terça-feira, 14 de abril de 2009

HOJE NA ASSÍRIO & ALVIM


Não é só um novo livro de Manuel António Pina – é um livro para os mais novos, escrito por um dos raros autores que trabalha um género pouco cultivado entre nós: o texto dramático. Ilustrado por Ilda David, História do Sábio Fechado na Sua Biblioteca foi destinado originalmente à companhia Pé de Vento, em 2008, e conta “os sonhos de um velho sábio que anseia por não saber qualquer coisa e poder perguntar a alguém”, segundo uma notícia publicada no último Expresso. “A solidão em que vive não lhe permite, no entanto, sequer perguntar que horas são.”

O lançamento acontece hoje, na livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67-B, Lisboa), com a presença dos autores e a apresentação de João Botelho. Às 18h30 lá estaremos, nem que chova a cântaros (como parece ser o caso).

segunda-feira, 13 de abril de 2009

FIRMIN: VOLÚPIA E MELANCOLIA


“Volúpia e melancolia” foi um dos títulos possíveis para a crítica de Firmin, de Sam Savage (Planeta), publicada na última LER. Acabou por ficar “Um terno naufrágio”, outra maneira de resumir o sentimento de queda enlanguescente que atravessa todo o livro, cujo final demonstra que nem sempre os ratos são os primeiros a abandonar o navio.

Firmin é uma fábula extraordinária que a princípio julguei mais adequada a adolescentes e pensei incluir na secção “Leituras Miúdas”. Não se entenda aqui qualquer menorização literária, como é óbvio, mas apenas uma má interpretação da minha parte em relação ao destinatário principal da obra. À segunda leitura, percebi que Firmin não é (sem deixar de poder ser) um livro para adolescentes. Não por causa das muitas referências literárias que contém, mas apenas porque a impressão do fracasso não deve – ou não deveria – fazer parte do mal-estar adolescente. O sentimento de inadaptação das personagens poderá calar fundo em quem tem 16 anos, ou perto disso, mas a sensação de que existe todo o tempo do mundo para o resolver deverá ser total e avassaladora. Só mais tarde, na chamada idade adulta, conseguimos perceber como estávamos enganados quanto à reversibilidade das coisas – e persistir adequadamente nesse engano, porque na verdade não há muito mais a fazer. É por isso, e apenas por isso, que Firmin não é um livro para adolescentes.

Aqui fica o último parágrafo do texto publicado na LER (com a “ternura felliniana” que sofreu um corte na edição, hélas!):

“Estavam a imaginar mais um desses ratos espertos e engraçadinhos? Para que conste: «I piss down the throats of Mickey Mouse and Stuart Little» (ou, na virtuosa tradução portuguesa, «abomino o Rato Mickey e Stuart Little»). Firmin, «ocupante ilegal, vagabundo, desempregado, pedante, voyeur, destruidor de livros, sonhador ridículo, mentiroso, vigarista e pervertido», é mais um náufrago num bairro com morte anunciada. Scollay Square demoliu-se entre 1960 e 1963, dando lugar à tenebrosa praça cimentada de Government Center. Sam Savage, que conviveu com a beat generation e acumulou empregos incertos antes de concluir o doutoramento em filosofia por Yale, faz a arqueologia desse desaparecimento, num estilo sensorial e cinematográfico de puro contador de histórias. A devoção literária e a ternura felliniana pelos personagens não iludem o sabor amargo da poeira. Um livro para adolescentes? Não exactamente. Apenas pela simples razão de que aos quinze, vinte ou mesmo trinta anos a possibilidade de um grandioso fracasso é uma noção demasiado estranha.”

(Ilustração de Fernando Krahn para um dos postais a preto e branco que acompanham a edição portuguesa.)

domingo, 12 de abril de 2009

DA CONFIANÇA


Quando viajamos, levamos connosco os nossos valores. Não me refiro ao relógio ou ao ipod, mas àquele património imaterial que logo faria soar o alarme da suspeita, se detectado nas máquinas de raio X. Género: “O senhor é um bocado intolerante, para não dizer xenófobo. Tem a certeza de que quer viajar para o país A, B ou C?” Ou então: “A senhora revela uma tendência gritante para o comodismo. Será boa ideia viajar em grupo? Pense lá bem.” Não sendo a favor de mais vigilância sobre a liberdade dos cidadãos, tout court, creio que muito trabalho se pouparia se houvesse nos aeroportos um detector de valores imateriais. Por outro lado, imaginem a balbúrdia durante o voo. “Eu não me sento ao lado desse individualista.” “Ai, é? E eu não como ao lado de defensores de touradas.”

É impossível viajar sem pôr à prova os nossos valores. Se calhar, uma das razões por que saímos de casa, sozinhos ou acompanhados, é justamente essa. Como muita gente, também acredito que o teste de um relacionamento próximo, amoroso ou não, passa pelo crivo de uma viagem com algum grau de dificuldade. A distância, a mudança de hora, de clima, de hábitos e de idioma, entre muitas outras coisas, arrancam-nos da nossa zona de conforto e fazem-nos ganhar a chamada “personalidade de viagem”, que pode ser muito diferente da personalidade de trazer por casa. Leia-se A Arte de Viajar, de Alain de Botton, para ver este assunto amplamente debatido com graça e propriedade.

