quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

UMA NOVA EDITORA: BAGS OF BOOKS


Há uma nova (e prometedora) editora portuguesa exclusivamente centrada – pelo menos para já – na publicação de livros para crianças e adolescentes. Chama-se Bags of Books e faz a sua entrada em cena ainda este mês, com um livro ilustrado de Beatrice Alemagna, Depois do Natal. Em 2011, a selecção de escritores e ilustradores mantém-se criteriosa, notando-se um predomínio de nomes latino-americanos: Gabriel Pacheco, Beatrice Rodriguez, Claudio Hochman, Antonio Ventura, Loreto Salinas, Gonzalo Moure e João Vaz de Carvalho. Para abrir o apetite, o catálogo e mais informação já estão no site da editora. Aqui.

Correcção: O primeiro livro editado pela Bags of Books é de Beatrice Alemagna, sim, mas chama-se O Meu Amor. Se tudo correr bem com a distribuição, podem encontrá-lo nas livrarias a partir de amanhã. Quanto a Depois do Natal, sairá em Janeiro, fazendo jus ao título.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

FROM DRAGS TO RAGS


O Pai Natal 2010 do Alex Gozblau é menos drag queen e mais miserável do que o de 2009. A festa acabou e nem sequer estávamos no melhor.

GABRIELA CANAVILHAS E A EXTINÇÃO DA DGLB

JL: Essa integração [da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas com a Biblioteca Nacional] não decorre apenas da necessidade de redução de custos?
GC: A integração e fusão de institutos, de direcções-gerais e de empresas públicas foi uma medida aprovada pelo Governo no plano de contenção da despesa pública para 2011. É uma decisão que envolve todos os ministérios nesse esforço de redução de meios. A nossa preocupação é que não belisque as actividades desenvolvidas pelas instituições que se vão juntar. Do meu ponto de vista, poderá resultar numa nova fase de afirmação de toda a política do livro e da leitura que estava a ser desenvolvida pela DGLB. O dr. Jorge Couto, director da BN, é uma pessoa altamente capacitada para abraçar este projecto. Está a escolher um rosto para o desenvolver no seio da BN.

JL: E quem vai ser?
GC: Ainda não posso revelá-lo. Mas quero garantir que a integração da DGLB na BN e o seu enquadramento estrutural pode potenciar as políticas do livro de uma maneira mais sustentada.

(Excerto da entrevista concedida pela Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao Jornal de Letras, Artes e Ideias, na edição publicada hoje. A questão da DGLB ficou “arrumada” nestas duas perguntas. Parece-me pouco.)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

SIGA A TANGERINA



Estes são dois dos quatro livrinhos que a Planeta Tangerina vai apresentar amanhã, no meio de um apetecível programa de festas que conta com a presença de Andrés Sandoval, ilustrador chileno de Siga a Seta!, e de um passeio pelo Jardim Botânico com Fernando Catarino, o carismático ex-director que ninguém esquece. A festa começa as 16h00, no Museu de História Natural. Está tudo aqui. Que ninguém falte, a não ser, talvez, a chuva.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

FALAR SOBRE O LIVRO ILUSTRADO


Esta semana é um ver-se-te-avias de acontecimentos. Na próxima quinta-feira, no mesmo dia e à mesma hora em que a editora 101 Noites inaugura o Mercado de Natal Alternativo (à Rua de São Paulo, 121, Lisboa), começa uma conferência sobre o livro ilustrado com a escritora Cristina Norton e a ilustradora Danuta Wojciechowska, que debatem a arte de juntar texto e imagem para contar uma história. «Onde e como nasceu a necessidade desta justaposição?», pergunta-se. O público é convidado a entrar e a participar na conversa. Promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, a conferência decorre às 18h30 no auditório da sede dos Serviços Sociais da CML, na Av. Afonso Costa, nº 41 (um edifício castanho e modernaço, junto à rotunda das Olaias).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ANDA CÁ QUE EU JÁ TE CONTO


Não sou especialista em contadores de histórias, mas há uns que me ficarão sempre na memória, como Pep Bruno e Luís Carmelo (mai-la sua concertina). Por isso vou estar na próxima quarta-feira, religiosamente (porque é dia de Imaculada Conceição), na Ler Devagar, para assistir ao segundo número da colecção HOT - Histórias Oralmente Transmissíveis. É uma antologia trilingue (português, espanhol e inglês) de contos e contadores alentejanos, editada em videolivro - o que inclui livro e DVD - pela BOCA. Repetindo: na Ler Devagar, 8 de Dezembro, às 18h30. Toda a informação aqui, no blogue da BOCA.

MAIS KALANDRAKA


Depois de Lisboa (ver post anterior), a Faktoria K de Livros apresenta amanhã no Porto uma das suas mais recentes edições, a Antologia Poética de Florbela Espanca ilustrada por Joana Rêgo. A conversa com a ilustradora será moderada por Emílio Remelhe e haverá leitura de poemas por Adélia Carvalho. Às 21h00, na "nova" Livraria Papa-Livros: Rua Miguel Bombarda, 523.

sábado, 4 de dezembro de 2010

FAKTORIA K DE LIVROS NA LX FACTORY


Parece um jogo de palavras, mas não deixa de ser verdade. A Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka dedicada a um público mais alargado, vai lançar hoje as suas últimas novidades: duas antologias poéticas dedicadas a Bocage e Florbela Espanca, ambas com ilustrações de dois autores "muito" contemporâneos - André da Loba e Joana Rêgo, respectivamente. É hoje, pelas 21h30, na Livraria Ler Devagar, à Lx Factory, em Lisboa. Os ilustradores estarão presentes para falar do seu trabalho e haverá ainda leitura de poemas pelos Contos da Lua Nova. Posteriormente, realizar-se-á uma sessão semelhante no Porto.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O ESCRITOR SEM VIRTUDES


