terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PRÉMIOS NEWBERY E CALDECOTT 2011


Moon Over Manifest, de Clare Vanderpool, ganhou o prémio Newbery para melhor livro para crianças, enquanto o picture book vencedor do prémio Caldecott foi para A Sick day For Amos McGee, ilustrado por Erin E. Stead e escrito por Philip C. Stead. Notícia e links para os livros vencedores no Beattie's Book Blog.

E OS ANJOS CONTINUAM A CAIR


Porto Editora/Sextante apresentaram ontem aos jornalistas as novidades editoriais do primeiro trimestre de 2011. Eram tantos títulos novos que não houve tempo para falar do infanto-juvenil, área para a qual estão previstos cerca de cem lançamentos. Enquanto não chegam pormenores, ficámos a saber que os fãs de Robert Muchamore – e são muitos, a avaliar pelos quatro milhões de livros vendidos no mundo inteiro – podem contar para breve com mais uma missão secreta da Cherub (Cães Danados); enquanto os fãs de “anjos caídos”, que também os há, vão seguir em Crescendo os protagonistas de Hush, Hush, o best-seller da norte-americana Becca Fitzpatrick, cuja terceira parte será publicada em 2011, com o título Tempest.

LUÍSA DUCLA SOARES RECRIA OS TRÊS PORQUINHOS


Alvo de versões politicamente correctas, ou precisamente o seu contrário, Os Três Porquinhos talvez seja, depois de O Capuchinho Vermelho, a história tradicional com maior número de versões contemporâneas. E conta-se mais uma em português, por Luísa Ducla Soares e Maria João Lopes (ilustrações). Conhecendo o humor por vezes implacável da escritora, é de esperar o melhor. Sai ainda este mês, com a chancela da Civilização.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

SOPHIA: “UMA CRIANÇA NÃO É UM PATETA”


«Uma criança é uma criança, não é um pateta», disse Sophia de Mello Breyner Andresen. Num depoimento recolhido por Luísa Ducla Soares e integrado na obra A Antologia Diferente: De Que São Feitos Os Sonhos (Areal Editores, 1985), Sophia fala com desassombro das razões que a levaram a escrever para crianças: uma crise de sarampo dos filhos, a necessidade de os entreter com histórias e a constatação «da pieguice da linguagem» nos livros da época, arregimentados aos valores paternalistas das décadas de 1940 e 50. «Atirei os livros fora e resolvi inventar. Procurei a memória daquilo que me tinha fascinado na minha própria infância. (…) Nas minhas histórias para crianças quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância.»

A casa e a praia da Granja, em Espinho, são revisitadas em A Menina do Mar, no início de um percurso que Maria Luísa Sarmento de Matos denominou Os Itinerários do Maravilhoso (Porto Editora, 1993). Toda a obra lírica e narrativa de Sophia é indissociável dessa dimensão literária e estética que emerge da consciência do maravilhoso, construindo um discurso mágico e profundamente simbólico. Não a magia banalizada dos actuais produtos literários sucedâneos, mas uma magia imanente à ordem da natureza e à ética do ser. A Fada Oriana, publicada no mesmo ano que A Menina do Mar (1958), reflecte a dicotomia do bem e do mal substituindo o maniqueísmo vigente pela demanda de um humanismo pleno, desta vez no espaço simbólico do bosque, subjacente aos contos de fadas – e à vivência de Sophia na Quinta do Campo Alegre, no Porto (actual Jardim Botânico).

Seguem-se A Noite de Natal (1959), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1966), A Floresta (1968) e A Árvore (1985). A este núcleo mais conhecido, deve acrescentar-se a peça de teatro O Bojador (1961) e duas antologias de poesia para a infância e juventude, uma das quais organizada em parceria com o poeta Alberto de Lacerda.

Em 1992, Sophia de Mello Breyner Andresen recebeu o Grande Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra infanto-juvenil. No colóquio internacional que decorre a 28 e 29 de Janeiro não há propostas assumidamente centradas nesta produção, mas pelo menos as comunicações de Fátima Freitas Morna («Momentos de silêncio no fundo do jardim: a efabulação como poética na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen») e de Paula Morão («Nunca nada é inventado – Sophia e a casa do Campo Alegre») prometem contribuir para iluminar os lugares onde respira uma das vozes intemporais da nossa literatura para crianças.

(Texto publicado na secção “Leituras Miúdas”, LER nº 98. Fotografia de Eduardo Gageiro.)

Para se inscrever ou aceder à página de apresentação do colóquio internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, que decorre em Lisboa de 28 e 29 de Janeiro, clique aqui.

domingo, 9 de janeiro de 2011

SO YOU WANT TO WRITE A NOVEL



Isto é hilariante. Isto é deprimente. Isto é verdade. Via Blogtailors.

