terça-feira, 16 de junho de 2009

PÉROLAS, 2: A BRANCA E A PRETA


Mais uma pérola de outros tempos desencantada nas estantes da livraria Sá da Costa, que aqui reproduzo abreviadamente. O autor é o mesmo das inefáveis Flores Para Crianças, “um dos maiores escritores de literatura infanto-juvenil da actualidade”, segundo definição do próprio. Comentários para quê? É um case-study português.

“Branca de Neve brincava
com mil brinquedos que tinha,
nada a ela lhe faltava
em sua rica casinha.

Tinha bonecas que andavam,
carrinhos e caminhetas,
tinha aviões que voavam,
pianos, tambores e cornetas.

(…)

Tinha tudo, assim parecia,
mas é bom de adivinhar
que faltava companhia
para com ela brincar.

E ao Caracol perguntou
o que havia de fazer.
– Pede à Fada – explicou –
tudo o que desejas ter.

Quero uma menina, Fada,
p’ra brincar sempre comigo.
E logo a nova criada
trouxe uma filha consigo.

Era triste o seu olhar,
muito bom seu coração,
mas nem sabia brincar.
Era a Negra de Carvão.

(…)
Branca deixou-a brincar
com os brinquedos que tinha,
Negrita ficou a olhar
boca aberta, pasmadinha.

(…)

Foi um dia de encantar!
Sonhavam ser sempre assim…
Mas não as deixam brincar
e o princípio fez-se fim!

- Menina Branca de Neve
não posso brincar consigo:
sua Mãezinha me teve
duas horas de castigo.

Branca de Neve correu
a saber qual a razão
do castigo que a Mãe deu
à Negrita de Carvão.

- Na cozinha a lavar
ou limpando o corredor
é que a preta deve estar.
Ela é pobre e doutra cor!

(…)

[Porque receio bem nesta altura já ter perdido os meus últimos cinco leitores, aqui fica o já final da história e respectiva moral.]

Branca aprendera a lavar,
a engomar e a coser,
Negrita a saber brincar,
a bem ler e a escrever.

[Que bonito.]

segunda-feira, 15 de junho de 2009

PÉROLAS, 1: MAIAKOVKSI PARA CRIANÇAS


A Livraria Sá da Costa, ao Chiado, descobriu uma série de caixotes empoeirados cheios de relíquias. Dizem que há mais no armazém de onde estes vieram, por isso é andar atento. Desde o muito bom ao muito mau – o que depende sempre de uma escala subjectiva de valores –, encontra-se lá de tudo. Por exemplo, este Maiakovski Para Crianças 1 – O que é bom e o que é mau, numa tradução directa do russo datada de 1983 e publicada pela defunta editora Polemos. Vejam o que aqueles adultos ainda imbuídos do espírito pós-revolucionário de Abril davam então a ler às ‘criancinhas’ indefesas. Felizmente, nessa altura já tinha 14 anos e andava mais interessada nas temáticas da droga e do rock’n’roll. Refiro-me, é claro, ao clássico Os Filhos da Droga, os diários de Christiane F., que li viciadamente umas 12 ou 13 vezes. Juro. Sempre era mais estimulante do que isto:

“O menino pequenino ao pé do papá chegou e perguntou:
‘O que é bom e o que é mau?’

Para mim não há segredos.
Oiçam, meninos: a resposta do papá neste livro está.

Se o vento os telhados leva sem aviso.
Se cai com força o granizo: já se sabe que é mau para quem anda na rua.

A chuva caiu e passou.
O Sol a terra iluminou.
Isto é muito bom para grandes e pequenos.

Se o menino se enfarruscou e a cara toda sujou,
claro que é mau para a pele do marau.

Se o menino gosta de sabonete e de pasta de dentes,
é porque é asseado e bem comportado.

Se bate com maldade num menino mais pequenino,
não o deixo sequer neste livro aparecer.

Vejam como este grita: ‘Não batas naqueles que são mais pequenos!’
Este menino é tão bom, nada somenos!

Se tu o livro rasgaste todo e a bola estragaste,
toda a gente se põe a pau: ‘Que menino tão mau!’
Se um menino gosta de estudar e o livro segue com o dedo,
eu escrevo sem hesitar: é um bom rapaz.

Este até dos pombos tem medo, o medricas.
Este menino é um maricas.
O que é muito mau.


Este, embora só de palmo e meio, de nada tem receio.
Bom rapaz, valente, à vida fará frente.

Este na lama chafurda galhofeiro de camisão carvoeiro.
Por isso dizem ao culpado: és mau, desmazelado.

Este engraxa as botas e escova bem as fatiotas: apesar de pequenino é um bom rapazinho.

Todos os meninos se devem disto lembrar.
Saibam as crianças recordar: em porcos se tornam os meninos,
se os meninos são porquinhos.
Correu o menino alegremente e disse como um valente: ‘Vou bem proceder e mau não ser.’"

domingo, 14 de junho de 2009

UM CONTO MUITO INADEQUADO



El Contador de Cuentos, de Saki, pseudónimo do escritor de origem anglo-birmanesa Hector Hugh Munro (1870-1916), tem pouquíssimas hipóteses de alguma vez ser conhecido em português (nem sequer o encontro na Amazon). Publicado pela editora venezuelana Ekaré, foi o livro vencedor na categoria New Horizons – distinção reservada a obras de qualidade vindas dos países árabes, América Latina, Ásia e África – da última Feira do Livro Infantil de Bolonha. Não era suposto estar à venda ao público no stand da feira, mas cada um faz pela vida; e se as grandes editoras europeias ou norte-americanas se podem dar ao luxo de recusar compradores ocasionais, outras não farão o mesmo. Por mim, encantada.

Com ilustrações de Alba Marina Rivera, El Contador de Cuentos narra um episódio passado durante uma viagem de comboio, sendo desde logo admirável o book jacket que envolve o livro, reproduzindo a carruagem. A história começa a ser contada desde aí. Se na capa interior é a imagem do contador de contos que surge destacada – é a única figura colorida –, no book jacket vê-se uma família bem composta mas em estranho sobressalto. A tia, de feições duras e obviamente zangada, repreende as crianças, que por sua vez parecem alheadas da influência que esta lhes pretende impor. Dir-se-ia que estão no mundo delas, um reflexo salutar, como se percebe no fim…

Será assim tão difícil “contar contos que as crianças possam entender e apreciar ao mesmo tempo”, como pretende a tia? O homem que viaja sozinho e partilha a mesma cabine de comboio não está de acordo. Perante a inabilidade da senhora em acalmar as crianças, decide contar ele mesmo uma história cuja protagonista é uma menina “horrivelmente boa”, expressão que cativa de imediato a atenção dos miúdos. Era uma menina tão boazinha, mas tão boazinha, que as medalhas de boa conduta, obediência e pontualidade que sempre trazia pregadas ao vestido – e que chocalhavam tanto, as horríveis medalhas – acabaram por denunciá-la quando tentava escapar de um lobo, escondida num arbusto, tremendo de medo. Não se aguentava o ruído de tanta bondade junta, estão a ver... O seu último pensamento foi: “Se não tivesse sido tão extraordinariamente boa, a esta hora estaria a salvo.” Depois veio o lobo e comeu-a. Eis o que disse a tia, no fim da história:

– “É um conto do mais inadequado que há para crianças pequenas. Acaba de deitar a perder o trabalho de anos de esmerada educação.”
– “Em qualquer caso – disse o homem, enquanto recolhia a bagagem e se dispunha a abandonar o vagão – mantive-os calados durante dez minutos, o que é mais do que a senhora conseguiu.”
– “Pobre mulher! – disse para si próprio enquanto chegava à plataforma da estação de Templecombe –; durante os próximos seis meses, mais ou menos, as crianças não deixarão de a perseguir diante de toda a gente, pedindo-lhe um conto inadequado.”

sábado, 13 de junho de 2009

EVELINA OLIVEIRA


A co-autora de O Cão Triangular (Campo das Letras, 2008) define-se como “uma pintora que ilustra”. Em Santa Maria da Feira, uma exposição de pintura/instalação na Galeria Ao-Quadrado (www.ao-quadradogaleria.com) dá a ver trabalhos seus até ao dia 30 de Junho. Podem espreitar o blogue aqui.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

PROFISSÃO: VISITANTE DE CASAS


Numa escola, há pouco tempo, um miúdo perguntou-me que profissão gostaria de ter, “se não fosse escrever”. Respondi-lhe que a profissão dos meus sonhos não existe. Consistiria em entrar nas casas de outras pessoas apenas para estar lá dentro. Casas antigas, grandes e sólidas, com outra dignidade e franqueza que raramente se encontra nos nossos vulgares apartamentos. Gostava de poder entrar e ver de perto a arrumação dos objectos, aspirar o cheiro das madeiras, abrir gavetas e mexer na roupa de cama, conhecer os mortos pelas fotografias. Depois, ir-me embora e trazer tudo para as histórias. Comentário do miúdo: “Mas afinal... era tudo para escrever!”. Quem é que quero enganar?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

FAMÍLIAS FELIZES


Sábado, num restaurante de hotel, uma família almoça em sossego. Pai, mãe e três meninas de idades compreendidas entre os 9 e os 12 anos – calculo, a curta distância. Discretos, educados, sem tiques de socialite nem alarvidades de novo-riquismo. Concentrada no meu carpaccio de bacalhau e numa revista, desvio os olhos como quem não quer a coisa e apuro os ouvidos de tísica (os míopes ouvem bem, por via de regra… Alguma vantagem tinha de haver, caramba). Não consigo perceber a mãe, que está de costas, mas não me desperta curiosidade. O pai é, nitidamente, o elemento dominante: é ele quem orquestra os diálogos, distribui a comida e manda as meninas sentarem-se, se alguma delas se levanta por momentos. Temperamento brando, mas firme. É óbvio que o português e a gramática fazem parte dos seus temas preferidos de conversa. Surgem à mesa questões do género: “Os macacos comem laranjas. Qual é o tempo, o modo e a pessoa?”. As meninas vão respondendo, entre o aborrecimento e um treinado sentido de responsabilidade que será o prenúncio de uma vida estável. Quase a terminar a refeição, todos se dirigem ao buffet de sobremesas. O pai brinca com o empregado e diz-lhe que filme este momento raro em que os adultos escolheram doces e as crianças optaram por fruta, “sem que ninguém as obrigasse”. Diz ele: “Isto é extraordinário.” Na verdade, tudo bate certo. O conforto e a angústia familiar em maravilhosa harmonia, uma arte sem paralelo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

À ESPERA DE JULHO


No Bosque do Espelho, de Alberto Manguel, a publicar em Julho pela Dom Quixote. "Uma viagem fantástica ao mundo dos livros" (comentário de Germaine Greer).

terça-feira, 9 de junho de 2009

LITERATURA PARA TOTÓS


Há quem diga que eu e a minha obsessão pela Nova Zelândia, e tal, e não sei quê, e isto e aquilo, e coiso, e porquê, e mais não sei das quantas. É tudo verdade. Pois bem, para mostrar que nem tudo o que vem de lá é bom, espreitem esta campanha do New Zealand Book Council, a instituição nacional de promoção da leitura, livros e autores que… enfim, tomáramos nós.

A ideia foi pegar em textos de poesia e prosa de autores neozelandeses e não só – lá estão Edgar Allan Poe, Tolstoi, F. S. Fitzgerald, Oscar Wilde… – e aplicá-los ao ambiente Windows, com muitos gráficos de barras, setas, tópicos alinhados, mapas, calendários e outras aplicações usadas em Power Point. O projecto chama-se Read at Work e, como o nome indica, pretende promover a leitura no escritório. Não percebo como é que alguém pode querer ler um poema de Emily Dickinson como se assistisse à demonstração de um novo produto para limpar casas ou à reformulação do organigrama lá da empresa. Se é só para ter graça, confesso não vislumbrar. Nem se lê, nem se trabalha, é o que eu acho. Mas se alguém estiver cansado e quiser fazer uma pausa Kit Kat, clique aqui para assistir a este admirável mundo novo aplicado à literatura. Eu vou pegar num livro.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

DANIEL SILVESTRE DA SILVA


Um novo ilustrador português (que, por acaso, já tem alguns livros publicados) a descobrir urgentemente. Alguns dos trabalhos a caneta preta fazem lembrar a técnica de Edward Gorey. Vejam o blogue.

domingo, 7 de junho de 2009

A CRÍTICA DA CRÍTICA, 2

Fico um bocado sem jeito quando me agradecem notícias, reportagens, entrevistas ou o que quer que esteja relacionado com esta desgraçada profissão que escolhi. Tivesse eu seguido os conselhos dos mais velhos e não teria sido jornalista (muito menos professora ou juíza, como também sugeria o oráculo), mas uma fluente gestora discursiva de línguas estrangeiras – quantas mais, melhor. As minhas raízes são aéreas, como as de certas árvores, e a mobilidade profissional tornou-se um valor que muito prezo. Com uma profissão um pouco mais exportável, a esta hora já me teria posto a milhas deste país cinzento que hoje vai a votos, palavra de honra. Mas enfim... “Vamos em frente que atrás vem gente”, diz-se lá na terra que me legou os melhores genes.

Fico um bocado sem jeito quando me agradecem, dizia, porque parto sempre do princípio que estou a fazer o meu trabalho, pelo qual sou paga – mal ou bem, não interessa. Não, não é falsa modéstia. É claro que gosto de ter feed-back acerca daquilo que faço; gosto que me digam “isto ficou bem” ou “enganaste-te aqui, totó”. Simplesmente, não estou à espera nem de uma coisa nem de outra. É mais saudável assim.

