segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LUÍSA COSTA GOMES: "É TÃO SIMPLES PERCEBER O QUE É UM LIVRO BOM"


Em entrevista à Notícias Magazine deste domingo, Luísa Costa Gomes fala do último livro, Ilusão (Ou o Que Quiserem), da sua experiência como escritora e professora, dos hábitos de leitura, de Portugal e dos portugueses, da vida e do mundo em geral. Certeira e lúcida, as usual. Gostaria de ter publicado este post ontem, mas só há pouco consegui o texto em word. Aqui ficam alguns excertos. A entrevista foi conduzida por Elisabete Pato.

[Sobre o último livro:]

NM: Ela é professora. São marido e mulher.
LCG: Eles são casados e vivem juntos há 12 anos. Estão a tentar sobreviver à relação, que está deprimida. Ela acaba por ter um search pedagógico, que a leva a sair de casa e ser mais professora, estar mais próxima dos alunos. É um livro sobre a mentira e sobre a falsificação da realidade. Toda a gente mente. Toda a gente está sempre a dizer coisas numa linguagem mágica em que se julga que por se dizer as coisas, elas ficam resolvidas. Há de facto todo um investimento na linguagem como sistema mágico de transformação da realidade. É isso que satirizo no romance e que, profundamente, me diverte.

[Sobre a escola e os alunos:]

NM: Qual é maior riqueza em dar aulas?
LCG: É o contacto com os alunos. Os miúdos são normalmente interessantes. Para mim, as crianças são pessoas interessantes.

NM: Porque ainda estão, digamos, "em bruto"?
LCG: Não sei porquê. Por exemplo, são muito mais interessantes do que os adolescentes. As crianças ainda não estão massificadas, ainda não têm a imaginação formatada. Para mim é muito deprimente ouvir contar a mesma historia uma vez e outra e outra. Os adolescentes não só não têm imaginação como não sabem o que é ter imaginação. Não há sequer o sentimento de uma falta. O que é importante é o formato. É ser igual a toda a gente, é pertencer a um grupo, a um clã. E as crianças ainda têm criatividade.

NM: É fácil combater com estórias literárias as novas tecnologias e o facto de as crianças verem mais televisão e mais cedo?
LCG: Sim, é. Não é nada difícil pôr uma criança a ler ou a discutir o livro de uma maneira interessante e original. Há, sobretudo, entusiasmo nas crianças. É o que me dá alegria de viver. A curiosidade e aquela efervescência....

[Sobre a leitura e os livros:]

NM: Os portugueses são muitas vezes acusados de falta de hábitos de leitura. Como é que olha para isso?
LCG: É um problema complexo. Nós passámos do analfabetismo para uma fase de iliteracia. Tínhamos uma população completamente analfabeta, ninguém lia. Lembro-me que em 1975 a média de leituras era de um livro por pessoa, por ano, e isso acho que mudou. As pessoas lêem muito mais, mas maus livros, que não interessa ler. Isto é politicamente incorrecto dizer. Tenho tido muitas discussões com professores e responsáveis, que consideram que o que é importante é ler, o que quer que seja. Na minha opinião, isso é uma perversão da leitura porque, provavelmente, as pessoas pensam que estão a ler e não estão. Estão a ver televisão, Quando uma pessoa está a ler O Código Da Vinci, está de facto a ver televisão. A leitura implica alguma actividade, algum esforço. Isto é muito impopular dizer, mas é a minha opinião. Penso que o leitor faz-se primeiro com alguma indiscriminação. Quando era miúda também lia tudo o que me passava à frente e depois fui percebendo o que é que era bom. Agora, e isto é provavelmente uma grande arrogância, sou completamente incapaz de ler um livro mau.

NM: O que é um livro bom, para si?
LCG: Almas Mortas [1842], de [Nikolai] Gogol; A Cidade e as Serras [1901], de Eça de Queiroz, por exemplo. É tão simples perceber o que é um livro bom. É um livro extremamente bem escrito, importante, influente, que fez uma época, marcou pessoas de uma forma esteticamente fecunda. Não é um livro que é feito industrialmente, segundo um formato, igual aos outros todos.

[Sobre a vida portuguesa:]

NM: Sente-se bem a viver em Portugal?
LCG: Muito bem. Adoro viver aqui e sempre que vou ao estrangeiro, no regresso agradeço a Deus ter-me feito nascer aqui. É um país que tem tudo o que eu acho importante: paz, silêncio, mar, muitas praias maravilhosas, um clima extraordinário, com pessoas que não são ainda impelidas pelo trabalho, pelo ganhar dinheiro. Estamos a caminhar para lá, mas ainda não estamos completamente civilizados.

NM: Apesar de muitas vezes os portugueses serem conotados com a tristeza, a melancolia ...
LCG: Não acho, pelo contrário. Hoje em dia, não sei se é dos anti-depressivos ou dos brasileiros, estamos muito mais alegres. Acho que deixou de haver uma caução social sobre a tristeza. Nós já não temos paciência para as pessoas que se queixam permanentemente, que estão muito tristes. Isso é curioso porque criou uma culpabilização em relação à tristeza. As pessoas hoje em dia não conseguem estar tristes porque toda a gente está sempre com um pensamento muito positivo e isso obriga as pessoas a serem positivas. Há uma indústria do optimismo e do pensamento positivo que é ela própria muito deprimente.

NM: Identifica-se com a política portuguesa ou não lhe liga?
LCG: Ligo muito pouco. Sou muito egoísta nesse ponto. Ligo às pessoas que estão à minha volta, ao meu bairro, se for precisa alguma coisa podem contar comigo. Em relação às coisas gerais, sou muito egoísta. Tenho pouco tempo. Vivo muito envolvida com aquilo que estou a fazer, quer dizer, só consigo trabalhar e escrever quando estou completamente obcecada e envolvida. Não consigo estar a fazer uma manifestação e ao mesmo tempo a escrever. O meu trabalho não me isola, mas é aquilo que é importante para mim.

domingo, 29 de novembro de 2009

O CAMALEÃO


Olha, olha bem para ele.
Em primeiro lugar, a pele,
que na perfeição copia
as cores todas do dia.

Depois... parece que avança,
finge que vai e não vai,
e o seu corpo balança,
um tanto em jeito de dança,
um tanto "cai e não cai".