Cada vez mais, gosto de viajar para conhecer outras pessoas. Gosto de portugueses em Portugal, quando é caso disso, mas se os encontro numa cidade estrangeira, aos pares ou em família, sou capaz de fazer conta que falo urdu, só para evitar aquela troca de nacionalismos confrangedora: “Ah, também é portuguesa?!”. “Sim, mas só porque não pude escolher primeiro”, apetece-me logo dizer.

Em viagem, gosto de conhecer pessoas que não conheço habitualmente. Não aquela experiência fugaz que advém da partilha de uma carruagem de comboio ou da mesa de um Bed & Breakfast, mas algo que está além disso, e que resulta da possibilidade de entrar na vida real dessas pessoas, ainda que por pouco tempo. Embora as catedrais góticas e os grandes mestres da pintura continuem a ser fascinantes, o planeta já não se oferece à facilidade da descoberta; a não ser, talvez, no capítulo das aventuras humanas. A Internet abriu portas para caminhos perigosos, mas também permitiu aceder a vastos mundos comunicantes: a rede CouchSurfing é um bom exemplo. Em poucas palavras, trata-se de oferecer um quarto – ou apenas um sofá-cama – a alguém que está de passagem, segundo um princípio de alojamento informal e gratuito. Não é obrigatório que essa pessoa faça o mesmo, embora haja uma certa lógica de reciprocidade em todo o projecto.

As razões que levam alguém a partilhar a sua casa com um desconhecido são muitas, mas na base desta rede social tem de estar um valor comum a ambas as partes: confiança. Haverá outros – curiosidade, solidariedade, cosmopolitismo, generosidade, etc – mas sem a confiança, à partida, penso que ninguém é capaz de emprestar a um estranho a chave da sua própria casa e convidá-lo a partilhar o seu espaço de intimidade. Isto nada tem a ver com optimismo ou pessimismo, a meu ver. Sou pessimista quanto à extinção das espécies ou à idoneidade da classe política portuguesa, mas isso não me impede de olhar para cada pessoa como um indivíduo e de tentar conhecê-la sem esperar sempre o pior. Não sou optimista, sou confiante. Se o CouchSurfing parece um disparate ou uma insensatez para muita gente, talvez isso queira apenas dizer que os valores que subscrevem – em viagem, pelo menos – são diferentes dos meus. So what?


(Fotografia de Inês Gonçalves.)

sábado, 11 de abril de 2009

APRENDER A AMAR A ARTE


Começa assim, vês?

PEGGY GUGGENHEIM


Valeu a pena ter passado por Veneza só para ver o meu Magritte preferido na casa onde morou Peggy Guggenheim, outra mulher fascinante que faz pensar naquela coisa da inveja.

AS TRUTAS


Naquele dia, ao observar as trutas no viveiro de Paredes de Coura, aposto que me esqueci dos óculos sem graça e das calças de fazenda que picavam.

(…)
Giram e giram e giram e giram
e giram e giram, na espera vã
de uma canção de Schubert.
Estão presas entre a água
e o betão, como nós entre
o betão e o ar. E passam
de tanque para tanque,
como nós de idade
para idade.

De um poema do José Mário Silva, incluído no recente Luz Indecisa.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

E NUNCA ME DISSERAM O NOME DAQUELE OCEANO


O título é um verso de um poema de Al Berto (Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida). O avião era da TAP. As nuvens são de todos.

WILD THING


De Spike Jonze, realizador de Quem Quer Ser John Malkovitch? e muitos videoclips de primeiro calibre, espera-se uma adaptação no mínimo original de Where the Wild Things Are, fabuloso livro de Maurice Sendak que, em 1963, revolucionou a forma de escrever (e ilustrar) livros para crianças. James Gandolfini, Forest Whitaker e Chris Cooper emprestam as vozes aos monstros que entram pelos sonhos de Max, e isso já nos deixa contentes. O blogue da Bruaá lembra que o filme estreia em Outubro (em Portugal também?) e convida a espreitar o trailer. Aqui.

ISTO INTERESSA


"O número 485 do Magazine Littéraire, referente a este mês, dedica a sua atenção aos animais (em francês, a palavra bête é mais precisa, porque elimina desde logo qualquer alusão aos seres humanos). Ao longo do vasto dossiê central, é analisada a relação da literatura com esses habitantes do planeta que insistimos em designar como nosso. Há um texto, assinado por Pierre­‑Marc de Biasi e Déborah Boltz, que se centra em seis escritores (Colette, Françoise Sagan, André Gide, Paul Léautaud, Céline, que surge também na capa, e Michel Houellebecq) e nas ligações afectivas que desenvolveram com os animais que lhes eram, ou são, próximos. Num texto de grande pertinência, que abre com uma citação de Minima Moralia, de Adorno, sobre a expressão «é apenas um animal» (cf. página 104 da versão portuguesa, de Edições 70), Élisabeth de Fontenay nota como é ainda raro que, ao nível do ensaio, se coloque a questão do sofrimento dos animais, nomeadamente nos matadouros." (…)

Texto de João Paulo Sousa, no Da Literatura.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

LIVRO-BOLERO DE BOLSO


Ao contrário do post anterior, aqui não há qualquer confusão com as letras. Y tú, qué has hecho? é uma interpretação livre de um célebre bolero cubano de Eusebio Delfín (1893-1965), pela mão da ilustradora catalã Imma Pla Santamans, que assina Imapla. Veio do stand da Ekaré (ainda Bolonha), a editora venezuelana que este ano esteve em destaque com o prémio New Horizons. Apenas a três cores, desenhada a traço grosso com apontamentos de vermelho, pode ser lida como uma declaração de amor à natureza ou como alegoria de um encontro amoroso, enquanto as páginas se desdobram em harmónio, à semelhança de uma música sem interrupções. Uma das versões mais conhecidas continua a ser a do projecto Buena Vista Social Club e pode ser ouvida aqui.