NOVIDADES DA ORFEU MINI




A Orfeu Negro vai publicar, na colecção Orfeu Mini, um novo livro de Oliver Jeffers, autor de O Incrível Rapaz que Comia Livros e O Coração e a Garrafa. Perdido e Achado conta a história de um miúdo que recebe a visita indesejada de um pinguim, e cujos esforços para o devolver à procedência trazem resultados inesperados. A chancela da Antígona estreia também a publicação de um autor português – neste caso, uma ilustradora, Catarina Sobral –, autora do livro Greve, sobre quem se pode ficar a saber mais aqui. Um novo livro de actividades para crianças, Caderno de Pintura Para Aprender as Cores (na imagem, ainda na versão original) e a reedição do fabuloso Animalário Universal do Professor Revillod, de Javier Sáez Castán e Miguel Murugarrén, estão entre as novidades anunciadas para 2011.

DEFINIÇÃO DE GENEROSIDADE

Um anúncio antigo encontrado há pouco no meio da arrumação de papéis. O número foi riscado por razões óbvias.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O FIM DA AMBAR


Não é uma notícia de todo inesperada, o fim da actividade editorial da Ambar (o corrector automático insiste em colocar o acento circunflexo no “A” e eu compreendo-o). Os últimos anos foram de declínio acentuado, particularmente se compararmos com a anterior direcção editorial de João Rodrigues, actualmente na Sextante, responsável pela publicação de muitos e bons escritores e ilustradores de literatura infantil (Lisbeth Zwerger foi um exemplo cimeiro). Na imagem, um livro já muito difícil de encontrar, infelizmente (tem dez anos, é uma antiguidade…), porque continua a ser uma abordagem inteligente e desempoeirada da xenofobia, sem “mensagens” disfarçadas de boas intenções rançosas: O Porco Muda de Casa, da holandesa Claudia Fries. Se o encontrarem, não se arrependerão de comprar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

CHAMEM O GATO DO SIMON



Está na hora de começar a desfazer a árvore. A gataria, sempre insensível ao espírito natalício, dá uma pequena ajuda. Criaturinhas maravilhosas.

CORRECÇÃO: BAGS OF BOOKS


Eu tenho que me penitenciar. A minha costela jornalística – cada vez mais flutuante, é certo – começa a doer quando cometo este tipo de erros. E nem as 13 dioptrias servem de álibi para dizer que li mal o logótipo da Bags of Books, a nova editora especializada em literatura para crianças. É Bags of Books, com “s”, e não Bag of Books, como escrevi aqui no blogue. Bags, bags, bags. Um nome é uma coisa muito séria. Corrijam-me sempre, caros leitores. Só os inseguros têm medo de ser corrigidos.

BYE BYE, BABE


Morreu o criador de Um Porquinho Chamado Babe, Dick King-Smith. Combateu na Segunda Guerra Mundial e foi agricultor durante vinte anos. Notícia no Guardian.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ UMA VELHINHA, 2



There Was An Old Lady Who Swallowed A Fly cantada no Muppet Show por Judy Collins, uma discípula de Pete Seeger e Woody Guthrie. Como sempre, a dupla Statler & Waldorf – mais conhecida por “os velhos dos Marretas” – vai tecendo os seus comentários do alto do camarote. Divertidíssimo. Estávamos em 1977.

ERA UMA VEZ UMA VELHINHA, 1


Já aqui citámos Era Uma Vez Uma Velhinha, livro premiado em Bolonha, na categoria de primeira obra, e que incluímos no “best of” de 2010. Inspirado numa velha canção folk, com origem numa nursery rhyme, tem como título original There Was An Old Lady Who Swallowed A Fly. Não se percebe por que é que os tradutores o encurtaram tanto, sem benefício que se veja, mas enfim. Vale a pena passear pelo site do autor, Jeremy Holmes, feito com a mesma minúcia exibida no livro – e depois sacar de lá um dos wallpapers à disposição, como este que se vê acima.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

GOREY EM PORTUGUÊS


Não sei por que artes mágicas, de vez em quando reaparece nas livrarias o único livro de Edward Gorey editado em português (Errata), uma reunião de quatro histórias com tradução de Margarida Vale de Gato. Da última vez que o vi, a dois euros, levei todos os que havia, para guardar e oferecer a gente que se revelou grata por conhecer a figura excêntrica de Yarmouth Port. Ontem, ao deambular pela FNAC do Vasco da Gama, encontrei mais alguns, desta vez a sete euros, também presentes noutras lojas da rede, segundo apurado. Compensa, compensa.

PRÉMIOS DE ILUSTRAÇÃO COREANOS


Só foi instituído em 2008, mas é já um dos prémios internacionais mais importantes, no que à ilustração diz respeito. Falamos das distinções atribuídas pela CJ Cultural Foundation da Coreia do Sul, que este ano recebeu mais de 1500 propostas, entre livros recentemente editados e trabalhos de ilustradores por publicar. Depois de em 2010 ter sido um dos vencedores, com As Duas Estradas, da Planeta Tangerina, este ano Portugal chegou "apenas" aos cem livros finalistas na primeira categoria, com dois títulos: Domingo Vamos à Luz (ilustrações de André Letria, texto de José Jorge Letria) e O Senhor do Seu Nariz e Outras Histórias (ilustrações de João Fazenda, texto de Álvaro Magalhães). Os cinco livros premiados podem ser vistos aqui e a boa notícia é que um deles, Tres Niñas, com ilustrações de Gabriel Pacheco (na imagem acima) e texto Antonio Ventura, vai ser editado este ano pela Bags of Books, uma nova editora já referida aqui.