E os olhos? Fazem inveja.
À sua frente, ao lado, atrás,
nada passa que ele não veja.
Não sei de quem disto seja,
mesmo em sonhos, capaz.

Mas nunca a pele cambiante,
o passo lento, farsante
e o olhar movediço
lhe fariam grande serviço
e o livrariam da míngua
se, shluuup, não fosse a língua.

"Olha, olha, um gafanhoto."
Shluuup, lá foi, já está no goto.

(um poema de Raul Malaquias Marques, do livro De Sol a Sonho, Caminho, 2009)

sábado, 28 de novembro de 2009

ILUSTRARTE 09


Na próxima quarta-feira, 2 de Dezembro, no Museu da Electricidade, o júri do Ilustrarte revela os 50 eleitos entre mais de 1000 candidaturas. É claro que vamos estar lá.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A MÁQUINA DE ESCREVER DE MARK TWAIN


É uma verdade absolutamente reconhecida que o primeiro escritor a dactilografar um romance foi Mark Twain. Errado, diz John Sutherland. O professor universitário, crítico literário e autor de livros como Is Heathcliff a Murderer? e Can Jane Eyre be Happy? explica porquê em Curiosities of Literature.

O que tem em comum o poema épico Beowulf com Carrie, de Stephen King, e o que aproxima esses títulos de A Revolução Francesa, de Thomas Carlyle, e Stephen Hero, de James Joyce? Representam os gostos eclécticos de um leitor? Não exactamente. A resposta certa é: o facto de todos terem passado pela iminência da destruição – no caso de Carlyle, sem lhe conseguir escapar. Se não houvesse duas mulheres atentas, por fé ou desespero, os textos originais de Carrie e Stephen Hero teriam conhecido um fim mais doloroso do que o estado mental de quem os engendrou. E se o manuscrito de Beowulf se salvou das chamas in extremis, sobrevivendo apenas com os cantos chamuscados, já as primeiras 260 páginas da empreitada de Carlyle não tiveram a mesma sorte, servindo de material ardente em casa do amigo John Stuart Mill. Por descuido, acrescente-se. Uma compensação de cem libras e um novo stock de papel ajudaram a que A Revolução Francesa se reerguesse das cinzas.

A relevância desta e de tantas outras informações prende-se com a curiosidade que se possa ter por uma visão dessacralizada da literatura; e também com a atracção por um certo tipo de conhecimento disperso, fragmentado e mais ou menos aleatório. Reunidas as condições, o gosto pelo saber enciclopédico e algum espírito de coleccionador garantem, à partida, a leitura grata de um livro que foi procurar o seu mais directo antecedente ao século XVIII. Em 1791, Isaac D’Israeli, pai do futuro primeiro-ministro inglês, publicava o primeiro volume de Curiosities of Literature, uma colectânea de pequenos textos agregados pela erudição literária e por um humor discreto e saborosamente irónico. John Sutherland cita-o directamente, trazendo um aggiornamento à tradição.

D’Israeli nomeou obras como o Inferno de Dante, a Utopia de Thomas More ou As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, para ilustrar casos em que fantasias alegóricas foram entendidas como realidades de um mundo tangível. «A simplicidade da época» explica a ingenuidade dos leitores, segundo D’Israeli. Contudo, em 1997, lembra Sutherland, conceituados críticos literários norte-americanos tomaram como verídicos os anexos e a bibliografia do romance O Fardo do Amor, de Ian McEwan, em que este justifica o comportamento obsessivo da sua personagem com as opiniões científicas de uns tais Wenn & Camia, alegadamente reproduzidas da British Review of Psychiatry. Os críticos assinalaram a «insuficiente imaginação» de Ian McEwan – ou seja, dos próprios Wenn & Camia, depois de repostas as letras na sua forma original – e levaram à letra as intenções de um anagrama.

What’s in a name?, perguntou Shakespeare. Aquele a quem chamamos David Herbert Lawrence poderá ser o mesmo que escreveu O Amante de Lady Chatterley? Sutherland, um inglês na América, confessa a sua dificuldade em explicar aos alunos de literatura as regras e convenções que presidem à citação dos autores. Mais etiqueta, menos wikipedia, talvez. «Os títulos honorários são um desafio terrível», diz: «Por que é que ‘Sir Stephen Spender’ é abreviado para ‘Sir Stephen’ e não ‘Sir Spender’, enquanto ‘Lord Byron’ nunca é ‘Lord Gordon’?». A questão dos nomes reaparece ao longo dos 12 capítulos do livro, que começa com curiosidades à volta da comida e termina, naturalmente, com o tema da morte. Pelo meio, surgem os cigarros Du Maurier, a máquina de escrever de Nietzsche e o manuscrito recuperado do túmulo por Rossetti. Da aparição do primeiro caldo Knorr na literatura, com E.M. Forster, ao efeito Werther, o best-seller que foi também um best-killer (dois mil suicídios de leitores de Goethe), há aqui alimento bastante para bibliófilos convictos. Ou apenas leitores curiosos.

(Curiosities of Literature, John Sutherland, Random House Books)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

COMO CONTAR HISTÓRIAS


No próximo sábado, 28 de Novembro, a contadora de histórias Elsa Serra desvenda algumas das técnicas do métier junto de um grupo de 15 participantes. Professores, educadores, técnicos de bibliotecas, animadores, pais e mediadores de leitura constituem o público-alvo, numa acção que decorrerá das 14h00 às 17h00, na Casinha de Porta Azul, ao Miradouro de Santra Luzia, em Lisboa. O ateliê custa 20 euros. Mais informações no blogue Alfinete de Dama.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

AGENDA DO DESCONCERTO


"O desconcerto do mundo começa pelo que vai ficando por consertar. Uma torneira que pinga, uma porta que descai, uma gaveta que empena. Há os desconcertos tranquilos, com os quais podemos conviver meses inteiros sem perder horas de sono, e há os outros, mais agudos, que nos desarrumam as ideias e contribuem devagarinho para o nosso desconcerto interior, o mais terrível de todos, para o qual não há parafusos, arrebites, bananas ou batoques que nos valham. O problema é que manter o mundo a funcionar dá muito trabalho."