En el tronco de un árbol una niña
Grabó su nombre enchida de placer
Y el árbol conmovido allá en su seno
A la niña una flor dejó caer.

Yo soy el árbol conmovido y triste
Tu eres la niña que mi tronco hirió
Yo guardo siempre tu querido nombre
Y tú, que has hecho de mi pobre flor?

RUSH MACHINE


É difícil explicar por que motivo a letra de uma canção se entranha na cabeça mesmo quando não percebemos o que diz. Quando tinha 10 ou 11 anos e o inglês era ainda um mistério, os Boney M. estavam no meu Olimpo musical (aliás, vestiam-se à altura desse patamar…). Punha os singles no gira-discos de má qualidade e dançava freneticamente em frente ao espelho ao som de Daddy Cool, Rivers of Babylon, Ma Baker, Belfast, One Way Ticket, Rasputin e outros hits incontornáveis. O encontro sobre as “Poéticas do Rock” que ontem terminou fez-me lembrar deste último. Durante 30 anos, acreditei que o refrão de Rasputin se referia a uma coisa chamada “rush machine”. O que é uma “rush machine”? Nada. Apenas uma amálgama fonética sem sentido. Só outro dia alguém me explicou o verdadeiro refrão: “Ra Ra Rasputin, lover of the russian queen”. Tem tudo a ver, não é? Rush machine… russian queen. As coisas que uma pessoa reaprende sem querer.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

HOJE NA FACULDADE DE LETRAS


É o último dia do ciclo de debates «Poéticas do Rock em Portugal – Perspectivas críticas de uma literatura menor», organizado pelo Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Antes de ir para as aulas noutra capelinha, vou passar por lá e assistir ao programa das 16h00. A saber:

- Fernando Guerreiro, “Do Bar da Morgue a Turbina e Moça: o cabaret-circo futuro-dadá de Rui Reininho;
- Vitorino Almeida Ventura, apresentação do livro As Letras como Poesia (Afrontamento);
- Golgona Anghel, “Belle Chase Hotel – contra o destino, contra a personagem principal, a contratempo”.

Às 17h45, lugar para a mesa-redonda onde se debate o tema “Rock nas Artes”. Anunciam-se as participações de João Pedro Rodrigues, Tiago Guillul, João Garcia Miguel, Paulo Furtado, Armando Teixeira, Manuel João Vieira, Manuel Mozos e Luís Futre.

terça-feira, 7 de abril de 2009

CRÓNICA DE UMA DEBUTANTE EM BOLONHA


Quando o autocarro nº 28 chegou às portas da Feira do Livro Infantil de Bolonha, para alívio dos passageiros que ali se espremiam como recheio de ravioli, a primeira coisa em que reparei foi nas muitas malas com rodas que dão colorido à paisagem dos aeroportos. «Coitados, nem tiveram tempo de ir pousar a bagagem ao hotel», pensei, com a boa vontade dos ingénuos. Só depois percebi que aqueles contentores portáteis se destinavam a facilitar a vida a quem percorre os corredores da feira recolhendo quilos de catálogos e coisas afins, tomado por uma incontrolável síndrome de acumulação. É um tremendo potlacht de papel que pode durar até quatro dias, findo o qual regressa a dúvida e o bom senso. Pergunto-me, agora, que utilidade darei às 40 páginas da Revue der Slowakischen Literatur, além de contribuir para os índices de reciclagem em Portugal, mas na altura confesso que não pensei muito nisso.

Como já se percebeu pelo título desta crónica, tratou-se da minha estreia na Feira do Livro Infantil de Bolonha, que entre 23 e 26 de Março levou 66 países a mostrar o que de melhor (e pior) se faz nesta área da edição. Não é todos os dias que se pode escrever a palavra «debutante», felizmente. Nos idos de 90, o meu primeiro director deu-me um raspanete por ter escrito «despiciendo», outra atrocidade lexical. Mas venho aqui dar a mão à palmatória e dizer que cometi vários erros de principiante. O primeiro foi acreditar que conseguiria ver com a mesma atenção cerca de 1300 expositores e as várias mostras de ilustração, além de assistir às apresentações e mesas-redondas, e ainda enviar textos para o Blogtailors, depois de lutar por um dos quatro computadores do Press Centre.

À chegada, sem pensar muito, entrei no primeiro pavilhão que se encontrava a jeito, onde se juntavam as representações da Itália, Austrália, Reino Unido, Hong Kong, Irlanda, Nova Zelândia e Estados Unidos. Errado. Profundamente errado. A minha confessada anglofilia atraiçoou-me e tarde percebi que as propostas mais interessantes, vindas da Europa Central e não só, estavam do outro lado, nos pavilhões 29 e 30. Mas era já impossível recuar. Lá fui abrindo caminho, com a ajuda da espada de papel que dois teenagers vestidos de capa preta me entregaram à entrada, na mira de me converterem a mais uma dessas sagas fantásticas cujo nome já esqueci. Creio que terminava em «ing».