Surpreendeu-me, por isso, um e-mail do editor da Booksmile, Manuel de Freitas, sobre a nota crítica ao Galope!, publicada na última LER e também aqui. Não se trata de um mero agradecimento de circunstância, mas de atenção ao que, curiosamente, foi o aspecto menos conseguido que destaquei no livro: a adaptação do texto para português. Mais do que o fair-play revelado por Manuel de Freitas – e o fair-play é outro valor que muito prezo –, parece-me fundamental compreender que a crítica ao livro infantil não se pode eximir do papel de esclarecer quem lê, acabando de vez com esse preconceito de que não há nada a dizer de livros “fofinhos” e inofensivos que têm pouco texto e muitos “bonecos”. Devemos, pelo menos, tentar. Sem qualquer espírito de cruzada, porque as cruzadas dão sempre mau resultado.

A CRÍTICA DA CRÍTICA, 1


Existe, em Portugal, crítica literária ao livro infanto-juvenil? E a quem interessa, em primeiro lugar? Aos pais, aos professores, aos educadores, aos bibliotecários, aos estudiosos, aos leitores em geral? A todos estes, menos ao destinatário principal dos livros – ou seja, as próprias crianças? Como pode a crítica, muitas vezes reduzida à mera divulgação de títulos e textos de contracapa, desligar-se da função utilitária/educativa que historicamente está associada à literatura infantil? Questões em debate na última sexta-feira, na Biblioteca Municipal de Estarreja, onde todas as atenções estavam viradas para a campanha eleitoral que se fazia sentir mesmo ali ao lado.

Ainda assim, cerca de duas dezenas de pessoas deslocaram-se para ouvir os intervenientes do debate: Miguel Gouveia e Isabel Minhós Martins, da editoras Bruaá e Planeta Tangerina, respectivamente; Sérgio Letria e Andreia Brites, os incansáveis “bichos dos livros” que devoram quilómetros de terra para falar e mostrar livros a quem se interessa (e, pior, a quem não se interessa); e, por fim, uma convidada apresentada como “jornalista e crítica literária” que chegou lamentavelmente tarde... Os presentes aguardaram com paciência bíblica a aparição da dita pessoa, que tem neste momento em casa uma ficha de sugestões/reclamações da CP, com vista a inquirir as razões do atraso de 50 minutos do comboio Lisboa-Porto e, eventualmente, ser ressarcida dos danos causados à sua imagem. Com gente desta, dizemos nós, é óbvio que não se podem levar a sério os “livros de criancinhas”, como também há quem avise.

(Obrigada aos blogues Letra Pequena e Cadeirão Voltaire pela divulgação do debate “A Crítica da Crítica”, incluído no 2º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil organizado pela Biblioteca Municipal de Estarreja, a quem também agradeço o convite.)

A GALOPE, SEM PARAR


Galope!
Rufus Butler Seder
Booksmile

Em 1878, um dos pioneiros do processo fotográfico, Eadweard Muybridge, captou com várias câmaras um cavalo a galope, resolvendo uma querela da época: havia ou não um momento em que nenhuma das patas tocava o chão? A resposta é «sim» e foi recuperada por Rufus Butler Seder, o autor de Galope!, um best-seller que agora chega a Portugal. Inicialmente dedicado ao cinema, mas cada vez mais fascinado por invenções ópticas, Butler Seder patenteou uma técnica chamada scanimation, responsável por todos estes animais que se mexem com o mover da página, numa reprodução bastante fiel da realidade. O texto, muito simples, centra-se numa pergunta: «Sabes galopar como o cavalo?», «Sabes caminhar como o galo?», «Sabes correr como o cão?»... Na edição original, a imagem em movimento é apenas completada por uma expressão onomatopaica relacionada com cada animal. A adaptação portuguesa acrescentou uma frase em tom de reforço positivo, o que nos parece desnecessário e mesmo invasivo da dinâmica da página. Ainda assim, Galope! é um trunfo certo na estreia da Booksmile, uma nova editora que se assume como «vocacionada para o livro ilustrado de grande público» e promete publicar 27 títulos até ao fim de 2009.

(Texto publicado na LER nº 81)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

PORQUE ESCOLHEMOS OS ILUSTRADORES CERTOS


Esta foi a ilustração com que o Alex Gozblau acabou de ganhar o Grande Prémio Stuart de Desenho de Imprensa, atribuído pelo El Corte Inglés/Casa da Imprensa. Podem ler aqui a notícia do Público.

“Porque nos apaixonamos pelas pessoas erradas” foi publicada num artigo da revista Única do Expresso, a 13 de Setembro de 2008. Lembro-me perfeitamente de a ver e de ficar siderada. Está lá tudo exposto, não é preciso dizer mais nada. Quem sabe, sente. “Porque nos apaixonamos pelas pessoas erradas” é coisa que continuo a não perceber lá muito bem, mas não tenho dúvidas de ter acertado com o ilustrador, caraças. Que é como quem diz: parabéns! O nosso livro sairá dentro de poucas semanas e já se pode espreitar uma das páginas aqui. Vejam mais trabalhos no site (muito bem feito) que abre a lista dos Links à Sombra, à direita do jardim, ou então já aqui: Alex Gozblau.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

ESCREVER PARA CRIANÇAS É CANJA


Passar pela Biblioteca Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém, permitiu revisitar “Magic Pencil”, uma exposição itinerante de livros escritos e ilustrados por autores britânicos que esteve há algum tempo no CCB, em Lisboa. Um dos meus preferidos é Literary Life, de Posy Simmons, uma banda desenhada que disseca com refinado humor os mitos, os tiques e as falácias da comunidade literária e editorial. A página dedicada aos Children’s Picture Books é simplesmente hilariante. Entre outras coisas, ficamos a saber que:

- Uma história para crianças demora cinco minutos a escrever, não muito mais. Os picture books podem ser feitos durante a hora de almoço. Toda a gente pode escrevê-los.

- Nem toda a gente consegue ilustrar, mas toda a gente conhece alguém que o faz. Ilustrar livros para crianças não é exactamente trabalho, apenas umas horas aconchegantes em casa, a mexer em tintas e a ouvir a Rádio 4 (“Deve ser tremendamente divertido!”).

- Os picture books são muitas vezes escritos e ilustrados por mulheres de cabelo desmazelado que vivem em casas de campo na região de Suffolk; ou então por homens de barba aparada que usam sweaters de lã das Ilhas Aran e guardam em si uma vibrante criança interior. Ou ainda por abjectos corruptores da inocência infantil, que fazem livros sobre arrotos e outros sintomas escatológicos.

- 98 por cento das pessoas que trabalham na área editorial dos livros para crianças chamam-se Emma e usam calças de lycra pretas com mistura de lã. Em algum momento, 85,5 por cento destas pessoas estão a editar um livro sobre um gato.

- Todas as reuniões editoriais e festas com autores e ilustradores são acompanhadas por ursos e coelhos.

- Os autores de livros para crianças são tidos na mais elevada consideração. Alguns dos comentários mais ouvidos: “Oh, que engraçado! E alguma vez se dedica à escrita a sério?» Ou então: «E quanto tempo vai ficar no infantil? Suponho que queira passar para a literatura adulta.»

