sexta-feira, 25 de março de 2011

LIVRARIAS CÁ DAS NOSSAS


A questão de “como escolher livros para crianças” (ver post anterior) está muito ligada a outra, de ordem mais prática: onde procurá-los. Não é preciso cultivar a monogamia, mas a fidelidade a uma livraria – que se destaca pelos conhecimentos de um/a livreiro/a e pela organização da secção – ajuda muito. Quem diz uma livraria, diz meia dúzia delas. Com a ajuda dos comentários no Facebook e do site da DGLB, cheguei a uma lista das livrarias portuguesas especializadas em livros para crianças e adolescentes, de todo o país. Algumas não têm site nem blogue, encontrando-se apenas em páginas de directórios, mas é justo mencioná-las. Algumas não são apenas livrarias, mas também. Depois, há outras livrarias que, não sendo especializadas, primam por uma boa secção de livros para crianças, onde se nota a arrumação com critério e destaques merecidos. É o caso da Letraria, em Miraflores, ou da Bulhosa Campo de Ourique, exemplos do empenho das respectivas livreiras, Sandra Simões e Ana Rita Fernandes. Fora de Lisboa, assim de repente, lembro-me da Lura dos Livros, em Tavira, e da Centésima Página, em Braga. No Facebook, houve outras sugestões, como a Index (Porto) ou a Arquivo (Leiria). Há mais? Digam, digam.

Do lado direito do Jardim Assombrado, entre os “Links à Sombra” e o “Kindergarten”, passa a constar uma lista (em construção) de links para esses lugares onde os livros para crianças são bem tratados. Passem por lá, de preferência pessoalmente.


Adenda: Ana Rita Fernandes, da Bulhosa Campo de Ourique, enviou-nos um email a lembrar a Livraria Pó dos Livros (cujo blogue consta nos favoritos do Jardim Assombrado) e o mérito da Débora Figueiredo na "gestão" dos livros para crianças, que merecem destaque na montra e são sempre bem recomendados. Tem toda a razão.


Mais:
- Livraria Culsete, em Setúbal, recomendada por Fátima Medeiros através de email.

50 LIVROS PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Os 50 livros que uma criança deveria ler. Selecção recomendada por especialistas, publicada no The Independent. Via O Bicho dos Livros.

quinta-feira, 24 de março de 2011

CATA LIVROS: NOVO PROJECTO DA CASA DA LEITURA


“Cata Livros” é o novo projecto desenvolvido pela equipa Gulbenkian/Casa da Leitura que utiliza a internet para aproximar os jovens leitores de um conjunto de títulos essenciais da literatura para infância e juventude, com destaque para a produção nacional, assentando no carácter lúdico e interactivo das narrativas e desafios propostos. A apresentação do sítio Cata Livros realiza-se no dia 5 de Abril, pelas 15 horas, na sala infantil da Biblioteca Municipal de Oeiras.” Mais informação aqui.

FEIRA DO LIVRO DE BOLONHA: E VÃO DOIS



Já sabíamos que as ilustrações de Bernardo Carvalho para O Livro dos Quintais (Planeta Tangerina) integram a grande exposição de ilustradores na Feira do Livro Infantil de Bolonha, que começa já para a semana (ver aqui). Agora há mais uma razão para ficarmos contentes: A Contradição Humana (Caminho), de Afonso Cruz, recente Prémio SPA/RTP, foi seleccionado para a exposição The White Ravens, uma iniciativa da Biblioteca Internacional da Juventude, realizada também no âmbito de Bolonha. Convém lembrar que, em ambos os casos, a concorrência é representada apenas por milhares de livros e autores de todo o mundo. Parabéns, Bernardo. Parabéns, Afonso. “Muito bons somos nós”, como diz o Joel Neto.

NOVO LIVRO DE REBECCA DAUTREMER


Diário Secreto do Pequeno Polegar, de Philippe Lechermeier (texto) e Rebecca Dautremer (ilustrações), chega em Abril no rol de novidades da editora Educação Nacional. Veja aqui o site de uma das mais prestigiadas ilustradoras actuais.

segunda-feira, 21 de março de 2011

SHAUN TAN EM PORTUGUÊS


Uma estranheza maravilhosa. A tradução de Tales From Outer Suburbia, de Shaun Tan, é já um dos acontecimentos editoriais do ano. O site oficial está inactivo, mas em alternativa à Wikipedia pode ler-se este texto publicado no blogue O Livro Infantil. A edição é da Contraponto.

domingo, 20 de março de 2011

INFELIZMENTE JÁ NÃO CHEGA FALAR FRANCÊS







Conforme prometido no post anterior, Judite conta a sua história. Clique nas imagens para aumentar e ler as legendas em rodapé. (In Modas e Bordados - Vida Feminina, edição de 4 de Fevereiro de 1959)

quinta-feira, 17 de março de 2011

ALMANAQUE SILVA, 2


Em Setembro de 2002, coincidindo com o Dia Mundial da Literacia e o sempiterno tema do “regresso às aulas”, assinei para a Notícias Magazine – revista de domingo do Diário de Notícias e Jornal de Notícias – um trabalho sobre literatura infantil, com 13 páginas, que fez capa com a ilustração de José Saraiva (clique para ver melhor). O título, não há que enganar, denota a influência tácita da secção de Rita Pimenta, a quem se deve o pioneirismo de trazer os livros infantis para o Público. Falei então com editores da Caminho, Asa, Campo das Letras, Ambar, Terramar e Bertrand/Quetzal; com um autor consagrado (Álvaro Magalhães) e uma estreante (Luísa Fortes da Cunha); e com Conceição Rolo, uma das principais responsáveis pelo projecto Literatura & Literacia, entre outros nomes. Há coisas que hoje corrigiria, mas foi graças a este trabalho que me apaixonei definitivamente por esta área.

Em 2002, ainda não era quimérico sonhar com dossiers de temas culturais que dessem capa, sobretudo com ilustrações de autor. Sob a direcção de Isabel Stilwell e com a sensibilidade de Cláudia Moura, ex-jornalista e agora editora da Livros Horizonte, também a Notícias Magazine desempenhou um lugar importante na valorização da ilustração na imprensa portuguesa. Porque desapareceu, ou quase? Resumida, mas certeira, a explicação de Jorge Silva está a bold e responde a quem, vendo de fora, se pergunta por que razão as revistas andam cada vez mais iguais umas às outras:

“O suplemento do Público Mil Folhas bem pode ser considerado um último fulgor da ilustração editorial nos jornais portugueses na viragem do século. A crise na imprensa diária e semanal vinha para ficar e colaborações externas como a ilustração editorial estavam prontas para o sacrifício. Herdeiro do suplemento Leituras, o Mil Folhas versava literatura e livros, música clássica e jazz, artes plásticas e design.”