Ao fim de algum tempo, resolvi mudar de método e estugar o passo, assinalando com um círculo os expositores a que deveria voltar mais tarde, por estarem apinhados de gente ou por terem muitos livros que me apetecia ver com calma. Outro erro de principiante. No próximo ano, se puder ir a Bolonha, deverei repetir o seguinte mantra: «Não deixes para amanhã o que podes ver hoje, porque o mais certo é não teres tempo e ver-te-ás grega para encontrar o stand por onde passaste há duas horas.» Assim perdi, irremediavelmente, a oportunidade de conhecer o expositor do Brasil (shame, shame), de regressar ao stand da italiana Orecchio Acerbo ou da americana The Creative Company, ficando apenas com uns belos catálogos para recordação. Por outro lado, debrucei-me com cuidado sobre os livros coreanos e, apesar de não entender uma palavra, tomei conhecimento do best-seller intitulado O Poder Curador da Batata. Que tem isso a ver com livros para crianças? Absolutamente nada. Mas em Bolonha também se encontra de tudo, como nas antigas farmácias.

Em vão, tentei convencer uma senhora de olhos rasgados a vender-me um picture book chamado The Little Stone Lion, pelo qual me apaixonei à primeira vista. Quase supliquei, mas ela não se comoveu, nem ligou ao cartão a dizer «Press». Tinham-me avisado de que ali não se compravam livros – só direitos de autor – e pude testar a elasticidade dessa afirmação. «No, we don’t sell books», responderam-me numa conhecida editora inglesa, com aquele enfatuamento balofo comum ao Yorkshire Pudding. Na venezuelana Ecaré, pelo contrário, a réplica foi exuberante: «Todos los que quieras». Portanto, já se vê.

No último dia da feira, é tradição as editoras darem ou venderem livros a um preço abaixo do mercado, mas muitas delas limitam-se a arrumar diligentemente a mercadoria antes de regressarem a casa. Sobre isto não posso dizer muito mais, porque aproveitei o dia para uma incursão rápida a Veneza, que está a duas horas de comboio. Apesar de perseguida pelo sentido do dever, esse incansável opressor, reconheço que fiz bem. Disseram-me, mais tarde, que por volta do meio-dia a feira já tinha acabado e, assim, pude furtar-me ao sentimento sempre melancólico de final de festa. Além de evitar trazer mais uns quantos quilos de papel que teriam feito subir o orçamento, no momento do check-in. Sacos de pôr ao ombro, nunca mais. Para ano, se voltar a Bolonha, também eu farei parte da tribo das malas rolantes.


(Segunda crónica de opinião publicada ontem no Blogtailors)

MALASARTES 17


Já se encontra à venda a edição semestral da revista Malasartes, com data de Abril de 2009. A capa (linda) é de Luís Henriques, ilustrador que tem acompanhado Rita Taborda Duarte desde A Verdadeira História de Alice (2004) até O Tempo Canário e o Mário ao Contrário (2008). A dupla merece o destaque de abertura em dois artigos assinado por Ana Margarida Ramos e José António Gomes. Outros temas e autores presentes nesta edição: a multiculturalidade na literatura portuguesa para a infância, formação literária e mediação leitora, os picture books e a Planeta Tangerina, a colecção ecológica «Pintar o Verde com Letras», Ondjaki, Manuela Bacelar e Antero de Quental. Na “secção galega” da revista, encontram-se artigos sobre as primeiras traduções de literatura infantil para esta língua minoritária, a customização de ilustrações e ainda sobre o escritor Antonio García Teijeiro. Tudo isto e mais as habituais críticas de livros nas últimas páginas. Excelente!

domingo, 5 de abril de 2009

TAGLIATELLE E PUNK A BESTIA


Não foi só a estreia na Feira do Livro Infantil de Bolonha que me fez voltar a Lisboa com um sorriso parvo de contentamento, que se prolongou durante vários dias até à aterragem no PQT (País Que Temos) ter terminado, algures num crash em letra de imprensa. Bolonha significou também uma semana esplêndida em casa do Stefano e Cecilia, meus primeiros hosts na rede CouchSurfing. Sem eles, nunca teria descoberto as especialidades da Sardenha, no Montesino; a melhor pizza de Bolonha, num restaurante de luzes florescentes, o Giubilo; ou a trattoria siciliana Da Maro, onde o exibicionismo do dono, um marmanjo moreno e musculado, só encontrou paralelo nos fabulosos cannoli, no meu top five de sobremesas. Spaghetti à Bolonhesa? Não comi. “Os bolonheses não comem spaghetti”, informaram-me. É mais um mito culinário que se dilui, como o das Bolas de Berlim em Berlim (qualquer confeitaria do Porto e arredores sabe fazê-las melhor). Existe, sim, tagliatelle al ragu, um molho que nós por cá chamamos “à bolonhesa”, mas não cheguei a provar. Em compensação, cruzei-me bastas vezes com grupinhos de “punk a bestia”, uma tribo urbana que se faz notar pela presença de cães, quase sempre com aspecto mais amistoso do que os respectivos donos. Segundo o Lorenzo, amigo do Stefano e Cecilia, além de falante de português, “são uma degeneração do espírito punk”, que faz compras com cartão de crédito e se entretém a beber de manhã à noite à porta dos bares. Isto não se aprende nos guias turísticos.