NOVIDADES DA EDUCAÇÃO NACIONAL


Já está nas livrarias o novo álbum de Rebecca Dautremer, O Livro Que Voa (Educação Nacional), escrito em parceria com Pierre Laury. A visita ao site da ilustradora francesa também vale a pena. Aqui.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

NEM TODAS AS FAMÍLIAS SÃO IGUAIS


É fácil cair em clichés quando se fala do circo nos livros para crianças, mas Pep Bruno e Mariona Cabassa desviaram-se da armadilha explorando uma das grandes virtualidades do picture book: a divergência propositada entre o texto e a imagem. Trata-se da procura de uma unidade pelo efeito de contradição, o que não deve ser confundido com livros mal construídos... Se, por um lado, temos um texto aparentemente anódino, descrevendo um quotidiano banal («Todas as manhãs o meu pai faz o pequeno-almoço… Enquanto a minha mãe lê o jornal. E eu preparo a minha mochila.»); por outro, as ilustrações, agregando a colagem a outras técnicas, entram em ruptura com a palavra, mostrando uma família de artistas de circo envolvida em permanentes malabarismos com a vida real. O truque resulta em perplexidade repleta de humor e fantasia. Com A Família C, Pep Bruno e Mariona Cabassa, ambos de Barcelona, ganharam o terceiro Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, atribuído em 2010. E muito bem.

A Família C
Pep Bruno
Ilustrações de Mariona Cabassa
Tradução de Ana M. Noronha
Kalandraka

(Texto publicado na secção “Leituras Miúdas”, LER nº 98)

CONFERÊNCIA DE MARIA TERESA MEIRELES

Não sabemos o local, mas amanhã, pelas 21h30, em Torres Vedras, Maria Teresa Meireles dará uma conferência sobre o seu tema de eleição – o imaginário tradicional – que parte das primeiras colectâneas de contos tradicionais em Portugal. Pergunta-se: “A passagem da oralidade à escrita trouxe consigo a necessidade de dar nome aos contos – de os nomear, colectar, seleccionar, recontar, organizar, imprimir. Que podemos concluir e inferir de todo este processo? O que nos contam os títulos dos contos colectados?”. Quem estiver para os lados de Torres Vedras, aproveite.

TENDÊNCIAS DA LIJ EM 2010


Leitores adultos cada vez mais interessados na ficção juvenil (ou para young adults, melhor dizendo); reforço das narrativas de base mitológica (Percy Jackson) ou distópica (Os Jogos da Fome); continuação do registo diário-humorístico (Diário de um Banana) e a das temáticas paranormais – eis algumas das tendências assinaladas pelos “experts” da Scholastic no campo da literatura infanto-juvenil. Atenção: são as tendências de 2010, não de 2011, como à primeira vista se poderá pensar. Ler em inglês aqui, no site da editora, e em espanhol aqui, com alguns comentários adicionais.

domingo, 2 de janeiro de 2011

LIMPA TUDO


Se alguém entrou em 2011 com sentimentos de culpa remanescentes do ano passado, é só usar isto.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

KIA ORA 2011


Tal como aconteceu em 2008 e 2009, O Jardim Assombrado dá as boas-vindas ao ano novo com doze horas de avanço, de olhos postos na terra bem-amada a que pertence por nacionalidade de alma ou lá o que lhe queiram chamar. Kia ora, 2011 - que é como quem diz, traduzido do maori, "olá, 2011"!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PRÉMIOS LIMÃO 2010


Algumas coisas incompreensíveis, delirantes, inanes ou de gosto duvidoso que foram dadas à estampa em 2010, com o pretexto de serem “para crianças”:

Prémio “a Ferreirinha dos pequeninos”

– Pode trazer mais uma garrafa disto?
– Vinho do Porto?
– Exactamente. Aqui o meu colega hipopótamo tornou-se apreciador.
– Revela bom gosto – retorqui delicadamente. – O Vinho do Porto é um dos grandes orgulhos de Portugal.

(Francisco Moita Flores, As Aventuras de Maresia do Mar e Outras Histórias para Aprender)


Prémio “Vais acabar nas Novas Oportunidades, ai vais, vais”

Se António admirava os grandes campeões desportivos, não admirava menos os heróis das histórias e os escritores que tinham sido capazes de as inventar.
– Ainda por cima – gabava-se o avô Francisco, à conversa com os amigos –, o miúdo também adora ler. Vamos lá a ver o que sai dali, porque ele, afinal, tem jeito para tudo.

(José Jorge Letria, A Magia do Círculo Azul)


Prémio “O camisinha amarela”

[Útero]
É resguardado e secreto
com a lição aprendida
pois é nele que começa
o mistério desta vida.
E os espermatozóides
nele encontram ambiente
para que a promessa de vida
possa enfim seguir em frente.