(Dá saudades, não dá? Ler mais aqui, no Almanaque Silva.)

ALMANAQUE SILVA, 1


O post de hoje no imprescindível Almanaque Silva é dedicado a João da Câmara Leme, “capista e ilustrador quase exclusivo da Editora Portugália” e da “mais amada das colecções de livros das nossa juventude, a Biblioteca dos Rapazes.” Mas A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (imagem de capa acima), também foi muito amada por raparigas...

quarta-feira, 16 de março de 2011

COLHER DE PAU SOBRE OS AUTORES


Em 1966 saiu, pela Verbo, A Colher de Pau, adaptação de Maria de Lurdes Modesto para um livro francês de 1965 que actualmente se compra como raridade em leilões bibliográficos: La Cuiller en Bois: Mon Premier Livre de Cuisine, de Denise Perret (texto) e Catherine Cambier (ilustrações). A Babel recuperou a obra numa edição fac-similada que mantém a grafia original, acrescentando-lhe uma colher de pau de verdade. Excelente. Só é pena – para utilizarmos um eufemismo – que os nomes das duas autoras tenham desaparecido da capa. Não se podia ter conseguido outro design gráfico? Por exemplo: assim. Não se perdia nada. A César o que é de César.

CURSO DE LIVRO INFANTIL: NOVAS DATAS

A segunda edição do Curso de Livro Infantil em parceria com a Booktailors foi adiado duas semanas. Ver aqui as novas datas e mais informação.

terça-feira, 15 de março de 2011

CANTOS E CONTOS EM FAMÍLIA


A Rede das Bibliotecas de Pombal promove nos dias 18 e 19 de Março, na Biblioteca Municipal, o fórum "Cantos e Contos em Família", que tem o objectivo de sensibilizar as famílias para a importância da leitura. Oficinas de leitura e sessões de contos fazem parte do programa, que pode ser consultado aqui.

ENCONTRO DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL DA SPA


Dias 15 e 16 de Abril, no Porto, a Biblioteca Municipal Almeida Garrett recebe o 2º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da SPA. Toda a informação aqui.

NOVIDADES DA BOOK IT



Dois novos picture books das edições Book It, destinados a um público entre os três e os sete anos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

AMANHÃ: COMO ESCOLHER LIVROS PARA CRIANÇAS


É já amanhã de manhã que vou fazer a primeira das oficinas “Como Escolher Livros Para Crianças”, uma ideia que propus e que a Livraria Cabeçudos acolheu prontamente, inserindo-a no seu programa de actividades para crianças e adultos. Espero que possa ser continuada noutras livrarias, bibliotecas, associações ou qualquer espaço onde haja pais e pessoas interessadas em fazer escolhas mais informadas.

Não sei se é exacto chamar-lhe uma “oficina”, porque não haverá uma parte prática de interacção com o público, além da habitual e desejável troca de ideias e perguntas a que tentarei responder. Também é pretensioso chamar-lhe uma “formação”, já que se destina a um público generalista que compra livros para crianças e se sente, com toda a razão, desorientado no meio de tanta coisa para escolher. Chamemos-lhe, talvez, uma "acção", já que estamos em maré de agir.

Nas livrarias, faço as minhas observações distanciadas nas secções infanto-juvenis e constato que, a maior parte das vezes, os pais (ou avós, ou tios, ou educadores…) não sabem por onde começar, nem descodificar os critérios de selecção. Vejo também, muitas vezes, livreiros (sobretudo nas lojas das grandes cadeias livreiras) a dizer “este está no Plano Nacional de Leitura”, usando isso como factor exclusivo de recomendação, e conheço poucos que realmente percebem e se interessam por esta área. Mas não se amofinem já, que também conheço muitas e honrosas excepções!

O que está em destaque nos escaparates não é necessariamente o melhor, mas também não tenho uma visão sacralizada do livro e acho que tudo tem o seu lugar (nem que seja a reciclagem). Mutatis mutandis: “It’s only rock’n’roll but I like it”, como cantavam os Stones. Adoro o Peter Pan e o O Vento nos Salgueiros, mas um bom atlas ilustrado também me deixa entusiasmada, como muitos outros livros informativos – tantas vezes com mais mundos lá dentro do que a ficção. Vou mostrar livros, claro, muitos livros que considero bons e recomendáveis – e também alguns exemplos contrários. Quem não gostar, paciência.

Citando o post anterior e um dos meus “gurus”, Peter Hunt, considero que pensar é fundamental em tudo o que tem a ver com os livros para crianças e adolescentes, seja do ponto de vista da produção editorial, da teoria crítica ou da estética da recepção. Aliás, não há outra alternativa. É por isso que amanhã não vou fornecer nenhuma “lista de livros recomendados pela CMA”. Vou falar da nossa responsabilidade pessoal, enquanto adultos, e da importância de termos os nossos valores bem presentes, na altura de escolher um livro para crianças. Dir-me-ão, talvez, que é um caminho perigoso, que também o Estado Novo emulou livros sem qualquer qualidade, a coberto de uma ideologia de “valores pátrios”. Calma. Ninguém vai vender radicalismos. Vamos começar por usar o bom senso. É o primeiro passo para se começar a pensar.

Para mais informações e inscrições, é favor consultar aqui o site da Cabeçudos.

(Muito obrigada ao blogue O Bicho dos Livros pela divulgação desta ideia. E também ao Cadeirão Voltaire.)

LITERATURA PARA CRIANÇAS: DUAS GRAVES ILUSÕES


De entre tudo o que importa perceber pela leitura deste livro – imprescindível a quem queira estudar a literatura infanto-juvenil com profundidade –, destaco apenas duas ideias que normalmente andam a par, para mal de todos nós. Ideias, atitudes ou «ilusões» apontadas por um senhor chamado Peter Hunt, que tivemos o privilégio de ouvir há dois anos, na Fundação Calouste Gulbenkian, lembram-se?

«A primeira é que qualquer um pode ser especialista em livros para criança; a segunda, que estamos todos do lado do bem.