O QUE MENOS INTERESSA

Já me aconteceu pior. Há uns anos, entrei numa livraria de um centro comercial de Lisboa onde estava afixado um papel a dizer: “Precisa-se de livreiro”. Ofereci-me para o lugar. O gerente despachou-me em três tempos: “Perceber de livros é o que menos interessa para o caso.”

sábado, 4 de abril de 2009

TRISTE INVENÇÃO, O TURISMO


Não sei se alguma vez voltarei a Veneza, tal como não sei se voltarei a Praga ou a Paris – apenas pelo prazer de viajar, I mean. Com cenários destes – a Piazzeta San Marco e o Palácio dos Doges em fundo – a um dia de semana e em finais de Março, ainda longe da época alta, haverá algum milímetro de espaço interior em que nos possamos sentir, enfim, livres? Às vezes quase compreendo o tipo que ganhou o “Quem Quer Ser Milionário?” e passou a visitar os sítios com que sonhava a partir do Google Earth, na privacidade da sua casinha nova ali para os lados de Alenquer.

INSTANTÂNEOS DE VENEZA, 7


INSTANTÂNEOS DE VENEZA, 6

O PÓ DOS LIVROS


Seguindo conselho avisado, passei pela Livraria Portugal, na Rua do Carmo, à caça de raridades que deixaram de ter lugar nas livrarias mais frequentadas, onde somos rapidamente despachados com um lapidar “está esgotado”. E encontrei-as. No piso de cima, a secção de livros para crianças está repleta de antigas edições (antigas com dez ou quinze anos, note-se….) da Verbo, Contexto, Edinter, Desabrochar e afins, à mistura com as novidades. De lá trouxe A Lenda da Pétala de Rosa, de Clemens Brentano e Lisbeth Zwerger, um único exemplar já com a capa ferida, mas nem por isso negligenciável.

Encontrei também pó, muito pó. Sedimentado, cristalizado, engordurado, nojento. Pó acumulado há semanas, meses (anos?), que deixa um trilho preto nos dedos quando se puxa por uma lombada, impedindo-nos de continuar a mexer nas folhas – por respeito, é claro. Ao nível do chão ou nas prateleiras intermédias, a desgraça era a mesma. Eu sei que o “pó dos livros” tem o seu charme, mas isto é outra coisa: chama-se desleixo e imundice. Ao fim de cinco minutos, se tanto, desci do escadote e dirigi-me ao balcão, onde três empregados tricotavam conversa mole. Protestei, de mãos no ar. Dois deles olharam para o lado, literalmente, e só uma senhora simpática me ofereceu água, sabão e um pedido de desculpas. Aceitei tudo. Voltei à carga e voltei a lavar as mãos. E depois queixam-se.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O QUE DAVA JEITO ERA UM COURBETZINHO


Na I Festa do Livro Infantil de Lisboa, ainda a decorrer na Praça da Figueira, Alice Vieira disse que o livro para crianças era pouco falado na comunicação social. Só posso concordar. Quando vejo a biografia de José Vilhena no meio da tenda (será porque também tem bonecos?), quase tenho vontade de chamar a polícia de Braga. Uma oportunidade perdida, é o que é.

ANTHONY BROWNE E… ANTHONY BROWNE



Ver o escritor Anthony Browne foi uma das surpresas da Feira do Livro Infantil de Bolonha. Tinha-o imaginado como um inglês razoavelmente imponente, mais parecido com essas figuras “fortes e gentis” (expressão dele) que aparecem nos livros, representando o próprio pai. Os gorilas, pois claro. Mas não. Anthony Browne (do lado esquerdo da mesa, vestido de fato claro) é um tipo franzino e pequeno, calmo e aparentemente tímido. Na mesa-redonda onde se debateu o tema “Metáforas da Infância”, logo no primeiro dia, a moderadora cometeu a gaffe de começar por dizer que o escritor não tinha podido comparecer, ao que o próprio reagiu mexendo-se na cadeira, surpreendido, como quem diz: “Estou aqui!”. Ela pediu desculpa e confessou que nunca tinha o visto pessoalmente. Uma pesquisa de imagens no Google podia ter ajudado, não?

THE LITTLE STONE LION


The Little Stone Lion, escrito e ilustrado por Kim Xiong (Heryin Books), uma parábola sobre a memória e a impermanência. Não consegui que me vendessem o livro em Bolonha, mas a Amazon dá uma ajuda. Aqui fica a sinopse:

“This book is aimed at children aged 5 to 7 years. In a small Chinese village, a stone-carved lion sits and watches as a guardian spirit and holder of the villagers' collective memory. Older people stop, stroking his head to remember the past and children walk by knowing he watches over them to keep them safe. Whimsical illustrations and inventive visual perspectives depict the lion's expressions as he recounts his memories of the villagers over the years in daylight and evening and in the changing of the seasons.”

quinta-feira, 2 de abril de 2009

HÁ 40 ANOS FOI ASSIM


Este é o poster que assinalou o Dia Internacional do Livro Infantil, em 1969. Não sabemos se nos dois anos anteriores houve outros, mas este é o primeiro referido numa brochura produzida pelo IBBY (International Board on Books for Young People), a entidade sem fins lucrativos que criou o Dia Internacional do Livro Infantil, em 1967. A ideia partiu da escritora e jornalista alemã Jella Lepman, também fundadora do IBBY, em 1953. Desde então, tem sido comemorado por todo o mundo, com o contributo das secções nacionais, cabendo este ano o destaque ao Egipto. Em poesia ou prosa, há sempre um novo texto de autor. O de 2009 é assinado pelo ilustrador e cineasta Hani D. El-Masri. Está muitos furos abaixo do habitual e tem demasiados lugares-comuns para o nosso gosto, mas quem quiser pode lê-lo aqui ou aqui, na tradução de José António Gomes.