Oh, dear. Não é verdadeiramente… charming?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A NAMORADA DE WITTGENSTEIN


Só tem três meses, mas já é um dos títulos mais bonitos da blogosfera: A Namorada de Wittgenstein. Micro-histórias, greguerías e pensamentos de Maria João Freitas, uma escrevedora de quem gosto muito.

“Era uma vez uma mulher que sofria de uma estranha forma de cleptomania: gostava de roubar o que não estava à venda. Ou, se preferirem, gostava de roubar ausências, vazios, suspensões, imaterialidades. Talvez seja melhor dar alguns exemplos. Sabem o que roubava no Pingo Doce? Os buracos nas fatias de queijo Emmental. Nas livrarias, guardava o espaço em branco entre as linhas de um poema nos bolsos, até não caber mais nenhum. Nas ourivesarias, o seu objecto de furto preferido era o espaço vazio dentro de um anel com brilhantes.”
(…)

Ler aqui.

DICIONÁRIO DO LIVRO, 2: BLOGOSFERA

Blogosfera: Maneira de reabilitar a escrita e a língua.

(in Dicionário do Livro – Da escrita ao livro electrónico, de Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão, Almedina)

terça-feira, 2 de junho de 2009

ÁLVARO MAGALHÃES EM ENTREVISTA À NM


(…)
Já disse que começou a escrever literatura infantil para a sua filha, personagem principal d’O Circo das Palavras Voadoras. Como é que ela reagia às história que escrevia para ela? Era crítica ou ficava toda contente por ser personagem de um livro?
Ficava, mas aconteceu-lhe a ela e a mim o mesmo que a Oscar Wilde quando se propôs escrever um livro para um sobrinho e lhe perguntou: «queres que eu escreva um livro para ti em que tu entres?». Ao que o rapaz respondeu: «Está bem, desde que não seja um livro para crianças». [Ri] Ela também me dizia isso e foi muito útil porque, de facto, um livro infantil não deve ser só para as crianças, tem que ser também para os adultos. Não há poesia nos poemas que são só para crianças. Vergílio Ferreira dizia no seu Diário que um livro para crianças deve ser para crianças, naturalmente, e elas devem compreendê-lo, mas deve aguentar-se numa nova leitura quando elas forem adultas.

E isso acontece?
Infelizmente, a maior parte dos novos livros para crianças são só para crianças porque a nossa literatura infantil transformou-se numa autêntica indústria da vulgaridade, prevalecendo o desejo de lucro e o espírito pedagógico. É preciso dar muitas voltas para descobrir livros que sejam bons para as crianças e tenham também carácter literário. Há uma convicção errónea de que as crianças não acedem ao material literário, quando é exactamente o oposto: as crianças acedem naturalmente à literatura.

Nos seus livros não existe essa tentação pedagógica?
Não, apesar de as pessoas poderem encontrar neles material pedagógico. Por exemplo, podem associar a colecção dos Contos da Mata dos Medos à preservação da natureza, mas os meus livros não têm propósitos, nos textos literários nunca existem propósitos. As pessoas encontram-nos lá da mesma maneira que nós encontramos leões e dragões nas formas das nuvens, vemo-los porque queremos ver.

Nos seus livros, que são também para crianças...
Disse muito bem, são também para crianças, era assim que deviam ser designados.
(…)

(Entrevista de Catarina Pires e fotografias de Reinaldo Rodrigues, Notícias Magazine de 31 de Maio de 2009)

F DE FALSO


No último domingo, a Notícias Magazine foi um consolo raro: entrevista de fundo com Álvaro Magalhães, um dos meus escritores portugueses preferidos, e crónica de Manuel António Pina (idem) sobre Winnie-the-Pooh; ou como este e outros clássicos que já caíram no domínio público estão a ser alvo de sequelas e adaptações assassinas. Peter Hunt abordou explicitamente o assunto no Congresso Internacional de Promoção da Leitura organizado pela Gulbenkian/Casa da Leitura, citando os casos de Beatrix Potter e Edith Nesbit como exemplos deste assalto à inteligência dos livros e dos leitores – o texto pode ser lido aqui.

Quanto a Winnie-the-Pooh, caiu nas mãos de um autor de “adaptações áudio”, David Benedictus, que se lançou a escrever O Regresso ao Bosque dos Cem Acres (já em pré-venda na Amazon) ao estilo de Milne; ou seja, um produto sucedâneo concebido a partir de um dos textos mais originais da literatura dita para crianças. Conclui Manuel António Pina: “A originalidade é algo que, como diria o burro Inhon, ‘nem todos podem, e alguns não podem, e é o que há a dizer’. Já imitar, na era da reprodutibilidade técnica (a expressão é de Walter Benjamin), qualquer um imita, e se se imitam Rolex porque não literatura?”

segunda-feira, 1 de junho de 2009

UMA COLECÇÃO DE ÓCULOS


Abandonei o jardim de modo algo intempestivo, reconheço. Passei os últimos dias numa mini-tournée em escolas EB1 do Alentejo (Cercal, Santo André e Santiago do Cacém), para falar sobre o Não Quero Usar Óculos. Voltei com uma enorme colecção de desenhos e uma corzinha saudável, graças à exposição liberal ao sol, ao ar puro e aos prazeres da boa mesa e boa conversa. Um breve mas eficaz paliativo contra os sintomas da “lisbonite aguda”, doença que progride cada vez mais depressa e obrigará a decisões drásticas, mais tarde ou mais cedo.

O tema do relacionamento dos escritores com as escolas é algo a que quero voltar proximamente; para já, aqui fica a série de óculos desenhados pelo João, da EB1 nº 1 do Cercal do Alentejo. A saber:

- Óculos para irem a outro mundo
- Óculos para ver tudo pequeno
- Óculos para ser amigo do Drácula
- Óculos para os homens ficarem apaixonados
- Óculos feitos de materiais reciclados
- Óculos para ver o interior das pessoas
- Óculos para passar os sítios rochosos
- Óculos para ser um índio verdadeiro
- Óculos ferozes
- Óculos para ver tudo cómico
- Óculos que fazem as pessoas serem peritas em matemática
- Óculos para as raparigas ficarem apaixonadas
- Óculos para dormir
- Óculos destruidores
- Óculos que amarrotam
- Óculos de luz reais
- Óculos de sol com postes em cima deles

(Começo a preocupar-me com a concorrência…)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

TRÊS PASTORINHOS


O Irmão Lúcia faz três anos amanhã e convida toda a gente de bem a aparecer na matinée dançante que começa às 23 horas, no Espaço ILGA, em Lisboa. Imperativos de agenda impedem-nos de comparecer, mas vão daqui os nossos honestos e sentidos parabéns aos pastorinhos mais mimosos da nossa linda terra.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

LIVRO INFANTIL: MITOS E PRECONCEITOS

“No módulo de Edição do curso de Pós-Graduação em Livro Infantil fomos desafiados pela docente Isabel Minhós Martins (uma das mentes criativas da editora Planeta Tangerina) a alinhar num papel alguns dos preconceitos mais comuns que existem à volta do livro infantil. E são muitos. Ideias erradas, superficiais e generalistas que tomam a forma de verdades absolutas, reproduzindo-se nos leitores, na crítica, nas instituições e na própria comunidade produtora, sejam escritores, ilustradores ou editores.” Ler aqui.

