quarta-feira, 29 de setembro de 2010
WORKSHOP DE LIVRO INFANTIL
EXPOSIÇÃO DE JAVIER SÁEZ CASTÁN

No seguimento do post anterior, lembramos que a exposição “Encontros com Bichos – Uma mostra de memórias, Ilustrações e Objectos”, de Javier Sáez Castán, será inaugurada amanhã na livraria especializada em literatura infantil Histórias com Bicho, em Óbidos, onde ficará patente até 24 de Dezembro. Nos dias 3, 4, 5 e 6 de Novembro decorre uma formação com o ilustrador, destinada a educadores, professores, técnicos de biblioteca e outros mediadores de leitura. Informações pelo telefone 262958610.
DIVERTIMENTOS ÓPTICOS

Javier Sáez Castán, autor espanhol que se revelou entre nós com as ilustrações do Animalário Universal do Professor Revillod (Orfeu Mini), feito em parceria com o escritor Miguel Murugarren, foi uma das pessoas que mais gostei de conhecer nas últimas Palavras Andarilhas – e não só por ter tido o privilégio de o apresentar ao público da sala sobrelotada. Apesar de encurtada no horário, creio que correu muito bem (o público o dirá) a conferência partilhada com Maria Teresa Meireles, que se ocupou do tema dos “livros que falam de livros”, sempre fascinante. Nascido em Huesca, em 1964, Javier Sáez Castán é senhor de um imaginário singular, radicado numa concepção mecanicista da realidade semelhante àquela que, no século XVII, levou pensadores como Pascal, Descartes ou Galileu a observar a Natureza como um grandioso mecanismo que se pudesse desmontar e compreender. Os seus livros são reflexo disso mesmo, transmitindo também um forte sentido de ironia – essa agilidade do humor que tantas vezes nos salva da banalidade e da decepção, nos livros e na vida.
(El Pequeño Rey – General de Infantería, de Javier Sáez Castán, Ediciones Ekaré)
terça-feira, 28 de setembro de 2010
ERA UMA VEZ A REPÚBLICA

segunda-feira, 27 de setembro de 2010
RUPTURA EPISTEMOLÓGICA
domingo, 26 de setembro de 2010
AS IOGURTEIRAS DE BOA OU MÁ MEMÓRIA

Nos primórdios da década de 1970, o país foi tomado de assalto por uma vaga de calor produzida por duas bactérias, de seu nome (abreviado) Lactobacillus e Streptococcus. Associadas na fermentação do leite desde tempos bíblicos, sem elas não seria conjurado um fenómeno que atingiu inúmeras cozinhas portuguesas: a moda das iogurteiras. De repente, toda a gente quis ser uma espécie de Robinson Crusöe na era da electricidade, produzir os seus próprios alimentos, ter um quinhão de autosuficiência na economia doméstica. A troco de um iogurte e um litro de leite, as iogurteiras exibiam o milagre da multiplicação, com um custo mínimo de trabalho e investimento. Ao fim de oito horas, muitas vezes passadas durante o sono familiar, lá estavam os seis frascos de vidro repletos do bom derivado do leite. Estamos a falar do tempo em que os iogurtes industriais eram caros e paupérrimos em matéria de sabores. Ainda há quem recorde a chegada da variedade baunilha como sinónimo de festa, quase um golpe de estado contra a ditadura morango-ananás.
Produto da época em que os electrodomésticos se exibiam como bibelôs, não faltando sequer o naperonzinho a amparar, as iogurteiras deixaram boas e más memórias na mesma geração. Iogurtes deliciosos, associados à nostalgia da infância, para uns; mistela branca, inconsistente e totalmente desprovida de sabor, para outros, é impossível dizer quem ganha neste campeonato. Mas, enquanto a moda durou, as iogurteiras ocuparam centros de mesa e fizeram um brilharete como presentes de casamento. Essa é que é essa.
(Texto publicado na edição de 26 de Setembro da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
PRÉMIO BISSAYA BARRETO DE LITERATURA INFANTIL