A Agenda 2010 da Planeta Tangerina vem mesmo a calhar, numa altura em que este jardim precisa de descer à terra. A casa Rufino & Filhos – drogaria, ferragens e bricolage – tem soluções para tudo (desde 1948). Basta folhear as páginas de Janeiro a Dezembro e procurar no vocabulário poético-utilitário o remédio para o nosso desconcerto momentâneo. Vejamos: uma fita anti-derrapante ou um sargento esquina? Uma vassoura de ripa-pau ou um pé de cabra? Um martelo de orelhas ou um fio do norte? Se nada funcionar, atente-se no conselho do Sr. Rufino: "Mais trabalho, menos conversa." Resulta sempre.

Ver no blogue da Planeta Tangerina.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

MUSEU DAS HISTÓRIAS

Se a campanha de angariação de fundos continuar assim, um museu das histórias poderá nascer em Oxford, no ano 2014. Uma boa notícia só agora apanhada no Cadeirão Voltaire.

1O1 BLOGUES SOBRE LIVROS

Quais são os melhores 101 blogues sobre livros? A lista possível aqui. Via Beattie's Book Blog.

DEPOIS DA TEMPESTADE VEM A TEMPERANÇA

Dez dias no Alentejo causaram efeitos inesperados n'O Jardim Assombrado, visíveis na irregularidade e ausência de posts durante a última semana. Nada de admirar. Embora goste de cultivar a disciplina dos canteiros, este jardim é permeável às forças da Natureza, estranhamente ingovernáveis.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

DOURO VINTAGE



Depois das duas últimas incursões ao Douro, entre a Régua e Vila Nova de Foz Côa, o jardineiro honorário deste blogue assinou a produção caseira que está desde ontem em cena no You Tube.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

APRENDER COM MANAWEE


O texto sobre a presença dos animais na literatura infantil, originalmente publicado na Notícias Magazine, pode agora ser lido no site da Casa da Leitura. Aqui.

O MEU PRIMEIRO MIGUEL TORGA


"Miguel Torga (1907-1995) foi um admirável escritor da literatura portuguesa, com uma maneira única de contar, de falar de si e de captar, em verso e em prosa, os pequenos e grandes momentos da vida. E a sua foi uma vida invulgar. Neste livro, a escrita de João Pedro Mésseder e as imagens de Inês Oliveira dão a conhecer o fascínio que Torga sentia pelas palavras, pelo país, pelos bichos, pelas crianças e pelos seus semelhantes. E também pelo "reino maravilhoso" onde nasceu."

Com texto de João Pedro Mésseder e ilustrações de Inês Oliveira, O Meu Primeiro Miguel Torga vem juntar-se à colecção da Dom Quixote iniciada em 2005. Quem morar na zona do Porto está mais perto de ir ver a mostra de ilustração da autora, patente na livraria Papa-Livros (Rua D. Manuel II) de segunda a sábado, das 10h00 às 19h00. Até 6 de Dezembro.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CITY-BREAKS: ALENTEJO


O Jardim Assombrado vai mudar de ares e apanhar as folhas do Outono. Regressa no dia 16 de Novembro. Até lá!
(Fotografia de Guto Ferreira.)

FOI HÁ 25 ANOS


“Os grupos Táxi e Jáfumega não gravaram nenhum disco este ano, já que segundo António Pinho, responsável pelo sector nacional da gravadora das bandas, elas consideravam que não tinham «hit» para editar. Assim, Táxi e os Jáfumega não viram concretizados para vinil nenhum dos temas novos, muitos deles apresentados este ano em concertos ao vivo. As duas bandas foram as grandes ausências do mercado discográfico português de 1984.”

Notícia publicada no primeiro número do jornal Blitz, faz hoje precisamente 25 anos. Guardo-o religiosamente e acompanha-me a cada mudança de casa, apesar de já muito velhinho. Em formato de revista desde há uns anos, a edição especial de Novembro (nunca me habituei a dizer “a Blitz”) está aí nas bancas. Vale sempre a pena reconhecer a nossa história. E prestar-lhe homenagem.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

NOVOS EPISÓDIOS DA LUTA DE CLASSES


O Pato Camponês
Martin Waddell
Ilustrações de Helen Oxenbury
Caminho

Continuam a sair novos títulos da colecção Borboletras, objectos de capa mole e qualidade à prova de bala, para combater a ideia de que os livros para crianças “são muito caros”. De Martin Waddell, escritor da Irlanda do Norte contemplado com o Prémio Hans Christian Andersen de 2004, O Pato Camponês é uma interpretação da luta de classes superiormente ilustrada pelas aguarelas de Helen Oxenbury, a mesma de Vamos à Caça do Urso (Caminho, 2004). Aqui se conta como, graças a um plano bem bolado, os animais de uma quinta em decadência conseguem correr com o seu imprestável dono, acabando com a exploração do pato que é pau para toda a obra. Se as cores também se revoltam, passando dos tons lúgubres à luminosidade, o delinear da estratégia é um dos momentos altos de um texto que nunca perde o ritmo, e Martin Waddell economiza palavras com um golpe de génio: “– Muu!, disse a vaca. – Méé!, disseram as ovelhas! – Cácárácá!, disseram as galinhas. E esse é que era o plano.” E funcionou.

(Texto publicado na LER nº 85)

SOBRE CÃES E GATOS


Muito dinheiro público seria poupado em ansiolíticos e antidepressivos se toda a gente tivesse um casa com jardim e um animal ao seu lado. Viver amontoado em apartamentos não dá saúde a ninguém, é certo e sabido. Como poucos têm a sorte de morar no campo – com qualidade de vida – ou de passar os fins-de-semana em turismos rurais, ter um gato ou um cão ainda representa a possibilidade mais imediata de ligação à Natureza, sem a qual me parece difícil funcionar com o mínimo de serenidade e, ocasionalmente, ser feliz. Talvez isto seja “conversa da treta” para muita gente, mas para mim é uma questão de convicção e de valores. Valores fortes. Acredito que o estudo da vida emocional dos animais e do seu impacto nos seres humanos ainda nos trará conclusões a que já deveríamos ter chegado, intuitivamente; e este livro, Wild Justice: The Moral Lives of Animals (via Bomba Inteligente), é mais uma contribuição. Relevante é também o doutoramento de Isabel Marques, que analisou o papel dos animais em contexto terapêutico junto de casos de esquizofrenia, psicoses e outros distúrbios graves. Sobre este assunto, saiu uma reportagem no Público de segunda-feira que ainda pode ser lida aqui. Para outro género de leituras, sugiro um livro que reúne o pensamento de Eckhart Tolle e os desenhos Patrick McDonnell, o autor da BD Mutts, intitulado Guardiões do Ser (ed. Pergaminho). Não é para crianças nem para adolescentes nem para adultos – é para todos. É para quem entenda, ou queira entender, que a Natureza e os animais têm muito para nos ensinar sobre nós mesmos e sobre os outros. Se isso não é importante, então não sei o que é importante. Talvez discutir a cuspidela da Maitê Proença, sei lá.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