QUASE A COMEÇAR


Em http://www.festivalbdbeja.net/, tudo sobre a programação para o primeiro fim-de-semana: lançamentos, apresentações, conversas à volta da bd, workshops, sessões de autógrafos e muito mais...

O PERIGO DAS FÓRMULAS


No Cadeirão Voltaire, Sara Figueiredo Costa faz a crítica do nº51 da série “Uma Aventura…”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Leitura obrigatória.

terça-feira, 26 de maio de 2009

ESTRANGEIROS


“A conversão nada altera: continuamos prisioneiros do nosso nascimento, da terra natal, da língua materna, presos nas teias primitivas da infância. Um quarto de século vivido no Japão por um japonês nunca será metafisicamente equivalente ao mesmo período vivido por um ocidental no mesmo local. A compreensão de um país não se obtém através de um longo investimento temporal, mas segundo a ordem irracional e instintiva, por vezes breve e fulgurante, da pura subjectividade imersa no aleatório desejado.”

(Teoria da Viagem, Michel Onfray, ed. Quetzal, pág. 63)

UMA LIVRARIA NOS ANTÍPODAS


O Beattie’s Book Blog informa que a livraria situada mais ao norte da Nova Zelândia está à venda por 90 mil dólares neozelandeses, cerca de 40 mil euros. Não tem défice acumulado e está solidamente implantada, diz a conversa de vendedor. Mangonui parece o tipo de sítio onde se pode viver alienado das desgraças do mundo para o resto da vida. Lamentavelmente, não tenho jeito para o negócio. Um eufemismo para a verdade óbvia: sempre fui demasiado cobarde para dar o passo incerto.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

SENHOR DE MATOSINHOS


Quando eu era miúda, o melhor das Festas do Senhor de Matosinhos não eram os carrosséis nem as farturas. Era ir com o meu avô à tômbola da Obra do Padre Grilo, para fazer um furo que desse direito a uma rifa. Os prémios distinguiam-se pela modéstia – receber um chocolate já seria o jackpot –, mas aquela expectativa de cortar a rifa pelo picotado, à espera da palavra reveladora, gerava uma emoção tremenda. A última que tirei, em Junho de 2003, dizia “esferográfica”. E foi com ela que assinei o meu primeiro contrato de edição, dois anos depois. Não acredito em superstições, mas que as há, há.

A fotografia acima mostra as Festas do Senhor de Matosinhos em 1971 e pertence ao Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal. Faz parte de um conjunto que está em exposição na Biblioteca Florbela Espanca, até depois de amanhã.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

TODA A ARTE É DIZER QUALQUER COISA


Este ano, as compras na Feira do Livro de Lisboa pautaram-se pelo método cirúrgico. Em vez dos habituais sacos carregados de saldos e de livros do dia, que não têm espaço na conjuntura actual (isto é, não há tempo, não há cabeça e não há mais estantes), optei por ir directa a alvos previamente definidos. Além da biografia ilustrada de Roald Dahl e de dois livros de contos, boa parte do orçamento foi consumida pelo infra-citado Dicionário do Livro e por outro catatau (“Livro volumoso. Calhamaço”), um estudo de Paulo Heitlinger recomendado pelo meu editor: Tipografia – Origens, Formas e Uso das Letras (Dinalivro). São obras de consulta que se podem ler com um sentido narrativo.

Para casa veio ainda A Arte, Mestra da Vida – Reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura (Quimera), da professora Maria do Carmo Vieira, também já referido aqui e aqui. Trata-se de um pequeno ensaio publicado numa edição cuidada, com reproduções de fotografias e pinturas – a começar pela capa de Jean-François Millet, Lição de Tricotar –, em que se apontam alguns dos atentados contra a inclusão da literatura nas escolas, progressivamente arredada em nome de misteriosos “interesses dos alunos”. É assim que clássicos como Gil Vicente, Camões ou Vieira perdem terreno, nos programas e nos manuais, para textos fragmentados e passageiros – “reclamações, bulas, etiquetas de vestuário, notícias, publicidade” – e de utilidade duvidosa num mundo cada vez mais polarizado no domínio do conhecimento. Na minha humilde opinião, é mais fácil que quem tenha gosto e hábito de ler literatura consiga escrever num Livro de Reclamações do que o contrário. Agora, usar um texto de Fernando Pessoa para elaborar um atestado, uma declaração ou um certificado parece-me uma enormidade. Não é assim que se aprende a gostar de ler.

PS – o título deste post remete para a página nove do livro: “(…) toda a arte que não sendo literatura é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa, nas palavras de Álvaro de Campos, o engenheiro naval da heteronímia pessoana”.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

DICIONÁRIO DO LIVRO, 1: ACÉFALO


Acéfalo – Diz-se daquilo a que falta o princípio. Manuscrito ou livro que se encontra solto dos seus precedentes ou a que falta a parte inicial; não se trata exactamente do mesmo que anepígrafo, onde em toda a edição falta a indicação de título e de autor.

(in Dicionário do Livro – Da escrita ao livro electrónico, de Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão, Almedina)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

NA CASA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES


No centro de Portugal, em Cabanas de Viriato, existe uma estátua de outro Cristo-Rei, versão reduzida do panegírico mineral que no último fim-de-semana comemorou 50 anos, provocando uma enchente de acólitos em Lisboa e Almada. A inscrição explica que foi mandada erigir em 1933 “pelo ilustre cabanense Doutor Aristides de Sousa Mendes, diplomata que ao exercer as funções de cônsul-geral em Bordéus – 1940 – salvou milhares de vidas do Holocausto nazi da II Guerra Mundial”. Exactamente quantos? O livro de Rui Afonso (Um Homem Bom, Caminho, 1995) menciona “possivelmente trinta mil”; não sei se o recente estudo de Miriam Assor (Aristides de Sousa Mendes – Um justo contra a corrente, Guerra & Paz, 2009) fornece números mais precisos, porque não o li. Ainda.

Seja como seja, é bom ver como a imagem do “ilustre cabanense” é tratada na sua própria terra. De preferência, a partir do miradouro que parece estar ali para aumentar o efeito irónico. O estado de degradação da Casa do Passal, onde o ex-cônsul e família viveram o seu exílio punitivo, tem sido falado ocasionalmente, mas não há como um choque de realidade para acabar com as dúvidas. Esqueçam quaisquer ideias de reabilitação para museu ou coisa que o valha. Aquilo é uma ruína, ponto. Se dúvidas há, o aviso afixado na porta (“Perigo de derrocada”) encarrega-se de as demolir rapidamente. Pelo que me contaram (e por favor, não me peçam para “concretizar”), a casa de Aristides de Sousa Mendes foi alvo de tantos actos de vandalismo, ao longo do tempo, que em Cabanas de Viriato - e não só - muita gente guarda um documento qualquer relacionado com Aristides de Sousa Mendes e o seu acto solitário de coragem. É o que se pode chamar de "distribuição democrática" de um espólio.