CONTOS DE ANDERSEN PARA CRIANÇAS SEM MEDO

quinta-feira, 23 de setembro de 2010
PARA SE SER UM ESCRITOR

Algumas das qualidades necessárias a quem quer ser um escritor – não necessariamente só de livros para crianças – segundo o “mestre” Roald Dahl:
1. You should have a lively imagination.
2. You should be able to write well. By that I mean you should be able to make a scene come alive in the reader’s mind. Not everybody has this ability. It is a gift, and you either have it or you don’t.
3. You must have stamina. In other words, you must be able to stick to what you are doing and never give up, for hour after hour, day after day, week after week, and month after month.
4. You must be a perfectionist. That means you must never be satisfied with what you have written until you have rewritten it again and again, making it as good as you possibly can.
5. You must have strong self-discipline. You are working alone. No one is employing you. No one is around to fire you if you don’t turn up for work, or to tick you off if you start slacking.
6. It helps a lot if you have a keen sense of humour. This is not essential when writing for grown-ups, but for children, it’s vital.
7. You must have a degree of humility. The writer who thinks that his work is marvellous is heading for trouble.
("Lucky Break – How I Became a Writer", in The Wonderful Story of Henry Sugar and other Six More, de Roald Dahl, Puffin Books)
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
NO ÚLTIMO DIA DO VERÃO

Paul Bowles, O Céu Que Nos Protege, ed. Assírio & Alvim
(Fotografia de Guto Ferreira, tirada na praia do Meco com uma Yashica Electro 35CC dos anos 1970 e filme Agfacolor 100, prazo de validade terminado em Setembro de 2006. O tempo distorceu as cores. E sim, já escrevi isto num post anterior. A minha melancolia é muito repetitiva.)
BLOGTAILORS TEM NOVO ENDEREÇO
terça-feira, 21 de setembro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
VER E LER MATILDE


Correcção: antes que digam, é óbvio que a capa de O Cantar da Tila (1967) não corresponde a O Livro da Tila (1957), obra que será objecto da nova edição a publicar pela Caminho, agora com ilustrações de Madalena Matoso. As minhas desculpas pelo lapso. De qualquer modo, não era motivo suficiente para retirar o post.
domingo, 19 de setembro de 2010
SWEET DELIGHT, ENDLESS NIGHT

And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.
(...)
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.
Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.
Do poema Auguries of Innocence, de William Blake. Texto completo aqui.
(Fotografia de Guto Ferreira, tirada na praia do Meco com uma Yashica Electro 35CC dos anos 1970 e filme Agfacolor 100, prazo de validade terminado em Setembro de 2006. O tempo distorceu as cores.)
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
ANDARILHAR POR BEJA
A partir de hoje à tarde e até sábado estarei nas Palavras Andarilhas, em Beja, o mais importante encontro de contadores de histórias e do imaginário do conto tradicional que por cá se faz, desde há dez anos. Não sei se ainda aceitam inscrições, mas o programa está aqui. Na sexta-feira, apresento as mesas dos conferencistas da manhã: Maria Teresa Meireles, autora da tese de doutoramento em “Literatura Tradicional e Oral”, que deu origem ao livro A Partilha da Palavra (ed. Apenas); e Javier Sáez Castán, ilustrador da pequena maravilha editada no final do ano passado na colecção Orfeu Mini, o Animalário Universal do Professor Revillod. O vídeo do You Tube que tomei a liberdade de “desviar” foi produzido por Pedro Moura, do blogue Ler BD. Espero que ele não se importe. Um belo texto sobre Javier Sáez Castán, com a chancela da Universidade Autónoma de Barcelona, pode ser lido aqui.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
NOVOS TOQUES DA COLECÇÃO GRAMOFONE

Uma cantiga em maluquês
Era uma vez uma vez
esta cantiga maluca
zuca truca bazaruca
toda escrita em maluquês.
Azulada zubidélia
trinca trunca e antimónia
bata lula bulodélia
vale de pisco da parvónia.
Ciberlosa vitis valia
xara tara de tilência
a mistélia da marália
deu-lhe um prato de permência.
Restilhosa ressonância
traz o trancho do tugúrio
risca o visco da vacância
morde o peso da pasmúria.
Era uma vez uma vez
esta cantiga maluca
zuca truca bazaruca
toda escrita em maluquês.
(“Uma cantiga em maluquês”, poema de José Fanha, in Esdrúxulas, Graves e Agudas, Magrinhas e Barrigudas, o mais recente livro da colecção Gramofone, em que cada livro aborda um tema diferente da gramática portuguesa. Comme d’habitude, as ilustrações são de Afonso Cruz.)
terça-feira, 14 de setembro de 2010
DESCUBRA AS DIFERENÇAS
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
AINDA OS TOTÓS

sábado, 11 de setembro de 2010
DOIS ENSAIOS DE LITERATURA PARA A INFÂNCIA


FORMAR LEITORES PARA LER O MUNDO

terça-feira, 7 de setembro de 2010
'QUANDO EU NASCI' TRADUZIDO PARA INGLÊS
Agora é que aqueles enfatuados e snobes comedores de batatas e Yorkshire Pudding vão saber o que é bom. Parabéns à Isabel Minhós Martins e à Madalena Matoso, da Planeta Tangerina, por terem feito um dos livros portugueses mais bonitos de sempre. Se eu tivesse escrito algo assim, já podia morrer feliz.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
QUEM DISSE QUE NÃO HÁ NOVOS ESCRITORES?