Há quem não perdoe a Roald Dahl por ter vivido. Sejamos mais precisos: há quem não lhe perdoe as tentações donjuanescas, especialmente junto de mulheres casadas, nem o facto de se ter divorciado da actriz Patricia Neal depois de trinta anos conturbados, assumindo o affair com uma mulher mais nova chamada Felicity (os escritores nunca escolhem os nomes por acaso), com quem viveu até ao dia 23 de Novembro de 1990, talvez quase feliz. Roald Dahl, de quem falámos na edição anterior da LER, vinte anos volvidos sobre a sua morte, nunca foi uma figura pacífica, como pessoa e como escritor. Proferiu declarações que lhe valeram a acusação de anti-semitismo; e as feministas dos anos 1970 deleitaram-se a procurar sintomas de misoginia nas entrelinhas dos livros. Se os editores necessitaram de uma paciência de Job para lhe atender as exigências e caprichos, os ilustradores com quem trabalhou – incluindo Quentin Blake, com quem estabeleceu a mais sólida parceria – confrontaram-se com o seu calculismo financeiro, a faceta de homem de negócios que se revelou desde o tempo em que era funcionário da Shell. Chamaram-lhe arrogante, competitivo, narcisista, interesseiro e manipulador – só para citarmos alguns dos epítetos levantados na biografia assinada por Jeremy Treglown. E o que tem isso a ver com a literatura? Rigorosamente nada. A boa literatura dispensa a suposta virtude dos seus autores. Só a dependência histórica entre o sistema educativo e o sistema literário parece criar em algumas mentes vigilantes a ideia de que os escritores de livros para crianças e adolescentes tenham de circular numa espécie de recreio almofadado, onde possam cultivar amorosamente a sua «criança interior» sem correr o risco de amar, destruir e duvidar. Roald Dahl escolheu viver. Quem não vive, acaba a escrever sobre sentimentos de coelhinhos cor-de-rosa, acreditando que está a contar a melhor história do mundo.


(Texto publicado na edição nº 96 da LER, na coluna de opinião "Boca do Lobo", secção "Leituras Miúdas". Na foto, Roald Dahl aquando do seu casamento com a actriz norte-americana Patricia Neal.)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

sábado, 27 de novembro de 2010

A VIDA NÃO É UM MAR DE CHOCAPICS


Para quem faz contas à vida, os cereais do pequeno-almoço tornaram-se um dos terrores do orçamento familiar. Crianças e adolescentes – a quem o tempo da «meia sardinha» soa a nome de restaurante de praia – ingerem-nos com uma voracidade quase orgíaca, como se no fundo da embalagem houvesse uma cornucópia mágica que expelisse chocapics e estrelitas até à náusea. Ainda com a soma do último talão de supermercado plasmado na testa, os pais assistem ao esvair dos ordenados num oceano de flocos crocantes; enquanto à noite, para piorar as coisas, as telenovelas os tentam convencer de que qualquer família portuguesa moderna saboreia papaia importada ao pequeno-almoço.

Ao arrepio destes cenários tirânicos e perdulários, a troco de duas colheres de sopa, a Farinha 33 continua a render tal como no ano que assistiu ao seu heróico aparecimento: 1936. Produzida desde então pela empresa A Moreninha, com sede na Praça da Figueira, em Lisboa, contribuiu para o crescimento saudável de várias gerações – daí a sua designação, evocando o ancestral «diga 33» do escrutínio médico. Afinal, quem não se sente inspirado pelos fortes bíceps do rapaz da embalagem, capaz de quebrar correntes como qualquer Houdini de ginásio suburbano? Infelizmente, estas já mal se vêem, tal como os calções de tamanho micro, a salientar os efeitos fortificantes da farinha. Em seu lugar, estrategicamente colocado, recorta-se o slogan: «Alimento saudável composto só com produtos naturais». Também a Moreninha foi na cantiga do politicamente correcto, mas não podemos querer-lhe mal por isso. Vamos continuar a dizer 33 até que nos doam os bíceps.

(Texto publicado na edição de 3 de Outubro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A CARTA DE OBAMA


Com ilustrações de Loren Long (o mesmo ilustrador de As Maçãs do Sr. Peabody, de Madonna), chega em breve às livrarias a tradução portuguesa do livro para crianças assinado por Barack Obama, De Ti Eu Canto - Carta às minhas filhas (Of Thee I Sing - Letter to my daughters), um retrato em 40 páginas de 13 heróis (ou anti-heróis) da História dos EUA – de Abraham Lincoln a Sitting Bull, de Billie Holliday a Helen Keller. A partir da segunda semana de Dezembro, com edição da Alêtheia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

APRENDER A LER E A ESCREVER PARA CRIANÇAS

Clara Haddad, contadora de histórias brasileira, vai estar n’O Quarto da Lua esta sexta-feira, às 21h30 (Rua Almeida e Sousa, 25, cave). No dia seguinte e no mesmo local, entre as 10h00 e as 18h30, conduz o workshop “Entre Contos & Encantos”, com um programa onde vão ser tratados temas relativos à “expressão corporal, vocal, técnicas de narração oral cénica, diferenças entre o conto popular e de autor, estrutura de um conto, preparação de sessão de contos, ética e vários contextos de narração (hospitalar, terapêutico, performance, mediação de leitura)”. Se ainda houver vagas, a inscrição pode ser feita até ao próprio dia, através dos telefones 96 247 37 06, 931 156 558 e 91465 6372.

