patente no Kings College, University of London, entre 5 e 6 de Maio de 2016. Com a colaboração da Embaixada Portuguesa e do Departamento de estudos de português e Espanhol, Humanidades, Kings College. Com a participação de Bernardo Carvalho, Afonso Cruz, João Fazenda, António Jorge Gonçalves, Yara Kono, Madalena Matoso, Madalena Moniz, Marta Madureira, e Catarina Sobral. Com o apoio das editoras: Editorial Acaminho, Orfeu Negro, Pato Lógico, Planeta Tangerina, e Tcharan.»
(Informação retirada do blogue da livraria Miúda - Children's Books in Portuguese. Cortesia de Gabriela Ruivo Trindade.)
quinta-feira, 9 de junho de 2016
PARA O ANO HÁ MAIS
«Onde moram as casas? Moram em vilas? Em cidades?
Perguntou a Laura. Perguntou à mãe e ao pai mas ninguém lhe soube responder.
Foi pesquisar em livros e na internet e continuava sem encontrar uma resposta,
custava acreditar, ninguém sabia a resposta. Então resolveu perguntar ao
professor que lhe disse que as casas moravam no mundo inteiro.» (Sara, 3º- C,
EB Agualva 2, Cacém)
Com o programa «Os escritores vão às escolas», organizado pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra em articulação com a APE - Associação Portuguesa de Escritores, terminaram as visitas neste ano lectivo que chega ao fim. Para quem passa o dia fechado em casa, a ler e a escrever, fazer novos leitores é tão vital como respirar. Foi um ano cheio de partilhas bonitas e gratificantes, sem exceção. Muito obrigada aos professores e alunos das escolas que tão bem me acolheram:
- EB1 de Sabugo e Vale de Lobos (concelho de Sintra)
- EB1/JI de S. Marcos nº 1 (concelho de Sintra)
- EB Agualva 2 (concelho de Sintra)
- EB 2,3 de Aranguez (Setúbal)
- EB nº2 da Feira (Santa Maria da Feira)
- Agrupamento de Escolas do Búzio (Vale de Cambra)
- EB 2/3 Carolina
Beatriz Ângelo (Guarda)
- ES/3 da Sé (Guarda)
- EB 2/3 São Miguel
(Guarda)
- Agrupamentos de Nelas, Canas de Senhorim e Carregal do Sal
- Centro de Estudos de Fátima
- Grande Colégio Universal (Porto)
quarta-feira, 8 de junho de 2016
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, 2
«Quais são as vantagens e desvantagens de trabalhar num grande grupo
editorial [Leya]? Imagino que haja constrangimentos.
Sim, eu tinha trabalhado
vários anos numa editora e até aí não tinha de apresentar objetivos, fazer
planos: se ganhasse mais ali, podia ganhar um prémio.
Isso hoje é…
É básico, pois é. Mas na
altura foi uma dificuldade porque não estava habituada a dizer quanto é que vou
vender este ano e se não vender o que é que me acontece. Eu não sabia nada
disto e tive de aprender, como é óbvio. Mas também acho que faz falta uma certa
coordenação. Não se podem lançar livros sem pensar. É preciso perceber se há
público, ver as tiragens, não se pode fazer as coisas de qualquer maneira. Tive
de me habituar a isso. Também tive de me habituar a outra coisa, essa bem mais
difícil, que é a de ter acima de nós pessoas que não gostam de ler, pessoas que
não percebem o que é um livro. Isso é dramático.
Essa era uma das coisas que lhe queria perguntar: se alguma vez sentiu
que as suas decisões dependem de pessoas sem qualquer sensibilidade literária.