(José Jorge Letria, O Alfabeto do Corpo Humano)


Prémio “Puto, enriquece o teu vocabulário”

Deixem que lembre ainda
O m de merda: dá tanto jeito
Para mandar alguns mm dos tais…
E é nome escorreito:
Vem no Morais.

(José Carlos de Vasconcelos, Arco, Barco, Berço, Verso)


Prémio “E se for só à expressão já vais com muita sorte”

– Vamos agora. Isto vai ser sem espinhas – disse o Tição sem perceber porque é que os outros não acharam graça à expressão.

(Luís Represas, A Coragem de Tição)


Prémio “Assim também eu votava nas presidenciais”

Na cidade de Cata-vento viviam-se dias de grande agitação. Chegara a hora de escolher um novo Presidente que servisse com honra e inteligência toda a comunidade.

(Carmen Zita Ferreira, O Bicho-de-Sete-Cabeças – História de uma eleição democrática)


Prémio “Os malefícios do álcool e do tabagismo”

O António, que tinha tido todas as oportunidades na vida mas nenhuma cabeça para as aproveitar, acabou mal, precocemente envelhecido, com hábitos alcoólicos e sem saber fazer nada, porque nunca tinha aprendido nem querido aprender, e revoltou-se contra o mundo em vez de se revoltar contra ele próprio. Teve a sorte de ir parar a uma instituição social mesmo sem pagar a mensalidade.

(Maria de Belém Roseira, in Contos Pouco Políticos)


Prémio “Depois de ler este livro também já bebia qualquer coisa”

O Riscas não precisou de pensar muito para formular o primeiro desejo, a viagem estava a ser cansativa e precisava de beber algo para seguir a caminhada. Sim, beber era de facto o primeiro desejo.
Largar o grito seria o segundo e talvez o mais importante desejo.

(Sónia Borges, O Riscas)


Prémio “Conselhos aos meus amigos caçadores”

– Os homens são perigosos mas também são estúpidos, Ismael. Eles estão sempre a fazer barulho, estão sempre a falar uns com os outros e em voz alta, ao contrário de nós, coelhos. Depois, eles não sabem caminhar no mato silenciosamente: fazem sempre tanto ruído que, se estiveres atento, vais poder esconder-te antes que eles cheguem próximo de ti.

(Miguel Sousa Tavares, Ismael e Chopin)


Prémio “Não estive em Woodstock, mas já fui ao Andanças”

Alana aproximou-se das outras ninfas e viu que elas estavam mais alegres. Cantavam com mais vigor, bailavam com mais energia, procuravam as essências mais activas, teciam grinaldas maravilhosas e túnicas delicadas e esvoaçantes…
– A Primavera é como uma festa diária nos nossos corações, explicou a rainha das ninfas. – A festa da alegria e da cor!

(Alice Cardoso, Alana e a Festa da Cor)


Prémio "O problema é que os fios de lã se metem nos dentes"

A menina Adélia era amiga da sua avó e recepcionista do museu. Por ano produzia quilómetros e quilómetros de cachecóis de lã para ajudar meninos carenciados.

(Mariana Roquette Teixeira, O Pintor Desconhecido)


Prémio "Sir Richard Attenbourough de sacristia"

Mas a verdade é que há cobras más, cobras boas e cobras mais ou menos boas e mais ou menos más. O mesmo acontece com os outros animais e também com as pessoas. E por isso devemos sempre olhar e ouvir com atenção, antes de dizermos se uma cobra, animal ou pessoa são maus ou são bons.

(Francisco Alegre Duarte, Joana Serpentina)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

OS MEUS LIVROS FAVORITOS DE 2010








Encaro sempre com alguma reserva as tradicionais listas “dos melhores livros” do ano findo. São escolhas forçosamente incompletas, determinadas por critérios exteriores (o espaço de página, por exemplo) e outros imanentes à percepção que um crítico tem do seu trabalho. Para quem lê dezenas de livros ao longo do ano, escolher dez pode ser pouco; não é uma eleição fácil, com certeza. Habitualmente, essa escolha reflecte a síntese entre a valorização crítica da obra e o seu lugar no cânone literário; daí que, no meu entender, não faça grande sentido trazer para estas listas de best of aquelas obras “que ninguém conhece mas que deram muito gozo ler”. Posto isto, eis a lista dos meus dez livros favoritos – para crianças e adolescentes – publicados em 2010, tal como sairá na próxima edição da LER.

- O Coração e a Garrafa, Oliver Jeffers (Orfeu Negro)
- A Casa, texto de J. Patrick Lewis e ilustrações de Roberto Innocenti (Kalandraka)
- A Estranha Vida de Nobody Owens, Neil Gaiman (Presença)
- Era Uma Vez Uma Velhinha, Jeremy Holmes (Dinalivro)
- O Livro dos Quintais, texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina)
- Meia Hora Para Mudar a Minha Vida, Alice Vieira (Caminho)
- O Livro da Selva, Rudyard Kipling (Tinta-da-China)
- Os Livros que Devoraram o Meu Pai, Afonso Cruz (Caminho)
- O Jardim Curioso, Peter Brown (Caminho)
- Lágrimas de Crocodilo, André François (Bruaá)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

NOVO LIVRO DA BRUAÁ


O Arenque Fumado, uma interpretação do ilustrador André da Loba para o poema homónimo de Charles Cros (1842 – 1888):

L’Hareng Saur

Il était un grand mur blanc - nu, nu, nu,
Contre le mur une échelle - haute, haute, haute,
Et, par terre, un hareng saur - sec, sec, sec.