DIA DO DINAMARQUÊS MELANCÓLICO


Há 204 anos, nascia em Odense, a segunda cidade da Dinamarca, um dos escritores mais universais de sempre: Hans Christian Andersen. Com tradução directa do dinamarquês por Silva Duarte, a Gailivro publicou cerca de uma centena e meia de contos, divididos em dois volumes, num total de quase 800 páginas. Há quem ache muitos deles tristes e morbosos, o que é verdade, mas isso não lhes retira qualquer valor literário, como é óbvio. Leia-se, por exemplo, a interpretação jungiana de Clarissa Pinkola Estés sobre alguns contos de Andersen em Women Who Run With the Wolves (Mulheres que Correm com os Lobos) e descobrir-se-ão outros e profundos significados.

O ano das grandes comemorações de H. C. Andersen foi 2005, na passagem do bicentenário, mas poderíamos ficar aqui o dia inteiro a escrever sobre o que está a acontecer neste momento, um pouco por todo o mundo. Hoje comemora-se o Dia Internacional do Livro Infantil. A festa é dos leitores.

terça-feira, 31 de março de 2009

LIVROS PORTUGUESES EM BOLONHA



O ano passado, foram 13 os ilustradores portugueses em destaque na Feira do Livro Infantil de Bolonha, reunidos numa exposição intitulada “Ilustrações.pt”. Este foi o segundo ano em que a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) esteve ali representada com um stand, um investimento que “faz toda a diferença na promoção e divulgação dos autores portugueses, sejam escritores ou ilustradores”. O feed-back foi-nos dado por Ana Castro e Assunção Mendonça, as duas responsáveis pelo Sector Internacional da DGLB, que ao longo dos quatro dias do evento estiveram sempre disponíveis para falar das dezenas de livros em amostra no escaparate, traduzindo-os para outras línguas – au moment – sempre que editores estrangeiros se mostravam interessados ou apresentando a publicação em inglês produzida para a feira, Portuguese Children’s Books.

A selecção dos livros presentes abrangeu edições de 2008, por isso o Não Quero Usar Óculos também lá esteve (e posso dizer que a capa do André Letria chamou a atenção…). Foram feitos muitos contactos para possíveis vendas de direitos – por parte da França e da Coreia do Sul, nomeadamente – e em breve as editoras portuguesas vão receber uma lista dos eventuais interessados.

Isto é a notícia. Mas como este é um blogue pessoal (que também dá notícias), quero agradecer aqui à Ana e à Assunção pela eficácia, disponibilidade e simpatia que demonstraram. Gostei muito de as conhecer em Bolonha. Pertencem àquele género de pessoas que reagem a elogios com um sorriso e um encolher de ombros, e dizem só: “Ah! É o nosso trabalho.” Pois é. Quem leva a sério o que faz costuma responder assim.

segunda-feira, 30 de março de 2009

NOS 80 ANOS DA FABER


Uma das preciosidades com direitos à venda na última Feira do Livro Infantil de Bolonha foi a nova edição de Old Possum’s Book of Practical Cats, o livro de poemas de T.S. Eliot sobre gatos, originalmente publicado pela Faber em 1939. Inserida nas comemorações do 80º aniversário da editora, anuncia-se a publicação para Setembro de 2009, agora com ilustrações de Alex Scheffler, o mesmo de O Grufalão. Olhem só que delícia.

sábado, 28 de março de 2009

NO REGRESSO DE BOLONHA


Ainda a desfazer as malas e a tentar pôr os assuntos em dia, fica a promessa (para breve) de mais notícias e comentários sobre a Feira do Livro Infantil de Bolonha que - posso já dizer - adorei!

sexta-feira, 20 de março de 2009

CITY-BREAKS: BOLONHA


Tudo a postos para uma estreia absoluta na Feira do Livro Infantil de Bolonha. Se as condições atmosféricas tecnológicas assim o permitirem, darei notícias via Blogtailors. O Jardim Assombrado vai estar em pousio até 27 de Março, ou seja, durante uma semana. Até breve!

Fotografia de Alessandro Salomoni.

POE: POESIA COMPLETA


Mais uma edição imperdível da Tinta-da-China: Edgar Allan Poe – Obra Poética Completa, com tradução de Margarida Vale de Gato e ilustrações de Filipe Abranches. O lançamento está marcado para a próxima quarta-feira, 25 de Março, às 18h30, na FNAC Chiado.


MAY YOUR PATH BE YOUR OWN


Delicadeza e rugosidade: as duas palavras que me ocorrem para definir Dream of Life, o filme de Steven Sebring sobre Patti Smith – ou melhor, o filme de Patti Smith sobre todas as pessoas, vivas e mortas, que compõem o seu mundo precioso. Patti a tocar numa velha Gibson com um Sam Shepard desdentado. Patti com os pais, já idosos, numa casa modesta rodeada de árvores e esquilos. Patti com os membros da banda e amigos como Michael Stipe e Philip Glass. Patti aplaudida por milhares de pessoas, a cantar, a dizer poesia ou a gritar contra George Bush. Patti com os dois filhos e os seus mortos, os mortos que dão sentido à frase “toda a gente traz um cadáver amarrado ao pulso”: Robert Mapplethorpe e Fred “Sonic” Smith, companheiros de guerra; o irmão, com quem tinha uma ligação profunda; Burroughs, Blake, Rimbaud e todos os que evocam a espiritualidade da arte e vivem agora à volta dela, como gatos passeando-se pelas redondezas de um jardim. É talvez isso que mais impressiona: como se pode viver rodeado de perdas terríveis e, ainda assim, não perder a inteireza e a integridade. Amo esta mulher, de verdade que amo.