AUTOBIOGRAFIA IMAGINÁRIA


"Nasci quando os meus pais já não se amavam. Cristina, a minha irmã mais velha, era nessa altura uma rapariguinha altiva, cujo simples olhar me tornava culpada de qualquer misteriosa ofensa contra a sua pessoa, que nunca consegui decifrar. Quanto aos meus irmãos Jerónimo e Fabián, gémeos e cheios de acne, não me ligavam nenhuma. De forma que os primeiros anos da minha vida foram bastante solitários. Uma das minhas mais antigas recordações remonta à noite em que vi correr o Unicórnio que vivia emoldurado na reprodução de uma famosa tapeçaria. Com assombrosa nitidez, vi-o começar a correr e desaparecer por um canto da moldura para reaparecer de imediato e retomar o seu lugar: lindo, branquíssimo e enigmático. Nunca soube por que razão o Unicórnio tentara fugir do quadro e isso intrigou-me durante muito tempo, e até me atemorizou um pouco. Por aqueles dias eu não devia ter mais de cinco anos – talvez apenas quatro –, mas essa recordação tem um lugar relevante entre as primeiras da minha vida. Às vezes, as recordações parecem-se com alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem por que razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam por se amontoar no fundo dessa gaveta que evitamos abrir, como se lá fôssemos encontrar alguma coisa que não desejamos, ou inclusive tememos vagamente."

(Excerto do primeiro capítulo do livro Paraíso Inabitado, de Ana María Matute, nome grande das letras espanholas que também deixou uma marca indelével na literatura para crianças. Uma edição Planeta.)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O GALO CANTA DE GALO


Canta o Galo Gordo – Poemas e Canções Para Todo o Ano, de Inês Pupo e Gonçalo Pratas (ed. Caminho), ganhou o prémio de Melhor Ilustração para Livro Infantil no último Amadora BD, em que também estavam nomeados Bernardo Carvalho (As Duas Estradas), Peter Newell (O Livro Inclinado), Luís Henriques (Sabes, Maria, o Pai Natal não Existe), Korky Paul (O Tapete Voador da Mimi) e Susanne Janssen (A Incrível História da Menina Pássaro e do Menino Terrível). O mérito vai para Cristina Sampaio, uma das mais reconhecidas ilustradoras e cartonistas portuguesas. Mais pormenores biográficos na informação enviada pela editora:

"Cristina Sampaio nasceu em Lisboa. Em 1985 licenciou-se em pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Ilustra livros infantis desde 1987 e trabalha desde 1986 como ilustradora e cartonista para diversas revistas e jornais em Portugal e no estrangeiro (entre outros, Público, Expresso e Diário de Notícias, em Portugal; Courrier International, em França; Boston Globe, Wall Street Journal e New York Times, nos EUA.) Trabalhou em cenografia, multimédia e animação. As suas ilustrações foram apresentadas em várias exposições colectivas e individuais, em Portugal, no Brasil, na Alemanha, França, República Checa e Grécia. Em 2002 e em 2005 foi-lhe atribuído pela Society of News Design (EUA) o Award of Exellence. Em 2006 recebeu o Prémio Stuart de Desenho de Imprensa na categoria de Cartoon/Caricatura. Em 2007 foi-lhe atribuído o 1.º Prémio na categoria de cartoon editorial do World Press Cartoon."

20 ANOS EM 90 MINUTOS


Qual é o cúmulo da gula intelectual? Devorar em 90 minutos aquilo que pode saborear em 20 anos. De Henrik Lange, está aí a chegar 90 Livros Clássicos Para Pessoas com Pressa (ed. Presença). “Em quatro vinhetas, contamos-lhe toda a história, uma espécie de romance destilado, para que consiga ler 90 livros numa hora.” Eis alguns da lista:

A Bíblia
Admirável Mundo Novo
, 1932, Aldous Huxley
Cidade de Vidro, 1987, Paul Auster
Drácula, 1897, Bram Stoker
Rambo, 1972, David Morrell
The Golden Notebook, 1962, Doris Lessing
O Grande Gatsby, 1925, F. Scott Fitzgerald
As Viagens de Gulliver, 1726, Jonathan Swift
À Boleia pela Galáxia, 1979, Douglas Adams
Cem Anos de Solidão, 1967, Gabriel Garcia Marquez
Em Busca do Tempo Perdido, 1913-1927, Marcel Proust
O Perfume: História de Um Assassino, 1985, Patrick Süskind
Cemitério das Mascotes, 1983, Stephen King
A Sombra do Vento, 2001, Carlos Ruiz Zafón
O Código Da Vinci, 2003, Dan Brown
O Senhor dos Anéis, 1954 e 1955, J.R.R: Tolkien
O Processo, 1925, Franz Kafka
Crime e Castigo, 1866, Fiódor Dostoiévski
Dom Quixote de La Mancha, 1605, Miguel de Cervantes
Orgulho e Preconceito, 1813, Jane Austen
O Alquimista, 1988, Paulo Coelho

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

... DA FRENTE


Por causa do António Sérgio, subi ao sótão para procurar um velho fanzine dos anos 80, o …Da Frente, escrito e editado pelo João Reis (que depois se tornou actor), com a colaboração de mais alguns indefectíveis melómanos. Esta é a capa do nº 4, com data de Abril-Maio de 1985. Lá dentro, dactilografados numa letrinha minúscula, havia poemas de produção caseira e artigos sobre os GNR, Cocteau Twins, This Mortal Coil, The Smiths, Ezra Pound e a Loucura, Leonard Cohen, Tones on Tail, Bauhaus, Tom Waits, Julian Cope, Echo & The Bunnymen e Rita Mitsouko. O …Da Frente vendia-se, entre outros locais, na Livraria Castil do Centro Comercial Alvalade, em Lisboa, e na Discoteca Tubitek, no Porto. Custava 40 Escudos. Tudo isto fez parte do meu crescimento e tudo isto me continua a assombrar, tal como a voz do António Sérgio, desde ontem. Esta canção é para ele.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