A poucos quilómetros dali, em Santa Comba Dão, continua a avançar o projecto de criação do museu e centro de estudos do Estado Novo, nas casas de Salazar. Cada povo tem os heróis que merece.

Fotografias de Guto Ferreira.

terça-feira, 19 de maio de 2009

CAPITÃO AHAB


No último dia em que fui à Feira do Livro de Lisboa conheci o Alexandre Esgaio (Xana) no stand da Orfeu Negro e voltei para casa com a Eudora Welty, uma fanzine politicamente incorrecta (É Fartar Vilanagem!) e uma morada de blogue. Foi lá que encontrei um diário gráfico da feira e este retrato do Capitão Ahab, entre outras coisas que ressaltam no fundo negro do Maria Macaréu.

MAIS CULTURA, SFF


Com a pouca disponibilidade permitida pelas circunstâncias, acompanhei diariamente o novo jornal – i – na primeira semana de vida. Gostei do arejamento no formato e no grafismo; gostei do conceito que preside à revista de sábado (melhor no tema dos «românticos» do que nos «coscuvilheiros»); gostei de encontrar as reportagens de Sónia Morais Santos e as crónicas de Filipe Nunes Vicente; gostei da aposta em novos colunistas diários, embora só Cristóvão Gomes, na área de banda desenhada, me tivesse dado algum gozo; gostei dos exclusivos made in The New York Times; gostei, enfim, da proposta de um novo jornal diário numa época pouco amistosa para a profissão. Tenho reservas em relação à originalidade do título; desde logo, porque não facilita as citações (“Li no i” soa muito mal). Não gostei da fotografia nem do título de capa do primeiro número; que, por ser o primeiro, soa sempre como um statement: “Sindicatos, patrões e governo: todos querem menos imigrantes.” Será mesmo? Há muitas páginas de desporto e pouquíssima ênfase na cultura, seja qual for o género jornalístico praticado. Uma página de livros para toda a semana parece-me somítico; e é claro que não sobrará espaço para a literatura infantil, o que é pena. É verdade que Hélder Beja e Tiago Guerreiro da Silva assinam uma extensão da área dos livros em blogue, mas não é bem a mesma coisa. Chama-se ContraCapas e já está ali na lista dos blogues ao sol. Quem ainda não conhece, não perca mais tempo e ponha já nos favoritos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

NA ESCOLA LIMA DE FREITAS


Apesar do sol e da boa vontade, o tempo anda escasso para a jardinagem bloguística… e não promete melhorar a curto prazo. Mas não posso deixar passar em branco a minha ida recente à Escola Lima de Freitas, em Setúbal, onde no mesmo dia falei com alunos do 1º e do 2º ciclos. Estes últimos fizeram um trabalho fantástico à volta de O gato e a Rainha Só – desde desenhos e pinturas a colagens com tecido, passando por leitura encenada, música e marionetas. Reparem nesta Rainha Só, com o pormenor delicioso do gato pregado no vestido.

Tive também direito à apresentação de uma mini-biografia em power-point que incluiu imagens da infância e adolescência (o que eles se riram ao ver o meu cabelo na década de 1980…), além de uma música dos Boney M., grande paixão musical dos meus 10 ou 11 anos. Não sei se quero que os meus livros dêem tanto trabalho, como no outro dia dizia António Torrado, mas espero que ao menos se tenham divertido. A equipa da biblioteca escolar e as professoras das turmas envolvidas fizeram uma excelente preparação e acompanhamento da leitura do livro – e só me resta agradecer-lhes. Assim vale a pena ir às escolas.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O NOVO LIVRO DA BRUAÁ


O Ponto, de Peter H. Reynolds, é o quarto título editado pela Bruaá. Amanhã, há lançamento e mais coisas na Feira do Livro de Lisboa. Fiquem atentos ao site.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

FIRMIN E O FRACASSO


No blogue Desesperada Esperança, Bruno Alves diz que eu não sei “o que é ter 15, 20 ou 30 anos”, referindo-se ao meu texto sobre Firmin, de Sam Savage, publicado na LER nº 79. A passagem que lhe suscitou o comentário foi esta:

“Um livro para adolescentes? Não exactamente. Apenas pela simples razão de que aos quinze, vinte ou mesmo trinta anos a possibilidade de um grandioso fracasso é uma noção demasiado estranha.”

Posso garantir ao Bruno que não passei directamente dos 4 para os 40 anos. Tudo o que eu queria dizer não coube em 2500 caracteres, mas ficou explícito aqui. Recupero o essencial:

“À segunda leitura, percebi que Firmin não é (sem deixar de poder ser) um livro para adolescentes. Não por causa das muitas referências literárias que contém, mas apenas porque a impressão do fracasso não deve – ou não deveria – fazer parte do mal-estar adolescente. O sentimento de inadaptação das personagens poderá calar fundo em quem tem 16 anos, ou perto disso, mas a sensação de que existe todo o tempo do mundo para o resolver deverá ser total e avassaladora. Só mais tarde, na chamada idade adulta, conseguimos perceber como estávamos enganados quanto à reversibilidade das coisas – e persistir adequadamente nesse engano, porque na verdade não há muito mais a fazer. É por isso, e apenas por isso, que Firmin não é um livro para adolescentes.”

BLUEBERRY GIRL


Booktrailer do novo picture book de Neil Gaiman, lido pelo próprio – com um certo shakespearean touch. Ilustrações de Charles Vess. Para ver no blogue Children’s Illustration.

RECUPERAR A PERSPECTIVA

“Que, até ao fim da vida, era isto que eu queria fazer: viajar todos os dias. Mesmo estando quieto, mesmo atrás da mesma secretária escrevendo as mesmas palavras às mesmas intermináveis horas; estarei eternamente em viagem. Porque já perdi demasiado tempo, vou ao armário buscar as minhas malas surradas e velhinhas; vou comprar um bilhete para a vida; e, depois, cheio de esperança e de coragem, vou entrar em cada avião que passa como se só houvesse um sentido, como se nunca se chegasse a parte alguma, como se a viagem fosse na realidade o destino porque todos os dias são dias de partida.”

Um belo texto do João Tordo sobre a escrita e tudo o que existe à volta. Ler aqui.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

UMA HISTÓRIA COMPLETA


– Olá, Papá – disse o Duarte.
– Agora não, Duarte – disse o pai.
– Olá, Mamã – disse o Duarte.
– Agora não, Duarte – disse a mãe.
– Há um monstro no jardim e ele vai comer-me – disse o Duarte.
– Agora não, Duarte – disse a mãe.
O Duarte foi para o jardim.
– Olá, monstro – disse ele ao monstro.
O monstro devorou o Duarte, até ao último bocadinho.
Depois o monstro foi para dentro de casa.
– GRRR – rugiu o monstro atrás da mãe do Duarte.
– Agora não, Duarte – disse a mãe do Duarte.
O monstro mordeu o pai do Duarte.
– Agora não, Duarte – disse o pai do Duarte.
– Tens o jantar pronto – disse a mãe do Duarte.
A mãe pôs o jantar em frente da televisão.
O monstro comeu o jantar.
Depois esteve a ver televisão.
Depois leu uma banda desenhada do Duarte.
E partiu um brinquedo do Duarte.
– Vai para a cama – disse a mãe do Duarte. – Já te levei o leite para cima.
O monstro subiu as escadas.
– Mas eu sou um monstro – disse o monstro.
– Agora não, Duarte – disse a mãe do Duarte.