Fotografia de Robert Mapplethorpe para a capa de Horses.

BAD WOMAN BLUES


"Bad Woman Blues", Spain (She Haunts My Dreams).
Fotografia de Guto Ferreira.

PRIMAVERA COMILONA


A Primavera chegou mais cedo. A imagem que hoje abre o Google é uma homenagem ao clássico de Eric Carle, The Very Hungry Caterpillar (1969), a festejar agora 40 anos. Foi editado em português pela Kalandraka, com o título A Lagartinha Muito Comilona, em 2007. Já agora, lembramos o artigo sobre Eric Carle que saiu recentemente no The Guardian, aqui e aqui. Para aceder à página oficial do autor pode clicar aqui.

quinta-feira, 19 de março de 2009

PAI HERÓI, 1


“O meu pai é óptimo.
O meu pai não tem medo de NADA… nem sequer do Lobo Mau.
Ele é capaz de saltar por cima da Lua e de andar na corda bamba (sem cair).
Ele era capaz de lutar com gigantes ou de ganhar facilmente a corrida dos pais no dia dos desportos.
O meu pai é óptimo.
O meu pai é capaz de comer como um cavalo e de nadar como um peixe.
Ele é forte como um gorila e alegre como um hipopótamo.
O meu pai é óptimo.
O meu pai é tão grande como uma casa e tão fofo como o meu ursinho de peluche.
Às vezes parece que sabe tudo, outras vezes nem por isso.
O meu pai é óptimo.
O meu pai é um grande dançarino e um brilhante cantor.
É fantástico no futebol e faz-me rir. Muito.
Eu adoro o meu pai.
E sabem que mais?
O MEU PAI ADORA-ME!
(E vai adorar-me sempre!)”

O Meu Pai, Anthony Browne, ed. Caminho, 2008

PAI HERÓI, 2


“Esta é uma obra de cariz fotobiográfico e documental sobre a figura ímpar de Aristides de Sousa Mendes, a sua vida e o sublime acto de humanismo que protagonizou em 1940 salvando mais de 30 000 pessoas da perseguição nazi. Exibir imagens que ilustram a caminhada pessoal de um homem íntegro e que também comprovam a carreira de um diplomata exemplar, repor a legítima verdade com o auxílio rigoroso de documentos oficiais provenientes do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros são os elementos que constituíram o propósito da elaboração do livro. E contra factos não há indubitavelmente argumentos. O comportamento reprovável e iníquo que o Antigo Regime reservou à figura de Aristides de Sousa Mendes, após esta edição, ficará sem defesa.”

Aristides de Sousa Mendes – Um justo contra a corrente, Miriam Assor, ed. Guerra & Paz, 2009 (nas livrarias a partir de hoje)

quarta-feira, 18 de março de 2009

LEITURAS DE VIAGEM


Resistindo à tentação de levar mais livros do que aqueles que vou conseguir ler, a selecção vai ser espartana, tendo em conta que tenciono fazer compras, estar com as pessoas e aproveitar ao máximo a Feira do Livro Infantil de Bolonha (e ainda dar um salto a Ferrara e Veneza, que estão ali a dois passos de comboio). O critério é simples: um livro de ensaio e outro de ficção, para adequar ao estado de espírito e às circunstâncias. No primeiro caso, vou ler, finalmente, A Infância é um Território Desconhecido, da Helena Vasconcelos (Quetzal). No segundo, uma leitura de trabalho-barra-entretenimento: o primeiro volume de Century (Quidnovi), que por acaso é de um autor italiano, Pierdomenico Baccalario (n. 1974). Confesso que não sou aficionada das sagas fantásticas, mas há aqui qualquer coisa que me atrai:

“Quatro amigos, quatro cidades do mundo, quatro elementos da Natureza e mistérios muito antigos que os unem a todos. Conseguirão Electra, Sheng, Mistral e Harvey resolver os enigmas,
apesar das forças negras que se lhes opõem, e salvar o planeta?
Para isso, terão de aceitar o desafio de Century.

Desta vez o desafio começará em Roma, a cidade do Fogo, e os escolhidos são a italiana Electra, o japonês Sheng, a francesa Mistral e o americano Harvey. Até há pouco tempo não se conheciam, agora encontram-se debaixo do mesmo tecto, num hotelzinho em Roma, e descobrem que têm algo em comum: todos nasceram no mesmo dia - 29 de Fevereiro! Como se não bastasse essa estranha coincidência, quando saem do hotel às escondidas, na noite de 29 de Dezembro, para irem explorar a cidade coberta de neve, são seguidos por um estranho homem que lhes entrega uma mala e desaparece.”

ANJOS DE CARA SUJA


Outra ausência inevitável durante a semana de Bolonha: o lançamento do livro da minha querida Helena Vasconcelos – A Infância é um Território Desconhecido –, que acontece no dia 24 de Março, às 18h30, na Livraria Bertrand do Chiado, com apresentação de Inês Pedrosa. Espera-se grande afluência de membros da Comunidade de Leitores da Culturgest. O livro vai na bagagem.