KALANDRAKA COM NOVA CHANCELA: FAKTORIA K


Não é exactamente “nova”, porque em Abril já tinha saído um livro com o logótipo da Faktoría K de Libros: Nascer – Animais Extraordinários, de Xulio Gutiérrez e Nicolás Fernández, que pode ser visto aqui. Agora adaptada para português, a Faktoria K envereda por “uma linha editorial um pouco diferente da da Kalandraka e nem sempre direccionada para o público infanto-juvenil”, disse-nos a editora Margarida Noronha. Em breve, serão publicados dois novos títulos: Todas as Respostas às Perguntas que Nunca te Fizeste e Mais Respostas às Perguntas que Nunca te Fizeste, ambos de Philippe Nessmann (texto) e Natalie Choux (ilustrações). Ainda segundo Margarida Noronha, que aposta numa crescente portugalização da editora galega com sede em Matosinhos, estes títulos “destinam-se a crianças com mais de 7 anos e até, sensivelmente, 12 anos, constituindo uma espécie de livro dos porquês”.

Para já, está aí a chegar o muito esperado Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak – nas livrarias a partir de 13 de Novembro, nos cinemas a 26 do mesmo mês. Até ao Natal, a Kalandraka publicará ainda três novos picture books: Um Bicho Estranho, de Mon Daporta e Óscar Villán; Mago Goma, de Toño Núñez e Adrià Fruitós; e ainda Um Grande Sonho, de Filipe Ugalde, obra vencedora do II Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PICTURE BOOKS: MAIS DO QUE LIVROS COM IMAGENS

Não há muito tempo, tive o desprazer de ouvir uma conhecida autora e ilustradora referindo-se em público a «esses livros com pouco texto» com um desdém notável. «Livros com pouco texto» são aqueles que se escrevem «enquanto se lava a louça», para dar o seu próprio exemplo – a não seguir. Em bom rigor, teremos de lhes chamar picture books ou álbuns, consoante se prefira a terminologia da escola anglófona ou francófona. Opto pela primeira, por razões geracionais e não só.

É verdade que os picture books, ou picture story books, têm pouco texto ou até nenhum texto. A brevidade faz parte da sua natureza, à semelhança dos aforismos e ao contrário das epopeias. Nada a fazer a esse respeito. Com muito texto, é provável que entrem na categoria de livros ilustrados, mas não de picture books. Não sendo as fronteiras entre uns e outros totalmente estanques nem isentas de controvérsia, há um critério fundador a ter em conta: os picture books distinguem-se pela relação sempre indissociável entre texto e ilustração, assentando normalmente num esquema de leitura de página dupla (double-page spread), marcado pela tensão dramática e pela expectativa em relação ao que vem a seguir.

Um bom picture book não mostra tudo; antes sugere e provoca inferências de significado, estimulando a capacidade de interpretação da criança e de qualquer leitor. Mais do que uma relação forte, palavras e imagens desenvolvem uma relação de forças, no sentido em que se gera uma tensão criativa entre as duas linguagens, longe da mera função complementar do livro ilustrado tradicional. Em vez de se limitar a reproduzir em imagens o que já é dito por palavras, um bom picture book acrescenta informação ao texto, podendo mesmo subvertê-lo com a inclusão de efeitos irónicos, ambíguos ou incongruentes. Quando escritor e ilustrador se libertam do ego e do complexo competitivo, esta tensão criativa costuma dar origem a livros admiráveis. O mesmo vale quando escritor e ilustrador são um só, sendo neste caso a competição mais fácil de gerir. Last but not least, o design, o grafismo e a concepção editorial contribuem para o enriquecimento do que pode ser uma obra de arte global, talvez a primeira a que a criança tem acesso fácil.

Peter Hunt, professor da Universidade de Cardiff e um nome de referência nestas matérias, considera que o picture book será o único contributo – genuíno e original – da literatura infantil para o campo literário em geral. Seria bom ver mais editores portugueses a interessarem-se por este amplo mercado, ainda muito preenchido por traduções de qualidade oscilante. E também escritores, ilustradores e designers gráficos ou directores de arte, já que todos têm um papel determinante no conjunto do processo criativo. Ainda há um juízo de valor implícito na apreciação dos picture books, como se os livros ilustrados não pudessem ser também literatura. Como se um escritor de livros para crianças provasse o seu talento seguindo o ritmo do contador de caracteres. Convenhamos: se escrever pouco e bem fosse fácil, os melhores publicitários não seriam tão generosamente remunerados. Grandes ideias podem surgir «enquanto se lava a louça», mas fazer um bom picture book dá mais trabalho do que parece.

(Texto publicado ontem na secção de «Opinião» do Blogtailors.)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MAIS DIAS COM ÁRVORES

Por causa de um comentário deixado neste post, fiquei a saber do regresso – após um ano em pousio – do blogue Dias Com Árvores. Obrigada ao Paulo, à Manuela e à Maria por continuarem esta obra admirável (e acho que não é exagerado dizer isto). Agora desculpem, que tenho muita leitura para pôr em dia.

I MISS MY HERMES, BABY


Quando quero matar saudades da minha primeira máquina de escrever, procuro A Namorada de Wittgenstein. Também tive uma assim, “igualita, igualita, igualita, igualita, igualita”, como se diz num filme do Almodóvar. Era do meu pai, a mesma máquina em que ele escreveu centenas de poemas, antes de os queimar um a um, com medo de parecer sei lá o quê. Uma Hermes Baby dos anos 1960, verde-água, aquele verde igual a uns certos comprimidos que faziam pensar depressa, fumar muito e acordar no dia seguinte a ranger os dentes, na ressaca de uma genialidade ilusória. Desse tempo, só tenho um monte de folhas amarelecidas, dactilografadas a um espaço, com títulos parvos e pomposos como “Formalização e idealização da realidade poética em Baudelaire” (efeito dos comprimidos), cheios de baboseiras académicas que não me atrevo a reler. Não sei o que foi feito dela, dessa Hermes Baby. Um dia mudei de casa e deixei para trás uma arca cheia de coisas preciosas, mas esqueci-me de a fechar a chave, até porque não havia chave. Foi o bastante para “facilitar o extravio”, como se diria em linguagem alfandegária. Perdi-a, em boa verdade; ou deixei que a perdessem, o que vai dar no mesmo. Pagava para ter de volta a minha Hermes Baby, se a culpa tivesse preço. Não tem. O melhor que consigo fazer é olhar para este blogue e imaginá-la em boas mãos. É que nunca se sabe as voltas que os extravios dão até se completarem.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

OS MONSTROS CHEGARAM


Finalmente editado em Portugal, 46 anos depois. É quase o tempo de uma ditadura. Ver aqui e clicar nas "Novidades".