Atenção também à primeira oficina de escrita de livro infantil ministrada por David Machado, dia 11 de Dezembro, um sábado, cujo programa pode ser visto aqui. Também em Dezembro, mas nos dias 1 e 4, das 15h00 às 18h00, o Espaço Evoé, em Lisboa, promove um workshop de contadores de histórias com Carlos Marques. Informações pelos telefones 21 888 08 38, 96 381 65 05 e 96 446 26 02.

domingo, 21 de novembro de 2010

DRA. JECKYLL E MRS. HYDE


Um dos sonhos de qualquer criança que cresceu a ver televisão portuguesa nos anos 1970, praticando zapping entre dois canais, era ter um pijama vagamente parecido com os uniformes do Espaço: 1999. O outro era ser a Maya, ser amiga da Maya ou mesmo propor-lhe namoro, se as sobrancelhas ao estilo Frida Kahlo e as patilhas rockabilly não constituíssem entrave estético. Mas vamos aos uniformes, primeiro. É importante notar que não se assemelhavam a fatos de treino berrantes comprados na feira de Moscavide, como os de outras séries de ficção científica que se seguiram. Pelo contrário, exibiam uma elegância distinta, à imagem do Comandante John Koenig (Martin Landau) e da Dra. Helena Russel (Barbara Bain), que também formaram um casal invejável durante 36 anos, fora da Base Lunar Alfa. Bem vistas as coisas, comer a poeira da Lua não devia ser assim tão mau quando se habitava um lugar onde até havia um solário (é claro que, aos 7 anos, não fazíamos ideia da utilidade da coisa) e moças de biquíni e saltos altos que se passeavam por corredores de um branco virginal. Maya, a cientista do planeta Psychon adoptada pela Base Lunar Alfa, encarnava o lado selvagem e sensual da comunidade. O seu uniforme incluía minissaia e botas de cano alto; mas, mais importante do que isso, tinha o dom de se transformar numa pantera, num gorila ou num monstro nojento escorrendo baba e verdete, levando ao extremo a conhecida duplicidade feminina. Tinha pinta, a Maya. E depois, naquela altura, 1999 parecia tão longe que ninguém se imaginava com 30 anos, quanto mais com 40.

(Texto publicado na edição de 21 de Novembro da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sábado, 20 de novembro de 2010

HOMENAGEM A MATILDE ROSA ARAÚJO


As Bibliotecas Municipais de Lisboa, a Editorial Caminho e a Calendário das Letras irão prestar homenagem a Matilde Rosa Araújo. “Senhora de Tantos Tesouros” será um momento dedicado ao universo literário e à exploração da sua humanidade. Familiares, amigos e especialistas em literatura infantil reúnem-se dia 25 de Novembro, às 18.00 horas, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras para celebrar a autora e a obra. A homenagem inclui a apresentação de O Livro da Tila, primeira obra infantil da Matilde, agora reeditada pela Caminho com ilustrações de Madalena Matoso e da obra inédita Florinda e o Pai Natal, com ilustrações de Maria Keil.

No programa constam comunicações de Ana Margarida Ramos ("Entreabrir uma caixinha mágica: a poesia da Tila"), Leonor Riscado ("A voz nua de uma fada verde – Matilde Rosa Araújo"), Jorge Silva ("Meninas das mãos de seda. A ilustração nos livros de Matilde"), leitura de poemas por Maria Barroso Soares, uma exposição bibliográfica e de ilustração de Maria Keil e Madalena Matoso, e ainda a venda de livros da autora.

(Informação enviada pela Caminho.)

VENCEDORES DO PRÉMIO MARIA ROSA COLAÇO

A Lusa adianta que “O Relógio Real, de Palmira Martins da Silva Baptista, e O Galo que Nunca Mais Cantou e Outras Fábulas, de Cassilda Saldanha, foram as obras distinguidas na edição deste ano do Prémio Literário Maria Rosa Colaço”, respectivamente, nas categorias de literatura infantil e literatura juvenil. Só uma pequena correcção: onde se lê “Cassilda Saldanha” deve ler-se “Ana Saldanha”. Notícia aqui.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

CIVILIZAÇÃO PASSA A EDITAR ROALD DAHL


A Civilização acaba de adquirir os direitos da obra de Roald Dahl em Portugal. O primeiro título, Charlie e a Fábrica de Chocolate, sai em Março de 2011. Seguem-se O Fantástico Senhor Raposo, em Junho, e James e o Pêssego Gigante, em Outubro. Não sei em que tipo de edições a Civilização está a pensar (de bolso? De capa flexível? Com novas traduções? Com ilustrações a cores?), mas será que a importância do autor não justifica um ritmo de publicação um bocado mais acelerado, sobretudo numa editora que lança dezenas de livros por mês? É só uma pergunta.

OS LIVROS E O LIVRÃO

Na minha ingenuidade pouco santa, pensei que esta campanha da Bertrand, desenvolvida em parceria com o Banco de Bens Doados e a Fundação Pro Dignitate, tivesse como objectivo a recolha de livros para crianças. Livros que as pessoas tivessem em casa e quisessem oferecer a instituições de solidariedade social, deixando-os no sítio criado para o efeito, o Livrão (um nome infeliz, pela ressonância evocada com os lixos recicláveis). Afinal, não é bem assim. A ideia é comprar os livros nas livrarias e só depois os oferecer. Que livros? Explicação do comunicado de imprensa: “A oferta incide sobre livros infantis e juvenis didácticos de baixo preço, com as Livrarias Bertrand a sugerirem uma lista de seis títulos que fazem parte do Plano Nacional da Leitura.” Aahhhhhh… Realmente, estava a achar que era muita fruta, mesmo para a época.

