sexta-feira, 16 de março de 2018

SETE PISTAS PARA EXPLORAR O ÁLBUM



Por terem pouco texto e pedirem um certo tipo de leitura em que as imagens são fundamentais, os álbuns ainda são vistos com alguma desconfiança por pais e professores. E no entanto, os especialistas consideram-nos imprescindíveis à educação literária e estética das crianças que começam a fase escolar. Uma leitura partilhada deste género de livros ajuda-as a pararem e põe-nas em contacto com emoções fundamentais. Não se esqueça: mais do que ser elogiada, a criança quer ser conhecida pelo adulto e valorizada nas suas opiniões e na sua originalidade.

(O texto completo que escrevi para o espaço Pais & Alunos pode ser lido aqui.)

quinta-feira, 15 de março de 2018

SETE DICAS DE LEITURA PARA O PRÉ-ESCOLAR



4. Uma criança não é um quadro em branco.
Na obra The Secret Spiritual World of Children (O Mundo Espiritual Secreto das Crianças, não traduzido em português), o autor, Tobin Hart, psicólogo e professor universitário de Psicologia, afirma: «O desafio para os pais, educadores e amigos passa por aprender a respeitar e a trabalhar com o que a criança já conhece, em vez de assumir que está a escrever sobre um quadro em branco.» A desvalorização do mundo interior da criança e, pior do que isso, a repressão das suas fantasias pelo adulto são um veneno para o ser humano. Nesse caso, os livros podem constituir um refúgio e um consolo. 

(O texto completo que escrevi para o espaço Pais & Alunos pode ser lido aqui.)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

TODAS AS CRIANÇAS CRESCEM, EXCETO UMA


Ler ou reler Peter Pan, hoje, é evocar um direito fundamental das crianças, essencial ao seu desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional: o direito de brincar. Mas brincar livremente, de forma espontânea e sem a orientação dos adultos. Preenchido por múltiplas atividades escolares e extraescolares, por jogos repetitivos em frente a um ecrã, por demasiadas horas passadas em espaços fechados, o tempo livre das crianças também já nos surge como uma espécie de utopia. Se o leitor quer uma expressão realmente contraditória, reflita nesta: «ocupação de tempos livres». A questão é evidente: se o tempo é livre, para quê ocupá-lo?


Peter Pan, obra que celebrizou o escocês James Matthew Barrie (1860-1937), faz parte da mesma família literária em que se encontram a Terra Média de J.R.R. Tolkien, o Mundo de Oz de L. Frank Baum, a Nárnia de C.S. Lewis ou, como já dissemos, o País das Maravilhas de Lewis Carroll. São lugares imaginados até ao pormenor e dotados de vida própria; lugares que, pela sua riqueza simbólica, se tornam absolutamente reais na cabeça do leitor. Representam uma possibilidade de evasão, um jogo interminável, uma aventura com a sua dose de risco. Quem acha que Peter Pan é uma brincadeira de crianças, sabe apenas uma pequena parte da história. 


(Excerto do prefácio que escrevi para Peter Pan, recentemente reeditado pela Fábula, uma chancela da 20|20. A tradução é de José Manuel Lopes.)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ENCONTROS COM A MINHA ALMA GÉMEA, 4



RELIGAÇÕES

Tenho um cinto de couro que comprei há anos, e tenciono usá-lo até que se gaste e morra de morte natural. Tenho um único cinto; tal como só tenho um par de óculos de sol, um relógio (que não uso), uma gabardine, um guarda-chuva, uma carteira, uma mochila, umas havaianas, um cartão de telemóvel e um carregador de bateria. Não vejo necessidade de acumular acessórios de difícil arrumação e utilidade duvidosa. A ideia de «ir às compras» aborrece-me. Se quiserem torturar-me, convidem-me a passear num centro comercial, em demanda de roupas ou sapatos, e peçam-me opinião sobre a matéria. Em menos de cinco minutos, simularei um ataque de hipoglicemia e sairei da terceira loja com ar desvairado.

No último inverno, a presilha soltou-se. Deixei a coisa andar, até que o cinto se começou a parecer com a orelha caída de um basset hound, e achei por bem impor limites à minha preguiça. Procurei um sapateiro e perguntei-lhe se o paciente tinha conserto. O homem, já velhote, disse que sim, que não era grave. Pegou em agulha e linha e pôs-se a coser a presilha, cheio de paciência e vagar.