(Agora Não, Duarte, de David McKee, Caminho, 2000)

IGUALDADE PARA TODOS

Parece que a moda de processar jornalistas está para ficar. E já chegou aos modelos pré-mamã e licença de parto.

COMO CONVÉM

“Cheguei a uma conclusão: a Ler é uma revista feita por homens, sobre homens e para homens. Poucas são as mulheres que colaboram com a revista: a Felipa Melo, a Inês Pedrosa, a Carla Maia de Almeida que, como convém, escreve sobre livros de criancinhas.”

(… e o meu nome agora vem escrito a bold cor-de-rosa, ó suprema ignomínia.)

terça-feira, 12 de maio de 2009

FOLSON PRISON BLUES


Passou no último fim-de-semana do Indie Lisboa: Johnny Cash at Folson Prison, um documentário de Bestor Cram sobre o concerto na prisão de alta segurança californiana, a 13 de Janeiro de 1968, na origem de um dos mais míticos registos ao vivo de sempre, mesmo não havendo gravação filmada. As imagens captadas pelo fotógrafo da prisão, os testemunhos de músicos e muito material de arquivo servem de matéria-prima a um filme que reconstitui o antes e o depois de um dia extraordinário na vida das centenas de presos que assistiram à actuação do man in black. Bestor Cram elege duas histórias de antigos reclusos, eventualmente exemplares: a que tinha mais probabilidades de dar certo terminou num suicídio. Nem a música garante a salvação, nem Johnny Cash era pessoa “que pudesse salvar alguém”, como se diz a dada altura. Dispensando idolatrias ou rasteiras, o documentário mostra um homem à altura dos seus demónios, que sem nunca ter estado preso (um dos mitos desfeitos) conseguiu chamar a atenção para o sistema prisional norte-americano e contribuir para as reformas de 1970. Em Folson Prison realizaram-se 93 execuções por enforcamento até finais dos anos 1930; a maioria revelou que “o pescoço se partiu entre a quarta e quinta vértebra”, sinal de “boas execuções”, segundo um guarda ouvido no documentário.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

SAUDADES DAS PERSONAGENS


Percebemos que as personagens que criámos não nos pertencem quando damos por nós a ter saudades delas, para descobrir logo a seguir que não podemos fazer nada para as recuperar e trazer de volta ao papel. Se é um facto que podemos transformar as sequelas em histórias, nem por isso é verdade que todas as histórias possam ter uma sequela. A liberdade das personagens começa onde a do autor acaba. É justo, afinal.

Ilustração original a aguarela de Júlio Vanzeler para O gato e a Rainha Só (um bocadinho cortada em baixo porque o scanner não dá para mais).

MALDITAS DIOPTRIAS


São livros como este que põem em causa uma ideia em que muito boa gente ainda acredita, sem ter em conta a enorme evolução dos picture books nos últimos anos: nem sempre as ilustrações traduzem aquilo que o texto diz; às vezes, mostram justamente o contrário. O Meu Gato é o Mais Tolo do Mundo, de Gilles Bachelet (Caminho), descreve o quotidiano de um estranho animal doméstico, cujo dono parece padecer de uma doença neurológica: é incapaz de reconhecer o bicho que tem diante dos olhos. "Um amigo ofereceu-me recentemente um livro sobre gatos", diz ele. "Não consegui determinar exactamente a que raça pertence o meu." O registo move-se entre o cómico e a paródia, com o próprio autor a colocar-se na história, brincando com o seu estatuto e as suas capacidades artísticas. Como diria Oliver Sacks, este é o homem que confundiu o seu gato com um elefante. Ou vice-versa. Um must.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CITY-BREAKS: CALDAS DA FELGUEIRA


A coisa está de tal maneira que já só lá vou com uma ida às termas, para recuperar. O jardim fica em pousio até domingo. Au revoir!

AMANHÃ NA FEIRA DO LIVRO


A ideia parte da editora Quimera e começa por um workshop com entrada livre sobre diários gráficos – sexta-feira, dia 8 de Maio, às 18h00, na Esplanada Central –, coordenado por Eduardo Salavisa, José Louro, Mónica Cid e Pedro Cabral. Podem participar alunos e professores do secundário, e toda a gente que gosta de desenhar.

Depois, vem a parte mais entusiasmante. Haverá um sorteio de 30 cadernos em branco, a partir dos quais os “desenhadores” participantes serão convidados a elaborar o seu Diário Gráfico da Feira – a entregar até 13 de Maio. Os melhores trabalhos serão seleccionados por Eduardo Salavisa, para serem publicados no seu blogue e na revista LER. Recorde-se que Eduardo Salavisa, professor e desenhador, é o autor do livro Diários de Viagem, publicado recentemente pela Quimera e já em segunda edição. O seu trabalho pode ser acompanhado no blogue Diário Gráfico.

LÁPIS MÁGICO


A não perder, absolutamente, a exposição itinerante “Magic Pencil”, que já passou pelo CCB há uns tempos e está agora na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém. Uma selecção rigorosa de 13 ilustradores britânicos, pela mão de Sir Quentin Blake, acompanhada por muitos livros em inglês, horas do conto, ateliers e visitas guiadas. Para ver até 30 de Maio.

terça-feira, 5 de maio de 2009

SÃO ROSAS, SENHORES


As Rosas Inglesas – Amigas para Sempre!
Madonna
Ilustrações de Jeffrey Fulvimari
Dom Quixote

Em Setembro de 2003, Madonna apresentou-se ao mundo como autora de livros infantis, «histórias morais» (sic) sobre a inutilidade da inveja, do ciúme, da ganância e outros males. Cruzamento de Oliver Twist com as Spice Girls, As Rosas Inglesas foi o primeiro dos cinco álbuns portadores desta «mensagem», rapidamente convertidos em best-sellers (estava escrito nos manuais de marketing). Seis anos depois, mantém-se o estado de graça. Nem o tempo nem o consumo crónico de gelados e batatas fritas afectaram as silhuetas andróginas destas meninas, outra vez recortadas em formato warholiano por Jeffrey Fulvimari. Permanecem no limbo da primeira adolescência, felizes na sua escola de Hampstead, com os seus lip gloss e os seus ipods. Amy, Binah, Grace, Charlotte e Nicole, cada uma representa um estereótipo (a estudiosa, a desportista, a fashion victim…) que reverte para a força do grupo, propondo modelos de identidade que quase assustam pela candura. Primeiro de quatro volumes em pequeno formato, Amigas Para Sempre! é a introdução, em forma de diário, ao mundo perfeito com que sonham as gatas borralheiras.