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TRILOGIA SAGRADA




Há algum tempo, o Márcio Almeida Jr., do blogue brasileiro Viver e Contar, pediu-me que elegesse os três melhores livros da história da literatura infantil. Aceitei, sabendo de antemão tratar-se de uma tarefa ingrata, inglória, impossível – e essencialmente pessoal. Where the Wild Things Are, o livro de Maurice Sendak que deu origem ao filme prestes a estrear-se nas salas de cinema, foi uma dessas escolhas. Os senhores que o acompanham não lhe ficam atrás.

1. Peter Pan, J. M. Barrie (1911)

«Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer», escreveu Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos? Quase um século depois da passagem do palco para o romance, Peter Pan continua a questionar as nossas noções comuns do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. A ambiguidade serve-lhe de ampla matéria literária, moldada entre a luz e as sombras. A Terra do Nunca, com os seus índios, piratas, sereias e fadas – e os seus meninos tão livres e tão perdidos – é uma das fantasias mais consistentes de sempre. E se Gancho é um vilão nobre e melancólico que porventura apetece consolar, Peter Pan pode ser amado justamente pelas razões contrárias. Herói excessivo, egocêntrico, inconveniente, ingrato e egoísta – como todas as crianças –, ele representa a nossa reserva amoral de compreensão. O que nele podemos detestar é algo que em nós já se perdeu há muito. Daí a mágoa, daí a sedução.


2. Where the Wild Things Are, Maurice Sendak (1963)

Where the Wild Things Are é um título revolucionário de um autor que continua a ser alvo de controvérsia e censura. Publicado numa época de mudança de mentalidades, tem da criança uma visão que nunca é redutora ou infantilizante, antes emocionalmente complexa e plena de potencialidades. Visualmente, cada página é uma lição de enquadramento, cor, forma e textura. Há um investimento extraordinário na ligação entre texto e imagem, como é próprio da linguagem do picture book (ou álbum, na tradição francesa), numa história que se desenrola como uma viagem interior – à conquista da identidade e da autonomia. Com um domínio tão inventivo quanto rigoroso dos códigos linguístico, simbólico e plástico, Maurice Sendak concebeu uma obra que representa um ponto de viragem na arte de escrever e ilustrar esse livros que as crianças reclamam para si.


3. Matilde, Roald Dahl (1988)

Entre os muitos livros de Roald Dahl, Matilde é um caso sério de humor insolente, resistência e imaginação – três antídotos seguros contra o derrotismo, a mediocridade, a violência e outros males permanentes da humanidade que também passam por este livro. A maioria das personagens adultas – desde os imbecis pais de Matilde à directora torcionária da escola, a Sra. Trunchbull – não são tratadas com brandura, porque não o merecem. Roald Dahl soube olhar para o mundo com as emoções e os sentidos de uma criança; e, ao mesmo tempo, interpretá-lo com o distanciamento sábio e irónico de certos adultos. As ilustrações de Quentin Blake, seu compagnon de route, fazem deste livro uma referência contemporânea, seguindo a herança de Charles Dickens e outros grande escritores.

domingo, 25 de outubro de 2009

UNIDOS PELO VERBO


Com mais produção e menos religião, os Flor Caveira poderiam ser uma espécie de Flight of the Conchords portugueses. O calibre das letras é idêntico e até as iniciais são as mesmas. Via Senhor Palomar.

(…)

I asked Dave if he's going to move on you.
He's not sure.
I said "Dave, do you mind if I do?"
He says he doesn't mind.
But I can tell he kind of minds.
But I'm going to do it anyway.

I see you standing all alone by the stereo.
I dim the lights down to very low, here we go
You're so beautiful.
You could be a waitress.
You're so beautiful.
You could be a air hostess in the 60s.
You're so beautiful.
You could be a part-time model.
But then I seal the deal,
I do my moves.
I do my dance moves.

(The Most Beautiful Girl in the World. Para ouvir e ver aqui.)

O PAÍS PALEOLÍTICO


Castelo Melhor, freguesia do concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma aldeia parada no tempo, ruas estreitas onde pouca gente passa e as casas ostentam o avanço da decrepitude. O quadro repete-se no país interior, pobre e desertificado, mas Castelo Melhor é um caso extremo de perplexidade.

Há 13 anos que esta é uma das portas de entrada para o Parque Arqueológico do Vale do Côa, sinónimo de dezenas de turistas que ali aportam diariamente, à espera de encontrarem um restaurante, uma esplanada ou um café decente, enquanto aguardam a hora da visita às gravuras rupestres. Não há nada. A cerca de meia hora de entrar para o jipe, às 13h30, tentei comer qualquer coisa rápida, sem cerimónias. Uma sopa, uma sande de presunto, uma cerveja e a coisa compunha-se. Pensava eu.

Ao lado da Junta de Freguesia, encontrei um sítio onde não arriscaria sequer lavar as mãos. Mais acima, um café onde não tinham pão – o equivalente a um hotel sem camas ou a uma biblioteca sem livros. No Restaurante Paleolítico, uma tasca onde o único prato era frango com massa, a má vontade sobressaiu quando perceberam que não queria comer de faca e garfo. Mandaram-me esperar pelas sandes, que havia clientes à frente. Fui-me embora e almocei amêndoas e figos secos, vendidos na casa de produtos artesanais que abriu este Verão, o único sítio simpático da terra. É assim há 13 anos, e cada vez pior, dizem os responsáveis do parque. Aparentemente, os turistas que vão ver “os riscos feitos pelos pastores”, como ainda há quem pense, são um enfado e um incómodo para a próspera freguesia de Castelo Melhor, onde a riqueza é tal que ninguém precisa de trabalhar nem de ter ideias para ganhar dinheiro. Mais vale embrutecer, orgulhosamente sós. Ah, ditosa terra que tais filhos tem.

sábado, 24 de outubro de 2009

A NOSSA SOPHIA


O correio trouxe ontem mais um novo livro da colecção editada desde 2005 pela Dom Quixote. Com texto de Fernando Pinto do Amaral, especialista na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen e, em especial, nos seus livros “para crianças”, A Minha Primeira Sophia surge enriquecida com as ilustrações de Fernanda Fragateiro, aquelas aguarelas profundas e delicadas que tão bem reconhecemos. Há algumas páginas em que alguns pormenores mais escuros se confundem com a mancha de texto, dificultando a leitura, mas fora isso é um livro muito bonito e bem concebido. Sophia haveria de gostar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

LER PARA A VIDA

“Households with girls have ten more children’s books than those with boys. One in every 20 family homes in Britain today has fewer than ten books.”