Fazia frio. Começámos a falar sobre comida, para aquecer a alma. Ele contou-me do bife que dava para quatro pessoas, e que a mãe dele desfiava num arroz malandrinho, apaladado com salsa picada e cenoura às rodelas. Eu contei-lhe do rancho que se fazia em casa da minha avó materna, um rancho como nunca mais provei, com bofes e tudo. Então, ele levantou os olhos e perguntou: 

— A menina é do norte?
— Sou. Como é que sabe? Não tenho sotaque.
— É que só lá é que se diz «bofes»...
— ... e se tratam as senhoras por «menina».

Continuámos a conversa, agora estreitada por laços geográficos. Ao nosso lado, as pessoas entravam e saíam, na voracidade das manhãs urbanas, inquirindo os preços das palmilhas, duplicados de chaves, tacões e meias-solas. Aconcheguei-me no conforto de uma certa invisibilidade temporária.

Quando acabou o trabalho, entregou-me o cinto: «Está pronto.» Não aceitou dinheiro. Insisti, sem sucesso. Despedimo-nos com um sorriso, desejei-lhe um bom dia e agradeci-lhe outra vez.

Saí para a rua e atirei-me ao frio como gato a bofe, corajosamente. Tenho a certeza de que o resto do dia me correu bem. Sentia-me animada, grata, ligada ao mundo por um encontro generoso. Registei tudo no meu caderninho preto, cujo título é: «Primeiro a bota, depois a meia» (um dia, também vos conto esta história).

O cinto ainda vai durar mais uns anos, aposto. A memória deste encontro durará muito mais. Não é uma opinião, é um sentimento. 


(Texto publicado em 15/9/2017 no blogue Delito de Opinião, a convite de Pedro Correia. Mais crónicas da série «Encontros com a minha alma gémea aqui, aqui e aqui.)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

BEST OF OSCAR WILDE



«O atual tratamento das crianças é terrível, sobretudo por pessoas que não compreendem a psicologia peculiar da natureza da criança. A criança pode entender um castigo infligido por um indivíduo, como um pai ou um educador, mas não consegue entender um castigo imposto pela sociedade. Não consegue perceber o que é a sociedade.» (Oscar Wilde)



Num mundo onde as crianças já não têm só medo do escuro, de aranhas ou de fantasmas, mas passaram também a recear a guerra e os ataques terroristas, estas palavras são de uma profunda atualidade. Estamos todos – e não só as crianças – com dificuldade em «perceber o que é a sociedade». Ler estes contos talvez ajude os leitores mais jovens a compreender valores essenciais que os adultos não sabem ou não têm tempo para explicar. Valores como a amizade, a solidariedade, a coragem, a justiça e a bondade. Depois, há o lado lúdico da leitura que nos remete para o humor inimitável de Wilde – e nos recorda que os grandes leitores raramente são pessoas aborrecidas. Mais: que podem tornar-se grandes contadores de histórias. Para ajudar uma criança a não ser um adulto aborrecido, é importante dar-lhe bons livros a ler e encorajá-la a contar histórias que tragam significado para si e para os outros. Não é uma receita, é um projeto de vida. Plenos de sabedoria e graça, os contos de Oscar Wilde são indispensáveis na construção desse projeto. 

(Contos Escolhidos, Oscar Wilde, ed. Fábula, Setembro de 2017. Tradução e prefácio de Carla Maia de Almeida.)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OS LIVROS, OS LOBOS E OS MEDOS