(Texto publicado na LER nº 80)

CARPINTARIA LITERÁRIA


Já falta pouco para começar o VII Encontro de Literatura Infanto-Juvenil de Pombal – “Caminhos de Leitura”. A quem não puder estar presente, nos dias 8 e 9 de Maio, recomendo um passeio e uma visita à exposição/instalação de José Antonio Portillo, que transitou da Biblioteca de Beja e estará em Pombal até 23 de Junho. Portillo fará duas visitas guiadas, para explicar este seu itinerário tão particular de construção de histórias, mas quem fizer o percurso por si pode parar e voltar atrás quantas vezes quiser. Ver o programa completo aqui e mais informações no blogue O Livro Infantil.

LER Nº 80


No número de Maio, finalmente, os resultados dos prémios de edição Ler/Booktailors. A melhor capa de infanto-juvenil, categoria em que também surgiu o Não Quero Usar Óculos, foi conquistada (e muito bem) pelo livro Coração de Mãe, da Planeta Tangerina. Os vencedores de todas as categorias podem ser conhecidos no Blogtailors.

MÁS NOTÍCIAS ATRASADAS

Isto deixou-me triste. Isto também.

domingo, 3 de maio de 2009

SCHOLASTIC NA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA


Uma das surpresas deste ano na Feira do Livro de Lisboa é a representação da Key 4 Kids, distribuidora da editora Scholastic em Portugal, com stand na dita Praça Infantil. Muitos e bons picture books e livros para adolescentes – de Leo Lionni a Kate DiCamillo, de David Shannon a Katherine Patterson, de Megan McDonald a Harper Lee –, todos em capa mole, ao preço médio de sete euros. Não sei se estão a ver: sete euros. Enquanto os “bifes” fazem livros baratinhos, cá o portuga endinheirado continua a comprar os mesmos livros em capa dura a 12 e a 15 euros… ‘Tá certo.

Quanto ao senhor Roald Dahl (vénia, vénia), edição revista e acrescentada da autobiografia ilustrada More About a Boy, achei-a por 11,50 euros no stand das Edições Tinta-daChina/Pó dos Livros, onde os clássicos da Penguin Books também são novidade, este ano. Afinal, nem tudo tem de ser “mais do mesmo”.

FEIRA DO LIVRO DE LISBOA: A PRAÇA INFANTIL, SFF?


O fim-de-semana não é bom conselheiro destas andanças, mas às vezes as coisas calham assim. Ontem à tarde, sob um sol implacável, a Feira do Livro de Lisboa estava a abarrotar de gente, tornando impossível qualquer aproximação séria aos novos stands – mais estilosos, mas com menos espaço para o que realmente interessa, é fácil de ver. Razão a António Guerreiro, que no Expresso desta semana faz um balanço sombrio do mercado editorial, referindo, a dado passo, que “dada a deficiente oferta das livrarias, a Feira do Livro era a única ocasião do ano em que apareciam à venda todos os livros das editoras”.

Não seriam “todos”, mas eram muitos. Agora, menos. E bastantes editoras optam mesmo por ter os tabuleiros laterais fechados – por razões logísticas, provavelmente. Numa incursão rápida, só tive tempo de percorrer o corredor do lado esquerdo, à procura de uma tal “Praça Infantil”. A coisa está de tal modo visível que quando cheguei lá acima ainda não tinha dado por nada. No micro-stand da APEL explicaram-me onde ficava. Lá tive de descer tudo de novo, até perceber (pelo mapa) que tinha alcançado o objectivo: uma clareira patrocinada por uma marca de café, a habitual banca de gelados, um estrado onde se agitavam três figuras de peluche e quatro stands dedicados ao livro para crianças: Minutos de Leitura, Gatafunho/Ana Paula Faria, Key 4 Kids e Edicare. O espectáculo da Orfeu Negro sobre O Livro Inclinado ainda não tinha começado. E a isto se resumia a “Praça Infantil”.

Atravessando para o outro corredor do Parque Eduardo VII, encontrava-se a Praça Jovem, onde o panorama era ainda mais elíptico, não fosse a presença de duas dezenas de raparigas a falar sobre a saga dos vampiros de Stephenie Meyer.

sábado, 2 de maio de 2009

DARTACÃO


O filme é divertido, mas a melhor piada é involuntária. Alguém devia explicar ao tradutor (ou tradutora) que D’Artagnan não é o Dartacão. Podia ser lapso, mas contei três vezes. É o que dá ver muito desenho animado quando se é pequeno.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O LEITOR TRABALHADOR


Em Fevereiro de 1979 começaram a sair os fascículos da série francesa Era Uma Vez… o Homem, ao preço de 25$00. Depois da televisão, acompanhei em papel a marcha intranquila da Humanidade e a coluna “O Cantinho do Autor”, um senhor de suíças e bigode grisalho chamado Albert Barillé, que surgia nas páginas finais da revista, antes dos “Passatempos”.

Ao longo de 26 semanas, segui a evolução da primeira célula e a extinção dos dinossauros, cacei com o homem de Neanderthal e construí cidades nos vales férteis do Próximo Oriente. Indignei-me com as leis misóginas do Código de Hamurabi, sem saber o queria dizer "misógino". Emocionei-me com a morte de Péricles e a condenação das crianças fracas ao abismo da Rocha da Tarpeia. Fiz parte do império de Carlos Magno, embarquei nos drakkars vikings, segui os construtores de catedrais góticas. Conheci a rota de Marco Polo, o reinado de Isabel I, a corte de Luís XIV, a Rússia de Pedro o Grande. Ouvi falar, pela primeira vez, de Diderot, Olympe de Gouges, Charlotte Corday, Danton, a condessa Du Barry e tantos outros. Estas coisas ficam. Ainda hoje me arrepio ao ler o balão que sai da boca de Madame Roland, ascendendo ao cadafalso com as mãos atrás das costas: “Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!!!” (assim mesmo, com três pontos de exclamação)

Guardei todos os números, alguns em melhor estado do que outros. E posso dizer que completei a colecção com o suor do meu rosto, em jeito de homenagem a este 1º de Maio, Dia do Trabalhador. Empenhados em ensinar-me o valor do dinheiro – ou qualquer coisa assim do género, que me servisse para a vida –, os meus pais firmaram um pacto: a troco de 25$00 (que aumentaram para 30$00 logo no n.º 5), eu lavava a louça do jantar, sob uma fiscalização bastante condescendente. Imagino que o negócio não me agradasse muito, na altura, mas a emoção de esperar cada revista nova com uma moeda no bolso ainda hoje perdura e não tem preço. E assim, inculcando uma certa noção filosófica de esforço, mérito e recompensa, cresci na convicção de que havia algo de heróico na leitura e que o conhecimento é um bem não sujeito às oscilações do mercado. Não há maneira de me livrar disto.