ENCONTROS LUSO-GALAICOS 2010

“Ao nível das fórmulas, assistimos há vários anos a uma reprodução no juvenil daquilo a que temos vindo a assistir no mercado para adultos: fantasia, romance histórico, e ícones que se repetem, como os piratas, os vampiros, e ao que tudo indica, os anjos. Todas estas fórmulas são devoradas pelos adolescentes e jovens, alimentando ainda mais este ciclo pernicioso.
Ora, terá então deixado de haver lugar para a narrativa realista e desempoeirada que Alice Vieira 'inaugurou' no Portugal democrático?
Há, claro que há.”

(Andreia Brites foi uma das participantes dos últimos Encontros Luso-Galaicos, este ano dedicado à literatura juvenil. Há um texto indispensável para ler no blogue O Bicho dos Livros.)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

YOU'RE THE ONE THAT I LOVE




Um daqueles movimentos que surge sabe-se lá de onde no Facebook, terminando de forma tão espontânea como começa, pede às pessoas que elejam um herói de infância (ou de banda desenhada, ainda não percebi bem…) e o coloquem na imagem de perfil. Uns dizem que é para durar até 20 de Novembro, outros que é durante todo o mês. Well… why not? Tenho tantos heróis que é um desperdício não os evocar, a propósito ou a despropósito. Hesitei entre a bela Marianne, “a Pérola de Labuan”, que tanto me impressionou ao morrer de febre nos braços de Sandokan; a enigmática Maya do Espaço: 1999; e a altiva Tigerlily, a princesa índia da história de Peter Pan. São mulheres magníficas. Mas acabei por escolher a personagem mais inspiradora de todas, Sara Crewe, A Little Princess, que moldou a minha confessada anglofilia e deu forma a uma imagem recorrente das figuras heróicas (indomáveis, arrogantes, alumbradas, inconformistas, estóicas...). Dediquei-lhe um longo post aqui: Imaginação e Stiff Upper Lip. As versões cinematográficas que conheço são inenarráveis de tão más, por isso o melhor mesmo é escolher qualquer uma destas capas de livros. A primeira será, talvez, mais bonita, mas a última é mais verdadeira.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

CARGA DE TRABALHOS


O tempo não anda bom para a jardinagem. Por causa disto - e outras coisas que não posso contar - este blogue tem estado inactivo nos últimos dias. As minhas desculpas aos leitores habituais e ocasionais. É a vida.

domingo, 7 de novembro de 2010

UM COMBOIO CHAMADO DESEJO


Há mais estações e apeadeiros abandonados em Portugal do que, à primeira vista, se possa pensar. Não falamos de lugares perdidos no meio da paisagem, já consumidos pelo mato e pela erosão, mas de todas essas estações de comboios progressivamente desumanizadas, cujo maior recurso é a diabólica máquina de vender bilhetes. Vejam-nas: estão por toda a parte, como um exército invasor vindo de uma cultura sofisticada, atirando-nos à cara as nossas lamentáveis e frágeis emoções: o desejo de estar em casa à hora do jogo, o medo de chegar tarde à entrevista de emprego, a urgência de abraçar alguém antes de que o mundo se desmorone de vez… E o que fazem essas máquinas de vender bilhetes, na sua insuportável arrogância robotizada? Confundem-nos. Irritam-nos. Desesperam-nos. Fazem-nos passar por parvos ou por turistas na nossa própria terra. Atrás de nós, forma-se uma fila de gente impaciente, que suspira e revira os olhos perante o nosso desaire, a nossa imperdoável demora, a nossa tão humana indecisão («Querem ver que por causa deste/a ainda vou perder o comboio?»). Ora, não devia ser assim. Viajar requer uma predisposição mental e emocional que não precisa destas mesquinhices para nada. A viagem deve começar num estado de entrega e confiança, não de exigência. Estações de comboio fantasmas, com máquinas no lugar de pessoas, deviam ser rigorosamente proibidas. Temos saudades do tempo em que um chefe de estação representava a civilização, mesmo no meio do nada, e havia sempre alguém atrás do guichet para responder a um simples pedido: «É um bilhete, se faz favor.»

(Texto publicado na edição de 7 de Novembro da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ATENÇÃO A TODOS OS PASSAGEIROS

Última chamada para o (Mini)Curso de Livro Infantil, em parceria com a Booktailors. Inscrições até hoje à tarde...

Curso de Livro Infantil, por Carla Maia de Almeida

Objectivos: Este curso não é uma oficina de escrita nem está vocacionado para a formação do leitor e para as acções pedagógicas associadas à leitura. Pretende-se, sim, explorar o universo do livro infantil tomando-o como objecto total, privilegiando a componente literária, mas sem negligenciar outros campos como a ilustração, a edição ou a sua evolução histórica. Será dado ênfase ao livro para crianças e não para adolescentes, que consideramos integrado numa lógica de funcionamento própria. Serão mostrados e trazidos à discussão dezenas de títulos, sejam portugueses, traduções ou originais noutras línguas. Estas escolhas reflectem o gosto pessoal e as idiossincrasias da formadora e não têm qualquer pretensão de exaustividade nem de doutrinação.

1 ª Sessão: Era uma vez um reino incerto
Introdução ao curso. Que coisa é essa da «literatura infantil?». Origens e desenvolvimento do livro para crianças em Portugal. Do livro de conceitos ao romance juvenil: diferentes géneros de um produto editorial específico mas pleno de ambiguidades. Breve panorama do mercado do livro infantil. A quem serve a crítica da literatura infantil.