Il vient, tenant dans ses mains - sales, sales, sales,
Un marteau lourd, un grand clou - pointu, pointu, pointu,
Un peloton de ficelle - gros, gros, gros.

Alors il monte à l'échelle - haute, haute, haute,
Et plante le clou pointu - toc, toc, toc,
Tout en haut du grand mur blanc - nu, nu, nu.

Il laisse aller le marteau - qui tombe, qui tombe, qui tombe,
Attache au clou la ficelle - longue, longue, longue,
Et, au bout, le hareng saur - sec, sec, sec.

Il redescend de l'échelle - haute, haute, haute,
L'emporte avec le marteau - lourd, lourd, lourd,
Et puis, il s'en va ailleurs - loin, loin, loin.

Et, depuis, le hareng saur - sec, sec, sec,
Au bout de cette ficelle - longue, longue, longue,
Très lentement se balance - toujours, toujours, toujours.

J'ai composé cette histoire - simple, simple, simple,
Pour mettre en fureur les gens - graves, graves, graves,
Et amuser les enfants - petits, petits, petits.

DE TI EU CANTO

O livro para crianças de Barack Obama vale a pena? Leia a crítica de José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

DEBAIXO DA NEVE


Inspirado pelo postal de Natal da editora Kalandraka - um pormenor das ilustrações de Roberto Innocenti para A Casa, belíssimo livro de 2010 -, O Jardim Assombrado fica coberto de neve à próxima segunda-feira. Boas Festas para todos os leitores e amigos.

PRÓXIMO CURSO DE LIVRO INFANTIL

Já está marcado: dias 2, 4, 9, 11, 16 e 18 de Maio de 2011. Uma parceria CMA/Booktailors.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

THE SNOWMAN, PARTE III



A terceira e última parte do filme. Para mais informações sobre o livro de Raymond Briggs, ver o post anterior.

THE SNOWMAN, PARTE II



A segunda parte.

THE SNOWMAN, PARTE I



Em 1982, a partir do livro de Raymond Briggs recentemente publicado pela Caminho, Dianne Jackson realizou um filme de animação de 26 minutos (The Snowman) que foi candidato ao Oscar e se tornou conhecido também pelo tema musical, Walking in the Air. Continua a ser um clássico do Natal britânico e pode ser visto no You Tube. Esta é a primeira de três partes.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CLÁSSICOS DE NATAL, 2


Para algo completamente diferente, sugerimos O Boneco de Neve, de Raymond Briggs (Caminho). Aproveito para postar um breve texto dedicado aos livros sem palavras, publicado na edição nº 97 da LER:

"Se há quem pese o valor de um livro para crianças em função da mancha gráfica textual (pouco texto = dinheiro mal gasto), os picture books sem palavras, ainda raros entre nós, são encarados como uma espécie de excentricidade, quase tanto como a expressão «texto visual». Contar uma boa história através de uma sequência de imagens faz o leitor compreender a sua estrutura, desenvolve a capacidade de interpretação, deixa espaço à imaginação e estimula a atenção para os detalhes visuais. Excluindo os livros para as primeiras idades, os picture books sem palavras não têm de ser forçosamente simples, quer na sua concepção estética quer temática. É o caso de O Boneco de Neve (Caminho), de Raymond Briggs, autor inglês por duas vencedor do prémio de ilustração Kate Greenaway, que aborda a questão da morte e da perda com uma frontalidade rara, mantendo-se actual desde 1978. Outros picture books sem palavras recentemente publicados são Migrando, de Mariana Chiesa Mateos (Orfeu Negro), Onda, de Suzy Lee (Gatafunho), Onde Está o Bolo?, de Thé Tjong-Khing (Caminho), Palhaço, de Quentin Blake (Caminho), e Um Dia na Praia e Trocoscópio, ambos da Planeta Tangerina."

CLÁSSICOS DE NATAL, 1


E a propósito de Tim Burton e do post anterior, convém lembrar que uma das edições de 2010 da Orfeu Negro foi, justamente, a versão escrita de O Estranho Mundo de Jack, filme que nunca nos cansamos de rever. Aqui fica a declaração de intenções de Jack Esquelético, na tradução de Margarida Vale de Gato:

«Já me cansa meter medo, sustos e pavor.
Estou farto de ser algo que enche a noite de terror,
Farto de maus-olhados, de infundir alvoroço,
E os meus pés agonizam com a dança dos ossos.
Não gosto de cemitérios, quero mudar de ares!
Deve haver mais na vida que caretas e esgares!»