Ambas são aspectos de um temperamento muito perigoso. A primeira resulta no anti-intelectualismo, já aqui observado: a ideia – ou não ideia – de que pensar não é muito apropriado nos livros para criança. Logo essa atitude abre caminho para a segunda ideia: a de que os livros infantis, como as crianças, são inocentes e que as ambições de escritores, críticos, pais e do restante de nós são ideologicamente neutras. Por causa disso, fracassamos em perceber que, além de não podemos ser apolíticos, grande parte da ideologia presente nos livros para criança e em torno deles está oculta – e na verdade mascarada como o oposto do que realmente é.»

(Peter Hunt, Crítica, Teoria e Literatura Infantil, ed. Cosac Naify, São Paulo, 2010, pág. 207. A tradução para o português foi feita por Cid Knipel. Ver aqui o livro, que custa cerca de 26 euros, ao câmbio actual.)

quinta-feira, 10 de março de 2011

O GIGANTE ARREPENDIDO



Já falei neste post de Natalie Merchant, a vocalista dos 10.000 Maniacs que assinou um disco de excepção, em 2010 (Leave Your Sleep, Nonesuch Records), uma antologia não canónica de poemas para crianças, por ela musicados e cantados. Maioritariamente do século XIX e primeira metade do século XX, tanto encontram a sua origem em autores anónimos ou esquecidos como em nomes consagrados como e.e. cummings, Christina Rossetti ou Robert Graves.

The Sleepy Giant, de Charles Edward Carryl (1841-1920), pertence mais ao primeiro caso; apesar de os seus livros terem usufruído de bastante popularidade, estão actualmente “out of print”. A história do gigante devorador de crianças, enraizada no mito de Saturno, é transversal à literatura para crianças e tem muitas variantes. Esta é uma delas. O vídeo acima está bastante bem feito e tem a vantagem de ser uma criação de autor, mas não corresponde à versão do CD, que pode ser ouvida aqui, com melhor qualidade de som e um delicioso excerto introduzido no corpo do poema por Natalie Merchant: “More eels my lady?/ Perhaps some bubble and squeak,/ or a little toad in the hole?/ A Lyconshire hot pot, perhaps?/ That would be nice.” Bem, é ouvir as duas versões, não sei qual delas é a melhor. Eis então a breve história do gigante arrependido:

The Sleepy Giant

My age is three hundred and seventy-two.
I think, with the deepest regret,
how I used to pick up and voraciously chew
the dear little boys that I met.

I've eaten them raw, in their holiday suits,
eaten them curried with rice.
I've eaten them baked, in their jackets and boots,
and found them exceedingly nice.

But now that my jaws are too weak for such fare,
I think it's exceedingly rude
to do such a thing, when I'm quite well aware,
little boys do not like being chewed.

And so I contentedly live upon eels,
and try to do nothing amiss,
pass all the time I can spare for my meals
in innocent slumber like this.

segunda-feira, 7 de março de 2011

LITERATURAS NÓRDICAS PARA CRIANÇAS E NÃO SÓ


Este mês, as revistas Lire e Le Magazine Littéraire são consagradas às “literaturas nórdicas” (houve fuga de informação, com certeza…). Além dos critérios literário, estético e científico que sempre me levará a preferir a segunda, há uma razão suplementar forte: no seu dossier, a Magazine Littéraire é a única que dedica um artigo à escrita para crianças e adolescentes. Do rompimento de uma “idade de ouro” pós-Segunda Guerra Mundial, com a sueca Astrid Lindgren (Pipi das Meias Altas) e a finlandesa Tove Jansson (Os Mumins), até à afirmação de uma escrita «complexa e experimental», por onde passam a melancolia dura e obsessiva dos países setentrionais e os reflexos mais imediatos das convulsões sociais (o divórcio, por exemplo, «um tema predilecto, mas que já não é sempre apresentado como um problema para a criança»), fica impressão de uma inequívoca contemporaneidade. Visto assim, parecemos ainda muito, muito distantes. Um excerto a reter (tradução minha):

«Com efeito, a fronteira entre a literatura para adultos e para crianças está em vias de desaparecer, bem como aquela que divide livros para rapazes e para raparigas – sendo o objectivo apenas escrever bons livros. O estilo literário escandinavo, despojado, concreto e próximo da oralidade, utilizando frequentemente as redundâncias, facilita a compreensão por parte dos leitores mais jovens. Esta simplicidade não é mais do que aparente, já que cada palavra importa, tanto quanto os silêncios.»

Mais do que uma curiosidade, é um sintoma assinalado pela autora do artigo: as traduções francesas dos livros para adolescentes confrontam-se com a censura. «As cenas ligadas à sexualidade, por exemplo, são em geral modificadas e mesmo suprimidas.»

domingo, 6 de março de 2011

ÁLVARO MAGALHÃES: A LITERATURA INFANTO-JUVENIL NÃO SERVE PARA ENSINAR

“A literatura, mesmo a infanto-juvenil, não serve para ensinar, embora noventa por cento das pessoas que escrevem para crianças pensem que sim. Nalguns casos, até devia servir para o contrário: para desensinar e desaprender, para abalar critérios e conhecimentos adquiridos. Claro que é importante aprender e ensinar, mas não é essa a função da literatura. A literatura serve sobretudo, se é que serve para alguma coisa, para lidarmos com o desconhecido: o amor e a morte. Na minha obra infanto-juvenil, se a analisarmos, a maioria das histórias são de amor ou de amor e morte.”

(Excerto de uma entrevista do escritor Álvaro Magalhães à jornalista Catarina Pires, “repescada” da Notícias Magazine de dia 13 de Fevereiro, a propósito do amor, de namorados e da série de livros Contos da Mata dos Medos.)