2ª Sessão: Contar para dar nomes às coisas
A percepção cosmológica da criança segundo Bachelard. Os contos como desdobramento da vida interior e construção de sentido. O lobo mau não é vegetariano – sobre a temida crueldade dos contos de fadas. Não há temas difíceis, apenas livros que funcionam (ou não). A importância de contar histórias e o impacto da tradição oral no livro infantil.

3 ª Sessão: Some like it hot
Características e especificidades da tradução de livros para crianças. Autores estrangeiros – das colecções de clássicos da era de ouro das publicações juvenis aos contemporâneos indispensáveis num Plano Pessoal de Leitura. A nossa selecção incompleta: Roald Dahl, Jutta Bauer, Babette Cole, Edward Gorey, Maurice Sendak, Javier Sáez Castán, Emily Gravett, Anthony Browne, Neil Gaiman e David Almond.

4 ª Sessão: A arte de iluminar as palavras
Breve História da ilustração de livros para crianças. Diferentes linguagens e técnicas de ilustração. A expansão do picture story book (ou álbum) como campo contemporâneo de experimentação estética. Relação entre texto e imagem: efeitos de ampliação e ressonância. O elo perdido no virar da página de um picture story book. Pop-ups e livros só com imagens são literatura?

5ª Sessão: Posso usar a palavra «vislumbrar»?
Escrever para crianças: a ilusão da facilidade. Transformar o simples em complexo e vice-versa. Noções de ritmo, fluência, densidade e substância. As boas ideias caem do céu. Os Onze Mandamentos do Escritor. Quando as projecções culturais e ideológicas da infância se intrometem na literatura. Escritores de livros para crianças e auto-imagem.

6 ª Sessão: Isso não é para a tua idade!
Como escolher livros para crianças. Chaves de interpretação qualitativas para texto e ilustração. Orientação de leituras por idades, interesses temáticos e personalidade. Cativar o leitor relutante. A leitura literária como factor de desenvolvimento da literacia e do sentido crítico. O livro para crianças à conquista de um público generalista. Bibliografia e outras fontes de informação institucionais e informais.

Ver mais aqui.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ROALD DAHL: O GIGANTE NÃO TÃO SIMPÁTICO


Odiado por uns, amado pela maioria, Roald Dahl morreu há vinte anos. Autor de dezenas de short stories adaptadas para as séries de televisão Contos do Imprevisto e Hitchcock Apresenta, foi como escritor de literatura para crianças que se distinguiu, em parceria com o ilustrador Quentin Blake.

Só na década que precedeu a sua morte, a 23 de Novembro de 1990, venderam-se onze milhões de livros do escritor que um número indeterminado de professores, bibliotecários e críticos classificou como «não recomendável». Depois de morrer, em Oxford, aos 74 anos, feito o diagnóstico de leucemia e uma vida inteira de dedicação aos cigarros, álcool e analgésicos, Roald Dahl continuou – até hoje – a suscitar as mais antagónicas reacções.

Nos Estados Unidos, país onde se estreou literariamente, com uma narrativa de não-ficção sobre a sua experiência como piloto da RAF (publicada na Saturday Evening Post, em 1942), Dahl é agora inconciliável com os tempos do politicamente correcto. O seu humor selvático, sustentado numa predisposição intrínseca para a ironia e para o grotesco, atinge especialmente os personagens de adultos, muitas vezes retratados como bárbaros estúpidos e capazes das maiores vilanias contra os mais fracos. Veja-se o casal de Os Tontos (The Twits), Mrs. Trunchbull, a directora de escola em Matilde (Matilda), ou esse desfile de horrores carnavalescos que é As Bruxas (The Witches), uma das suas obras mais polémicas.

A enredos de estrutura transparente, consistindo no reavivar da luta mítica do herói contra o Mal, Roald Dahl acrescentou a singularidade da sua imaginação e a sua memória obsessiva (e o bom trabalho dos seus editores, justiça lhes seja feita). Nos seus livros não há sentimentalismos, mas há afectos e emoções intensas. Nascido em Cardiff, no País de Gales, de pais noruegueses, «vinha de uma família de bons cozinheiros e bons contadores de histórias», como lembra um dos seus biógrafos, Jeremy Treglown. A mãe foi, segundo o próprio, «a primeira influência», ampliada pelo desaparecimento prematuro do pai e de uma irmã, quando ele tinha apenas três anos.

Repetindo o padrão familiar, uma série de acontecimentos trágicos acompanharia a vida pessoal de Roald Dahl, ao longo dos trinta anos conturbados de casamento com a actriz Patricia Neal. Também a experiência dos colégios internos ingleses, com os seus castigos sádicos e permanente clima de bullying, lhe deixou marcas indeléveis. No entanto, muitos dos seus heróis e heroínas – quase sempre crianças – são animados por um espírito combativo e industrioso, expurgado do narcisismo e arrogância de que o autor era acusado, entre outros defeitos. O «gigante amigo», citando um dos seus livros mais felizes, O GAG (The BFG), podia não ter o melhor feitio e carácter do mundo, mas deixou-nos grandes livros, à imagem dos seus quase dois metros de altura.