O NATAL DO BICHO DOS LIVROS


O postal de Natal 2010 do blogue O Bicho dos Livros é assumidamente timburtoniano. Subscrevo e retribuo as hostilidades.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

AUTORES, ESCOLAS E ETIQUETA


Não escolhi a palavra “etiqueta” apenas porque ficava bem no título. Escolhi-a porque é (também) disso que se trata quando um autor - escritor ou ilustrador - visita uma escola. Tenho constatado, com grande espanto e possível ingenuidade, a falta de qualquer noção de cortesia por parte de muitos professores, quantas vezes a pura e simples má educação. O último episódio passou-se aqui ao lado, em Espanha, durante a residência da DGLB. Não, não é preciso fanfarra nem passadeira vermelha. Bastava que os professores fizessem coisas tão simples como cumprimentar à chegada e à despedida (normalmente há só uma “vítima” que o faz, os outros escondem-se), que não bichanassem em grupinhos no decurso das sessões (tenho sempre a sensação de que falam da minha roupa), ou que não me deixassem plantada à frente dos meninos enquanto vão “só ali tomar um cafezinho” (também acontece). Há notáveis e honrosas excepções a esta vaga de indiferença generalizada? Claro que sim, e é isso que faz continuar: a expectativa de a próxima visita a uma escola não significar o papel de hamster adestrado, rodando, rodando o melhor possível frente ao tirocínio das perguntas do costume: “Quando é que decidiu ser escritora?”, “Quantos livros tem?”, “Em que é que se inspira para escrever?”, etc, etc. Desculpem, mas já não há paciência.

Por estas e por outras é que também subscrevi o documento que estabelece condições para a marcação de visitas de autor (para o ano lectivo 2011/2012), em boa hora idealizado por Alice Vieira, Margarida Fonseca Santos, Maria João Lopo de Carvalho, Luísa Fortes da Cunha e Cristina Carvalho. São sete os pontos considerados: marcação da visita, preparação da visita, despesas com transportes, despesa com alojamento e refeições, número de sessões, som e cachet. Até ontem à noite, eram 39 os subscritores da ideia. Os ilustradores não ficaram de fora. Segue-se a lista de nomes:

Alice Vieira
Ana Nobre de Gusmão
Ana Ramalhete
Anabela Dias (ilustradora)
André Letria (ilustrador)
António Mota
Armindo Reis
Carla Maia de Almeida
Carla Nazareth (ilustradora)
Catarina Fonseca
Cristina Carvalho
Danuta Wojciechowska (ilustradora)
David Machado
Elsa Serra
Fátima Effe
Fernando Carvalho
Francisco José Viegas
Gabriela Sotto Mayor (ilustradora)
Inês do Carmo (ilustradora)
Isabel Minhós Martins
Isabel Zambujal
João Manuel Ribeiro
Jorge Ribeiro
José Fanha
José Vaz
Leonor Xavier
Luísa Fortes da Cunha
Lurdes Breda
Margarida Fonseca Santos
Maria do Rosário Pedreira (escritora e editora)
Maria João Lopo de Carvalho
Miguel Gabriel (ilustrador)
Patrícia Alves (ilustradora)
Pedro Medina Ribeiro
Possidónio Cachapa
Richard Câmara (ilustrador)
Rita Vilela
Rosário Alçada Araújo
Sara Monteiro

domingo, 19 de dezembro de 2010

OS CORDÉIS ESTÃO POR UM FIO


Há coisas que desaparecem e outras que vão desaparecendo. As primeiras podem doer mais, mas é uma dor que passa depressa. Um dia vamos à procura da nossa revista ou da agenda anual do costume – e pronto, kaput, já lá não está, desapareceu. Foi «descontinuada», como se diz agora. Ficamos tristes, irritados, conformados – e dali a algum tempo já esquecemos. As coisas que vão desaparecendo, pelo contrário, roubam-nos a consciência aguda da perda, o que significa perder duas vezes. É uma perda em movimento que vai doendo e moendo, na forma verbal mais melancólica de todas, o gerúndio. Só reparamos nas coisas que vão desaparecendo quando precisamos mesmo delas, e isso também causa algum desconforto. Os cordéis, por exemplo. Devíamos ter continuado a guardá-los como faziam os nossos pais e avós, confiantes no provérbio «guarda o que não presta e terás o que precisas»? Os cordéis vão desaparecendo à nossa volta, é verdade. Substituíram-se por fita-cola, aberturas fáceis, fechos reutilizáveis, velcros, molas coloridas, película aderente e outros recursos. Já ninguém se lembra deles para atar os sacos de arroz, nem para um conserto de improviso, nem para fazer o jogo da cama-do-gato. A gaveta das «coisas-sem-arrumação», onde dantes se encontrava de tudo – cordéis, rolhas, parafusos, lápis a meio, fichas triplas, pedaços de arame, escovas de dentes usadas e sabe-se lá o que mais – também já quase não existe nos apartamentos modernos. Mas virá o dia em que vamos precisar de ter um cordel à mão, para desatar o nó do problema. Pelo sim pelo não, talvez valha a pena guardar o próximo cordel que nos calhe em sorte.