Há algum livro, entre os doze que já editou, pelo qual sinta uma predileção especial? Parece-me que estou a perguntar à mãe qual o filho de que mais gosta, mas pronto… Fale-nos de três.
Mas há, claro que há. O livro do qual ainda não me desvinculei é o Irmão Lobo. Continua a viver em mim, tanto que me pede uma continuação. E vai acontecer. Eu nunca forço nada na escrita; não ando à procura de ideias mas mantenho-me atenta e disponível. E se as ideias ficam lá, durante algum tempo, dou-lhes atenção. Se elas se evaporam, deixo de pensar nisso. O Irmão Lobo foi importante porque me fez sair de uma zona de conforto; pode ser uma banalidade dizer isto, mas foi assim. Ao escrever, pela primeira vez, um livro para adolescentes e adultos, desviei-me do meu registo habitual, o álbum para crianças. O Irmão Lobo está dentro de mim e continuará a correr ao meu lado.
E sente esse retorno?
Um dos maiores retornos é saber que o livro foi traduzido na Colômbia, no México, na Alemanha, na Sérvia, em Itália. Este circular de um livro pelo mundo é muito bom, muito gratificante. Tal como dar conta de que a sua autenticidade atingiu o leitor.
E o segundo?
Também gosto muito do Onde Moram as Casas. Dos meus álbuns, é um dos mais arriscados. Apesar de a ilustração ser bastante figurativa, entendo ser uma proposta diferente.
Por não ter personagens?
Sim. As casas são as personagens e isso, só por si, torna-o original, creio eu. Mas recordo sempre o momento em que o terminei e o entreguei ao meu antigo editor na Caminho – o José Oliveira, uma pessoa marcante no meu percurso inicial – e notei que a primeira reação dele ao texto foi de estranheza. Eu estava segura da minha originalidade e, quando o ouvi dizer que talvez não fosse para crianças, fiquei desolada! Porque ao lado do escritor caminha sempre esta sombra do fracasso, da dúvida, da possibilidade concreta de morrer na pobreza… (risos) Não se ria, é verdade…
É um riso incongruente, por entender que é uma possibilidade bem real…
É o nosso medo mais atávico. Temos muitos exemplos ao longo da história. Herman Melville morreu sem ser reconhecido, e, noutro extremo, Truman Capote foi esmagado pelo sucesso de A Sangue Frio. Escrever exige-nos uma grande exposição, um abrir de entranhas, um caminhar numa linha muito ténue entre o poder e a extrema vulnerabilidade. O poder de tocar os outros e a vulnerabilidade de nos derrotarmos. Esta profissão é de uma tremenda imprevisibilidade. E precisamos de lidar com isso todos os dias.

(Excerto da entrevista à revista Focus Social, conduzida por Marta Vaz. Fotografia de Egídio Santos, na praia de Matosinhos. Pode ser lida na íntegra aqui.)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ONDE MORAM OS PESCADORES


«Aqui vive um pescador», lê-se, junto ao portão desta moradia que bem podia ter entrado no Onde Moram as Casas, desenhada pelo Alexandre Esgaio. Fica no Bairro da Encarnação, em Lisboa, e é mesmo uma delícia para os sentidos.

sábado, 9 de setembro de 2017

UMA CRIANÇA PERGUNTOU


Uma criança perguntou O que é a erva? trazendo-ma nas suas mãos cheias;
Como poderia responder-lhe? eu que não sei mais do que ela?

Talvez seja a bandeira da minha índole, de matéria verde tecida.

Ou talvez seja o lenço do Senhor,
Uma perfumada prenda, uma lembrança que intencionalmente cai,
Com o nome do seu dono num dos cantos, para que ao vê-lo perguntemos De quem é?

Ou talvez a própria erva seja uma criança, um filho da vegetação.

(...)

in Canto de Mim Mesmo, de Walt Whitman, ed. Assírio e Alvim, 1992. Tradução de José Agostinho Baptista. Na foto: W.W. com os dois filhos da família Johnston.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A IMAGINAÇÃO É A LINGUAGEM DO ESPÍRITO


«As crianças vivem num mundo espiritual secreto e possuem capacidades e experiências espirituais, momentos profundos que moldam as suas vidas de maneira indelével. Essas experiências fortíssimas (e, com frequência, amorosas) evidenciam a existência de um importante domínio espiritual que, até à data, nos passou despercebido. Essas experiências - que vão do assombro até ao encontro com a sabedoria interior, da formulação das grandes perguntas sobre a vida até à expressão da compaixão e, inclusivamente, da busca além das aparências - constituem, em suma, os alicerces sobre os quais assenta a nossa vida, como seres espirituais deste planeta. Nas páginas seguintes, mostraremos algo desse mundo secreto que se esconde nas nossas casas, nas nossas aulas e, quem sabe, também na nossa própria infância.»