(Texto publicado na edição nº 96 da LER. Por lapso, é dito que Matilde, Os Tontos e As Bruxas têm edição da Teorema, quando a colecção referida pertence à Terramar. No próximo número será feita a rectificação.)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 28


Há pelo menos três viagens dentro da mesma viagem. Há a viagem da predisposição mental e emocional, feita de expectativas, projecções, planos e decisões práticas sobre que roupa e livros levar. Há, depois, a viagem propriamente dita, raras vezes correspondente ao que havíamos imaginado. Desenrola-se num estado de quase irrealidade, como um filme ou um sonho em que nos observamos à distância, incapazes de reconhecer o eco dos nossos passos em solo estrangeiro. É quando a viagem nos faz a nós, ao contrário da primeira. E há, por fim, a terceira viagem, síntese das anteriores e, de longe, a mais imprevisível. É a viagem do regresso a casa, do desfasamento das rotinas, da estranheza dos lugares e ruídos que antes nos eram familiares (as travagens bruscas dos automóveis na nossa rua, a chamada do editor a lembrar o texto para entregar, a campainha da loja de ferragens que sempre toca à passagem de um cliente…). Para exorcizar o medo do desconhecido, pousamos a bagagem e percorremos a casa e os objectos numa mistura de ansiedade e conforto, a fim de nos certificarmos de que tudo está, afinal, nos seus lugares. Mas essa é apenas uma mentira conveniente que contamos a nós próprios, porque nunca regressamos iguais ao que éramos, nem tão pouco o mundo permaneceu intacto à nossa espera. As verdadeiras viagens são as que nos trocam as voltas, as palavras e as evidências que tomamos por garantidas. Só passado o tempo justo e necessário é que conseguimos, eventualmente, abarcar a inteireza das três viagens a que tivemos direito.

domingo, 31 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 27



Regresso a Lisboa amanhã. Trinta dias passaram muito depressa, mas há que aproveitar o sol de Can Serrat até ao fim. (Miss Haunted Garden agradece à Cynthia as fotos de há pouco e, já agora, todas as boas conversas pela noite fora.)

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 26


Foto de grupo tirada ontem à noite, na véspera da partida de M. Ramalingam para a Índia. Por que razão estamos todos a fazer gestos estranhos? Não, não foi nada que tivéssemos bebido... A ideia foi identificar o país de origem de cada um na linguagem dos surdos-mudos, uma das formas de comunicar com o “Rama”, além do recurso adicional ao papel e caneta.

Assim, da esquerda para a direita, vemos a australiana Nicole em pose de canguru, seguida do Gilbert, fazendo o “C” de Canadá, e da Desirée, que puxa o pico de uma montanha suíça a partir do braço esquerdo. A Cynthia, de lenço verde ao pescoço, faz o signo dos Estados Unidos – as mãos cruzadas em forma de águia –, no que é imitada pela Jessica, de inconfundível casaco cor-de-rosa, em baixo. A mim coube-me um prosaico “P” de Portugal, e dou graças a deus por não me terem mandado pôr as mãos em forma de bola de futebol. Atrás de nós está a Eva, a fazer o que lhe deu na gana, porque ninguém sabia como se dizia “Noruega”. Podia ter sido pior. A Carmen, espanhola, não se vê muito bem, mas faz o mesmo gesto no braço que o Marcel, que está de boina axadrezada, já na fileira de baixo. Do lado direito dele (esquerdo, na fotografia), “Rama” aponta para a própria testa com o indicador e Otto desenha com as duas mãos as Américas do Norte, Sul e Central – tudo isto para dizer que veio das Honduras. Por fim, no outro extremo, de boina preta, Karine, francesa, compõe uma estilização da Torre Eiffel. Felizmente não tínhamos cá ninguém da Alemanha, porque o gesto ia ficar um bocado feio na fotografia.

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 25





Uma pequeníssima mas expressiva amostra dos óculos desenhados pelos 190 miúdos da Escola de El Bruc, como já se falou aqui e aqui. De cima para baixo: óculos multiserviços (ulleres multiserveis, em catalão); óculos para condutores da Hispano Igualadina (a empresa rodoviária que faz a ligação entre El Bruc e Barcelona); óculos para “dar a imortalidade e alguns poderes” (itálico meu); e óculos para ajudar a pensar e a ter ideias (notem o pormenor do cérebro na ligação entre as lentes). Todos uma delícia!

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 24

Das três apresentações do Não Quero Usar Óculos junto das crianças da Escola de El Bruc – cerca de 190 miúdos entre os três e os 12 anos – retirei duas conclusões que, não sendo propriamente novidade, adquirem outros contornos pelo facto de a experiência ter ocorrido fora de Portugal, numa pequena terra a 40 quilómetros de Barcelona. Primeiro, que é um livro capaz de ser facilmente entendido, mesmo sem a ajuda da palavra escrita. Segundo, que o empenho – pessoal e profissional – dos professores em iniciativas desta natureza influencia, para o melhor e para o pior, o envolvimento e as respostas das crianças ao que lhes é pedido – no caso, desenharem os seus próprios óculos imaginários. Professores sem alma nem estamina (ou, resumido de outra maneira, pouco motivados para a leitura e para a interpretação do mundo que os rodeia), dificilmente serão capazes de motivar as crianças que têm à sua responsabilidade, o que me parece um fenómeno deprimente e de consequências dramáticas. É, também, um sintoma socialmente transversal, pelo que pude constatar aqui. Desgraciadamente.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 23


Num mapa em forma de puzzle, recomendado para crianças maiores de cinco anos, Espanha e os seus muitos clichés (a catedral de Burgos, os moinhos da Mancha, o arroz à valenciana, o vinho Rioja…) são ladeados por França e Portugal. O autocolante esconde parte da vergonha. Mas ela aí está, a bola vermelha e verde, símbolo maior do desígnio nacional, critério de aferição da nossa actual importância no mundo. Um país de futeboleiros. Ao menos podiam ter mantido o galo de Barcelos.