(Texto publicado na edição de 19 de Dezembro da Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

LIVROS A OLHAR PARA O TEJO




É uma livraria infantil que não é só livraria. Também tem brinquedos do género anti-Toys'r'Us e uma série de actividades para crianças e adultos. Tudo para pôr a gente a pensar, a imaginar, a criar. Talvez daí o nome: Cabeçudos. Onde? No Parque das Nações, perto da Torre Vasco da Gama. Passem por lá. Ou por aqui, para começar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

BOCAGE ILUSTRADO


“Esta antologia poética de Bocage, ilustrada pelo artista plástico André da Loba, destina-se ao público em geral e, muito em particular, ao leitor juvenil.

A explicação é simples. Bocage era, até há cerca de dez anos, um poeta lido e estudado no Ensino Secundário. Mas uma das muitas reformas baniu-o do convívio com os jovens portugueses (que já não associam o Bocage das anedotas ao Bocage poeta).

No curto espaço desta apresentação não podemos fazer uma crítica às políticas que têm apagado dos programas de Português e da memória colectiva nomes incontornáveis da literatura portuguesa. Devemos, contudo, sublinhar bem que Bocage não pode ser esquecido. Ler este poeta é entrar na alma humana, nos seus mistérios, seus desejos e contradições.

Daí estes treze poemas e ilustrações, que nos convidam a explorar o imaginário de Bocage. Conhecer estes sonetos é já, em parte, evocar a vida de um homem e de um poeta apaixonado, exaltado, rebelde, insatisfeito, perseguido, como ele próprio nos diz, pelo mesmo ‘fado’ que atormentou Camões.”

(Excerto do posfácio de Carlos Nogueira à Antologia Poética de Bocage ilustrada por André da Loba. Como já falámos num post anterior, trata-se de uma edição recente da Faktoria K de Livros, chancela da Kalandraka não especialmente dedicada aos mais novos – mas também – que desmitifica uma ideia feita: a maturidade do leitor exclui o direito à fruição de bons livros ilustrados, aparentemente para crianças. Não, não exclui. Esta é a prova.)

UMA NOVA EDITORA: BAGS OF BOOKS


Há uma nova (e prometedora) editora portuguesa exclusivamente centrada – pelo menos para já – na publicação de livros para crianças e adolescentes. Chama-se Bags of Books e faz a sua entrada em cena ainda este mês, com um livro ilustrado de Beatrice Alemagna, Depois do Natal. Em 2011, a selecção de escritores e ilustradores mantém-se criteriosa, notando-se um predomínio de nomes latino-americanos: Gabriel Pacheco, Beatrice Rodriguez, Claudio Hochman, Antonio Ventura, Loreto Salinas, Gonzalo Moure e João Vaz de Carvalho. Para abrir o apetite, o catálogo e mais informação já estão no site da editora. Aqui.

Correcção: O primeiro livro editado pela Bags of Books é de Beatrice Alemagna, sim, mas chama-se O Meu Amor. Se tudo correr bem com a distribuição, podem encontrá-lo nas livrarias a partir de amanhã. Quanto a Depois do Natal, sairá em Janeiro, fazendo jus ao título.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

FROM DRAGS TO RAGS


O Pai Natal 2010 do Alex Gozblau é menos drag queen e mais miserável do que o de 2009. A festa acabou e nem sequer estávamos no melhor.

GABRIELA CANAVILHAS E A EXTINÇÃO DA DGLB

JL: Essa integração [da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas com a Biblioteca Nacional] não decorre apenas da necessidade de redução de custos?
GC: A integração e fusão de institutos, de direcções-gerais e de empresas públicas foi uma medida aprovada pelo Governo no plano de contenção da despesa pública para 2011. É uma decisão que envolve todos os ministérios nesse esforço de redução de meios. A nossa preocupação é que não belisque as actividades desenvolvidas pelas instituições que se vão juntar. Do meu ponto de vista, poderá resultar numa nova fase de afirmação de toda a política do livro e da leitura que estava a ser desenvolvida pela DGLB. O dr. Jorge Couto, director da BN, é uma pessoa altamente capacitada para abraçar este projecto. Está a escolher um rosto para o desenvolver no seio da BN.

JL: E quem vai ser?
GC: Ainda não posso revelá-lo. Mas quero garantir que a integração da DGLB na BN e o seu enquadramento estrutural pode potenciar as políticas do livro de uma maneira mais sustentada.