Tornou-se um lugar-comum afirmar que faltam em Portugal novos escritores de livros para crianças e adolescentes, por contraponto à aparente exuberância de ilustradores.
Como todos os lugares-comuns, também este comporta uma dose de verdade (que não aproveita a ninguém) e outra de equívoco, tanto mais pernicioso quanto mais se propaga pela boca de escritores consagrados. Ouvir alguém com obra feita dizer, com ignorância blasée e uma pontada de malícia, que «não acompanha» e «não sabe» o que escrevem os mais novos é, no mínimo, desgostante.
E, no entanto, eles andam aí. Embora longe do boom que se fez sentir nos últimos anos da década de 1970 e se prolongou na de 80, ainda com os ilustradores em secundaríssimo plano, temos assistido ao aparecimento de «novos» escritores apostados em manter uma produção mais ou menos regular no campo da literatura infanto-juvenil.
Correndo o risco de esquecimentos injustos, mas para que esta afirmação não fique no conforto da zona atmosférica, citaríamos (por ordem arbitrária) os casos de David Machado, Afonso Cruz, Isabel Minhós Martins, Rita Taborda Duarte, Tiago Rebelo, Ondjaki, Pedro Teixeira Neves, Rosário Alçada Araújo, Eugénio Roda, Nuno Higino, Bruno Santos, João Manuel Ribeiro, João Paulo Cotrim, Luísa Fortes da Cunha, Fátima Pombo, João Pedro Mésseder e Francisco Duarte Mangas como exemplos de «revelações» dos últimos dez ou doze anos. São poucos? Talvez. Mas não são invisíveis. E outros nomes que pudéssemos acrescentar não nos livrariam do paradoxo de Sorites: se a um monte de areia retirarmos um grão, continuamos a ter um monte de areia?
Queremos com isto dizer que não é fácil, nem tão pouco será o mais importante, fazer comparações quantitativas entre escritores e ilustradores. Teríamos de pesar a arte de uns e de outros, para a qual não existe fiel da balança. O que não se pode acreditar é que todo o talento tenha escoado de repente para um dos lados, deixando o outro à míngua. Se se criaram condições para que os ilustradores fossem reconhecidos como autores, ultrapassando o regime da semiobscuridade, algo semelhante pode acontecer em relação aos escritores. E os editores, andam atentos?
(Por razões de espaço, tive de cortar uns quantos caracteres deste texto publicado na recém-saída LER 94 – que em nada afectaram o essencial da argumentação. “Boca do Lobo” é o nome de uma nova coluna de opinião que sairá regularmente na secção “Leituras Miúdas”, a partir deste mês. Em homenagem a um dos meus animais totémicos.)
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
'IT´S A BOOK' VAI SER EDITADO EM PORTUGUÊS