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 22


Geronimo Stilton e Diário de um Banana também a dominar os escaparates da Casa Del Llibre, na Rambla Sant Josep. Arquivar em "fenómenos transversais".

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 21


Não dá para perceber pela fotografia, mas esta é uma edição em "formato gigante" para o livro de Sam McBratney e Anita Jeram, Guess How Much I Love You, um best-seller publicado pela Caminho (Adivinha Quanto Gosto de Ti). Seria megalómano esperar ver algo semelhante nas nossas livrarias?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 20


Nos últimos dias, a residência de Can Serrat ficou bastante mais composta. Depois de Cynthia Grow (EUA) e de M. Ramalingan (Índia), vieram Gilbert LeBlanc, escultor (Canadá), e Otto Castillo (Honduras) com Jessica Hirst (EUA), ambos dedicados às artes visuais e performativas. Também pelo pelouro das artes, directamente dos antípodas, via Singapura, chegou ontem a Nicole, de Melbourne (Austrália), com quem ainda só consegui trocar umas breves palavras, à conta do jet-lag. Não, nenhum escritor, não. Estou sozinha neste campeonato.

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 19


Lane Smith, o mesmo autor de It’s a Book! (a publicar em breve pela Presença), de quem já falámos aqui, também tem um livro sobre o drama de usar óculos quando se é pequeno. Há algumas semelhanças com o Não Quero Usar Óculos – a ida ao oftalmologista, por exemplo, que neste caso se parece mais com um cientista louco, e o final que remete para a evidência de um “mal necessário”: é melhor usar óculos do que passar ao lado de tudo o que há para ver no mundo. “Es sorprendente lo que uno se pierde cuando no se pone los lentes, eh?”. Lentes, quién los necesita? é uma edição do Fondo de Cultura Económica (México), publicado originalmente em inglês com o título Glasses (who needs'em?), em 1991.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 18



Boas compras na Casa Anita: Una Caperucita Roja, de Marjolaine Leray, uma paródia deliciosamente cáustica à história do Capuchinho Vermelho, não especialmente dirigida a crianças; e El gato (o como perdí la eternidad), extraordinária novela da alemã Jutta Richter sobre a perda da infância e a sobreposição dos valores morais e culturais que vão a par do crescimento. Foi editado na Alemanha em 2006. Seria um consolo vê-lo publicado em Portugal.

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 17



Guiada por conselho sábio e avisado (obrigada, Miguel), consegui finalmente encontrar a Casa Anita, mau grado as penas e tormentos infligidas pelo mapa indigente e pela nabice dos informadores turísticos. Mas valeu a pena o esforço. A Casa Anita é uma livraria especializada em literatura infantil e juvenil com um atendimento ao público superlativo. Senti falta de algumas “novidades”, mas saí satisfeita. Não, não julguem pela segunda fotografia que vai fechar; apenas mudará para uma rua próxima, daqui a poucas semanas. Tomem nota: Carrer Vic, 14. E boa sorte com os mapas de Barcelona.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 16


Dizem-me que há pelo menos dois fantasmas em Can Serrat, nada de estranhar numa casa com duzentos anos – ou quatrocentos, se contarmos a partir das primeiras fundações. Um é amistoso, o outro nem por isso. A certas horas da noite, quando atravesso o corredor, faço um esforço para controlar a visão periférica e manter-me focada numa linha recta em direcção à falsa segurança do meu quarto. Falsa porque, contaram-me hoje, é justamente daqui que os fantasmas partem, não sei porquê. Imagino que lhes agrade a penumbra do espaço; ou talvez a estranha disposição dos três espelhos, sempre arquitectando reflexos entre si.

Seja como for, estou a salvo, porque é deste lado que vive o fantasma tranquilo, uma figura feminina e luminosa a quem tratam por A Dama de Branco. Do outro lado da casa, junto à porta principal, encontra-se O Homem Zangado, que parece não dar muito bom dormir a quem fica no chamado Quarto Azul. Terá morrido ali enforcado, dizem, coisa que sempre causa algum incómodo. Para mim, o problema reside mais nesta separação entre as duas partes da casa, tão visível que impede os fantasmas de se encontrarem durante a noite. Aparentemente, nenhum deles tem ânimo suficiente para atravessar paredes, como é próprio da sua natureza.

Não sei como, mas, no dia em que esta história de amor acontecer, o Homem Zangado fará as pazes com o mundo, e a Dama de Branco dançará vestida de azul, a cor do infinito. Só é preciso que alguém lhes explique como atravessar paredes.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 15


“Ayer descubrí una cosa.
Tendré que usar gafas.
Fue lo que dijo mamá.
Yo siempre creo en ella, pero por esta vez no quiero.
No quiero usar gafas. Para nada!”

Numa tradução “muy hogareña”, feita graciosamente pela minha irmã (também graciosa, há que dizê-lo), este é o início da versão em espanhol do Não Quero Usar Óculos – ou, se preferirem, No Quiero Usar Gafas. Graças a uma joint-venture repentina entre a residência de Can Serrat, a biblioteca municipal e a escola de El Bruc, vou apresentá-lo para a semana que vem a cerca de 190 miúdos que não sabem falar português. Depois, eles desenharão os seus próprios óculos imaginários, à semelhança do que já foi feito em escolas portuguesas (alguns exemplos aqui). Estou curiosa para ver os resultados, muito curiosa…

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 14


À saída do Museu del Rey de la Magia, o visitante ou comprador é convidado a preencher uma ficha, caso deseje receber informação sobre as actividades da casa, que organiza cursos e workshops para adultos e crianças. Uma das questões – e não é preciso entender catalão para a decifrar – é esta: “Per quina via ens has conegut?” (“Por que via chegaste aqui?”, ou algo muito parecido). O visitante responde com uma cruz no quadradinho que lhe interessa: “Sou cliente do Rei de la Màgia”, 1; “Por um amigo/a”, 2; “Meios de comunicação”, 3; “Por intuição parapsicológica”, 4.