Mais resultados do inquérito do projecto Reading For Life no Beattie’s Book Blog.

ANTÍPODAS, 2


“In his book Mark Price tells the bare truth of his expedition to the other side of the world to find New Zealand’s Antipodes. With his six white poplin shirts and rented Ford Focus he proves the perfect fall guy for the somewhat downbeat expedition members, and the ever frugal La Campana. Effortlessly, he captures the kiwi sense of the ridiculous with a dry, dead pan humour and an economy of words.”

Como já se percebeu, Antipodes, de Mark Price, é um livro de viagens sobre os antípodas dos antípodas: Espanha, pensa ele. Portugal, dizemos nós. Aqui é que era. Não tiveram coragem.

ANTÍPODAS, 1


Rachel King, autora neozelandesa que se estreou há pouco por cá com A Música das Borboletas, já tem um novo livro: Magpie Hall. Sai em Novembro. Nos antípodas, é claro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

ATELIER ESTRAMBÓTICO DO PROFESSOR REVILLOD


Conhecem o Tifantu – cabeça de tigre, dorso de elefante, cauda de tatu? É provável que não. O Animalário Universal do Professor Revillod, que já tínhamos apresentado aqui, explica-nos que se trata de um “animal feroz de porte majestoso da região do Orinoco”. Mas, se trocarmos uma das três partes da página, o resultado será um “animal feroz de hábitos omnívoros da região do Orinoco”. Nova troca e deparamo-nos com um “animal feroz de hábitos omnívoros de ambientes malsãos.” E podíamos ficar nesta experimentação de combinações anatómicas até ao fim do dia, ou talvez até mais, já que esta “jóia bibliográfica da zootecnia moderna” permite chegar à formulação de 4096 feras diferentes, todas retratadas com o pormenor e o rigor científico do Professor Revillod. Podíamos fazer isso e seria mais divertido do que ir trabalhar, mas pronto. Lembramos ainda que quem quiser participar no Atelier Estrambótico organizado pela Orfeu Mini só tem de aparecer no próximo sábado, dia 24 de Outubro, às 11h00, no Centro Comercial Colombo (Lisboa). É para miúdos dos 4 aos 8 anos, com entrada livre.

TEXTO GANHA PRÉMIO EM FRANKFURT


Palmo e Meio (3-4 anos), um projecto de ensino pré-escolar da Texto Editores, ganhou o segundo prémio de melhor manual escolar na categoria Primary School, atribuído na Feira do Livro de Frankfurt. Organizado pelo European Educational Publishers Group e direccionado a todas as editoras escolares do espaço europeu, o concurso distingue os três melhores livros publicados em toda a Europa na categoria Primary School (Pré-Escolar, 1.º e 2.º ciclos) e na categoria Secondary School (3.º ciclo e ensino secundário). Com o projecto Palmo e Meio, de Manuela Guedes e Luísa Mendes (e ilustrações de Carla Nazareth), seleccionado entre os 48 manuais a concurso, a Texto vê um projecto escolar seu premiado nesta categoria pelo segundo ano consecutivo.

Mais informações sobre o concurso nos seguintes links:
http://www.schoolbookawards.org/
http://www.eepg.org/
http://www.iartem.no/

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O PORTUGAL DA PORRA


Miguel Sousa Tavares, o mesmo que acha estranho que haja quem se preocupe com as “condições psicológicas” em que vivem os animais domésticos (as aspas são dele), preferindo certamente assobiar para o lado quando sabe de um cão fechado na varanda ou na casa de banho durante dias a fio, insurgiu-se na sua última crónica no Expresso contra a nova lei respeitante aos animais no circo. Diz ele, alcandorado no sarcasmo confortável das elites:

“Eis mais um retumbante triunfo da cultura urbana, moderna e civilizada. Porque o fundo da questão está no que diz Victor Hugo Cardinali – um honrado nome de uma família que tem feito sonhar gerações e gerações de crianças, com os seus tigres, leões e elefantes, saídos da televisão e dos joguinhos de computador para a tenda do circo: «Eu também posso fazer algo como o Cirque do Soleil, para os intelectuais de Lisboa e do Porto. Mas experimentem levar isso a Portalegre e eles vão perguntar ‘que porra é essa?’». É contra este Portugal da porra que em boa hora surgiu a portaria a defender as centopeias, os aligators e também, já me esquecia, os nandus e os crotalos.”

Que fique sossegado o “Portugal da porra”, porque ainda não é desta que Victor Hugo Cardinali vai averiguar que porra é essa do teatro-circo, nem dar emprego aos alunos da porra da escola do Chapitô. Ele sabe que “a cultura do povo português não passa por aí”, afirmou-o na entrevista que o jornal i puxou para a capa, com um título a tresandar a demagogia: “Os meus animais são mais bem tratados que os pobres deste país.” Mais esclarecimentos no excerto que se segue:

“Mas os circos estão condenados?
Muitos circos pequenos sim, mas eu não tenho nada a ver com isso. [o altruísmo de um honrado nome de uma família]
E o circo enquanto arte?
Nesse sentido acho que sim, porque o que traz as pessoas ao circo são os animais. [a sabedoria de um honrado nome de uma família]
Há o argumento de que podia haver mudanças, como quando se deixou de usar mulheres barbudas e anões…
Este ano vou trazer outra vez anões. Nos circos lidamos com os anões como um ser humano qualquer. E os cegos que andam todos a pedir em Lisboa, porque são cegos? Não é discriminação? Os ceguinhos deste país deviam ser acolhidos por quem de direito. É uma hipocrisia, uma fantochada. [o progressismo de um honrado nome de uma família]”.