Sim, sim, muitas vezes. E
não é só sensibilidade literária. Falo por exemplo de pessoas formatadas
politicamente. Imaginemos: uma pessoa que é de direita e que diz que não se
publica nada que seja de esquerda. Aconteceu-me eu falar de alhos e a pessoa
responder de bugalhos. Aconteceu-me mostrar uma capa, a pessoa perguntar-me de
onde é que era a fotografia, eu dizer que era do Arquivo da Biblioteca do Congresso
e a pessoa perguntar: «Congresso de quê?» Ao longo do tempo aconteceram-me as
coisas mais irreais com pessoas que supostamente são as que mandam em nós. Mas
também percebi que nós temos de ser os primeiros a conseguir vender o livro. Se
eu conseguir explicar a uma pessoa, mesmo que não seja leitora, a importância
daquele livro, porque é que deve ser publicado, acho que chegamos lá.
Aconteceu-lhe querer publicar determinado livro e ele não ter sido
publicado por causa dessas questões, de alguém decidir que não publica porque o
livro não vai vender?
Não quero dizer que sou melhor
do que outras pessoas, mas isso nunca me aconteceu porque acho que sou boa
vendedora. Pode acontecer é eu própria já não ter uma confiança por aí além
naquele livro e então nem sequer o apresentar. Agora se eu achar que o livro
tem condições para ter boas críticas, mesmo que não tenha vendas muito altas, e
para fazer daquele autor alguém no futuro, eu vou e bato-me por aquilo.»
[Maria do Rosário Pedreira, in LER nº 142. Entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral, com fotografia de Pedro Loureiro. A imagem deste post foi retirada do Citador, onde se encontram quatro poemas de MRP.]
terça-feira, 7 de junho de 2016
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, 1
«Ter usado a poesia como uma forma de terapia nesses momentos negros quer dizer que o sofrimento é um bom combustível para a criação?
Para mim é. Tenho poemas que não são absolutamente negativos, mas num momento de exaltação da minha vida estou sempre mais preocupada em viver do que em escrever. No momento de tristeza ou de luto escrevo muito mais. Por isso é que escrevo às revoadas. Escrevo um livro e depois posso estar seis anos sem escrever porque se estivesse sempre a escrever isso significaria que a minha vida era terrível. Quando vêm aqueles leitores que me dizem que não escrevo nada há muito tempo eu penso: "Ainda bem que não escrevo." É bom sinal para a minha vida.»
[Maria do Rosário Pedreira, in LER nº 142. Entrevista conduzida por Bruno Vieira Amaral. Fotografias de Pedro Loureiro.]
quinta-feira, 2 de junho de 2016
O DICIONÁRIO DO MENINO ANDERSEN
«O menino Andersen era um grande inventor e
não andava nada satisfeito com as definições de palavras que lia no dicionário.
Por isso decidiu começar a escrever um dicionário novo, um dicionário que
entusiasmasse os seus amigos.» Ao contrário do senhor Andersen, nascido há 210
anos na Dinamarca, o menino Andersen não sofre de melancolia nem parece
preocupado com a saúde. Por isso, é natural que tenha escolhido palavras que o
entusiasmem, palavras que façam lembrar jogo, movimento e tudo o que sirva para
brincar. Por exemplo, a cadeira: «É o sítio onde as crianças descansam depois
de desarrumar a casa toda. A cadeira também pode ser o sítio onde as crianças
ganham forças para, a seguir, desarrumar a casa toda.»
Há uma coisa que o menino Andersen tem em
comum com o senhor Andersen: a capacidade de se espantar com os objetos e de observá-los
como se fossem gente. Se a toalha é «um objecto que tem sede» (atenção, o
menino Andersen ignora o Novo Acordo Ortográfico), a banheira é «uma piscina
egoísta porque só dá para uma ou duas crianças». No seu tempo, o senhor
Andersen escreveu diálogos incríveis entre uma pena e um tinteiro, os vários
dias da semana ou as cinco ervilhas de uma vagem, o que causou algum espanto.
Pensava-se então que só os piratas, reis e princesas é que tinham direito à vida,
e nem sequer a uma especial vida interior.