terça-feira, 31 de agosto de 2010
TONY DITERLIZZI A SOLO

Não sou grande fã das Crónicas de Spiderwick, o best-seller de Tony DiTerlizzi e Holly Black que já passou ao grande ecrã. Sempre me fez confusão a escrita “a quatro mãos”, a “seis mãos” ou no regime de qualquer outro múltiplo. Para mim, a escrita corresponde a um pensamento individual, único, original. Não sei como duas pessoas conseguem pôr-se de acordo sobre o que escrever, quando se trata de contar a mesma história; e muito menos sobre como editar o que “o outro” escreveu. Enfim, provavelmente tudo se explicará pela minha inexperiência no assunto. Ainda assim, comparando Spiderwick com o registo a solo de Tony DiTerlizzi, não há dúvida de que o segundo ganha por larga vantagem, no estilo e na construção da narrativa. Cheio de piscadelas de olho ao cinema e de homenagens aos clássicos da literatura (a começar por O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame) Kenny e o Dragão foi um livro de leitura compulsiva, que me fez fazer batota e espreitar o final da história, não fosse dar-se o caso de morrer entretanto e ficar sem saber como acaba o livro (para quem não se lembra, esta ideia já foi levada ao cinema por Billy Cristal, num dos melhores gags do filme When Harry Met Sally). Falarei do livro numa das próximas edições da LER.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
O QUE FAZ CORRER SAMMY?
Lembro-me deste título: «O que faz correr Sammy?». Li-o quando era miúda, numa revista das Selecções do Reader’s Digest que havia em casa da minha avó, algures na indefinição dos anos 70. Intrigou-me para o resto da vida. Now, é preciso dizer que naquela altura não percebia muito bem os títulos das Selecções do Reader’s Digest – a começar por aí mesmo, nessas palavras que me faziam pensar em estômagos e esófagos e sucos digestivos, já para não falar da rubrica que dava pelo nome de «Eu sou o fígado de João», «Eu sou o pâncreas de João» e outras coisas assim viscerais; só mudava o órgão. Não compreendia como é que alguém podia ser o fígado ou o pâncreas de outra pessoa – e só mais tarde aferi os propósitos de divulgação científica dessas páginas que compuseram as minhas primeiras memórias anatómicas da leitura, feitas de árvores, baloiços e penedos cobertos de musgo.
Continuo sem saber «o que faz correr Sammy?», porque nunca li o livro de Budd Schulberg nem vi o filme homónimo. Mas sei muito bem o que me faz correr: as narrativas. «Destino: de um lugar para outro lugar, mas entre os dois é onde tudo se passa.»* Estou aqui, quero chegar ali. Devagar, depressa, devagar. Sei para onde vou, não me interessa se faz mau tempo no canal ou na ilha de Kiloran.
Correr? Correr é outra coisa. E estava capaz de falar disso, não fosse a desistência súbita – mas justificada – da malta do Correr Para Contar, que cancelou o treino de hoje à tarde no Parque das Nações, meu habitat próximo. Agora vão ter de me convencer a calçar de novo os MBT.
(* Sam Shepard, Lua Falcão, Quetzal, 1988)
SIT DOWN AND RELAX

O LEÃO E O POÇO: UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

E depois? Depois... o José Mário Silva conta o resto da história aqui. E acreditem nela. Aconteceu ontem.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
BANANAS & TOTÓS

Ora bem, já tínhamos o Diário de Um Banana, de Jeff Kinney. Chega agora o que parece ser uma versão feminina do molde, o Diário de Uma Totó, de Rachel Rennée Russell. Ambos vestem a camisola do “Campeonato de personagens aparentemente desinteressantes que dão best-sellers”. Do outro lado do campo, mantém-se a horda de vampiros, lobisomens, gárgulas, fantasmas, elfos, trolls, dragões e restante equipa de criaturas fantásticas – com ou sem asas – que tem animado o mercado editorial infanto-juvenil nos últimos anos. Não é por nada, mas pergunto: será que a vida real perdeu o interesse? Isto é: será que NÓS perdemos o interesse? É que tenho a impressão que deste campeonato “ninguém sai vivo”, como dizia o outro.
IT'S A BOOK, STUPID!
Lane Smith é um dos autores do blogue Curious Pages – recommended inappropriate books for kids, que já divulguei na LER e desde há muito se encontra aí na lista dos Blogues ao Sol. Pelo menos dois livros dele já me passaram pelas mãos: The Stinky Cheese Man e The True Story of the Three Little Pigs, mas há mais aqui, para quem quiser saber. Via Cadeirão Voltaire, descobri há pouco o booktrailer de It’s a Book, um repto bem-humorado aos Kindles e outros aparelhómetros que servem para ler livros, guardar livros, descarregar livros e “essas coisas”. Pela conversa, já se percebeu que nesta matéria sou uma reaccionária. É verdade. E depois de ter lido a entrevista de Alberto Manguel no Ípsilon, confesso que fiquei pior.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
EDWARD GOREY: BELAS TATUAGENS
Siobhan Magnus, finalista do programa American Idol, deu nas vistas com a tatuagem dos Gashlycrumb Tinies, magna criação de Edward Gorey. Evidentemente, o fait-divers foi pretexto para uma visita à casa do autor, em Yarmouth Port, Cape Cod. O apresentador é irritante de tãaaaao americano, mas se quiserem espreitar o video, aí está ele. Sem imagens em movimento, a reportagem feita há quase três anos para a Notícias Magazine continua a poder ser lida aqui.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
ONZE DICAS PARA ESCREVER PARA CRIANÇAS
sábado, 21 de agosto de 2010
NOVIDADES DA KALANDRAKA



quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A PAIXÃO DOS FORTES


"Alone and foresaken", de Hank Williams, gravado em 1949, é um dos melhores temas incluídos na especialíssima colectânea que acompanha a Uncut de Setembro. Straight to You - The Gothic Country & Blues That Inspired Nick Cave, título do CD gratuito, contém um punhado de canções de amor e ódio permeadas de desejo insano, paixões fortes e álibis assassinos. O tipo de histórias que faz Cave dizer: “As far back as I can remember, there was something that thrilled me about telling a story, and it’s absolutely the way I think, and when I sit down and try and write a song, I think in a narrative way”.
No artigo que faz capa da revista elegem-se as 30 melhores canções dos últimos 30 anos, devidamente comentadas pelo próprio, mas também por ex-Bad Seeds e outros músicos, produtores e realizadores de alguma forma relacionados com o universo caveano (do qual seremos fãs penitentes até ao dia do Juízo Final, mas nem que o homem passe a cantar rimas de berço).
terça-feira, 17 de agosto de 2010
MATAR UM RUISEÑOR

As sobras da Qué Leer chegam a Portugal com meses de atraso, facto incompreensível para uma revista feita aqui ao lado. Andando à procura de um número especial recém-saído, dedicado à literatura infantil (e não, não é este), encontrei há dias uma edição extra sobre adaptações literárias ao cinema – entre as quais as famosas Cumbres Borrascosas. Sei que é um acto de sadismo pôr um espanhol a pronunciar Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais, Emily Brontë), mas convenhamos que Cumbres Borrascosas é um daqueles títulos impossíveis de levar a sério, tal como Cadenas Rotas (Great Expectations) ou Las Uvas de la Ira (The Grapes of Wrath). Não, não é má vontade. É mesmo vontade de rir. Quanto a Matar un Ruiseñor, como já devem ter percebido, refere-se a To Kill a Mockingbird, título da obra-prima de Harper Lee, que em português ficou Por Favor, Não Matem a Cotovia (Difel). Também não é grande espingarda.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
EMILY GRAVETT NO HORIZONTE

Quando passei por Tavira e pela livraria Lura dos Livros estava longe de imaginar que, quase dois anos depois, iria ter o privilégio de traduzir Emily Gravett para português. Ele há gente com sorte. Com a chancela da Livros Horizonte, Little Mouse’s Big Book of Fears marca a estreia desta autora com “A” grande, que tem o dom de escrever e ilustrar os seus livros. Só espero ter-lhe feito inteira justiça. O livro deverá estar pronto ainda este ano, assim o permitam os mil e um pormenores técnicos relativos à sua concepção (e quem conhece o original sabe do que estou a falar). Entretanto, vejam aqui o site, que vale a pena.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
OS POSTAIS FORAM DE FÉRIAS

“Não foi assim há tanto tempo que perdemos o hábito de enviar postais de férias, um dos mais saborosos rituais de Verão com o seu quê de frivolidade. Escrevia-se sem preocupações de rigor nem eloquência: «Chegámos bem, os miúdos adoram a piscina, um abraço». Agora que as caixas de correio são domínio quase exclusivo de cartas impressas, contas por pagar e publicidade ao take-away da esquina, sente-se a falta dessas notícias sazonais que nos traziam a lembrança de alguém através de uma letra manuscrita. Ou seria antes a lembrança de nós, num lugar estranho às nossas circunstâncias? Os postais de férias têm esse lado paradoxal, ambíguo e sempre subjectivo, sustentado pelos fios da memória que ligam o remetente ao destinatário. Gostamos de receber postais de férias porque nos lembramos dos outros ou porque os outros se lembraram de nós?
Uma coisa é certa: nos postais de férias não havia espaço para más notícias. Ninguém se dava ao trabalho de enviar vistas de Honolulu para depois registar, num acesso de mesquinhice, que o serviço de hotel era péssimo e que mais valia ter ficado em casa. Os prazeres da viagem, o tempo ameno, a tentação do ócio – eis alguns dos tópicos adequados ao rectângulo em branco do postal.
Por vezes, a tarefa já estava facilitada. Por volta de 1890, na Alemanha, surgiu a moda dos postais ilustrados que se iniciavam com a frase «saudações de…» (seguia-se o nome da cidade). Restava apenas completar o sentimento previamente inscrito, também na variante «recordação de…» ou outras mais calorosas. Só por esse exorcismo da negatividade, e também pelo espírito de síntese que nos obrigam a cultivar, os postais mereciam continuar a fazer parte dos nossos mais sólidos compromissos de Verão – como andar descalço na praia ou adormecer numa rede.
Estamos em Agosto. Ainda não é tarde para recuperar o tempo perdido.”
(Texto publicado na edição de 8 de Agosto da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
DIÁRIO DE VIAGEM SUSTENTÁVEL
Na região mediterrânica o consumo de água duplica em época de férias. Um cruzeiro produz sete mil toneladas de resíduos sólidos todos os anos. Em 2010, a World Travel & Tourism Council estima que se chegue aos mil milhões de turistas e, provavelmente, eu e o leitor seremos mais dois. Há pequenas coisas que se podem fazer para diminuir o impacto do turismo a nível mundial. Não sei se comprar este diário de viagem é uma delas, mas que a ideia é boa, lá isso é. Saiba mais aqui.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
BOOKCROSSING NO MUSEU DA IMPRENSA