A MINHA ESCOLA


O primeiro número da Música & Som foi para as bancas a 11 de Fevereiro de 1977. Conseguiu o prodígio gráfico-ideológico de juntar, na mesma capa, os Abba com os Pink Floyd, e Bob Dylan com Art Sullivan. Nas semanas seguintes, houve protestos contra a inclusão do «principezinho» belga que derretia corações com a sua Petite Demoiselle, mas a revista contestava, na secção de cartas dos leitores: «Não faças o sacrifício de ler Art Sullivan. Respeitamos e compreendemos a tua posição. Só que há leitores (e não são poucos) que exigem o Art. Que fazer?...». Pergunta retórica. Durante os dez anos seguintes, a Música & Som fez muito por diferentes gerações de melómanos, publicando milhares de artigos, crónicas, reportagens, entrevistas, letras de canções, posters, críticas de discos e tudo o que interessasse a um «magazine musical». Muito rock e pop, algum jazz, alguma clássica. Os tops foram oscilando, tal como o preço do papel, e o tempo passou com o seu cortejo de preferências. As capas de Joan Baez deram lugar a Kim Wilde; os Van der Graaf Generator cederam passagem aos Bauhaus; os Tantra abriram caminho para os Heróis do Mar. Mas quando uma leitora de Lisboa escreveu a dizer que «gostaria que no ano de 83 publicassem um poster do Marco Paulo», a Música & Som respondeu, sempre tu cá, tu lá: «Olha, Fátima, temos de confessar que, de facto, não está nos nossos planos publicar qualquer poster do Marco Paulo.» Até 1987, ano em que fechou, os seguidores do rock’n’roll agradeceram a frontalidade.

(Texto publicado na edição de 6 de Março da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)

sábado, 5 de março de 2011

UM PINGUIM NO QUINTAL



UM CÃO CHAMADO PINGUIM


António Mota, que comemorou recentemente 30 anos de carreira literária, sabe como poetizar o registo evocativo sem cair numa nostalgia vã e pomposa. O tempo das braseiras de cobre, da roupa costurada em casa, dos lanches de pão com marmelada, tudo isso faz parte do mundo de Carlitos (uma piscadela de olho ao protagonista da série Conta-me Como Foi?), que um dia encontra, abandonado numa caixa de sapatos, um cachorro sem patas dianteiras. Não é coisa que se resolva com uns pozinhos de magia, não senhor. Com a ajuda das ilustrações expressivas de Alberto Faria, Pinguim é o exemplo de como se pode narrar uma história simples e comovente (e, pelo meio, ainda fazer o reconto de Corre, Corre, Cabacinha), com a mesma naturalidade com que a vida nos acontece, todos os dias.

Pinguim
António Mota
Ilustrações de Alberto Faria
Gailivro

UMA MANTA DE QUINTAIS

Magnólias em Janeiro, ervilhas em Fevereiro, nêsperas em Maio e sardinhas em Junho. Ao longo de doze meses, oito quintais são observados como se mais nada existisse em redor, numa abordagem que tanto deve ao Almanaque Borda d’Água como aos documentários do National Geographic. Desde o Sr. Catarino, louco por árvores e plantas (homenagem a Fernando Catarino, ex-director do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa?), até às Meninas Lopes, loucas por apanhar sol, não há duas personagens iguais. Fazendo uso da projecção paralelística revelada em livros como O Mundo num Segundo ou As Duas Estradas, aqui desfilam situações quotidianas leves e bem-humoradas, sempre enquadradas sob diferentes ângulos pela ilustração. Em travelling panorâmico, vistas aéreas ou planos fechados sobre um personagem, Bernardo Carvalho proporciona ao leitor uma visão detalhada de oito mundos comunicantes, ampliando o texto de Isabel Minhós Martins. Muito bom.

O Livros dos Quintais
Isabel Minhós Martins
Ilustrações de Bernardo Carvalho
Planeta Tangerina

(Este mês, a edição da LER comemora os cem números e, por isso, não houve lugar para críticas de livros, o que incluiu as três páginas habituais das “Leituras Miúdas”. Estes são textos publicados nas edições 95 e 96, sobre dois dos três livros para crianças que este ano foram seleccionados para os Prémios SPA: Pinguim, de António Mota (texto) e Alberto Faria, e O Livro dos Quintais, de Isabel Minhós Martins (texto) e Bernardo Carvalho (ilustração). No mínimo, concorrência difícil - mas leal - para o vencedor, Afonso Cruz, “autor total” de A Contradição Humana, do qual já falámos aqui. A não perder, no blogue Letra Pequena, o trabalho de Rita Pimenta sobre as três obras. Mas que parêntesis tão longo.)

quarta-feira, 2 de março de 2011

GHOSTGIRL RENASCE DAS PÁGINAS


Chegou o segundo volume das aventuras de Charlotte Usher, personagem criada por Tonya Hurley que acerta em cheio no segmento do leitor adolescente com queda para o imaginário gótico. A recensão ao primeiro volume saiu na LER nº 88 e pode ser lida aqui.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

LER VEZES CEM


"José Saramago não é o maior escritor português da actualidade. Para mim, esse é, de longe, António Lobo Antunes. É um gigante. Teria algum pudor em me encontrar com ele para o conhecer, e, contudo, adoraria conhecê-lo. Ele é um grande e Portugal não lhe deu ainda o devido reconhecimento. Devia ter ganho o Nobel há já algum tempo. Mas não aconteceu. Por causa de Saramago. Deviam ter ganho ambos, em partilha. Mas não está completamente arredado dessa atribuição."

"Onde existir um iPad, a internet e as redes sociais não é possível o isolamento. As coisas estão a mudar rapidamente. A revolução da informação é também uma revolução política e ideológica. Já não é possível aniquilar grupos de homens, construir muros, barreiras de separação que funcionem realmente."

Declarações de George Steiner, um dos grandes pensadores do nosso tempo, que a LER publica em exclusivo na edição especial nº 100, à venda na próxima quinta-feira.

O OSCAR QUE NÃO FOI UM ACIDENTE



À partida, sou devota de qualquer filme que tenha acento very british e Colin Firth no elenco, mas o Oscar que me deu mais satisfação foi para o melhor longo documentário: Inside Job – A Verdade da Crise, uma reconstituição do megaprocesso de engenharia financeira, económica e política que, desde os anos 1980, perpetrou a desregulamentação e o colapso do sistema bancário tal como o conhecíamos, originando a famosa “crise”. Não, não foi uma crise acidental, como pensa a minha mãe. Sim, houve culpados, desde altas figuras de Estado e eméritos professores de Harvard e Columbia até aos patos-bravos de Wall Street; gente sem consciência nem vergonha na cara que ontem coleccionava jactos privados e hoje responde com a maior cara de pau às perguntas que lhes fazem, apalpando no bolso as carteiras recheadas de indemnizações chorudas. Money, money, money. Dirty money. Sabiam que experiências científicas demonstram que ganhar dinheiro e consumir cocaína activa a mesma parte do cérebro? Curiosa coincidência. Como escreveu um crítico do Boston Globe, o filme é “mais assustador do que qualquer coisa que Wes Craven e John Carpenter já tenham feito”. Para que serve? Por exemplo, para que o Zé-pagante comece a pensar duas vezes antes de aceitar um folheto de propaganda de qualquer coisa e assinar de cruz. Subscrevo o que diz Eduardo Pitta no Da Literatura: era bom que o Oscar trouxesse o filme de volta às salas de cinema. Que passasse na televisão a horas decentes. Que fosse dado nas escolas. Infelizmente, o programa vigente é o da idiotização geral. Dá muito jeito, pois claro. Segurem-se e vejam o trailer.