(Excerto da entrevista concedida pela Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, ao Jornal de Letras, Artes e Ideias, na edição publicada hoje. A questão da DGLB ficou “arrumada” nestas duas perguntas. Parece-me pouco.)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

SIGA A TANGERINA



Estes são dois dos quatro livrinhos que a Planeta Tangerina vai apresentar amanhã, no meio de um apetecível programa de festas que conta com a presença de Andrés Sandoval, ilustrador chileno de Siga a Seta!, e de um passeio pelo Jardim Botânico com Fernando Catarino, o carismático ex-director que ninguém esquece. A festa começa as 16h00, no Museu de História Natural. Está tudo aqui. Que ninguém falte, a não ser, talvez, a chuva.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

FALAR SOBRE O LIVRO ILUSTRADO


Esta semana é um ver-se-te-avias de acontecimentos. Na próxima quinta-feira, no mesmo dia e à mesma hora em que a editora 101 Noites inaugura o Mercado de Natal Alternativo (à Rua de São Paulo, 121, Lisboa), começa uma conferência sobre o livro ilustrado com a escritora Cristina Norton e a ilustradora Danuta Wojciechowska, que debatem a arte de juntar texto e imagem para contar uma história. «Onde e como nasceu a necessidade desta justaposição?», pergunta-se. O público é convidado a entrar e a participar na conversa. Promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, a conferência decorre às 18h30 no auditório da sede dos Serviços Sociais da CML, na Av. Afonso Costa, nº 41 (um edifício castanho e modernaço, junto à rotunda das Olaias).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ANDA CÁ QUE EU JÁ TE CONTO


Não sou especialista em contadores de histórias, mas há uns que me ficarão sempre na memória, como Pep Bruno e Luís Carmelo (mai-la sua concertina). Por isso vou estar na próxima quarta-feira, religiosamente (porque é dia de Imaculada Conceição), na Ler Devagar, para assistir ao segundo número da colecção HOT - Histórias Oralmente Transmissíveis. É uma antologia trilingue (português, espanhol e inglês) de contos e contadores alentejanos, editada em videolivro - o que inclui livro e DVD - pela BOCA. Repetindo: na Ler Devagar, 8 de Dezembro, às 18h30. Toda a informação aqui, no blogue da BOCA.

MAIS KALANDRAKA


Depois de Lisboa (ver post anterior), a Faktoria K de Livros apresenta amanhã no Porto uma das suas mais recentes edições, a Antologia Poética de Florbela Espanca ilustrada por Joana Rêgo. A conversa com a ilustradora será moderada por Emílio Remelhe e haverá leitura de poemas por Adélia Carvalho. Às 21h00, na "nova" Livraria Papa-Livros: Rua Miguel Bombarda, 523.

sábado, 4 de dezembro de 2010

FAKTORIA K DE LIVROS NA LX FACTORY


Parece um jogo de palavras, mas não deixa de ser verdade. A Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka dedicada a um público mais alargado, vai lançar hoje as suas últimas novidades: duas antologias poéticas dedicadas a Bocage e Florbela Espanca, ambas com ilustrações de dois autores "muito" contemporâneos - André da Loba e Joana Rêgo, respectivamente. É hoje, pelas 21h30, na Livraria Ler Devagar, à Lx Factory, em Lisboa. Os ilustradores estarão presentes para falar do seu trabalho e haverá ainda leitura de poemas pelos Contos da Lua Nova. Posteriormente, realizar-se-á uma sessão semelhante no Porto.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O ESCRITOR SEM VIRTUDES


Há quem não perdoe a Roald Dahl por ter vivido. Sejamos mais precisos: há quem não lhe perdoe as tentações donjuanescas, especialmente junto de mulheres casadas, nem o facto de se ter divorciado da actriz Patricia Neal depois de trinta anos conturbados, assumindo o affair com uma mulher mais nova chamada Felicity (os escritores nunca escolhem os nomes por acaso), com quem viveu até ao dia 23 de Novembro de 1990, talvez quase feliz. Roald Dahl, de quem falámos na edição anterior da LER, vinte anos volvidos sobre a sua morte, nunca foi uma figura pacífica, como pessoa e como escritor. Proferiu declarações que lhe valeram a acusação de anti-semitismo; e as feministas dos anos 1970 deleitaram-se a procurar sintomas de misoginia nas entrelinhas dos livros. Se os editores necessitaram de uma paciência de Job para lhe atender as exigências e caprichos, os ilustradores com quem trabalhou – incluindo Quentin Blake, com quem estabeleceu a mais sólida parceria – confrontaram-se com o seu calculismo financeiro, a faceta de homem de negócios que se revelou desde o tempo em que era funcionário da Shell. Chamaram-lhe arrogante, competitivo, narcisista, interesseiro e manipulador – só para citarmos alguns dos epítetos levantados na biografia assinada por Jeremy Treglown. E o que tem isso a ver com a literatura? Rigorosamente nada. A boa literatura dispensa a suposta virtude dos seus autores. Só a dependência histórica entre o sistema educativo e o sistema literário parece criar em algumas mentes vigilantes a ideia de que os escritores de livros para crianças e adolescentes tenham de circular numa espécie de recreio almofadado, onde possam cultivar amorosamente a sua «criança interior» sem correr o risco de amar, destruir e duvidar. Roald Dahl escolheu viver. Quem não vive, acaba a escrever sobre sentimentos de coelhinhos cor-de-rosa, acreditando que está a contar a melhor história do mundo.


(Texto publicado na edição nº 96 da LER, na coluna de opinião "Boca do Lobo", secção "Leituras Miúdas". Na foto, Roald Dahl aquando do seu casamento com a actriz norte-americana Patricia Neal.)