O Museu Nacional da Imprensa, no Porto, foi o primeiro museu português e dos primeiros da Península Ibérica a aderir ao bookcrossing, passando a funcionar como zona oficial (ou crossing zone) desde ontem.
Do press-release enviado à imprensa:
"Criado em 2001, por Ron Hornbacker, o Bookcrossing passou, de uma simples forma de rastrear livros, para um fenómeno à escala mundial, com mais de 700 000 utilizadores de 130 países e 5 milhões de livros registados.
Portugal conta com uma das maiores comunidades Bookcrosser da Europa, desde cafés a bibliotecas, escolas e serviços públicos, num total de mais de 11 000 membros.
Sendo o primeiro museu da lista da comunidade bookcrosser em Portugal, o Museu Nacional da Imprensa pretende desta forma estimular os hábitos de leitura e contribuir para a troca de experiências globais através de livros.
Para os interessados, o Museu lança o convite: “visite-nos junto ao rio Douro (Freixo), liberte as memórias das suas páginas favoritas, procure e viva outra aventura”. Depois, será só enviar e receber o resultado das experiências, fazendo parte de uma verdadeira comunidade global que interage sem ser só por via electrónica.
Para mais informações, consultar: http://www.bookcrossing.com/."
domingo, 1 de agosto de 2010
FORMIGUINHA ALTERADA

Corria a década de 1950. Palavras não eram ditas quando… apareceu a colecção Formiguinha. A expressão tantas vezes usada para convocar a força do mundo mágico repete-se nos contos, a par de outras como «era uma vez» ou «naqueles tempos». Fórmulas em que a palavra impera, remetendo-nos para o costume de contar histórias em voz alta, à luz do fogo ou da candeia. A colecção Formiguinha é contemporânea desse país alumiado a petróleo e marcado pelo lápis azul da censura. Também as edições reproduzidas nesta página não dispensaram o aval do Estado Novo: «Visado pela Comissão de Literatura e Espectáculos para Menores», lê-se.
Desde 1955, data mais provável das primeiras edições, a Majora fez sucessivas reimpressões de Maria da Silva, Bela-Feia e Feia-Bela, Os Três Irmãos e os Três Pretos, O Tesouro do Ceguinho, Os Dois Corcundinhas e muitas outras histórias. Adaptações de contos tradicionais ou de contos de fadas, portugueses e estrangeiros, reconhecem-se aqui, embora mal, os «originais» de Hans Christian Andersen, de Oscar Wilde ou dos Irmãos Grimm. As capas mudaram, nos últimos anos, mas o texto de João Sereno e as ilustrações de César Abott mantêm-se intactos. Atentem nos conselhos de mãe veiculados em A Princesa da Ervilha: «Sim, na verdade torna-se preciso que tenhas o maior cuidado na escolha, para que, em breve, não te arrependas, já que o casamento não é nenhuma brincadeira, pois dura toda uma vida.» Ora bem.
A pedido de muitos leitores saudosistas, a Majora continua a reeditar a colecção Formiguinha. Para quem não se preocupe com o politicamente correcto, é ainda a oportunidade de lembrar o significado de «manducar», «banzé», «merenda», «gamela», «chinó», «bucho», «caruma», «casinhoto» e «enjeitado», entre centenas de outras palavras ausentes dos actuais livros infantis. E o leitor, ainda sabe o que quer dizer «o marau comeu à tripa forra»?
Aviso à navegação: o texto acima corresponde ao que devia ter saído na edição de hoje da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia". Por razões que me são alheias, a versão publicada foi cortada no primeiro parágrafo e, pior do que isso, completada com uma legenda não assinada por mim, em que se fala de um tal “departamento de livros para menores”. Desconheço. O que escrevi foi: “Comissão de Literatura e Espectáculos para Menores”, coisa bem diferente. Não havia necessidade. Como os leitores ignoram os meandros da edição de textos nos jornais e revistas, para todos os efeitos a falha é minha…
sábado, 31 de julho de 2010
NATALIE MERCHANT: VOZ, POESIA E ALMA
Natalie Merchant, a voz inconfundível dos 10.000 Maniacs, entregou-se durante seis anos àquele que considera ser o projecto “mais elaborado” que alguma vez completou ou sequer imaginou. Leave Your Sleep, o primeiro álbum de estúdio desde 2003, é uma fulgurante colecção de 26 poemas em língua inglesa (supostamente) para crianças, por onde passam autores anónimos, nomes obscuros do século XIX e alguns consagrados como Robert Louis Stevenson, e.e. cummings ou Edward Lear. Ternos e melancólicos, uns; eivados de fantasia e humor nonsense, outros – todos adquirem uma qualidade rara na interpretação de Natalie Merchant, que pôs a plateia das Ted Talks a bater palmas entusiásticas – para depois mandar calar toda a gente, porque a música assim o exigia. O que se pode ver e ouvir aqui são algumas das canções de Leave Your Sleep, com Natalie Merchant acompanhada por excelentes intérpretes, por vezes soando como uma orquestra de câmara e outras como uma banda de blues. O disco demorou um ano a gravar e reuniu os contributos de uma centena de músicos de vários géneros.
Todos os poemas estão reproduzidos no site oficial, onde também se podem ouvir excertos das músicas durante tempo suficiente para ir a correr comprar o disco. Este vem acompanhado de um booklet de 80 páginas muitíssimo bem feito, com texto e fotografia, contendo informações preciosas acerca dos autores musicados, resultado da investigação de Natalie Merchant ao longo de cinco anos. Se isto não é o projecto de uma vida…
sexta-feira, 30 de julho de 2010
QUERO UM
NOVOS E VELHOS
Maria do Rosário Pedreira escreve sobre uma coisa que me faz muita confusão: a voluntária, persistente e, por vezes, sobranceira ignorância que os escritores já consagrados (no caso, de literatura infanto-juvenil, a “minha dama”) dedicam a quem começa a escrever. A história que MRP conta é de ir às lágrimas, mas a primeira parte do post, acima reproduzida, é o que importa reter. Para reflectir.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
SERVIÇOS MÍNIMOS