LULU E O BRONTOSSAURO


“Era uma vez uma menina chamada Lulu, e a Lulu era uma seca. Não era uma seca para comer. Não era uma seca para vestir. Era uma seca – uma grande seca – para tudo.

Lulu era filha única e os pais davam-lhe tudo o que ela queria. E agora, adivinhem. Lulu queria TUDO. Toneladas de guloseimas. Toneladas de brinquedos. Toneladas de horas de desenhos animados. E se o pai e a mãe lhe dissessem (e raramente diziam), «Desculpa, querida, mas agora já chega», Lulu guinchava até que as lâmpadas explodissem, atirava-se para o chão e esbracejava e dava pontapés. E logo o pai e a mãe concordavam: «Está bem, só por esta vez», e lá lhe davam o que ela queria.”

Começa assim o primeiro capítulo de Lulu e o Brontossauro, um livro delicioso – no estilo da escrita, na elaboração da história, no sentido de humor, nas ilustrações – que tive o prazer de traduzir; e, no caso das canções, de adaptar o melhor que me foi possível. Saiu o ano passado, pela Simon & Schuster, com a assinatura de dois autores norte-americanos de renome e diferentes gerações: Judith Viorst (texto) e Lane Smith (ilustrações). Lane é um nome masculino, embora não pareça, e talvez o reconheçam facilmente por causa do booktrailer que circulou por aí exaustivamente, It’s a Book (podem revê-lo aqui), cujo livro também será publicado em português. Quanto a Lulu e o Brontossauro, é um daqueles títulos para crianças que os adultos gostarão de ler, e julgo que se presta muitíssimo a ser contado em voz alta. Sairá em breve, com a chancela da Gailivro.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

CHRISTCHURCH, 2004


No lado direito deste blogue há uma etiqueta intitulada “Nova Zelândia”, porventura estranha no meio da nuvem de palavras que revelam as preferências de quem o escreve: “Livros”, “Ilustração”, “Bibliotecas”, “Promoção da leitura”, “Escritores”, “Jornalismo” e outras que tais. Está ali porque um blogue é também uma espécie de diário gráfico para os destituídos do talento de desenhar, e que ainda assim gostam de organizar os dias valendo-se de imagens registadas por outros, sem que grande mal advenha disso – a não ser, talvez, uma atitude permissiva em relação aos direitos de autor. Dito de forma mais simples, está ali porque é importante. Porque a Nova Zelândia incorpora o meu imaginário geográfico e o meu conceito de “lugar seguro”, como tentei explicar neste post.

Nos últimos dias, chegaram notícias do sismo que abalou Christchurch, a maior cidade da ilha sul da Nova Zelândia – que, talvez não seja inútil lembrar, são os nossos exactos antípodas. Simbolicamente, é uma ideia fortíssima. Do ponto de vista geológico, não sei – e creio que ninguém sabe – que implicações terá para Portugal e para a estabilidade das ingovernáveis placas tectónicas. Abalados e ingovernáveis andamos nós, de resto. A avaliar pela ausência de comentários no Público online – um barómetro das volúveis pulsações colectivas –, o sismo da Nova Zelândia não é notícia que importe muito. Não tem impacto directo nas nossas vidinhas. Não tem a dimensão de tragédia e do horror do sismo que destruiu o Haiti. A distância geográfica e o conforto civilizacional (“é um país decente, sem corrupção, a coisa há-se compor-se…”) geram uma relativa indiferença para com o número de mortos e desaparecidos – que ultrapassam as três centenas, neste momento. E, depois, há aquele consolo tão pouco humanitário – mas, ainda assim, tão humano na sua desculpabilização – que os media se encarregam de repetir ad nauseam: “Não há notícias de portugueses entre as vítimas.”

Enquanto jornalista, confesso ter sérias dúvidas quanto à pertinência da maior parte de notícias catastróficas que a agenda mediática nos impõe, todos os dias. Mas não quero parecer cínica. Se tenho evitado ver imagens do sismo que destruiu Christchurch, é apenas porque amo demasiado esta cidade, se é que se pode amar demasiado alguma coisa. No dia em que esta fotografia foi tirada, em Janeiro de 2004, eu fazia 35 anos e estava “estupidamente feliz”. Com este já vão dois lugares-comuns. Fico-me por aqui, que este post já vai longo e não me está a sair muito bem. Entre ser cínica ou sentimental, venha o diabo e escolha.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

PRÉMIOS BOLONHA 2011





Aí estão os prémios e menções para os melhores livros para crianças atribuídos no âmbito da próxima Feira do Livro Infantil de Bolonha, nas categorias Ficção, Não Ficção, Novos Horizontes e Primeira Obra. É só clicar para saber tudo. Gostamos especialmente da primeira capa, à volta das fábulas de Esopo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A ANITA VAI TER TUDO


O que é que a Anita tem? Tudo. Se não tem, mais cedo ou mais tarde, vai ter. Um baile de flores, uma bicicleta nova, uma volta no carrocel, uma aula de ballet, um bilhete para o circo, uns patins de esqui, uma viagem de avião. A Anita vai ter tudo, sem medo algum. É assim desde 1954, quando dois autores belgas, Marcel Marlier e Gilbert Delahaye, lhe determinaram um destino fulgurante junto de milhões de leitores. Chamaram-lhe Martine – e Martine chamou-se Martita em espanhol, Cristina em italiano, Debbie em inglês e Anita em português. Se fosse de carne e osso, hoje, seria uma mulher empreendedora e elegante, bon chic, bon genre, usaria os melhores cosméticos e recorreria à cirurgia estética para se manter como é: não menos do que perfeita. Talvez orientasse workshops de desenvolvimento pessoal, explicando os sete passos infalíveis para o sucesso. Talvez tivesse uma empresa de packs de experiências – negócio de que foi percursora, sem o saber –, desses que vendem passeios de balão ou limousine, noites em «hotéis de sonho» e aventuras radicais a dois. Tudo de acordo com a moral e os bons costumes, como lhe ensinaram em pequena, num mundo cor-de-rosa onde as personagens adultas são meros figurantes da felicidade. Não reprimem, não criticam, não impõem limites e, a bem dizer, não educam. Uma espécie de Terra do Nunca, mas com dinheiro e sem piratas. Há, nesta fantasia de liberdade, um belo-horrível que ensombra os suaves tons pastéis de Marcel Marlier. Pode não se ver, mas está lá.