(Da introdução ao livro El Mundo Espiritual Secreto de los Niños, de Tobin Hart, psicólogo e professor de psicologia na State University of West Georgia. Originalmente publicado nos EUA, em 2003, e traduzido pela Edicciones La Llave. O excerto acima é uma tradução minha a partir do espanhol.)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

LENDO, É TIPO MUITAS COISAS QUE 'TÁ SAINDO DA SUA CABEÇA, SEM PARAR



«"Para gostar de Ler" é o título de um documentário lindo de cerca de uma hora acerca da importância da leitura para o desenvolvimento da criança. Estreou no Brasil  há poucos dias integrado na campanha "Leia para uma criança", do Programa Itaú Criança  promovida pelo banco brasileiro desde 2010. Outra das iniciativas desta instituição bancária em prol da leitura tem sido a distribuição gratuita de livros, num total de 45 milhões até hoje.

Neste documentário, as histórias de cinco famílias leitoras são entrelaçadas com os comentários de especialistas, pedagogos e autores, demonstrando, na prática e na teoria, a importância dos vínculos familiares na criação de hábitos de leitura. Este é um dos aspetos fundamentais do meu trabalho enquanto mediadora da leitura e que tenho vindo a desenvolver desde 2012. Neste ano letivo estão já agendadas 3 sessões (para pais e profissionais do Pré-Escolar, 1º Ciclo e 2º CEB)  acerca da Importância da Leitura na BE da EB1 de Vila Nova de Santo André. Falaremos certamente deste documentário.»

Via Paula Jacinto Cusati, mediadora de leitura e formadora acreditada na área da Promoção da Leitura.

domingo, 23 de julho de 2017

VERÃO KODACHROME


Alfeizerão, 1978. Não sei quem tirou esta fotografia na aldeia onde nasceu o meu Pai. Terras do «oeste selvagem» cuja macieza apenas reconheci no seu afamado pão-de-ló. Não tenho uma data certa, mas talvez tenha sido na Primavera e ainda fizesse frio, porque estamos todos vestidos de camisolas de gola alta e calças de fazenda, uma violência estranha às actuais crianças da fofinha geração Zippy. O que mais me comove na imagem, além do cheiro a campo que se intromete pelos fingimentos da memória, é esta evidente ausência de encenação para a objectiva. Ninguém quis saber de ninguém, ainda que haja uma coerência implícita. Mas parecemos um punhado de moedas atiradas ao ar, caídas no mesmo sítio, ao acaso, à sorte, ao azar. O meu primo Carlitos, "o ruço", a segurar a bicicleta, lembra-me uma personagem seráfica de um filme de Luchino Visconti. A seguir, vestido de camisola azul-marinho e emblema vermelho, o Fernando Pedro ergue o punho no ar como se levantasse as canções esquerdistas da época: Bella Ciao, Nicaraguita, Bandera Rossa e outras que tais. Os minorcas na linha da frente - respectivamente, o meu primo Pedro e minha mana mais nova -, ele ajoelhado e ela segurando um ramo de flores silvestres, parecem saídos de um romanceiro para crianças (je ne sai pas quoi dire, c'est si beau). Intencionalmente, deponho flores amarelas sobre a careca do nosso Pai, qual fã de Scott McKenzie e filha de São Francisco e do Verão de 1967. Isto agora podia para dar a lamechice e eu diria: que saudades tenho deste tempo... Mas não. Não. O Verão é agora.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

POSTAIS DE BAMBERG


O Google Photos lembra-me que há um ano estava na pitoresca (adoro esta palavra) cidade de Bamberg, para o último dia da tournée por escolas da Baviera, a convite do Festival White Ravens 2016. A sessão da manhã, na escola de artes E.T.A. Hoffmann, com miúdos de 16/17 anos, motivados e curiosos, foi mesmo a melhor de todas. Na escola seguinte levei um balde de água fria, com os putos a debandarem em grupinhos perante a passividade dos professores. Tive ser eu a pôr os pontos nos "is". Isto é só para não pensarem que lá fora é que é.