sexta-feira, 23 de julho de 2010
COMO EU ESTOU, TU ESTARÁS

Ainda a propósito do livro de Neil Gaiman e deste post, vale a pena registar um elemento que percorre toda a narrativa, a saber: a caracterização das personagens mortas (The Graveyard Book, pois então…) a partir das respectivas inscrições nas lápides, plenas de charme retro e de um finíssimo humor negro. Por exemplo:
- Dr. Trefusis (1870-1936, Que desperte na glória)
- Menina Liberty Roach (O que ela gastou perdeu-se, o que deu permanece com ela para sempre. Leitor, sê caritativo)
- Digby Poole (1785-1860, Como eu estou, tu estarás)
- Thackeray Porringer (1720-1734, filho do anterior)
- Menina Euphemia (1861-1883, Ela dorme, sim, mas dorme com os anjos)
- Thomas R. Stout (1817-1851, Chorado com tristeza por todos quantos o conheceram)
- Alonso Tomás Garcia Jones (1837-1905, Viajante, pousa o teu
bordão)
E o meu preferido:
- Menina Letitia Borrows, Celibatária desta Paróquia (Que não fez mal a homem algum em todos os dias da sua vida. Leitor, podes dizer o mesmo?)
Autênticas ou forjadas, é mais do que provável que Gaiman tenha tido ajuda neste processo de investigação; mas quem gosta de perscrutar cemitérios sabe que, em matéria de dedicatórias post-mortem, a realidade tende a superar a ficção.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
ECOLITERACIA

Sendo o meio universitário o espaço onde se desenvolve, por excelência, o pensamento contemporâneo sobre a literatura para crianças, o livro infantil ou o que lhe queiram chamar, é bom que projectos como o de Ana Margarida Ramos e Rui Ramos saiam da sombra. Cruzando os valores éticos da ecologia com a literatura/estética do livro para crianças, o projecto Ecoliteracia (do Centro de Estudos da Criança da Universidade do Minho) pode ser conhecido aqui. Não percam as sugestões de leitura, até porque estamos no Verão. E sim, o Ainda Falta Muito? é um deles. Para quem veja aqui uma subliminar declaração de interesses, aviso que se trata de um livro completamente fora de moda, saído em Julho do ano passado. Não o procurem, porque vai ser ser difícil encontrá-lo.
SO LONG, MARIANNE