(Texto publicado na edição de 20 de Fevereiro da Notícias Magazine, revista de domingo no DN e JN, na secção "Nostalgia".)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

COMO ESCOLHER LIVROS PARA CRIANÇAS

Quase no fim de 2010, surgiu no Parque das Nações a livraria Cabeçudos, de que já falámos aqui. Agora que o Inverno se desvanece e as coisas começam a mexer, vale a pena estar atento à agenda de actividades paralelas, tanto para crianças como para pais e educadores (e público em geral). Também estamos incluídos. No lado direito d’O Jardim Assombrado encontra-se a referência à oficina “Como Escolher Livros Para Crianças”, marcada para a manhã de 12 de Março, um sábado. A ideia, em duas palavras, é explicar como é que a fórmula CONHECIMENTO + VALORES pode ajudar a decidir quando se trata de escolher livros para crianças. Se quiser saber mais, clique aqui.

CONCURSO LITERÁRIO DE CONTO INFANTIL

Gaula, freguesia da ilha da Madeira, foi buscar o nome ao mais célebre romance de cavalaria da Península Ibérica, Amadis de Gaula. Quem quiser candidatar-se ao concurso literário de conto infantil Padre Alfredo Viera de Freitas deve apresentar uma recriação dessa lenda ou, em alternativa, da Lenda das Amoras. Podem concorrer todos os cidadãos de nacionalidade portuguesa, com ou sem livros editados, embora se dê preferência a estes últimos. O prazo de envio dos originais foi prolongado até 31 de Março e todos os pormenores do regulamento podem ser consultados aqui.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

PRÉMIOS SPA/RTP: A PLENITUDE DA CONTRADIÇÃO


A atribuição de um prémio a autores de literatura infanto-juvenil (LIJ) deve dar-nos motivos para congratulações, mas é bom que não percamos a capacidade de pensar, para poder fazer cada vez melhor. A Andreia Brites já colocou a questão n'O Bicho dos Livros, ao perguntar “se o autor de um álbum é tanto aquele que escreve como aquele que ilustra”. Estamos perante o problema da interpretação dos textos, no sentido lato de “texto”, que é imanente e estrutural à LIJ.

Ao premiar Afonso Cruz, simultaneamente autor do texto, da ilustração (e do conceito) de A Contradição Humana, a Sociedade Portuguesa de Autores/RTP acrescentou ainda mais confusão aos critérios estabelecidos o ano passado (sobre isto, escrevi aqui e aqui). Se, por um lado, houve muito mais coesão global nas três obras concorrentes, todas de qualidade indubitável (O Livro dos Quintais, Pinguim e A Contradição Humana); por outro, a distinção de Afonso Cruz enquanto autor do texto – porque é o texto que a SPA distingue, esquecendo totalmente os ilustradores – parece-me algo especiosa.

Se há aqui livro que não pode ser minimamente avaliado à revelia da sua componente plástica – e refiro-me à ilustração, ao grafismo, à tipografia e a todos os elementos peritextuais –, esse livro é A Contradição Humana. Se queriam um livro de autor, ele aí está, puríssimo e original. Mas voltamos a ter, por razões diferentes das do ano passado, condições de partida que não são equivalentes para as três obras. O Livro dos Quintais, com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo Carvalho, é um picture book (ou álbum). Pinguim, escrito por António Mota e ilustrado por Alberto Faria é, segundo a designação habitualmente adoptada, um livro “profusamente ilustrado”. Com um público-alvo impossível de balizar (outra marca da LIJ), A Contradição Humana é também um picture book; mas, mais do que em qualquer outro caso, apetece perguntar: quem é que a SPA está a premiar, o autor do texto ou da ilustração? A única forma de resolver isto é afinar ainda mais os critérios de selecção e atribuir um prémio (ou dividi-lo) a ambos, escritor e ilustrador, trazendo mais paridade e legitimação cultural a processos de autoria partilhados – porque é disso que falamos quando falamos de picture books.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

FALAR DE LIVROS NA BULHOSA DE CAMPO DE OURIQUE


Mais uma tertúlia dinamizada pela livreira Ana Rita Fernandes. Esta quarta-feira, às 18h00, na livraria Bulhosa de Campo de Ourique.

FACTOS E NÚMEROS

Julia Donaldson (O Grufalão) é a escritora mais requisitada nas bibliotecas do Reino Unido. Sete em cada dez autores – dos mais requisitados – escrevem livros para crianças. Via The Guardian.

NOVA EDITORA DE BRAGA: PALETA DE LETRAS


Porque é que os Animais Não Conduzem? é o primeiro livro “oficial” de uma nova editora implantada em Braga desde o início deste ano. “Oficial” porque já detém mais quatro títulos prévios, todos assinados pelo mesmo autor, que acumula as funções de escritor e ilustrador (além de gestor financeiro e editorial): Pedro Seromenho. Mas, segundo o press-release enviado pela agência de comunicação, “é também missão da nova editora apostar em jovens escritores portugueses e da região Minho, assim como do imaginário infanto-juvenil.” Para já, é o que se pode adiantar. Aguardamos que Porque é que os Animais Não Conduzem? estacione na nossa caixa de correio.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

DOBRADINHA EMILY GRAVETT



Um lobo que não morde (bem... não garanto) e um rato atormentado por uma série de fobias, incluindo hipopotomonstrosesquipedaliofobia, o medo das palavras grandes (sim, existe!), aparecem nos dois primeiros livros de Emily Gravett a chegar a Portugal, pela mão da Livros Horizonte. Diverti-me muitíssimo a traduzir o segundo, Grande Livro dos Medos do Pequeno Rato, pela criatividade exigida. Também precisei de usar uma lupa para ler as letras mais pequenas. Curiosos? Podem encontrá-lo na Livraria O Queijo, Centro Comercial Ratoeira, Loja 3, em A-dos-Ratos.