terça-feira, 18 de julho de 2017

QUANDO FOMOS MONSTROS


Foi assim a nossa Oficina de Férias no espaço Anagrama, onde durante uma semana provocámos a libertação dos nossos pequenos monstros, em parceria criativa. A Marta Alves, formada em arquitectura, deu aos miúdos ferramentas de ilustração e design gráfico; eu levei alguns livros e ajudei-os a construir uma história à volta de um tema sempre frutífero: os monstros. Nem todos são feios nem assustadores; alguns têm asas e fazem bem às pessoas. Os miúdos, todos à volta dos dez anos, estavam altamente motivados e chegaram a não querer ir brincar para a rua só para continuarem o que estavam a fazer. Inédito! Não se inscreveram por imposição dos pais (importante), trabalharam sempre e com muito entusiasmo. Cansaram-se mais com a parte da planificação, o esboçar e o "passar a limpo", mas isso é normal (também eu me canso...). Inventaram histórias diferentes, imaginativas, tristes, engraçadas, e todas elas cheias de significado pessoal. No fim, levaram um livro artesanal para casa. Esta semana paramos, mas de 24 a 28 de Julho teremos outra oficina de verão: «Zen Criativo». Saiba mais aqui.

CONTADEIRAS DE HISTÓRIAS EM ÓBIDOS


Encontram-se nas livrarias e lojas «especiais», um pouco por todo o lado. As Contadeiras de Histórias, um projecto criativo que envolve pequenas figuras feitas à mão em microcenários e micronarrativas, está em exposição na Casa Romântica - Galeria de Arte, com os originais do livro, ilustrações e peças de artesanato, ilustrações originais. Bom pretexto para um passeio a Óbidos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 31


«Sou constantemente assaltado por memórias de sítios onde vivi, as casas e os bairros. Por exemplo, há um prédio vermelho de arenito, nas East Seventies, onde, no princípio da guerra, aluguei o meu primeiro apartamento em Nova Iorque. Era uma assoalhada atravancada de mobílias de sótão, um sofá e grandes cadeiras estofadas daquele veludo vermelho desbotado tão característico, que geralmente se associa aos dias de calor dentro de um comboio. As paredes eram de estuque, de uma cor de seiva de tabaco. Por toda a parte, até na casa de banho, havia gravuras de ruínas romanas acastanhadas pelo tempo. A única janela dava para uma escada de incêndio. Mesmo assim, ficava bastante eufórico quando sentia no bolso a chave para aquele apartamento tão esconso e sombrio; não deixava de ser um sítio meu, o primeiro, e tinha lá os meus livros e colecções de lápis por afiar, tudo o que precisava, julgava eu, para me tornar o escritor que queria ser.»

Truman Capote, Breakfast at Tiffany's (Boneca de Luxo), ed. Dom Quixote, 2009. Tradução de Margarida Vale de Gato. Originalmente publicado em 1958.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

ROBIN HYDE, JOAN OF ARC


Não conheço nenhuma tradução para português desta mulher invulgar que escolheu o nome literário de Robin Hyde, evasivo e misterioso como os seus poemas. Nasceu em Cape Town, na África do Sul, em 1906, mas viajou com os pais para a Nova Zelândia quando tinha apenas um mês. Viveu sempre no limiar da sobrevivência, como jornalista e escritora, numa época e num país onde não era fácil ser mulher (mas alguma foi?). Interessou-se pelos direitos dos maoris, cujo estatuto de povo colonizado comparava ao do género feminino. Teve um filho que entregou para adopção, por não ter condições mínimas de o manter. Não gozava de boa saúde e acabou por se submeter a tratamento psiquiátrico, no Auckland Mental Hospital. Ironicamente, foi essa oportunidade de ter um quarto que fosse seu (para usar a expressão da sua contemporânea, Virginia Woolf), que lhe permitiu escrever, em quatro anos, sob o encorajamento dos médicos, três romances e dois livros de poesia, além de crónicas e reportagens. Escreveu muito sobre os proscritos da sociedade, numa busca de respostas que reflectia as suas próprias perdas, o seu desamparo e a sua quase indigência material. Os amigos foram o maior apoio, mas não conseguiram evitar o suicídio de Robin Hyde, aos 33 anos, a 23 de Agosto de 1939. A Segunda Guerra Mundial estava prestes a eclodir e ela estava em Londres. Um representante do governo da Nova Zelândia tinha ido buscá-la ao quarto onde morava, nesse mesmo dia, com o intuito de a repatriar. Falhou por umas horas.


Joan of Arc

It is for me to dare, whilst others dream.
Pity, my God, on all bewildered fools
Who must affront grave order, steadfast rules
Mellowed by centuries! How vain and crude
Will seem my tossing torches, in this town
Whose carven saints with quiet eyes gaze down
Into the sliding river. Wise friends above,
Had you but taught God's nobler name is Love.