Este blogue não está de férias. Mas gostava de estar.
(Fotografia de Marianne North, artista vitoriana e uma das primeiras mulheres a viajar para os Antípodas, a fim de registar as espécies botânicas da Austrália, Tasmânia e Nova Zelândia. O seu trabalho está exposto permanentemente num pavilhão dos Royal Botanic Gardens, em Kew.)
segunda-feira, 19 de julho de 2010
A ARTE DE ESCREVER CASSETES

"«Para mim, gravar uma cassete é como escrever uma carta», diz Bob Flemming, o protagonista de Alta Fidelidade, primeiro romance de Nick Hornby e um must para os que passaram as últimas décadas do século XX a comprar discos de vinil e a gravar cassetes em casa.
Lembram-se dessa espécie que tratava a música como uma religião e a aparelhagem como um altar? Gente para quem uma TDK não era o mesmo que uma BASF. Que sabia as diferenças entre cassetes de «tipo I» e «tipo IV». Que só escolhia a «posição normal» se não tivesse dinheiro para mais no bolso. Que nunca juntaria na mesma fita o Phil Collins com os Durutti Column, a Samantha Fox com a Marianne Faithfull, os Wham! com os Red House Painters. Gente que levou muito a sério o conselho de Nick Hornby («… e não vale a pena fingir que qualquer relação pode ter futuro se as vossas colecções de discos são violentamente discordantes»), pelo menos até ao momento em que o celibato se tornou demasiado penoso. Que música escolheríamos para dizer isto? Hum… Que tal Holding Back the Years, dos Simply Red?
Gravar uma cassete em casa é como escrever uma carta, sim. Podia dizer-se tudo. Ambas representam um acto criativo, artesanal, individualista. Gravavam-se cassetes para ouvir na auto-estrada, cassetes para as férias, cassetes para dias cinzentos, cassetes para noites especiais (Brian Ferry + Grace Jones + Prince = sucesso garantido). Se escolher os temas era um gozo, atentar na ligação entre eles, ponderando cada minuto de fita disponível, exigia rigor e atenção. Uma cassete gravada de forma displicente, com raccords mal feitos e faixas cortadas, é como uma carta mal pontuada. A questão é saber se já ninguém escreve cartas porque deixou de gravar cassetes ou ao contrário.
Hoje mandamos e-mails e descarregamos música. Que diferença."
(Texto publicado na edição de 18 de Julho da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia". Na mesma página, há uma legenda que diz "Lembram-se dessa gente para quem uma TDK não era o mesmo que uma BASF?". Não assinei e não gosto. Nunca trataria "a minha gente" por "essa gente".)
domingo, 18 de julho de 2010
O VERÃO É ISTO, ASSIM
Risos, tagarelice, vadiagem, gaivotas a voar baixo, crianças sentadas nos muros, infinitos pretextos para abraçar alguém, a sensação do tempo que resta e o sol a dilatar todos os pormenores à nossa volta, como uma miragem prodigiosa. Há discos que só consigo ouvir no Verão e este é um deles: Simple Things, dos Zero 7. Em repeat.
SINAIS DOS TEMPOS, 2

“Normalmente as crianças… vivem com a mãe e o pai. Mas em alguns países é diferente e podem viver com duas mães ou com dois pais.
Algumas crianças… vivem só com a mãe ou só com o pai.
Há crianças que vivem em pequenas famílias.
Há crianças que vivem em grandes famílias, com os avós, ou com o pai e a madrasta e os filhos dela, ou com a mãe e o padrasto e os filhos dele.
Algumas crianças são adoptadas.
Outras vivem com famílias de acolhimento.
São as famílias do coração.
Há também crianças que vivem em instituições onde estão pessoas que as acarinham e tratam delas.
Durante o dia, há formas muito diferentes de as famílias conviverem com as suas crianças.
Em geral, os irmãos e as irmãs dão-se bem uns com os outros. Mas às vezes também se zangam.
As famílias podem fazer muitas coisas em conjunto.
Na família, as pessoas confortam-se umas às outras.
As famílias não são todas iguais.
Como é a tua família?”
(Texto retirado de As Famílias Não São Todas Iguais, uma edição original Tango Books agora publicada pela Presença. As ilustrações de Rachel Fuller são indispensáveis à compreensão do livro, enriquecido com técnicas de recorte e pop-ups. Mais reflexos dos "sinais dos tempos" no livro infantil por exemplo aqui.)