PORQUINHOS EM CASCAIS


Ao contrário do post anterior, a notícia diz respeito a este sábado, 19 de Fevereiro. Na livraria Bulhosa Cascais Villa, às 16h30, a escritora Luísa Ducla Soares conta a história dos Três Porquinhos, segundo a versão «não alinhada», agora publicada pela Civilização, que assinou em conjunto com a ilustradora Maria João Lopes. Eu gostava de ver as reacções dos miúdos, confesso.

PERDIDO E ACHADO NO CALHARIZ


Não é este sábado, é o próximo. Mas marquem já na agenda o dia 26 de Fevereiro, quando a Biblioteca Municipal Camões (Largo do Calhariz, junto ao Elevador da Bica, em Lisboa) acolhe o lançamento do último livro da colecção Orfeu Mini – Perdido e Achado, de Oliver Jeffers. Haverá um contador de histórias, uma oficina de ilustração e o visionamento da curta-metragem de animação feita a partir do livro – que é uma pequena maravilha, garantimos. A entrada é livre para miúdos e graúdos. Às 16h00.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

SUSANNE JANSSEN EM PORTUGUÊS


Já sabíamos da “boa nova”, mas estávamos à espera de confirmação oficial. E esta chegou: a Bags of Books vai trazer para Portugal o extraordinário Hansel et Gretel, publicado pelas Éditions Être em 2007 e distinguido nesse mesmo ano com o Prémio Ilustrarte. Discípula de Wolf Erlbruch, a ilustradora Susanne Janssen interpretou o conto popular recolhido pelos Irmãos Grimm – dado à estampa em 1812 – com uma grande profundidade simbólica que nos reenvia para a tradição da arte clássica do Ocidente. A preciosidade chegará em Outubro deste ano. Aguardem pacientemente.

NOVIDADES NA BLOGOSFERA

Dois escritores e um director de arte estreiam-se ou reincidem na blogosfera. David Machado acabou de inaugurar um blogue com o seu nome e António Cabrita pôs o Raposas a Sul a correr em Janeiro, o mesmo mês em que o Jorge Silva lançou o Almanaque Silva, onde dá a conhecer relíquias de arquivo e histórias da ilustração portuguesa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TURBULÊNCIAS

Não, O Jardim Assombrado não está abandonado. Mas, dadas as actuais condições atmosféricas, está a ser difícil praticar a jardinagem. As minhas desculpas aos leitores, habituais e ocasionais. Só mais um pouco de paciência. Volto já.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O MUNDO DE CALLUM


Uma das características dos livros para crianças e adolescentes radica, como afirma Peter Hunt em Crítica, Teoria e Literatura Infantil (Cosac Naify), na “sua falta de «pureza» genérica”; ou seja, na confluência de vários registos comunicativos que não exclusivamente o literário. Para muitos, esta é condição suficiente para a sua menorização. Recém-editado entre nós, Conspiração 365, da australiana Gabrielle Lord, é um bom exemplo dessa permeabilidade de géneros: é um livro, mas está estruturado como uma série de televisão – cruzamento de O Fugitivo com 24 Horas –, inclui diálogos de telemóvel com mensagens abreviadas e um final em aberto que espelha toda a retórica dos videojogos: «Game over. Do you want to try again?». Cada livro corresponde a um mês (já saíram Janeiro e Fevereiro) e acompanha os dias, as horas e os minutos de Callum Ormond, um rapaz de 15 anos para quem a vida está contagem decrescente – as páginas decalcam esse processo, começando na 181 e terminando na 01. Perseguido por uma mafia sem rosto, detentor de segredos crípticos que não entende, acusado de crimes que não cometeu, Callum vive escondido em permanente sobressalto, fugindo da família e ajudado apenas por um amigo da sua idade. É um romance juvenil do tempo em que vivemos, sem dúvida. Embora inflaccionado pelas regras do modelo televisivo, aí está o sentimento de medo e desprotecção total de quem tem hoje 15 anos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

NOVIDADES DA PRESENÇA (EM PAPEL RECICLADO)




Primeiro, estranha-se. Depois, gosta-se muito. Os livros para crianças e adolescentes da Editorial Presença também já são impressos em papel reciclado. Eis os últimos títulos que chegaram à nossa caixa de correio.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

OS CHAMADOS CONTOS PARA CRIANÇAS


Ainda a propósito do colóquio internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, que decorreu recentemente em Lisboa. Este post já vem tarde, mas não posso deixar de registar a minha perplexidade pela ausência de qualquer comunicação exclusivamente consagrada “aos chamados contos para crianças” de Sophia, como se lhes referiram, várias vezes, alguns dos oradores convidados. No meio de um programa intenso, com 31 comunicações temáticas e uma mesa-redonda final, será que não houve interesse de ninguém em explorar uma das dimensões mais conhecidas e lidas da obra de Sophia? Minto: houve a comunicação de Perfecto Cuadrado, cujo título não deixava antever o seu conteúdo (“Cantar, contar, reinventar a Arcádia”), mas a densidade da análise merecia uma cadência de leitura mais pausada e, porventura, o enquadramento noutro painel. Pois é. Isto de levar as criancinhas a ler mais é muito bonito, mas quando se trata de passar à indispensável legitimação – académica, institucional, jornalística, etc. –, aí é que a porca torce o rabo. Quanto ao resto: gostei muito. Quero mais. E, como sou pelo establishment, folgo em ver que a Gulbenkian mantém a tradição de ter a cafetaria encerrada ao vulgo, abrindo apenas durante os intervalos das sessões, de modo a permitir a formação daquelas filas quilométricas propícias ao saudável gregarismo convivial. O café custou-me um euro.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

OS ANIMAIS NA GUERRA


Há uma cena intolerável em Expiação, o filme realizado a partir desse fabuloso romance de Ian McEwan, em que os cavalos são alinhados e mortos na praia com um tiro na cabeça, como estratégia de eliminação de despojos úteis para o inimigo. Os animais, selvagens ou domésticos, que não planeiam guerras nem as executam metodicamente, são uma das formas de vida que sofre massivamente nestes cenários. Vítimas invisíveis da estupidez humana, fazem parte dos “danos colaterais” que não contam para as estatísticas. Um livro recenseado agora pela The Spectator descreve a função dos animais durante a Primeira Guerra Mundial: Tommy’Ark: Soldiers and Their Animals in the Great War (Bloomsbury). Calcula-se que mais de um milhão de cavalos e mulas foram usados pelo Exército Britânico durante o conflito – desses, apenas 62 mil regressaram. Os restantes foram dizimados pelas bombas, pelo gás, pelos tiros; e pela doença, fome e exaustão. Cães e pombos serviram de mensageiros, enquanto ratos e canários eram detectores “naturais” de ataques de gás. Há, com certeza, histórias menos cruéis e igualmente pungentes, como as dos muitos cães, gatos, coelhos e pássaros – e até macacos e cabras – que foram adoptados como mascotes pelos soldados e tratados como tesouros no meio do inferno. Acredito, como já disse neste post, que os animais representam a nossa possibilidade mais imediata de ligação à Natureza; e que quanto mais inóspito o mundo se torna, mais consciência teremos disso.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

AS BIBLIOTECAS SÃO OS NOVOS DINOSSAUROS?