What if the pity in my heart has wrung
Silence to speech, the semblance of a tongue
Given to meadowsweet, to brook and tree?
What matter? Many faces lift to me
Their ancient loss and evil. Have I choice,
Save to stand firm, and cry, "Thus speak the Voice"?
Some love me, some will mock... for I am young...
I think that they will doom me at the last.
All but the scent of grasses will glide past,
All but the quiver in my tree will cease...
God send, I flung the starved some shred of peace.

(in The Conquerors and Other Poems, originalmente publicado em Londres pela Macmillan, 1935.)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

DO AMOR


«Será o amor uma arte? Se o for, então exige conhecimento e esforço. Ou será o amor uma sensação agradável, que por acaso experimentamos, algo que "nos acontece" se tivermos sorte? Este pequeno livro parte da primeira premissa, embora não haja dúvida de que a maioria das pessoas hoje em dia acredita nesta última.

Não é que as pessoas pensem que o amor não é importante. Elas estão sequiosas de amor; vêem inúmeros filmes sobre histórias de amor felizes e infelizes, ouvem centenas de canções "lamechas" sobre amor - e contudo quase ninguém acredita que é preciso aprender seja o que for sobre o amor.

Esta estranha atitude baseia-se em diversas premissas que, isoladas ou em conjunto, tendem a confirmá-la. A maioria das pessoas encara o problema do amor como sendo uma questão de ser amado, e não de amar, da capacidade de amar. Daí que, para elas, o problema consista em como ser amado, como ser amável. (...)»

Erich Fromm, A Arte de Amar (The Art of Loving), ed. Pergaminho, 2008. Originalmente publicado em 1956. 


quinta-feira, 29 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 30


«É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de fortuna necessita de uma esposa.»

Jane Austen, Orgulho e Preconceito, ed. Presença, 2014, tradução de Ângela Miranda Cardoso com Maria João da Rocha Afonso. Originalmente publicado em 1813. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 29


«Ele estava prestes a entrar na meia-idade e vivia, por essa altura, num bangaló em Woodland Avenue. O verde das ervas rasgava os degraus do alpendre e, mais acima, um ninho de abelhas estava agarrado a um espigão, bem visível. Do olmo, moribundo, pendia uma corda, enlaçada no feitio sinistro de uma forca, e o chão por baixo dela tinha sido tão esfregado pelas inúmeras marcas de botas que estava tão macio como farinha. Jesse instalara-se numa cadeira de baloiço e fumava lentamente o seu charuto, apreciando o ar da noite, enquanto a sua mulher limpava as mãos rosadas ao avental de algodão e se ocupava alegremente dos dois filhos do casal. Sempre que ele caminhava pela casa, trazia consigo vários jornais - o Daily Democrat, de Sedalia, o Gazette, de St. Joseph, e o Times, de Kansas City - e a sua pistola calibre .44, enfiada numa prega de roupa onde coubessem os seus trinta centímetros. Andava sempre com os bolsos atafulhados de lápis sem bicos. Divertia-se a atirar amêndoas aos esquilos. Gostava de entrelaçar dentes-de-leão amarelos no cabelo loiro da sua mulher. Esforçava-se por desenvolver habilidades para viajar para fora do seu corpo e interessava-se por premonições e feiticiaria. Chupava gemas cruas das cascas dos ovos e comia ervas quando estava doente, como um cão. Abria a Bíblia Sagrada sempre do mesmo modo, ou seja, com grande alarido e solenidade.»

Ron Hansen, O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford, ed. Magnólia, 2007, tradução de Amândio Oliveira. Originalmente publicado em 1983.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO, 28


«Foi mau, o inverno de 1933. Avançando penosamente naquela noite por entre labaredas de neve, com os dedos dos pés a arder e as orelhas em chamas, a neve a revolutear à minha volta como um bando de freiras raivosas, parei abruptamente. Chegara a hora de pensar bem. Com bom ou mau tempo, havia certas forças no mundo que se conjugavam para tentar destruir-me.»

John Fante, 1933 Foi um Mau Ano, ed. Alfaguara, 2017, tradução de José Remelhe. Originalmente publicado em 1985.