Apesar de tímido, o senhor Andersen foi um viajante:
só na Europa, fez perto de trinta viagens, incluindo a Portugal. O menino
Andersen também é um grande viajante, mas não precisa de sair do sítio: basta
mudar de perspectiva ou tentar ver as coisas do avesso. Evita o comando da
televisão: «É uma máquina que impede que te levantes», explica ele. «Quando
carregas nos botões, ficas imobilizado.» O senhor Andersen não tinha esse
problema da televisão, mas era um adulto muito estranho. Talvez o menino
Andersen lhe quisesse contar a sua definição de rir: «Rir é dizer muito rápido
algumas palavras. Rir é uma língua como o português, o espanhol ou o chinês.»
Como seria rir em dinamarquês do século XIX?
O
Dicionário do Menino Andersen
Gonçalo M. Tavares
Madalena Matoso (ilust.)
Planeta Tangerina
(Texto publicado na revista LER nº 141)
terça-feira, 31 de maio de 2016
O SR. TIGRE TORNA-SE SELVAGEM
Sempre harmonioso, o trabalho de composição e
cor de Peter Brown joga-se em contraste com as subtis mensagens subversivas.
Depois do anterior A Minha Professora é
um Monstro! (Não Sou, Não) e O Jardim
Curioso (Caminho), também este livro nos faz sorrir e pensar.
O Sr.
Tigre Torna-se Selvagem
Peter Brown
Orfeu Negro
domingo, 29 de maio de 2016
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 24
«As pernas das mulheres estão escancaradas, por isso trauteio. Os homens começam a irritar-se, mas sabem que é tudo por eles. Descontraem-se. Mantenho-me de lado, incapaz de fazer alguma coisa para além de observar, é uma provação, mas não digo uma palavra. De qualquer maneira, a minha natureza é de estilo silencioso. Quando criança consideravam-me respeitadora; quando jovem chamavam-me discreta. Mais tarde, pensavam que tinha a sabedoria que só a maturidade traz. Hoje em dia o silêncio é visto como algo de estranho, e grande parte da minha raça esqueceu a beleza de dizer muito ao falar pouco.»
Toni Morrison, Love, ed. Dom Quixote, 2009, tradução de Maria João Freire de Andrade. Originalmente publicado em 2003.
sexta-feira, 27 de maio de 2016
O URSO QUE NÃO ERA
Um urso sai de hibernação e descobre uma fábrica instalada em cima da gruta. Mais do que a crítica ao modelo de racionalização do trabalho, esta é uma fábula de contornos kafkianos sobre quem somos e o lugar que ocupamos no mundo. Do norte-americano Frank Tashlin, O Urso que Não Era foi originalmente publicado em 1946 e é a mais recente edição da Bruaá.
quinta-feira, 26 de maio de 2016
A MINHA FADA ORIANA
Um minuto e meio para falar de um dos livros da minha vida: A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais um testemunho incluído na série «Ler para Crer», iniciativa da biblioteca da Fundação Lapa do Lobo.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
domingo, 22 de maio de 2016
UM LUGAR SEGURO
Soube recentemente do triste caso de um/a professor/a bibliotecário/a que se vê em palpos de aranha para conseguir trazer um escritor à sua escola, inserida num agrupamento com largas centenas de alunos e numa região economicamente «não deprimida». Motivo: os/as colegas boicotam qualquer iniciativa deste género, alegando não ter tempo nem disponibilidade para preparar a visita. Dito de forma mais simples: não estão para se chatear. Eu compreendo. Há escritores que também não estão para se chatear com visitas a escolas. Feitas as contas, talvez a proporção entre os que dão «negas» de parte a parte seja equilibrada. O problema é que, neste caso, menos por menos não dá mais e quem se lixa é o mexilhão. Talvez seja o meu romantismo a falar, mas quando conheço crianças que ainda têm uma imagem idealizada do escritor (percebe-se pelo tipo de perguntas que fazem), parece-me que há aqui um capital afectivo e simbólico a explorar no que toca à formação de novos leitores.