Não preenchi a ficha, mas a última hipótese parece-me, de longe, a mais empolgante.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 13


Cá está o "desaparecido". Ela também teria morrido às mãos do Barba Azul de Carrer Princesa. Parece-me mulher para isso.

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 12



Gosto de ilusionistas, não gosto de ilusionismo. Não me interessam os espectáculos de magia e de truques com cartas, coelhos, sabonetes ou seja lá o que for; e quanto mais Las Vegas, pior.

Mas gosto da memória dos ilusionistas na transição dos séculos XIX e XX; dessas figuras excessivas e excêntricas, sempre entre a realidade e a mentira (Houdini, Alexander, David Devant, Chung Ling Soo, etc), que levavam multidões aos teatros de vaudeville e, não raras vezes, morriam em palco pelas suas próprias mãos.

Serve isto para lembrar o Museu del Rey de la Magia, casa fundada em 1881, que, não sendo propriamente um museu, é uma loja que guarda um pouco da memorabilia e da aura desse mundo perdido. Fica numa das ruas mais interessantes de Barcelona, Carrer Princesa, a mesma onde encontrei uma daquelas drogarias-perfumarias que vendem tudo, ou quase tudo. Não resisti a entrar e a perguntar se por acaso ainda tinham o perfume da minha vida, de seu nome Havana, iniciado em 1995 e que em má hora a casa Aramis resolveu acabar (ou “descontinuar a produção”, como se diz agora). O dono, um senhor dos seus 60 e tal anos, respondeu que não, sem hesitar, acrescentando o comentário capcioso: “Es usted de las antiguas, no?”

Insisti: “Era uma embalagem assim e assado, com uma espécie de folha azul a fingir de tampa, ainda tenho um bocadinho, se quiser posso trazer-lhe amanhã…”.

O homem encanitou-se. Que não, que não e que não. Que tinha a loja há 50 anos e a conhecia de trás para a frente, e para além disso casara com 25 mulheres e todas tinham morrido nos seus braços, felicíssimas. “Ah, então o senhor é uma espécie de Barba Azul, certo?”, disse eu, já a fixar estrategicamente a porta. “Exactamente, sou um Barba Azul”, e fez o gesto de quem torce o pescoço, mas com meiguice.

Gostava de vos contar o resto da história, mas o homem começou a olhar-me de uma maneira estranha e achei por bem sair rapidamente. Sou “das antigas”, mas não tanto, caramba.

domingo, 17 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 11






Para quem tem miúdos, o parque de atracções de Tibidabo pode ser o programa ideal de um domingo cheio de sol em Barcelona. Para quem não tem, idem aspas. Carrosséis, montanha-russa, comboio-fantasma, carrinhos de choque (em versão soft) e outros entretenimentos com um certo charme retro justificam bem a ida e o preço da entrada: 25.20 euros e pode experimentar-se tudo. Também vale pela vista total sobre a cidade, com o mar ao fundo. O que é que lá estive a fazer toda a tarde? Pesquisa. Pesquisa pura.

sábado, 16 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 10

Logo à tarde, na Antena 2, algures entre as 17h40 e as 18h00, no final do programa do Luís Caetano ("A Força das Coisas"), passa a rubrica habitual da Sandy Gageiro sobre livros para crianças, "Liliput", comigo ao telefone desde Can Serrat. Pode-se ouvir em directo a partir do site (http://www.rtp.pt/wportal/popups/player.php?canal=2). Acho que a minha voz está com pouco tónus - excessos da noite anterior - e que não disse nada de jeito, mas a Sandy tem muita paciência. Quem não tiver melhor programa...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, 9


O mau tempo que se fez sentir em Portugal também chegou cá, forte e feio. No sábado à noite, pouco tempo depois de ter colocado os últimos posts, um temporal desabou sobre Barcelona e tudo à volta, fazendo de Can Serrat uma variante de “o monte dos vendavais”. Formou-se uma cascata a poucos metros de casa, que arrastou lama e detritos vindos da montanha, tornando os acessos muito difíceis. Um dos carros quase ia por água abaixo, não fora o travão providencial de um tronco de árvore, também arrastado pela corrente. Uma casa com duzentos anos (as partes mais antigas têm quatrocentos…) não fica indiferente à passagem de uma tempestade destas, mas palavra que nunca tinha sentido as paredes e o chão a tremerem com o ribombar dos trovões. As luzes foram abaixo a meio da noite e o modem “rebentou”, mantendo-nos desligados do mundo até ontem, a tempo de saber da notícia dos mineiros resgatados no Chile. Não têm sido uns dias fáceis, garanto, e pode dizer-se que, por aqui, os humores também andaram bastante nublados. Mas no domingo à tarde, no meio da desolação geral, o Marcel e a Karine apareceram de surpresa, contrariando o que é habitual num dia da semana regido pela regra do “um por todos e cada um por si”, no que toca à alimentação. “Para compensar”, disseram, uma magnífica tortilha de batata veio para a mesa, fazendo-me recuar até Braga e ao final dos anos 1970, época em que me lembro de comer as melhores tortilhas da minha vida, graças a uma vizinha galega que morava no apartamento ao lado. Foi um reencontro inesquecível.