O ILUSTRADOR ILUSTRADO


Durante a semana em que decorre a Feira do Livro Infantil de Bolonha, eis uma daquelas coisas que vou ter pena de perder: “O Ilustrador Ilustrado”, um debate promovido pelo Instituto Cervantes de Lisboa, no dia 26 de Março, quinta-feira, às 18h30. Em síntese: “Dois ilustradores, Teresa Lima [Prémio Nacional de Ilustração 1998 e 2006] e Roger Olmos, vão falar sobre a sua profissão, desenvolvida em Portugal e em Espanha respectivamente, da importância dos seus trabalhos neste género e da forma como as histórias os inspiram. Um escritor, José Campanari, falará sobre a sua experiência como escritor e narrador de histórias e da sua interacção, ou não, com o ilustrador.”

terça-feira, 17 de março de 2009

CAMINHOS DA INFÂNCIA


Numa aula do curso de Pós-Graduação em Livro Infantil, um contador de histórias quis saber qual era a primeira recordação de infância, pergunta que achei impossível de responder. Que idade tínhamos quando o enorme gafanhoto verde pousou na perna e fixou a imagem da monstruosidade? Que dia era aquele em que colámos o olhar ao musgo e nos pareceu ver um vasto bosque pré-histórico? O cheiro do peixe frito da véspera no armário da cozinha parte exactamente de quando? Não faço a mínima ideia. A infância é uma espécie de tempo mítico e, como tal, não tem princípio nem fim. Não é uma sucessão de acontecimentos assinaláveis no calendário; é antes um chamamento permanente, abismo e claridade, um eco a ressoar no escuro. É isso que também diz uma entrevista memorável de José Tolentino de Mendonça a Tonino Guerra (saiu na Pública, em 2002), cujo título era este: “Um artista tem sempre os olhos na sua infância”. Com Tonino Guerra respondo ao desafio lançado pela Tânia Raposo, que me convidou a procurar um poema que evocasse uma recordação. Ou vice-versa. Não sei se ela vai responder, mas gostava que a Mónica Marques fizesse o mesmo. Ou algo parecido.


Onde vais?

A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi “onde vais?”
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.

Tonino Guerra, Histórias Para Uma Noite de Calmaria, ed. Assírio & Alvim, 2002.

(A fotografia acima é da autoria do jardineiro convidado do blogue, que anda a treinar canteiros fotográficos panorâmicos.)

AMANHÃ NA BIBLIOTECA NACIONAL


Lídia Jorge é a convidada do programa Livros/Leituras/Autores, uma iniciativa da Biblioteca Nacional e da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas. A escritora, recentemente distinguida com o prémio Charles Bisset 2008, atribuído pela Associação Francesa de Psiquiatria (a pretexto do romance Combateremos a Sombra), vai estar acompanhada na sua apresentação por Ana Paula Ferreira e Fernando Pinto do Amaral. Os actores João d’Ávila e Maria José Pascoal conduzirão a leitura de textos. Amanhã, às 17h30, no Auditório da Biblioteca Nacional. Entrada livre.

AMANHÃ NA CASA FERNANDO PESSOA


A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, de José Afonso Furtado, tem lançamento oficial marcado para amanhã, na Casa Fernando Pessoa, às 18h30. A apresentação será feita por Vasco Teixeira, da Porto Editora. Parabéns aos Booktailors, agora também a agitar as águas no capítulo da edição.

segunda-feira, 16 de março de 2009

ROCK E LITERATURA, 5


Isto promete. Nos dias 6, 7 e 8 de Abril, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa vai estar ocupada com o ciclo de debates «Poéticas do Rock em Portugal – Perspectivas críticas de uma literatura menor». O programa é enorme e inclui, além das comunicações e mesas-redondas, um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa, concertos no Cabaret Maxime e uma exposição intitulada “No Tempo do Gira-Discos: Um Percurso pela Produção Fonográfica Portuguesa 1960-1980)”, a decorrer na própria universidade a partir de 31 de Março. Entre as muitas comunicações propostas, algumas abrem-nos especial apetite. Por exemplo:

- “Na pandra bomba ainda jinga a hidra samba – A revolução sintáctica dos Mler Ife Dada”, por Gonçalo Zagalo e João Diogo Zagalo (6 de Abril);
- “Mão Morta e Maldoror ou os Cantos do Recreio em Poema”, por Raquel Guerra (7 de Abril);
- “Os anos 80 e as tribos musicais do Rock Rendez-Vous”, por Rita Bénis;
- “A Glória será não esquecer. O acontecimento português num devir – Joy Division”, por António Alías (7 de Abril);
- “A intervenção divina no Rock Português – Um caminho do punk à poesia”, por Luís Filipe Cristóvão (8 de Abril);
- “As Letras como Poesia”, por Vitorino Almeida Ventura (8 de Abril).

A imagem acima reproduz a capa do livro The Velvet Underground, uma investigação do jornalista Michael Leigh, publicada em 1963, que desenterrou algumas das práticas sexuais tidas como desviantes na sociedade norte-americana. Não fez história, mas deu nome a uma das melhores bandas de sempre, fundada pouco tempo depois por Lou Reed e John Cale. Cá está o primeiro homem numa interpretação a solo de "Venus in Furs".

sábado, 14 de março de 2009