Gente irritada, gente tranquila. Gente confusa, triste, indignada, assertiva, revoltada, irónica, perspicaz, zangada, doce. Gente vulgar. Crianças, velhos, gente que está entre uma coisa e outra. Gente que se pronuncia, frente a uma câmara, contra a perspectiva de encerramento de bibliotecas públicas no Reino Unido, acompanhada por outros modos insidiosos de ir acabando com tudo aquilo que tomamos por seguro. «Não vos compete assumir a tarefa de destruir um serviço que tem sido construído ao longo de gerações», alguém diz, dirigindo-se à classe política. Em banda sonora dub reggae, Sly + Reggie lembram que «leitura não é o mesmo que juntar informação» (e recomenda-se esta notícia de hoje no Blogtailors para ter mais umas achegas sobre a questão). Sly + Reggie cantam: «O que é que acontece às nossas vidas quando um dos sítios mais acolhedores da rua está ameaçado de extinção? As bibliotecas não são dinossauros, mas estamos a entrar numa nova idade do gelo de conservadorismo político». Dá muito que pensar.

Via Cadeirão Voltaire.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ANA SALDANHA: NÃO ME INTERESSAM AS MODAS


Com cerca de duas dezenas de livros desde 1994, Ana Saldanha é uma das vozes mais seguras e originais da escrita para adolescentes. Ganhou o último Prémio Maria Rosa Colaço, num ano de reconhecimento unânime.

Ganhou o prémio com um livro intitulado O Galo que Nunca Mais Cantou e Outras Fábulas, que à primeira vista não remete para o universo juvenil de Para Maiores de Dezasseis ou Todo-o-Terreno. É uma linha de abordagem nova?
O Galo que Nunca Mais Cantou e Outras Fábulas continua um projecto de reconto que iniciei com Ninguém Dá Prendas ao Pai Natal e a série Era uma vez... outra vez, e assumiu uma faceta de recolha «etnográfica» em Lendas e Toadas do Nosso Povo Singelo. Acrescento um ponto a esses recontos. O galo do título está deprimido e meia pastilha de Prozac dissolvida na ração devolve-lhe a voz...

Sempre resistiu à vaga paranormal e mística que tomou conta da ficção juvenil, sobretudo nesta década. Ser realista está démodé?
Não me interessam as modas. De qualquer maneira, a notícia da morte da ficção juvenil realista tem sido muito exagerada.

Consegue tratar dos temas mais delicados – o racismo, a pedofilia, a gravidez na adolescência… – sem moralizar nem tomar partido, falando apenas pela voz dos personagens. Quando escreve não tem conflitos de valores?
A minha posição quanto aos temas que abordo é clara, acho eu, embora não aproveite a oportunidade para moralizar ou escrever manuais. Abordar esses temas em livros para gente nova é, por si só, uma tomada de posição.

Tem feito algumas experiências na escrita para crianças, mas pressente-se que é a escrever para adolescentes que encontra o seu elemento natural. Os adolescentes estão mais próximos do leitor adulto?
Os leitores jovens têm já todas as ferramentas que lhes permitem ler seja o que for, mas ainda não perderam a capacidade de se encantarem com os efeitos de um texto. Os livros para crianças mais pequenas têm o bónus adicional de me darem a oportunidade de colaborar com artistas na produção de um objecto visual interessante.

Que condicionalismos lhe coloca uma escrita e outra?
Os livros para crianças que escrevi até agora são mais curtos e também mais condensados. É mais fácil dizer pouco em muitas palavras do que muito em poucas. Mas tento aplicar esse princípio de economia também aos meus livros para adolescentes.

Alguns personagens que cria transitam de uns livros para outros. É um processo consciente, com propósitos que servem a técnica narrativa, ou os personagens resistem ao seu fim, assim que termina um livro?
Ambos. Custa-me abandonar este pequeno mundo que fui construindo aos poucos e os personagens que os povoam teimam em voltar a visitar-me de vez em quando.

Um dos traços mais pessoais da sua escrita reside nos começos dos livros, no incipit. O leitor é lançado repentinamente para a história, sem rede, de uma forma quase abrupta. É um processo estudado e calculado?
É estudado e calculado. Como leitora, não aprecio que me peguem na mão e me conduzam aos sítios do costume: «Era uma noite chuvosa de Janeiro. A jovem, bela e pensativa, fitava o retrato por cima da lareira onde a última acha ardera há muito. De repente...». Como leitora e como escritora, prefiro a queda livre: «– Não podias ter deitado uma acha na lareira? Custava-te muito? Não, nada. Ele queria mais uma acha para a fogueira? Ia tê-la, não perdia pela demora.»

Qual é o seu método de trabalho? Pesquisa para depois escrever? Trabalha em vários projectos ao mesmo tempo?
O meu método de trabalho é pouco metódico. Sou adepta involuntária do caos arrumado em gavetas. Às vezes, quando as abro, encontro o que procurava sem saber. Só uma vez fiz um plano pormenorizado de um livro que tencionava escrever e recolhi toda a informação de que julgava precisar. Nunca cheguei a escrevê-lo. Vários projectos ao mesmo tempo? Sim, alguns a levedar, outros a entrarem no forno, um pronto a levar a cobertura de chocolate. Gosto muito de fazer bolos – e de os comer.

Além do White Ravens, esteve em destaque nos últimos Encontros Luso-Galaico-Franceses e ganhou o Prémio Maria Rosa Colaço. Foi um ano de consagração, 2010. Pode desvendar um pouco do que vai fazer agora?
Não sei se foi um ano de consagração, mas foi um ano bom. Vou continuar a deitar achas para a tal fogueira, que às vezes quase se apaga.

(Entrevista a Ana Saldanha publicada na LER nº 99. A penúltima pergunta saltou por razões de espaço.)