domingo, 20 de junho de 2010

O TIGRE NÃO MORREU


Desculpem, mas não é todos os dias que a nossa colecção de cromos preferida – do longínquo ano de 1976 – se revela em todo o seu esplendor na última página de uma revista. Reduzir o herói a uns escassos 1800 caracteres é que é quase imperdoável:

"Por uma nota de vinte escudos, a extinta distribuidora Regimprensa fez chegar às mãos dos fãs uma das cadernetas de cromos mais procuradas de sempre. Para quem se tinha habituado a seguir a série de televisão na RTP, descobrir um Sandokan a cores causou alguma estranheza, mas a bandeira vermelha do Tigre de Mompracem estava de acordo com o air du temps. Herói revolucionário, incansável na luta contra a opressão e a injustiça, Sandokan representa o espírito romântico da pirataria, o fora-da-lei secretamente admirado pelo inimigo: «Quem sabe se eu não tivesse nascido com a pele branca, talvez pertencesse àquele lado…”, diz Lord James Brooke, no cromo 288, ao ver o pirata da Malásia fugir-lhe por entre os dedos. E conclui, com a lucidez dos derrotados: «Mas agora é demasiado tarde.»
No mundo de Emilio Salgari, nem os bons são incorruptíveis nem os maus são sempre odiosos. Lord Brooke mostra-se «um homem sem escrúpulos, mas com o sentido da honra». Koa, um dos fiéis a Sandokan, conspira com os ingleses numa armadilha, mas suicida-se por não poder «resistir à vergonha da sua traição». Lord Guillonk, tio da bela Marianne, a pérola de Labuan, «é um homem frio mas com uma afeição muito grande pela sobrinha». E o Capitão Fitzgerald, que lhe move uma corte diplomática e insistente, é morto «à sombra de uma enorme árvore, gloriosamente, como um militar teria desejado.»
Porém, ninguém se compara à figura de Ianes, o braço-direito de Sandokan, um gentleman de bigode e cigarrilha cuja aparente fleuma não desmerece as origens: «Português, de origem nobre, atravessou meio mundo antes de alcançar Mompracem e de se tornar no melhor amigo de Sandokan. Aventureiro temido, com um passado misterioso, leal, generoso, está sempre pronto para a aventura e sempre com o sorriso nos lábios.»
Ainda se fazem cromos assim?"

(Publicado na Notícias Magazine de hoje, junto com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Para quem quiser rever imagens da série e trautear a música do genérico em italiano, aqui fica o registo da canção de Claudio Baglioni no You Tube. Todos em coro: “Sandokan Sandokan / giallo il sole la forza mi dà / Sandokan Sandokan / dammi forza ogni giorno ogni notte coraggio verrà / Sandokan Sandokan ...)