P.S. - No meio desta confusão de alhos e bugalhos, só uma coisa me intriga: quem é o nandu e quem é o crotalo?

domingo, 18 de outubro de 2009

PRÉMIO JOSÉ SARAMAGO 2009


Deixem-me ser exclamativa: parabéns, João!

DOURO SUPERIOR








Entre São Salvador do Mundo e o Vale do Côa, há cerca de uma semana, o Douro estava assim. As fotografias foram tiradas pelo jardineiro convidado do blogue, Guto Ferreira, com uma velhinha Yashica FX-3 e um rolo Kodak Ektar 100. Parece que o filme é que faz a diferença, digo eu que não percebo nada do assunto.

HÁ QUANTO TEMPO NÃO VIA ISTO


Uma tapeçaria com paisagem de cavalos na chapeleira de um Toyota Corolla. Fotografia tirada na aldeia de Castelo Rodrigo (Douro Superior), onde há uma casa de chá com um fabuloso sortido de whiskies e as melhores tartes de amêndoa que me lembro de ter experimentado nos últimos tempos. Vão por mim.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

PAIS E FILHOS



Acho que foi o MEC quem escreveu, há uma data de anos, que não imaginava ninguém a reler banda desenhada. Bom. Provavelmente, até ele já discorda desta ideia peregrina. À semelhança de Tamara Drewe, não sei se Fun Home – A Family Tragicomic se classifica mais como uma novela gráfica do que como banda desenhada, mas pouco importa. É um dos melhores livros que me passaram pelas mãos este ano e só estou a adiar por mais um pouco o gozo de o reler, com atenção aos pormenores mais subtis e àquelas palavras que se tem preguiça de ir ver ao dicionário, quando ganha a voracidade leitora.

Publicado originalmente em 2006 (ed. Mariner Book, New York), premiado e incensado pela crítica, Fun Home é a autobiografia de Alison Bechdel, cartoonista norte-americana nascida em 1960 que, ainda adolescente, constrói a sua verdade identitária sobre a grande mentira do pai, homossexual dissimulado e dado a escapadelas com rapazes menores de idade. Só perto dos vinte anos, após a morte deste num acidente de viação (com ressonâncias de suicídio à la Albert Camus), é que Alison, já lésbica assumida, descobre o segredo obscuro que pairou na casa neo-gótica de uma pequena terra da Pensilvânia, restaurada e decorada com desvelo pelo próprio pai. Nessa casa do século XIX, “uma natureza-morta com crianças”, Alison cresce com mais dois irmãos sob a vigilância de pais eruditos e afectivamente ausentes que se suportam com azedume. O negócio de família, uma agência funerária (Fun Home, o título, é a abreviação irónica de Funeral Home), contamina cada tentativa de aproximação com a frieza minuciosa dos cadáveres. Apesar de tudo, o relacionamento entre pai e filha, feito de compreensão tácita, mas sobretudo de silêncios e de dominação, é demasiado importante para ser ignorado. Como Ícaro voando no céu, Alison parte para a conquista da sua identidade desejando que o pai, um Dédalo de mãos hábeis e personalidade labiríntica, esteja lá para a amparar se ela cair. Não é o que todos os filhos desejam?

HOJE É DIA DE AGUSTINA BESSA-LUÍS


Festa no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 15h00. A entrada é livre.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PARECE MESMO O PARAÍSO


Stonefield é um retiro para escritores em pleno british countryside, onde a inspiração se cultiva em camas com edredões de penas, sestas à lareira, tartes de fruta e comida orgânica. Se tudo isso não chegar, há sempre uma taça de vinho ao fim da tarde e o pub local, onde o gossip literário e não só se põe em dia. Por trás deste cenário privilegiado, há especulação imobiliária e adolescentes a envelhecer de tédio nas paragens de autocarro abandonadas, cujas maiores diversões consistem em atirar ovos aos automóveis e assustar as vacas que pastam no prado. Fuma-se muito. O campo é um deserto de ideias e de sentimentos sólidos – e se os adultos se entretêm com o adultério, a intriga e a má-língua, os adolescentes sonham com a vida das celebridades e “snifam” latas de aerossol quando precisam de um bom kick. Não é um retrato simpático, este que Posy Simmonds publicou em banda desenhada nas páginas do The Guardian e mais tarde passou a livro (ed. Jonathan Cape, 2007). Tamara Drewe, uma beldade esculpida a bisturi que aterra em Stonefield e de quem vagamente se pode dizer que é jornalista (mas também quer escrever dois ou três romances antes dos 35 e, claro, fazer um livro para crianças), é uma daquelas personagens que irritam do princípio ao fim. Os escritores não se saem melhor do retrato. Egocêntricos, egoístas, invejosos, arrivistas, vaidosos, autoindulgentes e mentirosos, não têm problemas em conciliar o homicídio involuntário com a escrita de best-sellers. OK. Já tive a minha dose de cinismo para as próximas semanas. Resta lembrar que Stephen Frears vai adaptar Tamara Drewe ao cinema, com a Bond girl Gemma Arterton no papel principal. Tem todas as condições para ser um bom filme.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O PRINCÍPIO DO FIM

É verdade que a nova lei não garante o bem-estar dos animais que já se encontram nos circos, mas, caramba, não digam que esta não foi uma boa notícia para começar a semana. Tadinho do Sr. Cardinalli e quejandos. Ainda vão ter de engolir o Cirque du Soleil e aprender a fazer espectáculos que não agradem só aos "queques de Lisboa".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PROLONGAMENTO


Já aqui falámos do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio Centro Cultural do Alto Minho. A ideia é incentivar o aparecimento de "novos escritores e consolidar aqueles que já escrevem há algum tempo, mas que por falta de oportunidade não encontram espaço para a publicação dos seus textos". Todos vão gostar de saber que o prazo de recepção de candidaturas foi alargado até à próxima quinta-feira, 15 de Outubro. Regulamento completo e telefone aqui.

NAMORAR ÀS ESCURAS


Enquanto passeávamos no Douro, fazendo fintas às inesperadas chuvas torrenciais, A Namorada de Wittgenstein andou pelo meio dos canteiros e visitou os fantasmas que dormem há um ano nas nossas árvores. E eles ficaram assombrados com este belíssimo texto.