Dez anos depois de começar a ser convidada a visitar escolas, na sequência da publicação do meu primeiro livro (O gato e a Rainha Só, Caminho, 2005), constato que o sucesso e os riscos deste tipo de actividade são difíceis de calcular. Nesta matéria, faço parte do núcleo dos «positivistas de serviço». Na maior parte das vezes, as coisas correm bem ou muito bem: há curiosidade e entusiasmo, há comunicação, há criatividade, há cortesia, há livros para autografar. Outras vezes, a indiferença e até hostilidade dos professores é tão notória que convém ter poker face para conduzir uma sessão até ao fim. Como às vezes peco por não ter poker face, quando percebo que as coisas vão dar para o torto procuro concentrar-me nas crianças e num providencial espírito de missão que evite a catástrofe. Não é a sensação de tempo perdido que me angustia, mas a da exposição pessoal, quando inútil e confrangedora. Lembro-me de uma vez ter caído de pára-quedas no meio de uma turma do 9º ano e de pensar: «Tenho dez segundos para os agarrar ou isto vai ser um suplício.» Escapei por pouco, mas sempre se sai com algumas sequelas.
Às vezes levo a minha «mala de tesouros» (falei dela neste post), mas só na altura é que sei se a vou abrir ou não. Porque isto de mostrarmos de que massa somos feitos tem que se lhe diga e requer intimidade, silêncio, atenção, empatia, curiosidade. Naquele momento, são as crianças que me estão a ler e a «mala de tesouros» é um instrumento de mediação leitora, ao ligar a pessoa aos livros e à escritora.
A semana passada, no âmbito do programa «Os escritores vão às escolas», uma ideia da Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra em articulação com a APE, estive na E.B./J.I de S. Marcos nº1. É uma escola do concelho de Sintra onde a vista para a serra ilude, durante algum tempo, a paisagem descarnada dos prédios sem árvores à volta. Olha-se com mais cuidado e percebe-se que muitas daquelas crianças não terão uma vida fácil. «A escola é o lugar onde elas se sentem seguras», disse-me depois o director, que também esteve presente na sessão. Éramos poucos, só uma turma do 4º ano, mas havia bastantes pais a assistir, e que a escola tenha conseguido esse envolvimento parece-me extraordinário nos tempos (desinteressados) que correm.
Os miúdos mostraram o que tinham feito à volta do Onde Moram as Casas e do Não Quero Usar Óculos. Além da criatividade, é de salientar a autonomia com que as professoras os deixaram conduzir a sessão. Via-se que estavam contentes e orgulhosos (os pais também). No fim das perguntas, abri a mala e mostrei alguns dos objectos que estavam lá dentro. Desafiei-os a fazerem o mesmo, para um dia terem também tesouros para partilhar. Quando fechei a mala e saí daquele lugar seguro, sem dúvida que levava mais coisas lá dentro. Foi uma das visitas mais bonitas a que já tive direito. Muito obrigada a todos.
sábado, 21 de maio de 2016
CHEGOU A DONINHA TERNURENTA
Hoje é o nascimento oficial da Doninha Ternurenta, um novo espaço dedicado aos livros e à literatura para os mais novos. Fica em Ovar, no (já existente) Espaço entre Artes, e promete ter livros seleccionados com bom senso e bom gosto. Boa sorte, muita gente e prosperidade é o que desejamos à Doninha!
quinta-feira, 19 de maio de 2016
CAMINHOS DE LEITURA 2016
terça-feira, 17 de maio de 2016
MAIS COISAS BOAS QUE AÍ VÊM
Começa no próximo sábado e vai durar uma semana. É a segunda edição do evento Gigantes Invisíveis, uma iniciativa da associação Imaginar do Gigante em parceria com a Câmara Municipal de Ovar. Uma semana para explorar as muitas ligações entre os livros para os mais novos e outros meios de expressão, das artes plásticas e performativas às conversas e oficinas criativas. André Letria, Teresa Cortez, Adélia Carvalho e Anabela Dias vão estar presentes no Parque Ambiental do Buçaquinho, em Esmoriz/Cortegaça (Ovar), e os dias mais «fortes» para o público em geral, adultos e crianças, são 21 e 28 de Maio. Durante a semana realizam-se oficinas educativas para escolas e, mais tarde, o evento terá uma extensão em Timor Leste e na Guiné Bissau. Parabéns pela persistência!
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